Friday, July 02, 2010

A última eleição antes do fim do Sudão
Fábio Zanini
09/04/2010

Cartum (Sudão) – Chegar ao Sudão tem um gosto doce para mim, porque foi o único país em que tentei entrar (como turista) há dois anos, durante a viagem de ponta a ponta do continente que deu origem a esse blog. Na época as autoridades sudanesas na embaixada no Egito me enrolaram, como eu já havia previsto. O Sudão é casca grossa na hora de aceitar estrangeiros.

Agora não só entrei como entrei deixando claro que sou jornalista, o que em tese seria cem vezes mais difícil. Isso se chama relações públicas.

O governo do Sudão está querendo se mostrar democrático. Domingo acontecem eleições históricas por aqui. Pela primeira vez em 24 anos, vários partidos estão concorrendo a diversos cargos: presidente, membros do Parlamento nacional, governos estaduais, assembléias regionais e o importantíssimo cargo de presidente da região sul do país.

Saber quem governará o Sudão do sul é especialmente relevante porque provavelmente esses serão os primeiros líderes de um novo país, a ser decretado em janeiro. O acordo de paz assinado há cinco anos que pôs fim a uma longuíssima guerra civil entre o norte majoritariamente árabe e o sul majoritariamente negro previu, além da eleição de domingo agora, um referendo sobre a secessão do sul.

É batata que a separação será aprovada, caso a consulta realmente ocorra (no Sudão, nunca se pode descartar uma nova onda de violência passando por cima de um processo democrático).

Mas voltando à eleição de amanhã. Os principais partidos da oposição decidiram boicotar o voto na última hora, misturando algumas preocupações legítimas quanto à imparcialidade do pleito com uma grande dose de oportunismo. Muitos se retiraram porque sabiam que iam perder. O SPLM, partido que domina no sul do Sudão, saiu só da disputa pela presidência do país, mas se mantém nos locais em que é competitivo.

Não importa. O presidente sudanês, Omar al-Bashir, decidiu seguir em frente com o voto. Para ele, está em jogo também receber um muito necessário voto de confiança da população. Bashir, no poder desde 1989, é aquele que foi indicado por crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, em razão do ataque contra populações na região de Darfur (oeste), que já teriam deixado 300 mil civis mortos desde 2003.

Mas aqui, al-Bashir está tentando se passar por pacificador. Ostenta como trunfo acordos de paz com algumas das facções em luta, apesar de a situação continuar tensa na região. Esperto, espalhou alguns cartazes em inglês (com erros) pelas ruas da Cartum, embora quem entenda essa língua sejam apenas os jornalistas e observadores internacionais aqui presentes.



“Al-Bashir. Símbolo de unidade e paz”, diz a peça de propaganda. Na foto, é ele fantasiado de homem do povo, usando lança e vestimenta tradicional por cima do terno.

Quem reparar direito verá uma pele de leopardo, indumentária que ficou marcada como a preferida de Mobutu Sese Seko, do antigo Zaire (hoje República Democrática do Congo), talvez o maior ditador da história da África.

Apenas uma coincidência.


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