Sunday, March 23, 2008

meu criado mudo repleto de livros
posto sobre quatro pés ladeia a cama
plataforma sólida onde se acumulam
pilhas poeirentas em precário equilíbrio
noite adentro quando, eu já meio ébrio,
me abandono, ali, entre o sono e a vigília
páginas se embaralham à revelia
as que leio hoje e as que eu lia.

Saturday, March 22, 2008

Um Outro Fim do Mundo é Possível!

Blocos de guerreiros vestidos de negro enfrentando o aparato repressivo do estado, rizomas de rádios livres e comunitárias se contrapondo à mídia corporativa, levantes camponeses e indígenas se insurgindo contra multinacionais, redes de okupas questionando a especulação imobiliária. Ao contrário do que a mídia de massas quer nos mostrar, o mundo está explodindo em mudanças rápidas e promissoras e cada um destes elementos é também uma peça no mosaico deste tempo em movimento.

O futuro realmente não é mais como era antigamente, e esta frase nos lembra o quão negro o futuro nos pareceria se não fosse nossa própria capacidade de intervir positivamente no que está por acontecer. Protopia é a nossa proposta de intervenção neste estado de coisas, num mundo que depende da nossa ação congregada para existir. A proposta de transformação que chamamos de Protopia é simples, mas ao mesmo tempo subversivamente complexa – aqui apresentada em 10 passos.

1 - Desista de esperar pela revolução popular, pelo messianismo comunista e por todos os milagres que prometem as propostas reformistas dos sociais-democratas (isso nunca vai dar certo e as experiências históricas mostram bem isso).

2 – Fuja de todas as formas de ação espetaculares, já que quando elas não são pró-sistêmicas, provavelmente se constituem em alguma forma de escapismo. Abandone igualmente todas as ações que não levam a lugar algum como revolta gratuita e loucura isoladora, depressão e hipocondria, saber-pelo-saber e arte-pela-arte, etc.

3 – Parta secretamente em busca do Y, da conjunção de vontades, iniciativas e projeções, busque o encontro oculto e se desloque para longe dos centros de poder. Busque outras pessoas de ímpeto livre, constitua formas de ação coletiva até o surgimento de uma comunidade intencional.

4 – Não pague mais impostos, busque investir seus recursos e seu tempo na busca coletiva por autonomia energética, habitacional e alimentícia. Estabeleça relações de troca de bens e serviços com grupos camponeses, ecovilas horizontais, organizações populares e aldeias indígenas.

5 – Opte por tecnologias limpas e renováveis, técnicas em equilíbrio com o meio como a permacultura e o earthship. Quando se é vizinho da sociedade do desperdício, a macro-reciclagem pode ser algo muito interessante (pneus não são só pneus, mas um monte de coisas em potencial).

6 – Promova a comunicalidade ao isolamento, se desloque sazonalmente, se inicialmente não for possível viver fora da Máquina em tempo integral, divida seu tempo entre seu velho cotidiano e a criação dessa nova forma de sociabilidade.

7 – Aja pelo crescimento deste rizoma de zonas autônomas, estimule e auxilie outros grupos no surgimento de novas comunidades. Mutualidade, união e troca não têm preço em um mundo onde o sistema vence pela hostilidade, pela competitividade e pela divisão; prepare-se para assistir ao surgimento dos enclaves libertários.

8 – Constitua um imaginário local compartilhado, pontos de encontro, grupos de estudos, espaços de vivência, e principalmente, circuitos de festas e dias de celebração. Cada pessoa livre do mundo-cão e cada pedaço de solo libertado são, por si só, motivos a se festejar.

9 – Prepare-se secretamente para a reação do estado e do capital. Assim que a tática for descoberta, pode ter certeza que eles manejarão seus aparatos de difamação e repressão contra você. Esteja sempre articulado com a rede. Não dê motivos para conflitos (antes do tempo), a cada operação de opressão bem sucedida quem marca ponto são eles e não você.

10 – Lance sorrateiramente através da Web propagandas de libertação e popularização do pensamento libertário; manuais de como abandonar o caos capitalista e construir (ou fazer parte de) comunidades autônomas fora do mapa. Nas quais viver possa valer a pena.

Enquanto iniciativa o Protopia está em permanente reconstituição através de um wiki: é aberto a todos que queiram efetivamente participar e todos que possam se identificar com a proposta e que queiram tomar parte nela são bem vindos. Estamos no início de tudo e qualquer um pode contribuir com as suas próprias idéias ou ações, ou como bem entender.

Si siempre hubiera existido la propiedad intelectual, la humanidad no habría conocido la epopeya de Gilgamesh, el Mahabharata y el Ramayana, la Ilíada y la Odisea, el Popol Vuh, la Biblia o el Corán.

Tecnologías digitales de distribución como las Redes P2P, propuestas de reformulación de los derechos de autor como Creative Commons o movimientos como el del software libre nos sitúan en un periodo de nuestra cultura que reclama una revisión del sistema imperante desde hace trescientos años. COPYFIGHT es un ciclo de actividades sobre la crisis imparable del modelo actual de propiedad intelectual, y la emergencia de la cultura libre.

Habiendo abordado ya la crisis del sistema de creación, distribución y gestión cultural dominante en los ámbitos de la escena digital, la música o la literatura, CopyFight recala ahora en el Centre d’Art Santa Mònica para analizar la cuestión de los derechos de autor en las artes visuales.

Remitiéndonos al vinculo que recorre el arte del Siglo XX desde el collage y el objet trouve hasta el copy-art pasando por el apropiacionismo, nos encontramos hoy con la aparición de nuevas licencias que reformulan la noción de propiedad intelectual, el debate sobre la utilización de reproducciones de obras de arte como cita visual y la cuestión del uso de la red como medio de distribución y muestra de creaciones audiovisuales.

La creciente influencia de la escena copyleft en el ámbito de las artes visuales o el papel de las entidades de gestión de derechos de autor serán alguno de los aspectos que se tratarán a través de un extenso punto de consulta con documentación en todos los formatos, y en el simposio "Arte Ilegal", que reunirá en febrero en Barcelona a artistas, gestores, críticos y activistas en pos de la reforma de la propiedad intelectual.


Friday, March 21, 2008

O maior sinal de todos os tempos

Dois carpinteiros, numa oficina não muito longe do templo, estão aplainando duas peças de madeira.
A encomenda fora feita por alguém do palácio de Pilatos. Trabalham em silêncio, com suas ferramentas: a lâmina dentada para serrar, a lâmina polida para aplainar. Pouco depois, colocaram uma das peças cruzando a outra.
Antes do meio-dia, virão buscar aquele instrumento de ignomínia no qual deverá morrer um condenado. Na véspera, eles haviam entregado duas encomendas iguais para que nelas morressem dois ladrões, um de Jerusalém, outro de Samaria.
O trabalho termina: a cruz está pronta. Deixam-na do lado de fora, é um objeto que não será roubado por ninguém.
Os judeus nem sequer a tocariam. Os soldados romanos, que desprezavam tudo o que os judeus produziam, viriam apanhá-la para a execução do condenado.
Os dois carpinteiros fecham a oficina; um deles vai beber na nova taberna aberta no caminho que leva a Jericó; o outro se dirige para casa, pouco antes da porta de Damasco. Eles não sabem que acabaram de criar o maior símbolo da história.
Nem Fídias, nem Michelangelo, ao esculpirem mármores imortais, jamais fizeram algo que se aproximasse da universalidade daqueles dois madeiros cruzados.
Erguida num morro próximo à cidade, que desde os tempos de Davi chamavam de Gólgota, e que os romanos, supersticiosos, chamavam de Calvário (parecia um crânio sinistro e calvo), aquela cruz iniciaria sua trajetória mansamente.
Durante os próximos três séculos, enfrentaria a cólera dos imperadores de Roma. Venceria-os um a um.
Milhões de seres humanos morreriam com os olhos fixos naqueles dois madeiros atravessados. Em sua simplicidade, seria o instrumento mais poderoso produzido pela mão do homem.
Atravessaria os séculos em estandartes que conquistariam o Velho Mundo. E romperia os mares no mastro das caravelas que descobririam o Mundo Novo. Seria gravado a fogo no punho das espadas e também no escudo de aço dos cruzados. Encimaria o pórtico dos castelos. E, à sua sombra, peregrinos de todos os tempos procurariam refúgio e consolação.
Gosto de citar, à minha maneira e com as minhas palavras, o prefácio que Wilson Barrett escreveu para um romance que foi filmado pela Paramount ali pelos anos 30. Humberto de Campos, no Brasil, fez o mesmo. Giovanni Papini, na Itália, incorporou a mesma idéia em sua biografia de Cristo.
Dois simples madeiros, toscamente aplainados, foram reproduzidos em ouro e prata no peito de milhões de crentes e, transformados em mármore ou bronze, assinalariam milhões de túmulos daqueles que, confiados em sua fé, esperam a ressurreição dos mortos.
O gesto primário de quem assinala um ponto ou dele toma posse é repetido todos os dias, há mais de dois mil anos, na cabeça das crianças, no peito dos mortos, nas mãos que se casam, na testa daqueles que pedem bênção. E tudo nasceu naquela tarde em Jerusalém, quando dois carpinteiros aplainavam dois madeiros que nada significavam.
Em alguns lugares, a pena de morte por crucificação importava num suplício suplementar ao condenado: ele teria de levar o instrumento de sua tortura, a haste mais pesada. O braço seria pregado no local do sacrifício.
Assim fora feito na véspera, com as duas cruzes destinadas aos dois ladrões. Mas haviam recebido instruções para pregarem o braço na haste a fim de que o condenado daquela tarde tivesse maior peso para carregar. O que fizera ele para merecer um castigo a mais?
Só sabiam que era um forasteiro que viera ao templo para celebrar a Páscoa. Que crime cometera ele? Os dois carpinteiros ficariam assombrados se conhecessem o destino daquela encomenda. Nenhuma máquina fabricada pelo homem teria a formidável força daquele sinal.
Eles fecharam a oficina, um deles dirigiu-se à nova taberna onde - diziam - se bebia um vinho forte, produzido não longe dali, nos vinhedos de Jericó. O outro foi para casa, situada pouco antes da porta de Damasco, preparar-se para o Shabat - que começaria quando a primeira estrela, solitária, brilhasse sobre o deserto da Judéia.

Carlos Heitor Cony (crônica publicada originalmente em 1997). Folha de São Paulo

A merda é ter que depender do Nelson Como Uma Onda no Mar Motta pra reconhecer umas coisas como essas.

Frases obscenas
NELSON MOTTA

Jovem e fervoroso revolucionário, um dia comentei com meu avô que alguma coisa era boa, mas cara, e ouvi, chocado, um velho professor amigo dele me dizer com naturalidade: "Mas tudo que é caro é bom, meu filho".
Sorrindo da minha indignação, ressalvou que nem tudo que é barato é ruim, que era possível que algo barato fosse bom, e que nem tudo que é bom é caro, já que algumas das melhores coisas da vida são de graça. Mas manteve a frase obscena.
E mais: me assegurou que o ser humano não vende mais barato o que pode vender mais caro, que ninguém quer o pior se pode ter o melhor e que uma das leis irrevogáveis da humanidade é a da oferta e da procura. Me senti ultrajado.
Mas ao longo dos 40 anos seguintes fui entendendo que era só uma generalização provocativa paulo-franciana, nelson-rodrigueana, pelo prazer da frase e da ironia, e me lembrei dele muitas vezes, com um sorriso, do velho cínico. E sábio.
O que diria ele agora, quando tantos ainda crêem que "tudo que é de esquerda é bom"? Sem ressalvas, já que tudo que não é de esquerda, de direita é, portanto, do mal. Quem ler, digamos, o Zé Dirceu, vai acreditar que a esquerda é generosa com os pobres e oprimidos, quer a igualdade e a fraternidade, é trabalhadora, honesta, não rouba, só pensa no bem do povo e do país. Os que apenas são contra a esquerda são autoritários, gananciosos, só pensam em dinheiro, em explorar os pobres, em atrasar o país, em pilhar o Estado. É patético.
O óbvio ululante é que há cada vez mais gente que não é de esquerda mas tem as qualidades que ela se atribui, assim como há muitos esquerdistas no poder que fazem justamente o que atribuem a seus opostos. Mas, o que seria dos zé-dirceus se não fosse "a direita"?

Folha de São Paulo - Opinião

Thursday, March 20, 2008

Direito de conviver com os pais

“Olá! Tenho 22 anos e um bebê de oito meses. Trabalho durante o dia e faço faculdade à noite. Tenho pouco tempo durante a semana com meu bebê, mas isso ainda não é problema. O que me deixa confusa é o seguinte: não tenho um bom relacionamento com o pai do meu filho. Sei que ele não será uma boa influência para ele. Mas, ao mesmo tempo, sei que não posso impedir o contato deles. O que eu faço, como devo agir?”

Escolhi esta mensagem para comentar porque tem sido cada vez mais freqüente essa idéia, para algumas mães, de que o convívio com o pai poderia ser prejudicial para a criança. Os motivos que as mães levantam são os mais variados possíveis para usar essa argumentação, e vou citar alguns: o de que o pai não tem paciência, que não presta atenção ao filho, que é preconceituoso com alguns assuntos, que ingere bebida alcoólica, usa linguagem chula, é agressivo etc.

Bem, antes de tudo vamos lembrar que são bem raros os casos em que é desaconselhável o convívio estreito entre pais e filhos. Tais casos são bem graves e quase sempre terminam na justiça, o que, evidentemente, não é o caso nem dessa nossa leitora nem da maioria das mães que assim pensam.

De certa maneira, todos nós podemos não ser boa influência para os filhos já que humanos, somos cheios de defeitos, manias, cacoetes. E as crianças sabem enxergar como ninguém esses nossos traços. Mas, podemos ser, nesses aspectos, modelos de contra-exemplo, não é mesmo? Afinal, no decorrer da vida as crianças encontrarão, pelo caminho, pessoas com muitas características negativas e precisarão ter aprendido a se relacionar com elas sem se destruírem com isso.

Toda criança tem o direito de conhecer os pais, saber sua origem e de conviver com eles, sejam estes poços de virtudes ou de defeitos. Isso é mais importante do que ficar protegido dessas pessoas com suas características. Aliás, como gosto de afirmar, a ausência de palavras ou de pessoas que poderiam estar presentes prejudica mais a criança do que o convívio com elas, mesmo que isso provoque certo sofrimento.

Tive a oportunidade de acompanhar por um período várias mães que pensavam como essa nossa leitora e, após algumas conversas, elas chegaram à conclusão de que a idéia de afastar o filho do pai tinha muito mais a ver com a relação com o ex-parceiro do que, de fato, com o pai da criança. E, mesmo reconhecendo os aspectos negativos da relação do filho com o pai, não interferiram mais no processo e isso permitiu que ficassem mais em paz consigo mesmas e, portanto, com os filhos também.

http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/


Sunday, March 16, 2008

John Coltrane

Saturday, March 15, 2008

A poesia suicida do gol contra

Parece que foi ontem, mas lá se vão dez anos. Em 15 de março de 1998, o atacante Oséas marcou um gol histórico atuando pelo Palmeiras contra o arqui-rival Corinthians.
Num escanteio, o artilheiro saltou com estilo e cabeceou no ângulo, fora do alcance do goleiro. O "detalhe" é que o gol foi contra.
A perplexidade causada pelo lance inusitado quase impediu a fiel de comemorar: os gritos e cânticos foram substituídos pelo riso, diante do silêncio pasmo dos palmeirenses. Uns e outros se perguntavam o que tinha acontecido. Oséas estava "na gaveta"? Teve um momento de confusão mental, um "branco" que o fez esquecer que atacava para o outro lado? Ou simplesmente não resistiu à bola tão bem cruzada por Marcelinho e, ao ver o goleiro Velloso adiantado, seu instinto goleador foi mais rápido que o raciocínio?
Ainda hoje acho que ninguém tem uma explicação definitiva sobre o fenômeno - nem o próprio Oséas, que, ao que parece, pendurou as chuteiras há dois anos, depois de ter passado pelo futebol japonês e pelo Brasiliense.
O que leva o profissional de um time de ponta a cometer, com destreza e precisão, o chamado "autogol"? Acho que foi Armando Nogueira que definiu uma vez o gol contra como uma espécie de suicídio. Por essa lógica, o atleta que o comete estaria atendendo a um impulso autodestrutivo, a uma pulsão de morte ou autopunição. Assunto para Contardo Calligaris.
É claro que não estou me referindo aqui ao gol contra visivelmente acidental, aquele em que a bola bate num zagueiro e desvia sua trajetória, tirando o goleiro da jogada. O que está em questão é o gol contra "consciente", aquele em que o jogador toma a iniciativa de lançar a bola em direção a suas próprias redes. É o gol contra "ativo", ou "volitivo", em oposição ao gol contra "passivo", fruto de um acidente.
Seja como for, um gol contra tão singular como o de Oséas nos mostra como o erro pode ser belo, pode até mesmo ter algo de sublime. Ao criar uma surpresa e um desconcerto que nos deixaram momentaneamente sem chão, Oséas revelou de chofre a todos - até a ele próprio - o caráter frágil e insondável da natureza humana. Nelson Rodrigues dizia que a poesia do futebol está no "frango", pelo patético que ele traz à tona. Ok. Mas o gol contra, quando feito com tamanha perfeição, também pode ser um autêntico ato poético.

JOSÉ GERALDO COUTO - Folha de São Paulo

Friday, March 14, 2008

Queridas pessoas,

disse aquele poeta mineiro: "No caminho tem uma pedra", mas no meu poema tem várias pedrinhas... na vesícula! Estou à espera de uma definição do médico para marcar o dia de retirar as tais.
Se vocês puderem aguardar um pouquinho, aí vou poder confirmar a(s) data(s) pra esse nosso compromisso. Ah, e tem uma hérnia que o cara quer aproveitar o embalo e resolver também...
Vejam só, eu, que quase nunca corto nem as unhas...

Um beijo pra vocês.

Amigo pré-operatório, por e-mail.

Tuesday, March 11, 2008


Mas, onde está Waly?

Tuesday, March 04, 2008

Texto escrito em 2001, reencontrado depois de ver Jogos de Poder de Mike Nichols e de conversar sobre No Country for Old Men, dos Coen Brothers.

Alguém já escreveu sobre o pasmo dos últimos acontecimentos?
São Paulo, que vivera há bem poucas semanas o susto escandaloso do seqüestro da família Silvio Santos, para o qual ninguém conseguiu análise cabível, frente às imagens da explosão do World Trade Center, simplesmente aparvalhou-se.
O pasmo diante da destruição das torres gêmeas não é exclusividade do Brasil. No mundo inteiro faltaram fôlego e palavras para descrever o que se viu na TV. A intelectualidade mundial não consegue se posicionar e seguem-se análises e análises, jornal a jornal, que não dão conta de transmitir eficientemente nenhuma opinião que se fareje confiável. Depois do horror das imagens, é como se (nos) refilmássemos o (em) Apocalipse Now e trocássemos o diálogo final de Marlon Brando/Kurtz para "o pasmo, o pasmo".
Deve ser natural; olhar a morte assim tão de frente, sem intermediários, desperta na gente a necessidade de dizer o indizível.
É que na busca de se manter na função de esclarecedor, a imprensa demonstra, por incapacidade de análise, o pasmo, só que às avessas.
No seqüestro dos Abravanel, Gilberto Dimenstein entortou seus argumentos a favor da educação-para-todos até transformar os criminosos em vítimas do sistema. Sem dúvida integrantes da grossa massa de despossuídos, os seqüestradores não eram, entretanto, de forma alguma, representantes da miséria brasileira, esta, muito mais grave, profunda e abrangente. Classes-médias baixas, de família constituída com pai, mãe, educação fundamental, no máximo desempregados, nada os diferencia da imensa quantidade de iguais ou mais pobres e que, no entanto, não cometem crimes. Teria o Dimenstein querido enxergar nos rapazes um símbolo de desejos e tendências inconfessos da população? Me parece pretensioso e, principalmente, tendencioso. Na falta de compreensão do caso e negando a complexidade da trama, apela-se para um discurso já sedimentado: num país onde a escola é negada não se reflete sobre a ética profunda dos atos que se comete. Axioma quase impossível de questionar e verdadeiro ovo de Colombo para as mazelas do Brasil, forçados porém a servir de explicação para atos, de si, inexplicáveis.
Contardo Calligaris, autor dos artigos mais brilhantes que tenho encontrado na imprensa nos últimos anos, também acabou se utilizando de argumentos velhos seus conhecidos para comentar Nova York. Os terroristas explodem os símbolos do inimigo para afastar de seu campo de visão os objetos inconscientes do desejo. Caso o inimigo não exploda, seduzo-me por ele. Visão sofisticada da definição do sentimento de inveja - desejar que o outro não tenha aquilo que desejo - já que inclui a tomada de posição ativa por parte do invejoso, que por definição tende à paralisia, a análise de Calligaris me parecia mais bem adequada aos acontecimentos da convenção de países ricos europeus na Itália, quando um rapaz acabou morto por policiais.
As motivações do mundo ancestral islâmico simplesmente nos fogem. Os terroristas habitam cavernas, alimentam-se de pão molhado em leite de cabra, escrevem numa língua de caracteres absolutamente incompreensíveis!
Evidente, Contardo Calligaris chamava a atenção para o fato dos autores do atentado, os rapazes que estavam dentro do avião, os executores da tarefa, terem passado longos períodos em contato com a América, daí a imagem do fanático destruindo o motivador de suas tentações. Não me parece pretensioso pela integridade intelectual de Calligaris, mas ainda assim, me parece, paradoxalmente, aplainar a compreensão dos fatos.
Yves de la Taille, em palestra recente, demonstra idéia interessante: partimos do princípio que a vítima está do lado do bem. E é a América que bombardeia sistematicamente o mundo desde Hiroshima. Já nos vimos na pele das vítimas de Nova York, mas não conseguimos imaginar o que sentem afegãos e árabes em geral, debaixo de bombas há mais de quatro décadas. Seria porque não transmitem pela TV?
Numa guerra a primeira vítima é a verdade, diz outra frase brilhante e que resume o pasmo inevitável de toda situação absurda, desde que a presenciemos.
Assumir a defesa de qualquer dos lados é um atentado à bomba contra a honestidade de pensamento. Controlar o coração disparado diante da transmissão ao vivo do massacre é tarefa para robôs. Não há quem não esteja indignado. Não há quem permaneça impassível. Não é hora possível de compreendermos. Todo o esforço de elucidação do problema soa falso, artificial. O pasmo tomou conta de tudo.
Por fim, Carlos Heitor Cony, do alto de sua vasta experiência, lança um olhar panorâmico e situa o início do conflito terrorista na derrota americana no Vietnam. Nada mais acertado. As grandes potências só podem mesmo ser atacadas assim, de surpresa. Se alguém as escolheu para inimigo, seja isso plausível ou não, simplesmente não há alternativa: única e tão somente a guerra não convencional e sem rosto. A guerrilha e, hoje, o terrorismo. A covardia do ataque terrorista se equilibra com a desmedida do poder de fogo dos Estados Unidos. Davi versus Golias mas sem nenhuma moral por trás, só tamanhos e quantidades, desqualificados ambos.
Não haverá ganhadores, alerta Cony. No entanto, nada que os articulistas digam poderá influenciar uma verdade inquestionável. Os profissionais da guerra, estes não perderão tempo com reflexões e farão uso do momento de pasmo que se espalhou pelo mundo inteiro como (com) as imensas nuvens de poeira que cobriram Nova York.
Toldados pela fuligem do pasmo ficaremos todos tentando compreender o que aconteceu e enquanto isso os chefes da guerra entrarão em ação. Para eles é sempre dia claro. A espera pelo momento certo de renovar os estoques é administrada comercialmente. A indústria bélica americana e a indústria do ódio taleban vivem da morte. Demanda reprimida. Oferta e procura. Mais do que motivação, precisam intrinsecamente da guerra. Lógica da existência (sobrevivência): só existem para destruir. Ainda assim, pasmamos, ingênuos, diante de lógica tão absurda.


Monday, March 03, 2008

O monstro episódico

Desde "King Kong", em 1933, no início do cinema falado, Nova York é alvo de destruições catastróficas nos filmes. São profecias, frutos do medo. Metrópole por excelência, ativa, moderna, alvo simbólico de fascínios e ódios, ela terminou sendo atingida de fato no tremendo 11 de Setembro. A visão do ataque se repetiu no mundo inteiro em imagens límpidas: o brilho das torres, o azul do céu, perfeição cristalina. Depois, a bela forma do avião que se chocava contra o edifício retilíneo e, enfim, o desmoronamento. Essas imagens claras ocultam, no entanto, as ramificações das causas. Ao invés de uma revelação, o episódio agudo desencadeia, estarrecida, a incapacidade de compreender. Ele concentra a desagregação dos sinais e dos sentidos. Põe em evidência a história para melhor mostrá-la como incógnita. Assinala a fragilidade de cada um, à mercê de forças que ultrapassam a todos. Baudrillard disse que o 11 de Setembro significava um "retorno do real", mas retorno sobre o quê? Sobre as ilusões de que é possível compreender e agir. O real que retorna admite apenas uma navegação intuitiva, uma navegação de cabotagem, sem mapa, sem bússola, descobrindo, aqui e ali, fragmentos de sinais, soltos, que se recusam à coerência. Os processos da representação cinematográfica reagiram antes dos filósofos e substituíram o entendimento pela inquietação. É quando o medo se torna uma forma silenciosa, intuitiva e profunda de conhecimento. Instaura a fragilidade e a orfandade provocadas pelo não-saber e pelo não-poder.

Lagartixa

Nova York é arrasada em "Cloverfield", filme de Matt Reeves. Para tanto, ele ressuscita e atualiza Godzilla, o velho dinossauro atômico japonês, responsável por um apocalipse urbano. Da mesma maneira que em "A Bruxa de Blair", a ficção é construída como a verdade de um documentário amador, testemunha dos acontecimentos. Esse procedimento faz viver a catástrofe pelos olhos das vítimas (e também reduz os custos de produção: Cloverfield é um blockbuster econômico). Mergulha-se em meio ao simpático grupo de jovens que se diverte numa festa e que será surpreendido em seguida pela incursão do monstro. Um deles, encarregado de filmar o encontro feliz, seguirá captando as imagens do caos. A fita continha um registro anterior que irrompe de vez em quando, em curtos trechos, trazendo momentos de um dia idílico em Coney Island, praia popular que fica no Brooklyn. Essa teimosia do filme anterior em reaparecer por pequenas porções é melancólica: o registro antigo vai se apagando e fazendo sumir a paz e a felicidade que ele contém. De algum modo, porém, como restam fragmentos acidentais, ele permanece para falar da perda: perda do registro gravado, perda também da felicidade e da paz.

Fantasma

A imagem filmada é uma espécie de sobrevida. Alguns personagens de "Cloverfield" sentem isso, e deixam mensagens gravadas, caso venham a ser mortos. Numa delas, a moça conclui: "Eu não sei por que isso está acontecendo... Mas vamos esperar até que isso passe".

Par

"O Hospedeiro", dirigido por Bong Joon-ho, jovem diretor coreano, lançado em 2006, também tem um monstro reptiliano. Maravilhoso filme em que se equilibram o cômico, o pesadelo e o sentimento épico. Mas "O Hospedeiro" é uma crítica ecológica. "Cloverfield" expõe a irracionalidade mais obscura: é menos uma crítica que um abscesso angustiado.

JORGE COLI - COLUNISTA DA FOLHA

Sunday, March 02, 2008

Do novo dicionário inglês/nordestinês

What the hell is that? = Diabéisso?

Hurry up! = Avia, homi!

Take it easy! = Se avexe não!

Don't be stupid! = Deixe de ser jumento!

Let's go, fellows! = Rumbora, negada! Bó simbó!

No thanks! = Carece não!

Very far away! = Lááá im riba!

Very good! = Danado de bom!

This way... = Pêralí...

More or less... = Marromeno...

Straight ahead = No rumo da venta

Get out of the way! = Sai do mêi! ou, Arreda, negrada!

That's cool! = É pai d'égua!

I give up = Eu peço penico

Wait for me! = Perainda!

Hey, mister! = Psiu! Ei, seu Zé!

Son of a bitch! = Fííí duma kenga!

Come to me, baby! = Ande cá, Zefinha!

Where are you going? = Onturrai?

Where are you coming from? = Donturreim?

Oh, gosh! = Deeeu a bixiga!

http://nordestedagente.blogspot.com/

Sunday, February 24, 2008


Looking Glass
Carla Zavatieri


Friday, February 22, 2008

Palimpsesto

toda poesia já
escrita

não se equipara
a toda poesia

inscrita
a poesia jaz

Edson Cruz - Sortilégio

Friday, February 15, 2008

Desafinado
Tom Jobim & Newton Mendonça


Quando eu vou cantar, você não deixa
E sempre vem a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você tão bonita
Mas sua beleza também pode se enganar


Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural

O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolleyflex
Revelou-se a sua enorme ingratidão

Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar, viu
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um coração

Saturday, February 09, 2008

No espelho eu encontro o que não quero, ele não me permite cortes. Insiste em me ver inteira. E eu sou uma mulher de edições e retoques. A carne do espelho é viva demais e eu não tenho nervos para isso.

Lu Miranda Penna - gatocontraaparede.blogspot.com

Thursday, February 07, 2008

Otelo, o mouro de Veneza
Governador da Ilha de Chipre
A medo de lhe adornarem chifres
Sufoca até a morte Desdêmona

Assim como na cena em que
Julieta
Sob a ação de fortes sedativos
Aparenta
Ter deixado o mundo dos vivos
Por não exalar um sopro sequer


O corpo inerte da filha de Brabâncio quer,
em sua asfixia, repetir
a Ofélia afogada do Hamlet
E a Cordélia enforcada do Lear

Morre sem ar
O mártir
Em Shakespeare

Wednesday, February 06, 2008

Carla Zavatieri

Trabalhar mais de 40 horas faz mal à saúde, diz estudo
Anelise Infante
De Madri para a BBC Brasil

Uma pesquisa do governo de Barcelona concluiu que uma jornada de trabalho de mais de 40 horas semanais causa danos físicos e emocionais à saúde, principalmente no caso das mulheres.

O estudo, que será publicado nesta semana na revista Scandinavian Journal of Work, Environment & Health, indicou que o excesso de horas de trabalho tem conseqüências como ansiedade, depressão e problemas cardíacos.

Os pesquisadores acompanharam 2.792 pessoas de diversas profissões e classes sociais durante um ano.

A Agência de Saúde Pública de Barcelona concluiu que as mulheres são as mais prejudicadas porque acumulam mais funções entre casa e trabalho e "emocionalmente respondem pior à pressão".

Sono e ansiedade

De acordo com os cientistas, uma longa jornada de trabalho, a partir de 40 horas por semana, afeta os homens principalmente por meio de distúrbios no sono.

Já as mulheres mostram mais sintomas como hipertensão, ansiedade, aumento de probabilidade de fumar, restrição de outras atividades de ócio e de prática de exercício e uma insatisfação geral. Também foram observados transtornos psíquicos e hormonais.

A pesquisa chamada "Perspectiva de gênero na análise da relação entre longas jornadas de trabalho, saúde e percepção do próprio estado de saúde", demonstrou que os homens têm cargas horárias maiores: 30,4% deles disseram trabalhar por mais de 40 horas, contra 17,1% de mulheres.

Mas as trabalhadoras dividem mais o tempo entre as tarefas domésticas e o trabalho fora de casa: 34,4% contra 9,2% de homens.

Classe

Em relação ao nível sócio-econômico, as mulheres de classes mais baixas são as que trabalham mais horas.

No caso dos homens é o contrário. Quanto mais alto o cargo de responsabilidade e o status salarial, maior é a carga horária. Na mesma proporção aumentam os riscos de problemas de saúde, já que segundo o estudo, são trabalhadores que dormem menos de seis horas ao dia.

Horas extras e falta de condições adequadas (baixos salários, excesso de pressão, carência de materiais, ambiente ruim) afetam a saúde das mulheres de pior qualificação profissional, principalmente do setor de serviços, segundo a pesquisa.

"As funcionárias de comércios, pequenas empresas, indústrias, bares e restaurantes são o coletivo mais vulnerável que precisaria de maior atenção pública em atividades de prevenção", afirmaram os cientistas.

O estudo indicou ainda que as mulheres separadas e divorciadas triplicam as horas de trabalho comparadas com os homens no mesmo estado civil.

Tuesday, February 05, 2008

[...] é importante reconhecermos que em cada fase deste ciclo (que vai do seu nascimento até a sua morte) a história do herói toma formas particulares, que se aplicam a determinado ponto alcançado pelo indivíduo no desenvolvimento da sua consciência do ego e também aos problemas específicos com que se defronta a um dado momento. Isto é, a imagem do herói evolui de maneira a refletir cada estágio de evolução da personalidade humana.
Este conceito pode ser entendido mais facilmente se o apresentarmos de uma forma que corresponda a um diagrama. Tomo como exemplo uma tribo de índios norte-americanos, os Winnebagos, porque nela podemos observar, nitidamente, quatro etapas distintas da evolução do herói. Nestas histórias (publicadas pelo Dr. Paul Radin em 1948, sob o título O Ciclo Heróico dos Winnebagos) pode-se notar a clara progressão do mito desde o conceito mais primitivo do herói até o mais elaborado. Esta progressão é característica de outros ciclos heróicos. Apesar de suas figuras simbólicas terem nomes diferentes, sua atuação é idêntica, e vamos compreendê-las melhor através do que fica evidenciado neste exemplo.
O Dr. Radin constatou quatro ciclos distintos na evolução do mito do herói. Chamou-lhes: ciclo Trickster, ciclo Hare, ciclo Red Horn e ciclo Twin. Percebeu claramente o significado psicológico desta evolução quando disse: "Representa os esforços que fazemos todos para cuidarmos dos problemas do nosso crescimento, ajudados pela ilusão de uma ficção eterna".
O ciclo Trickster corresponde ao primeiro período de vida, o mais primitivo. Trickster é um personagem dominado por seus apetites; tem a mentalidade de uma criança. Sem outro propósito senão o de satisfazer suas necessidades mais elementares, é cruel, cínico e insensível (nossas histórias do Irmão Coelho ou da Raposa Reynard perpetuam o que há de mais essencial no mito Trickster).
Esse personagem, que inicialmente aparece sob a forma de um animal, passa de uma proeza maléfica a outra. Mas ao mesmo tempo começa a transformar-se e no final da sua carreira de trapaças vai adquirindo a aparência física de um homem adulto.
O personagem seguinte é Hare (a Lebre). Ele também, tal como Trickster (muitas vezes representado pelos índios americanos como um coiote), aparece inicialmente como um animal. Não tendo ainda alcançado a plenitude da estatura humana surge, no entanto, como o fundador da cultura - o transformador. Os Winnebagos acreditam que, tendo ele lhes dado o seu famoso Rito Medicinal, tornou-se seu salvador e uma espécie de "herói da cultura". [...] Esta figura arquetípica representa um avanço distinto sobre Trickster: é um personagem que se torna mais civilizado, corrigindo os impulsos infantis e instintivos encontrados no ciclo de Trickster.
Red Horn, o terceiro herói desta série, é uma pessoa ambígua e o caçula de 10 irmãos. Atende aos requisitos do herói arquetípico, vencendo difíceis provas em corridas e em batalhas. Seu poder sobre-humano revela-se na sua capacidade para derrotar gigantes pela astúcia (no jogo de dados) ou pela força (numa luta corporal). Tem um companheiro vigoroso sob a forma de um pássaro-trovão, chamado Storms-as he walks ('há uma tempestade quando ele passa'), cujo vigor compensa qualquer possível fraqueza de Red Horn. Com Red Horn chegamos ao mundo do homem apesar de ser um mundo arcaico, no qual são imprescindíveis poderes sobre-humanos ou deuses tutelares para garantir a vitória do indivíduo sobre as forças do mal que o perseguem. No final da história o herói-deus vai embora deixando Red Horn e seus filhos na Terra. Os perigos que ameaçam a felicidade e a segurança do homem nascem, agora, do próprio homem.
Este tema básico (repetido no último ciclo, o dos Twins) suscita uma questão vital: por quanto tempo podem os seres humanos alcançar sucesso sem caírem vítimas de seu próprio orgulho ou, em termos mitológicos, da inveja dos deuses?
Apesar de os Twins serem considerados filhos do Sol, eles são essencialmente humanos e, juntos, vêm a constituir-se numa só pessoa. Unidos originalmente no ventre materno, foram separados ao nascer. No entanto, são parte integrante um do outro e é necessário, apesar de extremamente difícil, reuni-los. Nestas duas crianças estão representados os dois lados da natureza humana. Um deles, Flesh, é conciliador, brando e sem iniciativas; o outro, Stump, é dinâmico e rebelde. Em algumas das histórias dos heróis Twins estas atitudes foram apuradas até chegar ao ponto de uma das figuras representar o introvertido, cuja força principal encontra-se na reflexão, e outra o extrovertido, um homem de ação capaz de realizar grandes feitos.
Por muito tempo estes dois heróis permanecem invencíveis. Tanto apresentados como dois personagens distintos ou como dois em um, nada lhes resiste. No entanto, exatamente como os deuses guerreiros dos índios Navajos, tornam-se, eventualmente, vítimas do abuso que fazem de sua própria força. Não deixam sobrar mais nenhum monstro no céu ou na terra sem ser combatido, e sua conduta desvairada acaba recebendo troco. Os Winnebagos contam que, por fim, não restou mais nada que lhes escapasse - nem mesmo os suportes que sustentam o mundo. Quando os Twins mataram um dos quatro animais em que se apoiava o nosso globo, ultrapassaram todos os possíveis limites, e chegou o momento de pôr fim à sua carreira. A morte era o castigo merecido.
Assim, tanto no ciclo do Red Horn quanto no ciclo dos Twins encontramos o tema do sacrifício ou morte do herói como a cura necessária para a hybris, o orgulho cego. Nas sociedades primitivas cujo nível cultural corresponde ao ciclo do Red Horn, parece que este perigo pôde ser evitado com a instituição do sacrifício humano expiatório - um tema de enorme importância simbólica, que reaparece continuamente na história do homem.
Nos exemplos de traição ou derrota do herói que encontramos na mitologia européia, o tema do sacrifício ritual é mais especificamente utilizado como punição para a hybris. Mas os Winnebagos, como os Navajos, não vão tão longe. Apesar de os Twins terem errado e merecerem, portanto, a pena de morte, eles próprios ficaram tão assustados com sua força incontrolável que concordaram em viver em estado de repouso permanente, permitindo aos dois aspectos contraditórios da natureza humana reencontrarem, assim, seu equilíbrio.

Joseph L. Henderson. Os mitos antigos e o homem moderno - O Homem e Seus Símbolos.

General Daily Horoscope for everyone

The Sun in humanistic Aquarius makes its annual conjunction with Chiron the Wounded Healer, forcing us to face our limitations. We may aspire toward godliness, but can only go so far in our quest for the divine. Remembering old hurts and pains can be therapeutic, but nursing them can be debilitating. The Moon's entry into intellectual Aquarius at 2:08 pm EST brings emotional detachment, allowing us to forgive others and move beyond our pain.

Monday, February 04, 2008

City of Angels - 1998

OBRAS. PRIMAS.

11 de Janeiro
http://www.flickr.com/photos/liliday/

http://gatocontraaparede.blogspot.com

Tudo era apenas uma brincadeira. Eu já não diviso mais onde parei. Sou o que lhes ofereço. Sem aumentar um ponto, porque não sei o que dizer e não adivinho o meu intento. Pouso na página o que sai, o que aguento. Não tão naïf, nem tão cru, revelo apenas o medo de quem não sabe ficar nu, mas tão somente engessar-se em livros e nomes e bichos, isolada das gentes. Exponho matéria prima, de quinta ou de sexta, depende do tempo, não do que ouso supor que invento.
Acho que minto, não sei se entendo, só quero escrever todo momento. Me dêem permissão para fazê-lo às vistas, porque eu já não posso comigo e com o que sai de dentro. Ainda que informe, ainda que rima, mesmo que vento, cinzas a esmo de mim para comigo com alguns de vocês, em fado, me lendo.

- What I wanted to say was... I think you're the kindest, sweetest, prettiest person... I've ever met in my life.
I've never seen anyone... that's nicer to people than you are.
The first time I saw you... something happened to me. I never told you, but... I knew that I wanted to hold you as hard as I could.
I don't deserve someone like you.
But if I ever could... I swear I would love you... for the rest of my life.

Phil Connors (Bill Murray) para Rita (Andie MacDowell), que adormece.
The Groundhog Day - Harold Ramis

Sunday, February 03, 2008

Dream big while methodically following through an inch at a time.

o3 de fevereiro - um dia depois do Dia da Marmota.
Ou: 2008 - 1985 = 23 anos. The first kiss!
Ou ainda: o2 de fevereiro - Yemanjá na Bahia & Groundhog Day na Pensilvânia.
Feitiço do Tempo


As long as you don't try to do everything all at once, you'll probably feel good about the progress you make today. Just remember that this isn't about quick fixes or instantaneous solutions. Fortunately, taking baby steps is usually quite comfortable for you. Dream big while methodically following through an inch at a time.

Quando alguma coisa escapa da nossa consciência esta coisa não deixou de existir, do mesmo modo que um automóvel que desaparece na esquina não se desfez no ar. Apenas o perdemos de vista. Assim como podemos, mais tarde, ver novamente o carro, assim também reencontramos pensamentos temporariamente perdidos.
Parte do inconsciente consiste, portanto, de uma profusão de pensamentos, imagens e impressões provisoriamente ocultos e que, apesar de terem sido perdidos, continuam a influenciar nossas mentes conscientes. [...]

(é isto) que leva tantos médicos a rejeitarem as afirmações de pacientes histéricos como mentiras. Tais pacientes arquitetam maior número de inexatidões do que a maioria de nós, mas "mentira" dificilmente será a palavra certa a empregar. De fato, o seu estado mental provoca uma conduta indecisa, já que a sua consciência está sujeita a eclipses imprevisíveis causados por interferências do inconsciente.

[...] Dificlmente poder-se-á expor esses princípios de maneira mais despretensiosa. E mesmo que algumas pessoas menosprezem o inconsciente, têm que admitir que é válido investigá-lo; o inconsciente está, pelo menos, no mesmo nível do piolho que, afinal, desfruta do interesse honesto do entomologista. Se aqueles que possuem pouca experiência e escassos conhecimentos a respeito dos sonhos consideram-nos apenas ocorrências caóticas, sem qualquer significação, têm toda a liberdade de fazê-lo. Mas, se julgarmos o sonho um acontecimento normal (o que, na verdade, ele é) temos de ponderar que ou ele é causal - isto é, há uma causa racional para a sua existência - ou, de um certo modo, intencional. Ou ambos.

Carl G. Jung - O Homem e Seus Símbolos

Wednesday, January 30, 2008


Deus me dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar o que puder e sabedoria, para distinguir uma coisa da outra.

Tal como acontece com o I Ching, consulta-se o tarô sob o pressuposto de que o subconsciente tem mais que ver com o acaso do que pode parecer à primeira vista. Ele parece conhecer as coisas que ficam ocultas ao consciente. Em certos momentos de paz ou exaustão, essas intuições podem ser transmitidas ao consciente [...]
O principal problema neste caso é estabelecer uma ligação entre o consciente e o subconsciente; é exatamente isso que o criador das cartas do tarô tencionava fazer. Os símbolos do tarô servem a uma dupla finalidade: de alfabeto, com cuja ajuda o subconsciente pode soletrar seus significados e para estimular a força inerente do subconsciente, assim como uma ficha perfurada "estimula" um computador eletrônico. Tudo se resume num intercâmbio recíproco.

Colin Wilson, Das Okkulte (citado no Manual do Tarô de Hajo Banzhaf)

Síntese: O carro da vitória representa todas as experiências e características que acompanham uma alegre partida: coragem, confiança, prazer, iniciativa, disposição para a ação. Mas também representa a habilidade do auriga: a manutenção do equilíbrio interior e exterior e a capacidade de transformar os impulsos opostos, naturais, dos cavalos num impulso conjunto para a frente (por exemplo, querer e sentir). Como acontece com poucas outras cartas, neste caso o lado da sombra força a sua presença no primeiro plano; a auto-supervalorização, o desconhecimento de que suas capacidades são limitadas. Os mitos com narrativas sobre a fuga de Ícaro e Phaeton falam sobre isso. Portanto, a carta adverte ao mesmo tempo sobre o risco da intemperança e lembra que é preciso respeitar os próprios limites.

Hajo Banzhaf - Manual do Tarô


História e iconografia

O desfile dos heróis triunfantes de pé sobre seus carros de guerra é um costume pelo menos tão antigo quanto os próprios carros de guerra. Court de Gébelin – e com ele os que acreditam numa origem egípcia do Tarô – imagina que o Arcano VII nada mais é que a reapresentação do Osíris triunfal, e que os cavalos são uma herança vulgar da Esfinge.

www.clubedotaro.com.br


VII. O CARRO
O Arcano do Domínio, do Repouso
Compilação de Constantino K. Riemma

Dois cavalos arrastam uma espécie de caixa, montada sobre duas rodas e coberta por um dossel, onde se encontra um homem coroado, que traz um cetro em sua mão direita. Na parte frontal do carro (a única visível), em boa parte dos tarôs clássicos, há um escudo com duas letras, que variam com as editoras das lâminas.
Mais do que de cavalos, poderíamos falar de dois corpos dianteiros, fundidos ao carro. Os dois animais olham para a esquerda, mas a sua disposição é tal que parecem andar cada um para o seu lado. O cavalo da esquerda levanta a pata direita, e o da direita, a pata esquerda. O dossel repousa sobre quatro colunas.

O homem, que tem uma coroa do tipo das de marquês, tem a mão esquerda sobre um cinto amarelo, na altura da cintura, e na mão direita traz um cetro que termina por um ornamento esférico encimado por um cone. O peito do personagem está coberto por uma couraça. Cada um dos seus ombros está protegido por uma meia-lua, com rostos de expressão diferente.

Os cabelos do personagem são amarelos, e seu olhar dirige-se ligeiramente para a esquerda, no mesmo sentido que o de seus cavalos.

Cinco plantas brotam do solo. Não aparecem rédeas ou qualquer outro meio de guiar o carro.


Significados simbólicos

Contemplação ativa, repouso. Vitória, triunfo. O setenário sagrado, a realeza, o sacerdócio. Magistério. Superioridade. Realização.

Interpretações usuais nas cartomancias

Êxito legítimo, avanço merecido. Talento, dons, capacidade, aptidões postas em marcha. Tato para governar, diplomacia, direção competente.

Conciliação dos antagonismos, condução de forças divergentes. Progresso, mobilidade, viagens por terra.


Mental: As coisas se realizam, mas falta ainda montar as peças de conjunto.


Emocional: Afeto manifestado; protetor, serviçal.


Físico: Grande atividade, rapidez nas ações. Boa saúde, força, atividade intensa. Do ponto de vista do dinheiro: gastos ou ganhos, movimento de fundos.

Significa também notícia inesperada, conquista. Pode ser interpretado também como difusão da obra ou atividades do consulente através de palavras e, segundo sua localização na tiragem, significa elogios ou calúnias.


Sentido negativo: Ambições injustificadas, vanglória, megalomania. Falta de talento e de consideração. Governo ilegítimo, situação usurpada, ditadura. Oportunismo perigoso. Preocupações, cansaço, atividade febril e sem repouso. Perda de controle.

[...] sempre serei como uma criança para tantas coisas, mas uma dessas crianças que desde o início levam, consigo, o adulto, de modo que quando o monstrinho chega verdadeiramente à idade adulta ocorre que, por sua vez, esse leva consigo a criança, e no meio do caminho se dá uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas do mundo. Isso [...] aponta, em todo caso, para um temperamento que não renunciou à visão pueril como preço da visão adulta, e essa justaposição [...] manifesta-se no sentimento de não estar completamente em qualquer das estruturas, das teias que a vida arma e nas quais somos, ao mesmo tempo, aranha e mosca.

Julio Cortázar - Del sentimiento de no estar del todo - La vuelta al día en ochenta mundos.

Citado por Jorge Larrosa em Pedagogia Profana.

If you have been working toward a promotion or a raise, things might finally start to loosen up on the job front now that Mars is again pushing forward in your 10th House of Career. But don't expect too much too fast or you will be disappointed. Your rewards could fall short of your desires, but it may take a few more weeks until you see the full results from your efforts.

Friday, January 25, 2008

Notícia do Blue Bus

Wikipedia, tao credivel quanto a Britannica | depoimento de leitor 14:00

Li no Blue Bus a nota aqui sobre a proibiçao da France Presse ao uso da Wikipedia como fonte e o comentário do Thompson Loiola aqui apoiando a decisao. Entendo a preocupaçao dele e da AFP, mas acho um pouco exagerada, equivocada mesmo. Toda fonte tem problemas de credibilidade. Quem me garante que o reporter que redigiu um texto para a France Presse, por exemplo, nao mentiu, deturpou ou distorceu a informaçao? Já aconteceu antes e vai acontecer no futuro. Quem me garante que os livros e as revistas que compro ou o jornal que vejo na TV trazem realmente a informaçao correta? 24/01 Jorge Henrique


A Wikipedia conta com a colaboraçao de milhares de pessoas mundo afora, que, por diletantismo, gostam de escrever sobre determinados assuntos. Muitos sao, inclusive, especialistas no tema, mas nao tem espaço - ou nao querem, por ter outra profissao - para divulgar seus conhecimentos. É aí que a Wikipedia entra e funciona muito bem. É a inteligência coletiva funcionando muito bem, obrigado. 24/01 Jorge Henrique

Em 2005, fizeram um teste para conferir a precisao da Wikipedia. Estudiosos foram convidados pela revista Nature para avaliar um mesmo número de artigos da enciclopédia online e também da tradicional Britannica. Resultado? Encontraram a mesma quantidade de erros em ambas! Ou seja - a Wikipedia é tao precisa quanto a Britannica - com a vantagem de podermos corrigir os erros no exato momento em que sao identificados. Já os erros da Britannica terao que aguardar compulsoriamente uma nova ediçao. 24/01 Jorge Henrique

Eu mesmo sou autor de alguns verbetes na Wikipedia e sempre que posso vou lá dar uma conferida para ver se alguem mexeu em algo, acrescentou, etc. Se encontro algum erro grave, corrijo. Converso com outros autores, discuto idéias, debato conceitos e informaçoes publicadas. É divertido, acreditem! Recomendo a todos que têm informaçoes preciosas sobre qualquer tema e nunca publicaram nada. Essa cultura wiki nao pára de crescer - estao soltando as amarras do pensar. A Wikipedia gerou filhotes. Muitos. Como a sisuda RationalWiki e as hilárias Uncyclopedia e Desiclopédia. Tem também o Wikibooks (dedicado a livros de conteúdo aberto) e a Wikiversity (que cria e promove o uso de materiais didáticos livres). Estao pensando até em criar um portal wiki para a produçao científica. É o sonho de Diderot realizado - enciclopédias vivas! 24/01 Jorge Henrique

Thursday, January 24, 2008

Todo sexagenário tem uma ficha criminal de 82 páginas.

Melhor Idade
Preso em SP sexagenário com ficha criminal de 82 páginas

Policiais civis da Divisão de Investigações Gerais (DIG) prenderam em flagrante um idoso de 61 anos com 82 páginas de ficha criminal, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.

O acusado, que não teve seu nome revelado, tem passagens na polícia por furto, roubo, tráfico, estelionato, receptação e até homicídio. Segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública, na casa dele, a polícia apreendeu armas e munições.

Os policiais chegaram até o acusado após a apreensão de um trator furtado. Com ele, foram apreendidos dois revólveres, duas espingardas, munições, um alicate de corte hidráulico, cinco chaves para dar partida em trator e um celular.

O idoso tem três mandados de prisão preventiva e está preso na delegacia da DIG. A polícia acredita que, com a prisão dele, outros casos de roubos também sejam solucionados na região de São José do Rio Preto.

Aê, vovô!!!

You may feel as if you've returned home today, although there are more unfinished chores than you wish. You don't mind the work that's required of you as long as you can see the potential return. Keep in mind that short-term objectives are not as important now as long-term ones. By focusing your attention on the future, you'll be more able to perform in an exemplary manner today.

Wednesday, January 23, 2008

You say it's your birthday
It's my birthday too, yeah
They say it's your birthday
We're gonna have a good time
I'm glad it's your birthday
Happy birthday to you

Yes we're going to a party, party
Yes we're going to a party, party
Yes we're going to a party, party
I would like you to dance

(birthday) Take a cha-cha-cha-chance
(birthday) I would like you to dance
(birthday) da-da-dance
I would like you to dance
(birthday) Take a cha-cha-cha-chance
(birthday) I would like you to dance
(birthday) da-da-dance

You say it's your birthday
It's my birthday too, yeah
They say it's your birthday
We're gonna have a good time
I'm glad it's your birthday
Happy birthday to you

Tuesday, January 22, 2008

"Não tenho do que reclamar", diz docente que ganha mais de R$ 7.000 na rede privada

A professora Maria Cristina Sucupira é um exemplo de como pode ser distinta as realidades na rede particular. Enquanto há escolas em São Paulo que pagam apenas o piso, de R$ 659 para o ensino fundamental, ela leciona no colégio Santa Cruz (zona oeste de SP), onde os docentes recebem, na mesma etapa de ensino, no mínimo R$ 4.296.
Sobre sua situação financeira, Maria Cristina, 44, afirma: "Não tenho do que reclamar". Ela leciona biologia no ensino médio (etapa que o colégio paga entre R$ 7.114 e 8.821, por 30 h semanais).
O salário, conta, permite que ela dê aulas só em uma escola. "O professor pode se concentrar só em manter ou melhorar as atividades."
Professora de 5ª série ao ensino médio em um colégio estadual da zona sul de SP, Ana Luiza Siscart de Toledo, 52, afirma viver em uma situação salarial totalmente diferente. Com 29 anos de magistério, ela ganha R$ 2.000 por 30 horas semanais.
Conta que tem três cursos superiores (história, pedagogia e serviço social) e fala quatro línguas. "O salário é baixo. Se não fosse professora, certamente ganharia mais."
Ana Luiza, porém, afirma que trabalha "com muito prazer", pois "ver uma criança crescendo, aprendendo, é muito gratificante".

Sergipe

A professora Shirley da Anunciação Cruz, 35, desistiu há cerca de um ano de dar aulas na rede particular de Aracaju (SE). O motivo: ganhava R$ 200 mensais, pouco mais de meio salário mínimo.

Professora de português, ela lecionou por 13 anos em escolas particulares. Agora, se dedica somente à rede estadual, onde já está faz oito anos. O trabalho lhe rende cerca de R$ 850 por mês.
"Pensei no meu filho, que hoje tem três anos, e acho que foi melhor ter saído. Além de pagarem pouco, as escolas particulares ainda exigem muitas atividades extras. Era muito cansativo", diz.

Salário no ensino básico é menor que média do brasileiro

Os professores brasileiros do ensino básico com diploma superior ganham menos que a média da população com semelhante grau de instrução. Considerando os docentes sem ensino superior, a média salarial é inferior à da população total -constatações presentes em dados tabulados pela Folha, com base na Pnad 2006.
Segundo dados do IBGE, o rendimento médio dos professores da educação básica com nível superior vai de R$ 1.152 (1ª a 4ª) a R$ 1.660 (ensino médio). Entre a população brasileira em geral com diploma superior a média é de R$ 2.693.
Comparando diversas profissões, no país, professores do ensino básico ganham menos que caixas de banco (R$ 1.690).
Dentro da classe docente, apenas os que lecionam no ensino superior ganham mais (R$ 3.605) que a média brasileira com nível universitário.
"Com esses salários, em muitos casos, o magistério sobra como um emprego provisório ou para os que não conseguiram outro trabalho", diz o pesquisador da USP-Ribeirão Preto José Marcelino Rezende Pinto.
"Esse quadro leva os professores a jornadas duplas e triplas, para aqueles que de fato vivem do magistério. Aí, não tem jeito, cai a qualidade."
Defensor do entendimento de que a situação financeira dos professores no país "não é tão ruim", o pesquisador da FGV-RJ Samuel Pessoa diz ser necessário considerar um fato adicional ao salário.
"Na rede pública, há vantagens adicionais como a estabilidade e a aposentadoria integral em menos tempo de trabalho." (AG e FT)

Salário na rede privada caiu de 2005 para 2006

A Pnad mostra que, de 2005 para 2006, os rendimentos na rede privada -sem considerar o nível de ensino que lecionam- caiu 4,3%. Já nos sistemas municipais e estaduais houve, respectivamente, aumentos de 16% e 20%.
Na avaliação de Simon Schwartzman, autor da tabulação da pesquisa, a melhoria dos salários na rede pública está relacionada ao fato de muitos professores terem obtido o diploma de nível superior.
Dados do Censo Escolar mostram que o percentual de professores dos níveis iniciais da educação básica com diploma de ensino superior cresceu de 20% para 53% de 1996 a 2006. Quanto maior a titulação, em geral, maior a remuneração na rede pública.

Salários melhores

Outros estudos divulgados no ano passado já indicavam que a condição salarial dos professores da rede pública melhoram. Um deles foi feito pelos pesquisadores Samuel Pessoa, Fernando de Holanda Barbosa Filho e Luís Eduardo Afonso, da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e da USP (Universidade de São Paulo), e utilizava o Censo do IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) do ano 2000 como base.

Naquele ano, o rendimento médio verificado entre os professores da rede privada era ligeiramente superior ao da rede pública, mas, quando se incluía no salário as vantagens da aposentadoria, o emprego no setor público ficava mais vantajoso, de acordo com a conclusão do estudo. (AG e FT)