Sunday, November 18, 2012


1.

A respeito do trato negreiro, frei Antônio de São Domingos ensinava na Universidade de Coimbra no final do século XVI: "Ou consta que o rei nenhum cuidado tem neste negócio, ou não consta. Se consta, ninguém pode comprar estes negros, salvo quem quiser fazer essa diligência; se não consta, então deve presumir-se que tudo se faz retamente, pois esse múnus só a eles pertence e deve crer-se que eles o cumprem perfeitamente, doutro modo faz-se-lhe uma injúria manifesta. Por consequência, podemos comprar negros, com a consciência tranquila, enquanto as coisas assim estiverem", d. A. de C. X. MONTEIRO, "Como se ensinava o direito das gentes na Universidade de Coimbra no século XVI", Anais, 2ª sér., vol. 33, 1993, Lisboa, pp. 9-36, pg. 26.

2.

Patterson observa que todas as sociedades estratificadas nascem da apropriação violenta de indivíduos por outros indivíduos. Na maioria dos casos, esse ato de "acumulação original" se restringe à pré-história das sociedades e se perde nela. Mas, no sistema escravista, o ato de reificação dos dominados é continuamente renovado. Sobretudo no Brasil, ajunto eu, onde o sistema escravista - unido de 1550 a 1850 ao circuito atlântico negreiro - permaneceu inteiramente baseado na pilhagem das aldeias africanas. Daí a importância de se atinar com os sucessivos argumentos teológicos e jurídicos que, ao longo desses três séculos, legitimam a etapa inicial, africana, do trato negreiro, momento decisivo da fundamentação legal do escravismo.

No quadro de contínua violência que envolvia a escravização dos africanos, os documentos epístolares traem, por vezes, os sentimentos ambíguos suscitados pelas razias. Com tintas vivas, padre Baltazar Afonso descreve uma das entradas de Dias Novais.

Nesse tempo [1580] tinha já o governador 300 portugueses consigo e alguns 200 escravos de portugueses, e havendo falta de mantimentos os começaram de buscar pela ponta de espingarda, onde deram 4 ou 5 assaltos em que faziam grande destruição, queimando e assolando tudo, e trazendo infinidade de mantimento que a todos fartou. Aqui aconteceu que indo um pai com um filho fugindo dos nossos, vendo que não podia salvar seu filho, se virou para os nossos e despediu quantas frechas tinha, até que o mataram sem se querer bulir de um lugar, para o filho se esconder. E o pai acabou e se foi ao inferno".

Vocabulário direto, narrativa realista, operação de rapina explícita e gesto extremado de heroísmo paternal. A emoção vertida quase até o fim do texto pela luta desesperada do pai ambundo é, entretanto, estancada pelo juízo sem remissão: "E o pai acabou e se foi ao inferno". Não para este nosso inferno fuleiro, cujas fornalhas apagadas a Igreja wojtyliana e os pregadores pentecostais tentam debalde reacender. Mas o inferno quinhentista, imaginado pela ruralidade ibérica, pelas labaredas da Inquisição, mortalha dos infiéis, heréticos, idólatras e canibais combatidos pelo mundo afora pelos cabos de esquadra e missionários.

A ânua da província de Portugal de 1588 enfatiza a preeminência da guerra colonial sobre a catequese em Angola: "Convém que o reino todo se sujeite para mais seguramente e de raiz enformar esta gentilidade e arrancar a idolatria". Enformar, plasmar os nativos na sociedade colonial. No mesmo diapasão, o relatório do visitador Pero Rodrigues mandava os missionários não batizarem nenhum nobre do reino do Dongo até que a terra inteira estivesse toda avassalada.

Entretanto, a substituição dos sobas angolanos pelos capitães e padres na tutela dos sobados fora interrompida pela ordem régia de 1592, extinguindo o regime dos amos. O próprio Filipe II, e não só clérigos inconformistas ou moradores invejosos, recusava a posse e o trato de "peças" empreitado pelos jesuítas. A resposta inaciana veio num duplo registro. Por um lado, os missionários desafiam a autoridade régia e promovem o motim dos amos. Por outro lado, os argumentos pró-escravistas dos jesuítas ajustam-se ao pensamento mercantil coevo, como o demonstra um texto emblemático redigido pelos jesuítas de Angola, depois de discussão com seus correligionários do Brasil.

Não há escândalo nenhum em padres de Angola pagarem suas dívidas em escravos. Porque assim como na Europa o dinheiro corrente é o ouro e prata amoedada, e no Brasil o açúcar, assim o são em Angola e reinos vizinhos os escravos. Pelo que, quando os padres do Brasil nos mandam o que lhe de cá pedimos, como é farinha [de mandioca], e madeira para portas e janelas, e quando os donos das fazendas que vêm a esta parte nos vendem biscoito, vinho e outras coisas, não querem receber de nós a paga em outra moeda, senão na que corre pela terra, que são escravos. Dos quais se carregam cada ano para o Brasil e Índias.

3.

"Marca", em quimbundo, se diz karimuKarimbo era o ferrete oficial de prata ou ferro esquentado na brasa com que se marcavam os negros no momento do embarque, no ato da cobrança dos direitos de exportação. Daí as palavras carimbo e carimbar. Dessa sorte, o substantivo e o verbo - mais usados na língua portuguesa do Brasil - definindo as hierarquias, o escopo da propriedade, a validade dos documentos, a autoridade pública exercida pelo Império e pela República brasileira, derivam do gesto, do instrumento que imprimiria chancela legal ao comércio de humanos. Da palavra que situa o momento preciso da reificação do africano.

4.

Formado em Direito em Coimbra e estabelecido na Bahia, o padre Ribeiro Rocha dedica parte de seu tratado "teológico-jurídico", Ethiope resgatado (1758), cuja edição foi inteiramente vendida no Brasil, aos éditos doutrinários sobre o papel evangelizador reservado aos donos de escravos. Sobretudo quando estes vinham diretamente dos sertões africanos: "Tudo quanto os teólogos dizem da Doutrina Cristã, que os pais devem ensinar a seus filhos, declaram que procede igualmente nos senhores a respeito de seus escravos e, especificamente falando, dos que saíram da infidelidade [na África]". Rebatendo a crença de que os escravos pareciam faltos de entendimento e, por isso, infensos ao cristianismo, o padre Ribeiro Rocha retrocede à doutrina pré-tridentina para afirmar o caráter mágico da oração: um papagaio a quem ensinaram rezas "valeu para livrar milagrosamente a vida, o repetir a ave-maria em ocasião que nas unhas o levava o gavião". Se até as aves americanas recebiam "milagrosamente" a proteção do manto divino ao papaguear orações, os africanos também podiam habilitar-se a tanto, bastando para isso que os senhores empregassem diligência e perseverança. Dessa forma, a teoria negreira jesuíta ajuda a compor o patriarcalismo senhorial luso-brasileiro.


Luiz Felipe de Alencastro - A Teoria Negreira Jesuítica - O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul.

Tuesday, November 13, 2012



Pesquisa revela, em números, realidade carcerária do país 

Nos últimos 20 anos, a população carcerária do país cresceu 350% até chegar a mais de meio milhão de presos, atrás apenas dos Estados Unidos, China e Rússia

Por Natasha Pitts, da Adital 

O Brasil tem hoje a 4ª maior população carcerária do mundo, são 514.582 pessoas privadas de liberdade por crimes como tráfico de drogas e roubo. A informação é de “Direito Direito”, equipe que presta serviço de informação jurídica para leigos, e foi divulgada no infográfico O Brasil atrás das grades, na última semana.

Nos últimos 20 anos, a população carcerária do país cresceu 350% até chegar a esta cifra de mais de meio milhão, que fica atrás apenas dos Estados Unidos, com 2,2 milhões de presos; da China, com 1,6 milhão e da Rússia, com 700 mil presos.

Devido a este crescimento na quantidade de presidiários/as, o Brasil também ampliou a quantidade de vagas nas penitenciárias nos últimos anos. Em 1990 havia 60 mil vagas, agora em 2012 são 306 mil, aumento de 410%. Mesmo com esta ampliação, a carência é de 208.085 vagas nas 1.312 unidades prisionais brasileiras.

O infográfico mostra que destas quase 515 mil pessoas 93,7% são homens e 6,3% são mulheres. Quanto à escolaridade dos detentos, 275,9 mil terminaram o ensino fundamental, 89,2 mil terminaram o ensino médio, 58,4 mil são apenas alfabetizados, 26,6 mil são analfabetos e 5,6 mil concluíram o ensino superior.

“Direito Direito” revela que quase 135 mil presos estão na faixa etária de 18 a 24 anos; 117,7 têm entre 25 e 29 anos e 84,4 mil têm entre 30 e 34 anos. Outro dado divulgado pela equipe é que, de acordo com o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), os negros representam quase 60% (275 mil) do total de detidos.

Os motivos que levam estes milhares de pessoas para trás das grades são quase sempre os mesmos: tráfico de drogas (125 mil presos) e crimes patrimoniais, como furto, roubo e estelionato (240 mil presos). Em suma, o infográfico revela que apenas nove modalidades criminosas são responsáveis por 94% das prisões.

O Artigo 1º da Lei de Execução Penal diz que a função da prisão é proporcionar condições harmônicas para a integração social do condenado. No entanto, sabe-se que este papel não é cumprido por conta das péssimas condições encontradas nestes locais. Um exemplo é a superlotação. Por lei, cada condenado tem direito a 6 metros de cela, mas na prática, nas prisões mais superlotadas, eles acabam tendo disponíveis apenas 70 cm.

E muitos enfrentam esta realidade por anos a fio, chegando até mesmo a cumprir pena sem terem sido julgados, nem sequer em primeira instância, o que é o caso de 30% dos/as detentos. No total, são 173 mil presos provisórios que aguardam uma decisão sobre suas vidas.

Muitos não estão dispostos a esperar e tentam fugir. Nos últimos 12 meses, apenas nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas, Goiás, Pernambuco, Ceará, Maranhão e Pará foram registradas mais de 354 fugas. Na outra ponta, os estados com menor índice de fugas foram Rio de Janeiro e Sergipe, com menos de 19 fugas no último ano.


Para mais informações, acesse: http://www.direitodireto.com/

http://revistaforum.com.br/blog/2012/11/pesquisa-revela-em-numeros-realidade-carceraria-do-pais/

Leia também:

Carandiru – a tragédia, 20 anos depois - http://revistaforum.com.br/blog/2012/11/a-tragedia-20-anos-depois/

Um sistema que não funciona - http://revistaforum.com.br/blog/2012/11/um-sistema-que-nao-funciona/

Sunday, November 11, 2012



Nascimento no meio do oceano

Roberto Pompeu de Toledo - 05 de Julho de 2000 - VEJA

Prepare-se o leitor interessado em História do Brasil para um festim. O Trato dos Viventes, de Luiz Felipe de Alencastro (Companhia das Letras; 525 páginas; 36 reais) oferece uma exibição de inteligência, erudição, visão e domínio seguro do assunto em níveis de virtuose. O tempo do livro são os séculos XVI e XVII, os dois primeiros do país que começava a ser o Brasil. O espaço vai além do que hoje configura o Brasil: é o Atlântico Sul como um todo, África e América somados. O Trato dos Viventes é fruto de 25 anos de pesquisa e meditação sobre o tema. Alencastro, que se graduou na França e ali se doutorou, já expunha algumas de suas idéias básicas em artigos que publicou em Paris no final da década de 70. Hoje professor de História do Brasil na Universidade de Paris (Sorbonne), além de colunista de VEJA, ele afirma que se sentirá recompensado se "a imensidade de anos" que dedicou ao trabalho vier mostrar a jovens historiadores que "dá para costurar um livro devagarinho, sem perder as estribeiras, as universitárias e outras".

Como todo livro com uma proposta clara, O Trato dos Viventes é fácil de descrever. Esqueça o mapa do Brasil, eis a primeira providência que se sugere ao leitor. Tomar o mapa atual e transpô-lo às origens, privilegiando-o como o espaço em que se formou o país, é, diz o autor, um anacronismo. Lembremo-nos de que, antes de descobrir o Brasil, Portugal andou descobrindo (no sentido que se dava à palavra na época) a África. E ali não tardou a descobrir (no sentido atual) as maravilhas de uma mercadoria que viria a se inscrever no cerne de suas atividades ultramarinas: os seres humanos. Comprar seres humanos de um lado e vendê-los do outro, manter um lado (a África) como reserva de mão-de-obra e o outro (o Brasil) como a fazendona onde empregá-la: eis o modo como Portugal integrou as duas margens do Atlântico e o viabilizou como espaço econômico. Daí nasce o Brasil. Não no seu mapa atual, mas no mar.

Ou, por outra: nasce do tráfico. O empreendimento escravagista, no qual Portugal foi pioneiro, na era moderna, e do qual desde logo assumiu a liderança, iria revelar-se um dos melhores negócios do mundo, capaz de atrair grandes capitais, públicos e privados. E a via que se firmaria como a mais movimentada, entre as percorridas pelo tráfico, mais do que a que escoava para o Caribe, a América do Norte ou o Prata, era a que ligava a África – particularmente Angola – ao Brasil. Doze mil viagens, segundo cálculos do livro, foram realizadas, ao longo dos três séculos de escravidão, entre uma costa e outra, trazendo 4 milhões de negros ao país. Tão vultoso se revelou o negócio escravagista, em si, que é difícil dizer se o Brasil importou escravos porque suas culturas precisavam deles – a da cana-de-açúcar, em primeiro lugar – ou se, ao contrário, implantou culturas para abrir mercados ao negócio dos escravos. Tão abundante e ativo se apresentava o tráfico que era mais negócio comprar escravos novos do que contar com a reprodução dos antigos. Ou, como escreve Alencastro: "Convinha mais fazer açúcar para vender na Europa e obter meios de compra de (...) africanos adultos do que investir na produção de alimentos, estimular uniões entre os cativos, preservar as mulheres grávidas e as crianças nos engenhos e nas fazendas na expectativa de recolher, a médio prazo, novos trabalhadores cativos nascidos e criados no local".

Engana-se, porém, quem pensa que o tráfico era só o tráfico. Ou, melhor dizendo, que era só um negócio. Era também uma estratégia. Era a maneira de Portugal segurar as pontas de seu império atlântico, e aqui se dá à expressão um sentido literal – segurar as duas pontas, a americana e a africana, do espaço sob seu controle. Do abraço entre as duas costas da bacia sul-atlântica, por mais que seja esse um abraço tétrico, baseado, como diz o título do livro, no trato dos viventes, vale dizer, no comércio de seres humanos, surgem as condições nas quais seria criado o Brasil. "De conseqüências decisivas na formação histórica brasileira, o tráfico extrapola o registro das operações de compra, transporte e venda de africanos para moldar o conjunto da economia, da demografia, da sociedade e da política da América portuguesa", escreve o autor.

A complementaridade entre África e Brasil não escapava aos contemporâneos. "Sem ela (Angola) não tem Vossa Majestade o Brasil", avisava o governador-geral no Brasil Telles da Silva ao rei português dom João IV em 1643. E não escapava igualmente às potências rivais. A Holanda, depois de se apoderar do Nordeste brasileiro, cruza o oceano e toma Angola. Maurício de Nassau, humanista convertido ao escravismo, cedo compreendeu o alcance da frase tão repetida de que "sem Angola, não há Brasil". Sem o braço negro, nada feito. O domínio holandês da colônia africana dura pouco. A reação luso-brasileira contra o domínio holandês dá-se simultaneamente – e vence – em Pernambuco e em Angola. Não é que o Atlântico Sul fosse um Mare Nostrum, como o Mediterrâneo foi para os romanos, tanto que se abria para as lasquinhas deste e de outros rivais europeus, mas o império comandado por Lisboa conseguiu dar as cartas por longo período.

O livro de Alencastro, ao mesmo tempo que percorre seu leito central, desdobra-se em subveios que desvendam aspectos pouco conhecidos do leitor brasileiro. Há uma História de Angola nele embutida. Portugal não teria tido o sucesso que teve, no comércio escravista, se tal prática já não estivesse estabelecida na África. O trato dos viventes existia, ali, antes dos europeus. O politicamente correto, hoje, como escreve Alencastro, é imaginar uma África unida contra o agressor. Engano. Africanos guerreavam africanos para cativá-los. Antes dos europeus, os mouros do norte da África foram bons fregueses das feiras de seres humanos do interior do continente. Portugal se apodera das redes de tráfico com uma política que misturava a força bruta e a sedução. Os guerreiros jagas, temidos em toda a África Central, dividiram-se. Uma parte resistia aos portugueses, outra colaborava.

História emblemática é a da rainha Jinga, do Reino de Matamba. Enquanto resistiu aos portugueses, com os jagas que lhe eram fiéis, era pintada como uma das mais perversas figuras do continente, encarnação dos poderes do demônio sobre os povos pagãos. Segundo o primeiro historiador de Angola, Antônio de Oliveira Cadornega (século XVII), Jinga mantinha um harém de homens transformados em mulheres, "até em o seu vestir", como se "eles fossem fêmeas e ela, varão". Seria antropófaga, além disso, e infanticida. Convertida ao cristianismo pelo capuchinho italiano Antônio de Gaeta, passa a ser tratada como beneficiária de um milagre. Morreu aos 81 anos, e foi enterrada com o hábito dos capuchinhos, além de coroa de ouro e jóias, e escoltada por doze irmãos do Rosário. Nem seria preciso dizer, mas, vá lá, diga-se, que, ao converter-se ao cristianismo, a rainha, numa outra obra de maravilha, converteu-se ao tráfico. Isso não impede, lembra Alencastro, que Jinga seja hoje identificada, tanto nas congadas brasileiras quanto nas celebrações dos negros dos Estados Unidos e do Caribe, em raps e reggaes, como símbolo da resistência da cultura africana.

O livro de Alencastro não pretende ter personagens centrais – seu centro é o oceano e o que se traficava por cima dele –, mas, se fosse para ter, dois ressaltam como evidentes candidatos ao posto de artífices maiores do império luso sul-atlântico, ambos, não por acaso, luso-brasileiros. O primeiro é o Padre Antônio Vieira, dono de uma das maiores inteligências do tempo, cuja influência alcançava cortes e dioceses ao redor do mundo, e cujo domínio do idioma e elegância de expressão fez Fernando Pessoa honrá-lo com o título de "imperador da língua portuguesa". Se a Igreja forneceu uma ideologia ao escravismo e ao tráfico, ao apresentá-los como fatores de evangelização, e se os jesuítas, dentro da Igreja, foram os que mais propagaram tal conceito, entre os jesuítas foi Vieira quem o apresentou com mais audácia. Ele aparece no livro um pouco por toda parte, mas com mais destaque quando Alencastro cita o sermão XIV, em que, dirigindo-se aos africanos, defende que foi Nossa Senhora quem os trouxe ao Brasil, para que encontrassem a verdadeira fé. "Oh", diz Vieira, "se a gente preta tirada das brenhas de sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus, e Sua Santíssima Mãe, por este que pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre, e grande milagre!"

O outro personagem é Salvador de Sá e Benevides, governador do Rio de Janeiro e mais poderoso membro da dinastia dos Sá, que por longo período dominou a capitania fluminense. Sua fortuna era tão grande que fez construir para si, na ilha onde hoje se encontra o Aeroporto do Galeão, assim chamado exatamente por isso, o galeão Padre Eterno, navio portentoso – "o maior que há hoje, nem se sabe que houvesse nos mares", segundo nota na imprensa lisboeta. Salvador de Sá, cuja fortuna – é preciso dizer? – vinha do tráfico, foi quem comandou, em 1648, a expedição de retomada de Angola das mãos dos holandeses. Consolidou-se, com essa ação, um dos mais curiosos fenômenos da era colonial, sobre o qual os historiadores se têm debruçado ultimamente com insistência: uma espécie de subcolonialismo brasileiro. Na verdade, os brasileiros, ou, antes, portugueses do Brasil, eram os principais agentes do tráfico. O trato com Angola era bilateral, Rio–Luanda, Salvador–Luanda ou Recife–Luanda. Só por exceção compunha um triângulo, passando também por Lisboa. Angola era mais colônia do Brasil do que de Portugal, se se pode assim dizer, e se se pode tomar a liberdade de dar por existente uma entidade chamada "Brasil". O livro de Alencastro, ao ampliar as fronteiras da História do Brasil, abre a cabeça do leitor. Uma face oculta da formação brasileira lhe é desvendada.

Wednesday, November 07, 2012

The Romney family misspells their own name in what might be the greatest Freudian slip in US history.

Sunday, November 04, 2012


FERREIRA GULLAR

Arte sem Sombra

Faz pouco, escrevi aqui acerca da experiência estética de Lygia Clark, a propósito da exposição de sua obra realizada no Itaú Cultural. Fui convidado a dar um depoimento acerca de sua experiência estética no recinto da exposição, ilustrando minhas observações com as obras expostas.

Esse convite naturalmente me levou a voltar a refletir sobre a experiência radical, realizada pela artista ao longo de sua vida. Pois bem, muito embora tenha escrito muito e refletido sobre seus trabalhos em tantas ocasiões, deparei-me agora com uma nova observação que, se não me engano, ainda não foi feita por nenhum dos analistas de sua obra. É isso que me traz de novo a escrever sobre ela.

Para que o leitor entenda o que desejo expor, é necessário retomar algumas das observações feitas na crônica anterior. Como tenho observado, a experiência de Lygia Clark tem afinidade com a arte de Kasimir Malevitch, muito embora ele a tenha realizado nas duas primeiras décadas do século 20, ou seja, 50 anos antes da artista brasileira.

Trata-se, evidentemente, de uma leitura minha, que toma por base a contradição figura-fundo, que levara Malevitch, após o seu célebre quadro Branco sobre Branco, a abandonar a tela e a passar a construir no espaço real as suas famosas Construções Suprematistas.

Lygia, por outros caminhos, chegou ao mesmo impasse e, como ele, também abandona a tela para construir no espaço real. Essas construções são os Bichos, esculturas manuseáveis, que constituem o momento limite de sua experiência.

O fator essencial dos Bichos é a participação do espectador na obra de arte, o que a diferencia fundamentalmente de Malevitch. Essa participação é uma inovação da arte neoconcreta que, com Lygia Clark, ganha um significado especial. E aqui começa a nova observação que fiz a propósito de sua experiência estética.

A participação do espectador na obra de arte, possibilitando-lhe manusear a obra, implica uma mudança radical dessa relação obra-espectador: ele deixa de ser mero espectador e sai da relação visual com a obra para estabelecer com ela um relacionamento corporal.

Até aqui nada de novo. Tenho dito que a participação do espectador foi a resposta dos neoconcretistas ao concretismo, que reduzira a experiência estética à exploração das possibilidades do campo visual. Max Bill observou, certa vez, que seu objetivo era explorar as tensões do campo visual, ou seja, estava mais interessado em realizar uma experiência ótica do que criar uma obra de arte.

Noutras palavras, o concretismo elimina da pintura toda e qualquer subjetividade, levando-a a tornar-se apenas uma experiência ótica.

O neoconcretismo, se não buscou reintroduzir o fator subjetivo na expressão pictórica, realizou uma radical subversão ao tornar a experiência estética um corpo a corpo do espectador com a obra. Isso está não apenas nas obras de Lygia e Oiticica, como também nos poemas-objeto.

Essa era a minha compreensão da experiência neoconcreta, entendendo a participação do espectador -o manuseio da obra- como elemento complementar da experiência visual. Por exemplo, um "Bicho" da Lygia é manuseável, mas não deixa de ter também uma estrutura visual que, ao ser manuseada, muda, revela suas potencialidades.

A minha descoberta atual consiste em ter percebido que Lygia abandonou essa forma -ou seja, a obra de arte- para mergulhar numa aventura sem obra, isto é, numa atividade que não visava criar uma obra de arte, manipulável ou não.

A partir daquele momento, ela não pretendia mais, como todo artista, criar um objeto estético. Ela diz então que "o ato é a obra". Noutras palavras, se a pessoa corta a fita de Moebius com uma tesoura, esse ato já é a obra. Sucede que ela vai adiante: cria um túnel de seda onde a pessoa entra. Esse entrar é o que importa. Noutras palavras, o que importa são as sensações que a pessoa experimenta, mediante as situações que Lygia provoca.

No extremo a que chegou, tenta apreender as significações, jamais traduzíveis em formas ou palavras, do que o corpo sente enquanto corpo. Não pretende nem criar uma obra de arte nem conceitualizar a experiência: ela quer experimentar o mistério do corpo, anterior a toda formulação. Isso é, na verdade, desistir da arte. Resta, depois disso, reinventá-la, porque sem ela a vida é mais pobre.


Friday, November 02, 2012

Se você ganha:

$5.000,00 por mês

Existem 8 milhões de pessoas que ganham mais do que você no Brasil, o que representa 8% da população com rendimento.
.
Existem 103 milhões de pessoas que ganham menos do que você no Brasil, o que representa 92% da população com rendimento.


$10.000,00 por mês

Existem 3 milhões de pessoas que ganham mais do que você no Brasil, o que representa 3% da população com rendimento.

Existem 108 milhões de pessoas que ganham menos do que você no Brasil, o que representa 97% da população com rendimento.


$15.000,00 por mês

Existem 2 milhões de pessoas que ganham mais do que você no Brasil, o que representa 2% da população com rendimento

Existem 109 milhões de pessoas que ganham menos do que você no Brasil, o que representa 98% da população com rendimento.


$20.000,00 por mês

Existem no máximo 561 mil pessoas com renda maior do que a sua, o que representa 0,5% ou menos da população com rendimento.

Existem pelo menos 112 milhões de pessoas com renda menor do que a sua, o que representa 99,5% ou mais da população com rendimento.


Famílias com renda igual ou inferior a R$ 70 por pessoa são consideradas "extremamente pobres".

Nessa situação de miséria encontram-se 16,2 milhões brasileiros, o equivalente a 8,5 % da população do país.


Fontes

http://economia.estadao.com.br/especiais/voce-pode-ser-mais-rico-do-que-imaginava,161035.htm

http://www.observatoriodorecife.org.br/?p=3044

Monday, October 29, 2012

A criança que fui chora na estrada
Deixei-a ali quando vim a ser quem sou
E hoje, quando vejo que o que sou é nada
Volto a buscá-la ali onde ficou

Sunday, October 21, 2012

Apoio conservador garante liderança folgada de Haddad

Ricardo Mendonça, da Folha de São Paulo

Na simulação de segundo turno da eleição paulistana, o candidato do PT, Fernando Haddad, vence o tucano José Serra mesmo entre os eleitores classificados como conservadores numa escala de posicionamento ideológico criada pelo Datafolha.

Nesse grupo, Haddad tem 46% das intenções de voto contra 33% de Serra. No conjunto, vence por 49% a 32%.

O dado chama a atenção porque em pesquisa semelhante feita pelo instituto em setembro o petista tinha o pior desempenho entre os conservadores, com 12%.

Naquela ocasião, o líder isolado nesse grupo, com 41%, era Celso Russomanno (PRB), hoje fora da disputa.

Os que se identificam com valores conservadores representam 33% dos paulistanos, o maior contingente na escala do Datafolha que agrupa os eleitores em cinco grandes lotes ideológicos.

Extremamente liberais são 6%. Liberais, 28%. Medianos (nem conservadores, nem liberais) somam 23%. E extremamente conservadores, 9%.

Haddad bate Serra em 4 dos 5 agrupamentos, principalmente entre os liberais.

Na pesquisa, o Datafolha usou como referência os métodos e a tipologia política do Pew Research Center em estudos sobre o voto americano.

Cada entrevistado na pesquisa de intenção de voto foi convidado a responder questões sobre valores sociais, políticos e culturais.

Os resultados revelam as opiniões dos paulistanos em vários temas da atualidade.

Pendendo ao conservadorismo, 62% acham que a maior causa da criminalidade é a maldade --34% a atribuem à falta de oportunidades iguais para todos.

Para 71%, adolescentes infratores devem ser punidos como adultos. Entre os mais conservadores, a opinião é compartilhada por 95%. Entre os mais liberais, por 17%.

A maioria também é conservadora em questões sobre drogas e religião. Para 79%, acreditar em Deus torna as pessoas melhores. Para 81%, o uso de drogas deve permanecer proibido.

Pendendo ao lado liberal, 68% associam a pobreza mais à falta de oportunidades do que à preguiça, e 69% dizem que o homossexualismo deve ser aceito pela sociedade.


Surge uma nova classe média global

Segundo estudo, quase 3 bilhões de pessoas, ou 40% da população mundial, devem deixar a pobreza, principalmente nos países emergentes

Fernando Dantas, de O Estado de S.Paulo

RIO - Um total de quase 3 bilhões de pessoas, ou 40% da população mundial, ascenderá à classe média até 2050, e elas virão quase exclusivamente dos atuais mercados emergentes. Dessa forma, o consumo dos países emergentes pode saltar de um terço do consumo global para dois terços até 2050. A classe média no estudo é definida como famílias com ganhos anuais entre US$ 3 mil e US$ 15 mil, com US$ 5 mil sendo o divisor entre as classes médias baixa e alta.

Essas projeções estão no relatório "Consumidor em 2050/A alta da classe média dos mercados emergentes", um minucioso estudo sobre os padrões de consumo das massas que estão enriquecendo em países como China, Índia, Filipinas, Peru e México realizado pelo departamento de pesquisa global do HSBC, e divulgado em outubro. O Brasil também aparece no relatório, mas com previsões que não são das mais brilhantes.

Segundo o HSBC, à medida que a renda cresce, a comida e outros produtos básicos param de consumir a maior parte do salário e há mais dinheiro para as coisas "divertidas" da vida. O estudo mostra que as chamadas despesas discricionárias, que são as menos ligadas às necessidades básicas de sobrevivência, sobem de aproximadamente um terço para 60% do consumo total, quando os salários sobem de US$ 1 mil por ano para algo em torno de US$ 15 mil.

O gasto com comida, que é de 43% para rendas anuais de até US$ 1 mil, caem para 10,6%, para ganhos por ano de US$ 15 mil ou mais. Já os restaurantes e hotéis, que respondem por apenas 2,9% na faixa de renda mais baixa, sobem para 8,3% na mais alta.

Um dos países que deve ter um dos crescimentos mais fenomenais de consumo até 2050, pela combinação de expansão econômica, estrutura etária (população jovem) e crescimento populacional, são as Filipinas. Segundo o relatório, o crescimento em restaurantes, recreação e cuidados pessoais deve ser multiplicado por 25.

Consumo

Já a demanda por roupas, que hoje deriva em 65% dos mercados desenvolvidos, e 35% dos países emergentes, deve ter uma reviravolta, como em muitos outros itens de consumo. Em 2050, segundo a previsão do HSBC, 57% da demanda por roupas virá dos mercados emergentes, e a parcela dos mercados ricos cairá para 43%.

Em termos de aparelhos portáteis de alta tecnologia, os mercados emergentes respondem por apenas 24%, e os ricos, por 76%. Em 2050, 55% da demanda virá dos emergentes, e apenas 45% dos desenvolvidos. O padrão se repete com os serviços financeiros, até de forma mais extrema. A parcela dos ricos vai recuar de 82% para 44% entre 2010 e 2050, enquanto a dos emergentes subirá de 18% para 56%.

A revolução de consumo dos emergentes atingirá as mais diversas áreas, como o turismo. Em 2011, 60 milhões de chineses viajaram ao exterior, número que deve subir para 130 milhões em 2015 e 200 milhões em 2020. Este último número é igual a três vezes o atual fluxo de turistas americanos para o exterior.

O estudo mostra ainda o grande espaço para o crescimento do turismo ao exterior das nações emergentes. Enquanto 20% da população americana, 34% da francesa e 13% da japonesa viajam anualmente para fora, na China o porcentual corresponde a apenas 4,3%, e é ainda mais baixo em países como o Brasil, com 2,7%, e a Índia, com 1,2%.

O trabalho mostra ainda que a renda dos trabalhadores emergentes vai crescer velozmente até 2050. No caso dos chineses, o salto será de sete vezes, com a renda individual anual per capita aumentando de US$ 2,5 mil para US$ 18 mil. Como nota o estudo, "com uma população de 1,4 bilhão de pessoas hoje, isto é muita gente se tornando mais rica".

Já a renda da população da Índia (que atingirá 1,6 bilhão de pessoas em 2050) será seis vezes maior que a atual. As Filipinas, cuja população será o dobro da alemã em 2050, vão ter um aumento de renda de nove vezes. Entres os países latino-americanos, um dos maiores destaques do relatório é o Peru, que é considerado uma "estrela". O aumento médio da renda peruana projetado até 2050 é de quase 5% ao ano, comparado com menos de 3% para o Brasil.

Renda

O Brasil, aliás, não aparece muito bem no relatório. A previsão de renda per capita brasileira em 2050 é de US$ 13.547, inferior a de países como México (US$ 21.793), Turquia (US$ 22.630), Argentina (US$ 29 mil), Malásia (US$ 29.247), Chile (US$ 29.523) e até de países como Peru (US$ 18.940), Líbia (US$ 26.182), República Dominicana (US$ 16.406) e El Salvador (US$ 13.729).

Na verdade, o que conta muito contra o Brasil, por ser um dado importante na metodologia do estudo, é a demografia. Segundo o relatório, entre todos os emergentes, o Brasil terá a pior deterioração demográfica entre 2010 e 2050, com uma alta da idade mediana de 29 para 45 anos.

Segundo o trabalho, "os indivíduos tendem a fazer a maior parte do seu consumo durante seu tempo de vida entre as idades de 16 e 40 anos - o período quando os níveis de renda sobem, as casas e as famílias estão sendo construídas, e antes que os consumidores comecem realmente a poupar para a aposentadoria".

As Filipinas, novamente, apresentam a melhor demografia. A idade mediana do país é de apenas 22 anos, e em 2050 será de 32. A pior demografia está no Japão. Em 2050, quase 25% dos japoneses terão mais de 75 anos. Segundo estimativa da fabricante Fujitsu, já neste ano o consumo de fraldas geriátricas no Japão deve ser maior que o de fraldas de bebês.

Tuesday, October 16, 2012

Monday, October 15, 2012

O Fim de um Ciclo Político

Luis Nassif

Coluna Econômica

Semanas atrás escrevi sobre o fim da geração das diretas, o grupo que, a partir de São Paulo, dominou a cena política nacional, através do PSDB e do PT.

Do lado tucano, Covas, Fernando Henrique, Sérgio Motta, entre outros; do lado petista, Lula, Dirceu, Mercadante, Suplicy, Martha. Do lado dos peemedebistas históricos, Ulisses e Tancredo.

De certo modo, foram desbravadores da democracia brasileira, conseguindo definir um padrão de governabilidade que permitiu ao ornitorrinco voar.


Saía-se da ditadura praticamente sem sociedade civil. Os partidos políticos dividiam-se entre posições muito simplórias: contra ou a favor do regime anterior. Não havia maiores definições programáticas. E o equilíbrio do Executivo era constantemente bombardeado pela instabilidade econômica e por dois tipos de demanda: a do Congresso e a da mídia.

Não era tarefa fácil equilibrar a estabilidade democrática em meio a ventos tão implacáveis.

***

De Sarney até FHC, o único instrumento de pacificação política foram os pacotes econômicos, mirabolantes, mas que, de tempos em tempos, conferiam algum fôlego político aos governantes. Foi assim com os sucessivos planos econômicos do governo Sarney, Collor, até o derradeiro, o Plano Real.

***

A partir daí, consolidava-se a dualidade PSDB-PT paulistas, comandados pelos personagens das diretas-já. E, em cada partido, conviveram dois personagens: o líder (simbólico ou real) e o que botava a mão na massa.

Um conjunto de circunstâncias jogou o PSDB nas mãos de FHC, o líder simbólico, e de Sérgio Motta, o que botava a mão na massa. Figura generosa, impulsiva, Motta era o motor do partido, o que sujava as mãos (como no caso da votação da reeleição), acolhia os desabrigados, mantinha a chama acesa - ao lado do governador Mário Covas, em São Paulo.

Pouco antes de morrer, conhecendo o caráter de FHC, Motta deixou o bilhete histórico, pedindo que não se apequenasse. Apequenou-se. Tornou-se refém dos financistas do partido, abraçou o neoliberalismo mais desbragado, abandonou o discurso social-democrata e deslumbrou-se definitivamente com os salões.

Com isso, escancarou uma rodovia para que entrasse o discurso social do PT.

***

Do mesmo modo que no PSDB, no PT havia o líder, Lula, e o que botava a mão na massa, José Dirceu.

Coube a Dirceu o papel fundamental de consolidar o arquipélago de tendências do PT, muitas vezes com uma objetividade dura que deixou ressentimentos, mas que liberou Lula para montar as estratégias maiores do partido.

Eleito Lula, Dirceu teve papel central na transição. Comandou intenso processo de negociação com o governo que saía, incluindo um pacto de não agressão que varreu para baixo do tapete inúmeros episódios obscuros do governo anterior.

***

Tentou, depois, absorver toda a tecnologia de governabilidade do governo que saía, incluindo operadores, lobistas e tudo isso em um momento em que, com os principais quadros do partido indo para o governo, o PT viu-se meio acéfalo.

Mas não foi seguida a principal lição de FHC - aliar-se a um grande partido ônibus, como o PMDB, assim como o PSDB se aliou ao DEM.

O desafio de administrar o varejo acabou resultando no mensalão.

O "mensalão" foi um divisor de águas. E é interessante entender como se comportaram os atores políticos depois dele.

O pós-mensalão e Lula - 1

No início do governo, Lula teve que enfrentar uma enorme crise de mercado, com o dólar explodindo, o aumento da inflação e a inexperiência do novo partido com o poder. Foi nesse período que o trabalho de José Dirceu, junto ao meio político, e Antonio Palocci, junto ao mercado, foi fundamental para garantir a governabilidade. Passada a crise, o poder de Dirceu acabou sendo incômodo para o próprio Lula.

O pós-mensalão e Lula - 2

O "mensalão" acabou provocando a saída de Dirceu e dos demais companheiros que haviam carregado o piano do jogo pesado inicial. A luta pela sobrevivência política exigiu tudo de Lula. E aí apareceu o político fulgurante em sua plenitude. De um lado, passou a colher os frutos das políticas sociais do início do governo. De outro, precisou dar um impulso gerencial sem precedentes ao seu governo.

O pós-mensalão e Lula - 3

Finalmente, o enorme desgaste produzido pelo episódio impulsionou a renovação do PT. A cara do partido não podia ser mais a dos pioneiros, os que ajudaram no trabalho hercúleo de criar um partido nacional. É nesse contexto que a intuição política de Lula leva à indicação de Dilma Rousseff para presidente e de Fernando Haddad para concorrer à prefeitura de São Paulo. Além da aproximação com Eduardo Campos.

O pós-mensalão e FHC - 1

Caminho inverso percorreu FHC. Sem Mário Covas, tornou-se a única referência do PSDB. Sua falta de vontade de governar, a falta de visão de futuro (ao não perceber o tempo social sucedendo o tempo da estabilização), a escassez de ideias (que o levou a adotar acriticamente o receituário neoliberal), e o neodeslumbramento da mídia (para caracterizá-lo como o antiLula)  cobraram sua conta.

O pós-mensalão e FHC - 2

Mais e mais, FHC imbuiu-se do discurso moralizante, de uma retórica que, embora não tão grosseira quanto a de José Serra, empurrava para o conflito. Nas palestras e, principalmente, nos artigos para o Estadão e o Globo, não conseguia desenvolver mais do que bordões soltos, sem nenhuma profundidade. Mais que isso, não preparou o partido para a renovação, para o aparecimento de novos quadros.

O pós-mensalão e FHC - 3

Chega-se, ao final do longo processo político, que vem da redemocratização até os dias atuais, com os resultados conhecidos. No campo das lideranças, Lula conseguiu não apenas reeleger o sucessor como reestruturar o partido; já FHC  saiu derrotado do governo e deixa um partido em ruínas. Mas a história há de se lembrar dos construtores, os que colocaram a mão na massa e pagaram por isso: Sérgio Motta e José Dirceu.

PS - Quando me refiro ao "mensalão", obviamente falo do episódio político. O que não significa nenhum endosso às teses do STF de mesada ou de montagem de coligação para a ditadura - como mencionou um Ministro desinformado.

Sunday, October 14, 2012

OMBUDSMAN

Endurecer Sim, mas Sem Perder a Razão

Em dias especiais, a "Primeira Página" precisa mudar para mostrar que tem notícia importante. Subir o tom sem cair na histeria é um desafio que a Folha não venceu na quarta-feira passada.

A capa com a condenação de José Dirceu no Supremo Tribunal Federal lembrava jornal sensacionalista no dia seguinte à prisão de um assassino conhecido.

A fotografia enorme no alto mostra um Dirceu "fantasmagórico", na definição de um leitor que gostou da capa. A luz vinda por baixo ilumina apenas o rosto do ex-ministro, em uma imagem obtida no domingo passado, quando ele foi votar.

As letras da manchete cresceram muito: de corpo 80 para 174, um aumento de 117%. Em vez de título, apenas uma palavra: "culpados" - e não "condenados", que seria a reprodução fiel do que havia sido decidido no STF e não carregaria um juízo moral.

A composição parecia refletir um clima de comemoração. "Dava para ouvir os fogos de artifício estourando ao fundo", disse outro leitor, este ofendido com a capa.

Quando houve o impeachment de Fernando Collor, fato histórico mais importante que o mensalão, a "Primeira Página" também "falou mais alto" e até deixou transparecer a satisfação com o ocorrido na tarja "vitória da democracia".

O contexto era outro, havia mobilização de rua e a Folha torcia explicitamente pelo impeachment. Mesmo assim, o foco não estava no presidente deposto. A foto principal nem é a de Collor, mas a da festa dos deputados na Câmara.

Usados os mesmos parâmetros da quarta-feira passada, a capa de 30 de setembro de 1992 teria uma daquelas fotos em que Collor parece diabólico e apenas uma palavra em letras gigantescas: "Expulso".

Resumir o escândalo do mensalão às figuras de Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e Marcos Valério é reduzir a importância do caso. O fundamental do julgamento no Supremo não é a punição de "fulano", mas ter deixado uma mácula histórica no governo Lula. Seria melhor uma manchete que dissesse "José Dirceu, homem forte do governo Lula, é condenado por corrupção".

A Secretaria de Redação diz que "a importância histórica do julgamento justifica o espaço dado à manchete". "É a condenação por corrupção de políticos de mais alta patente já realizada pelo Judiciário brasileiro, que terá enorme repercussão em decisões futuras."

Foi uma pena o jornal ter derrapado bem no ápice do julgamento, porque houve, durante a cobertura, um esforço de manter a neutralidade, diferenciando-se de outros jornais e revistas que embarcaram em uma campanha condenatória.

Mas, apesar de desastrada, a capa de quarta-feira não prova, como querem muitos, que a Folha persegue o PT. Quem espalha essa tese esquece que o jornal bateu forte no governo Fernando Henrique Cardoso, como se pode aferir revendo as reportagens sobre a denúncia de compra de votos da emenda da reeleição (1997) e sobre o escândalo do leilão da Telebrás (1999).

Nesses 20 anos, o jornal não abriu mão do apartidarismo, mas parece ter se esquecido como ser eloquente sem perder a elegância.

SUZANA SINGER ombudsman@uol.com.br @folha_ombudsman

JANIO DE FREITAS

A Mesada e o Mensalão

A mentira foi a geradora de todas as verdades, meias verdades, indícios desprezados e indícios manipulados que deram a dimensão do escândalo e o espírito do julgamento do "mensalão".

Por ora, o paradoxo irônico está soterrado no clima odiento que, das manifestações antidemocráticas de jornalistas e leitores às agressões verbais no Supremo, restringe a busca de elucidação de todo o episódio. Pode ser que mais tarde contribua para compreenderem o nosso tempo de brasileiros.

Estava lá, na primeira página de celebração das condenações de José Dirceu e José Genoino, a reprodução da primeira página da Folha em 6 de junho de 2005. Primeiro passo para a recente manchete editorializada - CULPADOS -, a estonteante denúncia colhida pela jornalista Renata Lo Prete: "PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson". O leitor não tinha ideia de que Jefferson era esse.

Era mentira a mesada de R$ 30 mil. Nem indício apareceu desse pagamento de montante regular e mensal, apesar da minúcia com que as investigações o procuraram. Passados sete anos, ainda não se sabe quanto houve de mentira, além da mensalidade, na denúncia inicial de Roberto Jefferson. A tão citada conversa com Lula a respeito de mesada é um exemplo da ficção continuada.

A mentira central deu origem ao nome -mensalão- que não se adapta à trama hoje conhecida. Torna-se, por isso, ele também uma mentira. E, como apropriado, o deputado Miro Teixeira diz ser mentira a sua autoria do batismo, cujo jeito lembra mesmo o do próprio Jefferson.

Nada leva, porém, à velha ideia de alguém que atirou no que viu e acertou no que não viu. A mentira da denúncia de Roberto Jefferson era de quem sabia haver dinheiro, mas dinheiro grosso: ele o recebera. E não há sinal de que o tenha repassado ao PTB, em nome do qual colheu mais de R$ 4 milhões e, admitiria mais tarde, esperava ainda R$ 15 milhões. A mentira de modestos R$ 30 mil era prudente e útil.

Prudente por acobertar, eventualmente até para companheiros petebistas, a correnteza dos milhões que também o inundava. E útil por bastar para a vingança ou chantagem pela falta dos R$ 15 milhões, paralela à demissão de gente sua por corrupção no Correio. Como diria mais tarde, Jefferson supôs que o flagrante de corrupção, exibido nas TVs, fosse coisa de José Dirceu para atingi-lo. O que soa como outra mentira, porque presidia o PTB e o governo não hostilizaria um partido necessário à sua base na Câmara.

Da mentira vieram as verdades, as meias verdades e nem isso. Mas a condenação de Roberto Jefferson, por corrupção passiva, ainda não é a verdade que aparenta. Nem é provável que venha a sê-lo.

MAIS DEDUÇÃO

Em sua mais recente dedução para voto condenatório, o presidente do Supremo, Ayres Britto, deu como certo que as ações em julgamento visaram a "continuísmo governamental ".

"Golpe, portanto, nesse conteúdo da democracia que é o republicanismo, que postula renovação dos quadros de dirigentes".

Desde sua criação e no mundo todo, alcançar o poder, e, se alcançado, nele permanecer o máximo possível, é a razão de ser dos partidos políticos. Os que não se organizem por tal razão, são contrafações, fraudes admitidas, não são partidos políticos.

Sergio Motta, que esteve politicamente para Fernando Henrique como José Dirceu para Lula, informou ao país que o projeto do PSDB era continuar no poder por 20 anos.

Não há por que supor que, nesse caso, o ministro Ayres Britto tenha deduzido haver golpe ou plano golpista. Nem mesmo depois que o projeto se iniciou com a compra de deputados para aprovar a reeleição.

ELIO GASPARI

O Desconforto da Nação Petista

Os argumentos do desconforto de comissários, intelectuais e políticos da nação petista diante das sentenças do Supremo Tribunal Federal colocam-nos na situação do sujeito que usa livre-arbítrio para acreditar que a rua Barata Ribeiro é uma transversal da avenida Atlântica. Pode acreditar nisso, mas nunca mais será capaz de achar um endereço em Copacabana.

Oito dos 11 ministros da corte foram nomeados por Lula e Dilma Rousseff. Ao sustentar que esses juízes formaram um tribunal de exceção, os companheiros deslustram o mérito das indicações dos governantes petistas.

Salvo os doutores Toffoli e Lewandowski, a corte teria cedido a uma pressão dos meios de comunicação. Se essa influência fosse infalível, como explicar que a mesma corte, por unanimidade, reconheceu a constitucionalidade das cotas para as vagas nas universidades públicas? Contra elas estava a unanimidade dos grandes meios de comunicação, ressalvada a autonomia assegurada a alguns articulistas.

Dois condenados (José Dirceu e José Genoino), ergueram em suas defesas passados de militância durante a ditadura. Tanto um como outro defenderam projetos políticos que transformariam o Brasil num Cubão (Dirceu) ou numa Albaniona (Genoino).

Felizmente, a luta de políticos como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Paulo Brossard trouxe esses militantes perseguidos para a convivência democrática, e não o contrário. Se tivessem prevalecido as plataformas do PC do B ou do Molipo, Ulysses, Tancredo e Brossard teriam vida difícil.

A teoria da conspiração contra guerrilheiros heroicos estimula construções antidemocráticas de denúncia da justiça e da imprensa a serviço de uma elite. Nos anos 60, muita gente achou que a luta contra a "democracia burguesa" passava pela radicalização e até pelos trabucos. Deu no que deu.

Ficaria tudo mais fácil se os companheiros entendessem que fizeram o que não deviam e foram condenados. Endossaram a teoria da impunidade do caixa dois eleitoral porque acharam que ela os protegeria. O melhor a fazer seria reerguer a bandeira abandonada da moralidade. Assim poderão batalhar pela condenação de mensaleiros de outros partidos e apresentar-se aos eleitores com um projeto livre de capilés.

CARLOS HEITOR CONY

Projeto de Poder

Depois do golpe de 1964, os generais eram candidatos compulsórios a ocupar a Presidência da República, que passou a ser o cargo máximo da carreira. Na hora da sucessão, a briga era decidida pelo maior número de tropas, tanques, canhões e demais apetrechos da caserna.

Um general tinha a 4ª Região a favor, mas a Escola Superior de Guerra tinha outro pretendente. A Vila Militar preferia outro nome. Da contabilidade bélica, surgia o escolhido.

A ditadura caiu - custou, mas caiu. Tanques e canhões foram recolhidos aos quartéis - e que lá fiquem. Em substituição, voltamos a buscar aquilo que santo Agostinho chamou de "excremento do demônio", aquele "metal" que costumam chamar de "vil": o dinheiro.

No atual julgamento do mensalão, gostei da intervenção do presidente do STF, ministro Ayres Britto, que não culpou o governo em si, mas referiu-se ao "projeto de poder" do PT. Projeto formulado, timidamente, a partir do primeiro governo de Lula e revitalizado pela atual cúpula partidária. O mensalão seria uma espécie de laboratório para a conquista do fim.

Contudo tenho de lembrar que o PT não é o primeiro a pretender um projeto de poder. Lá atrás, o finado ex-ministro Sergio Motta, no primeiro governo de FHC, falou também na necessidade desse laboratório, que garantiria 20 anos de poder ao PSDB. E fez por onde: obteve a emenda da reeleição - que garantiu novo mandato ao presidente de então. Por sinal, um presidente que a perspectiva histórica começa a fazer justiça, com méritos maiores do que inevitáveis defeitos.

A emenda que possibilitou a reeleição teve o preço em dólares. Alguns congressistas mais ligados com o esquema tucano chegaram a renunciar ao mandato para não passarem pelo vexame da cassação.

Friday, October 12, 2012

Saturday, October 06, 2012


DRAUZIO VARELLA

Depois de vinte anos


Completou 20 anos a maior tragédia das cadeias brasileiras.

Naquela sexta-feira de outubro, eu havia reunido um grupo de travestis presos na Casa de Detenção para falarmos sobre a transmissão da Aids. A epidemia se espalhava impiedosa entre eles: 72% eram HIV-positivos, número que chegava a 100% entre aqueles detidos há mais de seis anos.

Perto das 11h, o diretor do presídio apareceu na porta, desejou bom dia a todos e me convidou para um café em sua sala quando a palestra terminasse. Era o doutor Ismael Pedrosa - anos mais tarde assassinado numa emboscada em Taubaté -, homem destemido que andava pela cadeia inteira como se estivesse no quintal de casa.

O café durou mais de uma hora. O diretor contava histórias de tentativas de fuga, rebeliões e crimes que dariam para escrever mais de um livro.

Quando dei por mim, passava de 13h30. Expliquei que já estava atrasado e que não tinha cabimento fazê-lo perder tanto tempo.

Ele respondeu que era sexta-feira, dia em que os detentos se ocupavam com a faxina nas celas para receber a visita dos familiares. "Hoje é o dia mais calmo da semana, dá até tédio", acrescentou quando nos despedimos.

No fim da tarde, quando soube que a TV mostrava cenas de uma rebelião no Carandiru, achei que devia haver algum engano.

Passados 20 anos, a consciência nacional continua atormentada pelos fantasmas dos 111 mortos naquele dia. Hoje nos custa crer que vivíamos numa sociedade institucionalmente tão violenta quanto aquela. O assim chamado massacre do Carandiru foi uma carnificina absolutamente gratuita, que enfraqueceu o poder do Estado e abriu espaço para que o crime se organizasse em facções decididas a impor suas leis nas prisões e fora delas.

A confusão começou num jogo de futebol, com uma briga entre dois homens pertencentes a quadrilhas inimigas que há tempos se estranhavam nas galerias do Nove, pavilhão para onde eram encaminhados os presos mais jovens, geralmente novatos no universo prisional.

Do campo, o confronto subiu para os andares do pavilhão, onde os homens tomaram a providência característica dessas horas: desentocaram as facas, medida necessária para defender-se dos desafetos que porventura se aproveitem da balbúrdia para acertar contas antigas.

O enfrentamento das duas quadrilhas provocou algumas mortes e se transformou num quebra-quebra generalizado, com fogo nos colchões e as cenas características das rebeliões em presídios do mundo inteiro.

A inexperiência dos que se achavam detidos no Nove, entretanto, foi causadora de um erro primário: não fizeram reféns; deixaram os funcionários sair do pavilhão.

Várias unidades da Polícia Militar entraram na cadeia.

A partir daquele momento, o diretor foi substituído por seus superiores hierárquicos, que centralizaram as decisões.

Qualquer carcereiro mais velho teria tomado as medidas rotineiras nessas crises: cortaria a água, a comida e a luz do pavilhão. Sem reféns, não havia pressa. Na manhã seguinte, os presos estariam prontos para negociar, como em outras oportunidades.

O próprio doutor Pedrosa insistiu que resolveria o problema se lhe dessem a oportunidade de conversar com os amotinados. Diante da negativa, dirigiu-se ao portão do Nove para tentar fazê-lo mesmo à revelia. Não teve tempo: "Mal cheguei, escancararam o portão. Fiquei prensado contra a parede, enquanto os soldados invadiam".

Agora, leio nos jornais que os policiais militares irão a julgamento. Nenhuma palavra sobre os verdadeiros responsáveis pelas mortes: as autoridades que ordenaram a invasão. É menosprezo à inteligência alheia pretender impor a versão de que um coronel da PM já falecido tomaria por conta própria uma medida com tantas implicações legais, sem consultar seus superiores hierárquicos.

O que pretendiam eles? Que um pelotão de militares com uma metralhadora na mão e um cachorro na coleira entrasse à noite num pavilhão em chamas para dialogar com os prisioneiros? Quem deu a famigerada ordem para que o comandante da tropa "dominasse a rebelião a qualquer preço"?

É provável que alguns soldados acabem condenados, a corda arrebentará do lado deles. Mas os verdadeiros culpados pela tragédia permanecerão no anonimato, impunes para sempre?

Sunday, September 30, 2012


A conversão da segunda alma do PT ao lulismo e seu correspondente ideológico, o desenvolvimento de um capitalismo popular, deixou vazio o lugar do anticapitalismo, hoje disputado por pequenas siglas como o PSOL e o PSTU, já que a esquerda do PT tem impacto dentro do partido, mas pouco fora dele. Essa situação carrega um paradoxo: o de que a esquerda no Brasil ganhou e perdeu, ao mesmo tempo, com a ascensão do lulismo. No momento em que um projeto reformista, mesmo fraco, avança na redução da sobrepopulação trabalhadora superempobrecida permanente, aumentando o contingente proletário, a luta ideológica parece recuar para um estágio anterior ao conflito capital/trabalho.

Certa hegemonia capitalista que o lulismo consolida no país se combina com o panorama geral vivido pela esquerda neste início do século XXI. A mudança eleitoral mundial, que começa no Reino Unido em 1979 e depois se espalhará pelas democracias avançadas, em ritmos e combinações diferentes, determinou o recuo contínuo da esquerda até deixá-la reduzida a pequenos grupos, com baixa capacidade decisória. Nesse período, que já dura cerca de trinta anos, surfando sobre a maré montante de maiorias eleitorais, o capital impôs as condições da luta de classes e conquistou uma liberdade que resultou na desregulamentação dos fluxos financeiros e na transferência de enormes porções da atividade econômica para lugares do planeta onde a mão de obra pode ser superexplorada.

O consenso neoliberal foi simbolizado pela autonomia dos bancos centrais, que funcionam como um governo paralelo sob orientação do mercado e fora do controle democrático da sociedade. No Brasil, como na Índia, na China e na África do Sul, forma-se um novo proletariado, enquanto na Europa e nos EUA ele se desintegra. Embora o capitalismo possa ser pós-industrial no centro, na periferia ainda gira ao redor da indústria. Os conflitos “fordistas” que começam a aparecer em países emergentes como a China são reflexo disso.

Aplicando-se em outro contexto, a observação de Tocqueville segundo a qual as revoluções tendem a ocorrer quando as coisas “estão melhores”, e não quando “vão muito mal”, deve-se imaginar que o novo proletariado brasileiro, beneficiado pela ascensão lulista, passe a fazer reivindicações. Mas quais serão as formas e o conteúdo dessas demandas?

Com a esquerda em retrocesso e as religiões evangélicas em avanço, há muito para pesquisar a respeito. 

Algumas indicações dão conta de que os grupos ascendentes chegam a patamar social superior imbuídos de religiosidade distinta da que envolvia o “antigo proletariado”. Enquanto este era majoritariamente católico, com uma interessante presença das Comunidades Eclesiais de Base, o atual é influenciado por diversas denominações evangélicas pentecostais e neopentecostais. Para descrevê-los, Rudá Ricci recorre à noção de Richard Sennett sobre a ideologia da intimidade para falar de grupos que tendem a restringir “sua participação em eventos da própria organização confessional”.

Igualmente Jessé Souza afirma que Mangabeira Unger foi dos primeiros a perceber “a importância das novas formas de religiosidade popular na conformação” da classe emergente.

As características ambíguas do proletariado recém-surgido abrem terreno de disputa partidária interessante, pois em cima da despolarização entre direita e esquerda aparece outra polarização. Ancorado na classe média, o PSDB procurará mostrar-se como o partido que tem os melhores quadros para estimular o mercado a atender aos desejos de consumo do proletariado emergente*. Enraizada entre os pobres, a segunda alma do PT levará o partido a se apresentar como aquele que põe o Estado ao lado do “batalhador brasileiro”. Se, em face do que foi o combate entre esquerda e direita nos anos 1980 e 1990, o embate soa como uma polaridade débil é porque são tempos de reformismo fraco. Mas, ainda que tênue, ele poderá colocar, se tiver a durabilidade prevista neste livro, as contradições brasileiras em degrau superior àquele que conteve a história do país até o início do século XXI.

André Singer - Os Sentidos do Lulismo: Reforma Gradual e Pacto Conservador

*Note-se que Singer não fala em "Nova Classe Média" e sim em "Novo Proletariado".

Para saber mais sobre segunda alma do PT, sobrepopulação trabalhadora superempobrecida permanente, e o batalhador brasileiro, leia o e-book disponível neste blog.

Sunday, September 23, 2012


Marcus Preto, crítico da Folha, resenhou o disco novo do Djavan assim:

[...] O álbum tem, de cara, meia dúzia de faixas com todos os elementos que reconhecemos como o "estilo Djavan": a batida sincopada do violão, o alongamento no final das frases melódicas, as letras que valorizam tanto o sentido das palavras quanto seu som.
Djavan está em sua zona de conforto, é o que parece.
Mas é tudo mentira. São muitos os temas menos "djavaneanos" no trabalho. Ares Sutis, Quinze Anos e Rua dos Amores, por exemplo, fogem completamente disso.
O problema é que eles só surgem lá para o final da audição, depois de a impressão de "mais do mesmo" ter se cristalizado nos ouvidos. [...]

Mas é mentira.

Ares Sutis, na verdade, é um retorno a temas e contornos melódicos de fases antigas, do disco Alumbramento, por exemplo, ou Álibi, ou A Ilha, ou Morena de Endoidecer. Essas sonoridades são recessivas ao longo da carreira do Djavan. Mas são encontráveis ao longo dela toda.

Mais do mesmo é a maneira de distorcer a obra do artista para deixar mais palatável aos olhos do leitor (pretensamente jovem). Que só conhece o Djavan "Jorge Avercillado" dos funks picantes e baladas apaixonadas de duas décadas pra cá. O crítico poderia ser aquele que localiza o antigo no novo, o novo no antigo. Se não estivesse tão desinformado quanto seu público.



Sunday, September 16, 2012



Ares Sutis

Quanto mais eu sei
Menos eu sei quem sou.
Será que eu vivi
Tudo por que passei...
E quem será que eu sou?
Mesmo podendo imaginar
O que eu quiser,
Eu não sei se sou tanto!

Quanto mais eu sou
Menos sou o que sei.
E pra o que nasci,
Será que cumprirei?
O que será que eu sei
Num corpo a mendigar,
Qual é a lei
No desvão do amar?

Me consumi
Pra ter um pouco de ti,
Clamei por atenção!
Jamais usei
Sapatos tão peculiares,
Andei vestida por colares mis,
Violentei até meus ares sutis!

E o que não tem fim
Começa outra vez:
Quanto mais eu sou
Acho que mais eu sei
O que vai ser, enfim
Sedada de afeição
Eu vou viver
Pra esquecer de mim

Saturday, September 08, 2012


DRAUZIO VARELLA

Microbioma humano

A visão de que os germes são inimigos, num mundo cada vez mais higiênico e estéril, pertence ao passado

Em nossa cosmovisão antropocêntrica, somos o resultado dos genes que se juntaram num óvulo fertilizado. A condição humana, no entanto, é muito mais complexa.

Recebemos de nossos pais cerca de 23 mil genes, número insignificante comparado aos 3,3 milhões de genes pertencentes às bactérias alojadas em nosso corpo.

Não imagine que elas são parasitas reles à espera de uma oportunidade para invadir o organismo. Entre outras funções nobres, as bactérias liberam micronutrientes essenciais, energia para o consumo diário, regulam o sistema imunológico e nos protegem contra germes virulentos.

Na visão moderna, o corpo humano é um ecossistema no qual as células descendentes do óvulo fertilizado constituem apenas um dos componentes. O outro é o microbioma, muito mais numeroso: para cada célula herdada existem dez bactérias.

Enquanto um homem de 70 quilos é formado por 70 trilhões de células, em seu intestino existem 100 trilhões de bactérias. Os outros 600 trilhões são encontradas na pele (10 mil em cada cm²), boca, cavidade nasal, seios da face e aparelho geniturinário.

Durante a gravidez, o bebê é mantido em ambiente estéril. Se ele assim permanecesse ao vir à luz, teria poucos dias de vida, devorado por germes agressivos e incapaz de obter no seio materno a energia necessária para sobreviver.

Ao passar pelo canal do parto, o bebê se infecta com as bactérias presentes na vagina e no aparelho urinário da mãe, ricas em Lactobacillus. Nos partos cesarianos, o microbioma é adquirido principalmente pelo contato com as bactérias da pele materna das pessoas que convivem com ela. A diferença na composição dos microbiomas entre os nascidos por via vaginal ou cesariana persiste por meses e deve ter implicações na saúde dos nenês.

A transição do leite materno para a dieta sólida está associada à aquisição de um microbioma mais semelhante ao da vida adulta, mas as doenças infecciosas, o uso de antibióticos e as características da dieta podem interferir com sua composição.

Daí em diante, os germes com quem dividimos o corpo serão adquiridos por meio do contato com os familiares e com os que nos cercam, de modo que o microbioma adquirirá características únicas que nos distinguirão dos demais seres humanos, tanto quanto nossa aparência física.

Em 2006, um estudo mostrou que a mucosa intestinal de indivíduos obesos era rica em bactérias do phylum Firmicutes, enquanto as dos magros pertenciam predominantemente ao phylum Bacteroidetes. Quando os obesos perdiam peso, a composição da flora adquiria as características dos magros.

Experimentos subsequentes demonstraram que o emagrecimento está associado à ação dos Bacteroidetes na inibição da síntese de um hormônio que facilita o armazenamento de gordura. Essa mudança da flora explicaria por que doses baixas de antibióticos ajudam o gado a engordar.

Da mesma forma, seria possível combater a subnutrição por meios de manipulações da flora intestinal.

Nos últimos cinco anos, tem sido demonstrado que o microbioma exerce papel importante em doenças cardiovasculares, esclerose múltipla, diabetes, infecções por germes patogênicos, doenças inflamatórias, como a doença de Crohn, que acomete os intestinos, processos autoimunes, como a asma, e até no autismo.

O caso do diabetes é especialmente ilustrativo. Pessoas com obesidade grave e diabetes submetidas a uma cirurgia conhecida como Y de Roux, na qual o intestino sofre um curto-circuito para reduzir a capacidade de absorção de nutrientes, perdem de 20 a 30% do peso corpóreo. O mais impressionante, entretanto, é que em cerca de 80% delas o diabetes desaparece em dias.

Diversas evidências sugerem que o Y de Roux facilita o aparecimento de bactérias que liberam fatores capazes de interferir com o controle da sensibilidade à insulina, mecanismo defeituoso nos que sofrem da doença.

A visão de que os germes são inimigos a ser combatidos, num mundo cada vez mais higiênico e estéril, pertence ao passado. Precisamos deles para sobreviver tanto quanto eles dependem de nós.

No futuro, manipularemos o compartimento bacteriano de nosso ecossistema, para tratar de enfermidades de forma personalizada. Infelizmente, os iogurtes disponíveis nos supermercados estão longe de cumprir essa tarefa.

Sunday, September 02, 2012