Sunday, December 03, 2006

Rato
Rato que rói a roupa
Que rói a rapa do rei do morro
Que rói a roda do carro
Que rói o carro, que rói o ferro
Que rói o barro, rói o morro
Rato que rói o rato
Ra-rato, ra-rato
Roto que ri do roto
Que rói o farrapo
Do esfarra-rapado
Que mete a ripa, arranca rabo
Rato ruim
Rato que rói a rosa
Rói o riso da moça
E ruma rua arriba
Em sua rota de rato

BUARQUE, Chico; Ode aos Ratos. Carioca - Biscoito Fino 2006

(...) Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria (...)

Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardia
Y por soñar lo impossible, ay, ay
Soñe que tu me querias.

BUARQUE, Chico; Outros Sonhos - Carioca - Biscoito Fino 2006.

(...) Lá não tem moças douradas
Expostas, andam nus
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus
E está de costas

Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Pavuna
Fala, Inhaúma
Cordovil, Pilares
Espalha a tua voz
Nos arredores
Carrega a tua cruz
E os teus tambores

BUARQUE, Chico; Subúrbio. Carioca - Biscoito Fino, 2006.

MIGNA TERRA

Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.

A abobora celestia tambê,
Chi tê lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Chi non tê na Ingraterra.

Os rios lá sô maise grandi
Dus rio di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.

Na migna terra tê parmeras,
Dove ganta a galligna dangolla;
Na migna terra tê o Vapr'elli,
Chi só anda di gartolla.

BANANÉRE, Juó; candidato à Gademia Baolista de Letras. La Divina Increnca; Livro di Prupaganda da Literatura Nazionale. 2ª edição - São Paulo. Editor Folco Masucci, 1966.

"A artograffia muderna é una maniera de scrivê, chi a gentil scrive uguali come dice. Per isempio: - si a genti dice Capitó, scrive kapitó; si si dice Alengaro, si scrive Lenkaro; si si dice dice, non si dice dice, ma si dice ditche."

BANANERE, Juó.

Thursday, November 30, 2006

Sobre a natureza do Espaço Público

(...) A rigor (o espaço público não consiste em) sua localização física: é a organização da comunidade que resulta do agir e falar em conjunto, e o seu verdadeiro espaço situa-se entre as pessoas que vivem juntas com tal propósito, não importa onde estejam.

Estamos (sempre) circundados pela teia de atos e palavras de outros homens, e em permanente contato com ela. (...) Agir (a ação), portanto, não apenas mantém a mais íntima relação com o lado político (público) do mundo, comum a todos nós, mas é aquilo que o constitui.


Sobre tomar iniciativas

Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa, iniciar (...) começar, ser o primeiro (...) imprimir movimento a alguma coisa (...).

Estar isolado é estar privado da capacidade de agir.

A história está repleta de exemplos da impotência do homem forte e superior que é incapaz de angariar o auxílio e a cooperação de seus semelhantes (...).

Há uma interdependência essencial em qualquer ação – a dependência do iniciador e líder em relação aos outros no tocante a auxílio, e a dependência de seus seguidores em relação a ele no tocante a uma oportunidade de agir.

(...) O iniciador estará, por princípio, isolado por sua própria iniciativa, até encontrar a adesão dos outros. Contudo, a força do iniciador e líder reside apenas em sua iniciativa e nos riscos que assume, não na realização em si[i]. No caso do líder bem sucedido, ele pode reivindicar para si aquilo que, na verdade, é a realização de muitos. Através dessa reivindicação, o iniciador monopoliza, por assim dizer, a força daqueles sem cujo auxílio ele jamais teria realizado coisa alguma. E assim surge a ilusão de força extraordinária e, com ela, a falácia do homem forte que é poderoso por estar só.


Sobre a natureza do poder

O que primeiro solapa e depois destrói as comunidades políticas é a perda do poder (de realizar aquilo que deseja) e a impotência final; e o poder não pode ser armazenado e mantido em reserva para casos de emergência, como os instrumentos de violência: só existe em sua efetivação. Se não é efetivado, perde-se; e na história há inúmeras passagens para indicar que nem a maior das riquezas materiais pode sanar essa perda. O poder só é efetivado enquanto a palavra e o ato não se divorciam, quando as palavras não são empregadas para velar intenções mas para revelar realidades, e os atos não são usados para violar e destruir, mas para criar relações e novas realidades.

É o poder que mantém a existência da esfera pública, o espaço potencial entre homens que agem e falam.

(...) Enquanto a força é a qualidade natural de um indivíduo isolado, o poder passa a existir entre os homens quando eles agem juntos, e desaparece no instante em que eles se dispersam.

(...) O único fator indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Todo aquele que, por algum motivo se isola e não participa dessa convivência, renuncia ao poder e se torna impotente, por maior que seja sua força e por mais válidas que sejam suas razões.

In: ARENDT, Hannah; A Condição Humana; Trad. Roberto Raposo; Ed. Forense Universitária, Rio de Janeiro; 10ª edição; 2004.

[i] (...) em qualquer série de eventos (...) podemos, quando muito isolar o agente que imprimiu movimento ao processo; e embora esse agente seja muitas vezes, o sujeito, o “herói” da história, nunca podemos apontá-lo inequivocamente como o autor do resultado final.

RAGHURAN RAJAN , diretor de pesquisas do Fundo Monetário Internacional, e o professor Luigi Zingales, da Universidade de Chicago, soltaram um estudo que dá o que pensar, sobretudo aos sábios da ekipekonomica que arruína o país há mais de duas décadas. Chama-se "A Persistência do Subdesenvolvimento: Instituições, Capital Humano ou Grupos de Interesse?" Eles sustentam que a longevidade do atraso deve-se sobretudo às pressões de camadas da sociedade -ricas e pobres- que se beneficiam com o status quo. Para quebrar essas coligações, é preciso conseguir o apoio do andar de baixo para as reformas capitalistas. A primeira condição para isso é evitar que as novidades ferrem a patuléia: "Em alguns países, é possível que amplas reformas só sejam viáveis quando se der séria atenção à melhoria das condições de vida dos pobres". Os dois economistas, autores do livro "Salvando o Capitalismo dos Capitalistas", acham que atribuir o subdesenvolvimento à qualidade das instituições, ou à escolaridade de uma nação, é explicação insatisfatória. Pacotes institucionais baixados de pára-quedas, maldições internacionais e reformas sem consenso acabam patinando. Para quem gosta da superexplicação da escolaridade, os doutores sustentam que esse fator não faz mágicas. Nos últimos 30 anos, a República dos Camarões dobrou sua taxa de alfabetização de adultos de 30% para 71%. A Líbia fez melhor, indo de 36% para 80%. Já a Índia, coitadinha, mal conseguiu passar de 33% para 57%. O trabalho de Rajan e Zingales apresenta um modelo matemático indecifrável para leigos e analisa o equilíbrio de três grupos. Um é o dos oligopolistas que ganham dinheiro com o status quo. Outro é o das pessoas com escolaridade. O terceiro, a patuléia pouco educada. Cada um reage de foma diferente à qualificação da mão-de-obra e às reformas que estimulam a competição na economia. Os oligopolistas querem mais educação, mas só até certo ponto. (Assunto magnificamente exposto pela professora Judith Tendler, do MIT, no seu trabalho "O Medo da Educação", baseado em entrevistas com empresários brasileiros.) Os educados querem mais competição, desde que a qualificação da patuléia não lhes tome oportunidades. A turma de baixo quer educação, mas só apóia mudanças no mercado se tiver algo a ganhar e pouco a perder. Rajan e Zingales mostram que o subdesenvolvimento não deriva da imposição da vontade de quem está em cima, mas da má configuração dos interesses de todos os interessados. É ela quem determina a persistência do atraso. Deriva de alianças malucas entre os três grupos. Por exemplo: como o andar de cima não quer competição, desestimula a educação. O de baixo, que quer educação, alia-se ao de cima contra as reformas que trazem competição, pois ameaçam seus empregos. O do meio, com medo da competição adere ao bloqueio da educação. O nó está em saber quando e como se forma uma coligação dos educados e dos não educados contra o status quo. Se as mudanças que estimulam a competição vêm como um rolo compressor, o resultado é que o andar de baixo, escaldado, fica contra todas as reformas. A certa altura, tem-se a impressão de que a dupla esteve no Brasil durante a campanha eleitoral. Eles dizem que os educados apóiam políticas compensatórias, desde que não transfiram poder político. As bolsas de FFHH transformaram-se em poder eleitoral nas mãos de Nosso Guia. Além disso, ele amaldiçoou o paraíso do mercado tirando proveito da insatisfação do andar de baixo, desprezada pelos sábios tucanos.

Serviço: o trabalho, infelizmente em inglês e matematês, está no seguinte endereço: http://www.nber.org/papers/w12093

GASPARI, Hélio. Folha de São Paulo, 19/11/2006 - indicado por Paulo Guerra.

Wednesday, November 01, 2006

ANGELS IN AMERICA III

Roy Cohn (Al Pacino) e Belize (Jeffrey Wright)


Roy - [sob a impressão de que Belize é o Anjo da Morte] Let me ask you something, sir.

Belize - "Sir"?

Roy - What's it like? After?

Belize - After...?

Roy - This misery ends?

Belize - Hell or heaven? ... like San Francisco.

Roy - A city. Good. I was worried... it'd be a garden. I hate that shit.

Belize - Mmmm. Big city. Overgrown with weeds, but flowering weeds. On every corner a wrecking crew and something new and crooked going up catty corner to that. Windows missing in every edifice like broken teeth, fierce gusts of gritty wind, and a gray high sky full of ravens.

Roy - Isaiah.

Belize - Prophet birds, Roy. Piles of trash, but lapidary like rubies and obsidian, and diamond-colored cowspit streamers in the wind. And voting booths.

Roy - And a dragon atop a golden horde.

Belize - And everyone in Balencia gowns with red corsages, and big dance palaces full of music and lights and racial impurity and gender confusion. And all the deities are creole, mulatto, brown as the mouths of rivers. Race, taste and history finally overcome. And you ain't there.

Roy - And Heaven?

Belize - That was Heaven, Roy.

Roy - The fuck it was.

ANGELS IN AMERICA II

Diálogo entre Harper, personagem vivida por Mary - Louise Parker e Mother Pitt, sua sogra, interpretada por Meryl Streep.

Mother Pitt - At first, it can be very hard to accept how disappointing life is, Harper. But that's what is, and you have to accept it. And with faith and time and hard work, you do get to a point where the disappointment doesn't hurt so much and it gets actually easier to live with.
Quite easy.
Wich is, in its own way, a disappointment.

ANGELS IN AMERICA - I

Diálogo entre Harper, personagem vivida por Mary - Louise Parker e Mr. Lies (of the International Order of Travel Agents), produto de suas constantes alucinações. Os dois estão no Pólo Sul aonde chegaram passando através da geladeira da cozinha do apartamento de Harper.

Mr. Lies - This is a retreat. A vacuum. Its virtue is that it lacks everything.
Deep freeze for feelings. You can be numb and safe here.
That's what you came for. Respect the delicate ecology of your delusions.

Harper - You mean like no Eskimo in Antarctica?

Mr. Lies - "Correcto". Ice and snow, no Eskimo. Even hallucinations have laws.

Harper - Then who's that? (aponta para um esquimó que acena, ao longe)

Mr. Lies - An Eskimo.

Harper - An antarctic Eskimo. Fisher of the polar deep.
I'm gonna like this place. It's my own National Geographic special.

Tuesday, October 24, 2006

ESTRAMBOTE MELANCÓLICO

Tenho saudade de mim mesmo, sau-
dade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.

Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,

e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia

e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d’alva
penetra longamente seu espinho

(e cinco espinhos são) na minha mão.

ANDRADE, Carlos Drummond de

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant’è amara che poco è piú morte;
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.

Dante Alighieri – La Divina Commedia Inferno – Canto I

Sunday, October 22, 2006

Como seria ficar doente quando se era criança no passado? As evidências com relação a esses pontos são fragmentadas. Muitas referências a doenças sérias nas autobiografias costumam ser superficiais. Santo Agostinho (354 - 430), por exemplo, mencionou apenas de passagem que "sendo, ainda criança, [sobreveio-lhe] certo dia uma febre alta motivada, numa opressão do estômago, [e bateu] às portas da morte". Isso parece um pouco estranho, dado que todos devem ter passado por várias doenças na infância e, em muitos casos, ficado com várias seqüelas em função delas, tanto física quanto psicologicamente. Gerald Strauss pode estar certo ao argumentar que "as dores e os riscos enfrentados por todas as crianças na Europa do final da Idade Média e do período moderno fizeram da infância uma experiência tão traumática que havia um grande incentivo para que se apagassem as memórias a seu respeito".
Nos casos em que os autobiógrafos entraram em mais detalhes, fica-se cara a cara com as realidades sombrias da existência cotidiana antes da medicina moderna. Hermann von Weinsberg vinha de uma família relativamente rica em Colônia, mas, mesmo assim, sua infância no início do século XVI foi arruinada pela doença. Segundo Strauss, antes dos 9 anos:

Ele teve vários tipos de febre, incluindo colibacilose, da qual muitos conhecidos seus morreram em 24 horas, além de misteriosas paralisias temporárias, furúnculos, chagas e sarnas no couro cabeludo, "carne pútrida na boca", que um barbeiro cortou com uma tesoura de ponta, vermes que lhe davam vertigem, diarréia e vômitos violentos, dor de dente constante seguida da extração à mão da maior parte de seus dentes, hérnia e a peste.

Antoine Sylvère (1888- 1963) considerou completamente normal que toda a sua turma no Auvergne formasse um coro de tossidas durante as longas noites de inverno. Ele se sentia cada vez mais feio, na medida em que seu nariz escorrendo constantemente achatava suas narinas. Fritz Pauk (1888 - ?), de 10 anos, sofreu ainda mais depois que um fazendeiro, que o empregou perto de Lippe, permitiu que sua perna inchada se inflamasse por muito tempo:

Todos os dias, o fazendeiro vinha e me xingava por ser tão preguiçoso e não levantar, pois o gado tinha de ser alimentado. Não havia o que eu pudesse fazer, eu chorava de dor, mas ele não mandava o médico ou qualquer ajuda para mim.

Ao final, Pauk teve de amputar um pé. Autores socialistas faziam muito uso dos efeitos debilitantes da pobreza sobre a saúde dos trabalhadores. Adelheid Popp lembrava-se de lutar contra a desnutrição na década de 1880, enquanto trabalhava em uma fábrica de metal, com medo de perder os sentidos a qualquer momento.
As crianças tinham, evidentemente, vários mecanismos para enfrentar as enfermidades e as lesões. Robert Roberts (1905 - 1974) reconheceu que, quando sofria de um surto ocasional de neuralgia, "costumava se deitar no sofá, gemendo alto e exagerando a coisa ao máximo". Seu objetivo era fazer com que a mãe embalasse sua cabeça em seu peito, de modo que ele pudesse se perder no esquecimento "daquela felicidade rechonchuda e perfumada". Antoine Sylvère também desfrutava da pausa na vida cotidiana que vinha com a enfermidade, quando se recolhia à cama e bebia chás de ervas, mas sua mãe não lhe dava bola por muito tempo quando ele chorava por atenção. Mesmo um tempo no hospital podia ser um interlúdio agradável em uma existência árdua de criança pobre. Adelheid Popp admitiu que o tempo que passou em um hospital para doentes mentais foi o melhor de sua vida. Todos a tratavam gentilmente, a comida era boa e ela tinha uma cama própria. Em grande parte do tempo, as crianças certamente se cuidavam da melhor maneira que podiam. Pierre-Jakez Hélias, para tomarmos um exemplo da Bretanha, sabia que, se furasse o pé com um prego, deveria deixar que a ferida sangrasse, urinando sobre ela a seguir, utilizando a pegada de uma vaca como receptáculo improvisado, antes de fechá-la com a secreção de uma lesma.

HEYWOOD, Colin. Uma História da Infância. Tradução de Roberto Cataldo Costa.

Afastou-se, deu uns quantos passos ainda firmes, depois avançou ao longo da parede do corredor, quase a desmaiar, de repente os joelhos dobraram-se, e caiu redonda. Os olhos nublaram-se-lhe, Vou cegar, pensou, mas logo compreendeu que ainda não ia ser desta vez, eram só lágrimas o que lhe cobria a visão, lágrimas como nunca as tinha chorado em toda a sua vida, Matei, disse em voz baixa, quis matar e matei. Virou a cabeça na direcção da porta da camarata, se os cegos viessem aí não seria capaz de defender-se. O corredor estava deserto. As mulheres tinham desaparecido, os cegos, ainda assustados pelos disparos e muito mais pelos cadáveres dos seus, não se atreviam a sair. Pouco a pouco foram regressando as forças. As lágrimas continuavam a correr, mas lentas, serenas, como diante de um irremediável. Levantou-se a custo. Tinha sangue nas mãos e na roupa, e subitamente o corpo exausto avisou-a de que estava velha. Velha e assassina, pensou, mas sabia que se fosse necessário tornaria a matar, E quando é que é necessário matar, perguntou-se a si mesma enquanto ia andando na direcção do átrio, e a si mesma respondeu, Quando já está morto o que ainda é vivo. Abanou a cabeça, pensou, E isto que quer dizer, palavras, palavras, nada mais.

SARAMAGO, José. Ensaio Sobre a Cegueira.

8

TENDÊNCIAS CRIMINOSAS EM CRIANÇAS NORMAIS

(1927)

Nota Explicativa da Comissão Editorial Inglesa

Trata-se de um desenvolvimento das duas páginas seminais de Freud sobre a criminalidade em "Criminosos em conseqüência de um sentimento de culpa", E.S.B. 14, onde ele apresenta a tese de que a culpa não surge do crime, mas sim o crime da culpa. Melanie Klein liga essa sensação de culpa anterior à descoberta recente do superego primitivo. Sua tese, tão oposta ao senso comum quanto a de Freud, é que o criminoso não é destituído de consciência; ao contrário, ele possui uma consciência cruel demais: um superego primitivo que não foi modificado e funciona de forma diferente que o normal, impelindo-o para o crime sob a pressão do medo e da culpa.

Esse artigo discute o medo e a culpa, mas sem distinguir o seu funcionamento dentro do superego. Em A Psicanálise de Crianças, de 1932, Melanie Klein diferencia o superego primitivo do superego desenvolvido. Em seu conceito, o superego primitivo é percebido na psique como ansiedade ou medo e é o superego em desenvolvimento que desperta o sentimento de culpa, ponto de vista que apresenta com mais clareza em "O desenvolvimento inicial da consciência na criança" (1933). O único artigo em que voltou a tratar da criminalidade, "Sobre a criminalidade", um breve ensaio escrito às pressas em 1934, formula as conclusões do presente artigo a partir dessa diferenciação posterior. Também estabelece ligação entre a criminalidade e a psicose.

A própria Melanie Klein considera o ano em que escreveu esse artigo como o ano em que percebeu a importância da agressividade. Seu outro ensaio de 1917, "Simpósio sobre a análise de crianças", via nos impulsos agressivos da criança a explicação da crueldade de seu superego arcaico. O presente artigo ainda contém outra tese importante sobre o crime. Ele liga os atos criminosos às tendências criminosas das crianças normais, mostrando que os crimes são uma realização detalhada das fantasias sádicas arcaicas que fazem parte do desenvolvimento normal. De fato, Melanie Klein chama atenção para as diversas fantasias sádico-orais e sádico-anais da criança normal, que soma aos dois crimes inconscientes do incesto e do parricídio cometidos durante o complexo de Édipo genital, que Freud menciona em relação ao sentimento interior de culpa. Ela também afirma que, independentemente de experiências traumáticas, são as fantasias sádicas que criam concepções distorcidas e assustadoras do relacionamento sexual. No próximo artigo, "Estágios iniciais do conflito edipiano", algumas destas fantasias são descritas em maiores detalhes.

Por fim, ao longo de todo esse artigo que lida com o conflito entre o superego e o id, o leitor perceberá o interesse de Melanie Klein em outro conflito, o conflito entre amor e ódio, que mais tarde se tornaria a idéia básica que guia seu trabalho. Quanto a isso, é interessante observar sua convicção de que, apesar de todas as aparências do contrário, o amor existe dentro de todos, incluindo os criminosos.

KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945

7

SIMPÓSIO SOBRE ANÁLISE DE CRIANÇAS

(1927)

Nota Explicativa da Comissão Editorial Inglesa

Em artigos anteriores, Melanie Klein estava preocupada apenas em relatar seu trabalho. Nesse simpósio com Anna Freud o seu tom muda e ela passa a defender de forma direta seu ponto de vista. Há apenas um outro texto, a Introdução a A Psicanálise de crianças, em que Melanie Klein se refere às diferenças entre ela própria e Anna Freud.

O problema entre as duas é a natureza da análise de crianças. Trata-se de um equivalente da análise de adultos? Melanie Klein argumenta, como já fizera um ano antes, em "Princípios psicológicos da análise de crianças pequenas", que a analogia é perfeita: a criança forma uma neurose de transferência e apresenta, através de sua brincadeira, o equivalente das associações livres do adulto para o analista, cuja única função é analisar ao máximo tudo o que seu pequeno paciente lhe traz. Nessa época, Anna Freud tinha uma opinião contrária a respeito de todos esses pontos. A discordância entre as duas vinha das concepções divergentes que tinham da mente da criança e da natureza da ligação entre ela e os pais.

Igualmente importante é a discussão acerca do superego. Num artigo anterior, Melanie Klein apresenta uma concepção do superego em que esse surge numa idade bastante tenra com uma forma severa e cruel, desenvolvendo-se lentamente até se transformar numa consciência mais normal. Aqui ela oferece uma explicação para o fato de o superego primitivo ser tão cruel. Seu argumento é que a natureza rigorosa, punitiva e irreal do superego se origina dos impulsos sádicos e canibalescos da própria criança, opinião que Freud, em uma de suas poucas referências publicadas a Melanie Klein, endossa em uma nota de pé de página de O mal-estar na civilização, E.S.B. 21, p.133. Melanie Klein parte desse ponto para chegar a uma conclusão de ordem terapêutica. A tarefa da análise de crianças não pode ser fortalecer um superego frágil, como acredita Anna Freud; ao contrário, ela deve reduzir a força excessiva do superego primitivo. Ao longo de todo o artigo, Melanie Klein enfatiza a importância fundamental de se analisar a ansiedade e a culpa. Um relato de seus escritos a respeito do superego está na Nota Explicativa de "O desenvolvimento inicial da consciência na criança" (1933).

Nessa época, Melanie Klein já tinha uma experiência de oito anos analisando crianças e ao longo desse simpósio apresenta suas descobertas sobre a técnica num exame que continua e amplia o relato do artigo anterior. Ela chama atenção para a necessidade de se analisar não só a transferência positiva, mas também a transferência negativa, visando uma maior eficácia da análise e protegendo os pais de atitudes negativas não-analisadas. Discute os modos de comunicação da criança, a quantidade de material que ela apresenta e a relação do analista com os pais dos jovens pacientes. Melanie Klein também registra suas opiniões a respeito dos métodos a que se opõe. Avalia em particular os efeitos negativos da análise incompleta do material e do uso de técnicas introdutórias não-analíticas, assim como de procedimentos educacionais ou diretivos. A descrição mais completa de sua técnica do brincar pode ser encontrada em A Psicanálise de Crianças. "A técnica psicanalítica através do brincar" ("The Psycho-Analytic Play Technique") (1955) apresenta uma história dessa técnica e as anotações clínicas diárias de Narrativa da análise de uma criança (Narrative of a Child Analysis) (1961) mostram Melanie Klein trabalhando.

Este artigo também contém novas descobertas sobre o complexo de Édipo. Numa nota de pé de página de um artigo anterior ("Uma contribuição à psicogênese dos tiques"), Melanie Klein afirma que a mãe, ao desmamar e treinar o bebê para os hábitos de higiene, faz com que a criança se volte para o pai. Agora, ela afirma explicitamente que o complexo de Édipo e, portanto, a formação do superego, começam no desmame. Também coloca o auge do complexo de Édipo em outra época, de modo que ele não coincide mais com o fim da infância inicial e a aproximação da latência, como na teoria de Freud. Para ela, aos três anos de idade a criança já atingiu a parte mais importante de seu desenvolvimento edipiano. Para um exame do trabalho de Melanie Klein a respeito do complexo de Édipo, o leitor deve consultar a Nota Explicativa de "O complexo de Édipo à luz das ansiedades arcaicas" (1945).

KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945

6

PRINCÍPIOS PSICOLÓGICOS DA ANÁLISE DE CRIANÇAS PEQUENAS

(1926)

Nota Explicativa da Comissão Editorial Inglesa

Este artigo contém a primeira descrição de uma das descobertas iniciais mais importantes de Melanie Klein: o superego existe na criança bem mais cedo do que Freud acreditava. Esse superego primitivo - de acordo com Melanie Klein, uma descoberta inesperada - é composto de várias identificações, é mais cruel do que sua forma posterior e é um fardo para o ego frágil da criança. Essas descobertas colocam algumas dificuldades para a visão que Freud tinha do superego como resultado do complexo de Édipo; nesse estágio, Melanie Klein ainda tenta se enquadrar nesse ponto de vista. Ela desloca o começo do complexo de Édipo para o início do segundo ano de vida da criança, sugerindo que "logo que surge o complexo de Édipo, estas [as crianças pequenas] tentam resolvê-lo, desenvolvendo assim o superego". Mais tarde, ela se afasta de Freud e desliga o início do superego do complexo de Édipo; na verdade, Melanie Klein voltou várias vezes ao assunto do superego e o leitor encontrará um exame de seus principais escritos na nota explicativa de "O desenvolvimento inicial da consciência na criança" (1933).

Melanie Klein já empregava a técnica psicanalítica do brincar há seis ou sete anos. Nesse artigo, ela apresenta seu princípio básico: a situação analítica e a abordagem ao tratamento são os mesmos presentes na análise dos adultos, mas ajustados ao modo de comunicação da criança através da brincadeira. Melanie Klein discute esse princípio de forma mais completa e polêmica no próximo artigo, "Simpósio sobre a análise de crianças".

KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945

Friday, October 20, 2006

Tuesday, October 03, 2006

5
UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGÊNESE DOS TIQUES
(1925)

Nota explicativa da Comissão Editorial Inglesa

Esse estudo do caso de um menino de treze anos que sofre de um tique, associado a outras dificuldades, é muito diferente do tortuoso artigo que o precede. Com nova precisão, Melanie Klein traça e resolve o tique na análise em termos de identificações e fantasias masturbatórias. É a primeira vez que estuda a identificação com um objeto – neste caso, os pais na relação sexual – como um fenômeno de importância central. De agora em diante, sempre considerará as identificações no mundo interior como algo da maior importância. De fato, o próximo artigo apresenta um trabalho a respeito de uma das identificações mais essenciais: o superego. Apesar de nunca ter escrito especificamente sobre fantasias masturbatórias, Melanie Klein obviamente as considerava fundamentais: ela declara isso numa nota de pé de página no próximo artigo (p. 135), e o mesmo se pode perceber ao longo de todo A psicanálise de crianças.

Nesse estágio, Melanie Klein ainda parte da concepção de Freud de uma fase narcisista primária. No que diz respeito à questão específica do tique, porém, ela discorda da opinião de Ferenczi de que se trata de um símbolo narcisista primário inanalisável, afirmando, juntamente com Abraham, que para o tique ser analisado é preciso compreender as relações de objeto em que ele está baseado. Essa primeira descoberta das relações de objeto por trás de um fenômeno aparentemente narcisista aponta para a direção tomada pelo seu trabalho posterior sobre a psicose e as relações de objeto primárias. Seus motivos para depois rejeitar a idéia de uma fase narcisista primária serão encontrados em “As origens da transferência” (“The Origins of Transference”) (1952).

Um exemplo da abordagem empírica de Melanie Klein à técnica da análise de crianças é o relato de sua interferência quando, ao contrário de seu costume, proibiu dois relacionamentos na vida do paciente. Dois anos depois, ela apresentaria fortes argumentos contra esse tipo de procedimento diretivo em “Simpósio sobre a análise de crianças”.

KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945