Sunday, April 15, 2012

Suponho que Laura tenha conseguido alcançar um recorde mundial.

Laura teve oito filhos.

Não há nada de surpreendente nisso.

Os oito filhos tinham sete pais.

Duvido que alguém já tenha visto alguma coisa assim!

Foi Laura quem me deu minha primeira aula de biologia. Morava na casa vizinha à nossa, e eu a observava com atenção.

Via sua barriga crescendo durante meses.

Depois notava sua falta por um breve tempo.

E quando a via de novo, estava sem barriga nenhuma.

E o processo de fermentação recomeçava outra vez, dali a alguns meses.

Para mim aquilo era uma das maravilhas do mundo onde eu vivia, e sempre observava Laura. Ela mesma se mostrava bastante alegre com o que estava acontecendo. Costumava apontar para a barriga e dizer: "Esta coisa está acontecendo de novo, mas a gente acaba se acostumando depois das três ou quatro primeiras vezes. Mesmo assim, é um absurdo esse negócio".

Costumava pôr a culpa em Deus e falava da fraqueza dos homens.

Para seus primeiros filhos, ela experimentou seis homens diferentes.

Hat dizia: "Tem gente que é difícil de agradar".

Mas não quero dar a impressão de que Laura passava o tempo todo tendo filhos, espinafrando os homens e tendo pena de si mesma. Se Bogart era a pessoa mais entediada da rua, Laura era a mais animada. Estava sempre alegre e gostava de mim.

Ela me dava ameixas e mangas quando tinha; e, sempre que fazia biscoitos açucarados, me dava alguns.

Até minha mãe, que não gostava nem um pouco de risos, sobretudo em mim, até minha mãe ria de Laura.

Muitas vezes  me dizia: "Não sei por que a Laura fica paparicando você. Até parece que já não tem filhos demais para criar".

Acho que minha mãe tinha razão. Mas não acho que uma mulher como Laura conseguisse um dia ter filhos em excesso. Ela amava todos os filhos, embora a gente pudesse não acreditar nisso, a julgar pela linguagem que usava quando falava com eles. Alguns gritos e xingamentos de Laura foram as coisas mais saborosas que ouvi na vida e nunca vou esquecer suas palavras.

Uma vez, Hat falou: "Puxa, ela é um verdadeiro Shakespeare quando se trata de usar as palavras".

Laura costumava gritar: "Alwyn, seu bugre de boca grande, venha já aqui".

E: "Gavin, se não vier aqui neste minuto vou fazer você peidar fogo, está ouvindo?".

E: "Lorna, sua piranha preta de perna torta, por que não presta atenção no que está fazendo?".


[...]


Um dos milagres da vida na Miguel Street era que ninguém passava fome. Se a gente sentar diante de uma mesa com lápis e papel e tentar entender como isso acontecia, vai achar impossível. Mas morei na Miguel Street e posso garantir a vocês que ninguém passava fome. Talvez tivessem fome, mas não se ouvia ninguém falar disso.

Os filhos de Laura cresceram.

A filha mais velha, Lorna, começou a trabalhar de empregada doméstica numa casa em St Clair e tinha aula de datilografia com um homem na Sackville Street.

Laura dizia: "Não tem coisa melhor do que educação neste mundo. Não quero que meus filhos fiquem que nem eu".

No devido tempo, Laura deu à luz seu oitavo filho, com bem pouco esforço como de costume.

Aquele foi seu último filho.

Não é que Laura estivesse cansada, ou que tivesse perdido seu amor pela humanidade, ou que tivesse perdido seu amor por fazer a humanidade aumentar. Na realidade, Laura nunca parecia ficar mais velha nem menos alegre. Sempre senti que, se tivesse a possibilidade, ela poderia continuar a ter filhos sem parar.



A filha mais velha, Lorna, chegou em casa vindo da aula de datilografia já tarde da noite e disse: "Mãe, vou ter um filho".

Ouvi o grito que Laura deu.

E pela primeira vez vi Laura chorar. Não era um choro comum. Parecia que estava chorando todo o choro que tinha guardado desde o dia em que nasceu, todo o choro que havia tentado encobrir com seus risos.  Eu tinha ouvido pessoas chorarem em velórios, mas há muito exagero para impressionar os outros no choro delas. O choro de Laura naquela noite era a coisa mais terrível que eu tinha ouvido. Dava a sensação de que o mundo era um lugar estúpido, triste, e quase comecei a chorar junto com ela.

A rua inteira ouviu Laura chorar.

No dia seguinte, Boyee disse: "Não entendo por que a Laura ficou tão zangada por causa disso. Afinal, ela faz a mesma coisa".

Hat ficou tão revoltado que tirou seu cinto de couro e bateu em Boyee.

Eu não sei de quem eu tinha mais pena: de Laura ou de sua filha.

Eu tinha a impressão de que agora Laura estava com vergonha de aparecer na rua. Quando eu a vi, achei até difícil acreditar que era a mesma mulher que antes ria comigo e me dava biscoitos açucarados.

Estava velha agora.

Não gritava mais com os filhos, não batia mais neles. Não sei se estava cuidando melhor dos filhos ou se tinha perdido o interesse  por eles.

Mas nunca ouvimos Laura dizer nenhuma palavra de censura em relação a Lorna.

Aquilo era terrível.

Lorna levou seu fiho para casa. Não houve nenhuma piada sobre o assunto na rua.

A casa de Laura era uma casa morta, silenciosa.

Hat disse: "A vida é mesmo uma coisa de doido. A gente pode até ver que o problema está vindo, mas não consegue fazer nadinha para impedir que aconteça. A gente só pode ficar parado, olhar e esperar".



Pelo que os jornais diziam, foi só mais uma tragédia de fim de semana, uma entre muitas.

Lorna afogou-se no Carenage.

Hat disse: " É o que elas sempre fazem, nadam e nadam para longe, até que ficam muito cansadas e não conseguem mais nadar".

Quando a polícia veio dar a notícia para Laura, ela falou muito pouca coisa.

Laura disse: "Está bem. Está bem. É melhor assim".


V. S. Naipaul - O Instinto Maternal - Miguel Street (1959)

Friday, April 06, 2012


Poema em Linha Reta

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Sunday, April 01, 2012

[...] o autoerotismo ainda não é igual ao narcisismo do eu: um novo ato psíquico deve ocorrer para que a tal unidade primitiva se forme e para que a criança se identifique com ela, ou seja, com seu próprio eu. Além da satisfação libidinal autoerótica, o infans haverá de identificar-se com o objeto privilegiado que ele representa frente ao amor e ao desejo de seus pais. A partir desse ponto, está estabelecida a base para a formação do ego freudiano, fonte de investimento libidinal (a partir de 1915, diremos: pulsional) e dessa forma particular de amor a que chamamos narcisista. Nesse ponto da constituição psíquica, Freud haverá de encontrar, em 1915, a relação narcísica com um objeto frustrante que marca a estrutura da melancolia.

O narcisismo primário forma a base para o narcisismo secundário, vulgarmente conhecido como a dose essencial de estima que o ego dedica a si mesmo. O qual, por sua vez, é tributário das desilusões sofridas pelos pais em relação às suas próprias fantasias narcisistas: os filhos representam uma renovação das velhas esperanças infantis dos adultos, contrariadas pela realidade da vida. Outra parte do narcisismo secundário resulta de suas eventuais experiências exitosas - tanto no sentido dos investimentos em direção aos ideais do ego quanto na busca de satisfação da libido objetal. O maior ou menor êxito na constituição do narcisismo secundário varia, a depender de que os investimentos objetais estejam ou não em sintonia com os ideais do ego - caso contrário, estes ficarão sujeitos ao recalque. A vicissitude bastante comum de se desejar o que não se deve, o que não se pode, o que não contribui para a valorização do ego, contribui decisivamente para a diminuição da autoestima dos neuróticos, quando não conduz a inibições que impedem os caminhos do desenvolvimento do ego, ou a soluções de compromisso sintomáticas.

Maria Rita Kehl - Melancolia e Criação. Luto e Melancolia - Sigmund Freud

Wednesday, March 28, 2012

O homem, o ser falante, se constitui pelo rompimento de sua harmonia com a natureza e, ao ter de abdicar de um destino guiado pela força instintiva, é impelido  a tecer a singular trama pulsional de sua vida. A criança chega ao mundo expulsa de seu acolhimento natural. Ao nascer, ao perder o envoltório protetor da placenta, ela perde - perda materializada pelo corte do cordão umbilical; ao enfrentar o desmame, outra perda. E não é difícil acompanharmos as sucessivas perdas que a inserção  no universo simbólico impõe e, em consequência, verificarmos o lugar do luto e seu trabalho ao longo de nossas vidas.

O que de fato é perdido quando todas essas perdas acontecem? Arriscaríamos dizer que luto e melancolia muitas vezes partilham uma mesma indagação, e que essas perdas que acontecem ao longo da vida poderão ou não ser significadas, simbolizadas, e receber um sentido que as farão caminhar na direção de um luto; em contrapartida, outra vicissitude poderá também ter lugar, e a perda ou as perdas permanecerem no vazio da falta de sentido, questão central da melancolia, materializada na dor da existência. Nessa direção, a procura do sentido da vida, a interrogação sobre a própria identidade ("Quem sou?") e o questionamento da existência ("Como existo?") justificam a relação entre a genialidade e a melancolia, tão presente na Antiguidade.

Por que razão todos os homens que foram homens de exceção, no que concerne à filosofia, à ciência do Estado, à poesia ou às artes, são manifestamente melancólicos, e alguns a ponto de serem tomados por males dos quais a bile negra é a origem, como contam, entre os relatos relativos aos heróis, os que são consagrados a Hércules?

Será o melancólico um enlutado na vida, aquele que não consegue uma resolução para suas perdas?

Freud insiste no que denomina "trabalho de luto". Ele não menciona os rituais através dos quais, ao longo da história, o homem pranteia seus mortos, porém, ao marcar o luto como ato, o luto como trabalho do eu (ego), chama a atenção para as consequências do abandono e do esquecimento desses rituais como processos de simbolização da dor.

Urania Tourinho Peres - Uma Ferida a Sangrar-lhe a Alma (posfácio à Luto e Melancolia - Sigmund Freud, tradução, introdução e notas por Marilene Carone)

Sunday, March 25, 2012

Então, em que consiste o trabalho realizado pelo luto? Creio que não é forçado descrevê-lo da seguinte maneira: a prova de realidade mostrou que o objeto amado já não existe mais e agora exige que toda a libido seja retirada de suas ligações com esse objeto. Contra isso se levanta uma compreensível oposição; em geral se observa que o homem não abandona de bom grado uma posição da libido, nem mesmo quando um substituto já se lhe acena. Essa oposição pode ser tão intensa que ocorre um afastamento da realidade e uma adesão ao objeto por meio de uma psicose alucinatória de desejo*. O normal é que vença o respeito à realidade. Mas sua incumbência não pode ser imediatamente atendida. Ela será cumprida pouco a pouco com grande dispêndio de tempo e energia de investimento, e enquanto isso a existência do objeto de investimento é psiquicamente prolongada. Uma a uma, as lembranças e expectativas pelas quais a libido se ligava ao objeto são focalizadas e superinvestidas e nelas se realiza o desligamento da libido.

* Complemento metapsicológico à doutrina dos sonhos (1917d)

Sigmund Freud - Luto e Melancolia. Tradução de Marilene Carone

Saturday, March 24, 2012

- Por quê? O que você quer fazer? - ela perguntou, embora soubesse a resposta. Dexter colocou a mão no pescoço dela, ao mesmo tempo que Emma tocava de leve no quadril dele, e os dois se beijaram no meio da rua, rodeados de pessoas que corriam para casa sob os últimos raios do sol de verão, e foi o beijo mais doce que já tinham sentido.

É onde tudo começa. Tudo começa aqui, hoje.

E logo depois termina.

- Bom, a gente se vê por aí - disse Dexter, começando a se afastar.

- Espero que sim - ela sorriu.

- Eu também. Tchau, Em.

- Tchau, Dex.

- Até mais.

- Até mais. Até mais.

David Nicholls - Um Dia

Sunday, March 18, 2012


Texto de Freud de 1917 explicita a natureza de nossas identidades

Reedição de tradução pioneira de Marilene Carone para Luto e Melancolia traz belos estudos introdutórios

VLADIMIR SAFATLE

Uma das inovações de Freud encontra-se na sua maneira de repensar as relações entre normalidade e patologia. Freud dizia que um cristal, quando se quebra, respeita os sulcos que existiam antes, mas que eram invisíveis ao olho humano. Assim, se quisermos entender a estrutura do cristal, devemos partir de seu estado quebrado.

Da mesma forma, se quisermos entender a estrutura da normalidade, devemos partir deste no qual a normalidade se quebra. Nada do que é patológico nos é estranho, pois ele diz em voz alta o que sentimos em silêncio.

Poucos são os textos de Freud em que vemos esse pressuposto em operação com tanta radicalidade quanto em Luto e Melancolia.

A nova edição da tradução (a primeira digna desse nome em língua portuguesa) de Marilene Carone (1942-1987), traz dois belos estudos escritos por Maria Rita Kehl e Urania Tourinho, além de uma introdução à tradução.

Um dos méritos do texto está em sua capacidade de inserir a etiologia da melancolia no interior de uma reflexão mais ampla sobre as relações amorosas.

Freud sabe que o amor não é apenas o nome que damos para uma escolha afetiva de objeto. Ele é a base dos processos de formação da identidade subjetiva. Esta é uma maneira de dizer que as verdadeiras relações amorosas colocam em circulação dinâmicas de formação da identidade, já que tais relações fornecem o modelo elementar de laços sociais capazes de socializar o desejo.

Isto talvez explique por que Freud aproxima luto e melancolia a fim de lembrar que se tratam de duas modalidades de perda de objeto amado.

Um objeto de amor foi perdido e nada parece poder substituí-lo. No entanto, o melancólico mostraria algo ausente no luto: o rebaixamento brutal do sentimento de autoestima. Como se, na melancolia, uma parte do Eu se voltasse contra si próprio, através de autorrecriminações e acusações.

A tese fundamental de Freud consiste em dizer que ocorreu, na verdade, uma identificação do Eu com o objeto abandonado de amor.

Tudo se passa como se a sombra desse objeto fosse internalizada, como se a melancolia fosse a continuação desesperada de um amor que não pode lidar com a situação da perda.

Incapacidade vinda do fato de a perda do objeto que amo colocar em questão o próprio fundamento da minha identidade. Mais fácil mostrar que a voz do objeto ainda permanece em mim, isto através da autoacusação patológica contra aquilo que, em mim, parece ter fracassado.

Essa é uma maneira de dizer que a melancolia é o cristal quebrado que nos mostra a natureza radicalmente relacional de nossas identidades. Conhecer tal natureza sempre foi a melhor forma de lidar com seus desafios.

Saturday, March 10, 2012


JOSÉ ROBERTO TORERO

A inveja é uma meta

Ver algo único é fazer parte de um clube seleto, de uma seita misteriosa, é ser também único

Caro leitor, já que só estamos nós dois aqui neste texto, vamos ser francos um com o outro: Fazer inveja nos outros é ótimo, não é? Não, claro, você tem razão, isso não é uma coisa bonita. Mas fazer uma invejazinha de vez em quando, para aquele primo chato ou para o cunhado que gosta de contar vantagem, é uma delícia, não é?

Daí eu pergunto: O que causa inveja? E eu respondo: Coisas que só você pode fazer, ver ou ter.

Desses três verbos, o terceiro causa a inveja mais chocha. Dependendo do objeto adquirido, ele provoca apenas cócegas invejentas. Por exemplo, uma Ferrari está tão longe de minhas posses, e mesmo de meus desejos [minha bagunça do banco traseiro (livros, sacolas, pastas, roupas e, não sei por quê, um chapéu de caubói) jamais caberia numa Ferrari], que nem ligo quando uma máquina vermelha emparelha ao meu lado no congestionamento.

O fazer tem o mesmo problema. Quando alguém me conta que realizou uma caminhada de 180 quilômetros, em vez de pensar "também quero", penso "bem feito".

Mas o ver, não. O desejo de ver é universal. Seja um desastre ou uma linda paisagem, ver algo raro ou belo sempre causa inveja.

E agora, com cinco parágrafos de atraso, finalmente chegamos ao futebol, pois aos fãs do esporte bretão, algo que causa muita inveja é quando o outro viu um lance que se tornou mitológico. Alguns (na verdade, muitos) até mentem para obter essa inveja. Tanto que já perdi a conta das pessoas que me contaram que estavam no Juventus x Santos em que Pelé fez aquele gol em que deu vários chapéus. Nem se a Rua Javari fosse o Morumbi.

Pois bem, caro leitor, e com prazer eu vos digo que, na última quarta-feira, eu estava na Vila Belmiro quando Neymar fez aquele gol. Vi as pernas velozes do garoto gingarem para lá e para cá num ritmo alucinante por 60 metros. E vi seu toque sutil para encobrir o goleiro. Ao vivo e em preto e branco.

Todos os torcedores que estavam perto de mim reagiram do mesmo modo: primeiro gritamos palavrões de satisfação, depois nos cumprimentamos emocionados, como se nos déssemos parabéns por estar ali. Aliás, sempre que encontrar com os sujeitos que estavam ao meu lado naquela partida, trocaremos um pequeno aceno, como se fizéssemos parte de uma sociedade secreta.

Pode ficar com inveja, meu caro. Ainda mais se você é santista.

O quê? Você também estava lá? Pronto, começaram as mentiras...




Sunday, March 04, 2012


CIÊNCIA

A mitologia das idéias

O "brainstorming" vs. o poder dos introvertidos


RESUMO Recentes descobertas na psicologia e na neurociência colocam por terra fórmulas pré-fabricadas sobre como surgem as boas ideias. Livros publicados nos EUA explicam por que o "brainstorming" não funciona e as pessoas trabalham melhor sozinhas, embora a razão humana evolua para o saber coletivo.

HÉLIO SCHWARTSMAN


ilustração DEBORAH PAIVA

COMO TEMOS BOAS IDEIAS? A questão não é trivial e já mobilizou de pensadores do porte de Platão, Descartes e David Hume a empresários preocupados em aumentar a produtividade de seus funcionários. Como não poderia deixar de ser, métodos ditos infalíveis para obtê-las enchem as estantes das seções de livros de autoajuda.

A maioria dessas receitas está errada. E a razão é muito simples: o mundo é um lugar complexo demais para ser subsumido por meia dúzia de fórmulas pré-fabricadas. Para tornar as coisas um pouco mais complicadas, muitas vezes topamos com uma boa ideia sem conseguir identificá-la como tal.

Recentes descobertas na psicologia e na neurociência, ainda que não permitam produzir um guia da criatividade passo a passo, pelo menos servem para descartar determinados mitos que insistem em se perpetuar.

"BRAINSTORMING"

O mais célebre deles é o do "brainstorming". Como conta o escritor Jonah Lehrer em recente artigo para a revista The New Yorker, o conceito surgiu no livro Your Creative Power (Myers Press). Nesta obra de 1948, ainda em catálogo, o publicitário norte-americano Alex Osborn, sócio da mítica agência BBDO, prometia dobrar o poder criativo do leitor.

O livro, que foi um inesperado best-seller, trazia conselhos como "carregue sempre um caderninho, para não ser surpreendido pela inspiração". O ponto alto, contudo, estava no capítulo 33, intitulado "Como organizar um esquadrão para gerar ideias". Osborn dizia que o segredo do sucesso de sua agência eram as sessões de "brainstorming", nas quais uma dezena de publicitários se reunia por 90 minutos e saía com 87 novas ideias para uma "drugstore".

A principal regra de um "brainstorming" era "não critique o companheiro". Para Osborn, "a criatividade é uma flor tão delicada", que precisa ser alimentada com o louvor e pode ser destruída por uma simples palavra de desencorajamento.

A coisa pegou como uma praga. Osborn escreveu vários outros best-sellers e virou guru da literatura de negócios. Os pedagogos também adoraram e até hoje nossos filhos perdem precioso tempo na escola se dedicando a atividades de grupo onde o mantra é jamais criticar o coleguinha, mesmo que ele diga uma tremenda besteira.

O principal problema com o "brainstorming" é que ele não funciona. Como mostra Lehrer, o conceito fracassou já em seu primeiro teste empírico, em 1958. Pesquisadores da Universidade Yale puseram dois grupos de 48 estudantes para propor soluções criativas para uma série de problemas. No primeiro, os voluntários atuariam segundo as instruções de Osborn; no segundo, cada aluno trabalharia sozinho. Estudantes que operaram individualmente apresentaram, em média, duas vezes mais propostas que os do "brainstorming". Mais ainda, um comitê de juízes considerou essas contribuições melhores e mais factíveis que as do primeiro grupo.

ARQUITETURA

Outra noção popular e errada é a de que laboratórios e escritórios devem ter uma arquitetura que praticamente obrigue as pessoas a interagirem, favorecendo "insights" criativos. Essa moda derrubou muitas paredes, e grandes empresas se tornaram um imenso átrio, onde todos se encontravam o tempo inteiro. Estima-se que cerca de 70% dos escritórios dos EUA sigam esse padrão. Um dos maiores entusiastas do conceito de arquitetura de plano aberto era Steve Jobs, da Apple.

Como mostra Susan Cain, no recente  Quiet: The Power of Introverts in a World that Can't Stop Talking [Crown, 352 págs., R$ 26] , a relação entre interações sociais e boas ideias é mais sutil. Num estudo chamado Coding War Games, Tom Demarco e Timothy Lister avaliaram a performance de 600 programadores de informática de mais de 90 companhias.

A diferença entre os profissionais era impressionante: o desempenho do melhor superou o do pior em dez vezes. E, para tornar as coisas mais misteriosas, as causas suspeitas de sempre - como experiência, salário, tempo dedicado à tarefa - não explicavam o fenômeno.

Demarco e Lister, entretanto, perceberam que os melhores programadores tendiam a agrupar-se nas mesmas firmas. Investigando essa pista, descobriram que o segredo era a privacidade: 62% dos que se saíram bem disseram que seu lugar de trabalho oferecia um ambiente reservado onde podiam se concentrar, contra apenas 19% dos que tiveram pior performance.

INTROVERTIDOS

O objetivo de Cain, nesse interessante livro que pretende ser uma espécie de manifesto de libertação dos introvertidos, é demonstrar que as pessoas precisam respeitar seu temperamento. Especialmente para os tímidos, em geral super-representados nas carreiras científicas, o excesso de interações sociais é amedrontador. Eles se saem melhor em ambientes mais tranquilos, onde sua atenção não seja requisitada para desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo.

O problema, sustenta a autora, que largou a advocacia para dedicar-se ao estudo da introversão e à orientação para tímidos, é que o mundo - o Ocidente em especial - abraçou uma cultura da personalidade, cujos valores são ditados por um ideal de extroversão. Quem não consegue ou não gosta de falar em público e motivar as pessoas já sai perdendo pontos na carreira e na própria vida.

Voltando à criatividade, antes de eliminar todas as reuniões de sua empresa, construir paredes por todos os lados e proibir os funcionários de trocar bom-dia, é preciso saber que o problema é mais complexo e nuançado.

Embora as pessoas de um modo geral trabalhem melhor sozinhas (especialmente os introvertidos), a criação continua sendo um processo coletivo. Na verdade, cada vez mais coletivo.

Ben Jones, da Northwestern University, passou os últimos 50 anos analisando quase 20 milhões de publicações acadêmicas e 2,1 milhões de patentes. Em mais de 95% dos campos e subcampos científicos, o trabalho de equipe vem crescendo. O mesmo ocorre com o tamanho das redes de colaboradores, que aumenta em média em 20% a cada década.

Se até um ou dois séculos atrás a ciência podia gravitar em torno de gênios individuais como Einstein e Darwin, à medida que ela se torna mais complexa e especializada, avanços significativos dependem cada vez mais da interdisciplinaridade que, por seu turno, depende de redes cada vez maiores.

A ideia de saber coletivo ganhou inesperado apoio no ano passado, com a publicação de um impactante artigo dos pesquisadores franceses Hugo Mercier e Dan Sperber, que virou do avesso alguns dos pressupostos da filosofia e da psicologia. Eles sustentam que a razão humana evoluiu -não para aumentar nosso conhecimento e nos aproximar da verdade, mas para nos fazer triunfar em debates.

A teoria, dizem os autores, não só faz sentido evolutivo como resolve uma série de problemas que há muito desafiavam a psicologia: os chamados vieses cognitivos.

EXPERIMENTO

Antes de prosseguir, peço licença para descrever uma experiência curiosa. O psicólogo Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire, resolveu espalhar 240 carteiras pelas ruas de Edimburgo. Elas não continham dinheiro, apenas documentos de identidade, cartões de fidelidade, bilhetes de rifa e fotografias pessoais.

A única variação eram as fotos. Algumas das carteiras não tinham foto nenhuma e outras traziam imagens que podiam ser de um casal de velhinhos, de uma família reunida, de um cachorrinho ou de um bebê.

A meta do experimento era descobrir se a fotografia afetaria a taxa de devolução das carteiras. Num mundo perfeitamente racional, a imagem seria irrelevante. Devolve-se o objeto perdido porque é a coisa certa a fazer. O trabalho de colocá-lo numa caixa de correio não é tão grande assim, e é o que gostaríamos que os outros fizessem, caso nós é que tivéssemos perdido os documentos.

É claro, porém, que as fotografias influíram nos resultados. Foram devolvidas apenas 15% das carteiras sem foto, pouco mais de 25% das que traziam a imagem dos velhinhos, 48% das da família, 53% das do filhotinho e 88% das do bebê.

O experimento ilustra como o cérebro opera. Embora tenhamos nos acostumado a pensar que tomamos decisões pesando prós e contras de cada uma das alternativas possíveis e extraindo com base nisso uma conclusão, o que os estudos psicológicos e neurocientíficos mostram é que, na maioria das ocasiões, a parte inconsciente de nossa mente chega de imediato a uma conclusão, por meio de sentimentos, palpites ou intuições. Neste instante, são os vieses cognitivos que estão operando.

Em seguida, a porção racional de nosso cérebro se põe a procurar e elaborar argumentos racionais (ou quase) para justificar essa conclusão. É muito mais uma conta de chegada do que um cálculo honesto.

SIGNIFICADO

O neurocientista norte-americano Michael Gazzaniga trabalha bem essa questão. Ele identifica no hemisfério esquerdo estruturas que buscam dar sentido ao mundo. O pesquisador as chama de "intérprete do hemisfério esquerdo". É ele que busca desesperadamente um significado unificado a todas as nossas experiências, memórias e fragmentos de informação.

Ele nos faz deixar de ver as evidências que não nos interessam e atribui enorme peso a tudo o que apoia a nossa tese. Quando a história não fecha, pior para a verossimilhança: o intérprete não hesita em criar desculpas esfarrapadas e explicações que beiram o delírio.

Quem resume bem a situação é Robert Wright, em Animal Moral (Campus BB, 2005, esgotado): "O cérebro é como um bom advogado: dado um conjunto de interesses a defender, ele se põe a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Como um advogado, o cérebro humano quer vitória, não verdade; e, como um advogado, ele é muitas vezes mais admirável por sua habilidade do que por sua virtude".

Voltando ao trabalho de Mercier e Sperber, ele é bom porque consolida numa argumentação sólida explicações evolutivas para vários dos vieses, em especial o "viés de confirmação", pelo qual fechamos os olhos para as evidências que não corroboram nossas crenças e expectativas e sobrevalorizamos aquelas que apoiam nossas teses.

Sob o modelo clássico, o viés de confirmação é uma falha de raciocínio mais ou menos inexplicável. Mas, se a razão evoluiu para nos fazer vencer em debates, então faz sentido que eu busque apenas provas em favor da minha teoria, e não contra ela.

As implicações são fortes. A mais óbvia é que a razão só funciona bem como fenômeno social. Se pensarmos sozinhos, vamos muito provavelmente chafurdar cada vez mais em nossas próprias intuições e preconceitos. Mas, se a utilizarmos no contexto de discussões mais ou menos estruturadas, aumentam bastante as chances de, como grupo, nos darmos bem.

Temos então um aparente paradoxo: as pessoas trabalham melhor sozinhas, mas a construção do conhecimento é um processo coletivo. O ruído se dissolve se reinterpretarmos o "sozinhas" como "com privacidade, mas em constante diálogo (de preferência virtual) com outros especialistas".

PATOLOGIAS

É preciso, porém, muito cuidado. A linha que separa a sabedoria das multidões dos delírios coletivos é tudo menos nítida. Como mostra toda uma linha de pesquisas iniciada por Irving Janis, da Universidade Yale, nos anos 70, grupos incubam uma série de patologias do pensamento.

A primeira delas é a polarização. Junte um punhado de gente com opiniões semelhantes, deixe-os conversando por um tempo e o grupo sairá com convicções mais parecidas e mais radicais. Provavelmente é assim que nascem facções como o Tea Party, que reúne ultraconservadores radicais nos EUA, e até mesmo organizações terroristas. O advento da internet e das redes sociais pode estar facilitando a formação desses bandos.

A animosidade é outro elemento importante. Ponha um corintiano e um palmeirense para discutir futebol numa sala. Eles discordarão, mas provavelmente se tratarão com civilidade. Entretanto, se você colocar cem de cada lado, quase certamente produzirá xingamentos e até pontapés, quando não tragédias.

Há, por fim, a conformidade. Grupos tendem a suprimir o dissenso. Mais do que isso, procuram censurar dúvidas que um dos membros possa nutrir e ignorar evidências que contrariem o consenso que se forma. É esse o segredo do sucesso das religiões.

Nesse contexto, são especialmente divertidos os experimentos do psicólogo Solomon Asch. Ele submeteu 123 voluntários a um teste tão ridiculamente fácil que ninguém poderia errar: exibia para eles um cartão que trazia estampada uma linha com determinado comprimento. Em seguida, num segundo cartão, apareciam três linhas marcadas com letras de A a C, umas com medidas bem diferentes das outras. A missão era identificar a letra cuja linha era igual à do primeiro cartão. Em 35 tentativas, apenas um infeliz deu a resposta errada.

Mas (sempre há um "mas" em ciência), quando o pesquisador pôs comparsas seus para dar propositalmente respostas erradas antes do voluntário, a taxa de acertos despencava de 97% para 25%. Resultados parecidos foram reproduzidos em no mundo inteiro.

As incursões de Asch pelos perigos da conformidade inspiraram outros experimentos famosos, como os de Stanley Milgram (no qual, pressionadas por um pesquisador, as cobaias não hesitam em dar choques que acreditam ser quase fatais num ator) e de Phil Zimbardo (ele simulou uma prisão num porão da Universidade Stanford, e os voluntários que faziam o papel de guardas se tornaram tão violentos que a encenação teve de ser interrompida).

DÚVIDA

O melhor remédio contra essas doenças do grupo é semear a dúvida, em especial se o questionamento surgir de um membro respeitado do próprio grupo. Como mostram Ori e Rom Brafman em  Sway: The Irresistible Pull of Irrational Behavior [Broadway Books, 224 págs., R$ 19] , a existência de pessoas "do contra" ("dissenters", em inglês) são nossa melhor esperança.

Embora possa produzir fricções de alto custo emocional para todas as partes envolvidas, a figura do "dissenter" costuma levar a maioria a reformular seus argumentos (ou projetos), de modo a responder a objeções percebidas como relevantes. Essa dinâmica fica particularmente clara em situações como a de tribunais colegiados, comissões legislativas e na própria ciência. É praticamente o inverso de um "brainstorming", onde a regra era não criticar.

O "do contra" aqui, ainda que possa provocar brigas homéricas, é um elemento fundamental para melhorar a qualidade do trabalho. O diálogo, vale frisar, nem precisa ser ao vivo. É preciso criar mecanismos que questionem os consensos.

Embora não exista receita para ter boas ideias, é possível melhorar seu desempenho se conseguir trabalhar num ambiente que lhe proporcione privacidade e o poupe de interrupções. Normalmente, é melhor estar sozinho, mas sem jamais se alijar dos debates travados em seu campo de atuação.

Quando precisar juntar colaboradores, mais vale reunir grupos heterogêneos, com um número razoável de pessoas "do contra". Eles reduzem os riscos das patologias da conformidade. Em vez dos elogios, prefira as críticas. Apesar de desgastantes, são elas que vão ajudá-lo a melhorar suas ideias. E, mais importante, não acredite em fórmulas prontas.

Saturday, March 03, 2012


ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR

Livros sobre o nada

Pouco acompanho a produção contemporânea de ficção, mas recaídas acontecem, e uma delas é o tema de hoje: o romance There But for The, da escocesa Ali Smith (ainda inédito no Brasil), um dos mais citados nas listas estrangeiras de melhores de 2011.

A história é assim: um pessoal se reúne para jantar e, por razões desconhecidas, um dos convidados se levanta, tranca-se em um quarto e dali não sai.

A partir daí, não acontece absolutamente nada. Mas descobrir que não está acontecendo nada não é missão fácil. É preciso decifrar a prosa de Ali Smith e desbastar a estrutura narrativa. A autora é do tipo que, se pode complicar, complica.

O que, em si, não é mau, como sabemos nós, leitores masoquistas. Se é para sofrer, a gente topa. Mas tem de haver uma troca, um pote de ouro no final desse caminho tortuoso. Ou pote nenhum - mas aí é preciso que o percurso, ainda que difícil, apresente beleza e originalidade.

Infelizmente, não é o caso de There But for The. Ele não tem uma história boa para contar. Tampouco a estrutura é super inovadora. Em princípio, nem valeria ocupar este espaço. Só está aqui porque, talvez, seja um símbolo importante do estado atual da literatura.

Que virou, a meu ver, essa coisa psicologizante, de fluxo de consciência, jogos de palavras, falação interminável, em geral na primeira pessoa. Narrativas que só se ocupam de si próprias. É só uma tese, admito, e não das mais elaboradas. Mas There But for The se encaixa perfeitamente nela. Uma literatura que trata do vácuo. E que, detalhe importante, tem como único referencial o próprio mundo dos livros.

Dei uma olhada na biografia de Ali Smith. Bingo. Formada em letras na Escócia, depois pós-graduação em Cambridge, depois participações em sabe-se lá quantos grupos de estudo... Vida fora dos livros? Não encontrei.

No romance, a literata Smith tem um "protagonista": o solteirão de meia-idade Miles Garth, aparentemente assexuado e, claro, literato também. É ele que se tranca no quarto. O jantar acontece em Greenwich, subúrbio ao sul de Londres, sede do observatório famoso.

O evento é promovido por um casal yuppie que, para parecer moderno, reúne em casa, às vezes, pessoas de perfis "exóticos".

À mesa, estão Miles, seu conhecido Mark, um casal meio bronco, um casal erudito e a filha deste, Brooke, superdotada de nove anos, que os pais tratam como adulta e levaram ao jantar sem avisar os anfitriões. É um ambiente tenso.

Com perdão da heresia, lembra um pouco a refeição oferecida logo depois do velório de Marmieládov, em Crime e Castigo. São semelhantes a atmosfera pesada, o desconforto, as ironias, as acusações.

Mas, enquanto a profundidade psicológica dos personagens de Dostoiévski é objeto de estudo há quase 150 anos, na cena criada por Ali Smith é tudo esquemático e politicamente correto.

Os donos da casa são cabeças de vento fúteis, classe média em busca de status. O casal negro é sensato e erudito. No outro casal, xucro, o marido é homófobo desbocado, mas mantém, secretamente, um caso gay com outro convidado, Mark, que é judeu, filho de uma famosa artista suicida. Isso não é uma lista de personagens. É um inferno de boas intenções.

Que fique claro: There But for The não é banal ou mal escrito. Smith mostra imaginação e erudição. Brinca à vontade com as palavras, faz referências a dezenas de livros, parodia autores etc. etc.

E a estrutura é criativa. Conta a história de Miles Garth sob a perspectiva de quatro pessoas que mal sabiam quem ele era: uma conhecida de adolescência; Mark (que o levou ao jantar); a mãe velhinha de uma ex-namorada; e a menina Brooke. Mas não passa disso.

Ouvi recentemente de um amigo, infinitamente mais bem informado que eu sobre literatura atual, que ele nunca tinha ligado para histórias policiais, mas vinha se interessando cada vez mais pelo gênero.

Compreende-se: bons enredos estão em falta. E os romances policiais são uma ótima fonte. Como o Agente Secreto (1907), de Joseph Conrad, também passado em Greenwich, e ao qual existem várias referências em There But for The. O livro de Ali Smith teve ao menos esse mérito. Fui buscar O Agente Secreto na estante. Uma história, afinal.

Monday, February 20, 2012

Chico trabalhou durante três meses com o diretor Silnei Siqueira e o cenógrafo José Armando Ferara na concepção, elaboração e ensaios para a montagem de Morte e vida Severina. [...]

Chico só começou a compor as músicas quando o poema já era tão seu quanto de João Cabral. [...] auxiliados pelo maestro Zuinglio Faustini, os arranjos corais eram ensaiados com a supervisão de Chico que modificava as músicas em função do efeito que era buscado pelo conjunto da montagem. Foi um trabalho duro e, ao mesmo tempo, emocionante. Era tudo novo, ousado, e a juventude de seus criadores colaborava para que assumissem os maiores riscos à procura de maior beleza e comunicação. Na véspera da estreia, exaustos e temerosos, pensavam: "o que lhes parecia beleza era comunicável? Haviam mesmo servido à obra do grande poeta?"

[...] Momentos antes da estreia, Chico contou ao diretor Siqueira o sonho que tivera naquela noite:

- No meio do espetáculo o público vaiava a gente. E jogava tomates em você.

- Por que só em mim?

- O sonho era meu, né?

Regina Zappa - 1962 - 1966 / Para seguir minha jornada: Chico Buarque

Sunday, February 19, 2012

Salta um Hollanda, no capricho!

Chico tinha um sonho: o de entrar num bar e pedir um Hollanda e o garçom gritar "Salta um Hollanda, no capricho".

Cera vez, quando viajava de carro para Belo Horizonte, começou a passar nos bares e pedir um Hollanda. Como ninguém conhecia, explicava que o sanduíche era feito de pão de forma, queijo derretido e rodelas de tomate. Na volta da viagem, passou de novo nos mesmos bares e qual não foi sua alegria quando em vários deles, ao pedir um Hollanda, o garçom trazia o inventado sanduíche sem titubear.

Regina Zappa - 1944 - 1962 / Para seguir minha jornada: Chico Buarque

Saturday, February 18, 2012


Hora de ir embora
Quando o corpo quer ficar
Toda alma de artista quer partir
Arte de deixar algum lugar
Quando não se tem pra onde ir

Sunday, February 12, 2012

[...] a arte de Amilcar de Castro, se rejeita a formalização demasiado unívoca de muitos construtivistas tardios, abre-se para o exterior - ou melhor, trabalha para concretizá-lo. A monumentalidade posta de pé por esse movimento deve portanto afastar qualquer dimensão simbólica - a versão pré-moderna da imponência - com o que ela tem de intimidação e apequenamento do observador.

[...] Essas peças porém, com sua vontade de possibilitar a comunicação entre os seres, não são propriamente extrovertidas. Não saem por aí acenando aos primeiros que passam. As esculturas de corte e deslocamento, sem dobras - que começam a ser feitas em 1972 - , deixam isso claro. Um jogo de leveza e contração as organiza e nenhum desses dois movimentos obtém primazia. A grande espessura das chapas - que nesses trabalhos chega a quatro polegadas, enquanto nos de corte e dobra tem no máximo duas polegadas - e suas dimensões reduzidas conferem um aspecto atarracado às obras. De fato, elas não demonstram a mesma desenvoltura das esculturas de corte e dobra. Cismadas e circunspectas, elas teimam em ser mais lugar do que espaço.


Rodrigo Naves - Amilcar de Castro: matéria de risco - A Forma Difícil: ensaios sobre arte brasileira.

Sunday, February 05, 2012


Boaventura de Sousa Santos:
“É possível que amanhã tenhamos que voltar às lutas ilegais”

http://somosandando.wordpress.com/

A mesa não tinha mulheres. Eram oito pessoas, nenhuma era mulher. Os sete primeiros homens falaram e parece que não perceberam a distorção de uma das atividades que mais juntou gente no Fórum Social Temático, lotando o Teatro Dante Barone, na Assembleia Legislativa, sexta-feira 27 à tarde. O oitavo dos homens a discutir “o sentido da democracia” parecia o mais sensível e mais preocupado. Boaventura de Sousa Santos só começou sua palestra depois de reclamar da falta de presença feminina na mesa enquanto tantas mulheres se faziam presentes na plateia. Mas não foi só por isso que, ao final, foi aplaudido de pé.

“A luta democrática tem que ser anticapitalista.” Começou assim a aula do sociólogo português. A democracia era o tema do encontro daqueles oito homens, e Boaventura não deixou de mencionar a sua ausência ou a ameaça de que deixe de existir. Passamos por um momento em que, segundo ele, um dos maiores países capitalistas, a China, dispensa a democracia e outro grande bloco tem a democracia suspensa. A União Europeia, “o berço da democracia e que tentou ensinar ao mundo durante cinco séculos os valores da civilização”, tem agora suas instituições democráticas suspensas e vive uma crise que é econômica e política.

“A presidenta disse que o Brasil já teve neoliberalismo, mas que agora os brasileiros não vão deixar o neoliberalismo entrar novamente. Que deus a ouça.” Boaventura foi tão enfático porque “o neoliberalismo conseguiu esvaziar a democracia de sua vertente redistributiva, e por isso temos hoje democracias de baixa e de baixíssima intensidade”. O roubo e a acumulação originária primitiva chegaram aos salários dos operários europeus, disse Boaventura, encerrando o debate dos motivos da crise e iniciando o das suas alternativas.

A esquerda esqueceu-se de pensar

“As instituições democráticas já não satisfazem as necessidades dos cidadãos.” Alertando sobre as alternativas que se nos apresentam (que podem ser piores do que o que já temos) à crise das instituições, acrescentou que “a democracia representativa virou-se de costas para as populações”. Não surpreende, portanto, que o anarquismo seja a única tradição sobrevivente nos movimentos europeus. Para ele, esquerda e direita “golpeiam da mesma forma” os povos camponeses, indígenas e quilombolas nesse continente.

Impossível avaliar alternativas ao capitalismo que coloca a democracia em crise sem passar pelos movimentos de jovens que estão tomando os espaços, especialmente na Europa. “Autodeterminação dos povos é o que pode nos defender da loucura da globalização neoliberal. A sociedade civil nos responde nos únicos espaços não tomados pelo capitalismo financeiro: as ruas, as praças. A presença dos movimentos nas ruas mostra que a democracia está nas ruas em estados antidemocráticos.” Não faltou crítica à esquerda, no mundo todo, que não pensa, não debate, não progride: “a grande maldição da esquerda no século XX foi transformar militantes em funcionários. Temos que começar pela refundação dos partidos e pela democracia nos movimentos. As cartas dos movimentos da Puerta del Sol mostram essa preocupação pela horizontalidade, pela democracia. A esquerda tem que pensar e a esquerda esqueceu-se de pensar”.

O fascismo ameaça a democracia

E a democracia, para Boaventura, passa pelo respeito à diferente história dos povos do Brasil, não apenas pela redução da pobreza. E, nesse caminho, chama a repensar muitos dos nossos instrumentos de politica. “É possível que amanhã tenhamos que voltar às lutas ilegais”, afinal, é possível que o fascismo, que já toma conta, substitua a democracia no próximo período. As lutas podem ter que ocorrer “por dentro e por fora do Estado, constitucionais e não constitucionais”. Falando exclusivamente de Brasil, em uma crítica direta à presidenta Dilma, disse que “os movimentos sociais talvez hoje se sintam menos acolhidos pela Presidência da República de gente que lutou como eles”.

Boaventura defendeu a autodeterminação como um outro modelo de desenvolvimento, que é parte da luta democrática. “Temos que nos habituar a pensar que os nossos objetos de consumo – tecnologia, roupas – têm sangue. Trabalho escravo é sangue. Há um ciclo de produção que nega a vida, que destrói a vida. E nos obriga a pensar numa outra pauta de direitos humanos, o direito da natureza, que pode nos dar uma nova forma de vida, de prosperidade, que pode não passar pelo crescimento econômico.”

Sobrou também crítica ao governo do Rio Grande do Sul, do amigo Tarso Genro, “um dos homens que melhor pensa a politica no continente latino-americano”. O sociólogo amaciou o ego do governador pouco antes de afirmar que ele precisava fazer no estado a reforma política que não conseguiu aprovar enquanto ministro da Justiça. Tarso falara logo antes de Boaventura e mencionara a dificuldade que passou, também criticando o governo petista do qual fez parte. Bem informado, o português falou na falta de comunicação entre as secretarias estaduais, que muitas vezes não se comunicam nem internamente.

O horário das utopias realistas

A luta dos povos indígenas, quilombolas e campesinos é sempre tema de Boaventura, e dessa vez não foi diferente. “Não podemos tolerar que os indígenas morram todos os dias à beira da estrada porque foram expulsos de suas terras. A reforma do Estado, a refundação da democracia, dos partidos, dos movimentos, é a nossa única garantia da sustentabilidade da democracia. A direita está mostrando que dispensa a democracia. Quem não pode dispensar a democracia é a esquerda. Portanto não podemos falar de sentidos da democracia (Tarso falara no sentido das democracias grega, estadunidense, latino-americana e brasileira). Temos é que democratizar a democracia. Os povos têm que ter suas formas de democracia respeitadas. Indígenas urbanos tinham dificuldade de se adaptar ao Orçamento Participativo porque tinham sua forma de decisão coletiva”. Uma anedota serviu para justificar o argumento do sociólogo. Contou que, quando foi promulgada a constituição da Bolívia, nas primeiras eleições uma comunidade votou 99% a favor de um candidato. A oposição então fez uma queixa de que teria sido fraudada. Foram averiguar e descobriram que se tratava de uma comunidade indígena que passou quatro dias consensuando em quem votar. “O que parecia uma fraude eleitoral era uma forma de democracia de alta intensidade que estaríamos perdendo se não calculássemos essas formas de democracia alternativa.”

Boaventura encerrou com a chamada ao debate. Para que a esquerda pense e proponha alternativas. “Temos q pensar uma nova forma, que não é o capitalismo verde. Podem dizer que é uma utopia, mas todas as utopias têm um horário. E esse é o horário das utopias realistas.”


Onde está o levante da esquerda?

Hans Hoyng e Gregor Peter Schmitz

O cientista político Francis Fukuyama já foi o queridinho dos neoconservadores americanos. Em entrevista ao Spiegel, o autor de O Fim da História explica por que ele hoje acredita que os excessos do capitalismo são uma ameaça à democracia e questiona por qual motivo não existe um "Tea Party" de esquerda.

Pergunta: Professor Fukuyama, o senhor é mais conhecido por seu ensaio O Fim da História, no qual o senhor declara que, após o fim da União Soviética, a democracia liberal emergiu como modelo triunfante mundial. Hoje, sua mais recente pesquisa alega que as falhas do capitalismo e da globalização podem ameaçar este modelo democrático. Como o senhor explica essa mudança?

Fukuyama: Capitalismo não é a palavra certa para ser usada aqui, porque não há uma alternativa viável ao capitalismo. O que estamos realmente falando é sobre o crescimento econômico e o desenvolvimento das sociedades econômicas modernas. Uma combinação de fatores está começando a desafiar seu progresso nos Estados Unidos. Tivemos muitas mudanças tecnológicas que substituíram o trabalho de baixa capacitação e tiraram os empregos das pessoas nas democracias ocidentais.

Pergunta: Por isso que países como os EUA e o Reino Unido queriam se tornar economias voltadas para os serviços.

Fukuyama: Sem pensar, adotamos uma versão da globalização que assumia que tínhamos que mudar muito rapidamente para este mundo pós-industrial, pós-manufatura. Ao fazê-lo, esquecemos que a razão pela qual o socialismo verdadeiro nunca decolou nos EUA foi o fato que a economia moderna parecia produzir sociedades de classe média, nas quais a maior parte da população podia ter um status de classe média. Elas trabalhavam nas indústrias que abolimos em nossos países e transferimos para países como a China.

Pergunta: E os membros da classe média que mantiveram seus empregos, viram sua renda estagnar ou até cair, enquanto os vitoriosos da globalização colhiam recompensas sem igual. O nível de desigualdade de renda nas nações avançadas hoje é maior do que nunca. Qual efeito isso tem em nossas sociedades?

Fukuyama: Isso não é bom para a democracia. Se a renda for distribuída de forma relativamente similar e não houver fortes diferenças entre ricos e pobres, temos maior sensação de comunidade. A sensação de confiança aumenta. E não temos partes da comunidade com maior acesso ao sistema político, que usam para fazer valer seus próprios interesses...

Pergunta: Tudo isso mina o processo democrático.

Fukuyama: O que você verá em uma democracia com classe média debilitada é muito mais populismo, mais conflito interno e uma incapacidade de resolver questões de distribuição de forma ordenada. Nos EUA neste momento, você tem essa volta do populismo. Deveria ser de esquerda, mas de fato a maior parte está na direita. Se você conversa com membros do Tea Party sobre como se sentem em relação ao governo, são muito apaixonados. Eles odeiam o governo. Eles acham que foram traídos pelas elites.

Pergunta: Os americanos, contudo, estão começando a discutir o problema da desigualdade social de forma mais aberta.

Fukuyama: Estão começando a perceber isso. O foco recente do público na desigualdade e o movimento de Ocupem Wall Street são arautos da mudança nessa direção. O problema é que, nos EUA, é extremamente difícil mobilizar pessoas em torno de questões puramente de classe. O presidente Barack Obama foi ostracizado como “socialista europeu” quando levantou a ideia de maiores impostos sobre os ricos. Esses debates de classe são historicamente impopulares – exceto por um período de tempo muito breve nos anos 30, durante a Grande Depressão.

Pergunta: A crise financeira mais recente foi muitas vezes comparada à Grande Depressão: Por que não vimos outra vez a esquerda se erguendo contra os ricos?

Fukuyama: Tampouco sei. Onde está o movimento de esquerda? Esta é uma crise que começou em Wall Street. Realmente teve raízes no modelo americano particular de liberalização financeira. Prejudicou a pessoa comum tremendamente e beneficiou as partes mais ricas do país – o setor financeiro - que se saiu muito bem da crise, graças ao resgate do governo. Era de se pensar que isso pavimentaria o caminho para uma ascensão do populismo de esquerda como visto nos anos 30. Um Tea Party da esquerda, por assim dizer.

Pergunta: O movimento Ocupem Wall Street poderia preencher esse vazio da esquerda?

Fukuyama: Eu realmente não levo esse movimento a sério, porque sua base social é extremamente estreita, consiste mormente dos mesmos garotos que estavam protestando em 1999 em Seattle contra a Organização Mundial de Comércio – anticapitalistas. Sociologicamente, o grande problema para a esquerda nos EUA é que a classe trabalhadora e a classe média baixa, que na Europa certamente teriam um comportamento político social democrata, tendem a votar nos republicanos ou são facilmente atraídas pelo lado Republicano. Enquanto as pessoas de Ocupem Wall Street não conseguirem se conectar com esse grupo demográfico, não haverá uma grande base populista de apoio à esquerda nos EUA.

Pergunta: A crise simplesmente não foi suficiente grave para chegar a isso?

Fukuyama: Ironicamente, a crise não se tornou uma depressão profunda, com o desemprego em 20%, como nos anos 30, porque o Federal Resserve e o Tesouro agiram em apoio ao setor financeiro. Na época, o presidente Franklin D. Roosevelt pôde reestruturar os grandes bancos. Acredito que a única solução para nossos problemas atuais é reestruturar todos esses grandes bancos. Goldman Sachs e Citigroup e Bank of America devem se tornar entidades menores que podem falir. Eles não seriam mais “grandes demais para falir”, mas isso não aconteceu até agora.

Pergunta: Também poder-se ia dizer que o presidente Obama simplesmente não foi tão duro quanto Roosevelt.

Fukuyama: Obama teve uma grande oportunidade bem no meio da crise. Foi nessa hora que a Newsweek fez uma edição com a manchete: “Somos todos socialistas agora”. A equipe de Obama poderia ter nacionalizado os bancos e depois os vendido aos pedaços. Mas a visão da Casa Branca do que era possível e desejável ainda era muito formatada pelas necessidades desses grandes bancos.

Pergunta: Em outras palavras, Obama e seus assessores influentes, como o secretário do Tesouro Timothy Geithner, fazem parte do “1%” que o movimento Ocupe Wall Street é contra.

Fukuyama: É óbvio que fazem parte do 1%. Eles se socializam com esses gurus de Wall Street. O chefão do Goldman Sachs, Lloyd Blankfein reuniu-se com Geithner muitas vezes durante a crise. Esse contato próximo claramente influencia a visão de mundo da Casa Branca.

Pergunta: Mas o senhor diria seriamente que os republicanos estão menos próximos de Wall Street?

Fukuyama: Ah, não. Os políticos republicanos estão completamente comprados por Wall Street. Mas a verdadeira pergunta é: por que a classe trabalhadora continua votando neles? Minha explicação é, em parte, por causa dessa profunda desconfiança de qualquer forma de governo que vá muito fundo na política americana. Essa postura se vê hoje refletida em figuras políticas como Sarah Palin, que acusa Obama de ter ido para Harvard. Há uma espécie de ressentimento populista na política norte-americana contra o governo das elites.

Pergunta: Até o movimento do Tea Party é em grande parte financiado por bilionários que representam tudo aquilo ao que os membros do Tea Party se opõem.

Fukuyama: O Tea Party é um movimento genuíno de base, então eu não concordo com essas teorias de conspiração que dizem que foi gerado pelos bilionários. Esses comícios de Ron Paul são muito apaixonados. O público é jovem e acabou de adquirir essa ideia libertária em sua cabeça que o governo realmente é a fonte de todos os nossos problemas. Então, acho que as convicções dos ativistas do Tea Party são sinceras, não são manipuladas pelos bilionários. Mas é verdade que eles se mobilizam contra seus próprios interesses econômicos e em favor dos interesses das elites que deveriam desprezar. Ainda não compreendo plenamente por que fazem isso.

Pergunta: Por que o presidente Obama não consegue alcançar essas pessoas?

Fukuyama: O presidente nunca anunciou uma visão de uma ordem econômica diferente, que não parecesse uma volta a um tipo de fórmula clássica democrática liberal de altos gastos. Os democratas nunca articularam uma filosofia econômica que não fosse uma volta aos anos 70, ao governo grande e assim por diante, ou à posição dos sindicatos, que é muito hostil à globalização.

 Pergunta: O que mais ele deveria fazer?

Fukuyama: Eu de fato penso que o modelo alemão seria interessante, de uma perspectiva americana, porque a Alemanha ainda é a segunda maior exportadora, mas fez um papel muito melhor em proteger sua base manufatureira e sua classe trabalhadora, se comparada com os EUA. Alguém precisa articular uma estratégia nos EUA que dirá que nosso objetivo não é maximizar o lucro. É proteger a classe média pelo envolvimento com o mundo globalizado, mas que beneficie a grande massa de pessoas. Nenhum democrata de fato pôde fazer isso.

Pergunta: O senhor quer que a esquerda americana tire lições da “Agenda 2010” do ex-chanceler Gerhard Schröder, que foi um pacote controverso de reformas trabalhistas e de previdência que derrubaram o modelo democrático social clássico?

Fukuyama: O que os sociais democratas fizeram na Alemanha foi aumentar o grau de flexibilidade dos mercados de trabalho e tornar o Estado de bem estar social alemão mais amigável à competição capitalista. A antiga plataforma tradicional de instituir cada vez mais proteção social não domina mais na Alemanha, e isso é bom. Parte do problema da Europa é que reformas similares não aconteceram na França e na Itália.

 Pergunta: Essa proteção da classe média inclui uma nova forma de protecionismo global?

Fukuyama: Nunca deveríamos ter permitido que os chineses desindustrializassem uma grande parte do mundo. Os chineses conseguiram colocar os países do Ocidente uns contra os outros, basicamente roubando sua tecnologia. Eles tiveram sucesso porque todo mundo no Ocidente tem essa visão de curto prazo que diz: “Posso ser esmagado pelos chineses mais à frente, mas se eu não fizer dinheiro agora, outra pessoa vai fazer. Então fecho negócios com eles mesmo que estejam me assaltando”. Essa opinião é de pouca visão. Nós deveríamos ter sido mais duros muito com a China.

Pergunta: Essa tendência ainda pode ser revertida?

Fukuyama: É tarde demais, ao menos nos EUA. Perdemos todas as indústrias cruciais de manufatura para a China.

Pergunta: Uma sensação de impotência também prevalece na Europa. Toda vez que os políticos da UE tentam apresentar novas soluções para a crise do euro, não conseguem convencer os agentes financeiros em torno do mundo. Será que é ainda possível ter uma liderança política, diante do excessivo poder dos mercados financeiros mundiais?

Fukuyama: O problema de liderança política não nasce simplesmente da pressão dos mercados. Todas as democracias modernas têm uma doença, ou seja, que o processo democrático tende a ser capturado por grupos organizados que não são representativos do público em geral. Este é o problema da Grécia. Os farmacêuticos, médicos, servidores públicos, arquitetos, cada grupo social do país organizou-se em uma corporação fechada que controla preços e evita em grande parte a taxação. Eles fazem uma fortuna, mas levam à falência nacional.

 Pergunta: Agora, tecnocratas não eleitos e assessores de fora estão sendo convidados para participarem da reforma do sistema grego. O que isso quer dizer para a democracia?

Fukuyama: Se eu tivesse que fazer uma aposta, diria que a Grécia vai deixar o euro, porque, no fim, qualquer intervenção vai ser vista pelo povo grego como uma imposição não democrática de políticas que eles não querem. Os gregos nunca vão se comportar como alemães, certo?

Pergunta: A Europa ainda pode ser democrática, em suas tentativas desesperadas para resgatar o euro?

Fukuyama: Todo o projeto europeu era muito movido pela elite desde o início. A evidência disso era que, toda vez que um país fazia um referendo e votava contra maiores regulações da UE...

Pergunta:. O referendo era simplesmente repetido.

Fukuyama: A elite da UE dizia: “Ah, vocês erraram desta vez. Vamos continuar tentando até vocês acertarem”. Virtualmente todo país europeu hoje tem um partido populista de direita. Eles são anti-UE, anti-imigração e têm exatamente a mesma causa, porque há uma noção que as elites na Europa não tratam de fato de suas questões.

 Pergunta: Os sistemas autoritários, por outro lado, parecem estar ficando cada vez mais populares. Quando os empresários alemães viajam para a China comunista, por exemplo, ficam encantados com o sistema de lá. Eles contam como decisões importantes podem ser feitas rapidamente.

Fukuyama: Ouço isso dos empresários americanos também. O sistema chinês é particularmente impressionante quando você o compara com a Europa e os EUA, onde atualmente não se consegue tomar nenhuma decisão.

Pergunta: Então, a China autoritária emergirá como novo modelo global – o que totalmente contradiria a tese de “O Fim da História”, que a democracia se tornou a opção automática do mundo todo.

Fukuyama: Não. A China nunca será um modelo global. Nosso atual sistema ocidental está realmente destruído de formas bem fundamentais, mas o sistema chinês não vai funcionar tampouco. É um sistema profundamente injusto e imoral, onde tudo pode ser tirado de qualquer um em um segundo, onde as pessoas morrem em acidentes de trem por causa de uma falta absurda de fiscalização pública e transparência onde a corrupção manda. Já estamos vendo enormes protestos em toda as partes da China...

Pergunta:  Que as autoridades do Partido Comunista temem ser reminiscente da Primavera Árabe.

Fukuyama: Quando o governo deixa de garantir os atuais níveis de crescimento econômico, depara-se com essa grande vulnerabilidade moral. A democracia liberal ainda de fato é o único jogo que temos no mundo todo, apesar de todas suas falhas.

Tradutor: Deborah Weinberg

Wednesday, February 01, 2012


"Somos o que fazemos... mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos".

"Muita gente pequena, em lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, pode mudar o mundo".

Eduardo Galeano, por requentar o Jean-Paul Sartre e por reproduzir, provavelmente sem ver, o paradigma cristão liberal burguês do "se cada um fizer a sua parte": vá chupar prego!!! que retórica nunca foi poesia.


As mães e suas babás, uma relação de amor e ódio

Pascale Krémer

Pela primeira vez, uma socióloga desvenda as complexas relações entre os pais e suas empregadas domésticas de origem africana. Um grupo de mulheres negras, em uma praça, sentadas três ou quatro em cada banco, vigiam crianças brancas. Ninguém repara nelas, uma vez que em Paris essa cena é de uma absoluta banalidade. Mas Caroline Ibos empenhou-se em observá-las. Essa professora de sociologia política na Universidade Rennes-2 realizou uma pesquisa inédita sobre as babás africanas que cuidam dos filhos de casais parisienses nos quais ambos trabalham. Durante três anos, frequentando dia após dia a mesma praça, ela conquistou a confiança de uma dúzia de mulheres marfinenses que lhe confidenciaram seus segredos, e depois passou para o outro lado do espelho, entrevistando algumas dezenas de empregadores franceses.

Seu livro, Qui gardera nos enfants? [“Quem cuidará de nossos filhos?” Ed. Flammarion], será lançado no dia 8 de fevereiro. Fascinante, ele revela um estado da sociedade francesa – desigualdade dos sexos na esfera doméstica, a impermeabilidade das classes sociais, a persistência dos preconceitos raciais... E é provavelmente um tanto perturbador para os pais, uma vez que para a pesquisa essas babás que se introduziram na intimidade dos lares acabaram se transformando em etnólogas das famílias francesas.

Tudo começa com um recrutamento que lembra um cerimonial. Em geral ele se dá em uma tarde de sábado, com o apartamento bem arrumado, a criança a ser cuidada e seus pais instalados na sala, em uma encenação da família ideal. A candidata é primeiramente julgada por sua pontualidade e sua capacidade de encontrar a residência. Depois a futura empregadora conduz a entrevista, geralmente com o pai andando de um lado para outro.

O que surpreende Caroline Ibos é a “confiança baseada no nada”. Mulheres formadas que deveriam ser racionais confiam “aquilo que elas têm de mais caro” (e as chaves do apartamento) a uma quase desconhecida, cujas referências, situação legal caso sejam estrangeiras ou o nível de escolaridade elas raramente verificam. O fato de que elas são mães conta mais: é por uma capacidade de amor percebida intuitivamente que elas recrutam. Pelo interesse demonstrado pela criança, por uma alegria, por uma doçura, um corpo de babá...

São estereótipos atribuídos às mães, dos quais essas mulheres ativas tentam justamente se libertar! Outra surpresa para a pesquisadora foi que pessoas instruídas, não racistas, nessa ocasião adotam crenças racistas que circulam oralmente a respeito das babás. “As africanas são maternais, mas pouco afeitas às tarefas domésticas”, “As asiáticas são limpas, mas frias”... É verdade que avaliar uma pessoa a partir de estereótipos “permite implicitamente justificar sua subordinação social”, analisa Caroline Ibos.

Na prática, ela explica, a relação patrão/doméstica se resume a uma relação assimétrica e difícil entre duas mulheres. Muito rapidamente o pai se apaga, reaparecendo somente na hora da demissão, quando é o caso. Acontece que é bem complicado ser patroa dentro de sua própria casa. Ter uma doméstica sem necessariamente dispor dos códigos da grande burguesia. As patroas sentem um certo desconforto: elas se dão conta de seu poder praticamente ilimitado, caso não imponham seu próprio senso de moral. “Elas sabem que exigem demais”, resume Ibos, “mas a babá permite que elas realizem seus sonhos de sucesso familiar e social”.

As babás, sujeitas a uma implacável exploração, têm a impressão de nunca terem um descanso, de recomeçarem eternamente as mesmas tarefas fastidiosas. Com o tempo, vão se somando um monte de pequenas tarefas (“Você pode passar na lavanderia?”, “Pode trazer o pão?”). Elas foram contratadas para cuidar das crianças, mas, aos poucos a ordem das prioridades vai se invertendo. O que conta é que o apartamento esteja bem arrumado à noite. É isso que lhes dá a sensação de serem empregadas domésticas responsáveis por crianças, um tanto desprezadas. Por exemplo, não há discussão quanto à educação das crianças, elas se contentarão em aplicar as ordens.

Isso também explica uma frequente degradação das relações entre patrão e empregado. Enquanto a criança ainda é um bebê, a babá tem tempo para limpar e arrumar a casa. Mas quando ela começa a andar, a babá brinca com ela. A mãe entende, é claro, mas se instala uma insatisfação. E quando a relação se deteriora, as babás diminuem a faxina. Elas confessaram a Caroline Ibos que essa é a vingança política delas. Além disso, para quê se sacrificar tanto por um trabalho que “não é reconhecido como um trabalho de verdade”? “Para a patroa”, elas dizem, “é como se fosse um prazer cuidar de seus filhos...”

Há uma certa verdade em suas declarações. As empregadoras ouvidas por Caroline Ibos muitas vezes acreditam que essa tarefa, embora seja mal paga, precária, ingrata, é uma vocação natural para uma mãe. “Isso tranquiliza a consciência delas, que costumam dizer: ‘Uma boa babá é aquela que não faz esse trabalho só por dinheiro.’ É um mal-entendido básico! Ela está lá para ganhar a vida, mesmo que ela mostre solicitude e afeição pelas crianças.” No parque, as babás lhe contaram que elas gostavam das crianças das quais cuidavam, mas também que as esqueciam muito rapidamente uma vez que iam embora.

A forma como elas as enxergam, também estereotipada, nem sempre é carinhosa. Elas as consideram mimadas demais, malcriadas. Com pais que seriam sujeitos a caprichos, sempre temendo vê-las perdendo seu tempo, não lhes transmitindo valores morais, encorajando-as a serem egoístas e dominadoras, e muito precocemente apegadas ao dinheiro. “A patroa tem tanto medo de seus filhos que, quando ela faz algo que não agrada, ela diz que sou eu que estou mandando! Ela diz: ‘Crianças, a Aurore quer que vocês comam cenoura!’”, relata a pesquisa. Mas Caroline Ibos também ressalta que, afinal, as babás acabam se inspirando muito nessa educação para seus próprios filhos, como se elas interiorizassem um modelo de sucesso à moda francesa.

Para as babás, o casal e a família francesa não funcionam muito bem. Elas não invejam essas mulheres que as empregam. “Minha patroa tem uma bela casa, mas ela é infeliz.” A vida delas é difícil, elas trabalham o tempo todo, são estressadas, não sabem relaxar. “A figura da babá evidencia as relações que permanecem desiguais entre sexos em torno das questões domésticas e familiares. As mulheres fogem da humilhação humilhando uma terceira pessoa”, afirma a acadêmica. Em vez de enfrentar conflitos exaustivos e humilhantes com seus parceiros, as patroas descontam nelas. As camisas não estão passadas? “A babá não faz mais nada...”

Mulheres negras a serviço de famílias brancas, efetuando tarefas desvalorizadas - a situação dessas empregadas também diz muito sobre o abismo entre as “raças”, segundo Ibos. Uma vê sua patroa como todo-poderosa e rica, a outra permanece sob a influência de preconceitos. O que os pais não imaginam é o rancor, profundo e doloroso, diante da colonização, entre essas imigrantes que chegam de uma antiga colônia francesa. Elas dizem: “Eu faço a antilhana”, com esse sentimento perpetuado pela dominação colonial.

Mas talvez o que o livro de Caroline Ibos conta de melhor seja o confronto das distintas classes sociais dentro de casa. É uma situação excepcional na sociedade francesa, onde essas duas pontas da escala social às vezes se cruzam, mas não se aproximam. “Para as empregadoras, estar diante da fragilidade da outra é um sofrimento. Os sinais de pobreza constrangem – o casaco feio na entrada, as sandálias usadas sem meia no inverno... Elas são a lembrança daquilo que elas querem esquecer, de tudo aquilo pelo qual elas não têm como não se sentirem um pouco responsáveis.” É contra isso que se constrói a casa da família, refúgio de paz em um mundo violento.

Com a babá, a bolha protetora estoura. Chegam a política, a miséria do mundo. No final, essa proximidade de classes não as aproxima, constata Ibos, pessimista. “A patroa pode dar pequenos presentes de compaixão, mas reserva sua piedade para causas ou vítimas bem mais distantes dela. Entre as duas mulheres, não se constrói nenhuma relação verdadeira”. Paradoxalmente, entende-se que esse conflito de classes é menos doloroso para as babás. Elas não o vivem inteiramente como uma humilhação, porque elas não se limitam à sua condição de domésticas. Elas também são outra coisa. Na África, elas têm um lugar de sucesso. Elas poderão construir uma casa para si.

Tradutor: Lana Lim