O ovo de Gaddafi
15/04/2010
Fábio Zanini
Cartum (Sudão) – É difícil não perceber o Burj el-Fateh no horizonte de Cartum. Quem gosta acha um símbolo da modernidade de um novo Sudão, próspero e, por que não dizer, livre e democrático. Empresas o colocam em seus anúncios, e o governo publica sua silhueta em folhetos turísticos.
Quem não gosta é cruel: “ovo” e “dedão inchado” são duas das expressões que eu ouvi por aqui.
Na verdade, quando se fala em “ovo”, adiciona-se sempre o qualificativo “do Gaddafi”. O Burj é um empreendimento líbio, um país socialista que aparentemente sabe ganhar dinheiro de forma bem capitalista.
É o principal hotel de Cartum, com diárias a partir de US$ 450 e um restaurante com uma espetacular vista do rio Nilo, com bufê a US$ 50. A idéia era que se parecesse não com um ovo ou um dedão, mas com uma vela de barco. Tire suas próprias conclusões.
Todo envidraçado e ultramoderno, o Burj atende aos bacanas do pedaço e a dignitários estrangeiros. O pessoal da União Europeia que veio observar as eleições ficou hospedado lá, assim como a turma do Carter Centre, do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter.
“Nossa clientela é internacional”, afirma Sabir Hassanein, gerente de reservas do hotel. Além de organismos multilaterais, vem muita gente interessada em ganhar dinheiro com o petróleo. Chineses e árabes são presença fácil nos corredores.
Os 230 quartos costumam ficar lotados durante eventos do setor petrolífero, a maioria realizados no centro de convenções do próprio hotel. Só há alguma facilidade de achar um quarto durante os piores meses do duríssimo verão sudanês (junho e julho), quando as temperaturas beiram os 50 graus.
O investimento no prédio de 21 andares é da Lybia Arab Foreign Investment, um braço do governo líbio que investe alguns dos petrodólares do regime de Gaddafi. No Burj foram despejados US$ 80 milhões.
Não é a única novidade na capital sudanesa. Duas outras torres de design heterodoxo estão subindo ali perto, uma para a Greater Nile Petroleum Operating Company (à esquerda na foto abaixo) e outra para a PetroDar. Ambas operando, claro, no setor petrolífero, e controladas (além de construídas) por chineses.
Outras cinco torres serão iniciadas dentro de um ano, fazendo dessa parte de Cartum uma pequena Dubai. Se você é arquiteto e tem projetos malucos para prédios, tente a sorte por aqui.
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