[...] Charles surpreendeu-se rindo; mas a lembrança de sua mulher, voltando de repente, tornou-o sombrio. Trouxeram café, ele não pensou mais no caso.
Pensou ainda menos à medida que se habituava a viver só. O novo prazer da independência tornou-lhe em breve a solidão mais suportável. Podia trocar agora as refeições, voltar ou sair sem dar explicações e, quando estava bem cansado, estender-se com todo o seu tamanho atravessado na cama. Portanto, mimou-se, acalentou-se e aceitou as demonstrações de consolo que lhe davam. De outro lado, a morte de sua mulher fora-lhe muito útil em sua profissão, pois repetira-se durante um mês: "Este pobre jovem! Que infelicidade!" Seu nome tornara-se conhecido, sua clientela aumentara; e, além disso, ia aos Bertaux quando queria. Sentia uma esperança sem alvo, uma felicidade vaga; achava o próprio rosto mais agradável ao escovar as suíças diante do espelho.
Gustave Flaubert - Madame Bovary
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