
Pieter Bruegel, the Elder
meu criado-mudo repleto de livros / posto sobre quatro pés ladeia a cama / plataforma sólida onde se acumulam / pilhas poeirentas em precário equilíbrio / noite adentro quando, eu já meio ébrio, / me abandono, ali, entre o sono e a vigília / páginas se embaralham à revelia / as que leio hoje e as que eu lia.
Este artigo, cujo título – por nenhum motivo discernível – fora traduzido como (“Infant Analysis”) “Análise do Bebê”, tem uma natureza bastante complexa. Isso talvez se deva em parte ao fato de ser baseado em três artigos não-publicados, “O desenvolvimento e a inibição das habilidades” (“The Development and Inhibition of Abilities”), “A ansiedade infantil e sua importância para o desenvolvimento da personalidade” (“Infantile Anxiety and its Significance for the Development of the personality”) e “Sobre a inibição e o desenvolvimento da habilidade de se orientar” (“On the Inhibition and the Development of the Ability to Orient Oneself”). Além disso, Melanie Klein lida com vários conceitos básicos – ansiedade, inibição, sintomas, formação de símbolos e sublimação. Ela própria acreditava que o artigo fazia uma contribuição para a teoria da sublimação.
No entanto, já nesse artigo Melanie Klein afirma aquilo que se tornaria um de seus princípios fundamentais: é a solução da ansiedade que leva ao progresso tanto na análise quanto no desenvolvimento mental. Numa tentativa de explicar a ansiedade presente no pavor nocturnus da criança pequena, ela é levada a estabelecer o início do complexo de Édipo entre as idades de dois e três anos – a primeira de uma série de datas que vão recuando cada vez mais. Contudo, três anos mais tarde, em “Princípios psicológicos da análise de crianças pequenas”, ela dá uma explicação bem diferente para o pavor nocturnus, o que marca o início de suas investigações a respeito da ligação entre a ansiedade e a agressividade.
Suas opiniões acerca do simbolismo, que vão culminar em “A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego” (1930), também se encontram num rápido desenvolvimento nesse ponto. No mesmo ano, em “O papel da escola no desenvolvimento libidinal da criança”, Melanie Klein afirmara que todas as atividades possuem significação simbólica. Agora, afirma que essa significação simbólica é o motivo pelo qual certas atividades dão prazer ou são inibidas. Além disso, propõe que antes da formação de símbolos há um estágio de identificação em que, como Ferenczi descreveu, o bebê identifica objetos com seus próprios órgãos e atividades. Esse tipo de identificação mais tarde passou a fazer parte do conceito de identificação projetiva em “Notas sobre alguns mecanismos esquizóides” (“Notes on Some Schizoid Mechanisms”) (1946).
KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945
Proporcionar alimentação suficiente às crianças era o problema geral para os pais entre os "estratos inferiores" até o século XIX. Mantê-las aquecidas era mais um desafio. Durante mais ou menos o primeiro mês de suas vidas, na Europa e nos Estados Unidos, as crianças eram amarradas firmemente com faixas de tecido sobre suas roupas, sendo que as técnicas utilizadas variavam segundo a região. Na Itália, o costume era amarrá-las de forma justa, como uma múmia egípcia, ao passo que, na França, Alemanha e Inglaterra, as mães simplesmente passavam a faixa duas ou três vezes em torno do corpo. Em toda parte, os bebês eram amarrados com os braços presos próximos à lateral do corpo e as pernas estendidas juntas, com suporte adicional para manter a cabeça firme. Em uma etapa posterior, braços e cabeça eram deixados livres até que, após alguns meses, estivessem prontos para um casaquinho usado por meninos e meninas. A opinião médica foi aos poucos se tornando hostil à prática de enfaixar as crianças durante os séculos XVII e XVIII. Os críticos afirmavam que a prática restringia a liberdade dos membros jovens, arriscava impedir a respiração da criança e a deixava enrolada em suas próprias urina e fezes por longos períodos. Considerava também que pendurar uma criança enfaixada em um gancho por longos períodos era o máximo de negligência. Rosseau, por exemplo, foi severo: em Emílio (1762), ele afirmou que: "os lugares em que se enfaixam as crianças estão cheios de corcundas, de mancos, de cambaios, de raquíticos, de pessoas deformadas de todo o tipo". Mesmo assim os observadores tendiam a reconhecer que, além de manter as crianças aquecidas, essas faixas tornavam carregá-las mais fácil, e ajudavam a protegê-las de mordidas de animais domésticos, especialmente os porcos. Os camponeses acreditavam que essas tiras, junto com berços estreitos, ajudavam a criança a desenvolver ossos fortes e uma postura ereta. Eles também consideravam que isso ajudava a distinguir a criança de um animal, impedindo-a de andar de quatro patas. Enfaixar as crianças era uma tarefa complexa e demorada, especialmente se realizada três, quatro ou mesmo sete vezes por dia, depois de amamentá-la, mas também, talvez, satisfatória. A parteira Jane Sharp aconselhava, em 1671, que se deveria tratar as crianças "de forma muito suave, lavar o corpo com vinho morno e, quando estivesse seca, enrolá-la com panos macios e deitá-la no berço". O costume desapareceu gradualmente no século XVIII, sob a crítica da opinião educada, embora tenha se arrastado até o século XX em regiões remotas.
Pierre-Jakez Hélias registrou que, na Bretanha, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, passava várias horas sozinho todos os dias, envolto em faixas apertadas em seu berço com grades, enquanto seus pais e seu avô estavam fora trabalhando.
Os pais não estavam particularmente preocupados com a limpeza durante grande parte do passado, assim como os médicos, até o século XVIII. Autores medievais recomendavam banhos freqüentes, mas é de se duvidar que seu conselho fosse seguido muito além de um círculo restrito de moradores abastados das cidades. A sujeira, na verdade, cumpria papel protetor simbólico na crença popular. As mães acreditavam que era melhor secar as fraldas do que lavá-las, em função dos poderes curativos da urina. Pensavam também que uma camada de sujeira sobre a cabeça preservava a moleira. No Haut-Vivarais, para tomar apenas um exemplo entre muitos, as pessoas acreditavam que lavar a cabeça de uma criança a tornaria simplória; e que cortar as unhas e o cabelo antes de um ano e um dia de idade faria com que ela se tornasse, respectivamente, muda e ladra. Elas também não tinham pressa alguma de começara a ensinar o uso do banheiro. Mais uma vez, não importa o quanto tais crenças e práticas parecessem bizarras a partir de uma perspectiva atual, elas demonstram um esforço permanente para aprimorar a saúde e a felicidade da criança, antes de indicar negligência dos pais.
HEYWOOD, Colin. Uma História da Infância.3
O PAPEL DA ESCOLA NO DESENVOLVIMENTO LIBIDINAL DA CRIANÇA
(1923)
Nota explicativa da Comissão Editorial Inglesa
"O desenvolvimento de uma criança” (1921), esse artigo e “A análise de crianças pequenas” (1923) formam uma só unidade. No primeiro, a criança está em casa, o segundo vai examiná-la na escola e o terceiro relaciona a infância à vida adulta. Todos, mas principalmente o artigo em questão, destacam a continuidade psíquica da vida humana, sempre uma idéia dominante na obra de Melanie Klein.
A maneira como aborda aqui a questão da inibição intelectual, tópico que já tinha discutido na Parte I de “O desenvolvimento de uma criança” , é de especial interesse. O conceito fundamental aqui é o de libido, e as noções de progresso e de inibição através da ansiedade de castração ocupam seu lugar em torno dele; a agressividade por si só não aparece e a significação simbólica tem sempre um caráter sexual. Ao mesmo tempo, o material de caso mostra que Melanie Klein já estava analisando em seu trabalho clínico o efeito inibidor das fantasias agressivas. Quando escreveu “Uma contribuição à teoria da inibição intelectual”, em 1931, o sadismo já tinha ocupado o lugar da libido no centro de uma nova explicação para a inibição intelectual.
Esse artigo também mostra como a nova técnica de brincar fornecia uma grande quantidade de material que ilustrava as fantasias da criança e a significação simbólica de cada aspecto da vida escolar. De fato, isso leva Melanie Klein à conclusão geral de que todas as atividades têm uma significação simbólica.
KLEIN, Melanie. AMOR, CULPA E REPARAÇÃO e outros trabalhos (1921 - 1945)
Melanie Klein ignorou este artigo depois de sua publicação; não o traduziu para o inglês a fim de inclui-lo no livro que reunia seus ensaios. Seus motivos para isso são desconhecidos, mas esse artigo não apresenta nenhuma das características próprias de seu pensamento, nem o denso raciocínio típico de suas outras obras desse período.
KLEIN, Melanie. AMOR, CULPA E REPARAÇÃO e outros trabalhos (1921 - 1945)
A criação do mundo não terminou até que P'an Ku morreu. Somente sua morte pôde aperfeiçoar o Universo: de seu crânio surgiu a abóbada do firmamento, e de sua pele a terra que cobre os campos; de seus ossos vieram as pedras, de seu sangue, os rios e os oceanos; de seu cabelo veio toda a vegetação. Sua respiração se transformou em vento, sua voz, em trovão; seu olho direito se transformou na Lua, seu olho esquerdo, no Sol. De sua saliva e suor veio a chuva. E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu a humanidade.
mito chinês (século III)
GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo. Companhia de Bolso.
O poderoso vento vagava pelo mundo mexendo com todos à sua passagem.
Balançava as árvores, soprava os cabelos, fazia a água do lago se mover em delicadas ondinhas. Sussurrava, refrescava, dava frio... brincava de estátua!
Mas do que ele mais gostava era de ir subindo, subindo alto, cada vez mais rápido, até o cume das montanhas.
E lá em cima, onde não se ouve nada, descansava soprando o capim crescido que gosta de ondular pra lá e pra cá.
Um dia, quando já vinha voltando de um dos seus passeios na montanha, encontrou presa, numa pocinha de lama, uma pluma.
A pobrezinha se remexia, fazia força mas, tudo em vão, permanecia grudada na armadilha.
Por ajudá-la a se soltar o vento e a pluma tornaram-se amigos.
No começo eles até que se sentiram tímidos. E conversaram por monossílabos.
Mas, quando a pluma viu que já estava enxuta daquela lama preta aceitou o convite do vento e foram os dois passear.
O vento carregou a pluma, porque ela era tão leve!
Mostrou-lhe os pastos e as plantações, elevou-a mais alto que as copas das árvores, soprou pra ela ouvir uma música nos bambus e juntos, de molecagem, fizeram cócegas no nariz das crianças.
Ela foi se deixando levar, brincando, dançando no céu e foi aí que, pela primeira vez, o vento, sentindo uma vontade que ainda não havia experimentado, resolveu carregá-la até o topo da montanha.
Lá em cima, a pluma agradecida pela surpresa, convidou o vento pra dançar.
E os dois deram-se os braços e bailaram, bailaram a tarde inteira. Inventaram o passo da pirueta, deram cambalhotas, vôos rasantes, deslizaram na grama, acenaram pras aves poderosas, as únicas que alcançam o alto da montanha. E ficaram felizes.
Fim da tarde, quando os dois sentaram pra descansar, começaram a se formar lá longe no horizonte umas nuvens negras, carregadas de chuva. Vinham vindo bem naquela direção.
O vento que planejava levar a pluma para uma gloriosa noite na aldeia levantou-se imediatamente e soprou: Não!
Acontece que as nuvens já vinham em bando, inchadas de água pra despejar, soltando faíscas de tanta pressa e empurradas por um vento contrário rabugento, rugidor.
O vento não esperou nem mais um segundo. Partiu em direção das nuvens de chuva e soprou, soprou muito forte decidido a expulsá-las daquelas paragens.
O que se viu então foi uma batalha feroz.
Remexeram-se as árvores, a água do lago, as porteiras dos sítios.
O vento não queria abrir mão de seu passeio com a pluma.
As nuvens faziam questão de chover.
De tanta raiva que ficou o vento foi se enremoinhando, sentindo uma vertigem, girando, girando e virou um furacão.
À sua passagem tudo ia se arrebentando. Quebrou troncos, virou as mesas, machucou os cavalos, arrancou o telhado das casas. Uma destruição!
Quando tudo se acalmou, depois de muito tempo, foi como se as coisas todas chorassem.
O vento, ainda ofegante, lembrou-se da pluma mas ao procurar, pobre dele, nunca mais a encontrou.
Correu pelos lugares onde haviam passeado, assoviou, tocou de novo a mesma música nos bambus, olhou por baixo dos troncos derrubados, nas poças de lama, debaixo das pedras, nada. O vento e a pluma nunca mais voltaram a se ver.
História de Walter Dias recontada por Irajá Menezes