Friday, January 23, 2026

Sábado

Um moço de quase dois metros, magro e forte, de dreads bem abaixo do ombro chamou minha atenção quando descia o barranco para oferendar mais próximo à água.

Cheguei à beira do dique para olhar mais de perto aquela figura de calça jeans e camiseta branca, destoante dos atletas de fim de semana e das devotas de Kissimbi, mais comuns à beira do lago.

Quando vi as flores amarelas nas mãos dele, abrigadas junto ao peito, falei alto: Ela vai gostar.

O homem virou-se de lado para me ver. Não sei se cantava ou falava, mas mexia os lábios e não se desconcentrou. Balançou a cabeça afirmativo e ergueu a flor em minha direção, como uma taça. Depois tocou a testa, fechou os olhos e jogou a flor na água, num movimento de desapego. Continuei meu passo compassado e quando estava na metade do dique surgiu o moço na direção contrária à minha, agora de óculos escuros, num passo tranquilo, mas sem arrastar o corpo.

Sorri e diminuí a velocidade. Ele também desacelerou, mas não sorriu. Quando paramos frente a frente ele sentenciou: é meu filho! Ele nasceu com saúde. Que bom, me alegro, retruquei. E como está a mãe?

O moço apertou os olhos com o polegar e o indicador por baixo dos óculos, escorregou-os pelo nariz e parou na boca trêmula. Ela levou.

Um Exu em Nova York. © 2018 Cidinha Silva. Pallas Editora e Distribuidora Ltda.

Oração da terça!

Terça-feira é dia d'Ogum, camarada. Conheço bem essas coisas. Para cima de mim não cola essa patacoada de terça da grande batalha espiritual contra o mal na sua igreja. Até entendo, pois é do seu conhecimento que na rua Ogum trabalha, e antes do culto você já entregou o que é dele, assim garante o funcionamento da coisa e posa de milagreiro.

Ogum é sujeito bom. Arrisco a pensar que se diverte com sua conversa mole de quebrar as sete forças do mal, com esse seu jeito estúpido e nada criativo de tentar manipular os símbolos dele. Estou falando do numeral sete, porque a maldade é por conta da sua cabeça. Porém, tome tento, o cara é bom, mas quando embravece, saia da frente, porque não sobra cabeça sobre pescoço. A sua já está na mira da espada, abra o olho!

Diferentemente da mensagem do panfleto entregue nas estações de trem, às 18h (hora de Exu, bem sei e você também sabe), para as pessoas que chegam em casa cansadas e desesperançadas, saiba que o povo oferenda comida, bebida, moedas, luz e flores nas encruzas porque aqueles são lugares de confluência energética.

Recebida a entrega orientada (é tudo troca), o povo da rua cuida de espalhar no mundo as coisas do mundo e de quem está no mundo em interação com as forças do universo: o amor/o ódio, a admiração/a inveja, a saúde/a doença, o bem-querer/o mal-querer, a luz/a sombra. Tudo varia na intenção de quem manipula a força.

A estrada aberta pode dar num beco sem saída, numa bifurcação ou em direções múltiplas, depende da mestria e dos destinos espirituais do caminheiro. Os sentidos que se encontram e também se desconectam são o princípio de tudo, a encruza, então, é lugar de principiar as coisas.

Com negócio de cemitério, eu não mexo, mas tenho certeza de que você tem muita experiência sobre o assunto. Que o digam os concorrentes na caçada ao rebanho que você deve enterrar por lá.

Os trabalhos em pedreiras, cachoeiras, rios e matas são mobilizadores das forças da natureza.

As pedras nos trazem a noção de resistência, silêncio, e a compreensão do quanto somos ínfimos diante da criação.

As raízes, as flores e os frutos da mata, tudo o que se transforma, apresentam a transitoriedade do que nasce e morre, os novos estados a cada estação.

Os rios e as cachoeiras nos ensinam, água que brota não cessa, cria e recria a vida, nutre segredos tal qual o rio, calmo a nossos olhos, mas polvilhado de redemoinhos e quedas.

O mar nos dá o sentido da travessia, da profundidade de sentimentos, da imensidão de horizontes, das forças maiores que fazem surgir, da instabilidade das ondas, a serenidade em nós.

Orixá é poesia. É amor. É lamparina acesa na noite dos tempos. É o zelo silencioso pela energia vital e pela harmonia da vida na Terra.

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Exuzilhar. © 2022, Cidinha da Silva. Pallas Editora e Distribuidora Ltda.

23 de janeiro de 2021

SHOW ME THE MONEY

Nosso Congresso, historicamente dominado pelo fisiologismo, tem muita coisa para vender, mas, de longe, o instrumento do impeachment é a mais valiosa delas.

Enquanto não aparecer a grana, não tem conversa.

O q no entanto parece estar em andamento é a montagem de uma percepção pública de repúdio ao presidemente da República. O stablishment em peso vem se dedicando a desossar o frango.

Pode ser apenas q estejam testando a temperatura da água. Ou pode ser q tenha chegado o momento de jogar o Bolsonaro fora.

Se ocorrer a segunda hipótese, o dinheiro, com toda certeza, aparecerá.

Todas as decisões serão articuladas nos gabinetes. O mais provável, no sentido de 'menor custo', é o general Mourão tomar posse, passando a contribuir com a construção de uma candidatura de Direita. Ele não tem nenhum cacife eleitoral, mas pode oferecer a máquina do governo para a campanha.

Todas essas elucubrações partem, até por força do hábito, de encadeamentos lógicos, diante dos fatos q vêm a público. Mas, com lógica não se pode contar faz já uns bons anos.

Há, mais do que a ausência de lógica, uma dimensão encoberta do 'processo' q acontece nos recônditos dos 'castelos'. Essa sim é q é decisiva.

A coisa toda tem um jeitão kafkiano, não resta dúvida.

A gente se sentir um inseto quando acorda de manhã depois de sonhos intranquilos, deve ser consequência disso daê...

Friday, January 16, 2026

Ouro

De vez em quando vinham nos chamar para os interrogatórios. Quando era Fossa quem interrogava, as coisas iam bastante bem: Fossa era um exemplar humano que eu nunca havia encontrado, um fascista de manual, estúpido e corajoso, que o ofício das armas (tinha combatido na África e na Espanha, e se gabava disso com a gente) havia cercado de sólida ignorância e obtusidade, mas não corrompido nem tornado desumano. Havia acreditado e obedecido durante a vida inteira, e estava candidamente convencido de que os culpados pela catástrofe eram apenas dois, o rei e Galeazzo Ciano, que justo naqueles dias tinha sido fuzilado em Verona; Badoglio não: ele também era um soldado, tinha jurado ao rei e devia ser fiel ao juramento. Se não fosse pelo rei e por Ciano, que haviam sabotado a guerra fascista desde o início, tudo teria corrido bem e a Itália teria vencido. Considerava me um avoado, estragado pelas más companhias; no âmago de sua alma classista, estava convencido de que um diplomado não podia realmente ser um "subversivo". Ele me interrogava por tédio, para me doutrinar e para posar de importante, sem nenhuma intenção inquisitorial séria: era um soldado, não um policial. Nunca me fez perguntas embaraçosas, nem me perguntou se eu era judeu.

A Tabela Periódica. Ouro. © 1975, Primo Levi. Tradução: Maurício Santa Dias. Companhia das Letras, 2025.

Turim, julho de 1943

Tuesday, January 06, 2026

5 de janeiro de 2021

WILSON GOMES

Está bem, os novos teóricos das comunicações digitais venceram, vou ter que explicar as 2 leis da Dinâmica da Atenção Digital.

Lei Nº 1 - "Se você não der atenção, ele/ela some" é um princípio que funciona pra acabar com o seu casamento, mas as assombrações digitais não desaparecem só porque você não fala delas.  Se o post ou o vídeo chegou até você é porque já viralizou, então, é tarde demais. Sabe por que a expressão é "não dar Ibope"? Pq é do tempo em que o Ibope era o marcador de atenção televisiva. O mundo digital funciona de outro jeito. Lembra quando mandavam a gente ignorar B que ele, irrelevante como era, sumiria? Sumiu? Rá!

2) Visibilidade é que nem colesterol, tem da boa e da ruim. Dar visibilidade não é necessariamente promover, é também queimar, constranger, expor. É a forma de uma parte da sociedade denunciar violações de princípios, aplicar sanções e corrigir as aberrações. O erro não é "dar Ibope" é, ao contrário, não prestar atenção, não mostrar o comportamento aberrante como inaceitável, é não demarcar e reafirmar um modelo de sociedade contra aquele representado pelo denunciado.

Era só isso mesmo. Obrigado.