Wednesday, January 04, 2023

Quadras ao Gosto Popular

Fernando Pessoa

Cantigas de portugueses
São como barcos no mar —
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.

Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As per'las são os meus beijos,
O fio é o meu penar.

A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!

Deixa que um momento pense
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!

Morto, hei de estar ao teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P'ra ver um bem em morrer.

Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.

Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou —
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...

Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por 'star estragado
Que ainda não mo devolveste ...

A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.

Tens o leque desdobrado
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.

Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia?

Toda a noite ouvi no tanque
A pouca água a pingar.
Toda a noite ouvi na alma
Que não me podes amar.

Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.

Trazes a rosa na mão
E colheste-a distraída...
E que é do meu coração
Que colheste mais sabida?

Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!

Depois do dia vem noite,
Depois da noite vem dia
E depois de ter saudades
Vêm as saudades que havia.

No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar.

Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.

Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei.

Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.

Quando é o tempo do trigo
É o tempo de trigar,
A verdade é um postigo
A que ninguém vem falar.

Levas chinelas que batem
No chão com o calcanhar.
Antes quero que me matem
Que ouvir esse som parar.

Em vez da saia de chita
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior.

Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.

Teus brincos dançam se voltas
A cabeça a perguntar.
São como andorinhas soltas
Que inda não sabem voar.

Tens uma rosa na mão.
Não sei se é para me dar.
As rosas que tens na cara,
Essas sabes tu guardar.

Fomos passear na quinta,
Fomos à quinta em passeio.
Não há nada que eu não sinta
Que me não faça um enleio.

Os alcatruzes da nora
Andam sempre a dar e dar,
É para dentro e pra fora
E não sabem acabar.

Ó minha menina loura,
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina ...

Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.

Nunca dizes se gostaste
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.

O vaso que dei àquem
Que não sabe quem lho deu
Há de ser posto à janela
Sem ninguém saber que, é meu.

Tive uma flor para dar
A quem não ousei dizer
Que lhe queria falar,
E a flor teve que morrer.

Quando olhaste para trás,
Não supus que era por mim.
Mas sempre olhaste, e isso faz
Que fosse melhor assim.

Todos os dias eu penso
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.

Tens uma salva de prata
Onde pões os alfinetes...
Mas não tem salva nem prata
Aquilo que tu prometes.

Adivinhei o que pensas
Só por saber que não era
Qualquer das coisas imensas
Que a minh'alma sempre espera.

Ouvi-te cantar de dia.
De noite te ouvi cantar.
Ai de mim, se é de alegria!
Ai de mim, se é de penar!

Por um púcaro de barro
Bebe-se a água mais fria.
Quem tem tristezas não dorme,
Vela para ter alegria.

O malmequer que arrancaste
Deu-te nada no seu fim,
Mas o amor que me arrancaste,
Se deu nada, foi a mim.

Teu xaile de seda escura
É posto de tal feição
Que alegre se dependura
Dentro do meu coração.

O manjerico comprado
Não é melhor que o que dão.
Põe o manjerico ao lado
E dá-me o teu coração.

Rosa verde, rosa verde,...
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.

A rosa que se não colhe
Nem por isso tem mais vida.
Ninguém há que te não olhe
Que te não queira colhida.

Há verdades que se dizem
E outras que ninguém dirá.
Tenho uma coisa a dizer-te
Mas não sei onde ela está.

Quando ao domingo passeias
Levas um vestido claro.
Não é o que te conheço
Mas é em ti que reparo.

Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.

Andorinha que passaste,
Quem é que te esperaria?
Só quem te visse passar.
E esperasse no outro dia.

Nuvem do céu, que pareces
Tudo quanto a gente quer,
Se tu, ao menos, me desses
O que se não pode ter!

O burburinho da água
No regato que se espalha
É como a ilusão que é mágoa
Quando a verdade a baralha.

Leve sonho, vais no chão
A andares sem teres ser.
És como o meu coração
Que sente sem nada ter.

Vai alta a nuvem que passa.
Vai alto o meu pensamento
Que é escravo da tua graça
Como a nuvem o é do vento.

Ambos à beira do poço
Achamos que é muito fundo.
Deita-se a pedra, e o que eu ouço
É teu olhar, que é meu mundo.

Aquela senhora velha
Que fala com tão bom modo
Parece ser uma abelha
Que nos diz: "Não incomodo".

Maria, se eu te chamar,
Maria, vem cá dizer
Que não podes cá chegar.
Assim te consigo ver.

Boca com olhos por cima
Ambos a estar a sorrir...
Já sei onde está a rima
Do que não ouso pedir.

Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.

Tinhas um pente espanhol
No cabelo Português,
Mas quando te olhava o sol,
Eras só quem Deus te fez.

Boca de riso escarlate
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.

Quem me dera, quando fores
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.

Acendeste uma candeia
Com esse ar que Deus te deu.
Já não é noite na aldeia
E, se calhar, nem no céu.

Eu te pedi duas vezes
Duas vezes, bem o sei,
Que por fim me respondesses
Ao que não te perguntei.

Não digas mal de ninguém
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.

Todas as coisas que dizes
Afinal não são verdade.
Mas, se nos fazem felizes,
Isso é a felicidade.

Dás nós na linha que cose
Para que pare no fim.
Por muito que eu pense e ouse,
Nunca dás nó para mim.

Não sei em que coisa pensas
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio pro mar...
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

As ondas que a maré conta
Ninguém as pode contar.
Se, ao passar, ninguém te aponta,
Aponta-te com o olhar.

Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.

Quando cantas, disfarçando
Com a cantiga o cantar,
Parece o vento mais brando
Nesta brandura do ar.

Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.

A mantilha de espanhola
Que trazias por trazer
Não te dava um ar de tola
Porque o não podias ter.

Boca de riso escarlate
Com dentes brancos no meio,
Meu coração bate, bate,
Mas bate por ter receio.

Se há uma nuvem que passa
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.

Tu, ao canto da janela
Sorrias a alguém da rua,
Porquê ao canto, se aquela
Posição não é a tua?

Dá-me, um sorriso ao domingo,
Para à segunda eu lembrar.
Bem sabes: sempre te sigo
E não é preciso andar.

Tens olhos de quem não quer
Procurar quem eu não sei.
Se um dia o amor vier
Olharás como eu olhei.

Pobre do pobre que é ele
E não é quem se fingiu!
Por muito que a gente vele
Descobre que já dormiu.

Não me digas que me queres
Pois não sei acreditar.
No mundo há muitas mulheres
Mas mentem todas a par.

Água que não vem na bilha
É como se não viesse.
Como a mãe, assim a filha...
Antes Deus as não fizesse.

Ó loura dos olhos tristes
Que me não quis escutar...
Quero só saber se existes
Para ver se te hei de amar.

Há grandes sombras na horta
Quando a amiga lá vai ter...
Ser feliz é o que importa,
Não importa como o ser!

O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh'alma é
Moeu quem me deixa só.

Dizem que não és aquela
Que te julgavam aqui.
Mas se és alguém e és bela
Que mais quererão de ti?

Tenho um livrinho onde escrevo
Quando me esqueço de ti.
É um livro de capa negra
Onde inda nada escrevi.

Olhos tristes, grandes, pretos,
Que dizeis sem me falar
Que não há filhos nem netos
De eu não querer amar.

Meu coração a bater
Parece estar-me a lembrar
Que, se um dia te esquecer,
Será por ele parar.

Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente

Trazes o vestido novo
Como quem sabe o que faz.
Como és bonita entre o povo,
Mesmo ficando para trás!

A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.

A laranja que escolheste
Não era a melhor que havia.
Também o amor que me deste
Qualquer outra mo daria.

Se o sino dobra a finados
Há de deixar de dobrar.
Dá-me os teus olhos fitados
E deixa a vida matar!

Por muito que pense e pense
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.

Tome lá, minha menina,
O ramalhete que fiz.
Cada flor é pequenina,
Mas tudo junto é feliz.

A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.

Dei-lhe um beijo ao pé da boca
Por a boca se esquivar.
A idéia talvez foi louca,
O mal foi não acertar.

Compras carapaus ao cento,
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.

Duas horas te esperei.
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há de ser dia ...

Tenho um desejo comigo
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.

Leve vem a onda leve
Que se estende a adormecer,
Breve vem a onda breve
Que nos ensina a esquecer.

Quando a manhã aparece
Dizem que nasce alegria.
Isso era se Ela viesse.
Até de noite era dia.

Nuvem alta, nuvem alta,
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais!

Teu carinho, que é fingido,
Dá-me o prazer de saber
Que inda não tens esquecido
O que o fingir tem de ser.

A luva que retiraste
Deixou livre a tua mão.
Foi com ela que tocaste,
Sem tocar, meu coração.

O avental, que à gaveta
Foste buscar, não terá
Algibeira em que me meta
Para estar contigo já?

Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta.
Foi da festa ou foi da gente?

Rouxinol que não cantaste,
Galo que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?

Quando chegaste à janela
Todos que estavam na rua
Disseram: olha, é aquela,
Tal é a graça que é tua!

Nuvem que passas no céu,
Dize a quem não perguntou
Se é bom dizer a quem deu:
"O que deste, não to dou."

"Vou trabalhando a peneira
E pensando assim assim.
Eu não nasci para freira.
Gosto que gostem de mim."

Roseiral que não dás rosas
Senão quando as rosas vêm,
Há muitas que são formosas
Sem que o amor lhes vá bem.

Ribeirinho, ribeirinho,
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.

"Vesti-me toda de novo
E calcei sapato baixo
Para passar entre o povo
E procurar quem não acho."

Tua boca me diz sim,
Teus olhos me dizem não.
Ai, se gostasses de mim
E sem saber a razão.

Quero lá saber por onde
Andaste todo este dia!
Nunca faz-bem quem se esconde
Mas onde foste, Maria?

O vaso do manjerico
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.

O cravo que tu me deste
Era de papel rosado.
Mas mais bonito era inda
O amor que Me foi negado,

Trazes os sapatos, pretos
Cinzentos de tanto pó.
Feliz é quem tiver netos
De quem tu sejas avó!

Vem de lá do monte verde
A trova que não entendo.
É um som bom que se perde
Enquanto se vai vivendo.

Moreninha, moreninha,
Com olhos pretos a rir.
Sei que nunca serás minha,
Mas quero ver-te sorrir.

Puseste a chaleira ao lume
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!

Lá vem o homem da capa
Que ninguém sabe quem é...
Se o lenço os olhos te tapa
Veio os teus olhos por fé.

Loura dos olhos dormentes,
Que são azuis e amarelos,
Se as minhas mãos fossem pentes,
Penteavam-te os cabelos.

O sino dobra a finados.
Faz tanta pena a dobrar!
Não é pelos teus pecados
Que estão vivos a saltar.

Traze-me um copo com água
E a maneira de o trazer.
Quero ter a minha mágoa
Sem mostrar que a estou a ter.

Olha o teu leque esquecido!
Olha o teu cabelo solto!
Maria, toma sentido!
Maria, senão não volto!

Já duas vezes te disse
Que nunca mais te diria
O que te torno a dizer
E fica para outro dia.

Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.

O teu lenço foi mal posto
Pela pressa que to pôs.
Mais mal posto é o meu desgosto
Do que não há entre nós.

Olhos de veludo falso
E que fitam a entender,
Vós sois o meu cadafalso
A que subo com prazer.

Duas vezes eu tentei
Dizer-te que te queria,
E duas vezes te achei
Só a que falava e ria.

Meu coração é uma barca
Que não sabe navegar.
Guardo o linha na arca
Com um ar de o acarinhar.

Tenho um desejo comigo
Que hoje te venho dizer:
Queria ser teu amigo
Com amizade a valer.

És Maria da Piedade
Pois te chamaram assim.
Sê lá Maria à vontade,
Mas tem piedade de mim.

Tu És Maria da Graça,
Mas a que graça é que vem
Ser essa graça a desgraça
De quem a graça não tem?

Caiu no chão o novelo
E foi-se desenrolando.
Passas a mão no cabelo.
Não sei em que estás pensando.

A tua saia, que é curta,
Deixa-te a perna a mostrar:
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.

Meu amor é fragateiro.
Eu sou a sua fragata.
Alguns vão atrás do cheiro,
Outros vão só pela arreta.

Vai longe, na serra alta,
A nuvem que nela toca...
Dá-me aquilo que me falta —
Os beijos da tua boca.

HÁ um doido na nossa voz
Ao falarmos, que prendemos:
É o mal-estar entre nós
Que vem de nos percebermos.

Teu vestido porque é teu,
Não é de cetim nem chita.
É de sermos tu e eu
E de tu seres bonita.

Entornaram-me o cabaz
Quando eu vinha pela estrada.
Como ele estava vazio,
Não houve loiça quebrada.

O rosário da vontade,
Rezei-o trocado e a esmo.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem se é isso mesmo.

Castanhetas, castanholas —
Tudo é barulho a estalar.
As que ao negar são mais tolas
São mais espertas ao dar.

O manjerico e a bandeira
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.

Tem A filha da caseira
Rosas na caixa que tem.
Toda ela é uma rosa inteira
Mas não a cheira ninguém.

A moça que há na estalagem
Ri porque gosta de rir.
Não sei o que é da viagem
Por esta moça existir.

Lenço preto de orla branca
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.

Aquela loura de preto
Com uma flor branca ao peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.

A tua janela é alta,
A tua casa branquinha.
Nada lhe sobra ou lhe falta
Senão morares sozinha.

Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração,.

Cortaste com a tesoura
O pano de lado a lado.
Porque é que todo teu gesto
Tem a feição de engraçado?

Ai, os pratos de arroz doce
Com as linhas de canela!
Ai a mão branca que os trouxe!
Ai essa mão ser a dela!

Frescura do que é regado,
Por onde a água inda verte...
Quero dizer-te um bocado
Do que não ouso dizer-te.

Ó pastora, ó pastorinha,
Que tens ovelhas e riso,
Teu riso ecoa no vale
E nada mais é preciso.

A abanar o fogareiro
Ela corou do calor.
Ah, quem a fará corar
De um outro modo melhor!

Manjerico que te deram,
Amor que te querem dar...
Recebeste o manjerico.
O amor fica a esperar.

Dona Rosa, Dona Rosa.
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?

O laço que tens no peito
Parece dado a fingir.
Se calhar já estava feito
Como o teu modo de rir.

Dona Rosa, Dona Rosa,
Quando eras inda botão
Disseram-te alguma cousa
De a flor não ter coração?

Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer.
E com isto já to disse
Estavas farta de o saber ...

Os ranchos das raparigas
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.

Rezas porque outros rezaram,
E vestes à moda alheia...
Quando amares vê se amas
Sem teres o amor na idéia.

A senhora da Agonia
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.

Aparta o cabelo ao meio
A do cabelo apartado.
É a estrelinha em que leio
Que estou a ser enganado.

Esse frio cumprimento
Tem ironia p'ra mim.
Porque é o mesmo movimento
Com que a gente diz que sim...

Vejo lágrimas luzir
Nos teus olhos de fingida.
É como quando à janela
Chegas, um pouco escondida.

Trincaste, para o partir,
O retrós de costurar.
Quem não soubesse diria
Que o estavas a beijar.

Deixaste o dedal na mesa
Só pelo tempo da ausência —
Se eu to roubasse dirias
Que eu não tinha consciência.

Dá-me um sorriso daqueles
Que te não servem de nada
Como se dá às crianças
Uma caixa esvaziada.

O canário já não canta.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.

Rezas a Deus ao deitar-te
Pedindo não sei o quê.
Se rezasses ao Demônio,
Eu saberia o que é.

Boca que tens um sorriso
Como se fosse um florir,
Teus olhos cheios de riso
Dão-lhe um orvalho de rir.

Uma boneca de trapos
Não se parte se, cair.
Fizeste-me a alma em farrapos
Bem: não se pode partir.

O que sinto e o que penso
De ti é bem e é mal.
É como quando uma xícara
Tem o pires desigual.

Levas a mão ao cabelo
Num gesto de quem não crê.
Mas eu não te disse nada.
Duvidas de mim? Porquê?

Compreender um ao outro
É um jogo complicado.
Pois quem engana não sabe
Se não estava enganado.

A roda dos dedos juntos
Enrolaste a fita a rir.
Corações não são assuntos
E falar não é sentir.

Chama-te boa, e o sentido
Não é bem o que eu supunha.
Boa não é apelido:
É, quando muito, alcunha.

Tu És Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.

Se vais de vestido novo
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.

Tens um anel imitado
Mas vais contento de o ter.
Que importa o falsificado
Se é verdadeiro o prazer.

Tenho ainda na lembrança
Como uma coisa que veio,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!

O ar do campo vem brando,
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.

Quando ela pôs o chapéu
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.

Quem te deu aquele anel
Que ainda ontem não tinhas?
Como tu foste infiel
A certas idéias minhas!

Essa costura à janela
Que lhe inclinou a cabeça
Fez-me ver como era dela
Que o coração tinha pressa.

O ribeiro bate, bate
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.

Nunca houve romaria
Que se lembrassem de mim...
Também quem se lembraria
De quem se lamenta assim?

Comes melão às dentadas
Porque assim não deve ser.
Não sei se essas gargalhadas
Me fazem rir ou sofrer.

Há dois dias que não vejo
Modo de tornar-te a ver:
Se outros também te não vissem,
Desejava sem sofrer.

O teu cabelo cortado
A maneira de rapaz
Não deixa justificado
Aquele amor que me faz.

Se te queres despedir
Não te despidas de mim,
Que eu não posso consentir
Que tu me trates assim.

Quem te fez assim tão linda
Não o fez para mostrar
Que se é mais linda ainda
Quando se sabe negar.

Floriu a roseira toda
Com as rosas de trepar...
Tua cabeça anda à roda
Mas sabes-te equilibrar.

Morena dos olhos baços
Velados de não sei quê,
No mundo há falta de braços
Para o que o teu olhar vê.

Quando compões o cabelo
Com tua mão distraída
Fazer-me um grande novelo
No pensamento da vida.

Teus olhos de quem não fita
Vagueiam, 'stão na distância.
Se fosses menos bonita,
Isso não tinha importância.

Tocam sinos a rebate
E levantaste-te logo.
Teu coração só não bate
Por a quem puseste fogo.

O coração é pequeno,
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto ...

Deram-me um cravo vermelho
Para eu ver como é a vida.
Mas esqueci-me do cravo
Pela hora da saída.

Fiz estoirar um cartucho
Contra a parede do lado.
Assim farei eu à vida,
Que o sonhar fez-me assoprado.

O malmequer que colheste
Deitaste-o fora a falar.
Nem quiseste ver a sorte
Que ele te podia dar.

Comi melão retalhado
E bebi vinho depois,
Quanto mais olho p'ra ti
Mais sei que não somos dois.

Trazes um lenço novinho
Na cabeça e a descair,
Se eu te beijar no cantinho
Só saberá quem nos vir.

E ao acabar estes versos
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.

Toda a noite, toda a noite,
Toda a noite sem pensar...
Toda a noite sem dormir
E sem tudo isso acabar.

Puseste um vaso à janela.
Foi sinal ou não foi nada,
Ou foi p'ra que pense em ti
Que te não importas nada?

Eu vi ao longe um navio
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.

Corre a água pelas calhas
Lá segundo a sua lei.
Pareces, vista de lado,
Aquela que te julguei.

Lá por olhar para ti
Não julgues que é por gostar.
Eu gosto muito do sol,
E nem o posso fitar.

Viraste-me a cara quando
Ia a dizer-te, à chegada,
Que, se voltasses a cara,
Que eu não me importava nada.

Na quinta que nunca houve
Há um poço que não há
Onde há de ir encontrar água
Alguém que te entenderá.

Voam débeis e enganadas
As folhas que o vento toma.
Bem sei: deitamos os dados
Mas Deus é sue deita a soma.

Ribeirinho, ribeirinho,
Que falas tão devagar,
Ensina-me o teu caminho
De passar sem desejar amar.

Do alto da torre da igreja
Vê-se o campo todo em roda.
Só do alto da esperança
Vemos nós a vida toda.

Dá-me um sorriso a brincar,
Dá-me uma palavra a rir,
Eu me tenho por feliz
Só de te ver e te ouvir.

Trazes um lenço apertado
Na cabeça, e um nó atrás.
Mas o que me traz cansado
É o nó que nunca se faz.

Vi-te a dizer um adeus
A alguém que se despedia,
E quase implorei dos céus
Que eu partisse qualquer dia.

Eu voltei-me para trás
Para ver se te voltavas.
Há quem dê favas aos burros,
Mas eles comem as favas.

Deixaste cair no chão
O embrulho das queijadas.
Riste disso — E porque não?
A vida é feita de nadas.

Deste-me um cordel comprido
Para atar bem um papel.
Fiquei tão agradecido
Que inda tenho esse cordel.

No dia de Santo Antônio
Todos riem sem razão.
Em São João e São Pedro
Como é que todos rirão?

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.

O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.

Baila o trigo quando há vento
Baila porque o vento o toca
Também baila o pensamento
Quando o coração provoca.

Fizeste molhos de flores
Para não dar a ninguém.
São como os molhos de amores
Que foras fazer a alguém.

Se houver alguém que me diga
Que disseste bem de mim,
Farei uma outra cantiga,
Porque esta não é assim.

Manjerico, manjerico,
Manjerico que te dei,
A tristeza com que fico
Inda amanhã a terei.

Ris-te de mim? Não me importo.
Rir não faz mal a ninguém.
Teu rir é tão engraçado
Que, quando faz mal, faz bem.

Ouves-me sem me entender.
Sorris sem ser porque falo.
É assim muita mulher.
Mas nem por isso me calo.

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.

Bailaste de noite ao som
De uma música estragada.
Bailar assim só é bom
Quando a alegria é de nada.

Não sei que flores te dar
Para os dias da semana.
Tens tanta sombra no olhar
Que o teu olhar sempre engana.

Descasquei o camarão,
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.

Cabeça de ouro mortiço
Com olhos de azul do céu,
Quem te ensinou o feitiço
De me fazer não ser eu?

São já onze horas da noite.
Porque te não vais deitar?
Se de nada serve ver-te,
Mais vale não te fitar.

Tiraste o linho da arca,
Da arca tiraste o linho.
Meu coração tem a marca
Que lhe puseste mansinho.

Ao dobrar o guardanapo
Para o meteres na argola
Fizeste-me conhecer
Como um coração se enrola.

Quando eu era pequenino
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!

Meia volta, toda a volta,
Muitas voltas de dançar...
Quem tem sonhos por escolta
Não é capaz de parar.

Fui passear no jardim
Sem saber se tinha flores
Assim passeia na vida
Quem tem ou não tem amores.

No dia em que te casares
Hei de te ir ver à Igreja
Para haver o sacramento
De amar-te alguém que ali esteja.

Quando apertaste o teu cinto
Puseste o cravo na boca.
Não sei dizer o que sinto
Quando o que sinto me toca.

Toda a noite ouvi os cães
P'ra manhã ouvi os galos.
Tristeza — vem ter conosco.
Prazeres — é ir achá-los.

Deram-me, para se rirem,
Uma corneta de barro,
Para eu tocar à entrada
Do Castelo do Diabo.

Quando te apertei a mão
Ao modo de assim-assim,
Senti o meu coração
A perguntar-me por mim.

Tinhas um vestido preto
Nesse dia de alegria...
Que certo! Pode pôr luto
Aquele que em ti confia.

Só com um jeito do corpo
Feito sem dares por isso
Fazes mais mal que o demônio
Em dias de grande enguiço.

Esse xaile que arranjaste,
Com que pareces mais alta
Dá ao teu corpo esse brio
Que à minha coragem falta.

Tem um decote pequeno,
Um ar modesto e tranqüilo;
Mas vá-se lá descobrir
Coisa pior do que aquilo!

Teus olhos poisam no chão
Para não me olhar de frente.
Tens vontade de sorrir
Ou de rir? É tão dif'rente!

Quando passas pela rua
Sem reparar em quem passa,
A alegria é toda tua
E minha toda a desgraça.

A esmola que te vi dar
Não me deu crença nem fé,
Pois a que estou a esperar
Não é esmola que se dê.

Caiu no chão a laranja
E rolou pelo chão fora.
Vamos apanhá-la juntos,
E o melhor é ser agora.

Quando te vais a deitar
Não sei se rezas se não.
Devias sempre rezar
E sempre a pedir perdão.

É limpo o adro da igreja.
É grande o largo da praça.
Não há ninguém que te veja
Que te não encontre graça.

Quando agora me sorriste
Foi de contente de eu vir,
Ou porque me achaste triste,
Ou já estavas a sorrir?

Boca que o riso desata
Numa alegria engraçada,
És como a prata lavrada
Que é mais o lavor que a prata.

Por cima da saia azul
Há uma blusa encarnada,
E por cima disso os olhos
Que nunca me dizem nada.

Fazes renda de manhã
E fazes renda ao serão.
Se não fazes senão renda,
Que fazes do coração?

Todos te dizem que és linda.
Todos to dizem a sério.
Como o não sabes ainda
Agradecer é mistério.

Eu bem sei que me desdenhas
Mas gosto que seja assim,
Que o dendém que por mim tenhas
Sempre é pensares em mim.

A tua irmã é pequena,
Quando tiver tua idade,
Transferirei minha pena
Ou fico só com metade?

Quando me deste os bons dias
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.

Tenho uma idéia comigo
De que não quero falar.
Se a idéia fosse um postigo
Era pra te ver passar.

Andorinha que vais alta,
Porque não me vens trazer
Qualquer coisa que me falta
E que te não sei dizer?

Tenho um lenço que esqueceu
A que se esquece de mim.
Não é dela, não é meu,
Não é princípio nem fim.

Duas horas vão passadas
Sem que te veia passar.
Que coisas mal combinadas
Que são amor e esperar!

Houve um momento entre nós
Em que a gente não falou.
Juntos, estávamos sós.
Que bom é assim estar só!

"Das flores que há pelo campo
O rosmaninho é rei. . . "
É uma velha cantiga...
Bem sei, meu Deus, bem o sei.

O moinho que mói trigo
Mexe-o o vento ou a água,
Mas o que tenho comigo
Mexe-o apenas a mágoa.

Aquela que tinha pobre
A única saia que tinha,
Por muitas roupas que dobre
Nunca será mais rainha.

Tens uns brincos, sem valia
E um lenço que não é nada,
Mas quem dera ter o dia
De quem és a madrugada.

Loura, teus olhos de céu
Têm um azul que é fatal..
Bem sei: Foi Deus que tos deu.
Mas então Deus fez o mal?

Vai alta sobre a montanha
Uma nuvem sem razão.
Meu coração acompanha
O não teres coração.

Dizem que as flores são todas
Palavras que a terra diz.
Não me falas: incomodas.
Falas: sou menos feliz.

Duas vezes jurei ser
O que julgo que sou,
Só para desconhecer
Que não sei para onde vou.

O pescador do mar alto
Vem contente de pescar.
Se prometo, sempre falto:
Receio não agradar.

Todos lá vão para a festa
Com um grande azul de céu.
Nada resta, nada resta...
Resta sim, que resta eu.

Andei sozinho na praia
Andei na praia a pensar
No jeito da tua saia
Quando lá estiveste a andar.

Onda que vens e que vais
Mar que vais e depois vens,
Já não sei se tu me atrais,
E, se me, atrais, se me tens.

Quando há música, parece
Que dormes, e assim te calas,
Mas se a música falece,
Acordo, e não me falas.

Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesses o jeito
De ter lá um coração.

O guardanapo dobrado
Quer dizer que se não volta.
Tenho o coração atado:
Vê se a tua mão mo solta.

"À tua porta está lama.
Meu amor, quem na faria?"
É assim a velha cantiga
Que como tu principia.

Menina de saia preta
E de blusa de outra cor,
Que é feito daquela seta
Que atirei ao meu amor?

Lavas a roupa na selha
Com um vagar apressado,
E o brinco na tua orelha
Acompanha o teu cuidado.

Duas vezes te falei
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p'ra te dar.

Velha cadeira deixada
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.

Trazes a bilha à cabeça
Como se ela não houvesse.
Andas sem pressa depressa
Como se eu lá não estivesse.

Trazes um manto comprido
Que não é xaile a valer.
Eu trago em ti o sentido
E não sei que hei de dizer.

Olhas para mim às vezes
Como quem sabe quem sou.
Depois passam dias, meses,
Sem que vás por onde vou.

Quando tiraste da cesta
Os figos que prometeste
Foi em mim dia de festa,
Mas foi a todos que os deste.

Aquela que mora ali
E que ali está à janela
Se um dia morar aqui
Se calhar não será ela.

Mas que grande disparate
É o que penso e o que sinto.
Meu coração bate, bate
E se sonho minto, minto.

Puseste por brincadeira
A touca da tua irmã.
Ó corpo de bailadeira,
Toda a noite tem manhã.

Dizes-me que nunca sonhas
E que dormes sempre a fio.
Quais são as coisas risonhas
Que sonhas por desfastio?

O teu carrinho de linha
Rolou pelo chão caído.
Apanhei-o e dei-to e tinha
Só em ti o meu sentido.

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém te cura
E morrer é que é ter alta.

Que tenho o coração preto
Dizes tu, e inda te alegras.
Eu bem sei que o tenho preto:
Está preto de nódoas negras.

Na praia de Monte Gordo.
Meu amor, te conheci.
Por ter estado em Monte Gordo
É que assim emagreci.

Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem.
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.

"Mau, Maria!" — tu disseste
Quando a trança te caía.
Qual "Mau, Maria", Maria!
"Má Maria"' "Má Maria!"

Era já de madrugada
E eu acordei sem razão,
Senti a vida pesada.
Pesado era o coração.

Boca de romã perfeita
Quando a abres p'ra comer.
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?

Tenho um segredo comigo
Que me faz sempre cismar,
É se quero estar contigo
Ou quero contigo estar.

Trazes já aquele cinto
Que compraste no outro dia.
Eui trago o que sempre sinto
E que é contigo, Maria.

Teu olhar não tem remorsos
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.

Disseste-me quase rindo:
"Conheço-te muito bem!"
Dito por quem me não quer.
Tem muita graça, não tem?

Fica o coração pesado
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei. . .

Este é o riso daquela
Em que não se reparou.
Quando a gente se acautela
Vê que não se acautelou.

Tens vontade de comprar
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.

Baila em teu pulso delgado
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado.
És santa, nunca pecaste.

Teus olhos querem dizer
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer.
Que sejas muito feliz.

Água que passa e canta
É água que faz dormir...
Sonhar é coisa que encanta,
Pensar é já não sentir.

Deste-me um adeus antigo
À maneira de eu não ser
Mais que o amigo do amigo
Que havia de poder ter.

Linda noite a desta lua.
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua.
Por onde ela não virá.

O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.

Puseste a mantilha negra
Que hás de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!

Trazes os brincos compridos,
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.

Deixaste cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.

Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.

No dia de S. João
Há fogueiras e folias.
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.

Santo Antônio de Lisboa
Era um grande pregador,
Mas é por ser Santo Antônio
Que as moças lhe têm amor.

Saturday, August 13, 2022

Descontínuo Volátil Efêmero


Eu não sou trabalhador do campo, nunca ateei fogo em pneus para bloquear estradas, não dormi em barracas de plástico preto sob a mira de escopetas de grileiros, tampouco enfrentei os fuzis da Polícia Militar me interditando nalguma marcha. Quem sou eu pra dizer o que o MST deve ou não fazer? Não sou sem-teto, não ocupo prédios, não construo em mutirão, não acampei na porta do Mixéu, nem no gabinete da Presidência na Avenida Paulista. Por que eu me sentiria no direito de ditar ao Boulos o que ele fala ou deixa de falar? Eu não tenho nada a ver com a UNE. Vou criticar a Carina Vitral? Do berçário à Universidade paguei escola pras minhas meninas: que palpite posso ter sobre as preferências eleitorais dos secundaristas das escolas públicas do país? Não sou filiado ao PT e já cheguei à meia idade. Que diabos eu vou reclamar do Levante Popular da Juventude? Nem celetista sou, nunca fui! Vou deitar falação pra cima da CUT?

Pertenço, e disso não tenho dúvida, à pequena burguesia. Segundo a professora Marilena Chauí, "Marx falava em pequena burguesia para indicar uma classe que não se situava nos dois polos da divisão social constituinte do modo de produção capitalista, bem como para apontar sua proximidade social e ideológica com a burguesia e não com os trabalhadores".

Adotando-se, ou não, a noção dos sociólogos americanos de 'classe média' a partir de critérios de renda, escolaridade, profissão e consumo e levando-se ainda em consideração o desaparecimento do modelo fordista, o surgimento da tecnociência e a passagem das antigas profissões liberais autônomas à condição assalariada, o fato é que, no panorama contemporâneo, a pequena burguesia, ou classe média, permanece estando fora do núcleo econômico definidor do capitalismo, assim como fora do núcleo de poder político: ela não detém o poder do Estado (que pertence à classe dominante) nem o poder social da classe trabalhadora organizada. "Isso a coloca numa posição que a define não somente por sua posição econômico-política, mas também e sobretudo por seu 'lugar ideológico' - e este tende a ser contraditório".

Segundo Chauí, "por sua posição no sistema social, a classe média tende a ser fragmentada, raramente encontrando um interesse comum que a unifique. Todavia, certos setores - como é o caso de estudantes, professores, setores do funcionalismo público, intelectuais, lideranças religiosas - tendem a se organizar e a se opor à classe dominante em nome da justiça social, colocando-se na defesa dos interesses dos excluídos, dos espoliados, dos oprimidos; numa palavra, tendem para a esquerda e, via de regra, para a extrema esquerda e o voluntarismo, isto é, por uma relação com o tempo como descontínuo e volátil que exige ações imediatas. No entanto, essa configuração é contrabalançada por outra, exatamente oposta. Fragmentada, perpassada pelo individualismo competitivo, desprovida de um referencial social e econômico sólido e claro, a classe média tende a suprir a existência de um tempo descontínuo e efêmero com o imaginário da ordem e da segurança, que introduziria permanência temporal e espacial. [...] Isso torna a classe média ideologicamente conservadora e reacionária, e seu papel social e político é assegurar a hegemonia ideológica da classe dominante".

Cabe ainda, segundo a professora, "particularizar a classe média, que, além dos traços anteriores, é também determinada pela estrutura autoritária da sociedade brasileira, marcada pelo predomínio do espaço privado sobre o público e fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece; as diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação mando-obediência, e as desigualdades são naturalizadas. As relações entre os que se julgam iguais são de 'parentesco', isto é, de cumplicidade; e com os que são vistos como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela ou da cooptação; quando a desigualdade é muito marcada, assume a forma da opressão, de sorte que a divisão social das classes é sobredeterminada pela polarização entre a carência (das classes populares) e o privilégio (da classe dominante). A classe média não só incorpora e propaga ideologicamente as formas autoritárias das relações sociais, como também incorpora e propaga a naturalização e valorização positiva da fragmentação e dispersão socioeconômica [...] para operar com os procedimentos do mercado".

E é exatamente por isso também que a classe média nos coloca uma questão política de enorme relevância, como atesta a participação de parcelas majoritárias de seus componentes nas manifestações de 2016 em favor do golpe de Estado.

A crescente sensação de isolamento das frações da classe média identificadas com o libertarismo democrático tem encontrado canal de expressão na crítica dirigida aos movimentos institucionalizados. Crítica que acaba funcionando como uma constatação, inadvertida, da incapacidade de iniciar ações e criar alternativas próprias. Da impotência. A tentativa de 'teorizar' a respeito das causas da crise, procurando por 'responsáveis' pela suposta letargia no enfrentamento ao golpe parece confirmar a dificuldade de 'se situar' desse grupo social que a professora Chauí define justamente pela fragmentação.

"Uma classe social", continua Marilena Chauí, "não é um 'dado fixo', definido apenas pelas determinações econômicas, mas um 'sujeito' social, político, moral e cultural que age, se constitui, interpreta a si mesma e se transforma por meio da luta de classes. Ela é uma 'praxis', um fazer histórico".

É particularmente difícil 'interpretar-se' para quem só percebe sua imagem por comparação a um 'outro', seja este outro o mais pobre ou o mais rico que ele mesmo. Despreparada para a autocrítica a classe média de tendência esquerdista tende ao desalento. Almeja por alguém que demonstre 'saber fazer a hora', mas, na prática, 'espera acontecer'.

fonte: Marilena Chauí - 'A Nova Classe Trabalhadora e a Ascensão do Conservadorismo'. Por Que Gritamos Golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil. Organização: Ivana Jinkings, Kim Doria e Murilo Cleto. Boitempo Editorial. 2016.

imagem: 'La Reproduction interdite', René Magritte, Museu Boijmans Van Beuningen, Rotterdam.

Saturday, July 16, 2022

A dor da gente não sai no jornal


Qualquer pessoa que tenha amor pela música popular está familiarizada com a figura do zé-ninguém, o ser humano corriqueiro, quase sempre sem nome, que protagoniza as letras das inúmeras composições que há quase um século e meio povoam o imaginário coletivo mundo afora.

O leitor atento também saberá localizar a presença do 'homem comum' na literatura, de Balzac a Joyce, de Machado a Bandeira e a Nelson Rodrigues. Mais ainda, talvez, no cinema.

A 'Joana-de-Tal' do samba, que "tentou contra a existência num humilde barracão" e cuja dor o jornal não se mostra capaz de dar a público, configura-se, assim, como ícone de um tempo voltado para as chamadas minudências, as insignificâncias e tudo que é mais banal.

O 'jornal', a 'Joana', as notícias que saem e as que deixam de sair, fazem parte também de um período histórico em que o 'desvelamento' desfruta de grande apreço. Um tempo das pesquisas e das metodologias em busca dos segredos 'da matéria'.

Esse espírito de época que dá valor ao comum e à banalidade, foi capturado com clareza pelo filósofo Jacques Rancière, numa pequena passagem de seu A Partilha do Sensível, livrinho publicado originalmente na França na virada do milênio.

Diz ele, na página 50 da edição brasileira, traduzida por Mônica Costa Netto:

(...) "o banal torna-se belo como rastro do verdadeiro. E ele se torna rastro do verdadeiro se o arrancarmos de sua evidência para dele fazer um hieróglifo, uma figura mitológica ou fantasmagórica. Essa dimensão fantasmagórica do verdadeiro (...) teve um papel essencial na constituição do paradigma crítico das ciências humanas e sociais. A teoria marxista do fetichismo é seu testemunho mais fulgurante: é preciso extirpar a mercadoria de sua aparência trivial, transformá-la em objeto fantasmagórico, para que nela seja lida a expressão das contradições de uma sociedade".

Wednesday, June 15, 2022

Bruno e Dom - cronologia de um crime

Bruno Pereira e Dom Phillips foram esquartejados e incendiados

Por Amazônia Real

Publicado em: 15/06/2022 às 18:49

Por Elaíze Farias e Kátia Brasil, da Amazônia Real

Manaus (AM) e Rio de Janeiro (RJ) – O indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram mortos à queima-roupa e seus corpos, esquartejados, incendiados e corpos enterrados em uma área nas proximidades da comunidade São Rafael, quase no limite da Terra Indígena Vale do Javari, em Atalaia do Norte, no Amazonas. Duas fontes, uma da Polícia Federal e um indígena, confirmaram que agentes passaram a tarde no local onde estariam as vítimas do cruéis assassinatos acompanhados de Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”. O pescador e seu irmão Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”, teriam confessado o crime nesta quarta-feira (15), mas indicaram um terceiro envolvido no crime.

O crime ocorreu mesmo na manhã do domingo de 5 de junho, logo após Bruno e Dom terem passado pela comunidade São Rafael. Pela confissão, “Dos Santos” e “Pelado” esquartejaram e carbonizaram os corpos das vítimas e jogaram os restos mortais no Itacoaí. Uma terceira pessoa é que teria atirado contra a dupla, segundo confessaram os irmãos. O brutal assassinato foi em represália às denúncias de que os ribeirinhos estavam invadindo a Terra Indigena (TI) Vale do Javari, no Amazonas, para pescar ilegalmente pirarucu e tracajás (quelôneos da Amazônia).

O ministro da Justiça Anderson Torres, na sua conta no Twitter, afirmou no início da noite desta quarta-feira, que tinha sido informado pela PF que “remanescentes humanos foram encontrados no local, onde estavam sendo feitas as escavações” e que eles seriam enviados à perícia. A PF daria uma coletiva às 19h30 (hora de Manaus) para falar do caso.

De acordo com a Polícia Federal, os dois foram mortos em uma área entre as comunidades São Rafael e Cachoeira, já na direção de Atalaia do Norte. Eles teriam sido encurralados em uma emboscada. Esta hipótese, publicada em primeira mão pela Amazônia Real, foi revelada em detalhes por uma fonte indígena que conhece as características da bacia do rio Javari e seus afluentes. Naquele dia, Bruno Pereira tinha intenção de levar para a PF provas de crimes praticados por pescadores ilegais, possivelmente financiados pelo narcotráfico, dentro da TI Vale do Javari, que vem sendo constantemente invadida.

Morador da comunidade São Gabriel, Amarildo da Costa de Oliveira foi preso no dia 7 de junho por posse ilegal de armas de uso restrito e drogas. Testemunhas ouvidas pela PF disseram que ele foi visto em uma embarcação navegando próximo da lancha onde viajavam Bruno e Dom. No dia 4 de junho, indígenas da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU) presenciaram ameaças feitas por um grupo de pescadores. Considerado suspeito, Oseney foi preso na terça-feira (14) e interrogado pela PF em Atalaia do Norte.

A primeira fonte indígena ouvida pela Amazônia Real já temia que Dom e Bruno tivessem sido mortos, chegando a indicar que suspeitava da “pior das hipóteses”. Essa suspeita acabou se espraiando por mais pessoas envolvidas nas buscas dos desaparecidos. Desde a semana passada, começaram a circular em Atalaia do Norte (AM) rumores sobre o crime praticado pelos irmãos “Pelado” e “Dos Santos”. Por se tratar de uma área de rios sinuosos, que se ramificam em igapós e igarapés, o temor de que tivesse havido uma ocultação de cadáver difícil de ser localizada só crescia após cada dia de buscas.

Os indígenas da EVU e de outras etnias conhecem bem a região onde aconteceu a emboscada, que fica fora dos limites da TI Vale do Javari, e desde os primeiros momentos se prontificaram a auxiliar na busca de alguma prova junto das autoridades policiais. Foi com a ajuda deles que foram encontrados pertences no domingo (12), uma semana após o desaparecimento de Dom e Bruno. Entre o material recolhido, submerso no rio, estavam roupas da dupla e a carteira de saúde de Bruno.

“Não foram só eles, não”

Indígenas ouvidos pela Amazônia Real já imaginavam que o jornalista britânico, colaborador assíduo do jornal The Guardian, e o indigenista brasileiro, licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai), estavam mortos, mas relataram estar perplexos pela forma como ocorreu o sumiço dos corpos.

A identificação do local aconteceu dois dias após a Embaixada brasileira na Inglaterra ter informado à família de Dom Phillips que os corpos já haviam sido localizados. Na sexta-feira (10), a PF informou que material orgânico “aparentemente humano” tinha sido levado para análise da perícia.

A prisão e a confissão dos dois não são suficientes para as lideranças indígenas ouvidas pela Amazônia Real. Manoel Chorimpa, do povo Marubo, disse à reportagem que há pelo menos mais uma ou duas pessoas envolvidas. “Não foram só eles, não”, afirmou, categórico. Paulo Marubo, da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), cobrou continuidade das forças policiais na investigação para se chegar a outros criminosos. “Estamos pedindo para a Polícia Federal pegar outros envolvidos. Não foram só o Pelado e o Oseney”, afirmou.

Na investigação da PF, testemunhas afirmaram que os dois, “Pelado” e “Dos Santos”, teriam envolvimento com o narcotráfico que financia a pesca ilegal de pirarucu, um peixe ameaçado de extinção e cuja pesca no Amazonas só é permitida em áreas de manejo, unidades de conservaçao ou terras indígenas.

De acordo com Manoel Chorimpa, há três categorias de pescadores na região do Vale do Javari. Existe o pescador simples, que pesca para sobreviver, e é geralmente de Atalaia do Norte. Há ainda o pescador regularizado, credenciado e que atua mais nos rios Javari e Curuçá. E há aqueles financiados pelo narcotráfico que priorizam a pesca de pirarucu e tracajá. “Estes são financiados por pessoas de Benjamin (Constant) e Tabatinga. E do lado do Peru, tem os ‘israelitas’ (chamados localmente de ‘cabeludos’), que são agricultores envolvidos com o narcotráfico, mas que possuem comércio em Atalaia. (Na comunidade de) São Rafael, são pessoas de Benjamin também. Eles possuem motores potentes, fazem muita festa”, afirmou Chorimpa.

Os minutos finais

Nos minutos finais antes de serem mortos, Bruno e Dom seguiram sozinhos em um barco de motor 40 HP até a comunidade São Rafael, no rio Itacoaí, para se encontrar com o ribeirinho Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como “Churrasco’. Ele é tio de “Pelado” e chegou a ser detido pela Polícia na terça-feira (07), sendo liberado algumas horas depois. Segundo Eliésio Marubo, advogado da Univaja, a reunião já estava marcada. Em entrevista à Amazônia Real, “Churrasco” negou que houvesse combinado reunião com Bruno Pereira.

Em São Rafael, Bruno tomou uma xícara de “Nescau” oferecida pela esposa de Churrasco, Alzenira Gomes, antes de retomar a viagem. Ele e Dom Phillips retornariam à sede de Atalaia do Norte com o objetivo de divulgar denúncias de invasões e pesca e caça ilegal coletadas por Bruno durante trabalho de vigilância e fiscalização da EVU, uma rede de monitoramento que começou a atuar em 2021 e recebia capacitação do indigenista. Desde que saiu da Funai, Bruno Pereira se prontificou a ajudar a Univaja a treinar os indígenas para combaterem os crimes ambientais na região.

Segundo apurou a Amazônia Real, Bruno havia marcado com “Churrasco” às 6 horas do dia 5 de junho. Com a informação prévia da visita, os criminosos teriam se armado e preparado para atacar Bruno Pereira em uma área estreita de um dos furo (atalhos) à margem do rio Itacoaí. Acuado e encurralado, Bruno não conseguiu fugir dos atacantes e levou um tiro. Dom teria sido morto por ter sido testemunha.

Desde o desaparecimento dos dois, a Univaja e centenas de indígenas da TI Vale do Javari se mobilizaram para as buscas de Bruno e Dom. Com o passar dos dias, as esperanças de encontrá-los vivos ia diminuindo. “Queremos encontrar pelo menos os corpos”, relatou uma liderança à Amazônia Real.

Depois da demora do Estado braasileiro para agir, criticada até pela ONU, as forças de segurança e policiais chegaram a Atalaia do Norte, um município com estrutura precária, com poucas ruas asfaltadas, acesso à internet e telefonia deficiente, e uma população de pouco mais de 20 mil pessoas. Na prática, o protagonismo das buscas se concentrou entre os indígenas, profundos conhecedores da floresta e dos rios da região do rio Javari e afluentes.

As mortes de Bruno e Dom causaram comoção sem precedentes entre os indígenas do Vale do Javari, com repercussões no resto do Brasil e do mundo. No domingo, várias lideranças indígenas, entre caciques históricos, como Eduardo Dyamin Kanamari, da aldeia Massapê, no rio Itacoaí, saíram de suas aldeias até a sede de Atalaia do Norte, onde fizeram um protesto e homenagearam o jornalista e o indigenista. Na segunda-feira (13), integraram-se às equipes de busca que já estavam atuando desde a notícia do sumiço.

A liderança Manoel Chorimpa lamentou entristecido a morte do amigo. “O Bruno se sacrificou servindo de escudo dos povos indígenas do Vale do Javari, sobretudo na defesa dos povos isolados e dos recursos ambientais”, disse à Amazônia Real.

Os vigilantes indígenas

Bruno Pereira era servidor de carreira da Funai e começou a atuar na TI Vale do Javari há mais de 10 anos. Chegou a ser chefe da Coordenação Regional da Funai em Atalaia do Norte, onde atuou em diferentes. Conhecido por ser enérgico e rigoroso, ele também teve atritos com indígenas, culminando em um conflito com os Matís, em 2015, que pediram sua saída. Posteriormente, Bruno e os Matís se reconciliaram e passaram a atuar juntos na proteção do território. Chocados com o desaparecimento do amigo, os Matís foram para Atalaia do Norte para apoiar nas buscas de Bruno e Dom e protestar contra o assassinato.

Desde que se licenciou da Funai, em 2019, Bruno tprnou-se assessor da Univaja, onde assumiu a coordenação da EVU, com recursos de financiamentos internacionais. Thoda Kanamari, membro da Univaja, disse que Bruno Pereira se juntou aos indígenas no monitoramento desde que aumentou a preocupação com o avanço dos invasores para o interior da terra indígena.

“Os invasores querem tomar a terra indígena. Nós, da Univaja, estávamos sendo cobrados pelas lideranças do Itacoaí e do Ituí. Os invasores se aproximaram cada vez mais das aldeias. Então o Bruno se juntou a nós”, diz Thoda Kanamari à Amazônia Real.

Conforme a liderança Kanamari, o projeto da EVU começou a ser discutido em 2019, mas começou a ser implementado somente em 2022. Thoda afirma que os indígenas vão continuar protegendo o território como aprenderam com o indigenista. “A gente não vai desistir. Se desistir, pode piorar. Vamos continuar fazendo o nosso monitoramento onde o Estado não fiscaliza mais, nem protege nós indígenas do Vale do Javari. A Funai está muito enfraquecida. Temos direito de cuidar de nosso território”, diz.

*

Os 10 dias trágicos - Linha do tempo mostra como foram as buscas ao jornalista e ao indigenista que amavam a Amazônia e seus povos

3 de junho

O jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira partiram da cidade de Atalaia do Norte para uma viagem à região do Vale do Javari, fora do território indígena, no extremo oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru. Bruno, que pilotava a embarcação, transportava Dom para uma entrevista com integrantes da EVU (Equipe de Vigilância) da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), que estava no Lago Jaburu.

Com uma lancha com motor de 40 HP, pertencente à Univaja, eles entraram em furos (cursos de rios estreitos) da bacia do rio Itacoaí. Dom viajou a Atalaia do Norte para pesquisar sobre a situação do território indígena para a produção de um livro. Bruno Pereira, servidor licenciado da Funai, é consultor de projetos da Univaja e atua na linha de frente do combate aos crimes ambientais no território, em que há povos de recente contato e isolados. A tríplice fronteira, com a Colômbia e o Peru, é rota do narcotráfico.

5 de junho

Bruno e Dom deixam a base da EVU por volta das 6 horas de domingo. O indigenista disse que tinha uma reunião com o líder da comunidade ribeirinha São Rafael, Manoel Vitor Sabino da Costa, o “Churrasco”. O trajeto é de 15 minutos de barco. Na casa dele, os dois encontraram apenas a esposa do pescador.

6 de junho

A Univaja publica nota sobre o desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips e afirma que o último avistamento sobre a dupla foi nas comunidades ribeirinhas São Gabriel e Cachoeira. Os indígenas iniciam as buscas ainda no domingo e fazem várias vezes o percurso de Bruno e Dom. Não encontraram nada. A lancha tinha sete galões de combustível vazios. No mesmo dia, “Churrasco” e Jânio são detidos pela Polícia Civil e liberados após serem ouvidos.

As autoridades brasileiras demoram para agir nas buscas ao jornalista e ao indigenista. Apenas 24 horas depois do desaparecimento é que o governo envia forças policiais e de segurança para atuarem no caso, após pressão da embaixada britânica e da sociedade, diante da grande repercussão sobre o desaparecimento nas redes sociais. Marinha e Polícia Federal começam a investigar sem o apoio dos indígenas, exímios conhecedores da região.

7 de junho

Em seguida, a polícia prende Amarildo da Costa de Oliveira, o ‘Pelado’, por porte de munição de uso restrito e drogas. Após a audiência de custódia, a Justiça decreta a prisão temporária dele. ‘Pelado’ passa a ser a pessoa chave para desvendar os desaparecimentos. Uma perícia identifica sangue em sua lancha, apreendida. Informações de indígenas apontam que o narcotráfico está envolvido numa rede de financiamento de pescadores de grandes carregamentos de peixes e caça de animais silvestres, além de madeira da Terra Indígena Vale do Javari.

Fonte ouvida com exclusividade pela Amazônia Real afirma que o indigenista brasileiro e o jornalista britânico foram vítimas de emboscada após saírem da comunidade São Rafael. Eles estariam com documentação, em imagens, de locais de invasões da TI Vale do Javari, o que teria contrariado criminosos ligados à pesca ilegal e ao tráfico de drogas.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) não descarta uma possível execução da dupla e classifica a viagem de Dom Phillips e Bruno Pereira como uma “aventura”. “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendada que se faça. Tudo pode acontecer. Pode ser acidente, pode ser que tenham sido executados”, disse o presidente em entrevista ao SBT.

8 de junho

A reportagem ouve testemunhas que dizem que “Pelado” é a peça chave para a elucidação do sumiço de Dom e Bruno. A testemunha conta que indígenas da EVU, entre eles pessoas dos povos Kanamari, Matís e Maru, avistaram uma lancha de 60 HP guiada pelo suspeito. Ele estava acompanhado de dois homens. Navegavam em direção à Terra Indígena Vale do Javari.

Um indígena diz à Amazônia Real que “Pelado” e os dois homens intimidaram Bruno e apontaram armas quando dos dois estavam em uma missão para interceptar “Pelado”, junto com uma equipe da EVU. Nove indígenas estavam em uma embarcação chamada canoão, Bruno guiando a lancha, Dom como um dos passageiros. Dom filmou toda a ação. Neste mesmo dia, Bruno segue viagem até a Base da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, da Funai, no rio Ituí, para denunciar as ameaças de “Pelado”. Lá há militares da Força Nacional de Segurança, que apoiam as ações da Funai. A fonte fala ainda em nomes como “Churrasco”, “Caboclo”, Jânio e “Nei”, todos apontados como tendo alguma ligação com o caso.

10 de junho

As equipes de busca localizam no rio, próximo ao porto de Atalaia do Norte, material orgânico aparentemente humano. O material é encaminhado para análise pericial pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, que também realizará perícia nas amostras de sangue encontradas na embarcação de “Pelado”. Há coleta de materiais genéticos de referência do jornalista britânico Dom Phillips em Salvador (BA) e do indigenista Bruno Pereira em Recife (PE). Os materiais coletados serão utilizados na análise comparativa com o sangue encontrado na embarcação.

12 de junho

Uma equipe de reportagem da Amazônia Real visita a comunidade ribeirinha de São Rafael e entrevista Alzenira Gomes. Ela diz que ofereceu um “Nescau” para Bruno e Dom. O pescador Jânio Freitas de Souza confirma que Bruno iria conversar com “Churrasco” sobre o manejo do pirarucu. Jânio revela que foi a última pessoa a falar com Bruno. Ele diz que o indigenista e o jornalista estiveram na comunidade por volta das 7h20 de domingo. Os dois então partem para Atalaia do Norte, um percurso de 40 minutos.

“Churrasco”, que é tio de “Pelado”, afirma que não sabia o motivo da visita de Bruno. “Pra estar esse tempo todo sumido desse jeito, ou está morto ou está amarrado por aí por dentro do mato, só pode”, afirma “Churrasco” à Amazônia Real, quando perguntado sobre o que poderia ter acontecido com a dupla desaparecida.

A Operação Javari, que conta com as participações das Forças Armadas, Polícia Militar e Polícia Civil do Amazonas, faz busca fluvial e reconhecimento aéreo numa área a 25 quilômetros de Atalaia do Norte. Na região são encontrados objetos pessoais pertencentes aos desaparecidos, sendo de Bruno: um cartão de saúde, uma calça preta, um par de botas. De Dom Phillips são: um par de botas, uma mochila e um 1 notebook.

13 de junho

A família de Dom Phillips recebe uma ligação da Embaixada brasileira no Reino Unido informando que dois corpos haviam sido encontrados, mas ainda precisavam ser periciados. Alessandra Sampaio, esposa de Dom, repassa a informação para o jornalista da TV Globo André Trigueiro, que a divulga nas redes sociais. Em questão de minutos, a Polícia Federal nega os fatos, causando ainda mais angústia para as famílias. No dia seguinte, a Embaixada pede desculpas por informar erroneamente ao cunhado e à irmã de Phillips no Reino Unido.

14 de junho

A Polícia Federal cumpre dois mandados de busca e apreensão judicial, tendo apreendido cartuchos de arma de fogo e um remo, os quais serão objeto de análise. E prende temporariamente Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”, 41 anos, por suspeita de participação no caso juntamente com seu irmão, Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”.

15 de junho

Os dois irmãos confessam os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips, segundo informações divulgadas por uma fonte da Polícia Federal. Eles teriam matado, esquartejado e enterrado os corpos do indigenista e do jornalista.

Tuesday, June 14, 2022

No Clarão das Águas, no Deserto Negro

Bruno Pereira e Dom Phillips by Di Vasca


por Maurício Rezende Habert - reproduzido do GGN

14/06/2022

Foi difícil ouvir hoje a música Matita Perê, de Tom Jobim e Paulo Cesar Pinheiro, e não conectá-la com o recente caso do desparecimento do jornalista britânico Dom Philips e o indigenista Bruno Pereira na floresta amazônica.

A música, que dá nome ao ser folclórico que se transforma em um pássaro agourento, relata a história de um certo 'João', que acorda dentro de um pesadelo, no qual ele é emboscado por um certo 'Você'.

Desde o início deste épico musical de Jobim, se percebe pelo tom circular de um violão melancólico que o destino trágico do personagem em fuga já está traçado, corresse ele para onde fosse. O grito do pássaro, emulado pela orquestra, dá início a emboscada.

No jardim das rosas
De sonho e medo
Pelos canteiros de espinhos e flores
Lá, quero ver você
Olerê, Olará, você me pegar

Madrugada fria de estranho sonho
Acordou João, cachorro latia
João abriu a porta
O sonho existia


Dom e Bruno sempre souberam que suas ações de apoio à proteção da mata e tribos estavam marcadas por um grande risco. Ameaças do garimpo. Ameaças de madeireiros ilegais. Ameaças de pescadores invasores. Eram comuns. Curiosamente cada vez mais comuns desde 2019.

Mesmo assim, apoiados pela paixão ao que faziam continuavam com o trabalho de sonho e medo. Além do mais, podiam contar com a parceria dos índios da região do Vale do Javari – conhecedores e guardiães do verde amazônico. Seguiam firmes rio abaixo. 'Quero ver você… você me pegar'.

Manhã noiteira de força viagem
Leva em dianteira um dia de vantagem
Folha de palmeira apaga a passagem
O chão, na palma da mão, o chão, o chão

E manhã redonda de pedras altas
Cruzou fronteira de servidão
Olerê, quero ver
Olerê

Às 7h de uma manhã noiteira, Bruno e Dom mandaram sinais de partida. Origem: Comunidade de São Rafael. Destino: Atalaia do Norte. Estado do Amazonas, próximo a fronteira com Peru e Colômbia. Rota esta que não é possível de 'calcular no Google', uma vez que só é feita de canoa pelas vias do sinuoso Rio Itaquaí. Que desagua no Javari, que desagua no Amazonas.

Itaquaí. Do tupi antigo: itá (pedra), kûá (enseada) e ‘y (rio). Rio da enseada de pedra.

Lugares de um Brasil que provavelmente nós, do longínquo sul urbano, só conheceremos por satélite ou por notícias de jornal. É verdade que alguns poucos as adentraram mentalmente, como Jobim e Villa Lobos tão bem fizeram, através de suas leituras, inspirações e invencionices de brancos aspirantes a navegantes mentais de um Brasil remoto e infinito.

Alguns outros poucos brancos, tais como Bruno e Dom, ousaram romper o mundo das subjetividades imaginadoras e adentraram de fato fisicamente este universo. Estariam fugindo ou buscando algo? Doaram suas vidas dentro destas manchas, instavelmente gigantes e verdes. Cruzaram a fronteira da servidão.

Não sabemos o que se passou entre um ponto e outro da viagem. Daqui em diante, só especulação tal como os Tons, Villas e Drummonds.

Seguimos com o relato do estranho João:

E por maus caminhos de toda sorte
Buscando a vida, encontrando a morte
Pela meia rosa do quadrante Norte
João, João

Um tal de Chico chamado Antônio
Num cavalo baio que era um burro velho
Que na barra fria já cruzado o rio
Lá vinha Matias cujo o nome é Pedro
Aliás Horácio, vulgo Simão
Lá um chamado Tião
Chamado João

Provavelmente, um encontro, (in)esperado com milicianos integrantes do grupo de seus ameaçadores? Chico? Antônio? Pedro?

Ou teriam naufragado a canoa em algum choque contra as pedras arredondadamente esculpidas pelo Rio Itaquaí?

Recebendo aviso entortou caminho
De Nor-Nordeste pra Norte-Norte
Na meia vida de adiadas mortes
Um estranho chamado João

A dupla já vinha de um histórico de adiadas mortes. Bruno havia sido exonerado de sua função de coordenador na FUNAI em 2019, por talvez demonstrar muito afinco nas ações contra o garimpo. No mesmo ano, o jornalista britânico Dom, com seu sotaque inglês carregado, fora já execrado por bolsonaristas, após enfrentar o presidente em uma coletiva de imprensa, ao perguntar-lhe sobre os aumentos de casos de desmatamento na Amazônia.

Entortar caminhos para continuar a caminhada e adiar a morte. E adiar o fim do mundo… É o lema dos que vivem neste país com o objetivo de proteger o meio-ambiente e os povos originários, constantemente ameaçados por gangues ilegais e até mesmo por gangues legalizadas e empossadas em palácios.

Retomados pelo assobio premonitório do pássaro instrumental matita-perê, retomamos o início do épico-lírico:

Que João fugisse
Que João partisse
Que João sumisse do mundo
De nem Deus achar, lerê

João, nossa fusão poética de Bruno e Dom, já tinha seu sumiço marcado desde o início da emboscada, uma vez que terceiros já haviam condenado as fronteiras de vida e morte aos dois tipos que atrapalhavam seus negócios.

Chico Mendes e Dorothy Stang são somente alguns exemplos mais conhecidos, dentre os milhares de defensores da natureza – um sinônimo de refreadores do capitalismo – que morrem ano após ano pelas indústrias mineradoras, madeireiras, do agronegócio e outras mais.

Por sete caminhos de setenta sortes
Setecentas vidas e sete mil mortes
Esse um, João, João
E deu dia claro
E deu noite escura
E deu meia-noite no coração

Passa sete serras
Passa cana brava
No brejo das almas
Tudo terminava
No caminho velho onde a lama trava
Lá no todo-fim-é-bom
Se acabou João

Após mais de sete dias da meia-noite no coração, com os corpos de Dom e Bruno ainda não encontrados, é quase certo afirmar que 'se acabou João'.

Seus corpos-espectros já viraram histórias, narrativas, notícias e possivelmente virarão canções-épicas. Suas trajetórias e exemplos serão levados adiante, pois apesar de todo o risco iminente, a outra alternativa da história é impossível de ser uma aliada.

Uma esperança sempre irá ressurgir nos lábios dos combalidos que, mesmo após derrotas, continuam a sussurrar ao inimigo: 'quero ver você, você me pegar'.

O quiasmo de expressões formado pela estrofe final de Matita Perê é o destino de nossos tempos: no clarão das águas, no deserto negro, é o ambiente de contraposições, de idas e vindas, que seguiremos com força nossa navegação de busca, fuga, descoberta e redenção.

No Jardim das rosas
De sonho e medo
No clarão das águas
No deserto negro
Lá, quero ver você
Lerê, lará
Você me pegar

Dom e Bruno vivem.

*

Maurício Rezende Habert – Engenheiro de energia pela Escola Politécnica da USP, 29 anos, apaixonado por música e literatura.

O Tempo da Obviedade

JULIÁN FUKS

O tempo da obviedade: já não cabe confusão diante da nossa realidade

11/06/2022 - UOL

Peço que hoje perdoem minha obviedade: ela não é minha, é da realidade circundante. Lembro de um tempo em que ecoava por toda parte uma mesma frase, corruptela de Millôr Fernandes: quem não está confuso, está mal informado. Foi há poucos anos, era o início da nossa debacle, o caos que nos levaria a uma situação muito mais clara, à evidência do desastre. Hoje o tempo parece se reger por alguma simplicidade; nunca foi tão fácil pensar o Brasil quanto agora, nunca tão cristalina a posição necessária a tomar. Proponho uma reformulação: quem está confuso, está mal intencionado, ou prefere fechar os olhos para o óbvio.

A simplicidade não goza de grande estima no saber contemporâneo, embora encontre sempre uma infinidade de usos cotidianos. Simplificar é empobrecer, é ignorar nuances, é falsear inevitavelmente a história. Simplificar é produzir caricaturas de baixa qualidade, desenhos primários que obscurecem o objeto retratado, que o afastam de sua verdade. Para Edgar Morin, célebre defensor do pensamento complexo, o que acontece é que tentamos nos livrar da desordem própria do mundo em nome de uma inteligibilidade, e para isso aderimos a certezas falsas, a uma forma de cegueira que vem da recusa à complexidade.

E, no entanto, o Brasil atual parece corresponder à risca ao seu retrato mais básico, e nenhum rosto é mais parecido com sua caricatura do que o de Jair Bolsonaro. Não é preciso convocar a complexidade para compreendê-lo: pelo contrário, a complexidade é que faria obscurecer seu caráter vil, sua monstruosidade. Bastante incompatível com o pensamento crítico é o maniqueísmo, e ainda assim hoje, apenas nestes anos, o maniqueísmo tem se revelado a leitura mais precisa do Brasil. Ante uma realidade dessas, acerta a linguagem infantil: temos no cargo máximo do país um homem mau. Em cada detalhe ele se mostra mau: é tosco, autoritário, insensível, cruel, cerca-se de sujeitos tão violentos quanto ele próprio, e faz da própria violência seu projeto de poder.

Por que uma minoria ruidosa ainda está disposta a apoiá-lo, eis a pergunta que não encontra resposta tão simples. Nem mesmo a lógica da preservação de privilégios históricos se aplica agora. Neste grau de destruição sistemática a que tem sido submetido o país, a cada dia todos perdemos, sem exceção, até quem lucra com a degradação — a diferença é que alguns ainda não o enxergam ou não o querem admitir. Muito já se disse sobre as relações inextricáveis entre o pessoal e o político: pois bem, o exercício tão nocivo da política tem sido uma afronta pessoal a cada indivíduo desta nação, mesmo àqueles que aceitam ser afrontados, aqueles que concordam com sua própria destruição. Num país acometido por este grau de aniquilação, sordidez, desfaçatez, abandono, sempre perderemos todos.

Por isso tantas opiniões se parecem, por isso você tem a sensação de já ter lido este texto uma centena de vezes. Não é a tal perseguição a um presidente que nunca angariou nenhuma simpatia da imprensa, como ele insiste em tom choroso, tantas vezes. É apenas o quase consenso alcançado por uma miríade de mentes pensantes, mentes que prefeririam explorar profundidades, minúcias, nuances, mas que acabam por se render à indigência do presente, tão simples e tão semelhante a si mesmo. Não há muito mais a dizer: a realidade é que é feita dessa penúria triste, dessa esqualidez de sentidos.

Tão famélico está o povo brasileiro quanto o nosso pensamento. Queremos algo de mais vivo e mais vasto a discutir, queremos de volta a ambiguidade, a multiplicidade de visões razoáveis, queremos de volta a possibilidade da incerteza, da sutileza. Anseio por um dia mais confuso do que este: quando ele enfim chegar, estaremos imersos numa realidade menos miserável. Anseio pelo dia em que retornaremos à complexidade, o dia em que não deverei pedir perdão e logo escrever uma obviedade, anseio muito, como anseio.

Friday, October 09, 2020

Barra 69

Quando penso no número de pessoas que morreram em prisões brasileiras a partir de 68 (e que foi pequeno se comparado ao número de vítimas argentinas ou chilenas da década seguinte); quando penso os que sofreram tortura física, ou nos que foram expulsos do país em 64 e só puderam voltar na anistia em 79, concluo que minha prisão de dois meses foi um episódio que nem sequer mereceria referência. Muitos dos que sofreram maiores maus-tratos - ou que foram presos mais vezes e por mais tempo - passam rápido pelo assunto, muitas vezes em tom de descaso. O próprio Gil não tem dos dias de cela e xadrez uma lembrança tão amarga ou tão recorrente quanto a minha. Tendo percebido cedo que algo assim poderia acontecer, e em tudo mais adulto do que eu, em vez de simplesmente se sentir aniquilado, pôde ao menos tentar transformar a experiência em algo produtivo para sua formação. Na cadeia ele achou oportunidade para exercitar uma espécie de ascetismo, deixou de comer carne, adivinhou sabedorias orientais que o levaram a estudos posteriores e à alimentação macrobiótica. Esta última, literalmente, mudou sua vida: seu corpo, sua pele, seu temperamento mudaram para melhor e para sempre. Enquanto eu apenas descobria que o sofrimento não serve para absolutamente nada. As muitas páginas que aqui dediquei ao episódio da prisão se explicam por ser este um livro sobre a experiência tropicalista vista de um ângulo muito pessoal meu. E se justificam por revelar o quanto eu era psicológica e, sobretudo, politicamente imaturo.

Caetano Veloso. Parte IV. Barra 69. Verdade Tropical, 1997.

A Tortura Política

A tortura política em nenhum caso é mero procedimento técnico, crispação de urgência numa corrida contra o tempo, destinada à coleta fulminante de informações.

 Expressão tenebrosa da patologia de todo um sistema social e político, ela visa à destruição do sujeito humano, na essência de sua carnalidade mais concreta. 

A tortura reivindica, em sua empreitada nefanda, uma rendição do sujeito na qual estejam empenhados nervos, carne, sangue, ossos e tendões: cabeça, tronco e membros.

Para tanto, a tortura busca, à custa do sofrimento corporal insuportável, introduzir uma cunha que leve à cisão entre o corpo e a mente. E, mais do que isto: ela procura, a todo preço, semear a discórdia e a guerra entre o corpo e a mente. Através da tortura, o corpo se torna nosso inimigo, e nos persegue. É este o modelo básico no qual se apoia a ação de qualquer torturador. 

O corpo é a nossa casa, pela qual nos plantamos no mundo. Ao mesmo tempo que a habitamos, suas vigas, paredes, tubulações e aposentos fazem parte de nós, e nos constituem. Sem um mínimo de solidariedade do corpo próprio para conosco, ficamos não apenas desabrigados, expostos a um duro e frio relento, mas literalmente sem chão, sem apoio elementar, entregues às ansiedades inconscientes mais primitivas.

A tortura destrói a totalidade constituída por corpo e mente, ao mesmo tempo que joga o corpo contra nós, sob forma de um adversário do qual não podemos fugir, a não ser pela morte. A tortura transforma nosso corpo - aquilo que temos de mais íntimo - em nosso torturador, aliado aos miseráveis que nos torturam. 

Esta é a monstruosa subversão pretendida pela tortura. Ela nos racha ao meio e, no centro desta esquizofrenia, produzida em dor e sangue, crava a sua bandeira de desintegração, terror e discórdia.

O corpo, na tortura, nos acua, para que nos neguemos enquanto sujeitos humanos, fiéis aos valores que compõem nosso sistema de crenças. Ele se volta contra nós, na medida em que exige de nós uma capitulação que, uma vez consumada, nos degradaria. É esta, não obstante, a primitiva, a destrutiva e desesperada demanda que o corpo nos faz. O corpo, sob tortura, nos tortura, exigindo de nós que o libertemos da tortura, seja a que preço for. Ele se torna, portanto, aquém de quaisquer valores, numa faixa de realidade psíquica anterior às mais mínimas exigências da ética e da honra, o porta-voz dos torturadores, aliado destes na sinistra empreitada que nos quer anular enquanto dação e da violência (sic), é a palavra aviltada de um sujeito que, nas mãos do torturador, se transforma em objeto.

Ao quebrar-se frente à tortura, o torturado consuma - e assume - uma cisão que lhe rouba o uso e o gozo pacíficos do seu corpo . A ausência de sofrimento corporal, ao preço da confissão que lhe foi extorquida, lhe custa a amargura de sentir-se traidor, traído pelo próprio corpo. Sua carne apaziguada testemunha e denuncia a negação de si mesmo, enquanto pessoa.

A tortura, quando vitoriosa, opera no sentido de transformar sua vítima numa desgraçada - e degradada - espectadora de sua própria ruína.

Por isto, o torturado não pode falar, embora esta seja uma exigência quase sobre-humana. Sua não-fala, ou a fala do despistamento, constituem, na tortura, o discurso do herói. Um tal silêncio, no entanto, vai provocar o recrudescimento da violência e o risco da morte física. 

Se o torturado não fala, pode morrer fisicamente. Se fala, e confessa, sucumbe a uma discórdia fundamental e morre como pessoa. Ao torturado, na tortura, só resta a saída - inimaginavelmente difícil - do silêncio. Através dela, garante e afirma, em grau heróico, a sua integridade de pessoa, pela realização de um valor supremo.

O torturador, este não tem saída nenhuma. Quando consegue êxito - e esta é a sua melhor hipótese -, o torturador, à semelhança da hiena, passa a alimentar-se de um cadáver. A confissão do torturado significa o seu assassinato enquanto pessoa. O torturador vitorioso tem, portanto, nas garras e nos dentes, os despojos massacrados de um sujeito humano. Ele vive da morte - e na morte. Sem interlocução, ausente de qualquer diálogo vivo, o torturador determina sua essência a partir do supremo aviltamento do Próximo e, nesta medida, ao constituir-se, se avilta. Para que se afirme, o torturador tem que negar, radicalmente, a pessoa do torturado. Ele cresce, e passa a existir, na exata proporção em que sua vítima se anula. Sem alteridade genuína, o ser humano não se funda enquanto tal. É este o caso do torturador, mesmo na melhor de suas hipóteses, isto é: quando o torturado fala. Na pior delas, frente ao silêncio do torturado, o torturador se reduz a nada. Necrófilo, a ereção da pessoa, nele, tem como pedra fundamental a morte do Outro. Se este se nega a morrer, morre o torturador. Sua afirmação depende, de maneira absoluta, da negação de sua vítima.”

Hélio Pellegrino - A Burrice do Demônio. Ed. Rocco, 1989.

Tuesday, August 04, 2020

Vida precária, vida passível de luto

[...] não há nenhuma condição que possa 'resolver' completamente o problema da precariedade humana. Os corpos passam a existir e deixam de existir: como organismos fisicamente persistentes, estão sujeitos a ataques e a doenças que colocam em risco a possibilidade de simplesmente sobreviver. São características necessárias dos corpos - não podem 'ser' pensados sem sua finitude e dependem do que está 'fora deles' para serem mantidos - características que são próprias da estrutura fenomenológica da vida corporal. Viver é sempre viver uma vida que é vulnerável desde o início e que pode ser colocada em risco ou eliminada de uma hora para outra a partir do exterior e por motivos que nem sempre estão sob nosso controle.

[...] Nenhuma quantidade de vontade ou riqueza pode eliminar as possibilidades de doença ou de acidente para um corpo vivo, embora ambas possam ser mobilizadas a serviço dessa ilusão. Esses riscos estão embutidos na própria concepção da vida corporal considerada finita e precária, o que implica que o corpo está sempre à mercê de formas de sociabilidade e de ambientes que limitam sua autonomia individual. A condição compartilhada de precariedade significa que o corpo é constitutivamente social e interdependente [...]. Todavia, precisamente porque cada corpo se encontra potencialmente ameaçado por outros corpos que são, por definição, igualmente precários, produzem-se formas de dominação.

Todavia, precisamente porque cada corpo se encontra potencialmente ameaçado por outros corpos que são, por definição, igualmente precários, produzem-se formas de dominação.

Essa máxima hegeliana assume significados específicos nas condições bélicas contemporâneas: a condição compartilhada de precariedade conduz não ao reconhecimento recíproco, mas sim a uma exploração específica de populações-alvo, de vidas que não são exatamente vidas, que são consideradas 'destrutíveis' e 'não passíveis de luto'. Essas populações são 'perdíveis', ou podem ser sacrificadas, precisamente porque foram enquadradas como já tendo sido perdidas ou sacrificadas; são consideradas como ameaças à vida humana como a conhecemos, e não como populações vivas que necessitam de proteção contra a violência ilegítima do Estado, a fome e as pandemias. Consequentemente, quando essas vidas são perdidas, não são objeto de lamentação, uma vez que, na lógica distorcida que racionaliza sua morte, a perda dessas populações é considerada necessária para proteger a vida dos 'vivos'.

Judith Butler - Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto? tradução de Sérgio Lamarão e Arnaldo Marques da Cunha. 2009 - 2015

Saturday, May 09, 2020