Saturday, June 25, 2011

2.

Por fim, permitam-me lembrar-lhes um dos fenômenos mais assustadores em nossas experiências morais mais recentes. Suponho que todos os senhores já ouviram falar ao menos daqueles assassinos do Terceiro Reich que não só levavam uma impecável vida familiar, como gostavam de passar o seu tempo de lazer lendo Hölderlin e escutando Bach, provando (como se houvesse falta de provas a esse respeito) que os intelectuais podem ser tão facilmente induzidos ao crime quanto qualquer outra pessoa. Mas a sensibilidade e um gosto pelas assim chamadas coisas elevadas da vida não são capacidades do espírito? Sem dúvida, mas a capacidade de apreciação não tem nada a ver com o pensamento, que, devemos lembrar, é uma atividade, e não o desfrute passivo de algo. Na medida em que o pensamento é uma atividade, ele pode ser traduzido em produtos, em coisas como poemas, música ou pinturas. Todas as coisas desse tipo são realmente coisas do pensamento, assim como a mobília e os objetos de nosso uso diário são corretamente chamados objetos de uso: uns são inspirados pelo pensamento e os outros são inspirados pelo uso, por alguma necessidade e carência humana. O ponto importante sobre esses assassinos altamente cultos é que nem um único deles compôs um poema digno de ser lembrado, uma música digna de ser escutada, ou pintou um quadro que alguém gostaria de dependurar nas suas paredes. Sem dúvida, é necessário mais do que o pleno exercício da capacidade de pensar (thoughtfulness) para compor um bom poema, uma música ou pintar um quadro - é necessário um talento especial. Mas nenhum talento suportará a perda de integridade que experimentamos quando perdemos essa capacidade muito comum de pensar e lembrar.

Hannah Arendt - Algumas questões de filosofia moral II - Responsabilidade e Julgamento

1.

A primeira coisa que nos chama a atenção nos diálogos socráticos de Platão é que são todos aporéticos. A argumentação ou não leva a lugar nenhum ou anda em círculos.

[...] Nenhum dos logoi, os argumentos, jamais fica parado; movem-se ao redor porque Sócrates, ao fazer perguntas para as quais ele não sabe as respostas, coloca-os em movimento. E quando as afirmações perfazem o círculo completo é em geral Sócrates que, com prazer, propõe começar tudo de novo [...]

[...] Entretanto, Sócrates, de quem comumente se diz que teria acreditado na possibilidade de ensinar a virtude, parece ter sustentado de fato que falar e pensar sobre a piedade, a justiça, a coragem e tudo o mais, poderia tornar os homens mais piedosos, mais justos, mais corajosos, mesmo que não lhes fossem dadas definições ou "valores" para orientar a sua conduta posterior. Aquilo em que Sócrates realmente acreditava a respeito dessas questões pode ser mais bem ilustrado pelas comparações que aplicava a si mesmo. Ele se chamava de moscardo e parteira, e, segundo Platão, foi chamado por outra pessoa de "arraia-elétrica", um peixe que paralisa e entorpece pelo contato, uma semelhança cuja propriedade ele reconheceu sob condição de que fosse compreendido que "a arraia-elétrica só paralisa os outros por estar ela própria paralisada. Não é que, sabendo eu próprio as respostas, deixe perplexas as outras pessoas. A verdade é, antes, que também as infecto com a perplexidade que eu próprio sinto". O que, sem dúvida, resume com muita clareza a única maneira em que o pensamento pode ser ensinado - exceto que Sócrates, como ele disse repetidas vezes, não ensinava nada pela simples razão de que nada tinha para ensinar; ele era "estéril" como as parteiras na Grécia, que já tinham passado da idade de dar à luz.

[...] Sócrates (comparado a) um moscardo [...] sabe como provocar os cidadãos que, sem ele, "continuarão a dormir calmamente pelo resto da vida", a menos que apareça outra pessoa para voltar a despertá-los. E a que ele os provoca? A pensar, a examinar as questões, uma atividade sem a qual a vida, segundo ele, não só não valia muito a pena como não era plenamente viva.

[..] Parece que ele, ao contrário dos filósofos profissionais, sentia-se impelido a verificar se os seus semelhantes partilhavam as suas perplexidades - e esse impulso é totalmente diferente da inclinação a encontrar soluções para enigmas para então demonstrá-las aos outros.

Hannah Arendt - Pensamento e considerações morais - Responsabilidade e Julgamento

Friday, June 24, 2011

Os decassílabos de Chico Buarque

Querido Diário

Hoje topei com alguns conhecidos meus
Me dão bom-dia, cheios de carinho
Dizem pra eu ter muita luz, ficar com Deus
Eles têm pena de eu viver sozinho

Hoje a cidade acordou em contramão
Homens com raiva, sirenes, estardalhaço
De volta à casa recolhi um cão
Que, de hora em hora, me arranca um pedaço

Hoje pensei em ter religião
De alguma ovelha fazer sacrifício
Por uma estátua ter adoração
Amar uma mulher sem orifício

Hoje, afinal, conheci o amor
E era o amor uma obscura trama
Não bato nela nem com uma flor
Mas se ela chora, desejo me inflama

Hoje o inimigo veio me espreitar
Armou tocaia na curva do rio
Trouxe um porrete a mode me quebrar
Mas eu não quebro porque sou macio



Wednesday, June 15, 2011


Tutty Vasques

Ajude Marina a sair do PV!

Depois que a demissão do Palocci pegou no tranco, a notícia enguiçada do momento passou a ser a saída de Marina Silva do PV. Especulado há meses, o bota-fora da ex-musa do partido ainda não tem data para acontecer, se é que vai acontecer. Dependesse só da vontade dela, a decisão seria tomada após consulta aos “núcleos vivos da sociedade”, através de plebiscito. A ex-ministra, como se sabe, se amarra num referendo!

Plínio de Arruda Sampaio, o bom velhinho que disputou com ela a presidência da República, foi o primeiro pegar no pé de Marina por causa dessa mania de querer repassar responsabilidades quando solicitada a declarar posições pessoais. Foi assim nos debates sobre a legalização da maconha e do aborto, lembra?

Ninguém sabe até hoje se Marina é contra ou a favor, muito pelo contrário, mas desta vez, convenhamos, qual é a dúvida? Não importa se a festa de despedida for no Pacaembu, como quer Fábio Feldmann, ou no Engenhão, como é desejo de Alfredo Sirkis, a saída de Marina Silva do PV vai ser boa pra todo mundo, até para quem não vai junto com ela. Quanto antes, portanto, melhor. Se o Gabeira e o Gil ajudarem a empurrar, a notícia anda. Vamos lá, rapazes, força!

Wednesday, June 08, 2011

Raphael Salimena

Tuesday, June 07, 2011

Sunday, June 05, 2011

Reflexos de uma vocação libertária

Lançado em 1963, Sobre a Revolução, de Hannah Arendt, que ganha nova edição no País, permanece atual ao tratar da busca da felicidade pública por meio do fim da opressão - algo verificado, por exemplo, na primavera árabe de 2011

Celso Lafer - O Estado de S.Paulo

O que é uma Revolução? O que distingue um revolucionário de um revoltado - que é um insatisfeito - e de um rebelde - que se levanta contra a autoridade? Por que um golpe de Estado, que provoca uma mudança de governo e uma ruptura da ordem jurídica, não é a expressão de uma Revolução? O que separa um reformista de um revolucionário? Por que uma mudança radical como a representada pela Revolução Industrial, que transformou a economia, ou a Revolução Feminina, que alterou os costumes da sociedade, não tem a aura da Revolução Francesa ou da Revolução Russa que foram precedidas pela violência de um movimento revolucionário?

Estas perguntas permanecem na agenda da discussão pública. Delas trata, esclarecendo, Hannah Arendt em Sobre a Revolução. Daí uma razão do interesse do seu livro que, em nova e cuidadosa tradução para o português de Denise Bottmann, acaba de ser publicado pela Companhia das Letras.

A primeira edição do livro, publicada pela Viking Press de Nova York, é de 1963; a segunda, revista pela autora, é de 1965. A edição de 2006, inserida nos clássicos da Penguin, contém uma importante apresentação de Jonathan Schell que integra, igualmente, esta edição da Companhia das Letras. Schell destaca a atualidade do livro sublinhando a pertinência da reflexão arendtiana para a análise da onda das revoluções democráticas posteriores à redação do livro - da Revolução dos Cravos, de Portugal, às do Leste Europeu, nos processos que levaram à derrocada da União Soviética. A elas pode-se acrescentar as da primavera árabe de 2011. Por isso, Sobre a Revolução tem uma das características de um livro "clássico" - e como tal foi qualificado pela Penguin. Com efeito, continua propiciando caminhos para o entendimento do mundo atual, não obstante ter sido concebido e redigido no distinto contexto histórico da década de 1960, caracterizado pelo confronto entre os EUA - herdeiros do legado da Revolução Americana - e a URSS - herdeira, na época, do legado da Revolução Russa.

Hannah Arendt abre o seu livro explicando que a guerra tem em comum com a revolução a presença da violência e, portanto, o problema da sua justificativa. Esta, no caso de uma Revolução, diz respeito à possibilidade de um novo início, fruto de uma aspiração trazida pelo potencial da convergência entre libertação e liberdade. Revolução não se confunde, portanto, como ela diz, com rebelião e revolta que não apontam para a instauração de uma nova liberdade. Tampouco se identifica com o golpe de Estado, que não carrega o pathos da novidade, tem a sua origem no palácio e não na praça, que é o espaço político do exercício da liberdade motivador da Revolução. A Revolução não se assemelha ao reformismo nem às mudanças substantivas mas aluvionais como as trazidas pela Revolução Industrial ou pela Revolução Feminina, pois tem como nota distintiva não apenas a mudança mas o movimento da tempestade revolucionária, de que falava Robespierre.

A Revolução vem à tona por meio da violência. Esta não a explica, assim como a mudança que não dá conta do seu significado. O fenômeno da Revolução, aponta Hannah Arendt, tem como característica "quando a mudança ocorre no sentido de criar um novo início; quando a violência é empregada para constituir uma forma de governo totalmente diferente e para gerar a formação de um novo corpo político", e "quando a libertação da opressão visa pelo menos à constituição da liberdade".

Foi a aura da Revolução Francesa que incendiou o mundo, aponta Hannah Arendt ao propor a "ideia a realizar" da coincidência entre liberdade e um novo início. Não teve precedentes históricos, pois não foi entendida e historicamente recepcionada como uma indiferenciada expressão da mudança política mas sim como algo radicalmente novo: a fundação do novus ordo saeclorum, instaurador da legitimidade do poder. O impacto da Revolução Francesa, no campo das ideias, trouxe um novo conceito de História na filosofia de Hegel. Este conceito, por sua vez, exerceu uma influência direta sobre os revolucionários dos séculos 19 e 20, que absorveram o conceito nas lições de Marx e que passaram a enxergar a Revolução com base nas categorias hegelianas, como um libertário desenlace histórico da convergência entre necessidade e violência.

O tema recorrente do livro é uma grande reflexão sobre, de um lado, a validade das aspirações de liberdade que motivaram, no mundo moderno, o fenômeno revolucionário e, de outro, as razões dos descaminhos das Revoluções. Estes descaminhos integram o tema arendtiano da ruptura - vale dizer o das descontinuidades entre o passado e o futuro, assinaladores dos desdobramentos da modernidade - pois não trouxeram a constituição da liberdade. Explicam, ao mesmo tempo, a relevância do que Hannah Arendt considera o tesouro perdido da tradição revolucionária - a da autogestão dos townhalls, dos conselhos, dos Räte, dos sovietes - pela qual, com sua vocação libertária e empenho na construção de uma comunidade política criativa e criadora, tinha apreço e afinidade

Hannah Arendt traz à colação, neste livro, a importância da Revolução Americana. Destaca que o espírito da Revolução Americana não teve o mesmo impacto no imaginário político que caracterizou a Revolução Francesa, mas realça tanto o significado desta experiência na criação de uma nova ordem quanto à densidade das teorias políticas dos seus pais fundadores, que estão na origem da República norte-americana. Esta não nasceu de uma necessidade histórica nem de um desenvolvimento orgânico, mas "de um ato deliberado empenhado na fundação da liberdade". Por isso as reflexões e as ações de John Adams, Jefferson, Hamilton, Madison ecoam nas páginas deste livro assim como as de Robespierre, Saint-Just, Condorcet, Marx e Lenin. A comparação e o contraste entre as Revoluções Americana e a Francesa tem como horizonte a preocupação arendtiana de examinar as condições da possibilidade de um mundo comum, livre da opressão e ensejador da liberdade política de participação no governo e nos assuntos públicos.

O pensamento de Hannah Arendt é denso e abrangente. Daí os riscos da simplificação da sua análise. Ciente destes riscos diria que o fulcro de Sobre a Revolução é a tese de que a busca da felicidade pública (à que não têm acesso os Homens em Tempos Sombrios para os quais o espaço público desapareceu ou encolheu) através da liberação da opressão - econômica, social, política, colonial - não leva, necessária ou automaticamente, à liberdade. Esta requer instituições políticas apropriadas, a constitutio libertatis. Sem estas instituições não se efetiva a motivação revolucionária de uma nova ordem que assegure a permanência do espaço público para o exercício da liberdade. Daí a especificidade e a autonomia da política, que não se reduz à questão social e que Hannah Arendt ilumina no seu livro através da dicotomia liberação da opressão/construção da liberdade.

Na discussão da criação de instituições políticas, Hannah Arendt elaborou, com muito engenho, o significado fundacional do poder constituinte originário e explora o papel da Constituição como a convenção que enseja a gramática da ação e a sintaxe do poder. Na análise da experiência da Revolução Americana e dos desdobramentos no tempo de sua construção institucional chama atenção para o vínculo virtuoso entre República e Federação e mostra o significado da Suprema Corte e do Senado como instâncias de autoridade distintas do exercício da ação conjunta do poder.

Tanto no mando quanto no desmando, na política sempre ocorre o enlace, entre as forças impessoais e históricas e o bom e o mau das paixões e dos sentimentos humanos. Numa Revolução, que é uma situação-limite, este enlace adquire uma intensidade própria, à qual Hannah Arendt dedica páginas de grande acuidade.

No trato das motivações que levam aos movimentos revolucionários, destaca os efeitos da hipocrisia dos governantes de regimes corruptos e prepotentes que instiga a violência dos governados. Na análise do que leva aos descaminhos revolucionários, realça a obsessão jacobina com a pureza da virtude que induz o terror revolucionário e destaca os riscos do voluntarismo na política que não leva em conta a pluralidade e a diversidade da condição humana.

Em Sobre a Revolução Hannah Arendt discute os equívocos da piedade e da compaixão promovidos pela contemplação da miséria dos deserdados. A compaixão e a piedade são incapazes de argumentação. Por isso, não dizem respeito à política e a sua intrusão neste âmbito acaba levando à destrutividade da violência. A compaixão e a piedade são sentimentos. Não são um princípio da ação como a solidariedade, que pode orientar o juízo político.

O bom e o mau que caracteriza os seres humanos - da generosidade ao ressentimento - estão presentes na vida política. Na análise desta dimensão da política, Hannah Arendt com frequência valeu-se, na sua obra, da literatura que nos dá acesso, como ela dizia citando Shakespeare, "às trevas do coração humano". Do mal absoluto na política ela tratou em Origens do Totalitarismo e em Eichmann em Jerusalém. Em Sobre a Revolução, avaliou as consequências da bondade absoluta. Instigada pela leitura de O Grande Inquisidor de Dostoievski e do Billy Budd de Melville, discute os riscos para a política da bondade absoluta - a bondade além da virtude e o mal além do vício - capaz de buscar impor, pelo terror, a virtude revolucionária. Mostra, assim, como é fundamental, na discussão do fenômeno e da motivação revolucionária, a percepção da atuação concreta dos atores políticos que os ideólogos, com as suas paixões e sentimentos e as ideologias, nas suas abstrações, não alcançam.

CELSO LAFER É PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E DA ABL. PRESIDENTE DA FAPESP, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DO GOVERNO FERNANDO HENRIQUE

Saturday, June 04, 2011

Quanto aos homens da revolução ( * ), havia apenas duas lendas de fundação que lhes eram familiares: a história bíblica do êxodo das tribos de Israel saindo do Egito e a história ( * ) de Virgílio sobre as andanças de Eneias depois de fugir de Troia em chamas. Ambas são lendas de libertação, a primeira sobre a libertação da escravidão e a segunda sobre a fuga à destruição, e ambas têm como centro uma promessa futura de liberdade, a conquista de uma terra prometida ou a fundação de uma nova cidade. Quanto à revolução, essas histórias parecem encerrar uma lição importante; numa estranha coincidência, as duas insistem num hiato entre o fim da velha ordem e o início da nova, de forma que não importa muito, neste contexto, se o hiato é preenchido pelas erranças desoladas das tribos de Israel no deserto ou pelas aventuras e perigos que Eneias enfrenta antes de chegar à costa italiana. Se essas lendas ensinam alguma coisa, é que a liberdade não é o resultado automático da libertação, da mesma forma que o novo início não é a consequência automática do fim.

[...] Faz parte da própria natureza de um início que ele traga em si uma dose de completa arbitrariedade. Não só o início não está ligado a uma sólida cadeia de causas e efeitos, uma cadeia em que cada efeito se torna a causa de futuros desenvolvimentos, como ainda não há nada, por assim dizer, a que ele possa se segurar; é como se saísse do nada no tempo e no espaço. Por um momento, o momento do início, é como se o iniciador tivesse abolido a própria sequencia da temporalidade, ou como se os atores fossem lançados fora da ordem temporal e de sua continuidade. O problema do início, claro, aparece primeiramente na reflexão e especulação sobre a origem do universo, e conhecemos a solução hebraica para tais perplexidades - o postulado de um Deus Criador que está fora de sua criação, da mesma forma como o artesão está fora do objeto que fez. Em outras palavras, o problema do início é resolvido com a introdução de um iniciador cujo próprio início não está mais sujeito a indagações pois vai "da eternidade à eternidade".

[...] Por mais que as reações mentais involuntárias dos homens das revoluções ainda pudessem estar dominadas pela tradição hebraico-cristã, não resta dúvida de que o esforço consciente deles em lidar com as perplexidades do início, tais como aparecem no próprio ato de fundação, recorreu não ao "No início Deus criou o céu e a terra", mas sim à "antiga prudência", à sabedoria política da Antiguidade, em especial à Antiguidade romana. [...]  A história romana tinha como centro a ideia de fundação, e é impossível entender qualquer dos grandes conceitos políticos romanos, como autoridade, tradição, religião, lei etc., sem considerar o grande feito que está no início da história e da cronologia de Roma, o fato da urbis condita, a fundação da cidade eterna.

[...] Em nosso contexto, porém, é mais importante observar que (para os próprios romanos) nem mesmo a fundação era entendida como um início absolutamente novo. Roma - ela era o ressurgimento de Troia e o restabelecimento de alguma cidade-estado que existira antes e cujo fio de continuidade e tradição nunca se rompera. [...] O que importa [...] não é tanto a noção profundamente romana de que todas as fundações são restabelecimentos e reconstruções, e sim a ideia em certa medida relacionada, mas distinta, de que os homens estão capacitados para a tarefa, que é um paradoxo em termos lógicos, de criar um novo início porque eles mesmos são novos inícios e, portanto, iniciadores, que a própria capacidade de iniciar se radica na natalidade, no fato de que os seres humanos aparecem no mundo em virtude do nascimento.

Seja como for, ou como tenha sido, quando os americanos decidiram criar uma variante do magnus ordo saeclorum virgiliano, alterando-o para novus ordo saeclorum, admitiam que não se tratava mais de fundar "Roma de novo", e sim de fundar uma "nova Roma", que a linha de continuidade que unia a política ocidental à fundação da cidade eterna e ligava esta fundação, por sua vez, às memórias pré-históricas da Grécia e de Troia tinha se rompido e não poderia ser restaurada. E era inevitável admiti-lo.

[...] Assim, pelo visto, os homens da Revolução Americana, que tinham uma percepção quase obsessiva quanto à absoluta novidade daquele empreendimento, viram-se inevitavelmente apanhados em algo para o qual a verdade histórica e a verdade lendária de suas tradições não podiam oferecer nenhum auxílio ou precedente. E, no entanto, [...] podem ter percebido vagamente que existe uma solução para as perplexidades do início, a qual não requer nenhum absoluto para romper o círculo vicioso em que parecem presas todas as primeiras coisas. O que salva o ato de iniciar de sua própria arbitrariedade é que ele traz dentro de si seu próprio princípio, ou, em termos mais precisos, que o início e o princípio, principium  e princípio, não só estão relacionados entre si, mas são simultâneos. O absoluto do qual o início há de derivar sua validade e que, por assim dizer, deve salvá-lo de sua arbitrariedade intrínseca é o princípio que faz seu aparecimento no mundo junto com ele. A maneira como o iniciador começa o que pretende fazer estabelece a lei da ação para os que se uniram a ele a fim de participar e realizar o empreendimento. Como tal, o princípio inspira os atos que se seguirão e continua a aparecer enquanto dura a ação. E não é apenas nossa língua que ainda deriva o "princípio" do latim principium, sugerindo assim tal solução para o problema que, de outra maneira, seria insolúvel, a saber, o problema de um absoluto na esfera dos assuntos humanos, que é relativa por definição.

[...] Por grandiosas e significativas que sejam tais percepções, elas só passam a se aplicar à esfera política depois de se reconhecer que estão em flagrante oposição com as velhas noções, mas ainda correntes, sobre o papel dominante da violência, necessária para todas as fundações e, portanto, supostamente inevitável em todas as revoluções. Sob este aspecto, o curso da Revolução Americana conta uma história inesquecível e pode ensinar uma lição sem igual; pois essa revolução não eclodiu, mas foi feita por homens deliberando em conjunto com a força dos compromissos mútuos. O princípio que veio à luz naqueles anos cruciais quando foram lançadas as fundações - não pela força de um arquiteto, mas pelo poder somado de muitos - era o princípio da promessa mútua e da deliberação comum; e de fato foi o próprio acontecimento que decidiu, como havia insistido Hamilton, que os homens "são realmente capazes de estabelecer um bom governo a partir da reflexão e da escolha", que não estão "destinados para sempre a depender do acaso e da força para suas constituições políticas".

Hannah Arendt - Sobre a Revolução - capítulo 5. Fundação II: Novus ordo saeclorum

Sunday, May 29, 2011

Podemos dizer que a experiência especificamente americana ensinou aos homens da revolução [ * ] que a ação, mesmo que se inicie no isolamento e seja decidida por pessoas individuais pelos mais variados motivos, só pode ser efetivada com algum esforço conjunto em que a motivação de cada um deixa de contar, de modo que a homogeneidade de origem ou passado, que é o princípio decisivo do Estado nacional, deixa de ser um requisito. O esforço conjunto nivela com grande eficiência as diferenças de origem e qualidade. Aqui, ademais, podemos encontrar a raiz do surpreendente dito "realismo" dos Pais Fundadores [ * ] em relação à natureza humana. Eles podiam ignorar a proposição revolucionária francesa de que o homem é bom fora da sociedade, em algum estado original fictício, que era, afinal, a proposição da era do Iluminismo. Podiam ser realistas e até pessimistas neste aspecto porque sabiam que os homens, como quer que fossem em sua singularidade, eram capazes de se unir numa comunidade, que, embora composta de "pecadores", não precisaria refletir necessariamente esse lado "pecaminoso" da natureza humana. Dessa maneira, o mesmo estado social que, para seus colegas franceses, tinha se tornado a raiz de toda a maldade humana, era para eles a única vida razoável em que poderiam se salvar do mal e da desgraça, vida à qual os homens eram capazes de aceder mesmo neste mundo, e mesmo por iniciativa própria, sem qualquer auxílio divino. Aqui, aliás, também podemos discernir a verdadeira origem da versão americana, sujeita a tantos mal-entendidos, da crença então corrente na perfectibilidade humana. Antes que a filosofia americana comum sucumbisse aos conceitos rousseaunianos a esse respeito - o que só veio a acontecer no século XIX -, a fé americana não se baseava absolutamente numa confiança quase religiosa na natureza humana, mas, ao contrário, na possibilidade de refrear a natureza humana em sua singularidade graças a promessas mútuas e a obrigações comuns. A esperança para o homem em sua singularidade consistia no fato de que não é o Homem, e sim os homens que habitam a terra e formam um mundo entre eles. É a mundanidade humana que salvará os homens das armadilhas da natureza humana. E por isso o argumento mais forte que John Adams [ * ] pôde desferir contra um corpo político dominado por uma única assembleia foi que ele estaria "sujeito a todos os vícios, loucuras e fraquezas de um indivíduo".

A isso se relaciona  intimamente a percepção da natureza do poder humano. À diferença da força, que é dote e posse de cada homem isolado contra todos os outros homens, o poder só nasce se e quando os homens se unem com a finalidade de agir, e desaparece quando, por qualquer razão, eles se dispersam e abandonam uns aos outros. Assim, prometer e obrigar, unir e pactuar são os meios de manter a existência do poder; sempre que os homens conseguem preservar o poder nascido entre eles durante qualquer gesto ou ação particular, já se encontram em processo de fundação, em processo de constituir uma estrutura terrena estável que, por assim dizer, abrigue esse seu poder somado de ação conjunta. A faculdade humana de fazer e manter promessas guarda um elemento da capacidade humana de construir o mundo. Assim como as promessas e acordos tratam do futuro e oferecem estabilidade no oceano de incertezas do porvir, onde o imprevisível pode irromper de todos os lados, da mesma forma as capacidades humanas de constituir, fundar e construir o mundo sempre remetem mais a nossos "sucessores" e à "posteridade" do que a nós mesmos e à nossa época. A gramática da ação: a ação é a única faculdade humana que requer uma pluralidade de homens; a sintaxe do poder: o poder é o único atributo humano que se aplica exclusivamente ao entremeio mundano onde os homens se relacionam entre si, unindo-se no ato da fundação em virtude de fazer promessas, o que, na esfera da política, é provavelmente a faculdade humana suprema. 

Hannah Arendt - Sobre a Revolução - capítulo 4. Fundação I: Constitutio libertatis - pgs. 226, 227, 228

Friday, May 27, 2011

Maggie's Farm
(Bob Dylan)

I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more
No, I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more

Well, I wake in the morning
Fold my hands and pray for rain
I got a head full of ideas
That are drivin’ me insane
It’s a shame the way she makes me scrub the floor
I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more

I ain’t gonna work for Maggie’s brother no more
No, I ain’t gonna work for Maggie’s brother no more

Well, he hands you a nickel
He hands you a dime
He asks you with a grin
If you’re havin’ a good time
Then he fines you every time you slam the door
I ain’t gonna work for Maggie’s brother no more

I ain’t gonna work for Maggie’s pa no more
No, I ain’t gonna work for Maggie’s pa no more

Well, he puts his cigar
Out in your face just for kicks
His bedroom window
It is made out of bricks
The National Guard stands around his door
Ah, I ain’t gonna work for Maggie’s pa no more

I ain’t gonna work for Maggie’s ma no more
No, I ain’t gonna work for Maggie’s ma no more

Well, she talks to all the servants
About man and God and law
Everybody says
She’s the brains behind pa
She’s sixty-eight, but she says she’s twenty-four
I ain’t gonna work for Maggie’s ma no more

I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more
No, I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more

Well, I try my best
To be just like I am
But everybody wants you
To be just like them
They sing while you slave and I just get bored
I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more

Copyright © 1965 by Warner Bros. Inc.; renewed 1993 by Special Rider Music

Thursday, May 26, 2011


Nada é pra já!

6h03 - Quando, afinal, os evangélicos americanos vão entender que o mundo não tem data para acabar? O tal pastor Howard Camping remarcou para 21 de outubro o apocalipse que previu inicialmente para o sábado passado, como se o fim do mundo não fosse um desafio cotidiano e, sobretudo, subjetivo. Esta semana, por exemplo, ele assumiu forma de vulcão nos aeroportos europeus, de tornado no Missouri (EUA) e de Código Florestal em Brasília.

A despeito da globalização, o fim do mundo – literal ou figurado – é, quase sempre, um fenômeno local. No Japão, por exemplo, ninguém nem sabe quem é Antonio Palocci, embora aqui no Brasil o ministro tenha status de risco atômico no governo Dilma. Outra coisa: está chovendo horrores no Nordeste, mas quem se preocupa com isso no resto do País?

Há casos, inclusive, de vizinhos que, mesmo compartilhando aflições, não chegam a um consenso sobre a leitura do noticiário. Quer ver só? Na sua opinião, caro(a) leitor(a), a prisão do jornalista Pimenta Neves com 11 anos de atraso é o fim do mundo ou uma esperança de que ele não vai acabar sem que a gente veja o ex-médico Roger Abdelmassih na cadeia? Pense com calma, tem tempo!

http://blogs.estadao.com.br/tutty/

Wednesday, May 25, 2011

O Assessor de Imprensa
(ou, variações sobre o tema do politicamente correto)

Adilson Laranjeira despacha em uma sala claustrofóbica, no Bexiga, com paredes de tinta gasta, uma janela tão pequena que lembra um basculante, e uma televisão que vive ligada. Sobre a mesa jazem jornais amarfanhados, vidros de xarope expectorante e um telefone celular antigo. Aos 69 anos, tem um tom de voz gutural e um corpanzil acima do peso que faz a camisa de botões quase estourar. A calça jeans, presa por um cinto de couro, divide seu abdome em dois hemisférios plutônicos. O cabelo louro-grisalho, penteado para trás, encima um rosto avermelhado. Os óculos de pesada armação transparente realçam os olhos claros e permanentemente arregalados. Laranjeira tem lábios finos e uma risada estrondosa. Parece um personagem bonachão de desenho animado.

do perfil de Adilson Laranjeira, assessor de imprensa de Paulo Maluf por mais de 10 anos, publicado na Piauí nº 36

Outra passagem:

Laranjeira atribui as constantes acusações a Maluf a uma perseguição. [...] Ele também vê a cobertura dos repórteres com reservas. "Jornalista não tem noção de número. Já publicaram que o Paulo teria 1,5 bilhão de dólares no exterior." Fez uma pausa e repetiu, cadenciado: "Veja bem, -la-res. Nem o Bill Gates tem isso depositado em cash. O sujeito escreve e não pára para pensar", afirmou.

Ele fala de jornalismo com autoridade. Foi chefe de reportagem da Folha de S. Paulo. Laranjeira era um chefe à primeira vista atemorizante: enorme, sarcástico, entediado e cheio de perguntas pertinentes e destrutivas aos jovens repórteres que voltavam da rua certos que tinham uma boa matéria. Só levantava da cadeira para discutir a primeira página com o diretor de redação, Boris Casoy. Ambos muito altos, loiros, corpulentos e mancos, eles atravessavam a redação adernando, batendo os ombros um no outro sincopadamente. Com a convivência, Laranjeira se mostrava bem mais agradável. Era louco por cinema americano, conhecia Hitchcock a fundo e tinha um repertório formidável de piadas racistas (agora, nesses tempos politicamente corretos, só conta aos mais chegados), que faziam o seu amigo Paulo Francis ter síncopes de tanto rir.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-36/esquina/-nao-tem-nem-nunca-teve-conta-no-exterior

Sunday, May 22, 2011


Mesmo falantes cultos não seguem a norma padrão

Pesquisa mostra que entre brasileiros com nível superior só 5% usam pronomes da forma recomendada

Análise leva em conta mais de 1.500 horas de entrevistas gravadas desde a década de 1970 em cinco capitais

ANTÔNIO GOIS - DO RIO

"Os menino pega o peixe e colocam na mesa." O leitor mais escolarizado provavelmente estranhará a falta de concordância na frase anterior entre o artigo e o substantivo e entre o sujeito e o verbo. Mas há algo mais nela em desacordo com o que é ensinado em gramáticas.

Falta o pronome oblíquo "o", para que a frase, agora escrita em total acordo com a norma padrão, fique assim: "Os meninos pegam o peixe e colocam-no na mesa."

Análise de mais de 1.500 horas de entrevistas gravadas desde 1970 em cinco capitais revelam que mesmo os brasileiros de nível universitário, na fala, usam variedades linguísticas em desacordo com a norma padrão.

Estudos feitos a partir do projeto Nurc (Norma Linguística Culta Urbana) e do Programa de Estudos sobre o Uso da Língua revelam, por exemplo, que a omissão do pronome, como no exemplo da frase que iniciou este texto, é uma das características mais comuns tanto entre os mais escolarizados quanto entre os menos instruídos.

Entre brasileiros com nível superior, não passa de 5% a frequência na fala com que o pronome é colocado em casos em que a norma padrão escrita recomendaria. Entre os menos escolarizados, o percentual é de 1%.

CONCORDÂNCIA

A diferença mais visível está na concordância em frases curtas, como em "Os menino pega o peixe", mais comum entre os menos escolarizados.

As pesquisadoras Dinah Callou, Eugenia Duarte e Célia Lopes, da UFRJ do projeto Nurc, explicam que os mais escolarizados têm maior cuidado com a concordância ao escrever. Na fala coloquial, porém, o monitoramento é menor e ela se aproxima das variantes populares.

"Para espanto de muitos, as análises mostram que as variedades cultas não só não se distinguem muito entre si como também não se distanciam muito das variedades chamadas populares", afirmam as pesquisadoras.

Um dos mais conhecidos estudos feitos a partir da base de dados do projeto Nurc foi feito por Ataliba Teixeira de Castilho (Unicamp).

Ele afirma que uma das principais conclusões foi que, para surpresa de muitos, a língua falada por eles era também muito diferente do que era preconizado pelas gramáticas da época.

Os pronomes pessoais das gramáticas escolares (eu, tu, eles, nós, vós, eles), por exemplo, já não correspondiam mais ao que era usado na fala dos mais escolarizados, que já trocavam, desde a década de 1970, "tu" e "vós" por "você" e "vocês", além de "nós" por "a gente".

Uma das consequências é que, como explica Castilho, é cada vez menos comum o uso do sujeito oculto, já que, pela terminação do verbo, não é possível mais identificar claramente qual pronome pessoal foi ocultado.

As formas verbais de terceira pessoa são usadas com os pronomes "você" e "ele", portanto a terminação não é capaz de identificar o sujeito (por exemplo, "você fala", "ele fala"). O mesmo vale para as formas do plural ("vocês falam", "eles falam"). Com "tu" ou "vós", isso não aconteceria. A terminação seria suficiente para que o interlocutor descobrisse qual era o sujeito da frase.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2205201115.htm

Saturday, May 21, 2011

Neste counter é uma dezena
Já naquele, centena e meia
É que de um gadget pro outro, nenêm,
As conta vareia

após uma explosão inaudita de visualizações e comentários no dia 18 de maio

Thursday, May 19, 2011

Uma coisa é uma coisa
Outra é outra, isso é ok
A questão é que o Caetano
Não concorda com o Nei

(Redondilhas com molho lusitano pro corsário )

Wednesday, May 18, 2011

MARCELO COELHO 

Politicamente fascista 

Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer "incorreto"

O comediante Danilo Gentili pediu desculpas pela piada antissemita que divulgou no Twitter. A saber, a de que os velhos de Higienópolis temem o metrô no bairro porque "a última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz".

Aceitar suas desculpas pode ser fácil ou difícil, conforme a disposição de cada um. O difícil é imaginar que, com isso, ele venha a dizer menos cretinices no futuro.

Não aguentei mais do que alguns minutos do programa "CQC", na TV Bandeirantes, do qual é ele uma das estrelas mais festejadas. Mas há um vídeo no YouTube, reproduzindo uma apresentação em Brasília do seu show Politicamente Incorreto, em outubro de 2010.

Dá para desculpar muita coisa, mas não a falta de graça. O nome oficial do Palácio do Planalto é Palácio dos Despachos, diz ele. "Deve ser por isso que tem tanto encosto lá." Quem o construiu foi Oscar Niemeyer, continua o humorista. E construiu muitas outras coisas, como as pirâmides do Egito.

A plateia tenta rir, mas só fica feliz mesmo quando ouve que Lula é cachaceiro, ou que (rá, rá) o nome real de Sarney é Ribamar. Prossegue citando os políticos que Sarney apoiou; encerra a lista dizendo que ele só não apoiou o próprio câncer porque "o câncer era benigno".

Os aplausos e risadas, pode-se acreditar, vêm menos da qualidade das piadas e mais da vontade de manifestação política do público. Detestam-se, com razão, os abusos dos congressistas brasileiros. Só por isso, imagino, alguém ri quando Gentili diz preferir que a capital do país ficasse no Rio: "Lá pelo menos tem bala perdida para acertar deputado".

Melhor parar antes que eu fique sem respiração de tanto rir. Como se vê, em todo caso, o título do show não é bem o que parece. "Politicamente incorreto", no caso, faz referência às coisas erradas feitas pelos políticos, mais do que ao que há de chocante em piadas sobre negros ou homossexuais.

A questão é que o rótulo vende. Ser "politicamente incorreto", no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer "incorreto" - e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir.

Não nego que o "politicamente correto", em suas versões mais extremadas, seja uma interdição ao pensamento, uma polícia ideológica.

Mas o "politicamente incorreto", em sua suposta heresia, na maior parte das vezes não passa de banalidade e estupidez.

Reproduz preconceitos antiquíssimos como se fossem novidades cintilantes. "Mulheres são burras!" "Ser contra a guerra é viadagem!" "Polícia tem de dar porrada!" "Bolsa Família serve para engordar vagabundo!" "Nordestino é atrasado!" "Criança só endireita no couro!"

Diz ou escreve tudo isso, e não disfarça um sorrisinho: "Viram como sou inteligente?".

"Como sou verdadeiro?" "Como sou corajoso?" "Como sou trágico?" "Como sou politicamente incorreto?"

O problema é que "politicamente incorreto", na verdade, é um rótulo enganoso. Quem diz essas coisas não é, para falar com todas as letras, "politicamente incorreto". Quem diz essas coisas é politicamente fascista.

Só que a palavra "fascista", hoje em dia, virou um termo... politicamente incorreto. Chegamos a um paradoxo, a uma contradição.

O rótulo "politicamente incorreto" acaba sendo uma forma eufemística, bem-educada e aceitável (isto é, "politicamente correta") de se dizer reacionário, direitista, fascistoide.

A babaquice, claro, não é monopólio da direita nem da esquerda. Foi a partir de uma perspectiva "de esquerda" que Danilo Gentili resolveu criticar "os velhos de Higienópolis" que não querem metrô perto de casa.

Uma ou outra manifestação de preconceito contra "gente diferenciada", destacada no jornal, alimentou a fantasia mais cara à elite brasileira: a de que "elite" são os outros, não nós mesmos. Para limpar a própria imagem, nada melhor do que culpar nossos vizinhos.

Os vizinhos judeus, por exemplo. É este um dos mecanismos, e não o vagão de um metrô, que ajudam a levar até Auschwitz.

Wednesday, May 11, 2011


Deus castiga!

NORDESTE // CRIME

Homem invade igreja na Paraíba, destrói imagens sacras, sofre infarto e morre

Um homem invadiu uma igreja na cidade de Catingueira, no Sertão da Paraíba, destruiu as imagens sacras e depois teve um infarto e morreu. O crime ocorreu nessa terça-feira (10). Edmílson Jovino também agrediu o padre. As informações são do jornal Folha da Paraíba.

Segundo informações do padre Fabrício Dias Timóteo, o Círio Pascal e as imagens sacras do Cristo Crucificado e de Nossa Senhora de Fátima foram destruídas após a novena. “Ele estraçalhou logo de imediato um ventilador de pé. Ele pegou a haste desse ventilador e veio em minha direção quando me reconheceu como padre. Ele tentou me agredir com esta haste, eu me defendi, mas ele ainda conseguiu me dar um soco”, disse o padre.

Após invadir e destruir imagens sacras, Edmílson foi até a Praça da Matriz, onde foi capturado por populares e, em seguida, entregue à Polícia. Logo em seguida, ele começou a passar mal e morreu. “Segundo o parecer de alguns médicos, houve um infarto, um problema cardíaco fulminante”, disse o padre Fabrício Dias.

Por enquanto, a igreja permanece fechada até que seja feito o ato de desagravo que também pode ser chamada de ato de reparação. Ainda não se sabe se as imagens sacras vão ser restauradas ou subtituídas.

A Tropicália representou um momento muito rico da música brasileira e um envolvimento com diversas tendências: a música nordestina, a música erudita, a música pop internacional e local, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga. Esse movimento dialogava também com outras coisas muito fortes como a Bossa Nova, a Jovem Guarda, o samba. A partir do momento Tropicália o entendimento de música brasileira mudou bastante.

Eu, pessoalmente, não me considero filho de Caetano, nem sobrinho de Ariano (o escritor Ariano Suassuna). Sou mais descendente de Augusto dos Anjos do que um descendente direto do tropicalismo.

A minha geração foi trabalhando com caco, com lixo, com coisas que aparentemente não prestavam mais, como misturar música brasileira com influências da Índia, da África, do pop americano, do pop britânico e tal. Eu me apropriei de diversos elementos como os que o Tropicalismo havia lançado e fui percebendo isso no meio do caminho. Eu sabia que eu não estava inventando nada e que isso já tinha acontecido lá atrás. Para quem vem fazendo música como eu, dos anos 80 para cá, é inevitável que algo feito por esse grupo formado por Tom Zé, Capinan, Gil, Caetano, Rogério Duprat, Os Mutantes, Gal Costa, não tenha deixado uma marca. A marca deles está aí e parte dessa marca está em nós. Mas a gente não pode ver Gil e Caetano como uma árvore tão grande, cuja sombra impeça os outros de serem vistos e que outras manifestações não possam aparecer, sendo entendidas em sua particularidade.

Quando os tropicalistas fizeram uma festa para a Rede Globo, um programa chamado, sei lá… “Tropicalismo, todos os anos ou 30 anos”, os herdeiros do Tropicalismo a quem eles levaram foram os cantores de axé music. Eu acho então que a vitória mercadológica do Tropicalismo tem herdeiros muito claros, mercadológicos. Já está dito. A grande mãe Globo junto com os patriarcas do Tropicalismo, Caetano Veloso e Gilberto Gil, já disseram isso. Foi feito um evento para dizer isso.

Torquato morreu, Tom Zé foi “exilado”, Capinan vive de dar cursos e o lado do Tropicalismo que se sobrepôs e apareceu nos últimos 20 anos foi esse lado de maior generosidade com o mercado, aí na hora de apontar os herdeiros é a Banda Eva etc. É isso. O herdeiro comercial do Tropicalismo é o axé music. Mas o herdeiro ideológico do Tropicalismo, o herdeiro estético nós não sabemos quem é.

As pessoas que fazem música se apropriam de tudo o tempo inteiro, se apropriam de tecnologias, de posturas etc. e essa foi, inclusive, a atitude dos tropicalistas. Talvez nós vivamos hoje uma superação do conceito de herança. Não há mais herança, há apropriação. Isso que se chama de herança que, por um lado, se considera positiva e ela é positiva — e também elogiosa aos pseudo herdeiros — diminui o trabalho que as pessoas tiveram para reconstruir um conceito de música brasileira que estava se indo por água abaixo.

O que eu sinto como importante pra a gente que está surgindo agora é reconhecer que não há um pai. Eu não me reconheço nesse pai e esse pai também não me reconhece.

Eu, Carlinhos Brown, Lenine e Chico Science surgimos mais ou menos na mesma época. Essas pessoas vinham fazendo música durante todos os anos 80, mas elas só apareceram na metade dos anos 90. Aí eu acho que não se pode creditar o aparecimento dessas pessoas à herança pura e simples do Tropicalismo. Talvez alguém possa se apressar e assumir-se como herdeiro por pura lisonja.

A influência maior da Tropicália é a Geléia Geral, isso nós temos, isso é inegável. Nós existimos, em parte, porque o Tropicalismo existiu e, em parte, apesar dele, porque é uma coisa tão sólida e tão bem plantada que quase impede que outras coisas apareçam como pensamento, como marketing, como tudo. Creio que a nossa influência maior (pelo menos nós os nordestinos) é Luís Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Esses dois e, em menor medida, João do Vale, na minha opinião, são os primeiros artistas pop do Nordeste. Depois vem essa coisa de colocar tudo na centrífuga que o Tropicalismo fez. Essa atitude centrífuga de pegar tudo, botar ali como diz o Lenine: fazendo um creme rinse de um abacate e combinando coisas aparentemente incombináveis.

Essa reflexão que nós fazemos hoje sobre o Tropicalismo eu creio que encerra o próprio ciclo do Tropicalismo. Acho que essa reflexão é como olhar o brilho de uma estrela que já morreu. A estrela continua brilhando, mas já morreu. Em vez de dizer que o Tropicalismo está vivo é melhor dizer: Tom Zé está vivo, Caetano Veloso está vivo, Gilberto Gil está vivo, Gal Costa está viva. Quer coisa menos tropicalista do que Gal Costa hoje? Nada, nada a ver.

http://tropicalia.com.br/ruidos-pulsativos/herdeiros-musicais/chico-cesar

Tuesday, May 10, 2011




Leonard - Hey, Raj, você vem com a gente jantar?

Raj - O cara solitário e os dois casais felizes? Prefiro consultar um proctologista leproso que termine o exame com um dedo a menos.

The Big Bang Theory


eubioticamente atraídos*
identisignificados*
* http://tropicalia.com.br/

Sunday, May 08, 2011

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-55/memorias-vertiginosas/rakudianai

Meus pais estavam lá. Eu estava vivo e inteiro, e era somente isso que importava. No caminho para casa, pedi que meu pai parasse o carro quando vi, do outro lado da rua, um pipoqueiro. Foi um impulso. Fiz questão de comprar eu mesmo a pipoca; meu pai me aguardou ao volante. Atravessei a rua e demorei-me um pouco na frente do pipoqueiro antes de pedir um saquinho. Ele tinha poucos dentes, o carrinho era seu único bem. Não tenho pressa, espero pela pipoca quentinha.

Um longo tempo. A panela no fogo, o estouro gradual, o crescendo sinfônico das pipocas. O trajeto da panela ao vasilhame de vidro, do vasilhame ao saquinho. O sal branco que caía e escorria invisível entre as pipocas, de cima para baixo, tropeçando nas suas reentrâncias tortuosas, até depositar-se em silêncio no fundo do saquinho.

A vida fazia sentido nas coisas simples: separar a pipoca boa do grão encruado, sentir o sabor de cada pipoca, uma a uma, sentir o sal e o milho, amassar o saquinho vazio, cruzar a rua e voltar sem pressa para o carro. Eu morava naquela pipoca, e me encontrava além da revolução, dos sacrifícios, da nobreza de ideais, da democracia e da liberdade.

Mesmo levando em conta o tempo da pipoca, não demorei mais do que uns vinte minutos para chegar em casa. Algo havia de errado, no relógio ou na geografia. Minha casa não poderia ser tão perto assim dos centros de tortura.

Fiquei tonto, o mundo rodou por um instante, quase uma labirintite. Porque se você chega em casa em vinte minutos, os torturadores podem levar você de volta nos mesmos míseros vinte minutos. As prisões deveriam ser em locais longínquos, num canto perdido na Sibéria, e não ali, no meio da cidade. Na geografia brasileira a tortura morava ao lado, era uma vizinha atenta.

Persio Arida, logo após ser libertado dos porões da Oban e do Dops

No Cafofo do Osama


http://blogs.estadao.com.br/tutty/

Acontece sempre que a polícia carioca apresenta à imprensa o esconderijo de um chefe do tráfico abatido ou expulso do morro: os sinais de riqueza aparente do bandido são sempre superlativados no noticiário. Ar condicionado no quarto dá ao cafofo status de imóvel de luxo. Se tiver TV de plasma na sala e piscininha na varanda, aí vira “mansão”. A ideia, imagino, é sublinhar que o safado vivia melhor que a gente, caro leitor. Enfim, bem-feito pra ele – perdeu, mané!

No caso de Osama Bin Laden, até se ensaiou chamar de “palacete” o que se via pelos satélites das forças especiais americanas, impressão que foi se transformando à medida que fotógrafos e cinegrafistas se aproximavam por terra do local da execução do terrorista. O tal “condomínio de luxo”, sabe-se agora, não passava de uma cabeça de porco, com 24 moradores dividindo espaço sem telefone, janelas, videogame, banheira de hidromassagem ou TV a cabo.

Ainda assim, persiste o tratamento de “fortaleza-mansão” dispensado pela imprensa ao complexo de lajes do ex-líder da Al-Qaeda. Só o britânico ‘The Guardian’ deu-se ao trabalho de ouvir um corretor de imóveis da região para corrigir as informações dos americanos sobre o esconderijo. O que chamavam de “complexo extraordinário de US$ 1 milhão em bairro chique de Abottabad” foi reavaliado em “US$ 250 mil (20 milhões de rúpias), se tanto, dado à mediocridade da vida em Bilal Town”.

Pode até não ser a maior mentira envolvendo a execução de Bin Laden, mas nenhuma outra soa tão desnecessária. Afora o galinheiro próprio e a quantidade de bode adquirido no açougue, os jornais destacam como sinal de abastança do terrorista os gastos da família na vendinha da esquina, com ênfase no consumo de Coca-Cola, Pepsi, leite Nestlé e “xampu da melhor qualidade”. Só quem já viveu em caverna sabe que espécie de luxo é esse, né não?

Localizado a partir do rastreamento do CPF que usou em seus carnês das Casas Bahia, Bin Laden é visto aqui testando o gato recém-instalado da NET

Folha de São Paulo Opinião em domingo inspirado

'Desde que em comum acordo e sem envolver menores, não há nada de intrinsecamente errado com homossexualismo, masoquismo, sadismo, fetichismo, coprofilia, zoofilia (se o animal em questão não se opuser) e nem mesmo com a vida monástica'. 

Hélio Schwartsman - Felizes Para Sempre, sobre o Supremo Tribunal Federal ter estabelecido que a figura da união estável vale também para casais homossexuais.


'O surto inflacionário é bom momento para se tomar a sempre difícil decisão entre descer para comprar mais birita ou começar, o quanto antes, a arrumar o salão'.

Fernando Canzian - Drink em Festa Ruim, sobre o "porre" de crédito ao consumo do governo Lula e consequentes perspectivas inflacionárias na gestão de Dilma Roussef.


'Era um símbolo do mal, responsável pelo maior crime dos tempos modernos, comparável a um Hitler ou a um Stálin'.

Carlos Heitor Cony - Corpo de Delito, sobre Osama Bin Laden

Saturday, May 07, 2011

A Segunda Guerra Mundial foi um conflito militar global que durou de 1939 a 1945, envolvendo a maioria das nações do mundo – incluindo todas as grandes potências – organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados e o Eixo. Foi a guerra mais abrangente da história, com mais de 100 milhões de militares mobilizados. Em estado de "guerra total", os principais envolvidos dedicaram toda sua capacidade econômica, industrial e científica a serviço dos esforços de guerra, deixando de lado a distinção entre recursos civis e militares. Marcado por um número significante de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, com mais de setenta milhões de mortos.

Geralmente considera-se o ponto inicial da guerra como sendo a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista em 1 de setembro de 1939 e subsequentes declarações de guerra contra a Alemanha pela França e pela maioria dos países do Império Britânico e do Commonwealth. Alguns países já estavam em guerra nesta época, como Etiópia e Itália na Segunda Guerra Ítalo-Etíope e China e Japão na Segunda Guerra Sino-Japonesa.[2] Muitos dos que não se envolveram inicialmente acabaram aderindo ao conflito em resposta a eventos como a invasão da União Soviética pelos alemães e os ataques japoneses contra as forças dos Estados Unidos no Pacífico em Pearl Harbor e em colônias ultramarítimas britânicas, que resultou em declarações de guerra contra o Japão pelos EUA, Países Baixos e o Commonwealth Britânico.

A guerra terminou com a vitória dos Aliados em 1945, alterando significativamente o alinhamento político e a estrutura social mundial. Enquanto a Organização das Nações Unidas era estabelecida para estimular a cooperação global e evitar futuros conflitos, a União Soviética e os Estados Unidos emergiam como superpotências rivais, preparando o terreno para uma Guerra Fria que se estenderia pelos próximos quarenta e seis anos. Nesse ínterim, a aceitação do princípio de autodeterminação acelerou movimentos de descolonização na Ásia e na África, enquanto a Europa ocidental dava início a um movimento de recuperação econômica e integração política.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Segunda_Guerra_Mundial

Aldous Huxley parafraseando Erich Fromm

"A nossa sociedade ocidental contemporânea, apesar do seu progresso material, intelectual e político, dirige-se cada vez menos para a saúde mental, e tende  a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor no ser humano; tende a transformá-lo num autômato que paga o seu fracasso com as doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um delírio pelo trabalho e pelo chamado prazer."

As nossas "doenças mentais cada vez mais frequentes" podem achar manifestação em sintomas neuróticos. Estes sintomas são patentes e extremamente perigosos. Mas, "cuidemo-nos", diz o Dr. Fromm, "de definir a higiene mental como prevenção de sintomas. Os sintomas, como tais, não são nossos inimigos, porém, nossos amigos; onde há sintomas há conflito, e conflito indica sempre que as forças da vida, que pugnam pela harmonização e pela felicidade, ainda lutam". (...) "Muitos dos que são normais, são-no porque se encontram tão bem adaptados ao nosso modo de viver, porque as suas vozes humanas ficaram reduzidas ao silêncio tão cedo em suas vidas, que nem porfiam ou sofrem, ou exibem sintomas como o neurótico".

O seu perfeito ajustamento a esta sociedade anormal dá a proporção de sua doença mental. Estes milhões de indivíduos normais que vivem sem aparato numa sociedade a que, se fossem seres plenamente humanos, não deveriam estar adaptados, ainda acariciam "a ilusão da individualidade", mas de fato foram em larga escala desindividualizados. A sua conformidade continua evoluindo para algo como a uniformidade. Mas, "uniformidade e liberdade são contraditórias. A uniformidade e a saúde mental são igualmente incompatíveis... O homem não foi preparado para ser um autômato, e se se transforma em autômato, a base da saúde mental está arruinada".

Aldous Husley - Regresso ao Admirável Mundo Novo / 3 - Superorganização

Tuesday, May 03, 2011

Sunday, April 24, 2011

O poder não é um meio, é um fim. Não se instaura uma ditadura para se salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para se instaurar a ditadura. O objectivo da perseguição é a perseguição; o da tortura é a tortura; o do poder, o poder (...).

Estás a pensar que eu falo de poder, e nem sequer consigo evitar a ruína do meu próprio corpo. Será que não entendes, Winston, que o indivíduo não passa de uma célula? O cansaço da célula é o vigor do organismo. Porventura morres quando cortas as unhas?

(...) Somos os sacerdotes do poder. (...) Deus é o poder. (...) Sozinho, livre, o ser humano acaba sempre derrotado. E tem que ser assim, porque cada ser humano está condenado a morrer, o que constitui o maior de todos os fracassos. Mas se o homem for capaz de aceitar uma submissão total, absoluta, se for capaz de fugir à sua própria identidade, se for capaz de se fundir no Partido a ponto de ser o Partido, então será omnipotente e imortal.

A segunda coisa que tens de perceber é que o poder é poder sobre os seres humanos. Sobre o corpo, claro, mas acima de tudo sobre o espírito. O poder sobre a matéria (sobre a realidade exterior, como tu dirias) não é importante. O nosso domínio sobre a matéria tornou-se já absoluto.

(...) Começas agora a ver que tipo de mundo estamos a criar? Precisamente o oposto das estúpidas utopias hedonistas que os antigos reformadores imaginaram. (...) Não restará lealdade, senão a lealdade ao Partido. Nem amor, senão o amor pelo Big Brother. Nem riso, senão o riso da vitória sobre um inimigo aniquilado. Nem arte, literatura ou ciência. (...) Mas haverá sempre (não te esqueças disto, Winston), haverá sempre a embriaguez do poder. (...) Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota a pisar um rosto humano. Para sempre.

George Orwell - Mil Novecentos e Oitenta e Quatro - Lisboa, Edições Antígona, 1991

Friday, April 22, 2011

Lançadores de mísseis Scud* serão usados na segurança do casamento do príncipe William, a ser realizado na Abadia de Westminster, em Londres

*Mísseis tradicionalmente usados em conflitos armados no Oriente Médio

Tuesday, April 19, 2011


''Pobres não são petistas, são governistas''

Cientista político vê efeito eleitoral 'muito grande' do Bolsa Família e diz que apoio a programa não está relacionado às contrapartidas exigidas pelo governo

18 de abril de 2011 | 0h 00
Lucas de Abreu Maia e Daniel Bramatti - O Estado de S.Paulo

Entrevista - Cesar Zucco

O Bolsa Família tem efeito eleitoral "muito grande", mas favoreceu mais Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 que Dilma Rousseff em 2010. O programa é bem avaliado por todas as classes sociais, e essa imagem positiva tem pouco a ver com a exigência de contrapartidas dos beneficiários.

As afirmações, feitas em artigos publicados recentemente ou ainda inéditos, são do cientista político Cesar Zucco, brasileiro que leciona na Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Não são meras opiniões ou palpites, mas constatações embasadas em pesquisas de opinião ou estudos estatísticos sobre a correlação entre programas sociais e tendência de voto.

Zucco é um dos coordenadores de uma equipe que, com apoio do Banco Mundial, promoveu três rodadas de pesquisa de opinião sobre programas sociais em 2010 - a última delas ouviu 1.221 pessoas em 16 Estados.

Ele também cruzou dados das eleições com os da cobertura do Bolsa Família em cada município. Constatou que, em 2006 e em 2010, quanto maior o porcentual da população atendida pelo programa em municípios de perfil semelhante, maior a probabilidade de voto no candidato do PT. Mas adverte: não há evidências de que os mais pobres tenham aderido ao partido. "O povão é governista."

Os estudos do pesquisador também apontam que os brasileiros não se incomodam com o caráter assistencialista do Bolsa Família. Para ele, isso indica que os brasileiros não se importam tanto com as chamadas "portas de saída", enfatizadas no discurso de setores da oposição.

Quais são os principais resultados de suas pesquisas sobre o Bolsa Família?

O apoio do público em geral ao Bolsa Família e a outros programas desse tipo é alto, e não varia muito com o nível de renda - o que me surpreendeu, porque eu imaginaria uma variação maior entre os mais pobres e os mais ricos. Há mais apoio ao Bolsa Família e ao Benefício de Prestação Continuada (BPC, que garante o pagamento de um salário mínimo a idosos sem fonte de renda) que a pensões e Seguro Desemprego - programas menos redistributivos e que beneficiam os mais ricos.

Por que isso acontece?

Trabalho com duas possíveis explicações: a primeira é que a gestão razoavelmente competente de um programa complexo contribui para a boa imagem do governo; e a segunda é que pode ser simplesmente uma aceitação de que esses programas são "justos", no sentido de que favorecem aqueles que mais precisam. Existem outras possibilidades, como a existência de condicionalidades (contrapartidas como a frequência escolar dos filhos, por exemplo). Dos programas que estudamos, o Bolsa Família é o único que impõe condicionalidades e é o que tem mais aceitação. Mas um resultado preliminar mostra que não parece ser esta a causa - e as condicionalidades eram a hipótese mais forte. Um dos argumentos apresentados na década de 90 pelo Banco Mundial era justamente de que as condicionalidades tornariam o programa mais aceitável para quem paga por ele. Mas achamos poucas evidências disso.

As condicionalidades não ajudam a explicar o apoio ao BPC, não é? Afinal, o programa não impõe condições aos beneficiados.

Precisamente. São resultados preliminares, mas o principal fator parece ser o público alvo de cada programa. Quando você diz que esse é um programa que beneficia primordialmente crianças de famílias pobres - e idosos pobres, no caso do BPC -, as pessoas tendem a achar que ele deve ser feito. Dentro desta explicação, há ainda duas possibilidades: as pessoas podem achar que é uma coisa justa, ou o apoio pode ser explicado por estes programas serem relativamente baratos - bem mais baratos que a Previdência, por exemplo.

Por que o senhor afirma que os resultados são preliminares?

Eu e mais cinco professores conduzimos uma pesquisa nacional no ano passado que, por três vezes, entrevistou um grupo de pessoas - em março, agosto e dezembro. Para medir a variação do apoio em função das condicionalidades, fizemos, na última etapa do estudo, uma pergunta sobre o Bolsa Família. Em metade dos questionários, a pergunta não falava em condicionalidades. Na outra metade, a questão enfatizava o fato de que, para receber o Bolsa Família, os pais precisam manter as crianças na escola. Os resultados mostram que não há variação no apoio ao programa nos dois grupos. Por um lado, pode-se argumentar contra o experimento, afirmando que as pessoas já sabem bastante sobre o Bolsa Família e enfatizar as condicionalidades não faz diferença. Por outro lado, o único grupo em que há variação é entre quem recebe mais de cinco salários mínimos - ou seja, as pessoas que tendem a ser mais bem informadas.

Estes resultados enfraquecem as críticas ao Bolsa Família e o enfoque na necessidade de haver "portas de saída"?

As críticas ao Bolsa Família têm mudado com o tempo. Num primeiro momento, criticava-se o suposto assistencialismo. Num segundo momento, passou-se a se criticar fraudes na seleção dos beneficiados. E, por fim, à medida em que o governo resolvia os problemas apontados, tem início a discussão em torno das portas de saída. Acho totalmente legítimo discutirmos o assunto. Agora, ao que me consta por esse estudo, o apoio ao Bolsa Família é muito maior do que se esperava para um programa que tira dos ricos para dar para os mais pobres. Isso indicaria que não cola o discurso da oposição de que o programa seria assistencialista ou de que os beneficiados não são merecedores.

No seu estudo, o senhor afirma que o Bolsa Família pode enfraquecer o clientelismo.

Programas de distribuição de renda foram implementados em vários países da América Latina. Em alguns casos, como na Argentina, eles são apenas clientelismo com um nome diferente. Mas em outros, como no Brasil, no Chile e no México, são realmente novos paradigmas - e quando estão livres da barganha por votos podem, sim, enfraquecer o clientelismo a médio e longo prazo.

O senhor se surpreendeu com a correlação entre o recebimento do Bolsa Família e a tendência de votar no candidato governista nas eleições presidenciais?

O efeito é muito grande. Em 2002 (quando o governo federal distribuía o Bolsa Escola), existiu um efeito pró-Serra. Desde então, existiu um efeito pró-Lula em 2006 e pró-Dilma no ano passado. Nas últimas eleições, já havia uma propensão de apoiar o governo, porque a economia estava indo bem. O fato de você encontrar uma propensão ainda maior entre quem recebe o Bolsa Família é surpreendente - o efeito é grande, porque você está passando do alto para o muito alto. Dizer se a correlação é alta ou baixa é sempre relativo, mas eu fiquei surpreso. Não é sempre que encontramos um resultado tão contundente.

Em artigo recente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o PSDB não deve buscar seu eleitorado no "povão", porque ele já teria sido conquistado pelo PT. O senhor concorda?

No Brasil, e isso vem de muito antes do Bolsa Família, os pobre sempre votaram no governo - simplificando muito, é claro. Nesse sentido, a oposição sempre começa a ganhar terreno a partir da classe média e da classe média alta. Parte do problema é que a oposição tem mais dificuldade de atingir os mais pobres, enquanto o governo tem os programas sociais. Sob esse ponto de vista, o Fernando Henrique Cardoso está certo. Pense na história do PT, no caminho que o próprio PSDB fez e no MDB da década de 70: a oposição começa nas classes médias e vai comendo pelas beiradas até ganhar uma eleição e passar a ser o partido do povão. Por outro lado, não é evidente para mim que o povão seja petista. O povão é governista. O Bolsa Família (Bolsa Escola, na época) ajudou o governo quando o candidato governista era o José Serra, em 2002. Antes de mais nada, a oposição precisa se organizar. O PSDB não tem um núcleo duro ou organização partidária. O PT é o partido com o maior nível de identificação em todas as camadas da sociedade. É organizado para além do lulismo, com estrutura e núcleos de poder Estamos caminhando para um sistema de partido único e isso, em grande parte, é culpa dos outros partidos, que não conseguem se organizar. Assim teremos um partido e vários nanicos. 


Sunday, April 17, 2011

Os Melhores Contos de Jack London


"Doutor Ratão" é o terror dos roedores do metrô há 35 anos

O veterinário Angelo Boggio, 72, é o responsável pelo controle de pragas nos 60 km de trilhos de São Paulo

Quando ele começou, eram milhões de ratos nas linhas do metrô; hoje Boggio e sua equipe matam três por mês

CRISTINA MORENO DE CASTRO (DE SÃO PAULO)

Em 1975, uma pane parou o metrô de São Paulo por horas. Motivo: os milhões de ratos que infestavam os túneis comeram cabos elétricos importantes e o sistema travou.

Naquela época, aos 36 anos, o higienista Angelo Boggio, que trabalhava na então Secretaria Municipal de Higiene e Saúde, foi chamado às pressas para exterminar a praga urbana.

Ali se iniciava a carreira do "Doutor Ratão" (apelido recebido dos colegas) no metrô. 

Desde então, nenhum rato causou qualquer outra pane.

Hoje o metrô de São Paulo é considerado um dos mais limpos do mundo. "Agora matamos três por mês, no máximo. Quando comecei, eram milhões. Dava para ver a fila de ratos, a perder de vista."

Não é exagero. Os roedores faziam fila debaixo do trilho eletrizado com 750 volts de corrente contínua, com o único propósito de se eriçarem, e dessa forma se livrarem dos carrapatos e piolhos que habitavam seus pelos.

O metrô era muito menor.

Tinha cerca de sete quilômetros de extensão. Mas Doutor Ratão era um só. Hoje, conta com uma tropa de 33 homens. 

Formado em veterinária e com cursos de bioquímica, química macromolecular, ecotoxicologia médica, entre outros no currículo, ele diz que foi o primeiro a montar um serviço de controle de roedores e vetores do Brasil e criar o primeiro Centro de Controle de Zoonoses.

Mas Boggio nunca foi atacado por um rato? "Só uma vez, em Belo Horizonte. Um rato de mais de um quilo me mordeu aqui (mostra o calombo no dedão direito) e arrancou um pedaço", conta. 

"Tomei mais um pouco de conhaque, joguei [o conhaque] em cima, coloquei um esparadrapo e fui dormir", continua, às gargalhadas.

Não se sabe se foi graças ao álcool, mas "Doutor Ratão" não pegou nenhuma doença.

Mesmo assim, não usa equipamentos de proteção - máscaras, botas, luvas etc -, para trabalhar. Hoje, aos 72 anos, faz um trabalho de vistoria surpresa, duas ou três vezes por semana.

VENENO SECRETO

A equipe do "Doutor Ratão" usa três tipos de veneno, alternados, para evitar que os ratos se acomodem.
Ele não conta a receita dos remédios. Diz apenas que são anticoagulantes que matam os ratos com a perda de sangue, depois de sete dias, a tempo de outros roedores levarem os sachês para a toca e morrerem também. "Eu não escolho os produtos, quem escolhe são os ratos."

Sachês com venenos são trocados a cada 60 dias, a desinsetização é feita a cada 90 dias e o controle do mosquito da dengue, a cada 20.

Toda noite, as cinco equipes se dividem e fazem o trabalho em trechos: dentro dos trens, nas estações, nos trilhos ou na área externa, num raio de 50 metros da estação.

"Se o metrô parar de fazer isso vai ter invasão de rato e barata até dizer chega. É um trabalho sem fim." (Os três roedores cinzentos que cruzaram com a repórter na praça da Sé devem concordar.)

Colaborou ALENCAR IZIDORO