Tuesday, July 20, 2010

Per - sonare

[...] Deixem-me lembrar-lhes a origem etimológica da palavra "pessoa", que foi adotada quase sem alterações do latim persona pelas línguas européias, com a mesma unanimidade com que, por exemplo, a palavra "política" foi derivada do grego polis. Não é certamente desprovido de significação que uma palavra tão importante em nossos vocabulários contemporâneos, que usamos em toda a Europa para discutir uma grande variedade de questões legais, políticas e filosóficas, derive de uma fonte idêntica na Antiguidade. Esse vocabulário antigo fornece algo como um acorde fundamental que, em muitas modulações e variações, soa através da história intelectual da humanidade ocidental.

Persona, em todo caso, referia-se em latim à máscara do ator, aquela que cobria sua face "pessoal" individual, indicando para o espectador o papel e a parte do ator na peça. Mas nessa máscara, que era criada e determinada para a peça, havia uma abertura larga no lugar da boca, pela qual soava a voz individual e sem disfarce do ator. É desse soar através que a palavra persona derivou originalmente: per-sonare, "soar através", é o verbo do qual persona, a máscara, é o substantivo. E os próprios romanos foram os primeiros a usar o substantivo num sentido metafórico; na lei romana, persona era alguém que possuía direitos civis, em contraste agudo com a palavra homo, que denotava alguém que não passava de um membro da espécie humana, diferente, sem dúvida, de um animal, mas sem nenhuma qualificação ou distinção específica, de modo que homo, como o grego anthropos, era frequentemente usado de modo desdenhoso para designar pessoas não protegidas pela lei.

Considerei útil para as minhas considerações essa compreensão latina de pessoa, porque ela convida a outros usos metafóricos, as metáforas sendo o pão de cada dia de todo pensamento conceitual. A máscara romana corresponde com grande precisão ao nosso modo de aparecer em sociedade, onde não somos cidadãos, isto é, onde não estamos igualados pelo espaço público estabelecido e reservado para o discurso e atos políticos, mas em que somos aceitos como indivíduos por nossos próprios méritos, e, no entanto, de modo algum como seres humanos enquanto tais. No palco que é o mundo, sempre aparecemos e somos reconhecidos segundo os papéis que nossas profissões nos designam, como médicos ou advogados, como autores ou editores, como professores ou estudantes, e assim por diante. É por meio desse papel, como que soando através dele, que alguma outra coisa se manifesta, algo inteiramente idiossincrático e indefinível e, mesmo assim, inequivocamente identificável, de modo que não ficamos confusos por uma repentina mudança de papéis, quando, por exemplo, um estudante atinge o seu objetivo que era tornar-se professor, ou quando a anfitriã, a quem conhecemos socialmente como médica, serve os drinques em vez de cuidar de seus pacientes. Em outras palavras, a vantagem de adotar a noção de persona para as minhas considerações reside no fato de que as máscaras ou papéis que o mundo nos atribui, e que devemos aceitar e até adquirir se desejamos fazer parte do teatro do mundo, são permutáveis; não são inalienáveis, no sentido em que falamos de "direitos inalienáveis", e não são um acessório permanente anexado a nosso eu interior, no sentido em que a voz da consciência, como acredita a maioria das pessoas, é algo que a alma humana carrega constantemente consigo.

É nesse sentido que consigo entrar num acordo com o fato de aparecer aqui como uma "figura pública", para fins de um evento público. Significa que, findos os eventos para os quais a máscara foi criada, e eu tiver acabado de usar e abusar do meu direito individual de soar através da máscara, tudo voltará ao seu lugar mais uma vez. Então eu, extremamente honrada e profundamente agradecida por esse momento, estarei livre, não apenas para trocar os papéis e as máscaras que a grande peça do mundo venha a me oferecer, mas livre até para me mover por essa peça no mundo na minha hecceidade (thisness) nua, identificável, espero, mas não definível e não seduzida pela grande tentação do reconhecimento que, não importa de que forma, só pode nos reconhecer como isto e aquilo, isto é, como algo que fundamentalmente não somos.

Hannah Arendt - Trecho final de conferência apresentada em Copenhague em abril de 1975, durante a entrega do Prêmio Sonning, atribuído pelo governo da Dinamarca, por sua contribuição à civilização européia. Esse discurso, completo, figura como Prólogo à Responsabilidade e Julgamento, edição de Jerome Kohn.

1 comment:

KS Nei said...

Sempre que ouvia "M E V Severina" com Chico, e agora confirmo minha tensao e todas imagens que rolam na cachola na execucao, pensava na morte como sendo vida e nas atribuicoes metaforicas ao redor dela, do latifundio, do palmo medida, como sendo atribuicoes de uma PERSONAlidade.
O SONA de persona me serendipetou.
Qual eh a parte que me cabe, individuo e mente, nesse latifundio de individuos e mentes?
A cancao da morte de Severina, na verdade, eh a imortalizacao dela. Entao ta. Qual eh a nossa?