Thursday, November 15, 2007

Agony

ANGÚSTIA: O sujeito apaixonado, do sabor de uma ou outra contingência, se deixa levar pelo medo de um perigo, de uma mágoa, de um abandono, de uma reviravolta - sentimento que ele exprime sob o nome de angústia.

1. Esta noite voltei sozinho ao hotel; o outro decidiu retornar mais tarde. As angústias já estão lá, como o veneno preparado (o ciúme, o abandono, a inquietude); elas esperam apenas que passe um pouco de tempo para poder decentemente se declarar. Pego um livro e um sonífero, "calmamente". O silêncio deste grande hotel é sonoro, indiferente, idiota (ronrom longínquo das banheiras se esvaziando); os móveis, as lâmpadas são estúpidas, nada de amigável onde se aquecer ("Estou com frio, voltemos a Paris"). A angústia cresce, observo sua progressão, como Sócrates falando (eu lendo) sentia aumentar o frio da cicuta; eu a escuto se nomear, sobressair, como uma figura inexorável, do fundo das coisas que estão lá.
(E se, para que qualquer coisa aconteça, eu fizesse uma promessa?)

2. O psicótico vive sob o temor do aniquilamento (do qual as diversas psicoses seriam apenas defesas). Mas o "temor clínico do aniquilamento é o temor de um aniquilamento que já foi experimentado (primitive agony) [...] e há momentos em que um paciente precisa que lhe digam que o aniquilamento cujo temor mina sua vida já ocorreu"¹. O mesmo, parece, se passa com a angústia de amor: ela é o temor de um luto que já ocorreu, desde a origem do amor, desde o momento em que fiquei encantado. Seria preciso que alguém pudesse me dizer: "Não fique mais angustiado, você já o (a) perdeu".

¹ Winnicott, "O temor do aniquilamento".

Roland Barthes - Fragmentos de um Discurso Amoroso.

You are more motivated now than usual to make plans for your future, but you can get so hung up in the details that you don't get your scheme off the ground. Additionally, with retrograde Mars in your 11th House of Groups, you might wait for an invitation that never arrives. If there's something you want to do, make it happen. Don't depend on others to do it for you.

Wednesday, November 14, 2007

It's hard for you to separate the useful parts of your action plan from those things that won't be as effective. Everything seems important, but there's just too much to do. Even if it's hard work, go through what you know and set aside everything but the most essential facts. Rely on the basics and you'll be able to make the best choices.

Monday, November 12, 2007

Anoche soñé contigo

Anoche soñé contigo y no estaba durmiendo
Todo lo contrario, estaba bien despierto
Soñé que no hacía falta hacer ningún esfuerzo
Para que te entregaras y en ti, yo estaba inmerso…

Qué lindo que es soñar! Soñar no cuesta nada.
Soñar y nada más… Con los ojos abiertos.
Qué lindo que es soñar! Y no te cuesta nada más que tiempo…

¿Qué hacer con tanta angustia, por cosas no resueltas…
Con toda esta energía, casi siempre mal puesta?
Si pudiera olvidarme por siempre de mí mismo,
Habrías de encontrarme allí en tu dulce abismo.

Qué lindo que es soñar! Soñar no cuesta nada.
Soñar y nada más… Con los ojos abiertos.
Qué lindo que es soñar! Y no te cuesta nada más que tiempo…


http://www.kevinjohansen.com/2007/


Eu bebo pouco, mas o pouco que eu bebo me transforma em outra pessoa e essa outra pessoa sim, bebe pra caralho!

lynwilliams.podomatic.com

Ou você está com a cabeça na família, ou é a família que o sustenta emocionalmente hoje: tanto faz, porque o importante é que por causa dessa ligação, será capaz de ir além, alargando seu raio de ação. Negócios imobiliários em alta. Dia de redimensionar suas relações e o impacto delas em suas decisões pessoais.

Sunday, November 11, 2007

Fórum vai discutir governança da internet


Começa nesta segunda (12) o 2º Fórum de Governança da Internet, no Rio de Janeiro. A organização espera mais de mil representantes de governo, setor privado e sociedade civil de aproximadamente 70 países, segundo a organização.

Para o diretor executivo da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, Gerson Rolim, o principal assunto em discussão será a democratização da coordenação da internet, atualmente feita por norte-americanos: “Os Estados Unidos obviamente são veementemente contra qualquer alteração no poderio deles com relação à coordenação e à governança da internet”, disse, em entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional.

Gerson Rolim explicou que atualmente os Estados Unidos têm a “chave para ligar e desligar” a internet. E defendeu que Brasil, Rússia, Índia e China, países que somados têm mais internautas que os Estados Unidos, deveriam ter maior influência na política e na governança da rede mundial no mundo.

Uma alternativa proposta é o modelo do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), que coordena e integra todos os serviços de internet no país. Os representantes são membros do governo, do setor empresarial, do terceiro setor e da comunidade acadêmica. Os representantes da sociedade civil são eleitos e participam das deliberações e dos debates sobre as prioridades da internet.

O 2º Fórum de Governança da Internet será realizado até quinta-feira (15). Interessados podem solicitar inscrição no site www.igfbrazil2007.br/port.


Para educadores, legislação precisa mudar

Educadores entrevistados pela reportagem defendem uma mudança na legislação. "A escola existe para o aluno ter acesso ao seu direito de aprender. Os direitos do professor não podem se sobrepor aos dos estudantes", disse a diretora da Faculdade de Educação da USP, Sonia Penin, que defende também melhorias nas condições de trabalho dos docentes.
Para ela, o problema das faltas ainda não foi, de fato, enfrentado. "A secretaria e as associações de classe precisam sentar e se acertar. O que não pode é o aluno ficar sem aula."
O absenteísmo dos professores é um problema que atinge os alunos da rede estadual há mais de dez anos. Em 1994, a Folha publicou reportagem que mostrou que, somadas, as faltas representavam um mês de aulas perdidas.
O filósofo Mario Sergio Cortella, secretário da Educação na gestão da prefeita de São Paulo Luiza Erundina (então no PT), também defende melhores condições de trabalho, aliadas a uma melhoria na legislação.
"Se as condições são ruins, o professor, como qualquer outro profissional, vai aproveitar todos os escapes", disse.
Cortella afirma que o percentual de 12,8% de faltas diárias não é tão elevado como média, mas indica que a situação nas periferias esteja muito ruim.
Dados oficiais mostram que as regiões da capital paulista onde o absenteísmo é maior são as de bairros como Campo Limpo e Capão Redondo (zona sul) e Cidade Tiradentes e Guaianases (zona leste). Todas na periferia, com baixos indicadores socioeconômicos. "Embora seja cansativo ser professor, especialmente nas escolas distantes, não se justifica o profissional assinar o contrato de trabalho, receber por ele e não cumprir sua parte", diz Ilona Becskeházy, diretora-executiva da Fundação Lemann.
Para ela, é preciso criar diferenciais de salários para os assíduos e controle eletrônico de faltas, além de mudar a lei.

Para governo, índice de faltas é "preocupante"

A Secretaria Estadual da Educação da gestão Serra (PSDB) classificou os dados apresentados sobre o absenteísmo docente como "preocupantes", mas afirmou que um pacote lançado no mês passado pode reverter o quadro.
A secretária Maria Helena Guimarães não quis dar entrevista. A pasta se manifestou por meio de nota.
O plano traz benefícios como o pagamento em dinheiro de 30 dos 90 dias de licença-prêmio (concedida aos docentes com boa assiduidade a cada cinco anos de trabalho) e antecipação do bônus de merecimento (que considera, basicamente, a assiduidade).
A nota diz também que "o salto de qualidade pretendido para a educação pela secretaria tem como ponto fundamental os professores" e que "alterações na legislação precisam de uma ampla discussão entre sociedade, Legislativo e governo".
Sobre professores eventuais, a pasta diz que eles "são preparados", mas "é de se esperar" que tenham dificuldades com turmas novas. Por isso, afirma, estão sendo criadas referências de aulas. A nota afirma ainda que há casos em que o eventual não consegue cobrir o faltoso.

Professor só perde cargo se não comparecer 30 dias seguidos

Dos 29 dispositivos legais que regulamentam as faltas para os professores da rede estadual paulista, apenas um prevê a perda do cargo do servidor -se utilizada em excesso.
Por serem funcionários públicos, os educadores não podem ter seus postos retirados pelos gestores a qualquer momento. Por motivo de falta, o professor da rede estadual de São Paulo só perde o cargo se não comparecer a 30 dias seguidos ou a 45 dias espalhados pelo ano, sem apresentar justificativa ("faltas injustificadas").
Mesmo que atinja essa marca, o caso ainda será analisado pela Secretaria de Estado da Educação, antes da perda do cargo do educador.

Sem desconto

Em 19 dispositivos, o professor pode faltar sem que haja perda no salário. No máximo, há desconto no auxílio alimentação e no auxílio transporte que ele recebe.
Encaixam-se nessa modalidade as ausências referentes a consultas médicas, a casamento, a doação de sangue, entre outros.
Simulação feita pelo escritório Ulchôa Canto, Rezende e Guerra mostra que, se o professor utilizar todos os dispositivos e viver um ano atípico (com casamento, falecimento de parentes, prestação de serviço eleitoral, entre outros), ele pode trabalhar menos de 30 dos 200 dias letivos. Sem ter desconto no salário.
O maior peso nesse caso viria da possibilidade de fazer consultas médicas ilimitadamente, desde que não sejam em dias seguidos -ou seja, poderia faltar 100 dos 200 dias letivos.
São válidos atestados do SUS (Sistema Único de Saúde), do Iamspe (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual) ou de médicos e dentistas registrados no conselho profissional.

Leis antigas

As leis que regulamentam as faltas dos docentes da rede estadual são o Estatuto dos Funcionários Públicos Civis do Estado, Regulamento Geral dos Servidores Públicos, Estatuto do Magistério e lei complementar 883/00.
"O problema é que quase todas elas são antigas [décadas de 60 e 70], de antes da Constituição [de 1988], que deixou clara a necessidade da qualidade na educação. A possibilidade de tantas faltas não é compatível com um bom ensino", afirmou a advogada Ana Carolina Monteiro, do escritório que estudou e fez simulações com base na legislação dos docentes.
Para Monteiro, é necessário alterar as leis para diminuir a possibilidade de faltas e criar mecanismos de incentivo por desempenho.
"A legislação não chega a incentivar as faltas, mas protege aqueles poucos oportunistas que podem manchar toda a categoria", afirmou o filósofo Mario Sergio Cortella, professor da PUC-SP e secretário da Educação na gestão -1989-1992- da prefeita Luiza Erundina (então no PT).

Apeoesp diz que doenças são causa de falta

O presidente da Apeoesp (sindicato dos professores), Carlos Ramiro de Castro, afirmou que, com salários baixos, longas jornadas, salas superlotadas e violência na escola, os professores tendem a adoecer e, por isso, precisam faltar.
Para sustentar a argumentação, Castro cita um estudo feito pela Apeoesp, em conjunto com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), que apontou que 61% dos professores dizem sofrer de nervosismo, 57% têm falhas na voz e 44% apresentam angústia.
A pesquisa, publicada neste ano, entrevistou 1.780 docentes em novembro de 2003.
"Nessas condições, o professor adoece. E, como ele tem de fazer jornada tripla, se precisa ir ao médico, muitas vezes, tem de faltar", disse Castro, que é suplente do senador Eduardo Suplicy (PT-SP). "O professor precisa ter melhores condições de trabalho e um bom salário para poder diminuir a jornada."
O salário inicial da rede estadual de São Paulo é de R$ 1.295,76, para uma jornada de 30 horas semanais. Reportagem da Folha publicada no mês passado mostrou que o valor por hora da rede paulista é apenas o 10º maior do país.
Castro lembra que o corpo docente da rede é formado majoritariamente por mulheres (80%). "Elas têm de fazer exames médicos específicos. E, quando o filho adoece, geralmente é ela quem vai cuidar." O sindicalista diz ser contrário a mudanças na legislação.
Docentes também reclamam. "O professor não é valorizado, entra em depressão, tem problemas na voz. Eu estou desmotivado", diz um docente de uma unidade do Capão Redondo (zona sul de SP).
Se não há consenso para as razões do absenteísmo, os efeitos são conhecidos. Vinícius Rodrigues Dantas, 17, por exemplo, se diz uma das vítimas. Aluno do terceiro ano do ensino médio de uma escola estadual na Cidade Ademar (zona sul), ele conta que "quase todo dia falta um professor".
"Geralmente, os substitutos não fazem nada, deixam a gente conversando", disse ele, que decidiu não prestar vestibular neste final de ano. "Sei que não vou conseguir passar."
Estudo de Tufi Machado Soares, da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), mediu o peso das faltas dos professores. Alunos da quarta série da rede estadual de Minas que estudam com professores que faltam muitas vezes tiveram média de 187 pontos em testes de língua portuguesa, ante 202 daqueles cujos docentes são assíduos. Os dados têm como base o exame mineiro de avaliação, aplicado em 2002.

30 mil professores faltam por dia na rede pública de SP

Todos os dias, quase 30 mil dos 230 mil professores da rede estadual de ensino paulista faltam às aulas, e, amparados pela lei, a maioria não perde nenhum centavo dos seus vencimentos. O número significa uma ausência diária de 12,8%.
Dos 30 mil, menos de 2.400 têm faltas que acarretam perda de salário, segundo dados oficiais de 2006. Os docentes contam com 19 dispositivos legais que lhes permitem se ausentar sem desconto no salário, entre os quais licença médica, licença-prêmio (por assiduidade) e falta abonada por "motivo relevante" (seis ao ano neste caso).
Em um desses mecanismos, o professor pode, no limite, faltar 100 dos 200 dias letivos, desde que apresente atestados médicos e que as ausências não sejam em dias seguidos.
"Todos conhecem um médico que pode dar o atestado", disse o presidente da Udemo (representante dos diretores de escolas), Luiz Gonzaga Pinto, que defende melhores condições de trabalho aliadas a mudanças na lei. "Não estou dizendo que os professores abusam. Mas sempre há aqueles que buscam as brechas."
A Secretaria da Educação do governo José Serra (PSDB) classifica o índice como "preocupante". Diz que um pacote voltado aos docentes incentivará a diminuição nas faltas.
A secretária Maria Helena Guimarães não quis dar entrevista. Em nota, a pasta diz que o plano traz benefícios como o pagamento em dinheiro de 30 dos 90 dias de licença-prêmio e antecipação do bônus de merecimento (que considera, basicamente, a assiduidade).
Estudos nacionais e internacionais já apontaram que há relação entre absenteísmo dos docentes e perda de aprendizagem. Nos maiores colégios particulares de São Paulo, o índice de faltas é inferior a 1% ao dia, como no Bandeirantes e no Etapa -onde, dos cem professores, em média, apenas dois registram alguma falta no mês.
"A legislação na rede pública é muito permissiva", afirmou o promotor da Infância e Juventude da capital Motauri Ciocchetti de Souza, que investiga as causas das ausências.
Já os professores dizem que as faltas são reflexo de más condições de trabalho. "Com jornadas extenuantes, classes superlotadas, o professor adoece, precisa ir ao médico ou se afastar", disse o presidente da Apeoesp (sindicato dos docentes), Carlos Ramiro de Castro.
A rede possui 17.358 docentes eventuais, chamados para substituir faltas. A secretaria diz que eles "são preparados", mas "é de se esperar" que tenham dificuldades com turmas novas. Por isso, estão sendo criadas referências de aulas.

Fábio Takahashi - Folha de São Paulo

Só pra lembrar o depois do depois, mesmo que já não fosse, mesmo que ainda seja. Embora não haja mais aquele tempo, posso fazê-lo passar ininterruptamente. Mesmo que ele não precise disso, porque ele atravessa tudo. Eu sei.

Luciana Miranda Penna - gatocontraaparede.blogspot.com

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, em russo Фёдор Миха́йлович Достое́вский
(Moscovo, 11 de Novembro de 1821)

Saturday, November 10, 2007

Feitiço do Tempo

As horas passam de cor
As mesmas flores, o mesmo jardim
O mesmo frio, o mesmo fim de tarde
O mesmo portão, mesmo Rio, mesmo mês

Lá fora o dia morreu
Anoiteceu outro céu tal e qual
Parece um vício, eterno reinício
Onde a realidade se desfez

Tudo é igual, outra estação
Não se apagou o sorriso
E nem as rosas murcharam
O tempo tem um feitiço

Mais um adeus
Mais um soneto, outra separação
Quando amanhece o sol cobre a cidade
E a saudade invade outra vez

O escritor americano Norman Mailer morreu neste sábado aos 84 anos de complicações renais.

Mailer, que venceu duas vezes o prestigiado prêmio Pulitzer, estava internado no Hospital Monte Sinai, em Nova York. No mês passado, ele foi submetido a uma cirurgia no pulmão.

O escritor, nascido em Nova Jersey em 1923, assinou dezenas de livros, poemas, peças de teatro e ensaios.

Uma de suas obras mais conhecidas é A Luta, na qual descreve o histórico enfrentamento entre Muhammad Ali e George Foreman, em 1974.

Mais do que uma simples luta de boxe, o confronto realizado no Zaire colocou cara-a-cara duas faces do mesmo Estados Unidos: George Foreman, que se vestia com as cores da bandeira americana e representava o establishment branco apesar de ser negro, e Ali, que tivera seu título de campeão mundial de pesos-pesados revogado por se recusar a servir o Exército no Vietnã. Ali acabou vencendo a luta.

Mailer também publicou outros livros de sucesso, como Os Nus e os Mortos, um relato-ficção de suas experiências no Exército durante a Segunda Guerra Mundial.

Sua última obra, The castle in the forest , ainda sem edição brasileira - a tradução livre seria algo como 'O castelo na floresta' -, foi publicada este ano nos Estados Unidos.

Mailer ficou conhecido por seu temperamento forte e seu antagonismo ao movimento feminista.

Ele se casou seis vezes e é pai de nove filhos. Certa vez, em entrevista à rede de TV americana NBC, o autor disse que estava preocupado porque acreditava que "as mulheres iriam dominar o mundo".

SÃO PAULO - A Telefónica está testando, no bairro dos Jardins, em São Paulo, um novo modelo de banda larga.

Ao invés de levar o cabo de fibra óptica até um determinado ponto do prédio ou condomínio e, então, usar a rede telefônica para distribuir o sinal, a empresa testa levar os cabos até o apartamento do usuário.

Com o recurso, a Telefónica conseguiu oferecer conexões com velocidades superiores a 30 Mbps durante os testes.

A idéia da Telefônica é oferecer a velocidade de 30 Mbps como assinatura regular para usuários domésticos em regiões de elevado poder aquisitivo.

Segundo a empresa, a velocidade de 30 Mbps permitiria aos assinantes usar recursos de vídeo-conferência, vídeo on demand e acessar programação de TV digital pelo computador.

Felipe Zmoginski, do Plantão INFO



Friday, November 09, 2007

Your highly focused energy can be a real lifesaver today, for you don't need to needlessly waste a lot of time. You know what you want and are ready to do what's needed. This no-nonsense attitude may put others off, but it will make you feel better about what you accomplish.

Protagonistas do processo

Um sistema educativo deve ser entendido como a articulação de três subsistemas: o escolar (a escola e todas as instâncias envolvidas com ela), o sociocultural (espaços como bibliotecas, ludotecas, cinemas, teatros etc.) e o familiar (que tem o dever de valorizar os outros dois e propiciar o acesso a eles). Essa tríplice aliança é a chave do sucesso da reforma de ensino da Finlândia, primeira colocada nas principais avaliações internacionais. “Mesmo com todas as deficiências apontadas, o subsistema escolar brasileiro tem as condições necessárias para proporcionar as experiências educacionais e culturais de que as crianças necessitam. Por isso, é muito bom observar que, na pesquisa, 83% dos professores se vêem como protagonistas desse processo”, afirma Regina Scarpa.

A “desistência” da escola, enquanto instituição, e o desânimo do professor poderiam significar um desastre a longo prazo. Com a divulgação (e análise) desses números, NOVA ESCOLA acredita estar contribuindo para uma reflexão coletiva que aponte caminhos para melhorar ainda mais a Educação, em especial na rede pública de nosso país.


As pesquisas revelam muitas informações pelo que é dito, mas também pelo não dito. Um dos tópicos que mais chamaram a atenção dos analistas foi a ausência do Estado (Ministério e secretarias estaduais e municipais) quando o assunto é qualidade do ensino e quem é responsável por isso. Ele só aparece enquanto empregador (aquele que paga salário e benefícios e proporciona estabilidade no emprego e liberdade de ação em sala de aula – o que significa não cobrar resultados). O curioso é que os entrevistados não vêem no poder público o papel de elaborar as políticas e de providenciar a estrutura necessária para o processo de ensino e aprendizagem. No ranking sobre as influências negativas no ensino – o mesmo em que alunos e famílias surgem nas primeiras posições –, os itens associados ao orçamento e às diretrizes da Educação são citados nas últimas colocações.

“Ao responsabilizar os alunos e as famílias pelo fracasso escolar, o educador deixa de analisar o papel da escola e as possibilidades que ele tem de agir como o agente público que de fato é, como membro de uma instituição igualmente pública – a escola – que precisa se relacionar com o sistema para funcionar com eficiência”, analisa Sônia Kruppa.

As causas do problema

“O docente simplesmente não enxerga o Estado porque ele é omisso em vários aspectos da vida dele”, ressalta Luis Carlos de Menezes. O sistema não é cobrado pelas deficiências e também não aparece quando uma experiência dá certo: “Se a escola vai bem, o mérito é de uns poucos mestres dedicados ou da direção eficiente”. Nem é preciso lembrar que sucessos isolados não levam à melhoria da Educação como um todo.

O filósofo Celso Favaretto acredita que a escola perdeu a confiança nela mesma e, com isso, deixou de se posicionar como instituição: “Ao perder a exclusividade de divulgadora do conhecimento – papel que hoje compartilha com os meios de comunicação, ela não consegue mais enxergar sua missão original, que é debater e realizar o bem comum e as políticas sociais, culturais e educacionais”.

O professor também entra nesse compasso e cada vez mais se sente à parte, isolado. Sônia Kruppa acredita que essa ruptura tem origem no que ela chama de falta de vínculo: todos os anos há mudanças no quadro docente e fica difícil organizar e implantar um projeto em conjunto. Ao ser removido, o professor não se sente pertencente nem à escola e à comunidade nem à instituição e ao sistema.

Para refletir

A Educação é um processo coletivo, que se dá em determinado espaço, uma instituição chamada escola. Essa, por sua vez, é regida por políticas públicas, que deveriam ter como objetivo a realização do bem comum para responder às demandas imediatas e as de longo prazo da sociedade. “A relação educacional não se resume ao dueto professor/aluno”, lembra Vera Trevisan. Existem ainda os agentes de ensino das secretarias, o diretor, o coordenador pedagógico e todos os colegas. “Como o professor pode se sentir sozinho e tomar para si toda a responsabilidade?”, questiona ela.

Para Sônia Kruppa, só o grupo pode assumir a formação do educando e, para que esse coletivo se forme, é preciso haver permanência na escola e continuidade nas políticas públicas. Com isso, ela acredita ser possível a comunidade construir um projeto pedagógico democrático para atender à população tal qual ela é.


A maioria dos entrevistados não tem dúvida: para 64%, a formação inicial foi excelente. Porém 49% reconhecem que não estão preparados para a realidade da sala de aula. E isso porque 90% se declaram satisfeitos com a própria didática. Contraditório, não? O simples fato de freqüentar uma universidade e ter a chance de ler, estudar e debater as teses de grandes nomes da Pedagogia mundial é, sem dúvida, uma experiência interessante. No entanto, é possível que muitos professores não questionem a qualidade desses cursos. Estudar as teorias de Jean Piaget, Lev Vygotsky e Henri Wallon, entre muitos outros, é fundamental, mas não basta. A capacitação inicial tem variadas (e complexas) dimensões e a faculdade é o primeiro lugar para um profissional se apropriar das ferramentas para ensinar – e, com isso, poder enfrentar as dificuldades do dia-a-dia na escola (como a desmotivação, a indisciplina e as diferentes realidades sociais e culturais dos alunos). O que não dá é para não aceitar essa realidade.

As causas do problema

Só recentemente as faculdades de Educação e Pedagogia começaram a se preocupar com as especificidades da formação docente. Por muitos anos, tanto os futuros professores como os futuros diretores, orientadores e supervisores recebiam os mesmos conteúdos. Os especialistas reunidos por NOVA ESCOLA concordam: as didáticas específicas de cada área deveriam ser a principal matéria-prima dos cursos de formação inicial. O currículo deveria ter por obrigação contemplar a didática da alfabetização, a da Matemática, a da leitura e da escrita, a das Ciências e assim por diante. Dentro de cada uma delas estariam os conteúdos, os processos de aprendizagem (que envolvem o conhecimento sobre como as crianças transformam informação em saber e o que elas pensam quando estão em contato com os problemas escolares) e, claro, as intervenções pedagógicas mais adequadas para garantir que todos aprendam.

“Sem explorar e ensinar corretamente as didáticas específicas, é como se as faculdades colocassem um lenço nos olhos e vendassem o futuro professor e o soltassem no mundo. É óbvio que, nessa situação, não dá para saber o que fazer”, afirma Telma Weisz. Na opinião de Regina Scarpa, só a certeza de dominar os conteúdos e as melhores maneiras de ensiná-los fará com que o educador enfrente com tranqüilidade a dura realidade da sala de aula: “Toda criança gosta de aprender de maneira desafiadora”.

O problema persiste quando os cursos de capacitação continuada, em vez de oferecerem atualização nas áreas específicas, tentam suprir as deficiências da faculdade. Segundo a pesquisa, 48% dos entrevistados acreditam que esses programas interferem positivamente no ensino e o surpreendente índice de 80% disse já ter participado de algum curso desse tipo. Mas nem por isso se sentem mais preparados para a rotina escolar. “A maioria dos cursos de formação continuada não leva em conta as necessidades cotidianas do professor. É por isso que fica a sensação de que nada se resolve depois de freqüentá-los”, analisa Vera Trevisan.

Para refletir

A mudança de foco dos cursos de formação inicial é um processo longo, mas nem por isso pode ser esquecida pela categoria. Num prazo menor, dizem os analistas, o ideal é apoiar-se mais fortemente na coordenação pedagógica. Os próprios entrevistados começam a perceber isso: 21% acreditam que a coordenação colabora muito, e 42%, o suficiente para melhorar o ensino. Porém 34% ainda se sentem desamparados, dizendo ter pouco ou nenhum apoio. “Já passou da hora de os coordenadores pedagógicos assumirem sua responsabilidade pela qualidade do ensino na escola. Eles precisam se colocar no papel de formadores do corpo docente”, exige Regina Scarpa.

Organizar momentos de formação em serviço (nos horários de trabalho pedagógico coletivo), com troca de experiências e reflexão sobre a prática, é muito eficiente para resolver problemas cotidianos. A formação de grupos de trabalho preocupados em melhorar as ações em sala de aula é viável e necessária. Já para aperfeiçoar os cursos de formação continuada, uma saída é chamar os alunos em potencial para ajudar na elaboração do programa, pois só eles conseguem expor suas necessidades. Vera Trevisan alerta ainda para a importância de haver uma pessoa que coordene essa formação, principalmente quando um pequeno grupo é convidado a participar – para depois socializar o aprendizado com os colegas.

Infelizmente, quem está à frente da sala de aula não tem poder sobre as políticas públicas e a definição de rumos da Educação – nos sistemas municipais, estaduais e federal. O problema, como veremos a seguir, é que essas entidades estão cada vez mais distantes do discurso do professorado brasileiro.


Uma das perguntas do questionário tinha 23 itens. Entre eles, a falta de didática e de metas de aprendizagem. Mas, na hora de listar os principais problemas do dia-a-dia dentro da sala de aula, os 500 professores entrevistados colocaram os seguintes três: a não-participação dos pais no dia-a-dia da escola, a desmotivação dos alunos e a indisciplina dentro da classe (e o primeiro está fora da sala).

Por que a família é vista tão mal? Ao comparar a escola pública com a particular, os professores dão algumas pistas: 72% dizem que quem leciona na rede pública faz também o papel de assistente social, enquanto apenas 3% apontam que quem está na privada tem essa mesma função (será mesmo?). O termo mais usado é sobreposição. Para 25% da amostra, “a escola está no lugar da família”. E outros 38% reforçam que, na escola pública, “o professor não ensina, mas ajuda o aluno a sobreviver”. Em outra resposta, 64% afirmam que o nível socioeconômico das crianças intervém no aprendizado (negativamente, no caso da pública, e positivamente, no caso da particular).

As causas do problema

“Durante décadas, o professor montou uma representação-padrão de estudante, projetando o desejo de que ele venha de casa educado, com os parentes providenciando todos os requisitos básicos para que eles convivam em sociedade e aprendam. Esse quadro não existe”, diz Lino de Macedo. Da mesma forma, é fictícia a concepção de família ideal. Pai e mãe trabalham fora e nem sempre moram na mesma casa – e os dois fatores levam à diminuição do tempo dedicado às crianças e, com isso, dos momentos de “formação doméstica”.

A tendência é fazer, inconscientemente, o que Luis Carlos de Menezes chama de enquadramento social: “A ampliação da escolarização no Brasil fez com que crianças e jovens de comunidades antes excluídas entrassem no sistema. Equivocadamente, o professor acha que a origem cultural do garoto e da mocinha os impede de aprender. Além disso, como não quer assumir a função de formá-los, ele desiste de ensinar”.

Houve consenso entre os debatedores: não é a família que tem de ser responsabilizada pelo insucesso da garotada, mas a escola, que precisa rever sua missão e seu projeto pedagógico para atender a todos, com ou sem problemas socioeconômicos. Além das transformações sociais, existem as culturais, políticas, econômicas e tecnológicas – que, de maneira geral, a escola não acompanha. Ao longo dos anos, a defasagem do currículo e dos conteúdos, a falta de relação com a realidade e uma série de outros fatores tiveram reflexos na não-aprendizagem. O professor acredita que sua responsabilidade sobre a Educação é muito grande, mas as notas ruins nos testes de avaliação levam a sociedade a repetir que o ensino vai mal. “Sentindo-se impotente, ele procura causas externas, criando uma situação que o prende: já que não pode mudar a família do aluno, ele acha que não é possível ensinar”, analisa a psicopedagoga Maria Cristina Mantovanini.

Para refletir

Sim, a participação da família é fundamental para que a criança se desenvolva como estudante. Por isso, ela deve ser motivo de preocupação. “Não dá para correr atrás de resultados de ensino sem pensar em reeducar os pais, que não conhecem a proposta pedagógica da escola, o que ela oferece aos filhos e como eles aprendem”, diz Maria Cristina. Reuniões de pais e atividades conjuntas nos fins de semana podem ser planejadas especialmente para promover essa integração. Uma saída é conscientizar-se de que o novo papel do professor inclui atender o aluno que não vem pronto de casa para adquirir conhecimento. Lino de Macedo acredita que, ao perceber que a sociedade mudou e que agora é preciso fazer isso, sem esquecer de ensinar conteúdos, você se preocupa também em dar o exemplo. Assim, a angústia diminui: “Com menos ressentimento, fica mais fácil aproximar-se, melhorar a relação com o estudante e, em conseqüência, as condições de aprendizagem”.

Em conjunto, redes de ensino, direção e corpo docente deveriam estar preocupados com a definição do currículo. “Ninguém vai se sentir motivado a conhecer algo que não tem relação nenhuma com a vida”, ressalta Menezes. “É necessário levar para a escola a cultura da comunidade e voltar a prática para a formação total do aluno. O que não dá é ficar esperando que ele saia correndo atrás dos conteúdos para dominá-los.” Outro caminho para diminuir a tal desmotivação é deixar de lado o vício pedagógico de buscar sempre a passividade do educando: “As crianças são curiosas por natureza e gostam de fazer perguntas, mas elas só aprendem se tiverem espaço para a participação. E isso existe quando há conversa, fala, movimentação e argumentação e não um ambiente de apatia”, ressalta Menezes.

Nunca é demais lembrar que só consegue motivar quem conhece (e utiliza) boas práticas de ensino. Chegamos assim à segunda contradição apontada pela pesquisa: o professor acha que foi bem formado, mas acaba admitindo não estar preparado para o dia-a-dia em classe nem saber como enfrentar os problemas da sala de aula, como o famoso desinteresse e a não menos decantada indisciplina.


Você conhece bem esta realidade: o professor adora a profissão, mas não está satisfeito com ela. Sabe que é parte de sua função preparar os alunos para um futuro melhor e gosta de ver as crianças aprendendo, porém se ressente por ter de providenciar a Educação global (valores, hábitos de higiene etc.) que a família não dá. NOVA ESCOLA e Ibope conversaram com 500 professores de redes públicas em todas as capitais brasileiras e os números são muito reveladores da situação em que se encontram nossos educadores.

63% relatam viver em nível significativo de estresse.

48% sentem falta de mais segurança contra a violência.

54% estão descontentes com os benefícios,47% com o salário e 47% com a sobreposição de papéis (em relação à família dos alunos).

21% estão satisfeitos com a profissão (um número assustador: em pesquisas similares o índice oscila entre 40 e 60%, chegando a 80% em algumas áreas que podem ser chamadas de privilegiadas).

Ao mesmo tempo, muitos se queixam do trabalho duro e (o pior) não reconhecido pela sociedade.

53% têm no amor à profissão sua principal motivação.

63% trabalham no que gostam.

83% têm consciência da importância da profissão de professor.

80% já participaram de cursos de capacitação depois de formados.

A pesquisa foi feita com o objetivo principal de investigar como os professores brasileiros se relacionam com o trabalho, os alunos e a escola e de que forma eles enxergam o futuro da profissão. Nesta reportagem, você vai encontrar diversos números – e também uma análise muito especial para refletir sobre alguns desses dados. Para debater os resultados obtidos, NOVA ESCOLA convidou um grupo de educadores de diferentes áreas, todos com contato direto com a sala de aula e com a formação inicial e continuada dos nossos docentes. São eles: Celso Favaretto, filósofo da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Lino de Macedo, pedagogo do Instituto de Psicologia da USP, Luis Carlos de Menezes, do Instituto de Física da USP, Maria Cristina Mantovanini, psicopedagoga do Instituto Vera Cruz, em São Paulo, Sônia Kruppa, socióloga da USP e da Fundação Santo André, Telma Weisz, especialista em Psicologia da Aprendizagem e assessora pedagógica da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, e Vera Trevisan, psicóloga da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Base frágil

As três maiores surpresas da pesquisa apareceram justamente nas questões sobre a relação do professor com seu público-alvo e com o ambiente de trabalho.

Os alunos são vistos como desinteressados e indisciplinados e são percebidos, junto com a família, como os principais problemas da sala de aula. “Quando o profissional não se sente capaz de cumprir sua tarefa – no caso, planejar, ensinar e fazer com que a maioria adquira conhecimento, tende a responsabilizar fatores externos, apontando justamente para os lados mais frágeis do sistema”, afirma Maria Cristina Mantovanini.

A formação inicial é apontada pela maioria como “excelente”. Mas, ao mesmo tempo, reconhecem não estarem preparados para o dia-a-dia dentro da sala de aula. “Como a relação entre a motivação e a prática de ensino quase não aparece, muitos provavelmente não se dão conta de como a graduação foi ineficiente”, observa Telma Weisz.

As secretarias (municipais e estaduais) de Educação e o Ministério da Educação praticamente não aparecem como atores importantes da realidade do Magistério. É igualmente preocupante porque essas instituições deveriam ser as provedoras não só das políticas públicas mas também de toda a infra-estrutura e das condições gerais para que a aprendizagem ocorra. “O professor não se enxerga como parte do sistema e, por isso, se sente tão sozinho na difícil tarefa de ensinar”, enfatiza Sônia Kruppa.


A Educação, vista pelos olhos do professor

NOVA ESCOLA e Ibope entrevistaram professores de redes públicas de todo o país e concluíram: eles amam a profissão, mas só 21% estão satisfeitos com ela. E, apesar de classificarem a formação inicial como excelente, reconhecem não estar preparados para a realidade da sala de aula.

Paola Gentile / Colaborou Patrícia Cassi

http://revistaescola.abril.uol.com.br/ed_anteriores/0207.shtml

Wednesday, November 07, 2007


http://www.myspace.com/samiamidi

Para mim, seria suficiente lembrar do almoço em que conversei com papai sobre a dificuldade de muitos escritores para escrever suas memórias quando já não se lembravam de nada. Cuqui, com apenas seis anos, chegou à conclusão com uma simplicidade magistral:
- Então - disse ele -, a primeira coisa que um escritor deve escrever são as memórias, enquanto ainda se lembra de tudo.

Gabriel García Márquez - Viver Para Contar

- Isto aqui é o mito de Antígona.
Pela minha expressão, percebeu que eu estava no escuro, apanhou em uma de suas estantes o livro de Sófocles e leu o que estava querendo dizer. Em sua essência, a situação dramática de meu romance era, realmente, a mesma de Antígona, condenada a deixar insepulto o cadáver de seu irmão Polínices graças a uma ordem do rei Creonte, tio dos dois. Eu havia lido Édipo em Colona, que o mesmo Gustavo tinha me dado de presente naqueles dias em que nos conhecemos, mas me lembrava muito pouco, e mal, do mito de Antígona para tê-lo reconstituído de memória dentro da zona bananeira, cujas afinidades emocionais eu não tinha percebido até aquele momento. Senti a alma revirada de felicidade e desilusão. Naquela noite tornei a ler meu livro, com uma rara mistura de orgulho por ter coincidido, em boa fé, com um escritor tão grande, e e de dor e vergonha pública por causa do plágio. Depois de uma semana de crise nebulosa decidi fazer algumas mudanças de fundo para deixar a salvo minha boa-fé, e ainda sem perceber a vaidade sobre-humana de modificar um livro meu para que não ficasse parecido a Sófocles.

Gabriel García Márquez - Viver Para Contar

Hoje sei que minha aparência de mendigo não se devia à pobreza nem porque eu quisesse parecer poeta, mas ao fato de todas as minhas energias estarem concentradas a fundo na obsessão de aprender a escrever. Assim que vislumbrei o bom caminho abandonei o Arranha-céu e me mudei para o aprazível bairro de Prado, no outro extremo urbano e social, a duas quadras da casa de Meira Delmar e a cinco do hotel histórico onde os filhos dos ricos dançavam com suas amantes virgens depois da missa dos domingos. Ou, conforme disse Gérman: comecei a melhorar para pior.

Gabriel García Márquez - Viver Para Contar

Monday, November 05, 2007

O canto das sereias

A maioria dos ouvintes atuais de música provavelmente nunca pôs um LP num toca-discos e, se sabe de sua existência, deve ser graças a algum filme de época. Em breve, o CD também será memória remota, substituído por iPods e demais dispositivos digitais. E, no entanto, a reprodução, primeiro mecânica e, depois, eletrônica, da música é fenômeno recente, datando da segunda metade do século 19.
Antes disso, a experiência musical era pública. A cada público, segundo seus gostos e cultura, correspondiam diferentes tipos de música que, no planeta, eram tão variados quanto os povos que o habitavam, e a variedade musical separava entre si as populações não menos do que a diversidade lingüística.
Se a música tradicional praticamente desapareceu e a erudita ocidental tomou rumos que a distanciaram do grande público, uma nova música sintética, facilmente inteligível e associada intimamente a seus meios de reprodução conquistou o planeta. Assim, o processo conhecido como globalização já mostrou um resultado absolutamente bem-sucedido: trata-se da música popular industrial ou de massa. Nada transpõe tão bem, com tanta facilidade, fronteiras nacionais, ideológicas, religiosas etc. como ela.
A cultura e seus produtos, porém, não existem num vácuo. A música de massas corresponde a uma demanda e esta, por seu turno, fala-nos a respeito de seu público. A homogeneidade musical indicaria, em princípio, uma homogeneidade real ou potencial de seus ouvintes. Será que é através do rock que se está construindo uma espécie de cidadania planetária acima das divisões étnicas, culturais e outras que sempre foram as grandes geradoras de conflitos? O jornalista Thomas Friedman disse certa vez que dois países que tivessem McDonald's dificilmente entrariam em guerra um com o outro. Será que isso vale para dois grupos ou populações que ouçam Madonna ou Michael Jackson?
Tudo indica que não. Afinal, pessoas que amam o mesmo esporte, futebol, podem se massacrar no estádio porque torcem para times diferentes. Membros de nossa espécie nunca deixarão de achar desculpas para se matarem entre si. E, ainda assim, a homogeneidade musical sugere outras. Mais do que em suas letras, é no modo como ela é fruída ou consumida que a canção revela a natureza de sua audiência.
Por exemplo, desde a aparição do walkman e do reprodutor de MP3, as pessoas podem, no meio da multidão, ouvir canções como se estivessem sozinhas. Individualismo? Afasia? Não, pois todas ouvem algo produzido aos milhões e para milhões. As letras abordam tais ou quais temas padrão, mas elas tampouco são muito relevantes, pois gente que nem mesmo entende sua língua ouve as canções com igual dedicação e prazer.
Como na sociedade tradicional, mas de maneira mais vaga, a música industrial leva o indivíduo isolado a se sentir participante de uma comunidade maior que, no caso discutido, é a das atitudes, do estilo de vida, das crenças mais ou menos genéricas. A experiência mais intensa de confraternização da qual a maioria dos contemporâneos participou ou participará na vida é um concerto de rock, onde o que conta é a sintonia comum com um determinado ritmo, a repetição de refrãos que nem chegam a ser slogans, a rendição individual a uma massa coerente em cujo balanço circula uma só mensagem significativa: "we are the world, we are the children".
Não há como negá-lo: a possibilidade de que uma canção, uma banda, um gênero alcancem parcela significativa da humanidade implica um nivelamento por baixo, ou seja, quanto mais ouvintes, maior a homogeneidade, menor a complexidade. Se há inúmeros cantores, instrumentistas e compositores, é apenas porque o prêmio é imenso, um prêmio que poucos conquistarão. O grosso do que se ouve no mundo inteiro é produzido por poucas dezenas de criadores afortunados que, a rigor intercambiáveis, devem muito de seu sucesso à sorte e ao acaso.
Como a canção se converteu na principal experiência comum da espécie, ela se tornou também um modelo do que se pode comunicar e, quem sabe em última instância, do que a maioria está disposta a pensar. Sua forma veicula uma mensagem que reafirma tanto uma fraternidade elementar, rítmica, como a ausência de diferenças irredutíveis ou conflituosas entre indivíduos e/ou grupos. É quase irresistível traduzir politicamente tal mensagem utópica, mas, como Ulisses já sabia, quanto mais sedutor o canto das sereias, mais próximos estão os recifes e mais certo é o naufrágio.

Nelson Ascher

A música das esferas ideológicas

Não há nada mais divisível do que a esquerda. Se um militante forma um partido, a adesão de um segundo equivale à criação de uma facção, e a de um terceiro já aponta para um "racha". Esse tipo de subdivisão infinita, porém, pertence antes ao âmbito das patologias políticas e merece apenas a atenção de especialistas e historiadores. Ainda assim, há outra espécie de divisão da esquerda, esta, sim, relevante para os leigos. É a que separa a linha-dura da linha-branda.
A primeira se compõe de uma minoria de militantes profissionais que, movida pelo rancor, se dedica em tempo integral à causa e gostaria de impor ao planeta regimes como o do Khmer Vermelho. Quanto à esquerda light, motivada sobretudo pelas boas intenções, ela é menos um movimento do que um estado de espírito, um clima de opinião e, como tal, vigora entre intelectuais, profissionais liberais, nas escolas, universidades e influencia o imaginário da classe média.
Embora o esquerdismo light não chegue ao extremo de formar movimentos como o Sendero Luminoso no Peru, nem tenha um roteiro para tomar o poder e transformar a sociedade de alto a baixo, é ele que de fato alimenta sentimentos difusos como o antiamericanismo, o ecologismo, o anticonsumismo, o pacifismo a qualquer custo, criando ao mesmo tempo uma platéia para produtos culturais variados que reforcem tais sentimentos.
Se a esquerda heavy metal existe convencionalmente desde os tempos da Revolução Francesa, o florescimento de sua contrapartida é recente, remontando aos anos 60. Observadores atribuem sua ascensão à exaustão gerada pelos megaconflitos do século passado e à fartura que passou a prevalecer no Primeiro Mundo. Seja lá qual tenha sido seu fertilizante, o fato é que, enquanto a esquerda linha-dura sofreu um revés com a queda do Muro de Berlim, sua prima linha-branda sobreviveu-a intacta e se fortificou de tal modo que talvez tenha sido graças a ela que a militância propriamente dita voltou a atuar como se jamais houvesse sido desmoralizada.
Quem não consiga compreender a diferença entre ambas pode recorrer a nossas variantes nacionais. Os petistas de carreira são a esquerda heavy e os tucanos, a versão light. Os petistas desprezam e até odeiam os tucanos que, por seu turno, consideram os petistas gente no fundo bem-intencionada, quem sabe um pouco influenciada pelo ardor compreensível e mesmo louvável da juventude ou da indignação. Não fosse, contudo, pela simpatia de tucanos e similares, com sua "compreensão" e nostalgia de uma ação mais idealista e vigorosa, o PT estaria bem mais isolado na sociedade brasileira.
Como é que os sentimentos difusos descritos acima se tornaram tão hegemônicos? Suspeito que o sentido através do qual eles chegaram ao subconsciente de tanta gente tenha sido a audição. Afinal, a época de sua ascensão coincide com a da expansão, planeta afora, de uma forma de expressão antes restrita: a música popular ou de massa, a canção industrial ou de consumo cuja universalização pressupunha avanços tecnológicos e um público crescente.
Antes de a arte se emancipar, aliás tardiamente, da religião, aquela era sem dúvida um dos grandes trunfos desta, capaz de veicular sedutoramente o essencial da doutrina. É difícil aquilatar o fascínio que a religião exerceu sobre gerações passadas se deixarmos de lado a arquitetura das catedrais, seus mosaicos, afrescos e vitrais, a pintura que divulgava para um público iletrado as histórias bíblicas e as vidas dos santos e, "last but not least", de Machaut e Palestrina a J.S. Bach, a música sacra.
Ora, a arte emancipada, dos tempos do iluminismo e depois, foi logo capturada pelas religiões seculares e, se as diversas ideologias do século passado, do comunismo ao nazismo, tentaram usá-la para seus fins, o sucesso dessa empreitada foi menor do que se esperava. Mas, enquanto o totalitarismo conduzia tais experimentos, a canção se afirmava, conquistando o mundo liberal e burguês.
Tratava-se no início, digamos, de Cole Porter até Elvis Presley, de algo politicamente neutro, ou melhor, apolítico. O surgimento da "new left", os protestos contra a Guerra do Vietnã, a interpenetração crescente entre política e atitudes cotidianas, além da síntese disso tudo em shows como Woodstock ou em obras como "Hair", converteram a música de consumo no fundo musical, a um tempo feedback e liga, da nova maneira padrão de sentir e pensar.
Como isso ocorreu e seu sentido, porém, serão assunto da próxima coluna.

Nelson Ascher

Sunday, November 04, 2007

Descanse e medite, suspendendo programas cansativos e extenuantes. Contato lunar com Saturno predispõe a melancolia e desânimo, fatos que devem ser levados em conta ao se despedir dos últimos dias e se preparar para enfrentar uma semana de atividades. Amor em segundo plano.

Uma idéia no lugar
Paulo Coelho, Dunga, Ricado Teixeira, dona Marisa, Aécio, Martha Suplicy, Lula e Globo. Vai ter tanta simbologia assim em Zurique!
Para a alegria da galera e o deleite dos empresários e empreiteiros nacionais, a tropa da elite da nação trouxe a Copa de volta. Era o que precisávamos para acreditar que a modernidade nos deu uma segunda chance e que seremos amanhã a China que fomos anteontem.
O mito JK renascido em FHC e transmutado em Lula reviverá no mesmo Maracanã construído pelo sonho desenvolvimentista.
Com o milagre de Dunga (jogador cascudo que num passe de mágica se fez "professor" da maior seleção que este país terá) e a fé refeita no progresso dessa terra em que o Cristo Redentor é uma das maravilhas do mundo, o anjo vingador mudará a história.
Teremos a vingança de 1950, aquele momento em que o Brasil ia dar certo, mas perdeu a Copa por "culpa" de um brasileiro pobre, negro e de codinome Barbosa. O mago Paulo Coelho e o "baixinho" (ah, as maravilhas da proximidade) Romário -este o mago dos pequenos espaços (e das negociatas vascaínas) e craque globalizado- estavam lá para garantir que a mágica será completa.
Pelé não estava lá, mas você há de convir que ele é meio "modernista" demais (digamos que restará como uma das relíquias do getulismo). Nunca antes na história deste país o nacionalismo foi tanto uma idéia no lugar.
Desde o "gente que faz" tucano, passando pelo brasileiro que não desiste, pelas minisséries da Globo, pela alegria de Galvão Bueno, pelos índices em alta do Banco Central, pelos índices em baixa de criminalidade do governo paulista (sempre tão questionados, mas quem se importa?), pelo sucesso de Kaká e dos ronaldos, até a retomada do cinema "de qualidade": passadas as privatizações, voltamos a aceditar em nós mesmos de tal maneira que até empresários andam sacando a honra da nação para deter uma certa "invasão espanhola".
Mas quem somos nós? O livro "A Cabeça do Brasileiro" [de Alberto Almeida, ed. Record] e a revista "Veja" nos mostram que somos dois.
A elite educada é democrática (não sei se Luciano Huck fez faculdade, mas ele é educadinho e democrata), e o povo é um poço de atraso e preconceito (seria o caso de Ferréz, que é escritor, mas não fez faculdade, e escreve o que passa na cabeça de gente ignorante e bárbara) -e a esquerda não sabe de nada disso.
Andam nos dizendo todos os dias que o péssimo salário dos professores não tem nada a ver com a péssima qualidade de ensino. Até o diretor de "Tropa de Elite" [José Padilha] jura que pobreza não tem nada a ver com violência. A realidade é mais "complexa".
Mas o que é "realidade" para a elite e para a tropa? Uma pesquisa mundial da consultoria Nielsen mostrou que o Brasil (ao lado das Filipinas) é o país que mais acredita no que a publicidade diz que as coisas são. Somos fanáticos fundamentalistas da imagem manipulada: acreditamos nos comerciais assim como os talebãs acreditam em Alá.
Segundo a pesquisa, o "consumidor" brasileiro acredita mais na referência vinda da TV do que na de um amigo. Nossa cordialidade foi transferida para o departamento de marketing. A propaganda é o ópio da tropa e da elite (a pesquisa foi feita com internautas, e não com desdentados analfabetos).
E foi esse espetáculo, essa máquina de criar super-realidades, que vimos sacramentar em Zurique o casamento do nacionalismo da Copa de 50 com aquele da Copa de 70.
Uma pergunta "estrangeira" sobre violência quase estraga a festa. Mas tínhamos Ricardo Teixeira para defender as honras nacionais. Violência tem em qualquer lugar, ele responde a uma jornalista canadense (sic).
Mas o que ele não disse, e nem precisava, é que nosso novo nacionalismo se legitima de outra maneira: temos a elite pura (ainda que cansada), bem-pensante e democrática, a elite ex-sindical no governo, a elite do futebol mundial e agora também a "tropa de elite" da elite. O Brasil agora é um país de elite, e a nossa combinada ação elitista irá nos levar para dentro da elite mundial.
Mas e a realidade de Terceiro Mundo? Isso a propaganda não vende, portanto não existe, é só uma permanência do pensamento de esquerda que também já morreu.
Crença nas imagens da propaganda, nas virtudes da elite rica e letrada e nos deméritos do povo ignorante: tudo isso mais o nacionalismo tresloucado que assistimos na TV, altar da nossa fé, constituirá a lona que cobrirá esse circo de horrores e delícias que será o Brasil daqui até 2014.

FRANCISCO ALAMBERT é professor de história contemporânea e de história social da arte na Universidade de São Paulo. +Mais!


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novembro 2007



CULTURA PERIFÉRICA

O biscoito fino das quebradas

Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da poesia


Eleilson Leite

Chegou a hora. A hora e a vez da cultura de periferia. Começa, neste domingo, 4 de novembro, a Semana de Arte Moderna da Periferia, evento realizado pela Cooperifa – Cooperativa dos Artistas da Periferia, junto com mais de 40 grupos culturais. Às 11 horas, tem início uma caminhada que parte da Ponte do Socorro com destino à Casa de Cultura do M’Boi Mirim. Os cerca de três quilômetros serão percorridos por intrépidas trupes, malabares, poetas engajados e outros apaixonados. Atrizes e atores celebrarão a retomada das ruas e praças como palco. Músicos tocarão tambores, violões, atabaques, numa exaltação à Periferia. Será um levante do povo trabalhador em nome do amor, da cor e da paz.

Na segunda-feira, dia 5, as atenções estarão voltadas para as artes plásticas. Oficinas acontecerão no Sacolão das Artes durante o dia. À noite, rola um vernissage de exposição coletiva com diversos artistas. Destaque para o trabalho de grafite em tela. A rapaziada que maneja os sprays está se aperfeiçoando cada vez mais na transposição de suas obras do muro para as telas. Mas também tem instalações, esculturas e pinturas em diferentes suportes.

Terça-feira (6/11) é o dia da dança. Certamente foi difícil para os organizadores fechar essa programação, tamanho o número de artistas que se dedicam à arte do corpo. Nesse dia, teremos uma bem concebida interação de linguagens artísticas. Poetas da Cooperifa farão intervenções e cineastas exibirão vídeos sobre o tema do dia. E, claro, vai ter muita dança. Destaco o Grupo Espírito de Zumbi, que faz dança afro de altíssima qualidade. Vale a pena. Todas as atividades deste dia acontecerão no CEU Campo Limpo.

Quarta-feira (7/11) é dia de Sarau da Cooperifa. É também o dia da literatura. Essa vai ser a noite da glória. “Nesta noite, os anjos e os espíritos têm licença do Senhor para descer com seus decretos”, já dizia o poeta Gaspar do Z’África Brasil. E o grande destaque do dia será mesmo o Sarau. Para lá vão convergir todos os artistas de todas as quebradas. O Bar do Zé Batidão ficará pequeno. Então chegue cedo. Aliás, chegue às 17h na Casa de Cultura do M’Boi Mirim, onde o poeta Sergio Vaz coordenará um debate sobre produção literária da Periferia. Na mesa, a presença de Alessandro Buzo, Sacolinha, Elizandra Souza e deste que escreve essas mal traçadas linhas.

Derrubar o mito piedoso da pobreza em sofrimento permanente

O Cinema na Semana de Arte Moderna terá lugar na quinta-feira (8/11). E a programação é de perder o fôlego. São cerca de 15 produções, todas de cineastas periféricos. Começa as 16h com o belíssimo “Dança das Cabaças: Exu no Brasil”, de Kiko Dinucci (média metragem), e termina com outro documentário, absolutamente fundamental para se entender a cultura suburbana: ”Panorama: Arte da Periferia”, de David Vidad, Anabela Gonçalves e Daniela Embóm. Mas não deixe de ver o filme ”Vaguei nos Livros e me Sujei com a M... Toda”, de Akins Kinte, Mateus Subverso e Allan da Rosa. Esse documentário fala de literatura e negritude, com depoimentos de escritores e escritoras que encontraram nas letras a afirmação de sua identidade de raça, de classe e de gênero. O CEU Casablanca será o endereço do cinema periférico.

Na sexta-feira, o teatro entra em cena. O dia começa com um café da manhã. As 8h30, diversos coletivos teatrais da periferia farão um colóquio regado a pingado e pão com manteiga. Às 11h, começa a jornada cênica que vai até às 20h30. Serão oito apresentações. Destaque para o grupo UMOJA que vai demonstrar o processo do espetáculo “Quem me pariu”. Tudo no Centro Cultural Monte Azul.

Sabadão chegou e a música vai tomar conta no encerramento da Semana de Arte Moderna da Periferia. O palco da Casa de Cultura do M’Boi Mirim vai ferver ao som do Trio Porão, Chapinha, do Samba da Vela que vai tocar com a rapaziada do Pagode da 27. Wesley Nóog apresentará seu samba-rock super swingado. Os mamelucos, B Valente e Banda A entram na seqüência. Às 20h40, quando a chapa já estiver em alta temperatura, sobe ao palco o Periafricania. Depois o grupo Preto Soul apresentará uma black music de primeira. A noite termina com o grupo Versão Popular. Ninguém vai ficar parado.

A Semana de Arte da Periferia mostrará que na favela a vida é bela, apesar da mazela. Os arrabaldes das metrópoles também têm seus encantos. Talvez seja desnecessário eu fazer essa ressalva. O leitor sabe disso. Mas o estereótipo é implacável. Quem não tem contato com o subúrbio acaba incorporando involuntariamente o imaginário segundo o qual os habitantes dos fundões das cidades são gente condenada à desgraça do mundo. Famélicos que não vivem, apenas agüentam, como disse o cantor popular. E é a graça de viver na periferia que será celebrada neste evento histórico. Mas não será algo ingênuo, despolitizado. Ao contrário. Ele expressará a crítica com a contundência que muitas vezes o discurso militante não consegue ter. O poeta toca a alma de quem o escuta. Então, vá lá ver, sentir e escutar. Será um evento único. Não tem outra edição programada. Talvez numa outra efeméride (90 anos, 100 anos... ) se faça um novo levante cultural antropofágico. Por isso, caro leitor, não perca. Confira a programação completa e participe.

Mais

Veja aqui a programação completa da Semana de Arte Moderna da Periferia

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edição anterior da coluna:

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica


No matter what's been happening in your life, the volume is now likely to be on the rise. If everything has been moving along according to your plan, it could get even better. If, however, you've been having a hard time, it may feel like things can get worse. Your fortune is beyond "better" and "worse." Don't get caught up in the judgment; just hang in there.

Saturday, November 03, 2007

A ciência e Deus

As mais tradicionais "provas" da existência de Deus - a "prova ontológica", de Anselmo de Canterbury, e as "cinco vias", de Tomás de Aquino - jamais se recuperaram da refutação que sofreram, por obra de Kant, no século 18. Assim, entende-se que, em seu livro Deus, um Delírio, Richard Dawkins não lhes dedique muita atenção.
Por outro lado, sendo um biólogo, Dawkins se preocupa principalmente com as pretensões dos defensores do "intelligent design" (que, numa de suas típicas tiradas, ele chama de "criacionismo de smoking"). Estes alegam que a vida, os seres vivos, o ser humano etc. são complexos demais para terem sido produzidos pelo acaso.
Segundo eles, pensar o contrário seria como supor que um furacão que varresse um ferro-velho seria capaz de montar um Boeing 747. Como não dá para crer que algo tão improvável ocorra, eles inferem que tais coisas só podem ter sido produzidas por um designer ou projetista, isto é, por Deus.
A partir dessas considerações, explica-se que Dawkins trate a existência de Deus à maneira de uma hipótese científica como outra qualquer. Aqui não há como não lembrar a lapidar resposta do grande astrônomo Laplace a Napoleão, quando este lhe perguntou por que não mencionara Deus ao explicar o funcionamento do sistema solar: "Excelência, não precisei dessa hipótese".
Pois bem, Dawkins se propõe a considerar a hipótese científica de que "existe uma inteligência sobre-humana e sobrenatural que deliberadamente projetou ("designed') e criou o universo e tudo o que nele se encontra, inclusive a nós".
A que conclusões chega? Em primeiro lugar, ele concorda que realidades tão complexas não podem ter sido produzidas pelo mero acaso. Em segundo lugar, porém, ele nega que elas possam ser satisfatoriamente explicadas por um designer. Por quê? Porque, dado que o designer de alguma coisa não pode deixar de ser mais complexo do que essa coisa, seria ainda mais difícil explicar a existência dele do que a dela. Será preciso então apelar a um outro designer para explicar o primeiro, e depois a outro para explicar o segundo, e assim ao infinito: o que desqualifica essa explicação. Desse modo, revela-se inaceitável a hipótese da existência de Deus.
Segundo Dawkins, o que realmente dá conta da produção de coisas extremamente improváveis como o ser humano não é nem o mero acaso nem o design, mas o processo de seleção natural. Este consiste na produção de algo improvável por meio de inúmeras etapas. "Cada uma das etapas", diz ele, "é um tanto improvável, mas não irrealizável. Quando um grande número desses eventos um tanto improváveis se acumula numa série, o produto final da acumulação é de fato muito improvável, tão improvável que não poderia ter sido produzido pelo mero acaso".
É esse resultado final do processo de seleção natural que é usado pelos proponentes do "intelligent design" (incapazes de compreender o poder da acumulação gradativa de improbabilidades) como argumento para a sua modalidade de criacionismo.
Os filósofos ou teólogos que alegam, contra o procedimento de Dawkins, que ele não está levando em conta o fato de que Deus não tem causa imanente, uma vez que é transcendente, de que Deus é uma primeira causa incausada etc., não têm cabimento aqui, já que Dawkins não está senão examinando a hipótese fundamental do "intelligent design", que se pretende puramente científica, e rechaçando-a nos próprios termos em que ela se propõe.
E a verdade é que, neste ponto, a argumentação de Dawkins só tem sentido se entendida desse modo, como uma espécie de sátira da teoria do "intelligent design". Por quê? Porque o "intelligent design" jamais poderia realmente ser considerado como uma hipótese científica.
Quando Laplace diz que não precisa da hipótese de Deus, está, na verdade, explicitando a principal regra do jogo constitutivo da própria ciência: de toda ciência. Deus não vale como hipótese porque tal hipótese explicaria tudo e qualquer coisa: logo, ela não explicaria nada. Assim, ainda que, pessoalmente, um cientista acredite na existência de Deus, ele não pode, sem trair a sua ciência, aduzir Deus para "explicar" coisa alguma.
A ciência é exatamente a tentativa de explicar o mundo como se Deus não existisse. Não ter deixado isso suficientemente claro -talvez por não o ter suficientemente compreendido- é certamente um dos maiores erros cometidos pelo autor de Deus, um Delírio.

Antonio Cicero

A Lua passa hoje por seu signo, acentuando nervosismo e preocupação; neutralize a tendência cuidando mais de si e deixando de lado o que independe de seu poder. Vibração astral inclina a repensar no uso bom ou mau que tem feito de seus talentos e recursos.

You feel emotionally vulnerable now that the Moon is back in your sign and you may feel slighted if you don't receive the appreciation that you deserve for your hard work. You are usually willing to help others, but you should also give something to yourself today in order to enhance the quality of your own life. There's nothing wrong with self-interest, especially if your health and vitality could benefit from extra attention.

Friday, November 02, 2007

Sobre a Fundamentação dos Valores

“(...) a parte que a força desempenha na natureza, como causa do movimento, tem por contrapartida, na esfera mental, o motivo como a causa da conduta”

Max Planck in Causation and Free Will. (citado por Hannah Arendt)

1. (...) “sobre o fundamento racional que podemos achar para o que consideramos valioso, isto é, para o fato de que assim o reputemos: o que funda e sustenta a preferência por determinadas atitudes, por certos comportamentos e instituições? Qual a razão da estima que merecem? E (...) não apenas o fato de serem estimados, mas o direito que temos de valorá-los assim.

(...) No imperativo moral – deixando agora de lado sua natureza hipotética ou categórica – coexistiram em todas as épocas e em todas as culturas dois ingredientes: a interiorização da norma social e o projeto de excelência pessoal. Essa coexistência nunca foi totalmente pacífica, mas sempre conheceu um vaivém mais ou menos acentuado de natureza dialética. Por um lado, a moral impõe o respeito ao coletivo e a subordinação da auto-afirmação individual à auto-afirmação do grupo ou até da humanidade em seu conjunto. Note-se que não se trata nunca de passar do interesse ao desinteresse, mas de um interesse mais estreito a um interesse mais geral; ou, se preferirem, de um interesse mais frágil e comprometido – o do indivíduo – a um interesse mais seguro, estável e consolidado, o da coletividade.

(...) Num primeiro momento, o indivíduo não se sente com forças suficientes – com suficiente vontade (energia ativa) – nem mesmo para conceber (...) uma aspiração ou destino pessoal; ele precisa sentir-se coberto pela vontade (energia ativa) coletiva, ligada ao dínamo social que institui e potencializa a resistência biológica e simbólica à morte. Por outro lado, num momento posterior do processo da genealogia ética, o assentamento da (...) empresa coletiva devolve ao indivíduo a plenitude de seu desejo auto-afirmativo, mas já como projeto ou destino pessoal.

(...) Seja como for, toda ética da excelência individual interioriza e potencializa os valores de um grupo, cujos membros aceitam um mesmo marco axiológico que define sua competência e delimita sua competição, enquanto as morais do bem comum nunca deixam de se propor como um caminho abnegado para a perfeição pessoal.

(...) As éticas transcorrem de códigos indistintamente coletivos a outros distintamente personalizados, da inatacabilidade sagrada da norma ao questionamento e recriação subjetiva, da fundamentação ancestral à projeção histórica, do acatamento do tabu ao reconhecimento da utilidade, da exterioridade coativa à interiorização do dever, do predomínio da lógica da pertinência (e exclusão) própria do grupo à dinâmica da participação relativa e da abertura universal próprias do individualismo, etc. Ou seja, da moral de fusão necessária à moral de livre distinção.

(...) A vontade individual se afirma por tentativas graças à energia recebida da vontade social capitalizada, mas esta afirmação é sentida, para começar, como choque e, portanto, como ameaça de destruição.

(da Antiguidade tribal aos tempos modernos) (...) O processo social pelo qual se produziu uma consciência individual capaz de suportar a si mesma sem pânico nem busca imediata de expiação foi sumamente trabalhoso e, ainda hoje, dista muito de estar concluído.

2. (...) toda moral tem sua raiz na busca decidida do mais conveniente para o sujeito, do que mais interessa a ele.

(...) A vontade – isto é, a capacidade ativa de procurar a imortalidade – começa a ser experimentada em certos casos ou em certos aspectos como aventura individual e não apenas como participação irremediável num fundo energético comum. Por “imortalidade” não se entende aqui a negação da morte nem a sobrevivência espiritual depois da morte, mas a resistência institucional ante a desvalorização aniquiladora que a presença permanente da morte impõe a toda a atividade humana. A imortalidade não nega a morte, mas é uma exigência vital ante sua irrefutável constatação: de tal modo que morte é vazio, e a imortalidade reclama plenitude; morte é acabamento, e a imortalidade busca duração ou perpetuação; morte é esquecimento, e a imortalidade quer memória; morte é despojamento, e a imortalidade procura propriedade; morte é suprema indiferença, e a imortalidade pretende distinção; morte é inação, e a imortalidade se afirma na atividade criadora; morte é desagregação caótica, e a imortalidade estabelece uma coordenação ordenada; morte é insensibilidade definitiva, e a imortalidade não pode renunciar ao prazer e à satisfação... Numa palavra, morte é cessação do sentido de uma condição cuja humanidade arrima em tê-lo, e imortalidade é consolidação do sentido diante da morte e apesar da morte. Toda instituição humana é num grau ou outro imortalizadora e não há mais cultura que a pretensão de imortalidade.

(...) o interesse que o indivíduo pretende assegurar é o de sua imortalidade, que não é mera sobrevivência, mas vida ao abrigo da necessidade e a despeito do (des) falecimento: perduração da intensidade, pertinência ao eterno. A forma mais acessível – digamos a mais barata, porque é a que menos custa embora não seja a de melhor qualidade – de alcançar este objetivo é a entrega efusiva a um grupo já consolidado, a uma tradição social, é a identificação com um líder ou um povo, a fé num Deus e numa religião salvadora ou no transmundano. Essas opções tendem a suprimir o obstáculo mais evidente para a imortalidade, que é a fragilíssima particularidade do sujeito individual. Em última instância, são fórmulas mais ou menos sofisticadas de perduração na espécie, que destrói os particulares, mas conserva e reproduz indefinidamente o genérico. Por outro lado, e isso é muito importante, ajudam a suportar a culpabilidade que sente o eu por se afirmar ativa e, portanto agressivamente diante do que preexiste a ele. A culpa do indivíduo ao agir como tal é o presságio da morte que há de castigar sua finitude. Ruptura com a matriz da espécie ou com o clã, ameaça de castração paterna ou legal, enfrentamento com a hostilidade numerosa dos outros, solidão diante das conseqüências nunca totalmente previsíveis da escolha própria, desafio à monstruosa natureza que vai nos cobrando um a um... Mas os demais sujeitos não se afiliam automaticamente à via da imortalidade coletiva – ou não fazem totalmente, ou não principalmente – e querem conservar juntamente o individual e o específico, o particular e o genérico de sua própria entidade. Ou seja, colocam-se o problema de imprimir uma marca irrepetível e distinta à fórmula da imortalidade, requerendo a cumplicidade e o apoio da coletividade, claro, mas negando-se à via despersonalizada dos que renunciam à sua alma para salvá-la melhor”.

Fernando Savater - Ética Como Amor Próprio