Tuesday, June 15, 2010

Era um ambiente tão sórdido, tão imundo, que não parecia impossível se safar argumentando que se tratava de uma "reprodução tridimensional" inspirada na Haight Street para mostrar aos policiais do resto do país o teor de sujeira e degeneração que os drogados eram capazes de alcançar se não fossem detidos.

Mas que tipo de viciado precisaria de tantos cocos partidos ao meio? E as cascas de melão? Será que as drogas justificariam a presença de tantas batatas fritas intocadas? De poças de ketchup endurecido na cômoda?

Talvez. Mas como explicar toda a bebida? E as fotos pornográficas grosseiras, arrancadas de revistas de quinta categoria como Vadias da Suécia  e  Orgias no oásis, pregadas no espelho quebrado e com jatos de mostarda que tinham virado crostas amarelas... e todos os sinais de violência, as estranhas luzinhas vermelhas e azuis, os cacos de vidro fincados no gesso da parede...

Não; aquilo não eram as marcas de um viciado normal, temente a Deus. Era selvagem demais, agressivo demais. Aquele quarto continha evidências de consumo excessivo de todos os tipos de drogas conhecidas pelo homem civilizado desde 1544. Só poderia ser explicado como uma espécie de montagem, uma forma exagerada de exposição médica, armada com muito cuidado para demonstrar o que poderia acontecer se 22 drogados barras-pesadas - cada um com um vício diferente - fossem trancados juntos no mesmo quarto por cinco dias e cinco noites, sem descanso.

De fato. Mas é claro que isso nunca aconteceria na Vida Real, cavalheiros. Armamos todo esse negócio somente  para fins de demonstração...

De repente o telefone começou a tocar, me arrancando do estupor das minhas fantasias. Encarei o aparelho. Trrrriiiiimmmmmmm... Jesus, e agora? Será? Sou quase capaz de escutar a voz aguda do Gerente, o sr. Heem, informando que a polícia estava a caminho do meu quarto e pedindo que eu fizesse a gentileza de não atirar na porta quando eles começassem a arrombá-la.

Trriiiimmmm... Não, eles não telefonariam antes. Assim que decidissem me pegar, imagino que armariam uma emboscada no elevador: primeiro gás de pimenta, depois espancamento. Aconteceria sem aviso.

Atendi o telefone. Era meu amigo Bruce Innes, ligando do Circus-Circus. Havia encontrado o sujeito que queria vender o macaco pelo qual eu tinha me interessado. Custava 750 dólares.

"Mas com que tipo de verme ganancioso estamos lidando?", perguntei. "Ontem à noite era quatrocentos".

Hunter S. Thompson - 12. Voltando ao Circus-Circus... Atrás do macaco... Que se dane o Sonho Americano - Medo e Delírio em Las Vegas
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