Sobre a Fundamentação dos Valores
“(...) a parte que a força desempenha na natureza, como causa do movimento, tem por contrapartida, na esfera mental, o motivo como a causa da conduta”
Max Planck in Causation and Free Will. (citado por Hannah Arendt)
1. (...) “sobre o fundamento racional que podemos achar para o que consideramos valioso, isto é, para o fato de que assim o reputemos: o que funda e sustenta a preferência por determinadas atitudes, por certos comportamentos e instituições? Qual a razão da estima que merecem? E (...) não apenas o fato de serem estimados, mas o direito que temos de valorá-los assim.
(...) No imperativo moral – deixando agora de lado sua natureza hipotética ou categórica – coexistiram em todas as épocas e em todas as culturas dois ingredientes: a interiorização da norma social e o projeto de excelência pessoal. Essa coexistência nunca foi totalmente pacífica, mas sempre conheceu um vaivém mais ou menos acentuado de natureza dialética. Por um lado, a moral impõe o respeito ao coletivo e a subordinação da auto-afirmação individual à auto-afirmação do grupo ou até da humanidade em seu conjunto. Note-se que não se trata nunca de passar do interesse ao desinteresse, mas de um interesse mais estreito a um interesse mais geral; ou, se preferirem, de um interesse mais frágil e comprometido – o do indivíduo – a um interesse mais seguro, estável e consolidado, o da coletividade.
(...) Num primeiro momento, o indivíduo não se sente com forças suficientes – com suficiente vontade (energia ativa) – nem mesmo para conceber (...) uma aspiração ou destino pessoal; ele precisa sentir-se coberto pela vontade (energia ativa) coletiva, ligada ao dínamo social que institui e potencializa a resistência biológica e simbólica à morte. Por outro lado, num momento posterior do processo da genealogia ética, o assentamento da (...) empresa coletiva devolve ao indivíduo a plenitude de seu desejo auto-afirmativo, mas já como projeto ou destino pessoal.
(...) Seja como for, toda ética da excelência individual interioriza e potencializa os valores de um grupo, cujos membros aceitam um mesmo marco axiológico que define sua competência e delimita sua competição, enquanto as morais do bem comum nunca deixam de se propor como um caminho abnegado para a perfeição pessoal.
(...) As éticas transcorrem de códigos indistintamente coletivos a outros distintamente personalizados, da inatacabilidade sagrada da norma ao questionamento e recriação subjetiva, da fundamentação ancestral à projeção histórica, do acatamento do tabu ao reconhecimento da utilidade, da exterioridade coativa à interiorização do dever, do predomínio da lógica da pertinência (e exclusão) própria do grupo à dinâmica da participação relativa e da abertura universal próprias do individualismo, etc. Ou seja, da moral de fusão necessária à moral de livre distinção.
(...) A vontade individual se afirma por tentativas graças à energia recebida da vontade social capitalizada, mas esta afirmação é sentida, para começar, como choque e, portanto, como ameaça de destruição.
(da Antiguidade tribal aos tempos modernos) (...) O processo social pelo qual se produziu uma consciência individual capaz de suportar a si mesma sem pânico nem busca imediata de expiação foi sumamente trabalhoso e, ainda hoje, dista muito de estar concluído.
2. (...) toda moral tem sua raiz na busca decidida do mais conveniente para o sujeito, do que mais interessa a ele.
(...) A vontade – isto é, a capacidade ativa de procurar a imortalidade – começa a ser experimentada em certos casos ou em certos aspectos como aventura individual e não apenas como participação irremediável num fundo energético comum. Por “imortalidade” não se entende aqui a negação da morte nem a sobrevivência espiritual depois da morte, mas a resistência institucional ante a desvalorização aniquiladora que a presença permanente da morte impõe a toda a atividade humana. A imortalidade não nega a morte, mas é uma exigência vital ante sua irrefutável constatação: de tal modo que morte é vazio, e a imortalidade reclama plenitude; morte é acabamento, e a imortalidade busca duração ou perpetuação; morte é esquecimento, e a imortalidade quer memória; morte é despojamento, e a imortalidade procura propriedade; morte é suprema indiferença, e a imortalidade pretende distinção; morte é inação, e a imortalidade se afirma na atividade criadora; morte é desagregação caótica, e a imortalidade estabelece uma coordenação ordenada; morte é insensibilidade definitiva, e a imortalidade não pode renunciar ao prazer e à satisfação... Numa palavra, morte é cessação do sentido de uma condição cuja humanidade arrima em tê-lo, e imortalidade é consolidação do sentido diante da morte e apesar da morte. Toda instituição humana é num grau ou outro imortalizadora e não há mais cultura que a pretensão de imortalidade.
(...) o interesse que o indivíduo pretende assegurar é o de sua imortalidade, que não é mera sobrevivência, mas vida ao abrigo da necessidade e a despeito do (des) falecimento: perduração da intensidade, pertinência ao eterno. A forma mais acessível – digamos a mais barata, porque é a que menos custa embora não seja a de melhor qualidade – de alcançar este objetivo é a entrega efusiva a um grupo já consolidado, a uma tradição social, é a identificação com um líder ou um povo, a fé num Deus e numa religião salvadora ou no transmundano. Essas opções tendem a suprimir o obstáculo mais evidente para a imortalidade, que é a fragilíssima particularidade do sujeito individual. Em última instância, são fórmulas mais ou menos sofisticadas de perduração na espécie, que destrói os particulares, mas conserva e reproduz indefinidamente o genérico. Por outro lado, e isso é muito importante, ajudam a suportar a culpabilidade que sente o eu por se afirmar ativa e, portanto agressivamente diante do que preexiste a ele. A culpa do indivíduo ao agir como tal é o presságio da morte que há de castigar sua finitude. Ruptura com a matriz da espécie ou com o clã, ameaça de castração paterna ou legal, enfrentamento com a hostilidade numerosa dos outros, solidão diante das conseqüências nunca totalmente previsíveis da escolha própria, desafio à monstruosa natureza que vai nos cobrando um a um... Mas os demais sujeitos não se afiliam automaticamente à via da imortalidade coletiva – ou não fazem totalmente, ou não principalmente – e querem conservar juntamente o individual e o específico, o particular e o genérico de sua própria entidade. Ou seja, colocam-se o problema de imprimir uma marca irrepetível e distinta à fórmula da imortalidade, requerendo a cumplicidade e o apoio da coletividade, claro, mas negando-se à via despersonalizada dos que renunciam à sua alma para salvá-la melhor”.
Fernando Savater - Ética Como Amor Próprio