Tuesday, January 22, 2008

Em média, professor da rede pública ganha mais que da particular

Os professores da educação fundamental das escolas públicas (estadual e municipal) do país ganham, em média, mais do que os da rede particular.
Os docentes de 1ª a 4ª série (o antigo primário) das escolas estaduais têm um rendimento mensal médio de R$ 1.398, ante R$ 1.051 das municipais e R$ 1.048 das particulares.
A constatação está presente em tabulações da Pnad 2006 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE) feitas por Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE e atual presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade. Dados do Ministério do Trabalho confirmam o panorama.
A rede pública paga mais também na 5ª a 8ª (antigo ginásio) e da educação superior.
No antigo ginásio, a média no sistema estadual é de R$ 1.347, contra R$ 1.120 na particular -a municipal paga R$ 1.230.
O sistema particular só oferece salários maiores no ensino médio (antigo colegial) -veja mais em quadro ao lado.
A lógica se mantém mesmo quando se simula que todos os educadores do país tivessem a mesma jornada.
Uma das explicações para que a média na rede particular seja mais baixa é sua heterogeneidade. Na capital paulista, por exemplo, há escolas de regiões mais pobres em que os salários não chegam a R$ 700, enquanto outras escolas de ponta, como o Santa Cruz (em Pinheiros), pagam mais de R$ 8.000.
Essa diferença salarial entre os colégios reflete na qualidade de ensino no setor privado.
As médias no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) entre as dez escolas particulares de São Paulo de melhor salário variam de 68 a 58, numa escala de 0 a 100. Entre as dez com piores salários, a variação é de 47 a 56. O ranking de rendimentos foi feito pelo sindicato dos professores da rede particular no ano passado.
A oscilação salarial não costuma ter tanto impacto nas redes públicas. No sistema estadual de São Paulo, por exemplo, a diferença entre o piso e o teto da 1ª a 4ª séries é de 92,3%.
A grande diferença entre os Estados também ajuda a explicar as baixas médias. O cruzamento dos dados da Pnad 2006 com o Censo dos Profissionais do Magistério da Educação Básica, feito em 2003 pelo MEC, aponta que os salários da rede privada no Nordeste puxam a média nacional para baixo.
Em Sergipe, por exemplo, a rede particular pagava R$ 410, contra R$ 628 da pública.
Naquele ano, as redes privadas do Distrito Federal e de São Paulo pagavam uma média superior a R$ 1.200.

Análises

Pesquisadores apresentaram diferentes análises e explicações para o setor público pagar mais que a rede particular.

Para Samuel Pessoa, professor da FGV-RJ que estuda os rendimentos dos docentes, "a carreira de professor da rede pública não é tão ruim como afirmam". Schwartzman complementa: "Não é à toa que todos que podem tratam de conseguir um emprego público".
A análise do pesquisador da USP-Ribeirão Preto José Marcelino Rezende Pinto, ex-diretor do Inep (instituto de pesquisas do MEC), é diferente. "Independentemente da diferença entre público e privado, os professores no país ganham mal" (leia mais nesta página).
O assessor especial da Unesco no Brasil, Célio da Cunha, diz que a média esconde diferenças regionais. "Há redes públicas próximas ao adequado. Outras pagam mal. O mesmo ocorre na rede privada."
A coordenadora da Contee (entidade que representa os professores do ensino particular do país), Madalena Guasco Peixoto, afirma que os salários da rede privada são mais baixos no ensino fundamental porque, nesse nível de ensino, quase toda a população já foi atendida.
"A presença do setor público é muito forte e, por isso, as escolas não precisam disputar alunos. Oferecem apenas o básico do básico", disse.
"No médio, como ainda há muita gente fora da escola, elas precisam brigar pelos estudantes. Assim, pagam melhor", completou Peixoto, que é pesquisadora da PUC-SP.
Uma explicação possível, afirma o presidente da Fenep (federação das escolas particulares do país), José Augusto Lourenço, é que incentivos tributários oferecidos a partir da década de 90 (o Simples) estimularam a abertura de escolas de pequeno porte, que têm menos condições de pagarem salários melhores. "Isso mostra que também há escolas particulares com baixa qualidade."
Para a presidente da CNTE (entidade que representa professores da rede pública), Juçara Dutra Vieira, "os dados apontam mais para um agravamento na rede privada do que uma situação ideal na pública".

Rais

Além da Pnad, a Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho, também aponta que a rede pública paga mais.

Com base em 2006, o trabalho mostra que a média salarial dos docentes dos ensinos infantil e fundamental na rede federal era de R$ 5.640; na rede estadual, R$ 1.656; na particular sem fins lucrativos, R$ 1.431; e na particular com fins lucrativos, R$ 740 -as divisões são diferentes das da Pnad.

ANTÔNIO GOIS - DA SUCURSAL DO RIO / FÁBIO TAKAHASHI - DA REPORTAGEM LOCAL

Monday, January 21, 2008

Reparação

[ A brutalidade de nosso desejo sempre nos deixa a tarefa de reparar o objeto desejado ]

Estreou na sexta passada Desejo e Reparação, de Joe Wright - uma adaptação, essencialmente fiel, da obra-prima de Ian McEwan, Reparação (ed. Companhia das Letras).

O filme recebeu o Globo de Ouro para melhor drama e será certamente um sucesso de público. O livro de Ian McEwan é já um clássico e um best-seller. Por quê?

Certo, Joe Wright fez um filme maravilhoso, e McEwan é um dos melhores escritores do momento. Mas não é só isso.

Acontece que, na tela ou nas páginas, a história contada revela e ilustra um canto ao mesmo tempo escuro e familiar da subjetividade de todos nós, ou melhor, como se diz em psicologia, um mecanismo psíquico que governa nossa vida muito além do que a gente pensa.

Resumindo: uma menina, dotada de uma certa predisposição artística e inspirada por uma paixão amorosa e pelo ciúme inconfessável que essa paixão produz, faz uma sacanagem que estraga radicalmente a vida da irmã assim como a do jovem que ama essa irmã e é amado por ela.

A menina, ao crescer, tenta expiar sua culpa e descobre que ela poderá remir-se escrevendo não tanto a verdade do que aconteceu, mas uma história, um romance. É de uma vida dedicada à literatura que ela esperará a redenção: um romance reparará, enfim, o ato funesto que ela cometeu.

Os distribuidores brasileiros do filme mudaram o título de McEwan.

Acrescentando "desejo" a "reparação", eles fizeram uma escolha aceitável. Evitaram, em particular, a tentação de optar por algo como "Culpa e Reparação", termos ligados por uma implicação óbvia: a gente faz uma besteira, sente-se culpado e tenta acalmar a culpa reparando os danos - às vezes, trata-se de uma decisão consciente, outras vezes, nossa vida inteira se organiza ao redor de um projeto reparador sem que a gente saiba direito por quê (afinal, somos sempre culpados de alguma coisa, não é?).

Claro, a culpa pode exigir reparação, mas talvez a vontade de reparar os tortos não seja apenas a conseqüência das culpas que nos tocam por causa de nossos malfeitos. Talvez essa vontade seja algo mais radical, mais originário.

Foi uma grande psicanalista, Melanie Klein, que introduziu a "reparação" entre os conceitos da psicanálise. A idéia básica é a seguinte: um belo dia, o bebê se dá conta de que os objetos de seu amor são pessoas inteiras (por exemplo, ele descobre que não gosta apenas do seio que o alimenta, das mãos que cuidam dele etc., mas da mãe como um todo). Logo, nosso bebê começa a sentir a necessidade de "reparar" os "danos" que sua visão anterior do mundo teria causado - em suma, de reconstituir o corpo materno que ele havia consumido aos pedaços.

Isso pode parecer bastante exótico aos olhos do leigo. Mas, para entender, basta considerar que nunca paramos de oscilar entre a vontade de despedaçar o outro e a vontade de reparar os estragos. Como assim?

É simples e está no título do filme (Desejo e Reparação). No desejo sexual, em geral dilaceramos o outro desejado. Por exemplo, o desejo, sempre um pouco fetichista, prefere os pedaços: o decote, a voz, um olhar, a perna cortada pela cinta-liga, a queda dos rins, a forma dos lábios e por aí vai. Quando amamos a quem desejamos, o amor nos ajuda a reparar os efeitos do estilo carniceiro do nosso desejo: idealizamos o amado e a amada para que a beleza que neles enxergamos os preserve de nossa própria crueldade.

Falando em beleza, justamente, Melanie Klein e seus primeiros alunos já pensavam que talvez a vontade ou a necessidade de reparar o mundo (despedaçado por nosso próprio desejo) fosse a força que anima nossas ambições estéticas.

A incrível persistência humana na tentativa de criar algo bonito lhes parecia ser o jeito que inventamos para compensar a violência de nossa cobiça (não só sexual, aliás). Ou seja, os danos produzidos pela brutalidade de nosso querer nos dariam vontade de arrumar o mundo, de embelezá-lo, de fazê-lo ficar "bom de novo", como dizia Klein.

Em suma, talvez nossa capacidade de criar algo misteriosa e extraordinariamente "bonito" (como o livro de McEwan e o filme de Wright) seja a maneira que encontramos para proteger aos outros, a nós mesmos e ao mundo contra a "loucura" de nossos desejos.

Nota: é bem possível que nossa paixão ecológica de hoje tenha uma origem parecida. Afinal, ela tenta preservar e restaurar o que não sabemos deixar de destruir.

Contardo Calligaris

Flash Gordon

Numa entrevista à TV, o escritor português Antonio Lobo Antunes disse que todo escritor, ao ser indagado sobre as influências que o levaram a escrever, costuma citar Joyce, Proust, etc. Para ele, isso é conversa fiada de intelectual. “Quem nos leva a escrever é Flash Gordon”, disse. “Muito antes de conhecermos os grandes autores, a vontade de contar histórias já nos foi despertada por aqueles autores ditos menores, mas que apaixonam nossa imaginação: Emilio Salgari, Julio Verne...”

Yambo, o protagonista da A Misteriosa Chama da Rainha Loana de Umberto Eco, é um homem com amnésia que reconstitui a própria infância através dos livros e gibis que leu. Yambo relaciona a imagem de Flash Gordon, que ele lia no semanário L’Avventuroso, aos heróis arianos da época (1934) e à própria imagem de Mussolini, e diz à página 237: “Tive em Flash Gordon a primeira imagem de um herói de uma guerra de libertação combatida em um Alhures Absoluto, fazendo explodirem asteróides fortificados em galáxias distantes”. Ele percebe também os anacronismos dos quadrinhos de Alex Raymond, em que os personagens “eram incongruentemente dotados tanto de armas brancas ou flechas quanto de prodigiosos fuzis de raio fulminante”.

Ariano Suassuna recorda ter visto na infância Flash Gordon no Planeta Mongo, e diz: “Quando vi a chegada do homem à Lua pela televisão, fiquei decepcionado. Flash Gordon era mil vezes mais interessante”. Lobo Antunes nasceu em 1942, Eco em 1932 e Ariano em 1927. Nestes três escritores tão diferentes entre si vemos o resultado de uma das primeiras investidas maciças da cultura pop norte-americana (cinema e quadrinhos) durante as décadas de 1930-40.

Hoje em dia vivemos saturados de “Space Opera”, a tal ponto que mesmo os aficionados (como eu) consideram isto uma banalização insuportável da beleza da FC. Flash Gordon surgiu numa época em que o “realismo aparente” era soberano. Naquela paisagem naturalista e banal suas aventuras envolviam reinos futuristas, monstros pré-históricos, foguetes espaciais, lutas de gladiadores, pistolas desintegradoras. Eram, e ainda são, um escoadouro indisciplinado e descontraído para as imagens do inconsciente, sem a mínima preocupação com a lógica ou a verossimilhança. A imagem brotando pelo seu valor como imagem; a peripécia surgindo pelo seu valor como peripécia.

Flash Gordon foi o Star Wars de seu tempo, ou melhor, uma síntese surrealista entre o futurismo de Star Wars e o medievalismo de O Senhor dos Anéis. Nada tem de científico. Seus enredos são absurdos, seus personagens são de papelão. No cinema, os efeitos especiais provocam risos no espectador de hoje; nos quadrinhos, o belo desenho de Alex Raymond continua imbatível. Mas acima de tudo ele comprova o poder da imaginação pura, despida de pretextos, independente da razão e da lógica. Flash Gordon é o nosso inconsciente coletivo posto a nu e revelado às crianças antes que elas sejam vacinadas contra a imaginação.

Braulio Tavares

Trapo
Álvaro de Campos


O dia deu em chuvoso.

A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.

Sunday, January 20, 2008

Educação para Todos na encruzilhada

No ano 2000, os líderes mundiais acordaram um conjunto de metas para estimular avanços visando a concretização, até 2015, do previsto no tratado Educação para Todos (EFA, na sigla em inglês, proposto durante o último Fórum Mundial sobre a Educação promovido pela Unesco).
As metas do EFA são: ampliar a educação e a assistência à primeira infância; garantir o ensino primário gratuito e obrigatório; promover a aprendizagem e habilidades para a vida; aumentar em 50% a alfabetização de adultos; alcançar a igualdade de gêneros; e assegurar a qualidade em todos os níveis de ensino.
Entretanto, pesquisas recentes mostram que, a meio caminho de 2015, os governos ainda estão deixando de atender às crianças e aos adultos analfabetos.
Existem 774 milhões de adultos desprovidos do grau mais rudimentar de alfabetização e 72 milhões de crianças - mais da metade das quais são meninas - estão fora da escola.
Quase a metade dessas crianças que não freqüentam a escola vivem em Estados frágeis. As crianças de famílias pobres não têm meios para pagar mensalidades e taxas ainda prevalecentes em mais de 90 países.
Muitas precisam trabalhar para ajudar a sustentar suas famílias, freqüentemente em condições desesperadoramente perigosas e insalubres: segundo a Organização Mundial do Trabalho, 111 milhões de crianças trabalham em "atividades de risco". As crianças portadoras de deficiência, as que integram comunidades étnicas minoritárias e as que são doentes de Aids ou soropositivas enfrentam ainda outros obstáculos para chegar à escola.
Juntando os dados da ONU e do Banco Mundial a pesquisas alternativas conduzidas pela sociedade civil, a Campanha Global pela Educação (GCE, na sigla em inglês) divulgou no ano passado o relatório "No Excuses" ("Sem Desculpas"), em que atribui "notas" de A a F a todos os governos, segundo seu desempenho até hoje no tocante à educação.
Os governos que obtiveram as melhores "notas" incluem os de Maurício, Letônia e Uruguai, enquanto o fundo da classe é ocupado por Haiti, Somália e Guiné-Bissau.
Os países mais ricos também são avaliados quanto ao cumprimento da promessa com relação ao EFA: fornecer assistência adequada e de longo prazo para que as metas sejam alcançadas. Enquanto Noruega e Holanda ocupam o topo desse ranking, os países do G8 são os piores quando se trata de dar o financiamento prometido para a educação, e os EUA são o último colocado em sua "classe do G8".
Quando são avaliados dentro da tabela global, o Reino Unido ocupa o quinto lugar, o Canadá, o 36º, a França, o 91º, a Alemanha, o 109º, o Japão, o 124º, e a Itália e os EUA, na 146ª posição, ocupam quase os últimos lugares na classe global.
Mas as evidências também indicam que muito pode ser realizado quando os governos priorizam a política educacional. Nos últimos 18 anos, vários países em desenvolvimento conseguiram avanços importantes na ampliação do ensino fundamental. Entre eles estão Costa Rica, Cuba, México, Sri Lanka e Tailândia.
E avanços notáveis têm sido conseguidos em alguns dos contextos mais difíceis; milhões de crianças passaram a freqüentar a escola em países como Quênia, Camarões, Botsuana e Burundi, nos quais, nos últimos anos, os governos eliminaram as mensalidades escolares.
O Brasil faz parte dos 20 primeiros países do ranking mundial graças aos esforços feitos aqui, sobretudo por meio da pressão de organizações sociais e da sociedade civil e, ainda, de experiências como o Bolsa Família.
Com 2015 chegando cada vez mais perto, a GCE leva adiante sua campanha de pressão global e espera que atores como os movimentos sociais brasileiros e líderes como o presidente Lula continuem a dar um bom exemplo e a defender a causa do bem global nessa questão de importância tão vital.
Acreditamos que as histórias de êxitos vão inspirar outros líderes de países em desenvolvimento a redobrar seus esforços. Também estamos convencidos de que mostrar o que pode ser conseguido com a vontade política certa, respaldada por recursos, pode envergonhar os doadores, levando-os a cumprir suas promessas.
O ano de 2008 também será o 60º desde a Declaração dos Direitos Humanos da ONU; vamos nos assegurar de que a geração que vai nascer neste ano possa finalmente crescer com a luz e a esperança que a educação traz à vida de cada um.

KAILASH SATYARTHI , indiano formado em engenharia eletrônica, é o presidente da Campanha Global pela Educação. Foi o fundador da Aliança do Sul da Ásia contra a Escravidão das Crianças e da Marcha Global contra o Trabalho Infantil. Em 2006, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz.

As musas não têm perfil, seu rosto quem o dá é o Destino, a seu gosto.
- São feitas da matéria de que são feitos os sonhos!
Desejar o corpo da musa é o abismo.
Foi inevitável: me atirei.
Cruzei a ponte que separa os dois mundos incompatíveis.
Agora, feito um bailarino hindu que dançou no alto de uma árvore
na ponta de um pé só,
penso o equilíbrio entre o ar e o vazio, as mãos mandam mensagens,
um alfabeto de gestos, enquanto despenco.
Lá embaixo alguém acena: pareço dizer adeus?
Na guerra dos mundos, os dois mundos que não combinam acabaram por se tocar.
Já era tarde, noite alta.
E o corpo da musa,
impenetrável.

foto: Carla Zavatieri

Ante o colapso final a vertigem
Próximo ao chão a penúltima descoberta
Que a lógica violenta das cores tinge
A velocidade terrível da queda
A velocidade terrível da queda


?

Saturday, January 19, 2008

Sunday, January 13, 2008

TARO ROTA TORA ATOR ORAT


Quintessência: Os Amantes - a Decisão
2 + 1 + 1 + 9 + 1 + 8 + 2 + 0 = 24 = 2 + 4 = 6

O caminho do amor e da decisão

Reconheça sem preconceitos o seu parceiro, a sua tarefa, o seu caminho. Deixe cair todos os pré julgamentos e aceite o outro ou a situação tal como se apresentam. Não se deixe orientar pelo ciúme, mas também evite desistir do parceiro.




Saturday, January 12, 2008

O falibilismo versus o relativismo

Alguns leitores me disseram não ter achado claro o significado da expressão "modernidade filosófica", que, no artigo passado, contrapus ao relativismo vulgar. Em outra ocasião, havia citado Kant para explicar que a modernidade surge e se mantém como a época da crítica, isto é, da razão crítica.
Criticar é separar ou distinguir. A crítica põe de um lado o que passa pelo seu crivo e de outro lado o que não passa por ele. Já que dar nome às coisas, defini-las, classificá-las etc são modos de distingui-las umas das outras, essas atividades representam manifestações da crítica. Assim, a razão crítica constitui uma condição da própria linguagem que, por sua vez, a potencializa.
A crítica distingue entre as proposições logicamente necessárias e as logicamente contingentes. As necessárias (por exemplo, "A = A") são aquelas cujo oposto é contraditório, logo, inconcebível. As contingentes (por exemplo "a Terra gira em torno do Sol") são aquelas cujo oposto é concebível.
Também a dúvida é uma manifestação da razão crítica. A dúvida metódica, que inaugura a filosofia moderna, lembra que, sendo contingente que eu - seja lá quem eu for - não esteja a delirar ou sonhar, há sempre, em última análise, a possibilidade de que eu esteja a delirar ou sonhar. Conseqüentemente, é uma verdade necessária que, em última análise, não posso ter certeza absoluta da existência ou efetividade de coisa nenhuma. Só não posso, é claro, duvidar da efetividade de mim mesmo, uma vez que, mesmo ao duvidar dela, eu a exerço. Observe-se, entretanto, que, neste contexto, "eu" não sou nenhum ser concreto, de modo que a efetividade em questão é a da própria razão crítica, de que não passo de portador.
A cláusula "em última análise", que tenho repetido, está longe de ser meramente retórica. É só no nível extremo de radicalidade analítica que todas as certezas mencionadas são relativas. No nível dos conhecimentos práticos, usamos as palavras de outro modo.
Isso é um pouco como o que ocorre com a física relativista. A dilatação do tempo, por exemplo, segundo a qual o tempo passa tanto mais rápido quanto mais rapidamente um objeto se mova, é algo que só se observa a velocidades próximas da luz. Como tais velocidades jamais são alcançadas pelos objetos cotidianos, os efeitos da relatividade não são observáveis na vida corrente. Assim, no dia-a-dia, devemos nos comportar e falar como se o tempo fosse o mesmo para todos os objetos, mesmo sabendo que, em última análise, não é assim.
Do mesmo modo, no nível da vida corrente, considero ter certeza absoluta de estar sentado em frente ao meu computador, terminando de escrever este artigo. Digamos que o artigo estivesse um pouco atrasado e o editor do jornal me telefonasse, perguntando por ele. "Estou terminando de escrevê-lo", diria eu. Talvez ele duvidasse disso e insistisse: "Tem certeza?". Possivelmente, então, eu lhe responderia, por exemplo: "Certeza absoluta!". Com essa resposta, eu estaria sendo muito mais veraz do que se tivesse respondido, no lugar de "certeza absoluta", "certeza relativa". Por quê? Porque, nesse último caso, eu lhe daria a falsa impressão de não estar realmente a terminar o artigo.
Mas por que, então, não abandonar a "última análise" e ficar restrito ao plano das certezas práticas? Porque o reconhecimento da possibilidade de que esteja errado qualquer um dos nossos pretensos conhecimentos empíricos, bem como qualquer um dos nossos sistemas de idéias, tanto laicos quanto religiosos, é importante para, entre outras coisas, a constituição da ciência. Chamamos esse reconhecimento de "falibilismo".
Eis como, no que diz respeito ao conhecimento, se opõem a modernidade filosófica e o relativismo vulgar. Este nivela todos os pretensos conhecimentos, considerando-os como igualmente verdadeiros e/ou igualmente falsos. A modernidade filosófica, ao contrário, permite hierarquizar os conhecimentos.
A partir do falibilismo, ela determina a produção do conhecimento científico como um processo em princípio aberto à razão crítica, público, baseado em premissas imanentes, e cujos resultados são - em última análise - sujeitos a serem revistos ou refutados. A certeza que posso ter da verdade do conhecimento produzido nessas condições não é menor do que a certeza prática que tenho de estar sentado em frente ao meu computador. Por outro lado, o falibilismo revela o caráter fictício de todo pretenso conhecimento que se subtraia à razão crítica ou à inspeção pública, que se baseie em premissas transcendentes, ou cujas doutrinas sejam impermeáveis a revisões ou refutações.

Antonio Cicero

Bouvard e Pécuchet
Livro clássico de Flaubert faz rir com nó na garganta

Quem tiver preparado aquela famigerada listinha de resoluções de Ano Novo ainda tem chance de nela acrescentar um item mais "realizável" do que os habituais "vou emagrecer", "vou fazer ginástica", "vou me estressar menos". Seria ele (e o crítico literário é, por dever de ofício, sempre otimista em suas expectativas): "vou ler o livro Bouvard e Pécuchet.
Comédia da imbecilidade (e da fragilidade) humana, o romance de Gustave Flaubert, como escreveu Juan José Saer, vai fazer seu leitor rir bastante, mas muitas risadas serão acompanhadas de um "nó na garganta".
Produto de um trabalho insano, para o qual centenas de livros dos assuntos mais diversos tiveram de ser consultados, o texto conta o encontro de dois copistas que se conhecem por acaso e, percebendo inúmeras afinidades, resolvem depois de um tempo juntar as economias e uma herança que em boa hora chegara e se mudar para o campo, onde poderiam estudar e fazer experiências a respeito de tudo que existe.
É assim que, capítulo após capítulo, a partir de um esquema narrativo absolutamente estruturado, acompanhamos os personagens mergulhando no mundo da agricultura, da química, da medicina, da história, da literatura, da filosofia, da religião etc.

Romance inacabado

Como afirma Guy de Maupassant em artigo (reproduzido em apêndice nesta nova edição) de 1881, publicado quando o livro é lançado (um ano após a morte de Gustave Flaubert, que não consegue terminá-lo), o texto faz "um exame de todas as ciências, da forma como elas se manifestam a dois espíritos bastante lúcidos, medíocres e simples".
Possivelmente, uma das questões centrais da obra seja que, ainda que a mediocridade e a simplicidade dos dois amigos se mantenham inalteradas, os instantes de lucidez parecem se ampliar na mesma medida em que a variedade de temas se multiplica (e o capítulo sobre religião, nesse sentido, é devastador).
Daí um pessimismo que o final nunca escrito, mas do qual são conhecidos os planos, só consegue exacerbar. Este inacabamento, aliás, pode ser visto como uma das marcas de distinção da obra, uma qualidade especial de textos que talvez tenham chegado perto demais de um lugar que não poderia ser alcançado -textos como O Processo, de Franz Kafka, ou O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (se você quiser aumentar aquela listinha de resoluções de final de ano...).

ADRIANO SCHWARTZ é professor de literatura da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP

BOUVARD E PÉCUCHET
Autor: Gustave Flaubert
Tradução: Marina Apenzeller
Editora: Estação Liberdade
Quanto: R$ 48 (400 págs.)
Avaliação: ótimo

Friday, January 11, 2008

Liberdade para o quê?

Quando janto fora, prefiro os restaurantes onde sou um cliente conhecido, porque, em princípio, eles aceitam com um sorriso meu comportamento, que é um pouco atípico: não gosto de ler o cardápio, peço o prato do qual estou a fim naquela noite, que ele esteja ou não no menu. Caso a cozinha não disponha dos ingredientes necessários, o maître e eu imaginamos um compromisso próximo de meus desejos.
Nota: às vezes os que lêem o cardápio do começo ao fim, à força de hesitar entre massas, risoto, carne ou peixe, acabam se entupindo de pão e couvert - e assim perdem o apetite.
Pensei nisso ao reler O Paradoxo da Escolha, Por que Mais é Menos, de Barry Schwartz, recentemente traduzido em português (ed. Girafa). Schwartz constata, com razão, que a multiplicação das possibilidades de escolha (que é própria da sociedade de consumo) constitui, de fato, um fardo.
Exemplo: queremos comprar uma calça jeans e descobrimos que existem infinitos cortes, desbotamentos, preços etc. Ótimo, somos LIVRES PARA escolher entre centenas de jeans. Mas, de repente, eis que NÃO somos LIVRES DE uma tarefa, no fundo, fútil: a de encontrar a calça que nos veste melhor na perfeita relação custo/benefício.
Na hora de escolher um carro, uma faculdade, uma profissão, um país ou uma cidade em que morar, as escolhas possíveis são, hoje, incontáveis. Portanto seríamos mais livres, não é? Pode ser. Em compensação, temos a trabalhosa (e, às vezes, desanimadora) incumbência de escolher.
Schwartz opõe dois tipos subjetivos: os "maximizadores" e "os que se contentam com algo suficientemente bom". Os maximizadores querem absolutamente fazer a escolha certa; os outros sabem se satisfazer sem ter que alcançar a certeza de que fizeram o melhor negócio.
Ora, constata Schwartz com razão, o maximizador não é nunca feliz: ele é corroído pelo remorso e pela dúvida (será que examinou efetivamente todas as possibilidades?).
Schwartz chega a imaginar que a epidemia de depressão das últimas décadas tenha uma relação com a multiplicação das escolhas possíveis e, portanto, com a insatisfação crônica de nosso lado maximizador. Obviamente, os que sabem se satisfazer vivem melhor. Conclusão de Schwartz: o excesso de liberdade nem sempre é bom.
Tudo bem. Mas vamos aplicar a visão de Schwartz ao campo amoroso. É claro que, se a tradição nos obrigasse a nos casar com a moça escolhida pelos anciões de nossa aldeia, a vida amorosa seria mais fácil. A liberdade para se juntar com quem quisermos é, de fato, uma complicação: para ter a certeza de que Fulano é meu homem fatal, com quantos Sicranos deverei compará-lo?
Por outro lado, se adotarmos a sabedoria dos que sabem se contentar com o que lhes agrada, nossos parceiros e parceiras não vão gostar.
Em geral, preferimos ser amados por quem acha que somos a melhor escolha possível, em absoluto.
Ou seja, na vida amorosa, os maximizadores sofreriam como sempre, enquanto os que "se contentam" seriam detestados por parceiros e parceiras. Como fica? Pois é, talvez a vida amorosa seja um bom exemplo para descobrir os limites das idéias de Schwartz, porque, nela, a liberdade certamente não consiste em poder escolher o amado numa lista de pretendentes. Amar tem mais a ver com "encontrar" do que com "escolher".
O livro de Schwartz é ótimo e divertido sem contar que pode ajudar todas as pessoas que se inibem diante da multiplicidade dos possíveis. Mas Schwartz parte de um pressuposto, que está implícito desde seu primeiro exemplo (o dos jeans): ele considera a pluralidade das escolhas possíveis como o índice da liberdade. Quando constata que essa liberdade é fonte de tormentos, ele conclui que talvez seja melhor sermos menos livres e mais felizes.
Ora, a visão que Schwartz tem da liberdade é parasitada pelo próprio modelo do consumo, cujos impasses ele castiga.
Ser livre não significa poder escolher entre os objetos disponíveis nas prateleiras do supermercado; ser livre significa saber criar o que queremos e encontrá-lo, mesmo e sobretudo quando não está em lista alguma de liquidações e promoções. Certo, o mal-estar do maximizador é uma patologia da liberdade de escolha. Mas a liberdade de escolher entre as ofertas que estão nos cardápios é, por sua vez, uma deformação da verdadeira liberdade - a de inventar.

Contardo Calligaris - Folha de São Paulo

A arte pode reinventar e reparar tudo

Alguém entendido em "cinemão" diria que "Desejo e Reparação" apela para recursos fáceis de dramaturgia. Que o protagonista, num parque de diversões devastado pela guerra, atinge as vísceras de qualquer um: grandiloqüência, desespero. Mas não sou especialista.
Talvez só goste de histórias. E, nesse sentido, o filme é brilhante. Ele é exatamente sobre o que a história e a literatura são capazes de fazer.
Uma garota fantasiosa, Briony, com olhos que vêem mais a fantasia do que a realidade (e, afinal, o que é isso?), é capaz de arruinar a vida das pessoas que mais ama. Por imaginação, amor e medo, coisas muito próximas e, até, indiferenciáveis.
A história é adaptada do livro homônimo de Ian McEwan, e o filme é produzido por ele próprio. Na narrativa, a fantasia, mesmo que de um modo ingênuo, provoca o mal, e a idéia mais difícil é a da reparação.
Melanie Klein, em "Amor, Ódio e Reparação", mostra que a última é uma das práticas mais dignas de um indivíduo. A reparação é um arrependimento ativo, que requer mergulho no cerne do vazio, para poder retratar o estrago.
Nem todos são capazes de reparar; é preciso coragem, mais do que para provocar o sofrimento.
A questão do filme é: se um escritor pode tudo, como Deus, de que vale sua tentativa de reparação? "Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo para os romancistas ateus." É o que diz Briony no final de sua vida, na interpretação inacreditável de Vanessa Redgrave, o que faz valer o filme, mesmo para os especialistas.
Como a arte pode reparar tudo, pois inventa a realidade, talvez ela não seja capaz de reparar nada.
Não posso concordar com isso. Mesmo que as vítimas não se beneficiem da reparação do artista, nós, espectadores catárticos, teremos nosso terror e nossa piedade, prontos para possíveis reparações.

Noemi Jaffe - colaboração para a Folha

The High Priestess

General Meaning: Traditionally called the High Priestess, this major arcana, or trump, card represents human wisdom. She can be viewed as a kind of female Pope, the ancient Egyptian Priestess of Isis, the even older snake and bird Goddesses, the Greek Goddess Persephone, or the Eve of Genesis before the Fall.

For the accused heretics who were burnt at the stake for revering her in the 14th and 15th century, she symbolized the prophecy of the return of the Holy Spirit, which was perceived as the female aspect of the Holy Trinity.

In the sequence of cards in the major arcana, the High Priestess appears as soon as the Fool decides he wants to develop his innate powers, making a move toward becoming a Magus. The High Priestess is his first teacher, representing the Inner Life and the method for contacting it, as well as the contemplative study of Nature and the Holy Mysteries.

Thursday, January 10, 2008

Wednesday, January 09, 2008

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher?
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Nos braços de um tipo qualquer?

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer?
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do seu pode ser?

Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação

Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror
Eu só sinto que quando a vejo
Me dá um desejo de morte e de dor

Tuesday, January 08, 2008

Sunday, January 06, 2008

Peça de Um Segundo
Joseph Beuys

No espaço de um segundo entram juntos e agem conjuntamente

O Grande Khan
O Queijo Appenzeller
Denise
O Açougueiro
Leda
Circe
A Ouvinte
A Norna
O Cavaleiro Nevado
A Cúmplice
O Emissor
A Dama
A Mãe
O Príncipe
O Andarilho
O Menino de 14 anos
O Nenê
O Prisioneiro
A Manipedicure
O Huno
O Homem-Orelha
A Madona
O Caçador
O Receptor
A Druida
O Espectador
O Anão
A Datilógrafa
O Homem que mal pode compreender como é que a peça já terminou.

no blog do Antonio Cicero

The Moon

General Meaning: What has traditionally been known as the Moon card refers to a deep state of sensitivity and imaginative impressionability, developed within a womb of deep relaxation. Here we dream and go into trance, have visions and receive insights, wash in and out with the psychic tides, and experience deep mystical and/or terrifying realities beyond our ordinary senses. The full moon and/or eclipse cycle charted by the Magi (as in some of the earliest Moon card images) exemplify this as a mechanism that Nature uses to expand consciousness.


The variants of the courtly lovers (representing skillful use of the sex force) or the man sleeping it off under the tree (use of drugs to alter consciousness) are also traditional avenues for tapping this primal force. Human interest in higher states propels us to the frontiers of consciousness, where we cannot always control what happens. The Moon card represents the ultimate test of a soul's integrity, where the membrane between self and the Unknown is removed, and the drop of individuality reenters the Ocean of Being. What transpires next is between a soul and its Maker.

Saturday, January 05, 2008

Suburbano Coração
Chico Buarque

Quem vem lá

Que horas são
Isso não são horas, que horas são
É você, é o ladrão
Isso não são horas, que horas são
Quem vem lá
Blim blem blão
Isso não são horas, que horas são

A casa está bonita
A dona está demais
A última visita
Quanto tempo faz
Balançam os cabides
Lustres se acenderão
O amor vai pôr os pés
No conjugado coração
Será que o amor se sente em casa
Vai sentar no chão
Será que vai deixar cair

A brasa no tapete coração

Quando aumentar a fita
As línguas vão falar
Que a dona tem visita
E nunca vai casar
Se enroscam persianas
Louças se partirão
O amor está tocando
O suburbano coração
Será que o amor não tem programa
Ou ama com paixão
Mulher virando no sofá
Sofá virando cama coração

O amor já vai embora

Ou perde a condução
Será que não repara
A desarrumação
Que tanta cerimônia
Se a dona já não tem
Vergonha do seu coração

Dona Teresa

Minha empregada Mme. Thérèse, que já ia se conformando em ser chamada de dona Teresa, caiu doente. Mandou-me um bilhete com a letra meio trêmula, falando em reumatismo. Dias depois, apareceu, mas magra, mais pálida e menor; explicou-me que tudo fora conseqüência de uma corrente de ar. Que meu apartamento tem uma courant d'air terrível, de tal modo que, àquela tarde, chegando em casa, nem teve coragem de tirar a roupa, caiu na cama. "Dói-me o corpo inteiro, senhor; o corpo inteiro."
O mesmo caso, ajuntou, houve cerca de 15 anos atrás, quando trabalhava em um apartamento que tinha uma corrente de ar exatamente igual a essa de que hoje sou sublocatário. Fez uma pausa. Fungou. Contou o dinheiro que eu lhe entregava, agradeceu a dispensa do troco. Foi lá dentro apanhar umas pobres coisas que deixara. Entregou-me a chave, fez qualquer observação sobre o aquecedor a gás - e depois, no lugar de ir embora, deixou-se ficar imóvel e calada, de pé, em minha frente. Repetiu a história da outra corrente de ar, a de 1935. Passou a mão pelos cabelos grisalhos - e me revelou que sua patroa de então, uma senhora forte, rica, bonita, de menos de quarenta anos, também fora vítima da corrente de ar. Outra pausa e acrescentou: morreu.
Vigiou um pouco minha surpresa, mas como eu não dissesse nada, queixou-se do frio. Tive um movimento de ternura por dona Teresa: ofereci-lhe o cachecol que o pintor Caribé comprou para mim em Buenos Aires, onde - isso me ocorreu na ocasião - um cachecol tem o nome bastante pitoresco e vivo de bufanda. Eu pensava apenas nisso, na palavra bufanda, quando Mme. Thérèse voltou a 1935 e detalhou como sua patroa morreu depois de pegar uma pneumonia devido à corrente de ar - igual a esta, senhor, igual. E uma mulher forte, nova...
Fiz uma pergunta desviacionista: era loura? Sim, loura, rosada. Meus olhos devem ter ficado tristes. Não há falta na praça de mulheres louras e rosadas, mas também não há tantas a ponto de devermos permitir que elas sucumbam assim, levadas pelos ventos dos corredores. Fiquei calado. Então dona Teresa fez a seguinte pergunta:
- E a sua tosse, senhor, vai melhor?
Depois do que, se despediu para sempre, com muitos agradecimentos; e desceu a escada com uma certa tristeza. Como sentisse que eu ficara a olhá-la da porta, voltou-se na primeira curva do caracol e me disse, suave como a minha mãe em Cachoeiro de Itapemirim, que eu cuidasse da tosse. Mas disse - hélar! - sem esperança mais nenhuma.

Paris, junho, 1950

A Borboleta Amarela - As melhores de Rubem Braga - 200 Crônicas Escolhidas

Friday, January 04, 2008

Blue moon
Se a noite tem luar
O azul do céu me faz lembrar
Da luz do teu olhar

Comum
É tão comum ficar assim
Vagando pra lugar nenhum
A noite não tem fim

Quando o clarão
Da noite se fôr
E o calor
Da luz do Sol chegar
Vai me encontrar
Tentando achar razão
Pra me lembrar
Da cor do teu olhar
Tão azul

Azul
Luar azul eu sei de cor
A dor que fica ao meu redor
Até o Sol se pôr

As the Moon enters philosophical Sagittarius at 9:13 am EST, we have an opportunity to consider our long-term goals. We are still in a powerful phase, although interpersonal issues may settle down for a bit as the Moon moves toward a conjunction with sweet Venus this evening. Mars remains retrograde until the end of the month, but even if we continue to feel sluggish, it's time to push forward. A little positive attitude now goes a long way.

Thursday, January 03, 2008

Daily Number: 7

A confrontation with a loved one is possible today, and you may find yourself engaging in somewhat self-critical behavior. Don't. Today is the perfect day for greater understanding of yourself and others. Make this a time for spiritual realization rather than negative back talk.

Theme: Quiet, Insightful, Analytical, Mystical, Intuitive
Astro Association: Cancer
Tarot Association: Chariot

Knowing when to ease up* can be an important skill** now, for you really want to reach your goals and may push too hard. Your extra efforts could be wasted if you don't take the time to build a proper foundation. Even if you are capable, pay attention to the signs. If your ambitions are being thwarted, don't give up; just slow down.

* diminish pressure

** pode ser um importante artifício /artefato / negócio / manha / saber-fazer / know how

Wednesday, January 02, 2008

2008 - O ano que não vai existir

Pobres leitores de jornais. No final de um ano, começo do outro, os jornais deixam de ser jornais. As notícias do mundo não ajudam, claro, mas os jornalistas também não. Existem duas hipóteses. Primeira: reciclar notícias de 2007 e fazer um "balanço do ano" (com fotos, claro). Segunda: fazer "previsões" de 2008 que não são "previsões", mas repetições de fatos incontornáveis (exemplo: dia 25 de dezembro será Natal novamente).
No primeiro caso, existe preguiça. No segundo, existe preguiça ou presunção. Exceto generalidades, ninguém faz a mais pálida idéia do que vai suceder em 2008. Desistimos?
Obviamente, não. Podemos não saber o que vai acontecer em 2008. Mas é possível dizer o que não vai acontecer. A revista americana "Business Week", por exemplo, dedicou um número recente à indústria dos negócios e do espetáculo, prevendo quem não vai ganhar Oscar, quem não vai falir, quem não vai faturar na bolsa etc. O exercício é pedagógico e pode ser aplicado ao mundo inteiro com resultados modestos, mas seguros. Querem experimentar?
Politicamente, 2008 será marcado pelas eleições presidenciais americanas. Isso é fato. Mas o que não vai acontecer é os americanos elegerem uma mulher (Hillary), um negro (Obama) ou um mórmon (Romney) para a Casa Branca. O mesmo para a Rússia e para o Zimbabwe, com eleições no mesmo mês (março). Isso é fato. Duplo. Mas o que não vai acontecer é o partido de Vladimir Putin perder as eleições na Rússia. Ou Mugabe perder as dele no Zimbabwe. Ou seja, a Rússia não será mais democrática e o regime de Mugabe não será menos torcionário. Isso não vai acontecer.
Mas o ano não se limita a eleições. Teremos Jogos Olímpicos em Beijing. Isso é fato. Mas o que não vai acontecer é a China libertar os presos políticos, tolerar os dissidentes ou renunciar às suas pretensões sobre Taiwan. O mesmo para o Irã, que não vai abandonar o processo de enriquecimento de urânio e a busca da bomba. E se vocês acreditam que o Estado de Israel, nos 60 anos da sua fundação, será finalmente reconhecido pelo radicalismo islâmico, por favor, não se iludam: isso também não vai acontecer.
Aliás, o radicalismo islâmico não vai desaparecer. Muito menos no Iraque. Qualquer jornal do mundo dirá que em 2008 passarão cinco anos sobre a invasão americana. E daí? Isso é fato. Mas o que não vai acontecer é a retirada das tropas, independentemente do vencedor nas presidenciais americanas de novembro. E se o Iraque não terá paz, sobretudo porque o entendimento entre sunitas e xiitas também não vai existir, as reformas econômicas e sociais de Sarkozy em França não vão trazer paz ao país. E o namoro do Presidente com Carla Bruni, mais nova do que ele, também não vai trazer paz ao próprio.
De resto, é possível afirmar com segurança que Saramago não vai escrever um bom livro, Oliver Stone não vai dirigir um bom filme e Rod Stewart não vai gravar uma boa música. E o presente cronista? O presente cronista talvez não acerte em todas as não-previsões. O que seria bom. Essa é a única hipótese de Portugal vencer mesmo a Eurocopa.

João Pereira Coutinho - Folha de São Paulo / Ilustrada

Tuesday, January 01, 2008

foto: Carla Zavatieri

A novidade
Que tem no Brejo da Cruz
É a criançada
Se alimentar de luz

VIII - A Justiça

Arquétipo
: o Juiz


Número: 8 = o número da justiça e da equiparação, visto que pode ser dividido em dois números iguais (4), que por sua vez resultam em números inteiros.

O octeto representa a passagem do quadrado para o círculo e, assim, serve de intermediário entre a esfera divina e a terrena.

Jung: A moral não foi transmitida em forma de tábuas trazidas do Sinai e imposta como necessária ao povo; é uma função da alma humana tão antiga como a própria humanidade... É um regulador instintivo, que também rege a convivência dos rebanhos de animais.

Analogias: O Direito escrito como uma abstração do sentimento de Justiça.

Mensagem: Você é responsável por si mesmo.
Você é livre para fazer o que quiser. Mas precisa estar preparado para suportar as conseqüências. ( Sheldon Kopp)

Qualidade: Função intermediária entre a reivindicação ideal e o poder terreno. Objetividade, justiça, domínio sobre o passado. Capacidade de julgamento.

Objetivo: Manutenção da ordem, do equilíbrio. Estabilidade, decência, julgamento, sentença, decisão. Distinção, conquista dos direitos.

Sombra: Justiça pessoal, "Law and Order", preconceito.

Síntese: O espectro desta carta é de longo alcance: os sentimentos de justiça e a capacidade de julgamento resultam em objetividade; a capacidade de estabelecer e honrar compromissos e, talvez, até mesmo a sabedoria salomônica exigem capacidade de decisão.
A carta da justiça lembra as famosas palavras de Goethe: "Apenas a lei pode nos dar a liberdade", visto que a falta de direito leva automaticamente ao direito do mais forte e, com isso, à arbitrariedade e ao prejuízo de todos os grupos fracos.
A Justitia sempre foi representada como uma mulher. Com isso indica-se que o direito e a jurisprudência não são um procedimento lógico formal, mas precisam também de um bom faro.
A carta representa compreensão e equilíbrio de forças. Esses temas, no entanto, não devem ser confundidos com a harmonia interior e descontraída representada pela carta da Temperança (XIV). Equilíbrio das forças também costuma representar o assim chamado equilíbrio que só pode ser assegurado através da competição pelas armas.

IX - O Eremita

Arquétipo
: O velho homem sábio


Número: 9 = o número que se recolhe em si mesmo (em oposição ao 6, que sai de si mesmo).
Número da consagração (3 X 3) e dos sentidos.
O número que sempre volta a si mesmo:

9 + 9 = 18 = 1 + 8 = 9 (soma transversal),
1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 + 8 + 9 = 45 = 4 + 5 = 9.

9 X 1 até 9 sempre dá um número cuja soma transversal dá 9.

Número da perfeição e do destino: 9.
Número de meses entre a concepção e o nascimento.
Jesus morreu na nona hora do dia.

Jung: O ser humano com certeza não chegaria aos setenta, oitenta anos se essa longevidade não correspondesse ao sentido da sua espécie. Por isso, o entardecer de sua vida também tem de ter um sentido e objetivos próprios e não pode ser apenas um lamentável penduricalho da manhã.
Nas linhagens primitivas vemos, por exemplo, que quase sempre os velhos são os guardiães dos Mistérios e das Leis, e é neles, nessa primeira geração, que se expressa a cultura da raça. Sob esse ponto de vista, o que acontece conosco? Onde está a sabedoria dos nossos velhos? Onde estão seus segredos e suas histórias fantásticas? Há tempos os nossos velhos vêm tentando imitar os jovens. Na América, o ideal por assim dizer, é que o pai pareça o irmão de seus filhos e a mãe, se possível, a irmã mais nova de sua filha.

Analogias: O lado introvertido das pessoas. O caminho solitário da auto-descoberta. Rigidez invernal como um preparo para o despertar da primavera. Escassez; a velhice.

Mensagem: Em última análise, estamos todos sós.
As coisas mais importantes cada um tem de fazer por si mesmo.
A mina é sempre maior do que a pedra preciosa.
É mais fácil ser um grande e honrado guru do que um alegre e satisfeito gari.

Qualidade: Autoconhecimento, sabedoria, iluminação. Esperteza. Satisfação com o presente. Saber desligar-se.

Objetivo: satisfação, cumprimento do dever, estar no caminho, aprender a ficar só, amadurecimento.
O objetivo da iniciação é agitar o espírito para que este desperte a fim de que a vontade se cristalize.

Sombra: Auto-elogio. Estupor. Endurecimento, alheamento. Amargura. Ingenuidade.

Síntese: A carta mostra o bem conhecido arquétipo do velho homem (Merlin, Talísio, Abraão) como buscador e líder. Ela contém antes de mais nada o recolhimento, a paz interior, a solidão.
A introversão como pressuposto para se concentrar no que é essencial a fim de cristalizar as próprias prioridades. Ela representa, portanto, uma fase em que - sem nos distrairmos pelas coisas exteriores - passamos a limpo a nossa vida.
As partes da vida que são simbolizadas pelo eremita podem ser as mais satisfatórias das experiências. É imprescindível, no entanto, que disponhamos o tempo para o sossego exterior, talvez até procurando-o conscientemente, não nos colocando sob tensão exterior insuportável devido a esperanças inalcançáveis e sucessos exteriores.
Tranqüilidade e modéstia, uma agradável forma de humildade e gratidão pela vida são os mais valiosos resultados dessa experiência.
No entanto, só devemos atender ao chamado do Eremita quando a vida, apesar de sua grande agitação e plenitude de acontecimentos, nos parece insípida e superficial ou quando nos arriscamos a nos perder nas caóticas reviravoltas do dia-a-dia e a sermos tragados pelo sorvedouro dos acontecimentos. A paz do eremita na verdade não oferece brilho exterior, mas a profunda satisfação de uma vida interior rica e realizada.

Hajo Banzhaf - Manual do Tarô - Origens, Definição e Instruções para o Uso do Tarô


As cartas pessoais do autor pelo método Crowley

Carta da Personalidade

XX + X + XXXX = 2000 = 2 + 0 + 0 + 0 = 2

[ Caso a carta da personalidade tenha um único dígito, as cartas da personalidade e do caráter são idênticas. ]

Cartas da personalidade e do caráter: II = A Grande Sacerdotisa

Carta do crescimento

XX + X + 2008 = 2046 = 2 + 0 + 4 + 6 = 12

Carta do crescimento: XII = O ENFORCADO (!!!)

O Método Crowley para Ter o Resultado de Cartas Pessoais

Para retirar dos 22 trunfos do tarô as cartas que têm um significado especial para os indivíduos isoladamente, Aleister Crowley sugeriu três caminhos, com os quais podemos descobrir três cartas individuais para nós. Ele as chama de:

1. A carta da Personalidade (Personality Card)
Ela corresponde à aparência exterior.

2. A carta do caráter (Soul Card)
Simboliza a temática interior.

3. A carta do crescimento (Growth Card)
Esclarece o principal tema atual.

A carta da personalidade
Faça a soma da sua data de nascimento (dia, mês e ano) e vá fazendo a soma transversal até chegar a um número não maior que 21. Esse número representa a carta da personalidade.

A carta do caráter
A nova soma transversal dos números da carta da personalidade é a carta do caráter. Caso o número da carta da personalidade tenha um único dígito, as cartas da personalidade e do caráter são idênticas.

Por exemplo:
25/4/1953 = 25 + 4 + 1953 = 1 + 9 + 8 + 2 = 20
Carta da personalidade: XX = O Julgamento
Nova soma transversal de 20 = 2 + 0 = 2
Carta do caráter: II = A Grande Sacerdotisa

ou

15/5/1949 = 15 + 5 + 1949 = 1969 = 1 + 9 + 6 + 9 = 25 = 2 + 5 = 7
Cartas da personalidade e do Caráter: VII = O Carro

A carta do crescimento
A carta do crescimento é o resultado da soma transversal dos números relativos ao dia e mês do nascimento e do ano em que estamos.

Por exemplo:
15/5/1984 = 15 + 5 + 1984 = 2004 = 2 + 0 + 0 + 4 = 6
Carta de crescimento para o ano de 1984: VI = Os Amantes

Hajo Banzhaf - Manual do Tarô


E a carta do dia é... O Enforcado!!!
Happy New Year!

www.tarot.com

Oráculos são seres humanos que fazem predições ou oferecem inspirações baseados em uma conexão com os deuses. No mundo antigo, locais que ganharam reputação por distribuir a sabedoria oracular também se tornaram conhecidos como "oráculos", além das predições em si mesmas.

Todos os povos da Antigüidade tiveram oráculos. Na mitologia escandinava, Odin levou a cabeça do deus Mimir para Asgard para ser consultada como oráculo. Na tradição chinesa, o I Ching foi usado para adivinhação na dinastia Shang, embora seja muito mais antigo e tenha profundo significado filosófico.

Os oráculos gregos constituem um aspecto fundamental da religião e da cultura gregos. O oráculo é a resposta dada por um deus que foi consultado por uma dúvida pessoal, referente geralmente ao futuro. Estes oráculos só podem ser dados por certos deuses, em lugares determinados, pelas pessoas determinadas e se respeitando rigorosamente os ritos: a obtenção do oráculo se assemelha a um culto. Além disso, interpretar as respostas do deus, que se exprime de diversas maneiras, exige às vezes um aprendizado.

Por extensão, o termo oráculo designa tanto o deus consultado como o intermediário humano que transmite a resposta, e ainda o lugar sagrado onde a resposta é dada. A língua grega distingue estes diferentes sentidos: entre numerosos termos, a resposta divina pode ser designada por χρησμός - khrêsmós, literalmente o fato de informar. Pode-se também dizer φάτις - phátis, o fato de falar. O intérprete da resposta divina é freqüentemente designado por προφήτης - prophêtê, aquele que fala em lugar (do deus), ou ainda μάντις - mántis. Por fim, o lugar do oráculo é χρηστήριον - kherêstêrion.

A mancia, isto é, o domínio da adivinhação, não é, no mundo grego antigo, constituído só pelas ciências oraculares. Os adivinhos como Tirésias são considerados personagens mitológicos: a adivinhação, na Grécia, não é assunto de mortais inspirados mas de pessoas que respeitam determinados ritos, embora a tradição tenha podido dar a impressão de tal inspiração, ou, literalmente, ἐνθουσιασμός - enthousiasmós, entusiasmo, isto é, o fato de ter deus em si. Mitologia,Religião resposta dada por uma divindade a quem consultava.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Or%C3%A1culo


A felicidade não é coisa fácil: é muito difícil encontrá-la em nós mesmos e é impossível encontrá-la em qualquer outro lugar.

Chamfort (no Manual do Tarô)

Passou

O ano passou. Não sei se vós, leitor amigo, ou vós, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como já passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que vem depois da meia-noite me perturba. Já passei ano só, em terra estranha, ou, o que é mais amargo, na minha; ou andando como um tonto na rua ou afundado num canto de um bar ruidoso; tentando inutilmente telefonar; dormindo; com dor de dente. E quando digo de todo jeito estou dizendo também de jeito feliz, entre gente irmã ou nos braços de algum amor eterno - braços que depois dobraram a esquina do mês e da vida, e se foram, oh! provavelmente sem sequer a mais leve mágoa nos cotovelos, apenas indo para outros braços.

Passam os anos, passam os braços; mas fica sempre, quando a terra dá outra volta em si mesma, essa emoção confusa de um instante. Conheço pessoas que fogem a esse segundo de consciência cósmica, afetando indiferença, indo dormir cedo - como se não estivessem interessadas em saber se esta piorra velha deste planeta resolveu continuar girando ou não. É singular que entre tantas festas religiosas e cívicas nenhuma chegue a ser tão emocionante e perturbe tanto a humanidade como esta, que é a Festa do Tempo.

É como se todos estivéssemos fazendo anos juntos; é o Aniversário da Terra. Se a alma estremece diante do Destino, o espírito se confunde; reina uma tendência à filosofia barata; vejam como eu começo a escrever algumas palavras com maiúsculas, eu que levo o ano inteiro proseando em tom menor, e mesmo o nome de Deus só escrevo assim para não aborrecer os outros, ou para que eles me não aborreçam. Já ao nome do diabo, não; a esse sempre dei, e dou, o “d” pequeno, que outra coisa não merece a sua danação. A ele encomendamos o ano que passou e a Deus o Novo. Que vá com maiúscula também, esse Novo; fica mais bonito, e levanta nosso moral.

E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: “Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, às vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito no sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão.”

Rio, Janeiro de 1952

Rubem Braga - A borboleta amarela

(postado por Nilton Resende em 29/12/2007 - www.cronopios.com.br / Café Literário

A maldição dos que não se conformam

Ninguém decide ser inconformado; eles nascem assim, ou não. O universo dos que não se conformam é único. Sem nem se dar conta, eles compram as revistas de moda só para fazer exatamente o contrário do que elas mandam. Se foi decretado que o amarelo é a cor desse verão, o inconformado não precisa nem pensar: antes de sair de casa, tudo funciona no piloto automático, e até que o amarelo saia de moda ele não será visto convivendo com nada dessa cor; talvez nem coma mais bananas, até a onda passar. Ele estará sempre ou muito à frente do seu tempo, ou lá atrás, bem longe. Um inconformado não iria, por dinheiro nenhum, passar o Réveillon ou o Carnaval em Salvador ou Trancoso; para ele, isso é coisa de um passado remoto, já vivido, ou talvez de um futuro, um dia. Recentemente foi obrigado a deixar de lado o vinho rosé, de que gostava tanto - e até bebia com duas pedrinhas de gelo - para não fazer parte da turma que descobriu, em 2007, esse tão antigo vinho da Provence. Teve que rever seus gostos, pelo menos por aqui, para não fazer parte do mundo dos que seguem a moda de perto demais. Os inconformados sofrem. Não que sejam pessoas difíceis; elas apenas gostam de andar na contramão, e isso em tudo. Um inconformado só freqüenta praias no inverno, não vai a restaurantes da moda, e seu roteiro internacional é, geralmente, um pouco de Paris, Veneza, Marrakech ou Capri - fora de estação, é claro. Nunca pisaram em Bali e estão esperando que passe a febre da Índia para poderem voltar a esse país tão lindo, hoje tão banalizado; preferem ficar em casa, inteiramente sós, a fazer parte de qualquer grupo que se guia por modismos. Um inconformado detesta datas; não sabe do dia do aniversário de nenhum amigo e gostaria que esquecessem do dele. Quando pode, pega um avião, vai para bem longe e só volta uns dez dias depois da "data querida", mas nem sempre consegue se livrar; tem sempre um amigo ou uma amiga que lembra e dá os parabéns quando ele volta. E tem mais: se ninguém se lembrar, o inconformado é capaz de sofrer, se achando um rejeitado. Se não é fácil entender um inconformado, mais difícil é ser um deles. O fim de ano dos inconformados é um verdadeiro suplício; quando vê um gorrinho de Papai Noel, os comerciais na TV anunciando o Natal, as guirlandas de luzinhas piscando, ele passa mal, e se alguém mandar um cartão de feliz Natal ou uma lembrancinha, quer se atirar pela janela. Passa tudo adiante imediatamente, mas felizmente empregadas domésticas e porteiros estão aí para isso mesmo. Entre 20 de dezembro e 6 de janeiro, em suas casas não entra uma só castanha, um só panetone, nada que lembre, de longe, o tal do Natal; e, se conseguir, durante esse prazo nem atende o telefone. Um problema, entender um inconformado. Eles até tentam, mas não conseguem - e não por falta de esforço; a cada vez que fazem o que se costuma fazer nas datas certas, como todo mundo, sofrem, e muito. Depois de algumas tentativas, desistem, ficam como são, e pronto; mas fácil não é. Basicamente, os inconformados não suportam ter que viver da maneira que foi determinada, seja lá por quem for, mas têm, pelo menos, um mérito: não obrigam ninguém a fazer o que eles querem, seja lá o que for. Só um inconformado compreende outro inconformado, e como eles são poucos, geralmente passam a vida sós; sós e sofrendo, porque eles sofrem - mas preferem assim. Mas, de alguma maneira, não escapam de desejar, a amigos e a todos, um feliz Ano Novo. Sendo assim, feliz 2008.

DANUZA LEÃO