Texto escrito em 2001, reencontrado depois de ver Jogos de Poder de Mike Nichols e de conversar sobre No Country for Old Men, dos Coen Brothers.
Alguém já escreveu sobre o pasmo dos últimos acontecimentos?
São Paulo, que vivera há bem poucas semanas o susto escandaloso do seqüestro da família Silvio Santos, para o qual ninguém conseguiu análise cabível, frente às imagens da explosão do World Trade Center, simplesmente aparvalhou-se.
O pasmo diante da destruição das torres gêmeas não é exclusividade do Brasil. No mundo inteiro faltaram fôlego e palavras para descrever o que se viu na TV. A intelectualidade mundial não consegue se posicionar e seguem-se análises e análises, jornal a jornal, que não dão conta de transmitir eficientemente nenhuma opinião que se fareje confiável. Depois do horror das imagens, é como se (nos) refilmássemos o (em) Apocalipse Now e trocássemos o diálogo final de Marlon Brando/Kurtz para "o pasmo, o pasmo".
Deve ser natural; olhar a morte assim tão de frente, sem intermediários, desperta na gente a necessidade de dizer o indizível.
É que na busca de se manter na função de esclarecedor, a imprensa demonstra, por incapacidade de análise, o pasmo, só que às avessas.
No seqüestro dos Abravanel, Gilberto Dimenstein entortou seus argumentos a favor da educação-para-todos até transformar os criminosos em vítimas do sistema. Sem dúvida integrantes da grossa massa de despossuídos, os seqüestradores não eram, entretanto, de forma alguma, representantes da miséria brasileira, esta, muito mais grave, profunda e abrangente. Classes-médias baixas, de família constituída com pai, mãe, educação fundamental, no máximo desempregados, nada os diferencia da imensa quantidade de iguais ou mais pobres e que, no entanto, não cometem crimes. Teria o Dimenstein querido enxergar nos rapazes um símbolo de desejos e tendências inconfessos da população? Me parece pretensioso e, principalmente, tendencioso. Na falta de compreensão do caso e negando a complexidade da trama, apela-se para um discurso já sedimentado: num país onde a escola é negada não se reflete sobre a ética profunda dos atos que se comete. Axioma quase impossível de questionar e verdadeiro ovo de Colombo para as mazelas do Brasil, forçados porém a servir de explicação para atos, de si, inexplicáveis.
Contardo Calligaris, autor dos artigos mais brilhantes que tenho encontrado na imprensa nos últimos anos, também acabou se utilizando de argumentos velhos seus conhecidos para comentar Nova York. Os terroristas explodem os símbolos do inimigo para afastar de seu campo de visão os objetos inconscientes do desejo. Caso o inimigo não exploda, seduzo-me por ele. Visão sofisticada da definição do sentimento de inveja - desejar que o outro não tenha aquilo que desejo - já que inclui a tomada de posição ativa por parte do invejoso, que por definição tende à paralisia, a análise de Calligaris me parecia mais bem adequada aos acontecimentos da convenção de países ricos europeus na Itália, quando um rapaz acabou morto por policiais.
As motivações do mundo ancestral islâmico simplesmente nos fogem. Os terroristas habitam cavernas, alimentam-se de pão molhado em leite de cabra, escrevem numa língua de caracteres absolutamente incompreensíveis!
Evidente, Contardo Calligaris chamava a atenção para o fato dos autores do atentado, os rapazes que estavam dentro do avião, os executores da tarefa, terem passado longos períodos em contato com a América, daí a imagem do fanático destruindo o motivador de suas tentações. Não me parece pretensioso pela integridade intelectual de Calligaris, mas ainda assim, me parece, paradoxalmente, aplainar a compreensão dos fatos.
Yves de la Taille, em palestra recente, demonstra idéia interessante: partimos do princípio que a vítima está do lado do bem. E é a América que bombardeia sistematicamente o mundo desde Hiroshima. Já nos vimos na pele das vítimas de Nova York, mas não conseguimos imaginar o que sentem afegãos e árabes em geral, debaixo de bombas há mais de quatro décadas. Seria porque não transmitem pela TV?
Numa guerra a primeira vítima é a verdade, diz outra frase brilhante e que resume o pasmo inevitável de toda situação absurda, desde que a presenciemos.
Assumir a defesa de qualquer dos lados é um atentado à bomba contra a honestidade de pensamento. Controlar o coração disparado diante da transmissão ao vivo do massacre é tarefa para robôs. Não há quem não esteja indignado. Não há quem permaneça impassível. Não é hora possível de compreendermos. Todo o esforço de elucidação do problema soa falso, artificial. O pasmo tomou conta de tudo.
Por fim, Carlos Heitor Cony, do alto de sua vasta experiência, lança um olhar panorâmico e situa o início do conflito terrorista na derrota americana no Vietnam. Nada mais acertado. As grandes potências só podem mesmo ser atacadas assim, de surpresa. Se alguém as escolheu para inimigo, seja isso plausível ou não, simplesmente não há alternativa: única e tão somente a guerra não convencional e sem rosto. A guerrilha e, hoje, o terrorismo. A covardia do ataque terrorista se equilibra com a desmedida do poder de fogo dos Estados Unidos. Davi versus Golias mas sem nenhuma moral por trás, só tamanhos e quantidades, desqualificados ambos.
Não haverá ganhadores, alerta Cony. No entanto, nada que os articulistas digam poderá influenciar uma verdade inquestionável. Os profissionais da guerra, estes não perderão tempo com reflexões e farão uso do momento de pasmo que se espalhou pelo mundo inteiro como (com) as imensas nuvens de poeira que cobriram Nova York.
Toldados pela fuligem do pasmo ficaremos todos tentando compreender o que aconteceu e enquanto isso os chefes da guerra entrarão em ação. Para eles é sempre dia claro. A espera pelo momento certo de renovar os estoques é administrada comercialmente. A indústria bélica americana e a indústria do ódio taleban vivem da morte. Demanda reprimida. Oferta e procura. Mais do que motivação, precisam intrinsecamente da guerra. Lógica da existência (sobrevivência): só existem para destruir. Ainda assim, pasmamos, ingênuos, diante de lógica tão absurda.