Sunday, December 03, 2023

3 de dezembro de 2015


Um dia ou dois depois dos massacres em Paris, um grupo de extrema direita apareceu numa manifestação pública carregando faixas que pediam que os muçulmanos fossem expulsos da França.

Os manifestantes parisienses não tiveram dúvida: botaram os reaças pra correr.

Aqui em São Paulo, gente que considera a si mesma séria e honesta, dividiu ombro a ombro, mais de uma vez, a Paulista tomada pelo Hino Nacional entoado por Wanessa Camargo, ou pelo Pai Nosso rezado pela Barbie Fitness, ou pelo discurso de um torturador da Ditadura, ou ainda pela pregação abertamente racista e misógina do grupo de Kim Kataguiri.

Ontem Eduardo Cunha, notório ladrão, chantagista e candidato a vilão de filme B, deu andamento ao pedido de impeachment escrito por Janaína Paschoal, protagonista de um dos discursos mais histéricos da história recente da passeatas de Direita.

Dilma fez pronunciamento em que se disse indignada.

No meu bairro bateram panelas.

O PSDB anunciou apoio a Eduardo Cunha.

A vantagem desse cenário é que as posições em conflito ficaram claras de uma vez.

Não há mais espaço para se pretender digno quem apoiar o golpismo, pois o golpismo já não teme dizer seu nome.

O oportunismo da esquerda auto-denominada autêntica também será posto à prova.

As viúvas do Lula e do PT do Colégio Sion também foram convocadas.

Os franceses reagindo contra o racismo enquanto suas calçadas ainda estavam sujas de sangue ensinam: se o que está em jogo é a Democracia, não se admite meios termos.

3 de dezembro de 2014

Duas dezenas de manifestantes forçaram, esta noite, o cancelamento da sessão do Senado destinada a votar o projeto de lei que altera a meta das Diretrizes Orçamentárias.

O tumulto começou quando a líder do PCdoB, Vanessa Graziottin, subiu à tribuna.

Não se sabe se gritavam "vagabunda", como misóginos de arquibancada, ou "vai pra Cuba", como fascistas de passeata.

Enquanto isso, o editorial do Estado de São Paulo traz como título O Poder Bichado. "A insuportável realidade é que está tudo bichado nos palcos do poder".

O alto e o baixo escalão do golpismo vêm trabalhando em conjunto, alinhavando a velha retórica lacerdista. Olho neles.




Friday, December 01, 2023

01 de dezembro de 2015

ALÔ, ZANFAN!

Há meses venho guardando essa imagem de Maria Antonieta algemada, vestindo camisolão e touca à espera da guilhotina. O desenho da rainha destronada ficou por aqui pra ver quem representaria, Dilma Rousseff ou Eduardo Cunha, pois um dos dois, em algum inevitável momento, verá a própria cabeça rolar.

Demorou, mas o desenlace parece iminente. Segundo um cronista, Brasília batizou este 1.º de Dezembro de Super Terça. Se tudo o que está previsto para acontecer hoje no Congresso Nacional acontecer mesmo, o dia fecha o ano político de 2015.

O Presidente da Câmara, acuado por denúncias cada vez mais incontestáveis, chantageia às abertas, ameaçando deflagrar um temerário processo de impeachment em causa própria.

A oposição, chantageando o chantagista, quer o impeachment custe o que custar. Continua agindo "como se não houvesse amanhã", e, talvez, tenham mesmo concluído que, "se você parar pra pensar, na verdade, não há". Quem vai querer votar nesses psicopatas antediluvianos? "Às favas, neste momento, todos os escrúpulos de consciência", parecem repetir, num mantra. "Que me importa que a mula manque, eu quero é rosetar".

Do lado esquerdo, segundo Kennedy Alencar, a tendência dos três petistas com assento no Conselho de Ética da Câmara é votar para dar seguimento ao processo de cassação de mandato de Cunha.

Cunha quer proteção do PT, mas o partido resiste. E Dilma, após seguidas idas e vindas, finalmente decidiu pagar para ver: mandou avisar que não aceita ameaça.

Le jour est arrivé, citoyens. Agora é ver se vai ser "de gloire", ou um vexame. Ou se fica pro ano que vem...

No Brasil, quando falta pão, ao invés de brioches, sempre tem alguém pra oferecer circo.



01 de dezembro de 2015


DOCE AMARGO

Sabe o que significa "Irajá"? Em tupi-guarani quer dizer "colmeia", ou "lugar onde se encontra o mel".

Entendeu agora, porque é que eu sou tão docinho?

Ééécaaaa!!!

Irajá é um daqueles nomes exóticos, que pouca gente tem, tipo Cleverson, Auriclenes, ou Paudernei. Coisas que o pai inventa e a gente carrega pro resto da vida. E, no fundo, não tem nenhum problema, pois todo mundo aprende a gostar do próprio nome quando é criança e nunca mais liga pra isso.

A vantagem de "Irajá" é que, por ser bairro carioca, vira e mexe tem alguém cantando o meu nome.

Haroldo Lobo fez uma marchinha:

Por um carinho teu, minha cabrocha
Eu vou a pé ao Irajá
Que me importa que a mula manque
Eu quero é rosetar

Gilberto Gil, um reggae:

Diga que irá
Irajá, Irajá
Pra onde eu só veja você
Você veja a mim só

Zeca Pagodinho, Zé Keti, Nei Lopes e até Valeska Popozuda têm ligações íntimas com o bairro. Pra fazer jus ao "mel" do lugar. E dá-lhe samba, pagode e funk.

Lá no Irajá tem também o 41.º Batalhão da PM. O batalhão com maior índice de letalidade no Rio de Janeiro.

Em nenhuma outra região do Rio a polícia mata e atira mais do que na área do 41.º. Lá estão lotados os policiais militares que dispararam ao menos 50 tiros contra um carro, matando os cinco jovens que o ocupavam, no final de semana.

A unidade ocupa há três anos o topo do ranking de homicídios em supostos confrontos com a polícia. Entre janeiro e outubro de 2015, foram 67 vítimas nessas circunstâncias - um terço de todos os homicídios na área.

A proporção está acima da média do estado (13%) e da capital (21%).

Chico Buarque também tem uma música em que se menciona o Irajá.

Chama Subúrbio e faz um giro pelo lado de lá da montanha.

[...] Fala, Penha, fala, Irajá, fala, Olaria
Fala, Acari, Vigário Geral, fala, Piedade

Casas sem cor, ruas de pó
Cidade que não se pinta
Que é sem vaidade [...]

Lá não tem brisa, não tem verde-azuis
Não tem frescura nem atrevimento [...]

Não tem turistas, não sai foto nas revistas

Lá tem Jesus... e está de costas

01 de dezembro de 2015


GUERRA SANTA

Dom Odilo Scherer que, segundo o chefe de gabinete Fernando Padula, aconselhou à Secretaria Estadual de Educação fazer a "guerra da informação", é o mesmo Dom Odilo que:

Foi afastado pelo Papa Francisco em ato para sanear o Banco do Vaticano.

Escolheu como reitora o último nome da lista tríplice que lhe foi apresentada, ao invés de dar posse ao vencedor das eleições realizadas por alunos, professores e funcionários da PUC SP.

Celebrou ato de purificação do Pátio da Cruz na PUC SP, depois de encenação "blasfema" comandada por Zé Celso Martinez Corrêa.

Censurou a Cátedra Michel Foucault na PUC SP.

Entre os parceiros do governador, desde Marcos Camacho, o Marcola, não se via alguém tão focado como Dom Odilo.

01 de dezembro de 2020

Marta se elegeu prefeita em 2000 na mesma onda favorável às esquerdas que levaria Lula à Presidência dois anos depois. Haddad seria o escolhido em 2012, no auge das conquistas do chamado lulismo. Vitórias e derrotas eleitorais não se dão no vácuo. Oferecem, ao contrário, indicativos precisos da conjuntura dentro da qual estão inseridas. Em 2016 Dória ganhou já no primeiro turno como resultado prático e direto dos três anos de ataque ininterrupto a que o PT foi submetido a partir de junho de 2013. Não só os votos que o então outsider da política recebeu, mas o número recorde de abstenções, nulos e brancos, ajudam a formar o retrato daqueles tempos. Vendo sob essa perspectiva, a derrota de Bolsonaro nos legislativos e nos executivos municipais pode, sem dúvida, ser considerada acachapante. Como alguns previam, uma vez exposto à luz do cargo, o Mito derrete irremediavelmente. Dito e feito. Mesmo a ideia de um bolsonarismo que subsista ao banimento da família-quadrilha da cena política em médio prazo, parece mais uma inversão da ordem dos fatos. O Brasil é uma sociedade em que a barbárie se dá em níveis estruturais. Bolsonaro foi um espasmo que a estrutura se viu obrigada a amplificar diante dos avanços que o campo popular, democrático e progressista veio impondo a partir dos primeiros anos do século XXI. Uma miríade de novos atores, agora, começa a ser incorporada à arena política brasileira. Os velhos oligarcas que, está na moda, são chamados eufemisticamente de Centrão, conseguiram abalar a Constituição Cidadã de 1988. Naquele contexto haviam sido vencidos. Para obter o que têm agora foi necessário um novo Golpe. Devem estar com as barbas de molho, porque, mais que ninguém, sabem que dançam conforme a música. A estrutura segue inabalada. Mas a luta continua.

01 de dezembro de 2021

BRASIL - VOTO E IDEOLOGIA

O cientista político André Singer estuda o tema 'Voto e identificação ideológica dos brasileiros' desde o final dos anos 1980.

'Os resultados das pesquisas', diz ele, 'chamam a atenção pela enorme estabilidade das preferências' ao longo de décadas.

Com poucas exceções, teríamos:

  •  um campo de esquerda com cerca de 20%;
  • um de centro, idem;
  • um de direita com o dobro das escolhas (40%).

Pouco mais de 20% não sabem se posicionar.

Nos trabalhos que realizou, Singer constata que os assuntos que mais dividem a esquerda da direita no Brasil são os que dizem respeito à ordem.

'Enquanto a esquerda apoia posições que implicam contestação do ordenamento estabelecido, a direita tende a reforçá-lo'.

É sobre esse pano de fundo que acontece qualquer eleição no Brasil. 2020 não foi diferente. 2022 tampouco o será.

O brasileiro não mudou. Houve, na verdade, um Golpe. Golpes se mantêm pela força durante algum tempo (estamos dentro de um desses recortes de tempo neste exato momento). Depois é necessário a distensão e que se estabeleça algum tipo de pacto.

Demora e o estrago é enorme. 1964 foi melhorar 20 anos depois. O país estava devastado. Houve lá um Golpe. Há outro aqui.

Thursday, November 30, 2023

30 de novembro de 2021

Putz! Se ela não mencionou, então o Aristides pode não existir? E, se não existe, ele não pegava o Bolsonaro? E, se não pegava, eu ainda sou homofóbico? Se não há o Aristides, eu me intrometi ou não em questões da vida privada do Bolsonaro? 🤔



30 de novembro de 2020

A capital estava na fase verde desde o último dia 9 de outubro. À época, o governo do estado prometeu uma nova reclassificação para 16 de novembro.

16 DE NOVEMBRO!

No entanto, na data marcada, Doria e as autoridades de Saúde paulistas alegaram que um problema no sistema de dados sobre a pandemia do Ministério da Saúde tinha comprometido a análise principalmente das estatísticas de novos casos e mortes causadas pelo coronavírus.

Mesmo assumindo que o estado tinha apresentado 18% de aumento nas internações pela covid-19, o que podia ser comprovado porque esses dados não passam pela pasta federal, o governo paulista adiou a reclassificação em duas semanas.

18% DE AUMENTO NAS INTERNAÇÕES!

Assim, marcou a nova avaliação para o dia seguinte ao segundo turno das eleições municipais.

DIA SEGUINTE AO SEGUNDO TURNO!

Foram 52 dias sem uma nova reclassificação.

52 DIAS!

Anteriormente, até o início de setembro, o governo paulista vinha fazendo avaliações quinzenais do Plano São Paulo.

30 de novembro de 2018


NOTIONLESS PEOPLE

Uma casa de lanches em algum lugar do Brasil serve um sanduíche de carne com repolho roxo. Destacou em negrito 'olho roxo' no cardápio e batizou a comida de 'Maria da Penha'. O assunto bombou ontem o dia inteiro e a Mídia Ninja mostrou agora há pouco que em Salto SP, num grupo de discussão em que se comentava o episódio, um policial militar e o vice-presidente da OAB na cidade fizeram a seguinte piada: 'Quero o X-Marielle'. Resposta: 'Com muitas azeitonas?'. Lembrei de uma cervejaria, salvo engano, de Goiás que colocou em seu chopp escuro o nome de 'Afro'. Os três absurdos em questão já foram, ou estão sendo desconstruídos pela reação maciça de repúdio que rapidamente se configurou nas redes sociais. O chopp já deixou de ser 'Afro' pra ser 'Black'. Mas, óbvio, assim como a graçola perversa das 'autoridades' de Salto foram devidamente printadas, propagandas espalhadas pelas centenas de distribuidores garantem que a gente possa documentar o que a Klaro fez no inverno passado. Ainda falta muito para que o espaço social no Brasil esteja devidamente regulamentado. As plataformas de compartilhamento, como Facebook, Twitter e outros, têm oferecido um meio para o enfrentamento de vícios privados que se manifestam na esfera pública. Pode ser um bom prenúncio de futuro, mas será apenas um paliativo enquanto nossas instituições permanecerem como mera extensão das oligarquias e seus privilégios.

30 de novembro de 2018

Por sorte eu vi trechos da palestra do Haddad na gringa. Eu sempre caio nas iscas da imprensa, igual essa da Folha destacar que ele disse que não se deve torcer contra o governo do Bolsonaro. Não foi bem isso, o contexto não permite tal leitura, mas a esquerda de entretenimento corre abanando o rabinho para a pauta que o jornal dos Frias atirou no gramado. Sem pretender ser exaustivo, lembro que o PT levou o Lula por mais de 8 mil quilômetros Brasil adentro (há um livro registrando isso, organizado pela Cleusa Slaviero): no Sul a Caravana sofreu um atentado a tiros! O PT esteve em vigília em SBC até a prisão do Lula e, a partir daí, tem garantido a presença constante de uma vigília cívica na entrada do prédio da Polícia Federal onde o ex-presidente está confinado. O PT adotou uma estratégia arriscadíssima (e, como se viu, muito bem sucedida) de manter o Lula como candidato até o último instante, costurou alianças no país inteiro, tirou o Haddad de 4% de intenções nas pesquisas para perder por 10 milhões de votos para um candidato que aglutinou todo o Centro ao conseguir o apoio incondicional das principais lideranças do neo-pentecostalismo, além de protagonizar o episódio mais grotesco de fraude eleitoral da História, pelo menos recente, da República. Ainda assim, discute-se, pretensamente a sério, se o PT abandonou o Lula. Qual a prova de hoje? O Haddad, segundo a Folha, falou que não se deve torcer contra 'só pelo poder'. Così è (se vi pare). Este é o nome de uma das mais famosas peças escritas por Luigi Pirandello, cuja obra é dedicada a pensar o dilema entre o ser e a aparência, a realidade e a ilusão. Com seus textos Pirandello viria a estimular de forma decisiva o desenvolvimento do teatro do absurdo. 'Assim é (se lhe parece)' é um bordão para o debate em redes sociais do Brasil de 2018.

30 de novembro de 2016

El Tantan Dallagnol deu uma de louco à tarde e a cacofonia fundamentalista respondeu prontamente. Ao chamado do muezim zap zap, no horário de culto estabelecido pela sagrada lei da Coxolândia - o Jornal Nacional - os zumbis zumbiram. Quem estiver acreditando que os paneleiros se arrependeram de alguma coisa, tire seu cavalo da chuva. O que os move é o mesmo impulso antipolítico, aquela velha opinião formada sobre tudo, por isso tão aparentado ao fascismo. Não são um anti-movimento que vai se desintegrar no próximo momento. Não entraram nessa por diversão. Estão por aí desde que o mundo é mundo. Comem cérebros. E domingo marcaram micareta na Paulista. Vai rolar a festa. Darwin explica.


30 de novembro de 2016

Lembra, quando, depois daquele fatídico domingo de abril, a Dilma desceu a rampa do Planalto para iniciar o período de afastamento previsto em lei até que o impeachment fosse - ou não - aprovado em definitivo pelo Senado? Ela parecia meio sozinha, não houve a prometida passeata com os movimentos populares até o Alvorada, etc. O Lula estava lá. E chorou. Copiosamente. Caras que nem o Lula têm a capacidade de antecipar cenários. De intuir situações complexas. De "enxergar" o que vem pela frente, antes. O que ele viu, nós estamos vendo, também. Agora. Por isso essa vontade de chorar.

30 de novembro de 2014

ACRESCENTE 9 ZEROS

A campanha deste ano teve um custo de quase 5 bilhões de reais.

A maior fatia, 1, 2 bilhão, foi para os 17 mil candidatos ao cargo de deputado estadual.

Você não leu errado. Dezessete MIL candidatos. Cinco BILHÕES de reais.

"Governadores" torraram R$1.100.000.000,00. "Deputados federais"? 100 milhões a menos.

O levantamento - feito pela Folha de São Paulo - considerou as despesas de todos os candidatos, diretórios e comitês, tanto vencedores como derrotados, que concorreram para todos os cargos que tiveram disputa neste ano.

Grandes empresas, como Friboi e Odebrecht, fizeram as maiores contribuições. As dez maiores doadoras entraram com um quinto do total.

Os gastos em publicidade representaram metade do dinheiro investido, seguidos por despesas com pagamento de pessoal e com custos de transporte.

A Folha chegou a esses números com base nas prestações finais de contas fornecidas pelas campanhas eleitorais ao TSE . Ou seja, sem considerar o indefectível Caixa 2.

Não há como imaginar qualquer melhora no Congresso e na correlação de forças com o Executivo se não se confrontar esse estado de coisas.

Um dinheiro desse tamanho não abandona a liquidez das aplicações financeiras impunemente. Não existe almoço grátis. Muito menos almoço grátis com nota fiscal de 5 bilhões.

30 de novembro de 2013

Inúmeros textos apócrifos atribuídos a L. F. Veríssimo circulam pela internet. Este não é um deles:

PESOS E MEDIDAS

[...] Recorre-se tanto à frase “dois pesos e duas medidas” para reclamar isonomia no julgamento dos casos de corrupção no país que eu proponho o fim da hipocrisia. Oficialize-se, já, dois sistemas de pesos e medidas diferentes no Brasil, um que vale só para o PT (Sistema 1) e outro para os outros, principalmente o PSDB (Sistema 2).

As previsíveis confusões — desencontros em construções, conflitos na medição de terras etc — seriam resolvidas por um conselho arbitral formado por representantes dos dois sistemas. Desde que não fosse presidido pelo Barbosa, claro.


Veríssimo, antes que alguém venha dizer, não é "petista". Passou oito anos descendo a lenha nas opções conservadoras do Lula e não dá mole pra Dilma.

Já Juca Kfouri toma o cuidado de terminar seu artigo lembrando que também não é (e nem foi, jamais) do Partido dos Trabalhadores:

OFENDE PERGUNTAR?

Imagine que o helicóptero do Supla, que não tem helicóptero, mas é filho do senador Eduardo Suplicy, do PT, que nunca presidiu o Santos, seja pego com 500 quilos de cocaína.

Você acha que o caso seria tratado com a mesma discrição do caso do helicóptero do deputado Gustavo Perrela, que é filho do senador aecista Zezé Perrela, que foi presidente do Cruzeiro, aeronave pega com 500 quilos de cocaina?

Tudo bem.

Nem Gustavo é conhecido como Supla, nem Zezé tem a importância política de Suplicy.

Qualquer que fosse o político petista envolvido num caso semelhante seria tratado com tanta condescendência?

Em tempo e novamente, para aplacar iras mal dirigidas: jamais fui petista.


É importante ficar atento para as manifestações de repúdio que não vêm da militância. Isso mostra que o que vem sendo chamado de "indignação seletiva" está se tornando cada vez mais visível e que o sentimento de que tal seletividade é inaceitável está cada vez mais disseminado.

Monday, November 27, 2023

27 de novembro de 2020


Apesar de ser assunto delicado, é absolutamente legítima a preocupação do eleitor paulistano com as condições de saúde do candidato Bruno Covas. O prefeito está em pleno tratamento de doença muito grave e a possibilidade de não conseguir terminar um segundo mandato é real.

A figura do vice, nesse contexto, ganha enorme importância.

Ricardo Nunes é homem do MDB (de Temer, Cunha, Geddel, entre outros), alinhado à Bancada da Bíblia.

Tem ligação com a Comunidade Canção Nova - abertamente bolsonarista - e proximidade com o padre Paulo Ricardo, o 'Malafaia católico', parceiro de Olavo de Carvalho.

Além do próprio Bruno Covas ter votado a favor do impeachment de Dilma Rousseff, Nunes quando vereador esteve ligado à construção do discurso fundamentalista que deu base ao Golpe de 2016 e pavimentou a caminhada de Bolsonaro ao Planalto.

Dissemina fakes a respeito de 'ideologia de gênero', associa homossexualidade a pedofilia, coloca-se a favor do Escola Sem Partido e contra os direitos reprodutivos.

Um cardápio completo à moda da ministra Damares, ou dos 'bispos' da Universal.

Covas justifica a escolha do vice por ser quem melhor representa o 'arco de alianças' que sustenta a candidatura do PSDB.

Sem dúvida, a chapa Covas - Nunes é hoje 'a mais completa tradução' das forças regressistas em São Paulo. Um blend do fascismo fundamentalista que se espalhou pelo país nos últimos 4 anos.

É preciso que a cidade inteira saiba quem é o invisível vice. Um bolsonarista autêntico na capital do Tucanistão.

*

Na imagem: um bolsonarista de sapatênis que passa e faz que não vê a pobreza e um bolsonarista raiz que ninguém vê. Eis a chapa Covas - Nunes.

Saturday, November 25, 2023

25 de novembro de 2019


Witzel seria aquele grandalhão risível, não fosse o fato de ser um genocida. Genocídio, no dicionário, quer dizer: "extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso".

Segundo o pesquisador Gabriel Feltran, "vivemos num país em que mais de 40 mil jovens - quase sempre pobres, quase sempre pardos e pretos, quase sempre funcionários baixos no mundo do crime - morrem assassinados todos os anos".

Eles representam quase 80% dos 60 mil homicídios anuais desde 2015, segundo o Mapa da Violência no Brasil.

"No Brasil todo", continua Feltran, "já são mais de 1 milhão de assassinados em três décadas. Vinte Maracanãs lotados de pessoas exterminadas por armas de fogo".

A PM e a Civil contribuem para esse quadro. No ano passado elas foram responsáveis por mais de 6 mil mortes em todo o país.

Mas repare que, apesar de termos uma das polícias mais letais do planeta, os 'meninos do crime' estão, principalmente, se matando uns aos outros.

A classe média conservadora resolve essa equação botando a culpa nos 'meninos' e em suas famílias. A classe média progressista patina num charco de desinformação, auto-engano e escapismo. Chora sempre que um 'inocente' é pego no fogo cruzado.

O genocídio em curso tem como característica determinante a seletividade de um Estado que não garante modos de sobrevivência à grande maioria de sua população e que, portanto, não se responsabiliza pela vida de seus jovens.

Os primeiros mortos identificados na chacina do Fallet Fogueteiro no início do ano foram Vitor dos Santos Silva, de 15 anos, Roger dos Santos Silva, de 17, e Enzo de Souza Carvalho, de 18. As famílias reconheceram prontamente que os três tinham vínculo com o crime.

Mas quem, em sã consciência, poderia usar a palavra 'traficante' para designar meninos de 15, 17 e 18 anos? O que pode, além de uma estrutura social doentiamente injusta, determinar as diferenças entre as mortes dos jovens atletas do Ninho do Urubu e o sangue vertido dos corpos de Vitor, Roger e Enzo na biqueira da Eliseu?

Enquanto a sociedade brasileira deixar entregues à própria sorte suas crianças negras e pobres, enquanto não houver um clamor humanista que resgate da violência racista e estrutural aqueles que seriam o 'futuro da nação', continuaremos enxugando gelo. Ou melhor, enxugando sangue derramado no chão de lajotas das bibocas das quebradas. Esperando, temerosos, a chegada do 'fascismo' que já está aqui desde 1500. E que não atinge, nem ameaça, apenas alguns poucos privilegiados.

25 de novembro de 2018

O XOU DO XUXO

ErneXto AraúXo cometeu mais um post em seu 'Metapolítica'. O blogueiro reaça está convicto de que o X da cuestão é o marXismo, embora o assunto seja, pasmem, OVNIs. Se a gente girar o disco do XanXeler ao contrário, vai ouvir a leitura de um tuíte supremacista do Donald Trump. Lido a contrapelo, no entanto, aquilo que se pretendia Além da Imaginação, ou, pelo menos, Arquivo X, não passa de uma nave da Xuxa, que gira, solta fumaça, acende a luzinha, sobe e desce com o elevador, mas não leva a lugar nenhum. Programa indicado para onanistas de todas as idades.



25 de novembro de 2013

FERNANDO WHO?

Vídeo inédito, obtido pela Folha, mostra Geraldo Alckmin e Fernando Haddad cantando o Trem das Onze de Adoniran Barbosa em Paris. O caso se deu quando os dois foram à França promover a capital paulista como sede da Expo 2020. Naquele mesmo momento em que rolava a festa os protestos que varreriam o país tinham início em São Paulo.

A reportagem, grande, é matéria da ILUSTRÍSSIMA, espécie de caderno de cultura da Folha de São Paulo, dedicado a textos longos, reflexivos, mas recebeu chamada de primeira página. Foi incluída também na pauta do TV Folha, possível de se assistir na TV Cultura ou pela internet.

O autor se chama Fernando Mello. Vejo sua imagem no TV Folha. É o que costumamos chamar de "um mocinho": corte de cabelo, pelos ralos no rosto, casaco improvisado de gente recém chegada à idade adulta.

Dou um google. Não encontro nada sobre Fernando Mello, jornalista. A crer nesse indicador também deve ser novato no ofício.

Fui estudante de jornalismo. Lia na Folha de São Paulo, todos os dias, Paulo Francis, Cláudio Abramo, Tarso de Castro, Sérgio Augusto, Lourenço Diaféria, Alberto Dines, Gilberto Vasconcellos. Quando Frias Filho resolveu reformar o jornal no que ele é hoje, a primeira coisa que fez foi contratar duas dúzias de focas. O desmonte do dream team que listei ali atrás demorou um pouco, mas com o tempo, viria a ser completo. Frias inventou em seguida o Manual Geral da Redação. Um punhado de colegas meus foi dormir com a carteira assinada. Estávamos no 3º semestre do curso.

Explico a reminiscência: em geral, reportagem de investigação com assinatura é privilégio de jornalista tarimbado. Se Fernando Mello ainda não tem currículo, com certeza cumpre ordens, orientado passo a passo pelos editores. O Manual Geral da Redação foi criado para sistematizar essa prática. Tira autonomia do repórter, aumenta a padronização e, com isso, controla melhor os resultados. Situação que gente jovem suporta com mais naturalidade.

Na prática o artigo começa por descrever minuciosamente o coquetel e o karaokê para em seguida fazer uma rápida memória das manifestações de rua que eclodiram em São Paulo nos mesmos dias em que o governador e o prefeito foram a Paris. De posse desses dois conjuntos de informações, passa-se a refletir sobre as causas das chamadas marchas de junho. Uma pesquisa realizada em 18 países latino-americanos e a opinião de dois especialistas internacionais servem de base para concluir que a resposta está, entre outras, no "desgosto dos cidadãos com os políticos", fruto do distanciamento que os representantes mantêm em relação àqueles que representam.

A decisão de viajar em tempos de crise confirma o diagnóstico? Afinal, não são Alckmin e Haddad os que soltam a voz no rega-bofe à francesa enquanto os tapuias ateiam fogo à cidade? O texto não afirma, prefere traçar um paralelo, pois, do título ao arremate, Fernando Mello é um primor de "Folhismos". Faz uso das mesmas insinuações, ironias, ambiguidades, referências cultas e do ar vagamente investigativo que tanto rendem ao diário paulistano acusações de esnobismo e tendenciosidade.

De investigativo quem procurar encontra muito pouco. De reflexivo ainda menos, já que o momento de amarrar a série de pontas soltas que vão se multiplicando, de Valéry a Kennedy, do policial ferido aos Demônios da Garoa, não chega nunca. Apesar de tudo na escrita de Fernando Mello querer "produzir sentido", a partir das contradições entre todos os elementos que vão construindo sua "versão dos fatos" muito pouco se deduz além do "fato" de que são... contraditórios. Assim como nada sobre o que se fala, no artigo, é claro, quase nada que o artigo diz, tampouco, tem clareza.

De toda essa lubrificação sobra concluir que Fernando Mello veio para mostrar que há mais semelhanças entre o tucano e o petista do que sonha nossa vã filosofia.

Parece sensato desconfiar que haja interessados em aproveitar o pico de visibilidade dos dias que antecedem a escolha da cidade que irá sediar a EXPO 2020 para colar a imagem de Haddad à de Alckmin. No momento que coincide com o fim do julgamento da AP 470 e na iminência de ter que voltar os holofotes para o Mensalão mineiro e para o propinoduto do Metrô e da CPTM, a Folha levanta suspeitas sobre si mesma ao publicar artigo tão capcioso. Tal aproximação fragiliza, sem dúvida, o prefeito e pode beneficiar o governador, ainda que seja só por embaralhar sua imagem com a de Haddad, postergando assim o reconhecimento de que Alckmin e o PSDB estão prestes a se tornar a proverbial "bola da vez".

Pelo fato justamente de ter passado por uma escola preparatória de jornalistas não me seduzo pela ideia de que o noticiário é manipulado de maneira unívoca pelos interesses das grandes corporações. Essa crença, penso, obscurece o fato de que a informação surge a contrapelo dos desejos dos donos de jornais, que, assim, estão também sujeitados pelas regras do jogo, como queria Cláudio Abramo em sua autobiografia.

Abramo, que não esquecia que o jogo tem regras, mas também sabia discernir entre parceiros, rivais e inimigos, bateu de frente com seus patrões mais de uma vez. Comandou a Folha em tempos que antecederam a Reforma Editorial de Frias Filho. Viu o Otavinho crescer, mas já não estava presente quando o jornal se juvenilizou. É provável que se insurgisse contra a ideia de uma ferramenta que torna mais fácil à voz do dono se fazer ouvir de maneira indireta, disseminada entre as editorias já sem personalidade, como o Manual da Redação veio permitir. Interesses sempre haverá. Escusos às vezes. Coisas que é preferível que se diga de maneira cifrada. Focas, para essas eventualidades, são extremamente úteis.



Friday, November 24, 2023

24 de novembro de 2015

ALIADOS PROPÕEM TROCA DE CASSAÇÃO DE CUNHA POR IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF

A oposição não abandonou Eduardo Cunha. Trata-se de jogada ensaiada. Encenam o emparedamento do presidente da Câmara para que ele deflagre o pedido de impeachment. É a mesma estratégia de terra arrasada que tivemos ao longo de todo ano. O Ministro Jacques Wagner tenta convencer os petistas mais afoitos que o “desgaste” de apoiar Cunha é o preço a se pagar para manter o impeachment longe da pauta. No Facebook há uma grita para que o PT se mostre impoluto. É mais ou menos como ser atropelado em cima da faixa de pedestres por um carro que você viu que não ia parar e estar coberto de razão, porém... morto.