Saturday, April 16, 2011
- Como foi que a senhora ficou sabendo que éramos casados? - perguntou Dinah.
Miss Marple esboçou um sorriso suplicante.
- Oh, querida! - disse ela.
Dinah insistiu.
- Como foi que a senhora soube? A senhora não foi... não foi à Somerset House?
Os olhos de Miss Marple cintilaram momentaneamente.
- Somerset House? Oh, não. Mas era muito fácil de se imaginar. Tudo corre pela aldeia, sabe. A espécie de brigas que vocês têm... típicas dos primeiros dias do casamento. Muito... muito diferente das relações ilícitas. Já se disse, a senhora sabe, (e eu acho que é uma verdade), que um casal só pode brigar de verdade quando é realmente casado. Quando não há nenhum vínculo legal, as pessoas são muito mais cuidadosas, têm que se convencer de que tudo é feliz e sereno. Elas têm, sabe, de se justificar. Não ousam discutir. As pessoas casadas, já notei, gostam muito de brigar e também das reconciliações.
Fez uma pausa, piscando os olhos benignamente.
- Bem, eu... - Dinah parou e deu uma risada. Assentou-se e acendeu um cigarro. - A senhora é maravilhosa.
E continuou:
- Mas, por que a senhora quer que confessemos a verdade e aceitemos a respeitabilidade?
A expressão de Miss Marple tornou-se sombria.
- Porque, a a qualquer momento, seu marido poderá ser preso por assassinato.
Agatha Christie - Um Corpo na Biblioteca
Friday, April 15, 2011
Idioma pode ser extinto porque dois únicos falantes se odeiam
Do UOL Notícias
Em São Paulo
O ayapaneco era um idioma falado por milhares de pessoas por séculos, na região de Tabasco, no México. A língua sobreviveu à conquista dos espanhóis, guerras, enchentes e pestes, mas pode não conseguir passar por um desafio final: a briga entre os dois únicos falantes do idioma no mundo.
Segundo o jornal inglês "The Guardian", Manuel Segovia, 75 anos, e Isidro Velazquez, 69 anos, vivem a 500 metros de distância um do outro em Ayapa. No entanto, eles não se comunicam em ayapaneco porque, simplesmente, se odeiam.
“Quando eu era jovem todos falavam ayapaneco. Aos poucos, o idioma foi sumindo e, agora, acho que vai morrer comigo”, disse Segovia, que costumava bater papo no idioma com seu irmão, que morreu há dez anos.
Segovia continua conversando com a mulher e os filhos que não são bem fluentes em ayapaneco.
Para evitar a extinção do idioma, o linguista Daniel Suslak, na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, pretende fazer um dicionário de ayapaneco, com a ajuda dos dois falantes turrões.
Além disso, o Instituto Nacional Indígena, do México, pretende organizar aulas de ayapaneco com Segovia e Velazquez, que terão de se entender para evitar a morte do idioma.
Thursday, April 14, 2011
Tuesday, April 12, 2011
Que Napoleão é esse?
Chefe de praticamente todas as guerras em andamento nos quatro cantos do mundo, Nicolas Sarkozy pode ter bombardeado a Líbia, a Costa do Marfim e o Afeganistão mirando numa dúvida cruel dos franceses: afinal de contas, o atual presidente da República se parece mais com Napoleão I ou com Napoleão III?
O gosto pela guerra que vem demonstrando ultimamente aproxima Sarkozy da imagem do fundador do império, o Bonaparte famoso pelo gênio estrategista militar. O presidente quer ser comparado a Napoleão I, e nem se importa que lembrem do 1,68m de altura, comum aos dois. Prefere ser reconhecido como um baixinho dinâmico e guerreiro a se celebrizar na França, como querem alguns historiadores, pela estatura moral semelhante a de Napoleão III.
Conhecido como “Napoleão, o Pequeno”, o sobrinho de “Napoleão, o Grande” teria em comum com Sarkozy o narcisismo, o populismo, a gabolice, a hiperatividade, o ilusionismo político, a ostentação e a submissão aos amigos ricos.
Por muito menos, convenhamos, a França declarou guerra a praticamente toda a Europa na virada do Século XIX.
Monday, April 11, 2011
O país do passado
MARCELO NERI
O Brasil começa a se libertar da herança escravagista que vigorou até o final do século 19
Segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), entre 2001 e 2009 a renda per capita média brasileira subiu 23,7% em termos reais. Isto é, descontando a inflação e o crescimento populacional, o desempenho médio tupiniquim esteve longe de ser um espetáculo de crescimento.
O cálculo da renda média assume pesos maiores para as rendas maiores. Cada um vale o que ganha. Se apontarmos o binóculo para a plateia, quem se sentou na primeira fila, e quem perdeu o show do crescimento?
A renda dos 10% mais pobres no Brasil subiu 69,1% no período. Esse ganho vai caindo paulatinamente à medida que nos aproximamos do topo da distribuição, atingindo 12,8% entre os 10% mais ricos, taxa de crescimento mais próxima da média do que a dos mais pobres.
Existe outra hipótese forte subjacente ao cálculo da renda per capita que referencia a maior parte das pesquisas acerca do binômio pobreza e desigualdade.
Tudo se passa como se, numa espécie de socialismo doméstico, cada membro do domicílio deixasse seu respectivo quinhão de renda num pote e de onde cada familiar depois retira uma parcela igual da renda. Tendemos a zerar a desigualdade que não enxergamos.
O conceito de renda domiciliar per capita elimina - por construção - toda desigualdade existente entre os diferentes membros de uma mesma família. Por exemplo, se a mulher recebe menos que o marido no âmbito domiciliar, a perda delas é compensada pelo ganho deles.
Nesse sentido, a desigualdade entre brasileiros e brasileiras está subestimada na renda per capita. Agora, como se comportou no período 2001 a 2009 a desigualdade de renda média entre indivíduos que compõem diferentes segmentos da sociedade? Gênero: a renda delas sobe 37,7%; a deles, 16,6%. Reportamos também a razão de rendas colocando a dos mais pobres no numerador.
Nesse caso, a razão de rendas por sexo - mulheres por cima - sobe de 0,49 para 0,58 entre 2001 e 2009.
Raça: a renda de pessoas que se identificam como pretos e pardos sobe 43,1% e 48,5%, respectivamente, ante 20,1% dos brancos. A razão de renda entre pretos e brancos sobe de 0,53 para 0,62.
Escolaridade: a renda de pessoas sem nenhuma escolaridade sobe 53,5%, ante queda de 9% daquelas com pelo menos o nível superior incompleto. Essa conjunção de movimentos faz com que a razão de rendas dos menos em relação aos mais educados suba de 0,09 para 0,17.
Espacial: a renda da região mais pobre, o Nordeste, sobe 41,8%, ante 15,8% do Sudeste maravilha. A razão de rendas sobe de 0,43 para 0,53. Detalhando o perfil espacial, a renda sobe 46,8% no Maranhão, inicialmente o Estado mais pobre, ante 7,2% de São Paulo, o mais rico.
Em Sergipe, a renda sobe 58%. Fazendo um zoom nos municípios das capitais, a maior taxa de crescimento foi a de Teresina, com 56,2%. O destaque das periferias das metrópoles brasileiras foi Fortaleza, com 52,3%. Já a capital e a periferia da Grande São Paulo subiram 2,3% e 13,1%, respectivamente.
Esse padrão, em que a periferia cresceu mais do que a capital, foi observado em sete das nove grandes metrópoles brasileiras.
Similarmente, a renda cresceu mais nas áreas pobres rurais, com 49,1%, ante 16% das metrópoles e 26,8% das demais cidades. Os setores de atividade com desempenho acima da média incluem aqueles que abrigam a parcela mais pobre do país, como o de serviços domésticos, agricultura e construção (vide www.fgv.br/cps/construcao).
De maneira geral, a renda de grupos tradicionalmente excluídos, como negros, analfabetos, mulheres, nordestinos, moradores das periferias, campos e construções, cresceu mais no século 21. Tendência contrastante com a de países desenvolvidos e a de emergentes, como os demais Bric, onde a desigualdade cresce a olhos vistos.
Mais do que o país do futuro entrando no novo milênio, o Brasil começa a se libertar da herança escravagista aqui vigente até o final do século 19.
MARCELO NERI, 48, é economista-chefe do Centro de Políticas Sociais e professor da EPGE, na Fundação Getulio Vargas.
Sunday, April 10, 2011
O ser humano é o ser para o qual o mundo, tal como está, não basta. Isto decorre do fato de que ele nasce prematurado e, portanto, incompleto e, em consequência, incompatível com o meio-em-torno que o rodeia. O ser humano, ao nascer, em virtude da prematuração, sofre um corte para cujo preenchimento ele não tem equipamentos. O animal, ao nascer, traz consigo uma trama de instintos capazes de costurá-lo ao meio que o rodeia. Ele não vive a experiência de aguda insuficiência biológico-ontológica na qual o nascimento precipita o ser humano. O animal tem ganchos de abordagem aptos a costurá-lo à realidade. Tendo vindo de casa - do útero - ele continua em casa, já que o Cosmo é a sua casa. Ele marcha para o real e se conecta a ele, sem precisar simbolizá-lo. Ao animal, não lhe falta nada. A leitura que faz do mundo corresponde, simetricamente, à estrutura de suas necessidades. O mundo é a concha que o envolve e na qual ele se perde, extático. O animal faz, desde o nascimento, uma experiência de pertinência cósmica que o torna parte do real, íntimo do coração da matéria, filho dileto - e inocente de Deus.
[...] Por não ter nascido - ou partejado - pelo Cosmo, por não ter dado o salto da natureza para a cultura, por não carregar em seu centro a liberdade - essa fraqueza no coração do ser, como a define Merleau-Ponty -, o animal não precisa dar testemunho da sua passagem no mundo, não precisa falar porque é falado pelo acontecer cósmico, é parte do real, do oceano incomensurável, em movimento, que abarca as constelações mais remotas, e a erva mais modesta - e mais próxima. O animal digere o Cosmo, que o atravessa todo, sem precisar imaginarizá-lo - ou simbolizá-lo.
Hélio Pellegrino - Édipo e a Paixão - Os Sentidos da Paixão / Funarte 1998
Cega-Rega
É difícil. Isto de começar num montouro e só parar na crista dum castanheiro, tem que se lhe diga. É preciso percorrer um longo caminho. Embrião, larva, crisálida... Todas as estações do íngreme calvário da organização. Animada pelo sopro da vida, a matéria necessita do calor de um ventre. Antes dessa íntima comunhão, desse limbo purificador, não poderá ter forma definitiva. Custa. Mas a lei natural é inexorável. Exige consciência de cosmos antes da consciência de ser. O calor dá no ovo. Aquece-o e amadurece-o. A casca quebra. Depois... Ah, depois é essa descida ao húmus, essa existência amorfa, nem germe, nem bicho, nem coisa configurada. Largos dias assim. Até que finalmente em cada esperança de perna nasce uma perna, e cada ânsia de claridade é premiada com dois olhos iluminados. Cresce também uma boca onde a fome a reclama, e surgem as asas que o sonho deseja...
Miguel Torga - Bichos
Saturday, April 09, 2011
Wednesday, April 06, 2011
Com a vara curta
Tiririca já paga resort com dinheiro público
Deputado apresentou à Câmara pedido de reembolso de R$ 660 por hospedagem em Fortaleza (CE), a 3 mil quilômetros de sua base eleitoral
01 de abril de 2011 | 23h 00
Leandro Colon, de O Estado de S. Paulo, e Eduardo Bresciani, do estadão.com.br
BRASÍLIA - Com apenas dois meses de mandato como deputado, o palhaço Tiririca (PR-SP), eleito por São Paulo, já usou o dinheiro da Câmara num resort em Fortaleza (CE), capital de seu Estado natal, que fica a 3 mil quilômetros de sua base eleitoral. Ele apresentou à Câmara em março o pedido de reembolso de notas fiscais de R$ 660 de hospedagem e R$ 311 de alimentação no Porto d’ Aldeia Resort, hotel que fica em meio a dunas, com piscina e vista para o mar na capital cearense.
O ato n.º 43 de 2009 da Câmara dos Deputados é claro sobre a utilização da cota parlamentar que cada deputado tem direito para efetuar despesas relacionadas com o desempenho do mandato. Por ser representante do eleitorado paulista, Tiririca recebe cerca de R$ 27 mil mensais de benefício, além do próprio salário.
Segundo a norma interna, essa verba extra deve ser "destinada a custear gastos exclusivamente vinculados ao exercício da atividade parlamentar".
O gerente do resort, Décio Girão, confirmou ao Estado a presença de Tiririca como hóspede há cerca de duas semanas. A diária do hotel custa, no mínimo, R$ 165 - a despesa com hospedagem ficou em R$ 660.
Noticiário da imprensa local informou que, entre 19 e 21 de março, Tiririca esteve em Fortaleza para visitar parentes.
Sunday, April 03, 2011
Anotações do ano de 2004 para um projeto de Música e Ética
1. Aceitemos a função simbólica como substrato do pensamento.
No plano privado símbolos se comunicam através dos sonhos, no plano público através da arte.
A arte, portanto, como o mecanismo humano de comunicar símbolos. O mecanismo intermediador dos planos.
Se a ética intermedeia os impulsos egocentrados e sociais, a psicologia amplia a gama de gradações que vão da possibilidade à impossibilidade de realizar as demandas culturais/sociais, enfim, do entorno. Os objetos artísticos, por habitarem essa região de trânsito entre o afetivo e o racional, podem servir como veículo de transporte entre um nível e outro.
Por sua natureza auto-suficiente não se limitam a traduzir situações de um nível ao outro mas permitem, isto sim, a apreensão de realidades subjetivas que se oferecem de maneira palpável - já que a arte dispõe de materialidade; tem forma; ela se materializa - e, portanto, passíveis de se tornarem, efetivamente, pensamento, pronto agora para uso descentrado, partilhado.
A arte permite - abre, assim, uma possibilidade de partilhamento da experiência subjetiva.
Num projeto de formação de cidadania os objetos artísticos podem estar a favor de um trabalho de mapeamento de motivações profundas dos indivíduos.
2. A experiência da apreciação pressupõe descentramento.
A obra é fora do indivíduo. Tem materialidade própria.
Ao mesmo tempo revela, atualiza a experiência subjetiva do autor e, como salienta Stokes, exige uma "adesão" do apreciador, ou, nas palavras de Fernando Pessoa "chegar a sentir que é dor a dor que nós - leitores - não sentimos".
Há aí um momento em que dois seres humanos podem se encontrar em um espaço imaterial - a dor é sempre fingida - o da comunicação artística e mudar de posição: assumir um o ponto de vista do outro.
O autor ao atingir temas universais ( seus e de muitos outros ), o apreciador ao ver-se refletido na obra.
O lugar de acontecimento de tal encontro imaterial é em torno da obra de arte, ela, intensamente material.
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Friday, April 01, 2011
Sunday, March 27, 2011
Tento aqui resumir uma história que aparece no livro O Círculo dos Mentirosos, que é uma coletânea de histórias tradicionais organizada pelo roteirista de cinema Jean Claude Carriére:
Certa vez um homem que queria aprender a ser joalheiro procurou alguém que lhe ensinasse o ofício. O mestre escolhido deu a ele como primeira lição uma ametista e orientou-o para que a segurasse na mão o tempo todo, durante um mês inteiro.
O homem evidentemente considerou a tarefa um absurdo mas, mesmo que a contragosto, cumpriu à risca as determinações.
Trinta dias depois, voltando para a aula seguinte, foi recebido pelo mestre que lhe ofereceu uma segunda ametista que deveria ser carregada por mais um mês.
Ao final daquele mês recebeu uma terceira ametista e ao devolvê-la, uma quarta.
Na quinta aula, muito irritado e enquanto discursava sem parar sobre a inadequação daquele método de ensino, o homem estendeu a mão para receber a pedra que o outro lhe oferecia e, ao segurá-la, exclamou: Mas isto não é uma ametista!
Entrou por uma porta e saiu pela outra e quem quiser que conte outra.
Marcadores: Autorais
[...] A mente pensa em imagens, mas para se comunicar com outra deve transformar a imagem em pensamento e depois o pensamento em linguagem. Essa marcha, da imagem para o pensamento e para a linguagem, é traiçoeira. Acidentes acontecem: a rica e macia textura da imagem, sua extraordinária plasticidade e flexibilidade, suas nuanças emocionais nostálgicas, privadas - todas são perdidas quando a imagem é transformada à força em palavras.
Irvin D. Yalom - O Carrasco do Amor e outras histórias de psicoterapia
Tuesday, March 22, 2011
Tecnologia é o novo rock
20 de março de 2011
* Por Mike Swift (San Jose Mercury News)
Matthew Rosenberg, um dos fundadores da startup Fast Society, de Nova York, estava nas palestras de tecnologia do festival South by Southwest (SXSW, que acontece anualmente em Austin, Texas) e, observando a multidão, anunciou: “Somos os novos astros do rock.” Nós quem? Os empreendedores.
A Fast Society é apenas uma das muitas startups no festival que estão competindo entre si para transformar o SMS em uma plataforma que permite a troca de fotos, vídeos, chamadas de voz e textos entre pequenos grupos de amigos.
Criado há 17 anos, o SXSW foi de onde o Twitter iniciou seu voo em 2007 e, dois anos depois, ensinou ao mundo o conceito de check-in geolocalizado quando sediou o lançamernto do Foursquare. Dividido em três áreas (música, cinema e interação), ele continua sendo o lugar que lança as tendências de tecnologia pessoal, móvel e social.
Mas os jovens empreendedores temem que o evento, que cresce sem parar, esteja sendo desfigurado, já que grandes companhias e o que Rosenberg chama de “beautiful people” são atraídos pelo dinheiro e pelo interesse cultural por trás do boom da mídia social online.
Neste ano, entre as empresas recém-criadas e as tendências que estão chamando a atenção, estão serviços de armazenamento de música online e a nova geração dos sistemas de busca, como o Moodfish, que usa termos como “brilhante”, “sensual”, “intenso” e “estranho” na busca de entretenimento adequado ao gosto de cada um.
A startup preferida da atriz Demi Moore, Zaarly, também estava lá apresentando seu serviço que funciona assim: você dispara pelo telefone o quanto estaria disposto a pagar por determinado serviço naquele instante e as pessoas que estão próximas a você podem responder a sua proposta com ofertas de serviços.
Moore e o marido, Ashton Kutcher, viraram investidores de empresas de tecnologia assim como o âncora do programa de entrevistas Conan O’Brian e outros notáveis de Hollywood que, aproveitando que o SXSW é também um festival de cinema, fizeram uma visita ao estúdio no centro de Austin para participar do Facebook Live, programa de entrevistas que passa na rede e é conduzido por Randi Zuckerberg, irmã de Mark.
No ano passado, a área de interação do SXSW superou o número de espectadores da área de música, que era a única que havia quando o festival foi lançado em 1987 e era a mais popular até então. No ano passado, foram 33 mil pessoas. Neste ano, estima-se crescimento de 30% no público. De fato os empresários tornaram-se os verdadeiros astros.
“Estamos atraindo sem parar as grandes empresas interessadas em saber como poderão usar a mídia social para aumentar seus lucros”, disse Hugh Forrest, diretor da área de tecnologia do festival, chamada Interactive. A própria Apple, que segundo Forrest resistia a participar do SXSW, montou uma loja temporária no centro de Austin.
Por enquanto, Rosenberg e os outros três sócios da Fast Society não ganham como astros do rock. Para economizar em Austin, eles se amontoam no apartamento de um amigo que viajou de férias. Só dois da equipe de quatro, todos entre os 27 e 29 anos, poderiam pagar os US$ 750 da taxa da conferência.
Empresários mais jovens, como Rosenberg, estão particularmente interessados em montar empresas baseadas nos aplicativos de smartphones, já que as grandes redes sociais, como Facebook e Twitter, precisam de penduricalhos que as tornem mais pessoais e flexíveis.
Segundo Jared Hecht, 24 anos, um dos fundadores do GroupMe, os novos serviços são como uma sala de bate-papo para os amigos mais íntimos. As grandes plataformas de mídia social ficaram tão grandes “que a comunicação ali muitas vezes fica estéril”, diz, argumentando que “as pessoas estão precisandode algo mais pessoal”.
Concorrentes, Fast Society e GroupMe miram em pessoas entre os 18 e os 30 anos e partem da premissa de que elas querem ter uma capacidade maior de se expressar através da tecnologia para um grupo seleto de amigos – longe do controle dos pais, parentes ou de outros olhares enxeridos. “Quando estávamos na faculdade, o Facebook era um lugar seguro”, disse Rosenberg. “O que estamos fazendo é o novo álbum de fotografias; é como a nova câmera de vídeo”.
O desenfreado espírito comercial do festival incomodou um pouco Rosenberg. “Olhe ao redor. A Pepsi está em toda parte. A Chevrolet está em toda parte. Acho que os dias em que o SXSW celebrava as startups estão contados”. Ele disse também que a Fast Society aprova táticas de guerrilha em seu marketing. No entanto, não comentou o boato de que teria pago drinks para todos que estavam no voo que os trouxe de Nova York, apenas para promover a empresa.
Falso ou verdadeiro, não importa – o boato ajudou a Fast Society ser notada. Isso e o fato de ter aparecido tanto no New York Times quanto em blogs de tecnologia ao lado de serviços de mensagens coletivas muito maiores e com recursos muito sofisticados, como o GroupMe e o Beluga, aplicativo de mensagens criado por três ex-funcionários do Google e comprado pelo Facebook neste mês.
“Por aqui, todos têm toneladas de grana e não podemos ficar para trás”, disse Rosenberg. Ir ao South By Southwest e tentar várias táticas de guerrilha no marketing – sua empresa também fretou um ônibus-balada que levava as pessoas até o centro no primeiro dia do festival de graça – “foi um risco calculado”, como disse. E acrescentou, em uma entrevista que acha que “a aposta deu certo – afinal, você está falando comigo agora”.
Tradução: Anna Capovilla
Monday, March 21, 2011
Wednesday, March 16, 2011
Tuesday, March 15, 2011
Saturday, March 12, 2011
Friday, March 11, 2011
CONTARDO CALIGARIS
Cisne Negro, o Carnaval e as mães
Se conseguimos viver plenamente, é graças a autores e intérpretes que nos revelam nosso lado B
Cisne Negro é a história, muito bem contada, do desabrochar de uma loucura. Mas amei o filme por outras razões. Aqui vão duas delas.
1) Revi Cisne Negro no domingo e, na volta do cinema, assisti ao Carnaval na TV.
Gosto da exuberância de alegorias e fantasias, e o que mais importa no Carnaval talvez seja a paixão das escolas ao preparar o desfile, mas resta que, na televisão, o espetáculo do carnaval e de seus bastidores consegue a façanha se ser, ao mesmo tempo, vulgar e careta. Como é possível?
É que, no espetáculo televisivo, a transgressão da folia consiste numa tremedeira de carnes (vagamente sugestiva de um exercício sexual), acompanhada de uma dose diurética de cerveja. Ou seja, o Carnaval na televisão é um programa infantil, pois é assim que as crianças imaginam a transgressão: vulgar como xixi-cocô e careta como suas suposições sobre o que acontece entre adultos na hora do sexo.
Só para confirmar: as crianças encaram com prazer o tédio de uma noite de desfiles em família, na frente da televisão. Elas acham reconfortante supor que o lado B dos adultos seja parecido com a visão infantil da transgressão: comilança, bebedeira, bunda e peitos. Só falta um pum final.
Na verdade, fora esse momento anual de regressão coletiva, espera-se que, para os adultos, a transgressão seja uma excursão em territórios mais tenebrosos e mais aventurosos. Espera-se que o lado B da gente não caiba no Carnaval televisivo e que sua descoberta peça mais do que alguns litros de cerveja.
1) Nada torna a vida interessante tanto quanto a descoberta de nossa própria complexidade; 2) Talvez a função mor da cultura seja a de nos dar acesso a partes de nosso âmago que normalmente escondemos de nós mesmos; 3) Conclusão: se conseguimos viver plenamente, é graças a autores, atores, intérpretes etc. que nos revelam nosso próprio lado B (e C e D).
Agora, será que o artista poderia levar espectadores ou leitores para territórios que ele não tiver primeiro desbravado nele mesmo?
Alguns pensam assim: só quem ousa se aventurar pelo seu próprio lado B consegue revelar aos outros o lado B que eles escondem de si mesmos. Nina, a estrela do "Lago dos Cisnes", não poderia arrebatar seu público sem se entregar corajosa e perigosamente a seu lado obscuro, sem se entregar ao cisne negro nela.
Outros pensam que, para encarnar o cisne negro, Nina não precisa sentir sua lascívia na pele. Bastaria ela atuar e dançar (como dizia Diderot) com a inteligência, e não com o coração. Mas como ela poderia dançar e atuar o cisne negro com a inteligência sem conhecer e entender o que ela precisa expressar?
Seja como for, quem acha que seu lado obscuro é feito de carnes trêmulas e cerveja deveria fazer um esforço sério para sair da infância. Nesse esforço, Nina e Cisne Negro seriam de bastante ajuda.
2) Homens e meninos, mesmo quando aspiram à perfeição, convivem razoavelmente bem com falhas e fracassos. É porque acreditam firmemente que, mesmo imperfeitos, eles nunca deixarão de ser tudo o que suas mães pediram a Deus.
Mulheres e meninas, ao contrário, sentem que, mesmo alcançando a perfeição, não serão o que suas mães pediram a Deus. A explicação clássica disso é que elas, pelo simples fato de serem mulheres, nunca preenchem a expectativa materna tanto quanto um filho varão. Paradoxo: as mulheres aspiram à perfeição mais do que os homens porque tentam merecer uma aprovação materna que é quase impossível.
Há uma outra explicação do sentimento feminino de não corresponder às expectativas maternas. Essa explicação, mais inquietante, diz que, para uma mãe, o triunfo de uma filha (profissional ou amoroso) sempre apresenta ao menos um defeito: o de não ser o triunfo dela mesma, da própria mãe.
A mãe de Nina espera que o sucesso da filha compense suas frustrações de bailarina que renunciou à carreira. Também acusa a filha de ser a causa dessa renúncia. Qual será o melhor bálsamo para a ferida: o sucesso ou o fracasso da filha?
Muito frequentemente, as mães rivalizam com as filhas. Essa rivalidade é especialmente óbvia e feroz quando, de um jeito ou de outro, oferecendo pelúcias ou preparando chazinhos, uma mãe tenta manter a filha parada numa eterna infância.
Marcadores: Aronofsky, Black Swan, Caligaris, Cisne Negro, Natalie Portman
Tuesday, March 08, 2011
O que diferencia o artista da pessoa comum? A vaidade.
Evidente que gênios também os há. Às vezes, simultaneamente, artistas e gênios. Estes, quando o são, assim como os matemáticos, fotógrafos, carpinteiros gênios, passam pela vaidade, levam-na consigo ou não, mas sua obra é que permanece. Aos que não somos gênios, resta a semelhança na vaidade e a possibilidade de tê-los como inspiração. Fingir o gênio, como se fôssemos. Se vaidade já a temos que nos venha também o rigor, a obstinação, a grande paciência do gênio. Como por esse meio não se adquire um grande talento - o aspecto do gênio ao qual não teremos acesso - tenhamos pois a humildade de reconhecer nossa insignificante pequenez (ainda que vaidosa) e, quem sabe, advenha daí, justamente, qualquer experiência iluminatória.
Na Aurora, de Murnau, o personagem que sonha com uma vida nova precisa retornar à origem de sua auto-imagem, volta mítica, retorno à idéia primeira de identidade. Sua "vida nova" é desejo transposto em fantasia, no sentido psicanalítico, desejo não sublimado, realizado apenas em imaginação e que, inevitavelmente, se confrontado com a realidade, deteriora, distorce. Este o aprendizado da maturidade: resignar-se aos limites do real, estar conforme, separar realidade da fantasia. Resulta daí o conformismo, sintoma na maturidade do luto não resolvido da infância perdida.
E o artista, que precisa resguardar em si o jogo lúdico do faz-de-conta, o mundo mental que se transporta para o mundo concreto através de seus pequenos objetos-idéias, castelos de sonho, sob pena, caso contrário, de enrijecer-se perante a realidade que pretende realçar, desvelar? Como amadurecer, enquanto artista? Talvez todo artista, gênio ou medíocre, possa ter isto para partilhar, a experiência infantil preservada. Se a vaidade é a onipotência infantil arraigada no adulto, o artista, na tentativa de amadurecer, corre permanente risco de, como na piada, jogar fora a criança junto com a água da bacia. Estátua de pedra que olhou nos olhos a realidade, o homem comum carece da experiência artística que lhe forneça as sandálias aladas e o escudo de Perseu. A imagem projetada da Medusa é o que o artista tem para oferecer em tempos pós-míticos. Mas, dilema! perigo! trágico destino, a ele mesmo cabe a travessia que o pode levar ou não ao outro lado do labirinto e uma Górgona inteiramente sua para o flerte. Que espessura tem o fio de Ariadne onde terá de se dependurar o grosseiro artista? Como entender o mecanismo do mundo e não cair vítima do funcionamento de sua engrenagem, nós, paupérrimos artistas, nós que não somos, nem nunca seremos, gênios? 12 / 10 / 2001
Irajá Menezes
Na Aurora, de Murnau, o personagem que sonha com uma vida nova precisa retornar à origem de sua auto-imagem, volta mítica, retorno à idéia primeira de identidade. Sua "vida nova" é desejo transposto em fantasia, no sentido psicanalítico, desejo não sublimado, realizado apenas em imaginação e que, inevitavelmente, se confrontado com a realidade, deteriora, distorce. Este o aprendizado da maturidade: resignar-se aos limites do real, estar conforme, separar realidade da fantasia. Resulta daí o conformismo, sintoma na maturidade do luto não resolvido da infância perdida.
E o artista, que precisa resguardar em si o jogo lúdico do faz-de-conta, o mundo mental que se transporta para o mundo concreto através de seus pequenos objetos-idéias, castelos de sonho, sob pena, caso contrário, de enrijecer-se perante a realidade que pretende realçar, desvelar? Como amadurecer, enquanto artista? Talvez todo artista, gênio ou medíocre, possa ter isto para partilhar, a experiência infantil preservada. Se a vaidade é a onipotência infantil arraigada no adulto, o artista, na tentativa de amadurecer, corre permanente risco de, como na piada, jogar fora a criança junto com a água da bacia. Estátua de pedra que olhou nos olhos a realidade, o homem comum carece da experiência artística que lhe forneça as sandálias aladas e o escudo de Perseu. A imagem projetada da Medusa é o que o artista tem para oferecer em tempos pós-míticos. Mas, dilema! perigo! trágico destino, a ele mesmo cabe a travessia que o pode levar ou não ao outro lado do labirinto e uma Górgona inteiramente sua para o flerte. Que espessura tem o fio de Ariadne onde terá de se dependurar o grosseiro artista? Como entender o mecanismo do mundo e não cair vítima do funcionamento de sua engrenagem, nós, paupérrimos artistas, nós que não somos, nem nunca seremos, gênios? 12 / 10 / 2001
Irajá Menezes
Marcadores: Autorais
Cisne Negro
Dirigido por Darren Aronofsky. Com: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder.
Por Pablo Villaça
Parte 1: Odette e a Razão
Cisne Negro é o que o clássico Os Sapatinhos Vermelhos seria caso tivesse sido dirigido por David Cronenberg e David Lynch numa parceria inédita. Utilizando o balé O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, como centro narrativo exatamente como aquele excepcional longa de Michael Powell e Emeric Pressburger empregava a fábula concebida por Hans Christian Andersen, este filme de Darren Aronofsky representa não apenas uma bela homenagem ao balé como ainda funciona como um fascinante olhar sobre o processo criativo de uma artista obcecada por detalhes – além, claro, de representar uma experiência aterrorizante que deixaria orgulhosos os dois Davids citados no início deste texto.
Escrito por Mark Heyman, John J. McLaughlin e Andres Heinz a partir de argumento concebido por este último, Cisne Negro acompanha a bailarina Nina Sayers (Portman), que, depois de anos integrando o corpo de baile de uma grande companhia de dança, finalmente ganha a oportunidade de protagonizar um espetáculo quando a antiga estrela do grupo, a veterana Beth Macintyre (Ryder), é obrigada pelo diretor Thomas Leroy (Cassel) a se aposentar depois que o público começa a escassear. Profundamente dedicada à dança, Nina mora com a mãe, a ex-bailarina Erica (Hershey), e enxerga a chance de estrelar O Lago dos Cisnes com ambigüidade: por um lado, é a realização de um antigo sonho; por outro, logo começa a sentir a pressão por não conseguir incorporar toda a sensualidade exigida pelo papel de Odile, o “cisne negro” que se passa pela casta Odette (esta naturalmente vivida pela moça sem dificuldades). Torturada por estranhas visões, Nina ainda enfrenta a ameaça representada pela chegada de uma nova bailarina, Lily (Kunis), cuja espontaneidade logo atrai a atenção de Thomas.
Adotando uma lógica sombria já em sua cena inicial, o filme mergulha o espectador no inconsciente de Nina desde o primeiro segundo, quando acompanhamos seu pesadelo calcado em escuridão. Já desperta, a moça não perde um momento sequer antes de calçar as sapatilhas e testar o próprio corpo, deixando claro de imediato que todos os minutos de seu dia são dedicados incondicionalmente à sua Arte. Além disso, mesmo antes de ser eleita sucessora de Beth pelo exigente Thomas, a protagonista já surge insegura e intimidada como se estivesse sendo vítima de um escrutínio impiedoso por parte de suas colegas – e o design de som da produção é fabuloso ao nos remeter a esta paranóia contínua de Nina através de sussurros constantes que ora soam como risadas de escárnio, ora como críticas veladas às suas performances no palco.
Magra a ponto de inspirar preocupação, Natalie Portman encarna Nina como uma criatura extremamente frágil que parece sempre prestes a desabar: bulímica e determinada a atingir a “perfeição” (um conceito que Thomas enxerga de forma diferente, por sinal), a garota se comunica com uma voz delicada que muitas vezes parece nem deixar sua garganta completamente, falhando em se impor até mesmo ao ser provocada pelas demais bailarinas. Parte desta passividade enlouquecedora se deve, claro, à própria falta de paixão que se manifesta também em sua técnica excessiva, mas não só: infantilizada pela mãe, Nina expõe sua fragilidade emocional até mesmo em seu quarto de tons rosas e abarrotado de bonecos de pelúcia – e que, como se não bastasse, não lhe oferece a menor privacidade, já que Erica jamais permite que a filha tranque a porta.
Assim, o que resta à garota é mesmo o balé – algo que Portman ilustra com uma verossimilhança impressionante desde a primeira cena, quando Aronofsky acompanha os movimentos elegantes de seus pés apenas para subir a câmera e revelar que se trata da própria atriz e não de uma dublê. Além disso, ao manter seus quadros sempre próximos da moça enquanto esta gira pelo palco, o cineasta imprime uma formidável energia aos números, retratando a intensidade dos exaustivos ensaios com brilhantismo (e aqui mais uma vez o design sonoro merece destaque por ressaltar os esforços da protagonista através do ranger do assoalho sob seus pés e até mesmo ao remeter ao desgaste de suas articulações durante as coreografias). Neste sentido, aliás, Aronofsky é hábil também ao explicitar a necessidade da repetição infinita durante os ensaios até que tudo chegue ao ponto ideal – um tema caro a qualquer artista e que é representado também pelas várias pinturas que, praticamente idênticas, preenchem o quarto (e o tempo) da mãe da bailarina.
Erica, vale dizer, é interpretada por Barbara Hershey com uma complexidade intrigante: ainda que pareça realmente torcer pelo sucesso da filha, a ex-bailarina exibe uma sutil crueldade ao discutir os obstáculos enfrentados por esta – e o fato de manter o cabelo preso num coque típico de dançarina remete diretamente à carreira que teve que abandonar ao se tornar mãe e que ainda é motivo de um claro ressentimento na relação das duas mulheres (além disso, ao vestir-se sempre de preto, Erica se torna uma alusão constante ao lado adulto, independente e sedutor, que Nina tem dificuldade em alcançar). Enquanto isso, Vincente Cassel surge intenso e exibindo imensa autoridade como Thomas, sendo competente ao deixar óbvia a frustração que seu personagem sente diante da incapacidade de sua nova estrela de abraçar a própria sensualidade ao dançar como Odile, o cisne negro – e em certo momento, o ator consegue a proeza de permitir que o espectador perceba, sem que diga uma palavra, o impulso do diretor de substituir Nina por Lily.
Um impulso natural e compreensível, diga-se de passagem, já que a Lily composta por Mila Kunis é o oposto da Nina de Portman: enquanto a primeira claramente se diverte ao dançar (mesmo que pecando pela ocasional falta de técnica), a segunda parece sempre torturada em seus esforços absurdos de realizar cada movimento com precisão absoluta, contrapondo a visceralidade da novata à racionalidade artística da veterana – e discutirei outros aspectos desta dualidade na segunda parte do texto. Aliás, Natalie Portman merece todos os aplausos do mundo ao deixar evidente a dureza da performance de sua personagem ao dançar como Odile: ao mesmo tempo em que apreciamos a fluidez de seus passos, percebemos claramente a ausência do elemento de sedução cobrado por Thomas, o que é fundamental para que compreendamos o arco dramático percorrido pela protagonista.
Mas Cisne Negro não é uma vitória apenas para Portman; dono de um currículo tão impecável quanto o da Pixar (e, sim, incluo aí o subestimado Fonte da Vida), Darren Aronofsky exibe uma inteligência admirável ao forçar o público a compartilhar a paranóia de Nina não só através do já comentado design de som, que ilustra seu medo do fracasso e do ridículo, mas também seu crescente desequilíbrio psíquico e emocional, começando em pequenos instantes de incerteza (como a impressão de ver uma sósia no metrô ou o assustador movimento em uma pintura capturado pelo canto dos olhos) até atingir uma espécie de esquizofrenia descontrolada. Além disso, o cineasta confere autenticidade ao projeto ao enfocar em detalhes o cotidiano das bailarinas, como ao mostrá-las “quebrando” as sapatilhas e arranhando o solado para aumentar o atrito ou ao trazê-las sendo massageadas após um dia de desgastantes ensaios.
Fotografado com talento por Matthew Libatique, que utiliza as sombras com eficiência para estabelecer o clima sufocante da narrativa, Cisne Negro também é beneficiado pela excepcional trilha sonora de Clint Mansell, outro colaborador habitual de Aronofsky, que parece incorporar versões dissonantes dos temas concebidos por Tchaikovsky em sua própria trilha, remetendo constantemente ao balé que se torna uma obsessão dos personagens ao mesmo tempo em que o transforma em algo próprio e profundamente evocativo. E se o design sonoro de Brian Emrich e Craig Henighan merece uma terceira menção neste texto ao evocar também O Lago dos Cisnes através de ruídos como o bater de asas que acompanha sutilmente certos movimentos da protagonista, os efeitos visuais empregados pela produção também se apresentam fabulosos não só pela maneira orgânica com que são incorporados ao projeto, mas também pela qualidade técnica apresentada (e aqui me refiro especificamente aos acontecimentos – que não irei revelar, obviamente – vistos no terceiro ato da projeção).
Explorando ao máximo o sensacional roteiro de Heyman, McLaughlin e Heinz, Cisne Negro acaba criando intrigantes ecos temáticos com a própria obra de Tchaikovsky (vide Os Sapatinhos Vermelhos e Andersen) e também com os demais longas da carreira de seu cineasta, desde a metamorfose autodestrutiva vista em Pi até o salto característico de Mickey Rourke ao final de O Lutador – e, no processo, forja não apenas uma narrativa densa e repleta de simbolismos como ainda surge como um soberbo estudo do processo criativo de uma artista que, como tantos outros colegas de profissão, só consegue se enxergar completa e realizada ao entregar-se sem reservas ao ofício de construir algo belo e significativo.
Parte 2: Odile e o Espelho
(Atenção: aqui discutirei alguns aspectos temáticos e narrativos mais específicos de Cisne Negro e, assim, abordarei incidentes significativos da trama.)
Espelhos e reflexos sempre representaram uma obsessão para cineastas de todo o mundo – algo que surgiu como conseqüência da riqueza de simbolismos que inspiram, claro, mas também do próprio desenvolvimento psíquico pelo qual todos atravessamos até nos reconhecermos como indivíduos (algo que levou, por exemplo, o teórico Jean-Louis Baudry a estabelecer sua genial analogia entre o espectador cinematográfico e a fase do espelho descrita por Lacan). Assim, de Hitchcock a Buñuel ou de Fritz Lang a Tarkovsky, diretores das mais diversas épocas e donos de estilos variados empregaram o jogo de duplos como base temática de uma ou mais de suas obras – mas talvez poucas vezes este tenha sido utilizado de maneira tão intensa e orgânica como em Cisne Negro.
Constantemente levada a observar os próprios movimentos em vários espelhos a fim de refinar sua técnica, Nina Sayers já surge nos primeiros minutos de projeção sentada diante de múltiplos reflexos na sala de seu pequeno apartamento – e não demora muito até que, no metrô que a leva aos ensaios, seja novamente reproduzida na janela do vagão enquanto repara uma figura que, no carro seguinte, parece uma cópia de si mesma (mas envolvida em roupas pretas que contrastam com a brancura de seus próprios trajes). Com isso, Aronofsky logo estabelece a lógica visual que irá reger sua narrativa: o contraste entre branco e preto e, claro, a natureza partida da protagonista.
Pois Nina, como já discutido na primeira parte da crítica, é uma bailarina cuja personalidade frágil e infantilizada estabelece uma combinação perigosa com sua obsessão pela perfeição – especialmente ao ser obrigada a explorar um aspecto desconhecido de sua natureza: a sexualidade. Reprimida por acreditar que a disciplina absoluta lhe trará a precisão técnica que a transformará numa grande dançarina, a moça deixa de lado qualquer prazer que o balé possa oferecer, repetindo mecanicamente os passos concebidos por seu diretor sem jamais conseguir se libertar a ponto de enriquecê-los com a espontaneidade que o sujeito tanto deseja reconhecer em sua performance – e esta limitação auto-imposta que Thomas já afirmara ter observado ao longo dos anos se torna ainda mais prejudicial quando a garota é obrigada a assumir uma personagem que só virá à tona completamente caso construída com visceralidade: Odile, o cisne negro.
É quando surge em cena Lily, que Nina enxerga ora como rival, ora como parceira: espontânea e alegre, a garota logo se apresenta como o reflexo da protagonista, remetendo ao seu tipo físico, mas se comportando de maneira diametralmente oposta – o que se reflete não só nas cores de suas roupas, mas também no fato de Mila Kunis ser uma alternativa morena à alva Natalie Portman. Com isso, o conflito entre Odette, a princesa amaldiçoada de O Lago dos Cisnes, e a mal-intencionada Odile, se reflete também na dinâmica das duas bailarinas, encontrando respaldo nas asas negras que Lily traz tatuadas nas costas e na facilidade com que esta seduz todos ao seu redor. A partir daí, Nina passa a empregar a outra como a representação de seu possível fracasso, criando um alter-ego que, possuindo o rosto de Lily, surge como uma espécie de Tyler Durden de sapatilhas e collant preto.
Assim, aos poucos este lado de Nina parece se descolar de sua metade mais retraída – algo que Aronofsky inicialmente retrata com sutileza ao trazer os reflexos da bailarina se movendo com um levíssimo atraso com relação à moça até eventualmente se libertarem de vez, embora permaneçam por um bom tempo presos do outro lado do espelho (leia-se: em sua mente). À medida que a protagonista se esforça para encontrar Odile, porém, seu alter-ego “Lily Durden” (para diferenciá-la da verdadeira Lily) ganha força e passa a se manifestar fisicamente, como se Nina buscasse liberar a sexualidade há tanto sufocada – e é fascinante notar, por exemplo, como ao surgir deitada na cama, a estampa preta de seu travesseiro branco parece formar um esboço de asa saindo de suas costas, num belo indício da transformação que ela irá experimentar.
E, de fato, a metamorfose é absoluta: se inicialmente Nina dançava de maneira fria e reprimida como Odille, na fantástica dança final ela se entrega de vez à personagem – e Portman oferece uma performance inesquecível ao ilustrar a diferença para o espectador, já que até sua respiração pesada provocada pelo cansaço surge como um gemido quase sexual.
Mas alcançar este feito tem um preço: a esta altura, Nina e Lily “Durden” rivalizam pelo corpo e pela consciência da protagonista (reparem o memorável plano no qual Aronofsky parece fundir as duas brevemente num jogo de reflexos no apartamento da garota até que a segunda se separe e se afaste da primeira) – e, assim, a única maneira de Odile surgir no palco seria através da eliminação completa da recalcada Nina, que, para isso, mata aquela figura que se encontrava em seu caminho rumo à almejada perfeição: ela mesma.
Sua arma? Um afiado pedaço de vidro.
Extraído de um espelho.
Freud teria um orgasmo com este desfecho. E com razão.
30 de Dezembro de 2010
Marcadores: Aronofsky, Black Swan, Cisne Negro, Natalie Portman
Monday, March 07, 2011
Rebeldes rejeitam definição de guerra civil
Para insurgentes, país vive revolução popular
Nada irrita mais um rebelde líbio do que chamar a revolta deflagrada há três semanas contra Muammar Gaddafi de guerra civil.
"Vocês estrangeiros não entendem o que está acontecendo aqui", diz Nabil Muftah, 32, empunhando um fuzil Kalashnikov na entrada da cidade de Ras Lanuf, que ontem se converteu na fronteira do território rebelde.
"O povo líbio está unido contra Gaddafi. Quem luta com ele são seus capangas e mercenários estrangeiros."
O discurso se repete ao longo de toda a costa leste do país ocupada pelos insurgentes, dos gabinetes do governo provisório aos campos de batalha. E desafia os indícios de que a revolta se transformou em guerra civil.
Muftah era soldado de Gaddafi e trocou de lado quando os protestos contra o ditador começaram a ser reprimidos com violência.
Mesmo admitindo que há militares como ele do outro lado do front, insiste em usar a palavra em árabe para revolução, "thaura", para descrever o estado de guerra em que o país mergulhou.
Com a ajuda de desertores como Muftah, o levante contra Gaddafi foi equipado de armas obtidas de bases militares. Soldados líbios lutam com soldados líbios, com armas do Exército líbio. Assim é a "thaura", ou pelo menos parte dela.
"Uma guerra civil é definida pela luta entre civis do mesmo país", exalta-se Intisal Agili, do governo provisório rebelde em Benghazi, a capital da insurreição. "Aqui é diferente. Uma revolução popular contra um ditador cercado de mercenários."
O estado das armas é muitas vezes precário. Nas diversas barreiras rebeldes da estrada costeira transformada em campo de batalha, é comum ver fuzis caindo aos pedaços, colados com fita isolante e artilharia antiaérea com sinais de ferrugem.
O treinamento também deixa a desejar. "Aprendi a atirar há dois dias", diz o professor de ciência Riad Elhamar, 35. "Deixei minha filha de um ano chorando em casa, mas todo sacrifício é válido para liquidar Gaddafi."
A unanimidade anti-Gaddafi no leste é raramente quebrada. Numa atmosfera inversa ao período anterior à revolta, quando ninguém ousava dar um pio contra o ditador, hoje os que o apoiam preferem a discrição.
Mas alguns demonstram claro deconforto com a anarquia que predomina em algumas cidades. Sem policiamento e com a fartura de armas nas mãos de civis, há registros de saques e roubos.
"Em breve as pessoas sentirão falta da segurança que tinham no tempo de Gaddafi", afirma um militar da reserva.
MARCELO NINIO (ENVIADO A RAS LANUF - LÍBIA)
Sunday, March 06, 2011
Acadêmico renuncia por laços com líder líbio
Agências internacionais
O diretor da London School of Economics and Political Science (LSE), uma das escolas superiores de maior prestígio do mundo, Howard Davies, renunciou ontem por causa de suas ligações com a família do ditador líbio, Muamar Gadafi.
A instituição anunciou a criação de uma comissão para investigar a doação acertada em 2009 de o equivalente a US$ 2,4 milhões (ou 1,5 milhão de libras) de uma entidade dirigida pelo filho de Gadafi, Saif al-Islam, para a escola. Além disso, quer rever o pagamento de US$ 50 mil que o governo líbio fez ao próprio Davies por uma consultoria que ele prestou para o governo sobre fundo soberano líbio. A comissão também quer averiguar a "autenticidade acadêmica" da tese de doutorado que Saif apresentou à LSE em 2008 e sobre a qual recaem suspeitas de plágio.
"Em resumo, eu sou responsável pela reputação da escola e esta foi atingida", disse Davies. "Eu disse ao conselho que seria responsável aceitarmos o dinheiro, o que acabou se revelando um erro. Havia riscos envolvidos em receber recursos de fontes associadas à Líbia e isso deveria ter sido avaliado de uma forma muito melhor."
Do total doado pela entidade do filho do ditador, a LSE disse que já recebeu 300 mil libras e que estuda reservar um valor equivalente em prol da comunidade acadêmica - uma das hipóteses seria reverter o valor em bolsas de estudo para jovens líbios.
Antes da onda de protestos contra o regime de Gadafi, Saif projetava uma imagem de uma personalidade reformista, que poderia ajudar o país a construir um ambiente político mais aberto. Na LSE, o título de sua tese foi "O papel da sociedade civil na democratização das instituições de governança global". Mas durante a crise política e as manifestações pela queda do ditador, ele se tornou no principal porta-voz do governo comandado por seus pai há quatro décadas.
Thursday, March 03, 2011
Papo de louco!
Socialite paulistana diz que filho do ditador Gaddafi está irreconhecível
GABRIELA MANZINI - FOLHA DE SÃO PAULO
"Eu sou amiga dele. Ou eu fui amiga dele." É assim que a empresária e socialite Ana Paula Junqueira define a sua amizade com Saif al Islam, o filho do ditador líbio que hoje atua como a face da repressão violenta do regime.
Ela e o líbio se conheceram "há muitos anos" na Europa - mais especificamente, nas reuniões do Fórum Econômico Mundial, em Davos.
"Ele tinha uma visão moderna para o país", diz Junqueira. "Nunca esperaria isso [violência] dele. [...] Soube que ele queria ter outra atitude, mas o pai não quis."
Há cerca de um ano, a empresária - que já tentou carreira política três vezes, a última com uma candidatura à Câmara pelo PV, no ano passado - oferecia um jantar em homenagem a Saif em sua casa, em São Paulo.
O motivo era a abertura de uma exposição de arte do líbio, "O Deserto Silente", no Museu Afro Brasil. Procurado, o curador Emanoel Araújo não quis comentar.
Entre os cerca de 20 convidados do jantar de Junqueira, diz, estava Marcelo Odebrecht, diretor da construtora, com negócios na Líbia.
Houve uma apresentação de um grupo que reúne ritmistas e um DJ, o Samba Groove. Convidados contaram à Folha que o líbio passou a noite cercado de seguranças, mas foi simpático e chegou a arriscar sambar.
Hoje, a socialite vê Saif pela CNN. "Não o reconheço. Era um grande amigo, mas se transformou. [...] Deve estar sob uma pressão enorme."
Sunday, February 27, 2011
Meu criado mudo repleto de livros
(lidos)
Primo Levi - A Trégua
Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel - Elite da Tropa
Luiz Eduardo Soares, Cláudio Ferraz, André Batista e Rodrigo Pimentel - Elite da Tropa 2
Meu criado mudo repleto de livros
(lendo)
Catherine Millet - A Vida Sexual de Catherine M.
Reali Jr. - Às Margens do Sena - depoimento a Gianni Carta
Tuesday, February 15, 2011
Monday, February 14, 2011
Friday, February 11, 2011
Thursday, February 10, 2011
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| photo by J. G. Menezes |
Los Espejos
Yo que sentí el horror de los espejos
No sólo ante el cristal impenetrable
Donde acaba y empieza, inhabitable,
Un imposible espacio de reflejos
Sino ante el agua especular que imita
El otro azul en su profundo cielo
Que a veces raya el ilusorio vuelo
Del ave inversa o que un temblor agita
Y ante la superficie silenciosa
Del ébano sutil cuya tersura
Repite como un sueño la blancura
De un vago mármol o una vaga rosa,
Hoy, al cabo de tantos y perplejos
Años de errar bajo la varia luna,
Me pregunto qué azar de la fortuna
Hizo que yo temiera los espejos.
Espejos de metal, enmascarado
Espejo de caoba que en la bruma
De su rojo crepúsculo disfuma
Ese rostro que mira y es mirado,
Infinitos los veo, elementales
Ejecutores de un antigo pacto,
Multiplicar el mundo como el acto
Generativo, insomnes y fatales.
Prolongan este vano mundo incierto
En su vertiginosa telaraña;
A veces en la tarde los empaña
El hálito de un hombre que no ha muerto.
No acecha el cristal. Si entre las cuatro
Paredes de la alcoba hay un espejo,
Ya no estoy solo. Hay otro. Hay el reflejo
Que arma en el alba un sigiloso teatro.
Todo acontece y nada se recuerda
En esos gabinetes cristalinos
Donde, como fantásticos rabinos,
Leemos los libros de derecha a izquierda.
Claudio, rey de una tarde, rey soñado,
No sintió que era un sueño hasta aquel día
En que un actor mimó su felonía
Con arte silencioso, en un tablado.
Que haya sueños es raro, que haya espejos,
Que el usual y gastado repertorio
De cada día incluya el ilusorio
Orbe profundo que urden los reflejos.
Dios (he dado en pensar) pone un empeño
En toda esa inasible arquitectura
Que edifica la luz con la tersura
Del cristal y la sombra con el sueño.
Dios ha creado las noches que se arman
De sueños y las formas del espejo
Para que el hombre sienta que es reflejo
Y vanidad. Por eso nos alarman.
Jorge Luis Borges - Ficcionario
Saturday, February 05, 2011
PMDB quer Sarney na presidência do Egito
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| Michel Temer lidera os parentes de José Sarney: "Levante a mão quem quer uma boquinha no governo do Egito!", exclamou |
NOVA YORK - Em cerimônia na sede da ONU, em Nova York, Michel Temer anunciou o projeto de internacionalização do PMDB. "Em um mundo mutante e globalizado, temos que nos antecipar para não perder o passo da História”, explicou. “Portanto, a partir de agora negociaremos bilateralmente para ter parlamentares do PMDB em todos os governos do mundo", explicou Temer.
O planejamento das ações ficou sob a batuta do astuto e antenado Moreira Franco. O ex-governador do Rio levou um retroprojetor para explicar sua estratégia: "Primeiro, vamos focar em conquistar dois continentes, ou 24 territórios. Assim que nosso objetivo for conquistado partiremos para dominar governos mais complexos, como o Irã, Coreia do Norte e Itália". Ao final, Moreira Franco olhou nos olhos de Merval Pereira - que estava na plateia - e fez uma previsão: "Não se assuste se, em vinte anos, você chegar em casa e se deparar com um parlamentar do PMDB deitado no seu sofá vendo TV e tomando cerveja".
No ápice da cerimônia, Michel Temer anunciou que a primeira medida do "admirável mundo novo que se desenha para o coronelismo do século XXI". Emocionado, proferiu: "Trabalharei incansavelmente para que José Sarney lidere o governo de transição do Egito. Ele teve a oportunidade de conversar pessoalmente com Tutankamon em sua primeira viagem internacional quando, ainda jovem, ocupou seu primeiro cargo executivo. Conhece a fundo as mazelas seculares que assolam o povo egípcio."
Em pesquisa preliminar, o IBOPE registrou que 94% dos brasileiros gostariam de ver Sarney no Egito. Além disso, 89% dos brasileiros gostariam de enviar os políticos para o Oriente Médio.
http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/herald
Cai liderança do partido de Mubarak
CAIRO - A liderança do Partido Nacional Democrático (PND), legenda governista do Egito, renunciou neste sábado, informou a TV estatal egípcia. Entre os dirigentes que caíram estão Gamal Mubarak, filho do presidente Hosni Mubarak, e Safwat el-Sharif, secretário-geral do partido.
Conhecido por manter boas relações com a oposição, Hossam Badrawi assumirá o posto de El-Sharif. Crítico de algumas políticas governistas, ele é considerado um membro da ala liberal do PND. De acordo com a TV estatal, houve seis mudanças na alta cúpula.
Por anos, Gamal foi apontado como provável sucessor de Mubarak. Fora da liderança do PND, porém, ele não pode mais concorrer à presidência, segundo a constituição egípcia. Sua renúncia foi vista pelos Estados Unidos como um "passo positivo" e "necessário", disse uma fonte oficial norte-americana à Reuters. "Esperamos ansiosos por passos adicionais", afirmou.
A maioria dos novos designados é jovem, disse um deles, Mohammed Kamal. "É uma boa mudança. Reflete o clima de mudança no país", afirmou. O anúncio, porém, não foi recebido com entusiasmo pelos manifestantes que se concentravam na Praça Tahrir, no Cairo, segundo a Associated Press.
Neste sábado, o presidente se reuniu com o primeiro-ministro e os ministros das Finanças, do Petróleo e Indústria e do Comércio. Os bancos reabrirão no domingo, mas o ministro das Finanças, Samir Radwan, afirmou que a situação é "muito séria". De acordo com a BBC, analistas avaliam que a crise tem custado ao país pelo menos US$ 310 milhões por dia.
Friday, January 28, 2011
Quando o assunto é África...
Fábio Zanini
24 / 01 / 2011
O Egito é o próximo?
As últimas semanas transplantaram para o norte da África uma tese que já esteve em voga no Sudeste Asiático, Leste Europeu e América Latina, sobretudo no auge da Guerra Fria: a teoria do dominó.
Diz a tese que a queda do ditador da Tunísia há duas semanas provocará algo semelhante em regimes totalitários na região. O próximo a passar por uma revolução democratizante já está escolhido: seria o Egito.
Isso sim seria um terremoto geopolítico. A Tunísia é inspiradora e simbólica, sem dúvida, mas periférica do ponto de vista geográfico, econômico, militar e populacional. O Egito tem 80 milhões de habitantes e a capacidade de mudar o panorama do Oriente Médio. Nada na região se decide sem sua opinião.
Mas realmente há condições suficientes para um repeteco?
À primeira vista, sim: um regime autoritário, um ditador decrépito no poder (Hosni Mubarak, há longos 30 anos), uma bomba populacional prestes a entrar em ignição: sem emprego nem perspectiva, o número crescente de jovens zangados só pode mesmo explodir em cima dos governantes.
Em tese, portanto, Mubarak tem de se coçar, e rápido, antes de ser a Maria Antonieta da vez.
Na vida real, é bem mais complicado, e se tem uma aposta que eu faria (e que eu gostaria, honestamente, de perder) é de que a hora de Mubarak ainda não chegou.
Colocar Tunísia e Egito no mesmo saco apenas porque são árabes é como igualar Brasil e Argentina apenas porque são latino-americanos.
Primeiro, porque o Egito é “grande demais para mudar”, parodiando a expressão que ficou famosa durante a última crise financeira, em que bancos não fechavam porque eram “grandes demais para falir”.
O Egito é aliado dos EUA e, visto do Pentágono, é um bastião de estabilidade numa região conturbada.
Mesmo que essa estabilidade seja na base da porrada, e mesmo que a mudança seria para melhor, haveria inevitavelmente um período de incerteza (como o que vive agora a Tunísia). Esse curto período seria perigoso demais, segundo a tese dominante em capitais ocidentais.
Segundo, o Egito tem uma “desculpa” que vem a calhar para se manter repressor: do outro lado estão os islâmicos da Irmandade Muçulmana. Noves fora o fato de a maioria desse grupo negar o fundamentalismo, eles assustam o suficiente. Seu pedido de democracia, de “um homem, um voto ,“é repelido com uma expressão carregada de sarcasmo: “um homem, um voto, uma vez”.
Ou seja, a democracia (um homem, um voto) seria a porta de entrada para levar ao poder regimes que logo depois aboliriam o sufrágio universal, a democracia.
Na Tunísia, lembremos, nunca houve nada que se assemelhe a um movimento islâmico forte.
O Egito, também, não tem classe média forte e secular como na Tunísia. Ironicamente, algo que é um tributo ao governo que acabou derrubado.
Por fim, como disse a última edição da revista britânica Economist, a repressão total à imprensa tunisiana (ao contrario da egípcia, que é um tanto mais livre) tirou do governo um mecanismo de aferição do nível de descontentamento social. Quando perceberam o tamanho da crise, já era tarde. Mubarak tem mais mecanismos de fazer jogadas populistas antes que o tsunami ataque.
Por isso, a tese de que o Egito é o próximo, é muito simpática. Mas ainda pago para ver.
Escrito por Fábio Zanini às 23h22
Marcadores: Pé na África
[...] Roger Ebert, comentando o filme (A Rede Social), observa que existem tradicionalmente três atividades que produzem gênios infantis: matemática, música e xadrez. E sugere que a programação de computadores pode ser uma quarta área. Por que não? Esses geniozinhos têm cérebros capazes de façanhas espantosas mas tendem a ser tímidos, rudes, introvertidos, antissociais. Fala-se a propósito deles na Síndrome de Asperger, que é uma condição próxima do autismo. Zuckerberg, segundo os depoimentos, seria assim; Ebert o compara com Bobby Fischer, o neurótico campeão de xadrez.
A crítica de Peter Travers na Rolling Stone comenta a imagem de Zuckerberg, milionário, sentado sozinho numa sala escura, “com o rosto iluminado pela luz azul do monitor, e fingindo que não está sozinho”. É uma maneira bitolada de ver as coisas. Muita gente pulando carnaval também finge que não está sozinha. Os nerds estão reinventando o mundo à sua imagem e semelhança. Dizer que um computador não faz companhia é tão injusto quanto dizer o mesmo de um livro ou de uma vitrola tocando Beethoven. O Facebook pode dar uma simples ilusão de sociabilidade, mas esta não é mais ilusória, para as pessoas “que não se encaixam”, do que a sociabilidade em carne-e-osso de uma festinha no campus, uma platéia de rock ou um churrasco na laje. O filme mostra que o mundo está cada vez mais formatado pelos nerds, após séculos de ditadura dos extrovertidos.
Thursday, January 27, 2011
Monday, January 24, 2011
Separação do Sudão recebe aval de 99% em referendo
Cerca de 99% dos sudaneses do sul votaram a favor da sua secessão, aponta a apuração oficial do referendo que foi realizado na semana passada.
O site da Comissão do Sudão do Sul para o Referendo já mostra que cerca de 3,64 milhões de pessoas nos 10 Estados do sul votaram pela separação contra apenas 16 mil favoráveis à unidade.
Os números finais oficiais deverão ser divulgados no dia 7 de Fevereiro, se não houver recursos.
Se a secessão se confirmar, o mundo terá um novo país, a partir de 9 de Julho. Este deverá ser também o país mais pobre do planeta.
Realizada entre os dias 9 e 15 de Janeiro, a votação estava prevista nos acordos de paz assinados a 9 de Janeiro de 2005, pretendendo pôr fim a duas décadas de guerra entre o norte e o sul, com um saldo de aproximadamente 2 milhões de mortos.
A eleição só seria dada como válida se 60% da população comparecesse às urnas.
Surpreendentemente, a participação foi de aproximadamente 96%.
As autoridades do sul da nação africana têm-se contido na reacção aos resultados preliminares e alertado os sudaneses contra comemorações antecipadas que poderiam criar tensão com o governo do norte.
Um membro do alto escalão do Partido do Congresso Nacional disse que iria esperar até ao anúncio final. «Mas a expectativa é que o resultado será de secessão», disse.
«O partido está a trabalhar agora nas questões pós-referendo, como a delimitação das fronteiras. Nós estamos a fazer o nosso melhor para nos prepararmos para as consequências da secessão», acrescentou.
O nome da nova nação é uma incógnita. Poderá ser Sudão do Sul ou Kush, nome para uma das primeiras civilizações da região, que apareceu por volta de 1500 a.C.
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RESULTADOS
Com mais de metade dos resultados dos dez estados do Sul do Sudão, anunciados, a comissão do referendo continua a juntar os dados que lhe vão chegando e a separação vai registar uma vitória arrasadora.
Com 83,4 por cento dos votos contados no Sul, mais o norte e o estrangeiro, 98,6 por cento votaram na secessão.
Em termos numéricos, às 18h00 horas de hoje os votos de 3.197.038 eleitores tinham sido contabilizados e só 1.4 por cento é que escolheram a separação.
Mesmo no Norte do Sudão, com a contagem completa, 57,6 escolheram a independência contra 42,4 que querem a unidade.
O resultado mais surpreendente foi o dos sulistas a viverem no Darfur: 55 por cento escolheram a unidade.
No Condado de Lafon, na Equatória Oriental, o voto foi 100 por cento para a separação.
Os resultados podem ser seguidos no sítio preparado pela Comissão do Referendo do Sul do Sudão.
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Saturday, January 22, 2011
Um amigo meu, sabido e compositor diz assim: o Caetano está para o Chico assim como eu estou para o Caetano. Um outro amigo, também sabido mas, cientista político, ouviu e comentou: essa proposição põe um monte de coisas no seu devido lugar.
Tem um negócio a se reparar entre Chico e Caetano: enquanto Caetano adotou para sua música popular a persona de um filósofo, Chico escolheu a do narrador.
A partir dessas opções, Chico se colocou numa posição segura, de onde vem se lançando - ininterruptamente - à aventura de tentar encontrar a mais depurada expressão de seu talento.
Caetano, ao contrário, assumiu - também ininterruptamente - posição de risco. Pode-se dizer que se a posição é sempre de risco e não muda, então ela é segura. Mas, não, porque ao preferir a persona do filósofo, Caetano acabou por tentar traficar para a música popular a busca intrínseca à filosofia, a busca pela... verdade. É aí que ele dá sempre a cara pra bater. Essa coragem, sem dúvida, é admirável. Apesar de muito pouco artística.
Chico, como narrador, não quer revelar verdade nenhuma. Paradoxalmente, por isso, é muito mais moderno e "de vanguarda" que Caetano: se há uma movimentação interessante neste princípio de milênio é o valor crescente que vêm ganhando os saberes narrativos. Os saberes singulares, não redutíveis ao espaço dos grandes arcos teóricos. O saber do vivido em oposição ao saber cientificamente presumido. Os heróis de Chico Buarque montam cavalinhos-de-pau que falam inglês. Não se indagam sobre a dor e a delícia do ser. Antes, são. E tentam se entender com isso.
Chico se colocou neste lugar seguro, este lugar factível. De lá ele tem tentado construir uma obra significativa.
Caetano parece preso à própria armadilha, esforçando-se em demonstrar, por exemplo, que a retórica concretista era, como se pretendia, manifestação da verdade. Que se você tiver uma ideia incrível é, mesmo, melhor fazer uma canção. Que quando você junta qualquer coisa com qualquer outra coisa e lasca uma epígrafe, aquilo ali dá liga. Não dá. Às vezes cola. Mas sentido, não faz.
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