Saturday, June 23, 2012
A Alma Encantadora das Ruas
Pequenas Profissões
1904
O cigano aproximou-se do catraieiro (o1). No céu, muito azul, o sol derramava toda a sua luz dourada. Do cais via-se para os lados do mar, cortado de lanchas, de velas brancas, o desenho multiforme das ilhas verdejantes, dos navios, das fortalezas. Pelos boulevards sucessivos que vão dar ao cais, a vida tumultuária da cidade vibrava num rumor de apoteose, e era ainda mais intensa, mais brutal, mais gritada, naquele trecho do Mercado, naquele pedaço da rampa, viscoso de imundícies e de vícios. O cigano, de frack e chapéu mole, já falara a dois carroceiros moços e fortes, já se animara a entrar numa taberna de freguesia retumbante. Agora, pelos seus gestos duros, pelo brilho do olhar, bem se percebia que o catraieiro seria a vítima, a vítima definitiva, que ele talvez procurasse desde manhã, como um milhafre (o2) esfomeado. Eduardo e eu caminhamos para a rampa, na aragem fina da tarde que se embebia de todos aqueles cheiros de maresia, de gordura, de aves presas, de verduras. O catraieiro batia negativamente com a cabeça.
— Uma calça, apenas uma, em muito bom estado.
— Mas eu não quero.
— Ninguém lhe vende mais barato, palavra de honra. E a fazenda? Veja a fazenda.
Desenrolou com cuidado um embrulho de jornal. De dentro surgiu um pedaço de calça cor de castanha.
— Para o serviço! Dois mil réis, só dois!...Eu tenho família, mãe, esposa, quatro filhos menores. Ainda não comi hoje! Olhe, tenho aqui uns anéis...não gosta de anéis?
O catraieiro ficara, sem saber como, com o embrulho das calças, e o seu gesto fraco de negativa bem anunciava que iria ficar também com um dos anéis. O cigano desabotoara o frack, cheio de súbito receio.
— É um anel de ouro que eu achei, ouro legítimo. Vendo barato: oito mil réis apenas. Tudo dez mil réis, conta redonda!
O catraieiro sorria, o cigano era presa de uma agitação estranha, agarrando a vítima pelo braço, pela camisa, dando pulos, para lhe cochichar ao ouvido palavras de maior tentação; ninguém naquele perpétuo tumulto, ninguém no rumor do estômago da cidade, olhava sequer para o negócio desesperado de cigano. Eduardo, que nessa tarde passeava comigo, arrastou-me pelo ex-Largo do Paço, costeando o cais até a velha estação das barcas.
— Admiraste aquele negociante ambulante?
— Admirei um refinado “vigarista”...
— Oh! meu amigo, a moral é uma questão de ponto de vista. Aquele cigano faz parte de um exército de infelizes, a que as condições da vida ou do próprio temperamento, a fatalidade, enfim, arrasta muita gente. Lembras-te de La romera de Santiago, de Velez de Guevara? Há lá uns versos que bem exprimem o que são essas criaturas:
Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos...
É quanto basta como moral. Não sejamos excessivos para os humildes.
O Rio tem também as suas pequenas profissões exóticas, produto da miséria ligada às fábricas importantes, aos adelos, ao baixo comércio; o Rio, como todas as grandes cidades, esmiúça no próprio monturo a vida dos desgraçados. Aquelas calças do cigano, deram-lhas ou apanhou-as ele no monturo, mas como o cigano não faz outra coisa na sua vida senão vender calçar velhas e anéis de plaquet (o3), aí tens tu uma profissão da miséria, ou se quiseres, da malandrice — que é sempre a pior das misérias. Muito pobre diabo por aí pelas praças parece sem ofício, sem ocupação. Entretanto, coitados! o ofício, as ocupações, não lhes faltam, e honestos, trabalhosos, inglórios, exigindo o faro dos cães e a argúcia dos reporters.
Todos esses pobres seres vivos tristes vivem do cisco, do que cai nas sarjetas, dos ratos, dos magros gatos dos telhados, são os heróis da utilidade, os que apanham o inútil para viver, os inconscientes aplicadores à vida das cidades daquele axioma de Lavoisier: nada se perde na natureza. A polícia não os prende, e, na boêmia das ruas, os desgraçados são ainda explorados pelos adelos (o4), pelos ferros-velhos, pelos proprietários das fábricas...
— As pequenas profissões!... É curioso!
As profissões ignoradas. Decerto não conheces os trapeiros sabidos, os apanha-rótulos, os selistas, os caçadores, as ledoras de buena dicha. Se não fossem o nosso horror, a Diretoria de Higiene e as blagues das revistas de ano, nem os ratoeiros seriam conhecidos.
— Mas, senhor Deus! é uma infinidade, uma infinidade de profissões sem academia! Até parece que não estamos no Rio de Janeiro...
— Coitados! Andam todos na dolorosa academia da miséria, e, vê tu, até nisso há vocações! Os trapeiros, por exemplo, dividem-se em duas especialidades — a dos trapos limpos e a de todos os trapos. Ainda há os cursos suplementares dos apanhadores de papéis, de cavacos e de chumbo. Alguns envergonham-se de contar a existência esforçada. Outros abundam em pormenores e são um mundo de velhos desiludidos, de mulheres gastas, de garotos e de crianças, filhos de família, que saem, por ordem dos pais, com um saco às costas, para cavar a vida nas horas da limpeza das ruas.
De todas essas pequenas profissões a mais rara e a mais parisiense é a dos caçadores, que formam o sindicato das goteiras e dos jardins. São os apanhadores de gatos para matar e levar aos restaurants, já sem pele, onde passam por coelho. Cada gato vale dez tostões no máximo.
Uma só das costelas que os fregueses rendosos trincam, à noite, nas salas iluminadas dos hotéis, vale muito mais. As outras profissões são comuns. Os trapeiros existem desde que nós possuímos fábricas de papel e fábricas de móveis. Os primeiros apanham trapos, todos os trapos encontrados na rua, remexem o lixo, arrancam da poeira e do esterco os pedaços de pano, que serão em pouco alvo papel; os outros têm o serviço mais especial de procurar panos limpos, trapos em perfeito estado, para vender aos lustradores das fábricas de móveis. As grandes casas desse gênero compram em porção a traparia limpa. A uns não prejudica a intempérie, aos segundos a chuva causa prejuízos enormes. Imagina essa pobre gente, quando chove, quando não há sol, com o céu aberto em cataratas e, em cada rua, uma inundação!
— Falaste, entretanto, dos sabidos?
— Ah! os sabidos dedicam-se a pesquisar nos montes de cisco as botas e os sapatos velhos, e batem-se por duas botas iguais com fúria, porque em geral só se encontra uma desirmanada. Esses infelizes têm preço fixo para o trabalho, uma tarifa geral combinada entre os compradores, os italianos remendões. Um par de botas, por exemplo, custa 400 réis, um par de sapatos 200 réis. As classes pobres preferem as botas aos sapatos. Uma bota só, porém, não se vende por mais de 100 réis.
— Mas é bem pago!
— Bem pago? Os italianos vendem as botas, depois de consertadas, por seis e sete mil réis! E o mesmo que acontece aos molambeiros ambulantes como o cigano que acabamos de ver — os belchiores compram as roupas para vendê-las com quatrocentos por cento de lucro. Há ainda os selistas e os ratoeiros. Os selistas não são os mais esquadrinhadores, os agentes sem lucro do desfalque para o cofre público e da falsificação para o burguês incauto. Passam o dia perto das charutarias pesquisando as sarjetas e as calçadas à cata de selos de maços de cigarros e selos com anéis e os rótulos de charutos. Um cento de selos em perfeito estado vende-se por 200 réis. Os das carteiras de cigarros têm mais um tostão. Os anéis dos charutos servem para vender uma marca por outra nas charutarias e são pagos cem por 200 réis. Imagina uns cem selistas à cata de selos intactos das carteirinhas e dos charutos; avalia em 5% os selos perfeitos de todos os maços de cigarros e de todos os charutos comprados neste país de fumantes; e calcula, após este pequeno trabalho de estatística, em quanto é defraudada a fazenda nacional diariamente só por uma das pequenas profissões ignoradas.
— Gente pobre a morrer de fome, coitados...
— Oh! não. O pessoal que se dedica ao ofício não se compõe apenas do doloroso bando de pés descalços, da agonia risonha dos pequenos mendigos. Trabalham também na profissão os malandros de gravata e roupa alheia, cuja vida passa em parte nos botequins e à porta das charutarias.
— E é rendoso?
— Rendoso, propriamente, não; mas os selistas contam com o natural sentimento de todos os seres que, em vez de romper, preferem retirar o selo do charuto e rasgar a parte selada das carteirinhas sem estragar o selo.
— Mas os anéis dos charutos?
— Oh! isso então é de primeiríssima. Os selistas têm lugar certo para vender os rótulos dos charutos Bismarck — em Niterói, na Travessa do Senado. Há casas que passam caixas e caixas de charutos que nunca foram dessa marca. A mais nova, porém, dessas profissões, que saltam dos ralos, dos buracos, do cisco da grande cidade, é a dos ratoeiros, o agente de ratos, o entreposto entre as ratoeiras das estalagens e a Diretoria de Saúde. Ratoeiro não é um cavador — é um negociante. Passeia pela Gamboa, pelas estalagens da Cidade Nova, pelos cortiços e bibocas da parte velha da urbs, vai até ao subúrbio, tocando um cornetinha com a lata na mão.
Quando está muito cansado, senta-se na calçada e espera tranqüilamente a freguesia, soprando de espaço a espaço no cornetim.
Não espera muito. Das rótulas há quem os chame; à porta das estalagens afluem mulheres e crianças.
— Ó ratoeiro, aqui tem dez ratos!
— Quanto quer?
— Meia pataca.
— Até logo!
— Mas, ô diabo, olhe que você recebe mais do que isso por um só lá na Higiene.
— E o meu trabalho?
— Uma figa! Eu cá não vou na história de micróbio no pêlo do rato.
— Nem eu. Dou dez tostões por tudo. Serve?
— Heim?
— Serve?
— Rua!
— Mais fica!
E quando o ratoeiro volta, traz o seu dia fartamente ganho...
Tínhamos parado à esquina da Rua Fresca. A vida redobrava aí de intensidade, não de trabalho, mas de deboche.
Nos botequins, fonógrafos roufenhos esganiçavam canções picarescas; numa taberna escura com turcos e fuzileiros navais, dois violões e um cavaquinho repinicavam. Pelas calçadas, paradas às esquinas, à beira do quiosque, meretrizes de galho de arruda atrás da orelha e chinelinho na ponta do pé, carregadores espapaçados (o5), rapazes de camisa de meia e calça branca bombacha com o corpo flexível dos birbantes (o6), marinheiros, bombeiros, túnicas vermelhas e fuzileiros — uma confusão, uma mistura de cores, de tipos, de vozes, onde a luxúria crescia.
De repente o meu amigo estacou. Alguns metros adiante, na Rua Fresca, um rapaz doceiro arriara a caixa, e sentado num portal, entregava o braço aos exercícios de um petiz da altura de um metro. Junto ao grupo, o cigano, com outro embrulho, falava.
— Vês? Aquele pequeno é marcador, faz tatuagens, ganha a sua vida com três agulhas e um pouco de graxa, metendo coroas, nomes e corações nos braços dos vendedores ociosos. O cigano molambeiro aproveita o estado de semi-dor e semi-inércia do rapaz para lhe impingir qualquer um dos seus trapos...um psicólogo, como todos os da sua raça, psicólogo como as suas irmãs que lêem a buena dicha por um tostão e amam por dez com consentimento deles.
Oh! essas pequenas profissões ignoradas, que são partes integrantes do mecanismo das grandes cidades! O Rio pode conhecer muito bem a vida do burguês de Londres, as peças de Paris, a geografia da Manchúria e o patriotismo japonês. A apostar, porém, que não conhece nem a sua própria planta, nem a vida de toda essa sociedade, de todos esses meios estranhos e exóticos, de todas as profissões que constituem o progresso, a dor, a miséria da vasta Babel que se transforma. E entretanto, meu caro, quanto soluço, quanta ambição, quanto horror e também quanta compensação na vida humilde que estamos a ver.
Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos...
Mas o meu amigo não continuou o fio luminoso de sua filosofia. O catraieiro apareceu rubro de cólera, e sutilmente cosia-se com as paredes, ao aproximar-se do cigano.
De repente deu um pulo e caiu-lhe em cima de chofre.
— Apanhei-te, gatuno!
O cigano voltara-se lívido. Ao grito do catraieiro acudiam, numa sarabanda de chinelas, fúfias, rufiões, soldados, ociosos, vendedores ambulantes.
— Gatuno! Então vendes como ouro um anel de plaquet? Espera que te vou quebrar os queixos. Sacudiu-o, atirou-o no ar para apanhá-lo com uma bofetada. O cigano porém caiu num bolo, distendeu-se e partiu como um raio por entre a aglomeração da gentalha, que ria. O catraieiro, mais corpulento, mais pesado, precipitou-se também.
Os vagabundos, com o selvagem instinto da caça, que persiste no homem — acompanharam-no. E pelos boulevards, onde se acendiam os primeiros revérberos, à disparada entre os squares sucessivos, a ralé dos botequins, aos gritos, deitou na perseguição do pobre cigano molambeiro, da pobre profissão ignorada, que, como todas as profissões, tem também malandros.
Então Eduardo sentenciou.
— Tu não conhecias as pequenas profissões do Rio. A vida de um pobre sujeito deu-te todos esses úteis conhecimentos. Mas, se esse pobre sujeito não fosse um malandro, não conhecerias da profissão até mesmo os birbantes.
A moral é uma questão de ponto de vista. Para julgar os homens basta a gente defini-los segundo os seus sucessivos estados. Se te aprouver definir os profissionais humildes pela tuaúltima impressão, emprega os mesmos versos de Guevara com uma pequena modificação:
Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
o1 Barqueiro de catraia (bote de um só lugar).
o2 Ave de rapina.
o3 Imitação de ouro.
o4 Quem compra e vende objetos usados; brechó.
o5 Desengonçados.
o6 Patife, malandro.
João do Rio - A Alma Encantadora das Ruas
Tuesday, June 19, 2012
Sunday, June 17, 2012
Essas horas de horror, a imprensa dá espaço aos seus explicadores do mundo profissionais. E eles se põem a tentar explicar. Já falei disso uma outra vez: difícil é explicar o, por definição, inexplicável. Por isso o Nelson Rodrigues vale a pena ser mencionado. Entendeu?
Renato Janine Ribeiro, uma vez, arrastaram um menino de seus oito anos de idade, ou menor, não lembro, preso do lado de fora de um carro em fuga, até o menino morrer despedaçado. O Janine disse: nessas horas eu sinto vontade de ver aplicada a pena capital. Falou "nessa hora", não era uma campanha pela aprovação da pena de morte. Era um desabafo. Mas, como o Janine, justamente, faz carreira como explicador do mundo, outros colegas dele de ofício, caíram de pau. Decepcionados com a passionalidade.
Agora o Contardo Calligaris escreve coluna sobre o Matsunaga e a Elize. Tenta explicar. Entendeu? E meio que bota a culpa no Matsunaga, na linha do "quem mandou mexer no vespeiro". Uma pérola de reacionarismo, daquelas que fazem a gente pensar, como o Nelson Rodrigues, que o psicanalista é uma comadre bem paga.
E depois vem a Danuza Leão. Em geral ela escreve obviedades. E escreve um pouco sem domínio da palavra escrita, meio sem estilo, tipo meia boca. Mas, na sua sinceridade de se saber não ser reconhecida como explicadora, acerta em cheio. Só na conclusão, na última frase, é que dá uma filosofada e aí, filosoficamente falando, produz um sofisma e só. Perdoável pela regra do jogo de escrever em jornal e pela já citada falta de domínio estilístico. Pior o Calligaris que toma os termos da "confissão" de Elize como verdadeiros. Se a mulher é fria a ponto de cortar alguém em pedaços, não seria o caso de desconfiar do que ela diz na hora de relatar o que aconteceu? Ainda mais porque, do ponto de vista do estilo, são só lugares comuns. Mas sobre isso a Danuza já conseguiu explicar com bastante riqueza de detalhes.
Eu agora deveria fechar essa abertura com alguma coisa que levasse ao Nelson Rodrigues. Mas não vou, não. E também não vou repetir o "entendeu?".
CONTARDO CALLIGARIS
Uma linda mulher
Se você ama uma mulher por ela ser prostituta, tente entender a fantasia que está atrás de seu amor
Numa cobertura da Vila Leopoldina, em São Paulo, na noite de 19 de maio, Elize Araújo Matsunaga, 30, assassinou o marido, Marcos Matsunaga, 42, com um tiro na cabeça. Na manhã seguinte, com uma faca de cozinha, Elize esquartejou o cadáver, de modo a poder transportar os pedaços em três malas. Logo, ela foi se desfazer das malas e da faca.
Esse fato de crônica tem tudo para se tornar literatura de cordel. Há o sangue frio de Elize depois do crime. Há a diferença social entre Marcos, empresário e herdeiro da Yoki, que acaba de ser vendida por R$ 1,7 bilhão, e Elize, enfermeira e bacharel em direito, mas de origem bem humilde.
Além disso, o ciúme foi um dos motivos: na noite do crime, Marcos acabava de ser confrontado por Elize, que conseguira a prova da infidelidade do marido. Mais: o horror aconteceu depois de seis ou sete anos do que foi, ao que tudo indica, uma genuína paixão; a filha, de um ano, estava no apartamento, dormindo, durante o crime; foi Marcos que transmitiu a Elize o interesse pelo tiro e pelas armas (havia 30, todas registradas, no apartamento).
Mas, acima de tudo, o que transforma a história do casal em matéria de cordel é o fato de que Marcos encontrou Elize, em 2004, num site de garotas de programa.
A informação parece ser repetida pela imprensa como uma mensagem aos homens: olhe o risco que você corre, se você amar uma prostituta e casar com ela.
Ora, quero corrigir esse lembrete. Se você se apaixonar por uma prostituta (ex ou não, tanto faz) e quiser se casar com ela, recomendo apenas uma cautela, que não tem nada a ver com sua futura mulher e tudo a ver com você.
Claro, a culpa do crime de 19 de maio é só de Elize, mas o lembrete preventivo é para os homens, embora chegue tarde para Marcos.
Se você ama uma mulher que por acaso é prostituta, aí, tudo bem; mas, se você ama essa mulher POR ELA SER prostituta, atenção: nesse caso, seria sábio você se familiarizar com a fantasia que sustenta seu amor. Qual é, em geral, a fantasia em questão?
Todo mundo se lembra de Uma Linda Mulher, filme adorável de Garry Marshall, em que o rico Edward (Richard Gere) se apaixona por Vivian (Julia Roberts), uma prostituta que ele "levantou" na rua. Será que a história de Marcos e Elize é Uma Linda Mulher sem o final feliz? De fato, sempre pensei que, depois dos sorrisos do fim do filme, Edward e Vivian acabariam mal - talvez não tão mal quanto Marcos e Elize, mas mal. Por quê?
Logo quando Edward decide trazer Vivian para o seu mundo, ele "acha graça" confessar a um amigo que aquela linda mulher que está com ele é uma prostituta de rua.
Prognóstico inelutável. Um dia, Edward não resistirá à fantasia que lhe fez escolher Vivian: ele a humilhará (e se humilhará), lembrando, eventualmente diante de amigos e parentes, que Vivian vem da sarjeta e que ele poderia jogá-la de volta para lá.
Na noite do dia 19, segundo a confissão de Elize, Marcos a ameaçou: "Vou te mandar de volta para o lixo de onde você veio". Ele também declarou que, se a mulher quisesse se separar, a filha ficaria com ele, pois será que um juiz daria a guarda da menina a uma prostituta? (Eu aposto que sim, mas sou otimista...).
Em regra, o desejo de um homem que se apaixona por prostitutas (e planeja "redimi-las") é sustentado por uma fantasia (inconsciente) de vingança - contra a mulher e contra ele mesmo, por ter se deixado seduzir. Explico.
A sexualidade de muitos homens é patologicamente neurótica: eles olham para o sexo pelo buraco da fechadura do quarto dos pais. Nessa ótica infantil, não se salva ninguém: é "puta" qualquer mulher que vai com os outros, ou seja, todas as mulheres são "putas", inclusive a mãe (surpreendentemente), porque ela vai com pai, padrasto e companhia - enquanto, para a gente, ela só tem carinho contido.
Para o homem de calça curta, ajoelhado diante da fechadura, a "puta" é um paradoxo: vergonhosamente acessível a todos, salvo a ele.
É nessa infantilidade que nascem a misoginia básica, o gosto da violência contra as prostitutas, a ideia de que todas as mulheres, se não são prostitutas, sonham com isso e uma preferência amorosa quase exclusiva por meretrizes.
Quando um desses homens ama uma prostituta e se casa com ela, seu ressentimento pode se calar em nome do amor, mas só por um tempo: ainda ele vai puni-la por ter sido e ser para sempre a "puta" que vai com os outros.
DANUZA LEÃO
Sobre o assassinato
Na vida real, muitas mulheres que se sabem traídas têm vontade de matar. Algumas até matam
A imprensa tem sido amável e discreta, com Elize Matsunaga; reproduziu o diálogo entre ela e seu (ex?) marido do jeito que ela contou, claro, já que não havia ninguém presente, além dos dois. Ok, jornais e revistas devem ser imparciais, mas existe limite para tudo; em certos casos, até para a imparcialidade.
Marcos Matsunaga estava traindo Elize? Estava, e se todas as mulheres tivessem o direito de matar os maridos que as traem, sobrariam poucos para contar a história.
Ele ameaçou tirar a guarda da filha dela? Todos dizem isso na hora da separação. Foi encontrar a nova namorada no carro (dado por ele) de Elize? Razão para uma certa simpatia pela mulher traída: um absurdo ele usar o carro da própria mulher para sair com a outra. Ela estava visitando a família no Paraná, com a filha e a babá, enquanto ele a traía? Mais digna de simpatia ainda. Seu marido presenteou a nova namorada com um carro? Repetiu o que havia feito com Elize quando a conheceu, ainda casado.
Na hora da briga ele a chamou de prostituta? É melhor mesmo que ninguém se lembre nem do que ouviu, nem do que falou nessa hora, tudo faz parte. Não costumam ser coisas amáveis, mas há muitos que esquecem e até fazem as pazes depois.
Ele a agrediu fisicamente? Nenhuma novidade, também costuma acontecer.
Na vida real, muitas mulheres que se sabem traídas - e sobretudo as que têm uma prova, como o vídeo feito pelo celular - têm vontade de matar. Algumas até matam, a maioria não, mas que muitas têm vontade, isso têm. As que matam costumam ser rápidas; mulher não gosta de ver sangue.
Segundo os jornais, Elize vai ser acusada de assassinato e ocultação de cadáver; não por esquartejamento - esse detalhe não deve existir no Código Penal, como também não deve existir a antropofagia, coisas inadmissíveis na cabeça dos que fazem as leis.
A morte de uma pessoa querida é sempre dolorosa; se for uma morte violenta, mais dolorosa ainda. Se seguida de esquartejamento, nem dá para imaginar o que deve ter sentindo a família de Marcos Matsunaga na hora do enterro. Não existem palavras para avaliar essa dor.
A frieza de Elize é monstruosa. Eu teria medo de deixá-la sozinha com a própria filha, pois ela parece capaz de tudo, e não sei se existe um nome para definir uma doença tão, tão - nem sei o quê. Crimes como esse, confessados e comprovados, não merecem nem julgamento. Não gosto de pensar no que seus advogados vão dizer, na tentativa de absolvê-la; nessa hora, advogados são capazes de tudo. E choca ver que as pessoas não estão dando muita importância ao caso, e que estão tratando Elize como uma pessoa quase normal, com o respeito que se deve dar a qualquer ser humano; só que ela não é um ser humano, é um monstro, e monstros devem ser tratados como tal.
Em outros tempos, certos crimes davam manchetes, e até nomes aos assassinos; quem já era nascido deve lembrar da "fera da Penha".
Nem lembro mais quem ela matou, mas de como ela era chamada não esqueci. Por que será que um crime tão hediondo como o de Elize quase não mobiliza ninguém, nem numa conversa entre amigos?
Está faltando a capacidade de se indignar, e isso é preocupante.
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Tuesday, June 12, 2012
O ocaso do maior escritor do século 20
Demência senil impede Gabriel García Márquez de reconhecer familiares e amigos íntimos
Por Marco Lacerda*
O escritor Gabriel García Márquez perdeu definitivamente a memória. Pelo menos esta é a conclusão a que chegaram os meios de comunicação colombianos depois de uma entrevista do autor, terça-feira passada, ao jornalista Plinio Apuleyo, seu amigo íntimo. Depois de duas horas com Gabo, o jornalista revelou que a demência senil já não permite ao escritor escrever e sequer reconhecer familiares e amigos próximos.
“Nas últimas vezes que conversamos pessoalmente, na Cidade do México, ele repetiu várias vezes: ‘Como anda você? O que tem feito? Quando volta de Paris’? Muitos amigos comuns com quem falei sobre o assunto disseram que com eles aconteceu a mesma coisa. Gabo fez as mesmas perguntas. Existe a suspeita de ele tenha algumas fórmulas. Se não reconhece alguém, não pergunta ‘quem é você’?. Prefere fazer perguntas genéricas. Dói muito vê-lo assim. Gabo sempre foi um grande amigo”, disse Plinio Apuleyo.
Há pelo menos cinco anos a deterioração da saúde de García Márquez tornou-se pública. Os primeiros sinais foram dados quando ele renunciou a continuar escrevendo suas memórias (Viver Para Contar, primeiro volume de uma trilogia frustrada) e enfrentou a morte de um irmão. Pouco antes o escritor tinha sido vítima de um linfoma do qual saiu intacto.
Em 2007, quando o Congresso do Idioma celebrou em Cartagena de Índias, na Colômbia, os 40 anos da publicação de Cem Anos de Solidão, García Márquez, pai do cineasta Rodrigo García, se deixou ver sorridente e feliz, vestindo um terno de linho branco. Em nenhum momento, porém, falou em público nem concedeu entrevistas. Nesta época surgiram os primeiros rumores sobre os lapsos de memória do Prêmio Nobel de Literatura de 1982.
No mesmo ano, o escritor britânico Gerald Martin escreveu a biografia oficial de Gabo, Uma Vida, na qual se pode ler, nas entrelinhas, a notícia velada da enfermidade do autor: “Ele era capaz de recordar a maioria das coisas do passado distante, embora tivesse dificuldade em recordar os títulos de seus livros. Mas mantivemos uma conversa normal, até divertida”, diz Martin.
Há um ano, alguns meios de comunicação chegaram a anunciar que Márquez estaria em vias de morrer em Paris. Sua mulher, Mercedes, e sua agente literária, Carmen Balcells, desmentiram a notícia. Gabo não estava em apuros nem estava em Paris. Permanecia em sua casa no México. Há poucos meses a família divulgou uma foto tirada na festa dos 85 anos do autor.
Nos tempos de sua pródiga produção literária Gabriel García Márquez brindou o mundo com uma coleção de obras primas, que o tornaram, na opinião de muitos o maior escritor do século 20. Entre elas se incluem Ninguém Escreve ao Coronel, Crônica de Uma Morte Anunciada, O Outono do Patriarca, O Amor nos Tempos do Cólera, Cheiro de Goiaba, O General em Seu Labirinto, Do Amor e Outros Demônios, além de uma vasta obra como jornalista e cronista.
Dez frases
“Um único minuto de reconciliação vale mais do que toda uma vida de amizade”.
“O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão”.
“A sabedoria é algo que, quando nos bate à porta, já não serve para nada”.
“O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança”.
“Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se”.
“Não passes o tempo com alguém que não esteja disposto a passá-lo contigo”.
“Te amo não por quem tu és, mas por quem sou quando estou contigo”.
“Nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiver triste, porque nunca se sabe quem pode se apaixonar por teu sorriso”.
“Dou valor as coisas, não por aquilo que valem, mas por aquilo que significam”.
“O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois de se fazer o amor, e é preciso tornar a reconstruí-lo todas as manhãs, antes do café”.
*Marco Lacerda é jornalista e escritor. Artigo escrito com base em informações do jornal espanhol El Mundo e de agências de notícias.
Friday, June 08, 2012
Thursday, May 10, 2012
http://naocontepramamae.tumblr.com/
Revolução é o cacete.
Existe um mito no ar.
O mito da revolução 2.0.
Querem convencer você que agora, finalmente, qualquer um pode participar de uma suposta mudança da mídia e da produção/venda da Cultura Pop.
“Agora, qualquer criança pode fazer um vídeo em casa e ficar famoso”, é o mote dessa gente.
Essa é a bobagem 2.0 difundida por todo canto.
A ideia sugere que foi aberta uma janela para o mundo que estava fechada no passado.
É bonito mas essa é só uma meia verdade.
Segundo essa teoria, Justin Bieber, por exemplo, só surgiu porque um produtor descobriu o garoto prodígio quando encontrou seu vídeo no YouTube.
Como se não tivesse existido nenhuma Boy Band, nenhuma estrela-mirim antes do Bieber.
Bobagem.
Um talento como Justin Bieber (talento tão questionável quanto qualquer outra Boy Band) teria estourado com ou sem YouTube. E se não fosse ele, seria outro, mas não se deixe convencer. Não acredite no mito de que agora ficou mais “fácil” conquistar a mídia.
Alias, falar mal dessa democratização é politicamente incorreto, porque muita gente ganha dinheiro iludindo agências e clientes.
Muita gente vive exatamente de superestimar a força das redes sociais e do 2.0.
Mas a real é que o fenômeno é muito mais simples do que se vende por aí.
No passado existia apenas um punhado de “geradores de conteúdo”.
Ninguém pensava em quanta informação o público poderia receber, porque não existia nenhuma possibilidade de sobrecarregar os canais existentes, com os poucos geradores de conteúdo da época.
Nego lia um livro, via um noticiário, assinava um jornal, lia algumas revistas e vivia a vida-lá-fora no resto do tempo que lhe sobrava.
O mundo mudou, mas muita gente ainda continua olhando só para o lado do gerador de conteúdo, sem se dar conta que passou a ser importante olhar também para a outra ponta, a do receptor-espectador-usuário-internauta e de como você e eu gerenciamos nosso tempo para tanta oferta de informação/conteúdo.
Descobrir como cada um gerencia seu Tempo é, sim, a grande arma nessa Revolução.
(E exatamente por isso, o Curador 2.0 ganhou importância, seja ele o sujeito que você segue no Twitter, seja uma marca que ajuda você na dura tarefa de filtrar o que é relevante)
Quando a oferta de conteúdo é ILIMITADA como a de hoje, a capacidade de absorção de informação não é mais irrelevante como era no passado.
Quando a gente acredita que cada um, hoje, é um produtor de conteúdo, esquecemos que do outro lado, para dar conta de tanta informação, o receptor-espectador-usuário-internauta tornou-se menos atento e muito, mas muito menos impressionável.
Por exemplo: se você, no passado, dava conta de descobrir, digamos, 5 bandas de rock por ano e agora descobre 56, uma a cada semana já que os canais se proliferaram, não se iluda. Sua atenção para cada banda foi reduzida a uma mera fração.
Todo mundo pode ficar famoso por 15 minutos, em 15 minutos. Do anonimato para a fama e da fama para o anonimato em apenas 15 minutos.
E essa é a pegadinha da Revolução 2.0
A família “Para Nossa Alegria” ficou famosa no YouTube, e com isso, não provou que os meios estão mais democráticos.
Nada disso.
Eles apenas ocuparam o espaço de uma bobagem semelhante, que seria divulgada pelo Raul Gil há 20 anos.
Só isso.
A possibilidade de você, que canta bem, gravar um YouTube e ser descoberto por um produtor, depois que seu vídeo tiver 2 milhões de acessos, parece realmente sugerir que você tem mais chance de explodir.
Mas não tem.
A chance de você conseguir dois milhões de likes dizendo que você canta bem é tão remota quanto era quando você mandava uma fita demo para 15 produtores, na esperança que algum “descobrisse” você.
Só que como todo mundo testemunhou o que aconteceu com os Para Nossa Alegria, ou com a Suzane Boyle, ficamos com essa sensação de que agora qualquer um de nós pode mudar o mundo.
Mas, infelizmente, não pode.
(Cabe aqui o parenteses do nicho. Este é um capitulo a parte e, sim, a democratização do online pode fazer a diferença. Taí o Jovem Nerd, por exemplo, que dificilmente teria encontrado sua audiência cativa há 20 anos. O problema é que, salvo honráveis exceções, como essa do exemplo, nem sempre é fácil ganhar dinheiro e sobreviver apenas com a receita gerada pelo nicho que você se dedicar)
O fato é que sua presença online não é mais relevante que sua presença offline.
A ilusão da importância deste alcance, desta cobertura, cria o tal mito da Revolução.
Veja meu caso, pobre de mim.
Tenho 168 mil followers no Twitter.
Aí minha filha pediu que eu twitasse sobre a fanpage que ela criou, pedindo likes.
Twitei 3 vezes.
Sabe quantos likes vieram?
5.
Provavelmente de quem é meu amigo, no off.
Por que?
Porque esses 168 mil followers são uma abstração. O tempo que eles dedicam a mim ou a qualquer outro assunto é muito menos do que uma fração de segundo.
Só que a gente adora números.
Então a gente se impressiona.
E acredita mesmo que existe a tal revolução.
Os números de followers, likes, clicks são absolutamente ilusórios e essa suposta cobertura, é uma ENORME falácia.
E pior.
Esses números criam uma angustia nos clientes que agência nenhuma conseguiu resolver.
O que estão falando de nós online?
Como monitorar e gerenciar esse discurso?
Que consequência terá tanto debate sobre minha marca?
Sinceramente?
Consequência quase nenhuma, quanto mais passa o tempo, mais me convenço.
Não é porque agora você testemunha que falam mal de você, que estão falando mais mal de você do que antes.
Exemplo:
Todo mundo sempre soube que boa parte das operadoras de celular são um lixo.
Que o sinal cai.
Que 3G não rola como deveria no Brasil.
Todo mundo sabe que sempre foram campeãs de reclamações no PROCON.
Não é porque estão falando mal de operadoras no twitter que alguma coisa vai mudar.
Um problema não é mais grave porque é mais comentado.
Poderia ser. Deveria ser. Mas não é.
Exatamente porque a crítica essa crítica 2.0 às operadoras - será diluída num caldo de para-nossa-alegria-fotos-da-famosa-pelada-críticas-a-provedores-fofocas-do-dia e etc. que levarão a tal crítica ao status de irrelevante aos olhos do usuário.
É só mais uma crítica.
É só mais um twit.
Volátil e sem importância.
É a Regra da Diluição: quanto mais informação, menos importante é a informação.
Pense nisso: o fato de todo mundo gerar conteúdo, não torna todo conteúdo criado importante. Pelo contrário. Torna cada um de nós um filtro mais e mais afiado, que não dá importância a quase nada.
Aí você dirá: mas as redes sociais criaram a possibilidade de uma Manifestação Articulada que mostre a força do consumidor.
É mesmo? Então cite um exemplo onde isso funcionou.
No churrasco de gente diferenciada?
Sério?
Não me entenda mal.
Não estou negando a importância das redes sociais.
Não estou querendo ignorar a importância do colaborativo, do conteúdo gerado por usuário, da mobilização online, do power to the people ao poder da segunda tela para as emissoras.
Estou apenas incomodado de ouvir um discurso que dá a entender que a Banda Mais Bonita da Cidade é filhote do 2.0, que - por consequência - o sucesso está ao alcance de qualquer um.
Não está.
A Banda Mais Bonita da Cidade não somou +1 na lista de sucessos da MPB.
Apenas tirou o lugar de uma outra banda qualquer, mais feia, mas que teria ocupado esse espaço valendo-se dos meios antigos.
Você e sua banda continuam tendo uma chance mínima de se destacar.
E a propósito, seguindo a Regra da Diluição aí de cima, onde foi mesmo parar a Banda Mais Bonita da Cidade?
Em resumo:
1. Entrar no radar da massa continua tão difícil quanto no passado. A cobertura democrática é só uma ilusão.
2. A aparente democratização do acesso ao espectador, apenas sobrecarregou o próprio espectador e deixou qualquer mensagem mais volátil do que antes.
3. Se de um lado, qualquer mané tem cobertura mundial, 99.9% desses manés continua sem nada relevante para dizer.
4. Se você faz sucesso a partir deste mundo online, desconfio que você teria também feito sucesso no mundo offline.
5. Sucesso, hoje, dura muito menos tempo, porque todo dia tem alguém ocupando a atenção do consumidor.
6. Apesar de sua suposta “cobertura global”, sua chance aumenta quando você foca num nicho (e isso sim é novo: agora é possível focar em nichos que antes eram praticamente inacessíveis).
7. O resumo da ópera: não se deixe enganar. A Revolução 2.0 não torna o sucesso mais PROVÁVEL que no passado. Torna-o apenas POSSÍVEL.
E finalmente, mais do que nunca, vale a regra universal: você não se preocuparia tanto com o que pensam de você, se soubesse como pensam pouco em você.
Colaboraram (mas não necessariamente concordam) @aldera30 @matheusflandoli @fsbotton e @cavallini
Sunday, April 15, 2012
Suponho que Laura tenha conseguido alcançar um recorde mundial.
Laura teve oito filhos.
Não há nada de surpreendente nisso.
Os oito filhos tinham sete pais.
Duvido que alguém já tenha visto alguma coisa assim!
Foi Laura quem me deu minha primeira aula de biologia. Morava na casa vizinha à nossa, e eu a observava com atenção.
Via sua barriga crescendo durante meses.
Depois notava sua falta por um breve tempo.
E quando a via de novo, estava sem barriga nenhuma.
E o processo de fermentação recomeçava outra vez, dali a alguns meses.
Para mim aquilo era uma das maravilhas do mundo onde eu vivia, e sempre observava Laura. Ela mesma se mostrava bastante alegre com o que estava acontecendo. Costumava apontar para a barriga e dizer: "Esta coisa está acontecendo de novo, mas a gente acaba se acostumando depois das três ou quatro primeiras vezes. Mesmo assim, é um absurdo esse negócio".
Costumava pôr a culpa em Deus e falava da fraqueza dos homens.
Para seus primeiros filhos, ela experimentou seis homens diferentes.
Hat dizia: "Tem gente que é difícil de agradar".
Mas não quero dar a impressão de que Laura passava o tempo todo tendo filhos, espinafrando os homens e tendo pena de si mesma. Se Bogart era a pessoa mais entediada da rua, Laura era a mais animada. Estava sempre alegre e gostava de mim.
Ela me dava ameixas e mangas quando tinha; e, sempre que fazia biscoitos açucarados, me dava alguns.
Até minha mãe, que não gostava nem um pouco de risos, sobretudo em mim, até minha mãe ria de Laura.
Muitas vezes me dizia: "Não sei por que a Laura fica paparicando você. Até parece que já não tem filhos demais para criar".
Acho que minha mãe tinha razão. Mas não acho que uma mulher como Laura conseguisse um dia ter filhos em excesso. Ela amava todos os filhos, embora a gente pudesse não acreditar nisso, a julgar pela linguagem que usava quando falava com eles. Alguns gritos e xingamentos de Laura foram as coisas mais saborosas que ouvi na vida e nunca vou esquecer suas palavras.
Uma vez, Hat falou: "Puxa, ela é um verdadeiro Shakespeare quando se trata de usar as palavras".
Laura costumava gritar: "Alwyn, seu bugre de boca grande, venha já aqui".
E: "Gavin, se não vier aqui neste minuto vou fazer você peidar fogo, está ouvindo?".
E: "Lorna, sua piranha preta de perna torta, por que não presta atenção no que está fazendo?".
[...]
Um dos milagres da vida na Miguel Street era que ninguém passava fome. Se a gente sentar diante de uma mesa com lápis e papel e tentar entender como isso acontecia, vai achar impossível. Mas morei na Miguel Street e posso garantir a vocês que ninguém passava fome. Talvez tivessem fome, mas não se ouvia ninguém falar disso.
Os filhos de Laura cresceram.
A filha mais velha, Lorna, começou a trabalhar de empregada doméstica numa casa em St Clair e tinha aula de datilografia com um homem na Sackville Street.
Laura dizia: "Não tem coisa melhor do que educação neste mundo. Não quero que meus filhos fiquem que nem eu".
No devido tempo, Laura deu à luz seu oitavo filho, com bem pouco esforço como de costume.
Aquele foi seu último filho.
Não é que Laura estivesse cansada, ou que tivesse perdido seu amor pela humanidade, ou que tivesse perdido seu amor por fazer a humanidade aumentar. Na realidade, Laura nunca parecia ficar mais velha nem menos alegre. Sempre senti que, se tivesse a possibilidade, ela poderia continuar a ter filhos sem parar.
A filha mais velha, Lorna, chegou em casa vindo da aula de datilografia já tarde da noite e disse: "Mãe, vou ter um filho".
Ouvi o grito que Laura deu.
E pela primeira vez vi Laura chorar. Não era um choro comum. Parecia que estava chorando todo o choro que tinha guardado desde o dia em que nasceu, todo o choro que havia tentado encobrir com seus risos. Eu tinha ouvido pessoas chorarem em velórios, mas há muito exagero para impressionar os outros no choro delas. O choro de Laura naquela noite era a coisa mais terrível que eu tinha ouvido. Dava a sensação de que o mundo era um lugar estúpido, triste, e quase comecei a chorar junto com ela.
A rua inteira ouviu Laura chorar.
No dia seguinte, Boyee disse: "Não entendo por que a Laura ficou tão zangada por causa disso. Afinal, ela faz a mesma coisa".
Hat ficou tão revoltado que tirou seu cinto de couro e bateu em Boyee.
Eu não sei de quem eu tinha mais pena: de Laura ou de sua filha.
Eu tinha a impressão de que agora Laura estava com vergonha de aparecer na rua. Quando eu a vi, achei até difícil acreditar que era a mesma mulher que antes ria comigo e me dava biscoitos açucarados.
Estava velha agora.
Não gritava mais com os filhos, não batia mais neles. Não sei se estava cuidando melhor dos filhos ou se tinha perdido o interesse por eles.
Mas nunca ouvimos Laura dizer nenhuma palavra de censura em relação a Lorna.
Aquilo era terrível.
Lorna levou seu fiho para casa. Não houve nenhuma piada sobre o assunto na rua.
A casa de Laura era uma casa morta, silenciosa.
Hat disse: "A vida é mesmo uma coisa de doido. A gente pode até ver que o problema está vindo, mas não consegue fazer nadinha para impedir que aconteça. A gente só pode ficar parado, olhar e esperar".
Pelo que os jornais diziam, foi só mais uma tragédia de fim de semana, uma entre muitas.
Lorna afogou-se no Carenage.
Hat disse: " É o que elas sempre fazem, nadam e nadam para longe, até que ficam muito cansadas e não conseguem mais nadar".
Quando a polícia veio dar a notícia para Laura, ela falou muito pouca coisa.
Laura disse: "Está bem. Está bem. É melhor assim".
V. S. Naipaul - O Instinto Maternal - Miguel Street (1959)
Friday, April 06, 2012
Poema em Linha Reta
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Sunday, April 01, 2012
[...] o autoerotismo ainda não é igual ao narcisismo do eu: um novo ato psíquico deve ocorrer para que a tal unidade primitiva se forme e para que a criança se identifique com ela, ou seja, com seu próprio eu. Além da satisfação libidinal autoerótica, o infans haverá de identificar-se com o objeto privilegiado que ele representa frente ao amor e ao desejo de seus pais. A partir desse ponto, está estabelecida a base para a formação do ego freudiano, fonte de investimento libidinal (a partir de 1915, diremos: pulsional) e dessa forma particular de amor a que chamamos narcisista. Nesse ponto da constituição psíquica, Freud haverá de encontrar, em 1915, a relação narcísica com um objeto frustrante que marca a estrutura da melancolia.
O narcisismo primário forma a base para o narcisismo secundário, vulgarmente conhecido como a dose essencial de estima que o ego dedica a si mesmo. O qual, por sua vez, é tributário das desilusões sofridas pelos pais em relação às suas próprias fantasias narcisistas: os filhos representam uma renovação das velhas esperanças infantis dos adultos, contrariadas pela realidade da vida. Outra parte do narcisismo secundário resulta de suas eventuais experiências exitosas - tanto no sentido dos investimentos em direção aos ideais do ego quanto na busca de satisfação da libido objetal. O maior ou menor êxito na constituição do narcisismo secundário varia, a depender de que os investimentos objetais estejam ou não em sintonia com os ideais do ego - caso contrário, estes ficarão sujeitos ao recalque. A vicissitude bastante comum de se desejar o que não se deve, o que não se pode, o que não contribui para a valorização do ego, contribui decisivamente para a diminuição da autoestima dos neuróticos, quando não conduz a inibições que impedem os caminhos do desenvolvimento do ego, ou a soluções de compromisso sintomáticas.
Maria Rita Kehl - Melancolia e Criação. Luto e Melancolia - Sigmund Freud
Marcadores: Luto e Melancolia, Marilene Carone
Wednesday, March 28, 2012
O homem, o ser falante, se constitui pelo rompimento de sua harmonia com a natureza e, ao ter de abdicar de um destino guiado pela força instintiva, é impelido a tecer a singular trama pulsional de sua vida. A criança chega ao mundo expulsa de seu acolhimento natural. Ao nascer, ao perder o envoltório protetor da placenta, ela perde - perda materializada pelo corte do cordão umbilical; ao enfrentar o desmame, outra perda. E não é difícil acompanharmos as sucessivas perdas que a inserção no universo simbólico impõe e, em consequência, verificarmos o lugar do luto e seu trabalho ao longo de nossas vidas.
O que de fato é perdido quando todas essas perdas acontecem? Arriscaríamos dizer que luto e melancolia muitas vezes partilham uma mesma indagação, e que essas perdas que acontecem ao longo da vida poderão ou não ser significadas, simbolizadas, e receber um sentido que as farão caminhar na direção de um luto; em contrapartida, outra vicissitude poderá também ter lugar, e a perda ou as perdas permanecerem no vazio da falta de sentido, questão central da melancolia, materializada na dor da existência. Nessa direção, a procura do sentido da vida, a interrogação sobre a própria identidade ("Quem sou?") e o questionamento da existência ("Como existo?") justificam a relação entre a genialidade e a melancolia, tão presente na Antiguidade.
Por que razão todos os homens que foram homens de exceção, no que concerne à filosofia, à ciência do Estado, à poesia ou às artes, são manifestamente melancólicos, e alguns a ponto de serem tomados por males dos quais a bile negra é a origem, como contam, entre os relatos relativos aos heróis, os que são consagrados a Hércules?
Será o melancólico um enlutado na vida, aquele que não consegue uma resolução para suas perdas?
Freud insiste no que denomina "trabalho de luto". Ele não menciona os rituais através dos quais, ao longo da história, o homem pranteia seus mortos, porém, ao marcar o luto como ato, o luto como trabalho do eu (ego), chama a atenção para as consequências do abandono e do esquecimento desses rituais como processos de simbolização da dor.
Urania Tourinho Peres - Uma Ferida a Sangrar-lhe a Alma (posfácio à Luto e Melancolia - Sigmund Freud, tradução, introdução e notas por Marilene Carone)
Marcadores: Luto e Melancolia, Marilene Carone
Sunday, March 25, 2012
Então, em que consiste o trabalho realizado pelo luto? Creio que não é forçado descrevê-lo da seguinte maneira: a prova de realidade mostrou que o objeto amado já não existe mais e agora exige que toda a libido seja retirada de suas ligações com esse objeto. Contra isso se levanta uma compreensível oposição; em geral se observa que o homem não abandona de bom grado uma posição da libido, nem mesmo quando um substituto já se lhe acena. Essa oposição pode ser tão intensa que ocorre um afastamento da realidade e uma adesão ao objeto por meio de uma psicose alucinatória de desejo*. O normal é que vença o respeito à realidade. Mas sua incumbência não pode ser imediatamente atendida. Ela será cumprida pouco a pouco com grande dispêndio de tempo e energia de investimento, e enquanto isso a existência do objeto de investimento é psiquicamente prolongada. Uma a uma, as lembranças e expectativas pelas quais a libido se ligava ao objeto são focalizadas e superinvestidas e nelas se realiza o desligamento da libido.
* Complemento metapsicológico à doutrina dos sonhos (1917d)
Sigmund Freud - Luto e Melancolia. Tradução de Marilene Carone
Marcadores: Luto e Melancolia, Marilene Carone
Saturday, March 24, 2012
- Por quê? O que você quer fazer? - ela perguntou, embora soubesse a resposta. Dexter colocou a mão no pescoço dela, ao mesmo tempo que Emma tocava de leve no quadril dele, e os dois se beijaram no meio da rua, rodeados de pessoas que corriam para casa sob os últimos raios do sol de verão, e foi o beijo mais doce que já tinham sentido.
É onde tudo começa. Tudo começa aqui, hoje.
E logo depois termina.
- Bom, a gente se vê por aí - disse Dexter, começando a se afastar.
- Espero que sim - ela sorriu.
- Eu também. Tchau, Em.
- Tchau, Dex.
- Até mais.
- Até mais. Até mais.
David Nicholls - Um Dia
Marcadores: Luto e Melancolia, Marilene Carone
Sunday, March 18, 2012
Texto de Freud de 1917 explicita a natureza de nossas identidades
Reedição de tradução pioneira de Marilene Carone para Luto e Melancolia traz belos estudos introdutórios
VLADIMIR SAFATLE
Uma das inovações de Freud encontra-se na sua maneira de repensar as relações entre normalidade e patologia. Freud dizia que um cristal, quando se quebra, respeita os sulcos que existiam antes, mas que eram invisíveis ao olho humano. Assim, se quisermos entender a estrutura do cristal, devemos partir de seu estado quebrado.
Da mesma forma, se quisermos entender a estrutura da normalidade, devemos partir deste no qual a normalidade se quebra. Nada do que é patológico nos é estranho, pois ele diz em voz alta o que sentimos em silêncio.
Poucos são os textos de Freud em que vemos esse pressuposto em operação com tanta radicalidade quanto em Luto e Melancolia.
A nova edição da tradução (a primeira digna desse nome em língua portuguesa) de Marilene Carone (1942-1987), traz dois belos estudos escritos por Maria Rita Kehl e Urania Tourinho, além de uma introdução à tradução.
Um dos méritos do texto está em sua capacidade de inserir a etiologia da melancolia no interior de uma reflexão mais ampla sobre as relações amorosas.
Freud sabe que o amor não é apenas o nome que damos para uma escolha afetiva de objeto. Ele é a base dos processos de formação da identidade subjetiva. Esta é uma maneira de dizer que as verdadeiras relações amorosas colocam em circulação dinâmicas de formação da identidade, já que tais relações fornecem o modelo elementar de laços sociais capazes de socializar o desejo.
Isto talvez explique por que Freud aproxima luto e melancolia a fim de lembrar que se tratam de duas modalidades de perda de objeto amado.
Um objeto de amor foi perdido e nada parece poder substituí-lo. No entanto, o melancólico mostraria algo ausente no luto: o rebaixamento brutal do sentimento de autoestima. Como se, na melancolia, uma parte do Eu se voltasse contra si próprio, através de autorrecriminações e acusações.
A tese fundamental de Freud consiste em dizer que ocorreu, na verdade, uma identificação do Eu com o objeto abandonado de amor.
Tudo se passa como se a sombra desse objeto fosse internalizada, como se a melancolia fosse a continuação desesperada de um amor que não pode lidar com a situação da perda.
Incapacidade vinda do fato de a perda do objeto que amo colocar em questão o próprio fundamento da minha identidade. Mais fácil mostrar que a voz do objeto ainda permanece em mim, isto através da autoacusação patológica contra aquilo que, em mim, parece ter fracassado.
Essa é uma maneira de dizer que a melancolia é o cristal quebrado que nos mostra a natureza radicalmente relacional de nossas identidades. Conhecer tal natureza sempre foi a melhor forma de lidar com seus desafios.
Marcadores: Luto e Melancolia, Marilene Carone
Saturday, March 10, 2012
JOSÉ ROBERTO TORERO
A inveja é uma meta
Ver algo único é fazer parte de um clube seleto, de uma seita misteriosa, é ser também único
Caro leitor, já que só estamos nós dois aqui neste texto, vamos ser francos um com o outro: Fazer inveja nos outros é ótimo, não é? Não, claro, você tem razão, isso não é uma coisa bonita. Mas fazer uma invejazinha de vez em quando, para aquele primo chato ou para o cunhado que gosta de contar vantagem, é uma delícia, não é?
Daí eu pergunto: O que causa inveja? E eu respondo: Coisas que só você pode fazer, ver ou ter.
Desses três verbos, o terceiro causa a inveja mais chocha. Dependendo do objeto adquirido, ele provoca apenas cócegas invejentas. Por exemplo, uma Ferrari está tão longe de minhas posses, e mesmo de meus desejos [minha bagunça do banco traseiro (livros, sacolas, pastas, roupas e, não sei por quê, um chapéu de caubói) jamais caberia numa Ferrari], que nem ligo quando uma máquina vermelha emparelha ao meu lado no congestionamento.
O fazer tem o mesmo problema. Quando alguém me conta que realizou uma caminhada de 180 quilômetros, em vez de pensar "também quero", penso "bem feito".
Mas o ver, não. O desejo de ver é universal. Seja um desastre ou uma linda paisagem, ver algo raro ou belo sempre causa inveja.
E agora, com cinco parágrafos de atraso, finalmente chegamos ao futebol, pois aos fãs do esporte bretão, algo que causa muita inveja é quando o outro viu um lance que se tornou mitológico. Alguns (na verdade, muitos) até mentem para obter essa inveja. Tanto que já perdi a conta das pessoas que me contaram que estavam no Juventus x Santos em que Pelé fez aquele gol em que deu vários chapéus. Nem se a Rua Javari fosse o Morumbi.
Pois bem, caro leitor, e com prazer eu vos digo que, na última quarta-feira, eu estava na Vila Belmiro quando Neymar fez aquele gol. Vi as pernas velozes do garoto gingarem para lá e para cá num ritmo alucinante por 60 metros. E vi seu toque sutil para encobrir o goleiro. Ao vivo e em preto e branco.
Todos os torcedores que estavam perto de mim reagiram do mesmo modo: primeiro gritamos palavrões de satisfação, depois nos cumprimentamos emocionados, como se nos déssemos parabéns por estar ali. Aliás, sempre que encontrar com os sujeitos que estavam ao meu lado naquela partida, trocaremos um pequeno aceno, como se fizéssemos parte de uma sociedade secreta.
Pode ficar com inveja, meu caro. Ainda mais se você é santista.
O quê? Você também estava lá? Pronto, começaram as mentiras...
Sunday, March 04, 2012
CIÊNCIA
A mitologia das idéias
O "brainstorming" vs. o poder dos introvertidos
RESUMO Recentes descobertas na psicologia e na neurociência colocam por terra fórmulas pré-fabricadas sobre como surgem as boas ideias. Livros publicados nos EUA explicam por que o "brainstorming" não funciona e as pessoas trabalham melhor sozinhas, embora a razão humana evolua para o saber coletivo.
HÉLIO SCHWARTSMAN
ilustração DEBORAH PAIVA
COMO TEMOS BOAS IDEIAS? A questão não é trivial e já mobilizou de pensadores do porte de Platão, Descartes e David Hume a empresários preocupados em aumentar a produtividade de seus funcionários. Como não poderia deixar de ser, métodos ditos infalíveis para obtê-las enchem as estantes das seções de livros de autoajuda.
A maioria dessas receitas está errada. E a razão é muito simples: o mundo é um lugar complexo demais para ser subsumido por meia dúzia de fórmulas pré-fabricadas. Para tornar as coisas um pouco mais complicadas, muitas vezes topamos com uma boa ideia sem conseguir identificá-la como tal.
Recentes descobertas na psicologia e na neurociência, ainda que não permitam produzir um guia da criatividade passo a passo, pelo menos servem para descartar determinados mitos que insistem em se perpetuar.
"BRAINSTORMING"
O mais célebre deles é o do "brainstorming". Como conta o escritor Jonah Lehrer em recente artigo para a revista The New Yorker, o conceito surgiu no livro Your Creative Power (Myers Press). Nesta obra de 1948, ainda em catálogo, o publicitário norte-americano Alex Osborn, sócio da mítica agência BBDO, prometia dobrar o poder criativo do leitor.
O livro, que foi um inesperado best-seller, trazia conselhos como "carregue sempre um caderninho, para não ser surpreendido pela inspiração". O ponto alto, contudo, estava no capítulo 33, intitulado "Como organizar um esquadrão para gerar ideias". Osborn dizia que o segredo do sucesso de sua agência eram as sessões de "brainstorming", nas quais uma dezena de publicitários se reunia por 90 minutos e saía com 87 novas ideias para uma "drugstore".
A principal regra de um "brainstorming" era "não critique o companheiro". Para Osborn, "a criatividade é uma flor tão delicada", que precisa ser alimentada com o louvor e pode ser destruída por uma simples palavra de desencorajamento.
A coisa pegou como uma praga. Osborn escreveu vários outros best-sellers e virou guru da literatura de negócios. Os pedagogos também adoraram e até hoje nossos filhos perdem precioso tempo na escola se dedicando a atividades de grupo onde o mantra é jamais criticar o coleguinha, mesmo que ele diga uma tremenda besteira.
O principal problema com o "brainstorming" é que ele não funciona. Como mostra Lehrer, o conceito fracassou já em seu primeiro teste empírico, em 1958. Pesquisadores da Universidade Yale puseram dois grupos de 48 estudantes para propor soluções criativas para uma série de problemas. No primeiro, os voluntários atuariam segundo as instruções de Osborn; no segundo, cada aluno trabalharia sozinho. Estudantes que operaram individualmente apresentaram, em média, duas vezes mais propostas que os do "brainstorming". Mais ainda, um comitê de juízes considerou essas contribuições melhores e mais factíveis que as do primeiro grupo.
ARQUITETURA
Outra noção popular e errada é a de que laboratórios e escritórios devem ter uma arquitetura que praticamente obrigue as pessoas a interagirem, favorecendo "insights" criativos. Essa moda derrubou muitas paredes, e grandes empresas se tornaram um imenso átrio, onde todos se encontravam o tempo inteiro. Estima-se que cerca de 70% dos escritórios dos EUA sigam esse padrão. Um dos maiores entusiastas do conceito de arquitetura de plano aberto era Steve Jobs, da Apple.
Como mostra Susan Cain, no recente Quiet: The Power of Introverts in a World that Can't Stop Talking [Crown, 352 págs., R$ 26] , a relação entre interações sociais e boas ideias é mais sutil. Num estudo chamado Coding War Games, Tom Demarco e Timothy Lister avaliaram a performance de 600 programadores de informática de mais de 90 companhias.
A diferença entre os profissionais era impressionante: o desempenho do melhor superou o do pior em dez vezes. E, para tornar as coisas mais misteriosas, as causas suspeitas de sempre - como experiência, salário, tempo dedicado à tarefa - não explicavam o fenômeno.
Demarco e Lister, entretanto, perceberam que os melhores programadores tendiam a agrupar-se nas mesmas firmas. Investigando essa pista, descobriram que o segredo era a privacidade: 62% dos que se saíram bem disseram que seu lugar de trabalho oferecia um ambiente reservado onde podiam se concentrar, contra apenas 19% dos que tiveram pior performance.
INTROVERTIDOS
O objetivo de Cain, nesse interessante livro que pretende ser uma espécie de manifesto de libertação dos introvertidos, é demonstrar que as pessoas precisam respeitar seu temperamento. Especialmente para os tímidos, em geral super-representados nas carreiras científicas, o excesso de interações sociais é amedrontador. Eles se saem melhor em ambientes mais tranquilos, onde sua atenção não seja requisitada para desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo.
O problema, sustenta a autora, que largou a advocacia para dedicar-se ao estudo da introversão e à orientação para tímidos, é que o mundo - o Ocidente em especial - abraçou uma cultura da personalidade, cujos valores são ditados por um ideal de extroversão. Quem não consegue ou não gosta de falar em público e motivar as pessoas já sai perdendo pontos na carreira e na própria vida.
Voltando à criatividade, antes de eliminar todas as reuniões de sua empresa, construir paredes por todos os lados e proibir os funcionários de trocar bom-dia, é preciso saber que o problema é mais complexo e nuançado.
Embora as pessoas de um modo geral trabalhem melhor sozinhas (especialmente os introvertidos), a criação continua sendo um processo coletivo. Na verdade, cada vez mais coletivo.
Ben Jones, da Northwestern University, passou os últimos 50 anos analisando quase 20 milhões de publicações acadêmicas e 2,1 milhões de patentes. Em mais de 95% dos campos e subcampos científicos, o trabalho de equipe vem crescendo. O mesmo ocorre com o tamanho das redes de colaboradores, que aumenta em média em 20% a cada década.
Se até um ou dois séculos atrás a ciência podia gravitar em torno de gênios individuais como Einstein e Darwin, à medida que ela se torna mais complexa e especializada, avanços significativos dependem cada vez mais da interdisciplinaridade que, por seu turno, depende de redes cada vez maiores.
A ideia de saber coletivo ganhou inesperado apoio no ano passado, com a publicação de um impactante artigo dos pesquisadores franceses Hugo Mercier e Dan Sperber, que virou do avesso alguns dos pressupostos da filosofia e da psicologia. Eles sustentam que a razão humana evoluiu -não para aumentar nosso conhecimento e nos aproximar da verdade, mas para nos fazer triunfar em debates.
A teoria, dizem os autores, não só faz sentido evolutivo como resolve uma série de problemas que há muito desafiavam a psicologia: os chamados vieses cognitivos.
EXPERIMENTO
Antes de prosseguir, peço licença para descrever uma experiência curiosa. O psicólogo Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire, resolveu espalhar 240 carteiras pelas ruas de Edimburgo. Elas não continham dinheiro, apenas documentos de identidade, cartões de fidelidade, bilhetes de rifa e fotografias pessoais.
A única variação eram as fotos. Algumas das carteiras não tinham foto nenhuma e outras traziam imagens que podiam ser de um casal de velhinhos, de uma família reunida, de um cachorrinho ou de um bebê.
A meta do experimento era descobrir se a fotografia afetaria a taxa de devolução das carteiras. Num mundo perfeitamente racional, a imagem seria irrelevante. Devolve-se o objeto perdido porque é a coisa certa a fazer. O trabalho de colocá-lo numa caixa de correio não é tão grande assim, e é o que gostaríamos que os outros fizessem, caso nós é que tivéssemos perdido os documentos.
É claro, porém, que as fotografias influíram nos resultados. Foram devolvidas apenas 15% das carteiras sem foto, pouco mais de 25% das que traziam a imagem dos velhinhos, 48% das da família, 53% das do filhotinho e 88% das do bebê.
O experimento ilustra como o cérebro opera. Embora tenhamos nos acostumado a pensar que tomamos decisões pesando prós e contras de cada uma das alternativas possíveis e extraindo com base nisso uma conclusão, o que os estudos psicológicos e neurocientíficos mostram é que, na maioria das ocasiões, a parte inconsciente de nossa mente chega de imediato a uma conclusão, por meio de sentimentos, palpites ou intuições. Neste instante, são os vieses cognitivos que estão operando.
Em seguida, a porção racional de nosso cérebro se põe a procurar e elaborar argumentos racionais (ou quase) para justificar essa conclusão. É muito mais uma conta de chegada do que um cálculo honesto.
SIGNIFICADO
O neurocientista norte-americano Michael Gazzaniga trabalha bem essa questão. Ele identifica no hemisfério esquerdo estruturas que buscam dar sentido ao mundo. O pesquisador as chama de "intérprete do hemisfério esquerdo". É ele que busca desesperadamente um significado unificado a todas as nossas experiências, memórias e fragmentos de informação.
Ele nos faz deixar de ver as evidências que não nos interessam e atribui enorme peso a tudo o que apoia a nossa tese. Quando a história não fecha, pior para a verossimilhança: o intérprete não hesita em criar desculpas esfarrapadas e explicações que beiram o delírio.
Quem resume bem a situação é Robert Wright, em Animal Moral (Campus BB, 2005, esgotado): "O cérebro é como um bom advogado: dado um conjunto de interesses a defender, ele se põe a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Como um advogado, o cérebro humano quer vitória, não verdade; e, como um advogado, ele é muitas vezes mais admirável por sua habilidade do que por sua virtude".
Voltando ao trabalho de Mercier e Sperber, ele é bom porque consolida numa argumentação sólida explicações evolutivas para vários dos vieses, em especial o "viés de confirmação", pelo qual fechamos os olhos para as evidências que não corroboram nossas crenças e expectativas e sobrevalorizamos aquelas que apoiam nossas teses.
Sob o modelo clássico, o viés de confirmação é uma falha de raciocínio mais ou menos inexplicável. Mas, se a razão evoluiu para nos fazer vencer em debates, então faz sentido que eu busque apenas provas em favor da minha teoria, e não contra ela.
As implicações são fortes. A mais óbvia é que a razão só funciona bem como fenômeno social. Se pensarmos sozinhos, vamos muito provavelmente chafurdar cada vez mais em nossas próprias intuições e preconceitos. Mas, se a utilizarmos no contexto de discussões mais ou menos estruturadas, aumentam bastante as chances de, como grupo, nos darmos bem.
Temos então um aparente paradoxo: as pessoas trabalham melhor sozinhas, mas a construção do conhecimento é um processo coletivo. O ruído se dissolve se reinterpretarmos o "sozinhas" como "com privacidade, mas em constante diálogo (de preferência virtual) com outros especialistas".
PATOLOGIAS
É preciso, porém, muito cuidado. A linha que separa a sabedoria das multidões dos delírios coletivos é tudo menos nítida. Como mostra toda uma linha de pesquisas iniciada por Irving Janis, da Universidade Yale, nos anos 70, grupos incubam uma série de patologias do pensamento.
A primeira delas é a polarização. Junte um punhado de gente com opiniões semelhantes, deixe-os conversando por um tempo e o grupo sairá com convicções mais parecidas e mais radicais. Provavelmente é assim que nascem facções como o Tea Party, que reúne ultraconservadores radicais nos EUA, e até mesmo organizações terroristas. O advento da internet e das redes sociais pode estar facilitando a formação desses bandos.
A animosidade é outro elemento importante. Ponha um corintiano e um palmeirense para discutir futebol numa sala. Eles discordarão, mas provavelmente se tratarão com civilidade. Entretanto, se você colocar cem de cada lado, quase certamente produzirá xingamentos e até pontapés, quando não tragédias.
Há, por fim, a conformidade. Grupos tendem a suprimir o dissenso. Mais do que isso, procuram censurar dúvidas que um dos membros possa nutrir e ignorar evidências que contrariem o consenso que se forma. É esse o segredo do sucesso das religiões.
Nesse contexto, são especialmente divertidos os experimentos do psicólogo Solomon Asch. Ele submeteu 123 voluntários a um teste tão ridiculamente fácil que ninguém poderia errar: exibia para eles um cartão que trazia estampada uma linha com determinado comprimento. Em seguida, num segundo cartão, apareciam três linhas marcadas com letras de A a C, umas com medidas bem diferentes das outras. A missão era identificar a letra cuja linha era igual à do primeiro cartão. Em 35 tentativas, apenas um infeliz deu a resposta errada.
Mas (sempre há um "mas" em ciência), quando o pesquisador pôs comparsas seus para dar propositalmente respostas erradas antes do voluntário, a taxa de acertos despencava de 97% para 25%. Resultados parecidos foram reproduzidos em no mundo inteiro.
As incursões de Asch pelos perigos da conformidade inspiraram outros experimentos famosos, como os de Stanley Milgram (no qual, pressionadas por um pesquisador, as cobaias não hesitam em dar choques que acreditam ser quase fatais num ator) e de Phil Zimbardo (ele simulou uma prisão num porão da Universidade Stanford, e os voluntários que faziam o papel de guardas se tornaram tão violentos que a encenação teve de ser interrompida).
DÚVIDA
O melhor remédio contra essas doenças do grupo é semear a dúvida, em especial se o questionamento surgir de um membro respeitado do próprio grupo. Como mostram Ori e Rom Brafman em Sway: The Irresistible Pull of Irrational Behavior [Broadway Books, 224 págs., R$ 19] , a existência de pessoas "do contra" ("dissenters", em inglês) são nossa melhor esperança.
Embora possa produzir fricções de alto custo emocional para todas as partes envolvidas, a figura do "dissenter" costuma levar a maioria a reformular seus argumentos (ou projetos), de modo a responder a objeções percebidas como relevantes. Essa dinâmica fica particularmente clara em situações como a de tribunais colegiados, comissões legislativas e na própria ciência. É praticamente o inverso de um "brainstorming", onde a regra era não criticar.
O "do contra" aqui, ainda que possa provocar brigas homéricas, é um elemento fundamental para melhorar a qualidade do trabalho. O diálogo, vale frisar, nem precisa ser ao vivo. É preciso criar mecanismos que questionem os consensos.
Embora não exista receita para ter boas ideias, é possível melhorar seu desempenho se conseguir trabalhar num ambiente que lhe proporcione privacidade e o poupe de interrupções. Normalmente, é melhor estar sozinho, mas sem jamais se alijar dos debates travados em seu campo de atuação.
Quando precisar juntar colaboradores, mais vale reunir grupos heterogêneos, com um número razoável de pessoas "do contra". Eles reduzem os riscos das patologias da conformidade. Em vez dos elogios, prefira as críticas. Apesar de desgastantes, são elas que vão ajudá-lo a melhorar suas ideias. E, mais importante, não acredite em fórmulas prontas.
Saturday, March 03, 2012
ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
Livros sobre o nada
Pouco acompanho a produção contemporânea de ficção, mas recaídas acontecem, e uma delas é o tema de hoje: o romance There But for The, da escocesa Ali Smith (ainda inédito no Brasil), um dos mais citados nas listas estrangeiras de melhores de 2011.
A história é assim: um pessoal se reúne para jantar e, por razões desconhecidas, um dos convidados se levanta, tranca-se em um quarto e dali não sai.
A partir daí, não acontece absolutamente nada. Mas descobrir que não está acontecendo nada não é missão fácil. É preciso decifrar a prosa de Ali Smith e desbastar a estrutura narrativa. A autora é do tipo que, se pode complicar, complica.
O que, em si, não é mau, como sabemos nós, leitores masoquistas. Se é para sofrer, a gente topa. Mas tem de haver uma troca, um pote de ouro no final desse caminho tortuoso. Ou pote nenhum - mas aí é preciso que o percurso, ainda que difícil, apresente beleza e originalidade.
Infelizmente, não é o caso de There But for The. Ele não tem uma história boa para contar. Tampouco a estrutura é super inovadora. Em princípio, nem valeria ocupar este espaço. Só está aqui porque, talvez, seja um símbolo importante do estado atual da literatura.
Que virou, a meu ver, essa coisa psicologizante, de fluxo de consciência, jogos de palavras, falação interminável, em geral na primeira pessoa. Narrativas que só se ocupam de si próprias. É só uma tese, admito, e não das mais elaboradas. Mas There But for The se encaixa perfeitamente nela. Uma literatura que trata do vácuo. E que, detalhe importante, tem como único referencial o próprio mundo dos livros.
Dei uma olhada na biografia de Ali Smith. Bingo. Formada em letras na Escócia, depois pós-graduação em Cambridge, depois participações em sabe-se lá quantos grupos de estudo... Vida fora dos livros? Não encontrei.
No romance, a literata Smith tem um "protagonista": o solteirão de meia-idade Miles Garth, aparentemente assexuado e, claro, literato também. É ele que se tranca no quarto. O jantar acontece em Greenwich, subúrbio ao sul de Londres, sede do observatório famoso.
O evento é promovido por um casal yuppie que, para parecer moderno, reúne em casa, às vezes, pessoas de perfis "exóticos".
À mesa, estão Miles, seu conhecido Mark, um casal meio bronco, um casal erudito e a filha deste, Brooke, superdotada de nove anos, que os pais tratam como adulta e levaram ao jantar sem avisar os anfitriões. É um ambiente tenso.
Com perdão da heresia, lembra um pouco a refeição oferecida logo depois do velório de Marmieládov, em Crime e Castigo. São semelhantes a atmosfera pesada, o desconforto, as ironias, as acusações.
Mas, enquanto a profundidade psicológica dos personagens de Dostoiévski é objeto de estudo há quase 150 anos, na cena criada por Ali Smith é tudo esquemático e politicamente correto.
Os donos da casa são cabeças de vento fúteis, classe média em busca de status. O casal negro é sensato e erudito. No outro casal, xucro, o marido é homófobo desbocado, mas mantém, secretamente, um caso gay com outro convidado, Mark, que é judeu, filho de uma famosa artista suicida. Isso não é uma lista de personagens. É um inferno de boas intenções.
Que fique claro: There But for The não é banal ou mal escrito. Smith mostra imaginação e erudição. Brinca à vontade com as palavras, faz referências a dezenas de livros, parodia autores etc. etc.
E a estrutura é criativa. Conta a história de Miles Garth sob a perspectiva de quatro pessoas que mal sabiam quem ele era: uma conhecida de adolescência; Mark (que o levou ao jantar); a mãe velhinha de uma ex-namorada; e a menina Brooke. Mas não passa disso.
Ouvi recentemente de um amigo, infinitamente mais bem informado que eu sobre literatura atual, que ele nunca tinha ligado para histórias policiais, mas vinha se interessando cada vez mais pelo gênero.
Compreende-se: bons enredos estão em falta. E os romances policiais são uma ótima fonte. Como o Agente Secreto (1907), de Joseph Conrad, também passado em Greenwich, e ao qual existem várias referências em There But for The. O livro de Ali Smith teve ao menos esse mérito. Fui buscar O Agente Secreto na estante. Uma história, afinal.
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