Monday, October 21, 2024

21 de outubro de 2020

 


A queda de braço Mijair X Pazuello é mais complicada do q foi com os ministros anteriores. Envolve a vontade da população de querer se ver livre do corona vírus e governos estaduais q têm se preparado para sobreviver à estultícia do despresidente. Também vem depois do grande turning point q foi aquela reunião ministerial q marcou a fritura de Sérgio Moro e do desmantelamento do Gabinete do Ódio. Estatisticamente Papa Bozo mais perde do q ganha quedas de braços. Nos últimos tempos tem tido agenda livre como nunca, porque ninguém consulta ele para nada, como fica claro com o anúncio do acordo MS / Dória, q ele foi o último a saber. Jairo Goldenshower encontrou sua verdadeira vocação no papel de boneco de posto q desempenha na rampa do Planalto. Balança os braços obstinado para chamar a atenção de quem passa. Os donos podem desligá-lo da tomada e ele sabe disso. O bonecão só não é capaz de fazer nada além.

Saturday, October 05, 2024

Ele está entre nós


Bruno Mars chegou ao Brasil para uma série de 15 shows em 5 cidades.

O primeiro deles, fechado e beneficente, aconteceu terça-feira, no Tokio Marine Hall em São Paulo e arrecadou R$ 1 milhão para as vítimas das enchentes do Rio Grande do Sul.

Ontem teve o primeiro show 'de arena', um dos seis que vão lotar o estádio do Morumbi.

Lotar, aqui, significa que todos os ingressos postos à venda foram vendidos. O Morumbi, que em dia de jogo pode receber 85 mil pessoas, para espetáculos musicais deixa entrar até 65 mil.

O Engenhão, no Rio, suporta 40 mil pessoas. Três noites.

O Mané Garrincha, em Brasília, 72 mil. Duas noites.

No Couto Pereira, de Curitiba, 40 mil. Mais dois shows.

No Mineirão, 61 mil.

Tudo SOLD OUT.

Feitas as contas, quase 800 mil brasileiros vão ver o Bruninho.

O Rock in Rio, com 750 artistas, levou 730 mil pagantes ao longo de sete dias e 500 horas de programação.

É um fenômeno, não resta dúvida.

Um fenômeno mundial. Bruno lotou o Tokyo Dome cinco vezes em outubro de 2022 e voltou em janeiro de 2024 para outras sete apresentações. O Tokyo Dome tem 55 mil cadeiras.

Em todo lugar, o resultado é mais ou menos o mesmo. A turnê mundial, já há quase dois anos, está concentrada nos países asiáticos, provavelmente uma demanda que ficou represada dos tempos de pandemia. Sempre em estádios gigantescos. Sempre superlotado.

Um fenômeno que, curiosamente, não alcança com a mesma força a que estávamos acostumados, décadas atrás, os chamados 'grandes meios de comunicação' e, portanto, passa, muitas vezes, longe dos radares de quem não tem o 'perfil' de apreciador do Bruno Mars.

Veja o que estou querendo dizer: no tempo da Madonna, do Frank Sinatra, do Michael Jackson ou da Whitney Houston, quem gostasse ou odiasse um deles, se via exposto quase que em igual proporção à divulgação de seus nomes, acontecimentos, imagens, etc.

O diferencial acontecia entre quem gostava e quem não.

O empresário do Elvis mandou fazer e comercializou bótons escrito I HATE ELVIS para faturar em cima da parcela da população que detestava o Elvis. Ganhou uma grana considerável.

Agora, a diferença está entre quem já ouviu falar e quem não. Porque os 'meios de comunicação' passaram por um processo de pulverização. Sendo assim, um cara que arrasta quase 800 mil pagantes paras seus shows aqui pertinho das nossas casas, ainda continua sendo um artista 'de nicho'. Apenas porque, no atual modelo de negócios da indústria de entretenimento, só existem nichos. Nichos enormes e pequenos nichos. Mas tudo, e cada qual, em seus nichos.

Só pra fechar o raciocínio: Bruno gravou há poucos meses uma música em 'colab' com a Lady Gaga. O 'tamanho' da Lady Gaga na indústria é muito menor do que o 'tamanho' do Bruno. E, provavelmente, mais gente sabe quem é a Lady Gaga do que sabe quem é o Bruno. Provavelmente porque a Lady Gaga é, além de cantora, atriz de cinema e o cinema ainda está longe da pulverização que caracteriza a indústria fonográfica atual.

Um artista de cinema ainda é mais 'universalmente' conhecido do que um artista de música. Talvez, uma hipótese, porque os canais de produção e disseminação da música sejam muito - incomparavelmente - mais numerosos do que os do cinema.

Monday, September 30, 2024

Origem das Cartas do Tarô

Há milhares de anos, o reino egípcio estava ameaçado de ser conquistado e destruído por um poderoso inimigo. Diante dessa ameaça e da catástrofe iminente, os sacerdotes do reino temiam que o conhecimento, arduamente conquistado ao longo dos séculos, pudesse perder-se para sempre. Os sacerdotes hierarquicamente superiores reuniram-se em conselho, a fim de deliberar sobre como mantê-lo e transmiti-lo à humanidade, apesar da destruição e do aniquilamento.

Um dos sacerdotes sugeriu que se entalhasse a sabedoria nas paredes e muros das pirâmides sob a forma de desenhos e símbolos. Sua sugestão, no entanto, acabou sendo recusada, sob o argumento de que até mesmo as paredes mais fortes são construídas por mãos humanas, sendo, portanto, transitórias. Outro sacerdote quis escolher as dez pessoas mais sábias e inteligentes do país para iniciá-las nos Mistérios; elas, por sua vez, antes de morrer transmitiriam o conhecimento a outras que considerassem sábias.

Contra essa sugestão outro sábio opôs o argumento: "A sabedoria não é um estado duradouro e muitas vezes o sábio se transforma num tolo. Dessa forma, a estabilidade do nosso conhecimento não estará segura".

Há algo, no entanto, disse um outro, que é estável na humanidade: o vício. "Devemos confiar nosso conhecimento ao vício. Só assim poderemos ter a certeza de que ele sobreviverá a todas as intempéries e mudanças do tempo".

Essa sugestão foi unanimemente considerada boa e eles passaram a desenhar todo o conhecimento reunido pelos sacerdotes nas imagens das cartas. Estas foram distribuídas ao povo, que fez do jogo uma de suas paixões prediletas.

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História contada pelo místico francês Gérard Anaclet Vincent Encausse (Corunha, Espanha, 13 de Julho de 1865 — Paris, França, 25 de Outubro de 1916), mais conhecido pelo pseudônimo de Papus, médico, escritor, ocultista, rosacrucianista, cabalista, maçom e fundador do martinismo moderno. Transcrita da Introdução do Manual do Tarô, de Hajo Banzhaf. Editora Pensamento, 1995.

O Terremoto de Lisboa

Vocês alguma vez já tiveram que ficar esperando na farmácia, vendo o farmacêutico preparar uma receita? Ele pesa as substâncias e os pozinhos grama por grama com ajuda de pequeninos pesos de metal, até chegar à dose certa para fazer o medicamento. Pois da mesma forma que o farmacêutico, assim faço eu aqui quando vou contar alguma coisa para vocês no rádio. Os meus pesos são os minutos, e eu preciso medir exatamente o quanto disso e o quanto daquilo vou usar para chegar à mistura correta. “Ora essa!” vocês vão dizer. Se o senhor vai contar sobre o terremoto de Lisboa, então que comece pelo princípio. E então continue contando o que aconteceu depois. Mas se eu fosse contar dessa forma, vocês não achariam muita graça. As casas indo abaixo, uma após a outra, as famílias perecendo, uma após a outra, o horror do incêndio se espalhando por toda a parte, da água, a escuridão e os saques, os gemidos dos feridos e as lamentações daqueles que procuravam por seus parentes – quem gostaria de escutar só essas coisas? – que afinal são as mesmas de qualquer catástrofe natural de grandes proporções.

Mas o terremoto que destruiu Lisboa no dia 1º de novembro de 1755 não foi apenas uma calamidade como tantas outras, ele foi, em muitos aspectos, um acontecimento singular e espantoso. E é sobre isso que quero contar a vocês. Antes de tudo, foi um dos maiores e mais devastadores terremotos que já ocorreram na história. Mas não foi só por isso que a tragédia comoveu e atingiu o mundo inteiro naquele século. A destruição de Lisboa, naquela época, seria o equivalente hoje, à destruição de Chicago ou Londres. Na metade do século XVIII Portugal vivia o apogeu de seu poder colonial. Lisboa era um dos centros comerciais mais ricos do mundo; seu porto, situado na foz do rio Tejo, passava o ano inteiro cheio de navios e o cais era repleto de imensas casas de comércio de negociantes ingleses, franceses e alemães, principalmente de Hamburgo. A cidade contava com mais de 30.000 casas e uma população de mais de 250.000 habitantes, dos quais, aproximadamente, um quarto perdeu a vida neste terremoto. A corte do rei era famosa por sua severidade e seu esplendor, e muitos relatos publicados em Lisboa nos anos anteriores ao terremoto nos contam sobre o estranho ar de solenidade das cerimônias, quando, por exemplo, nas noites de verão os membros da corte e seus familiares chegavam em suas carruagens ao principal centro da cidade, a Praça do Rossio, reuniam-se e conversavam informalmente por alguns instantes, sem descer do veículo. A ideia que se fazia do rei de Portugal era a de um homem tão superior, que um dos folhetos distribuídos em toda Europa com descrições detalhadas da tragédia, sequer foi capaz de conceber que um rei de tamanha grandeza pudesse ter sido atingido por tal fatalidade.

 Mas da mesma forma que só se conhece a dimensão do desastre [assim escreve este estranho jornalista] quando tudo já passou, assim podemos também fazer ideia da lastimável e terrível situação quando pensamos que um grande rei passou um dia inteiro abandonado por todos em sua carruagem, com sua esposa e nas mais precárias condições.

Os folhetos, nos quais se podiam ler coisas do gênero, eram o equivalente dos jornais de hoje em dia. Quem conseguia, colhia junto às testemunhas oculares as informações mais detalhadas possíveis, mandava imprimir e vendia. E é o trecho de um destes relatos, escrito por um inglês residente em Lisboa e que presenciou os acontecimentos, que quero ler para vocês depois.

Há uma razão especial para que este acontecimento tenha comovido as pessoas de forma tão profunda, fazendo com que até 100 anos mais tarde ainda circulassem inúmeros panfletos com relatos sobre a tragédia. É que, por sua amplitude, este foi o maior de todos os terremotos de que já se tinha ouvido falar. Ele foi sentido de toda Europa até a África, e calculou-se que com seus prolongamentos mais distantes chegou a abranger uma área de dois milhões e meio de quilômetros quadrados. Os tremores mais intensos alcançaram desde a costa do Marrocos, por um lado, até à costa da Andaluzia e da França, pelo outro. As cidades de Cádiz, Jerez e Algeciras foram quase completamente destruídas. Segundo uma testemunha, as torres da catedral de Sevilha tremeram como varas de bambu. Os tremores mais violentos, contudo, se propagaram pelo mar. Da Finlândia até à Indonésia foram sentidas fortes turbulências nas águas, e calcula-se que o tremor do oceano propagou-se desde a costa portuguesa até à foz do Elba numa velocidade espantosa em quinze minutos. Isso é o que foi registrado no momento do desastre. Mas o que mexeu mais profundamente com a imaginação das pessoas foram os fenômenos naturais observados semanas antes da catástrofe, os quais foram, com razão, compreendidos como sinais da futura tragédia. Em Locarno, no sul da Suíça, duas semanas antes do terremoto, vapores surgiram de debaixo da terra, transformando-se duas horas depois numa névoa vermelha que ao anoitecer caiu dos céus em forma de uma chuva púrpura. Diz-se que a partir de então foram observados na Europa ocidental terríveis furacões, acompanhados de chuvas torrenciais e inundações. Oito dias antes do tremor, o solo na região ao redor de Cádiz ficou coberto por uma enorme quantidade de vermes.

Ninguém mais do que o grande filósofo alemão Immanuel Kant, de quem vocês talvez já tenham ouvido falar, se interessou por estes estranhos fenômenos. Nesta época ele era um jovem de 24 anos, nunca havia saído nem jamais sairia de sua cidade natal, Königsberg, mas com um zelo impressionante recolheu todas as notícias que pôde encontrar sobre este terremoto, e o pequeno livro que ele redigiu sobre o fato marcou o início da geografia científica na Alemanha, e sem duvida, o início da sismologia. Gostaria de contar a vocês sobre a trajetória dessa ciência, desde aquela descrição do terremoto de 1755 até os dias de hoje. Mas preciso agir com cautela, para que o nosso amigo inglês não se sinta pressionado pelo tempo e eu possa ler seu relato sobre o que viu do terremoto. Já vão 150 anos que ninguém lhe dá atenção e agora, quando tem a oportunidade de falar, ele aguarda impaciente e me autoriza a contar a vocês apenas algumas palavras sobre o que sabemos dos terremotos. Mas antes de tudo: a coisa não é como vocês imaginam. Pois eu aposto que se nós déssemos uma parada agora e eu pedisse a vocês que me descrevessem como é um terremoto, vocês pensariam primeiramente nos vulcões. É verdade que as erupções vulcânicas estão frequentemente associadas a um terremoto, ou pelo menos são anunciadas por eles. Assim, ao longo de 2000 anos, dos gregos antigos a Kant e em diante, até por volta de 1870, as pessoas acreditaram que os terremotos se originavam de gases e vapores ardentes do interior da Terra. Mas quando se passou a investigar as coisas com instrumentos de cálculo de uma precisão que vocês sequer podem imaginar – nem eu – e quando se pôde conferir tudo, chegou-se a uma conclusão completamente diferente, ao menos sobre os grandes terremotos, como o que se abateu sobre Lisboa. Eles não se originam do mais profundo interior da Terra, que até hoje se imagina ter uma forma líquida, ou melhor, uma espécie de lama ardente, mas sim de fenômenos que ocorrem na crosta terrestre. A crosta terrestre é uma camada de aproximadamente 3000 km de espessura, em constante instabilidade. As massas se encontram em constante deslocamento, sempre buscando chegar a um equilíbrio. Algumas das causas das perturbações neste equilíbrio são conhecidas, outras ainda precisam ser descobertas através de pesquisa exaustiva. Até onde se sabe, pode-se afirmar que as transformações mais importantes se dão pelo constante resfriamento da Terra. Através dele surgem enormes tensões nas massas rochosas, tensão esta que acaba despedaçando essas massas rochosas, que se deslocam até encontrar um novo equilíbrio, o que nós sentimos como um terremoto. Outra causa das transformações é a erosão das montanhas, que consequentemente se tornam mais leves e depositam-se no fundo do mar que, então, fica mais pesado. Tempestades, principalmente aquelas que caem no outono, fazem também a superfície da Terra estremecer e, por fim, está sendo constatado o efeito da atração de corpos celestes sobre a superfície do nosso planeta. Mas, vocês vão dizer: se é assim, a Terra está tremendo o tempo todo. Vocês têm razão, é assim mesmo. A altíssima precisão dos instrumentos de sismologia de hoje em dia – só na Alemanha temos 13 observatórios de sismologia em diversas cidades –, faz com que estes aparelhos estejam sempre indicando alguma alteração, o que quer dizer: a Terra está sempre tremendo, só que de uma forma que nós geralmente não percebemos.

Tanto pior quando de repente se pode perceber este tremor olhando para um céu límpido: para um céu límpido, literalmente. “Pois”, assim descreve o nosso amigo inglês, a quem finalmente damos a palavra:

o sol brilhava com todo o seu esplendor. O céu, completamente limpo e claro, não dava o menor sinal de qualquer fenômeno natural quando entre 9 e 10 horas da manhã, enquanto eu estava sentado à escrivaninha, fui de repente surpreendido por um movimento da mesa que eu não sabia explicar de onde vinha. Enquanto eu tentava entender o que acontecia, a casa tremeu de cima a baixo. Debaixo da terra ecoou um trovão, como se uma tempestade estivesse caindo bem longe dali. Eu rapidamente larguei a pena sobre a mesa e dei um salto. O perigo era enorme, mas eu ainda tinha esperança de sair ileso daquela situação. Só que no instante seguinte já não havia mais qualquer dúvida. Ouvi um estalo terrível, como se todos os prédios da cidade estivessem desmoronando, os cômodos de minha casa balançaram tão forte que tudo foi arremessado ao chão de uma só vez. A todo instante eu achava que seria fatalmente atingido por alguma das enormes pedras que voavam das paredes vindo abaixo, enquanto as vigas do teto pareciam flutuar no ar. Porém, neste momento a escuridão tomou conta do céu a tal ponto que era impossível enxergar qualquer coisa. O cenário era como o das trevas do Egito ⁷⁵ , ou por causa da imensa poeira que subiu com o desmoronamento das casas, ou porque uma massa de vapor de enxofre subia de debaixo da terra. Enfim, a noite voltou a ficar clara e a violência dos tremores diminuiu. Consegui me acalmar um pouco e olhei em volta. Percebi que minha vida havia sido salva por um mero golpe do acaso. Pois se eu estivesse vestido, com certeza teria saído correndo para a rua e seria fatalmente atingido por um dos prédios que desmoronavam. Rapidamente calcei os sapatos, vesti o roupão e me apressei até a rua em direção ao cemitério da igreja de São Paulo, uma área mais elevada onde eu acreditava que estaria a salvo. As pessoas não conseguiam nem reconhecer a rua onde moravam, muitas sequer sabiam responder o que havia acontecido com elas, tudo e todos estavam dispersos e ninguém sabia aonde tinham ido parar seus pertences ou seus familiares. Na elevação onde se situava o cemitério da igreja pude então testemunhar o cenário de uma tragédia: até onde meus olhos alcançavam eu podia ver uma enorme quantidade de barcos flutuando e batendo uns contra os outros, como se a mais violenta tempestade estivesse caindo. De uma vez só o imenso cais às margens do rio afundou arrastando junto todas as pessoas que pensavam estar em segurança ali. Nesse mesmo instante, os barcos e veículos onde tanta gente ia buscar refúgio foram tragados pelo mar.

Através de outros relatos sabemos que, aproximadamente uma hora após o segundo e mais devastador tremor, aquela monstruosa onda de 20 metros que o inglês tinha visto de longe se abateu sobre a cidade. Quando a onda refluiu para o mar, deixou o leito do Tejo seco. O recuo da onda foi tão violento que arrastou junto toda a água do rio. E assim conclui o inglês:

Quando a noite desceu sobre a cidade devastada, ela parecia estar debaixo de um mar de chamas: a claridade era tanta, que se podia até ler uma carta. As chamas subiam aos céus em pelo menos 100 pontos da cidade e queimaram sem cessar durante seis dias, devorando tudo aquilo que o terremoto havia deixado intacto. Petrificados pela dor, milhares olhavam fixamente para elas, enquanto mulheres e crianças imploravam pela ajuda dos anjos e de todos os santos. Enquanto isso, a terra continuou a tremer, com maior ou menor intensidade, às vezes até por 15 minutos sem parar.

Eis então o que temos sobre o dia desta fatalidade, o 1º de novembro de 1755. O desastre é uma das raras tragédias diante das quais a humanidade se mostra tão desamparada quanto o era há 170 anos. Mas a técnica irá encontrar aqui também suas formas de remediar as coisas, ainda que percorrendo os desvios das previsões. Por enquanto, ao que parece, os órgãos dos sentidos de alguns animais ainda são com certeza mais eficazes que os nossos instrumentos de alta precisão. Os cães, por exemplo, demonstram uma agitação tão evidente dias antes de um terremoto que são utilizados nos observatórios de sismologia em regiões onde há incidência de tremores. E assim meu tempo de 20 minutos se passou, e eu espero que não tenha sido muito longo para vocês.

WALTER BENJAMIN. A Hora das Crianças: narrativas radiofônicas. 1927 / 1932.

Tradução: Aldo Medeiros. Nau Editora. 2019.

Imagem: Alegoria ao Terremoto de 1755, por João Glama Strobërle. Circa 1755. Museu Nacional de Arte Antiga. Wikipédia.

Sunday, September 22, 2024

22 de Setembro de 2016

BICHOS ESCROTOS

Dia 25 de fevereiro do ano passado, Guido Mantega e sua mulher foram hostilizados no Hospital Albert Einstein. Salvo engano, foi o primeiro de uma série de escrachos em lugares públicos a figuras ligadas ao PT. A mídia, claro, divulgou à farta. O vídeo de celular viralizou. No Facebook circulou este relato, postado por alguém de nome Ana: “Ele estava acompanhado de uma senhora e por isso não quis baixar o nível mas não consegui me segurar. Enquanto descíamos, em que o elevador parou em vários andares, perguntei aos demais passageiros se não estavam sentindo um cheiro muito ruim. Todos se tocaram da indireta e começaram a abanar seus narizes, comentando entre uns com os outros que realmente, o fedor estava insuportável”. O juiz Moro mandou prender Mantega no mesmo hospital, no momento em que a esposa do ex-ministro, que em 2015 fazia exames, entrou para cirurgia. Um círculo se completa, ao conectar o assédio moral do grupo e a ação da autoridade constituída. Moro sabe como ninguém usar a opinião pública a seu favor formalizando aquilo que a horda alimenta como fantasia. Não foi casual a "indireta" do mau cheiro. Moro e o rebanho personificam os personagens brancos descritos na música A Mão da Pureza, do negro Gilberto Gil. "Corrupto" para o bando do alpha male Moro é o contrário de "puro" e não de "honesto". E puro é sempre, e apenas, o igual. Qualquer outra alternativa "corrompe". Tem cheiro de podre. Não houve nada de espontâneo na ação da caterva, tampouco pode ser coincidência mandar prender Guido Mantega no point inaugural dos ataques a petistas. Nos dois casos o que se vê é um sentido atávico, primitivo, de propagação de mensagens entrando em funcionamento. Não precisa combinar. Esses animais se localizam "entre uns com os outros" pelo faro.

Friday, September 20, 2024

Sobre a Escrita

Meu quarto na casa de Durham ficava no segundo andar, e o teto era inclinado. À noite eu ficava deitado na cama — se me levantasse subitamente, podia bater a cabeça de jeito — e lia sob a luz de um abajur que projetava sombras de jiboias no teto. Às vezes, os únicos sons da casa eram o sibilar da calefação e os ratos andando no sótão; às vezes, por volta da meia-noite, minha avó passava uma hora gritando para que alguém fosse dar uma olhada em Dick — ela temia que ele não tivesse sido alimentado. Dick, o cavalo de minha avó na época em que era professora, estava morto havia pelo menos quarenta anos. Havia uma escrivaninha do outro lado do quarto, uma velha máquina de escrever Royal e uns cem livros, a maioria de ficção científica, enfileirados ao longo do rodapé. Na escrivaninha havia uma Bíblia, que ganhei por memorizar versículos na Juventude Metodista, e uma vitrola Webcor com sistema de troca automática de discos e prato coberto de veludo verde. Era nela que eu ouvia meus discos, a maioria em 45 rotações, de Elvis, Chuck Berry, Freddy Cannon e Fats Domino. Eu gostava do Fats, ele sabia como agitar o público e dava pra ver que se divertia tocando.

Quando recebi a carta de recusa da Alfred Hitchcok's Mistery Magazine, bati um prego na parede sobre a Webcor, escrevi Selos Felizes* na carta e espetei lá. Depois me sentei na cama e fiquei ouvindo Fats Domino cantar I'm Ready. Eu me senti muito bem, na verdade. Quando ainda se é jovem demais para fazer a barba, o otimismo é uma reação mais do que legítima ao fracasso.

CURRÍCULO / 16. Sobre a Escrita. © 2000 Stephen King. Tradução de Michel Teixeira. Editora Suma, 2021, 12ª reimpressão.

* O título da história recusada.

📷: Stephen King, o teto inclinado, a máquina de escrever e The Glass Floor, sua primeira história publicada. A foto, que aparece na contracapa das edições norte-americanas de Os Justiceiros, foi tirada e revelada por Dave, irmão mais velho de King.

Friday, September 13, 2024

Bota-fora

Nas ruas de Roma não faltava quem dissesse que bom mesmo era o tempo do Mussolini, quando os trens não atrasavam um só minuto. Meus pais estavam longe de pensar assim, mas a notícia da greve dos ferroviários nos forçou a antecipar os planos de partida: em vez de tomarmos o trem noturno para Gênova, um micro-ônibus nos levaria numa viagem bem mais demorada. Minha mãe no fim das contas até gostou, pois durante o dia teríamos belas paisagens da Úmbria e da Toscana para admirar. E às vésperas do nosso bota-fora começou o entra e sai de carregadores lá em casa para encaixotar e embarcar num caminhão de mudança a livralhada do meu pai, os vidros de Murano, os objetos mais volumosos ou pesados. Fiz questão de acompanhar a embalagem da minha bicicleta, e nos caixotes com a vitrola e os álbuns de discos minha irmã mais velha mandou colar a etiqueta FRAGILE. O violão ela não despachou, iria para cima e para baixo com ele a tiracolo.
💧
Bambino a Roma. © 2024, Chico Buarque. Companhia das Letras.

13 de setembro de 2022

Poemixo RÁ RÉ RI RÓ RUA

Jantamos o Waack
Fomos a 51% no Ipec
O Ciro deu chilique 
E o Bozo chamou o reboque
Bóra engrossar o batuque

Subir no palanque
Tomar um pileque
Chover no piquenique,
Nossa tropa é de choque,
Desses mother fuckers

Essa maldita claque
Essa Seita Cheque
Reis do trambique
Bando de escroques
Profissionais do truque

Ressoou o atabaque 
Nosso time é de craques 
Vam' pro ataque
Tic tac tic tac tic tac

Aaaaaah, moleque!
Aperta o rec
Solta o calhambeque
Na ladeira, sem breque

Bate o repinique
Maltrata a psique
Dos brega-chiques
Nóis é bolchevique

O comitê ad hoc
Criado pra dar uns croques,
Do Chuí ao Oiapoque,
No quengo desses lóki

Poços de recalque
Não há quem eduque
O carnívoro buquê
Esses vermes de Facebook



Sunday, September 08, 2024

Maninha

Minha irmã mais velha morreu sem saber que eu enfiava a cara entre suas saias e vestidos, assim que ela saía para as aulas de arte. Ela escondia o violão atrás dos cabides no fundo do guarda-roupa, e só bem mais tarde eu compreenderia que todo músico tem ciúme do seu instrumento. Ciúme ainda mais justificado quando se trata de um violão, instrumento que você põe no colo, apoia na coxa, abraça contra o peito e tange com a ponta dos dedos. Eu observava minuciosamente o movimento dos dedos da minha irmã enquanto ela tocava, mas uma vez sozinho não conseguia tirar um som decente. Passava horas diante do espelho tentando reproduzir os acordes dela, e me dava raiva de não ter a habilidade dos seus dedos finos com unhas de esmalte vermelho. Sei que minha irmã não me negaria umas aulas, desde que eu comprasse um violão de principiante só para mim, mas para tanto teria de vender minha bicicleta. Foi assim que desisti da música e nunca mais vasculhei o guarda-roupa da minha irmã. Minto, às vezes buscava ali dentro um maço de Chesterfield, e diante do espelho imitava sua boca soltando rodelas de fumaça.

Bambino a Roma. © 2024, Chico Buarque. Companhia das Letras.

Tuesday, August 27, 2024

27 de agosto de 2020

O Palmério Dória tuitou, lá em 2016: "Lula dá o caminho das pedras: contra o estado permanente de golpe, só o estado permanente de campanha".

Por caminhos obscuros, Bolsonaro demonstra que conhece a estratégia. Tem levado claques, dessas que só existem em comícios, para as medíocres chegadas em campos de pouso do interiorzão do Brasil. Gritaria igual assim não se via desde os Beatles! E, quando parte, leva consigo a bomba do poço inaugurado, deixa barragem rompida... um Odorico Paraguaçu... piorado e sem graça.

Mas, o que estaria obrigando Bolsonaro ao 'estado permanente de campanha'?

Ora, o estado de golpe a que está submetido!

Bolsonaro é um acidente de percurso na construção da trama que se inicia com Roberto Jefferson em 2005 e chega ao seu desfecho com a deposição de Dilma Rousseff. O maior consórcio de forças da reação já visto nesse país foi quem elaborou, assinou e custeou o 'processo'. Se tivessem alternativa, jamais teriam colocado um pancrácio vocacional na cadeira. O enigma é: quanto de destruição essa elite do atraso pensa que o Brasil suporta? Darcy Ribeiro deve estar de queixo caído lá no Céu, diante do que a gente vê sendo perpetrado cá na terra.

De todo modo, parece claro que Bolsonaro é o sapo em fogo brando. Moro caiu fora. O gabinete do ódio foi desmantelado. Guedes cria a cada dia uma nova situação para ser demitido. Maia e Alcolumbre mordem e assopram na medida exata de comunicar 'quem é que manda'. Como bem notou uma face-amiga, o escândalo da deputada Flordelis é um prego e tanto no caixão do bolsonarismo. Arrasta a Primeira-Dama, Silas Malafaia, o ministro 'terrivelmente evangélico' a ser nomeado pro STF... Tem ainda Rio das Pedras, o filho Flávio... E a eterna sombra de Fabrício Queiroz.

O presidente acidental só tem viabilidade se se mantiver obediente aos patrocinadores. O Mito é o que o nome sempre quis dizer: fantasia. Em seu núcleo duro fica reduzido a um gueto.

Golpes no Brasil são urdidos com calma e perseverança. Não os assusta, aos golpistas, intercorrências durante o percurso. 1964 foi o adiamento produzido pelo suicídio de Getúlio, 10 anos antes. Ficaram no poder por duas décadas, em compensação. Recolheram-se apenas até 2005. E começou tudo de novo.

É o preço a se pagar pela conquista de corações e mentes.

A Direita também lê o Gramsci.

Durma com um barulho desses.

Thursday, August 22, 2024

22 de agosto de 2019

Ao contrário do que pode imaginar nossa vã filosofia de botequim, o país inteiro está gritando. Gritam nas favelas por socorro quando os helicópteros atiram bombas, como numa guerra. Grita a classe média progressista, escandalizada com a desfaçatez do grupo que ocupa a presidência. Gritam os estudantes. Os movimentos sociais. Os jornalistas que não se venderam às grandes corporações. Artistas gritam. Parlamentares do campo popular gritam. Gente de todos os matizes grita. E há ainda os gritos a favor da barbárie. Gritos como uivos, saindo principalmente das caixas de comentários nos veículos que a internet propicia (as panelas estão recolhidas). Há o grito amplificado das autoridades constituídas, esse pode ser um grunhido inarticulado, como os de Bolsonaro e seus ministros, transmitido pela TV. Um silêncio, porém, como se diz num dos clichês mais usados nas redes sociais, ensurdecedor, vem do alto da pirâmide, lá onde habita menos de 1% da população do país, lá dos píncaros da desigualdade brasileira, no Himalaia onde a empatia é um cadáver congelado há séculos, o lócus etéreo e quase abstrato dos super ricos. Dali não se escuta um pio. Candidamente, dia desses, um deles, banqueiro, deixou escapar que nunca se sentiu tão bem. E isso foi tudo. Por trás do caos propagado pelo desgoverno da República estão os super ricos. Eleições não são vencidas com votos. Ganha quem tiver mais dinheiro para gastar na campanha. Propaganda custa muito dinheiro. Alianças muito mais e nós, petistas, aprendemos pela dor essa realidade. Eleições tampouco se resumem à escolha do presidente. Uma trama enorme de gente dos legislativos em níveis federal, estadual e municipal, somados aos prefeitos, governadores e seus vices sem falar em todas as burocracias reproduzem holograficamente o macro no micro e vice-versa. Tudo determinado pelo mesmo princípio: ganha e permanece quem tem mais dinheiro e as exceções confirmam a regra. A isso se dá o nome de Democracia Burguesa. Enquanto o presente caos perdurar será porque os super ricos se mantiveram em silêncio. Eles permitiram a ascensão do golpismo. Do lavajatismo. Do bolsonarismo. Eles financiaram, na verdade, todo o processo. Sabem o que querem. E só eles detêm os meios para a pacificação. Lembre-se: no Brasil os atiradores são 'de elite'. Os alvos são 'da Silva'. Williams, Marielles, Lulas. As configurações de 'monopólio da força' foram atualizadas com sucesso. Da selva ouvem-se agora outros gritos, guinchos, gemidos. De mais indefesos alvos. Juntar-se-ão aos nossos. São quase nada. Os alvos e os gritos. Não podem querer ser nada. À parte isso, e sob a mira dos fuzis, temos todos os sonhos do mundo.

Sunday, August 18, 2024

18 de agosto de 2016

Na psicanálise há um termo, 'energia desligada', pra ser sincero, eu não sei do que se trata, mas atiça minha imaginação. Chuto que é algo do funcionamento do inconsciente, certa potencialidade que não encontra destino. Tipo uma eletricidade (no sentido figurado) psíquica formando uma corrente que não conecta com a tomada (no sentido figurado) correspondente para lhe dar finalidade. De toda maneira, por certo, trata-se de qualquer coisa que, mesmo 'desligada', ainda é energia, força, potência.

A rede, neste momento, está desligada.

Tudo por aqui parece muito com os mapas do funcionamento do cérebro que a gente vê em programa de televisão, aquelas luzinhas acendendo em resposta a algum estímulo. As áreas são diversas, mas todas intercomunicantes. A web e, principalmente, as redes sociais funcionam sempre por convergência. Em sentido figurado poderíamos falar em 'eco'. Alguém fala e a repetição do que se disse, em forma de compartilhamento, faz o dito se disseminar.

Mas a rede há dias não encontra seus ecos. A energia continua correndo permanentemente, mas está 'desligada'. Engano pensar que os memes da Olimpíada estão cumprindo a função de conectar os pontos no mapa. Tempos áridos esses que estamos vivendo.

Dispendo, há exatos três anos, mais tempo diário do que qualquer bom senso recomendaria observando a rede. É a primeira vez que vejo semelhante 'silêncio', tamanho alheamento.

Minha experiência acumulada não permite dizer se isso tem volta.

Pensando bem, é evidente que sim.

Mas que dá uma aflição, isso dá.

Sunday, August 04, 2024

CENTRO DE CONTROLE DE ZOONOSES INFORMA


O Darwin deu o toque, lembra? O ser humano é, entre outras coisas, bicho. E - isto é sabido desde a Antiguidade - é bicho de rebanho. O Nietzsche tratou do tema, também, né? Por exemplo: o eremita não vive só, vive apartado. A condição do eremita é definida pela distância em relação a um grupo. "No man is an island", essa quem falou foi o John Donne.

Fora do bando, assim como as abelhas, os gnus, ou os chimpanzés, o bicho homem apenas perece.

Sendo animal de rebanho, os seres humanos estamos familiarizados, entre outras coisas, aos modos do rebanho. Líder alfa, lei do mais forte, sobrevivência, seleção natural, agrupamento para ataque e fuga, infanticídio seletivo, demarcação de território, etc.

O nome do nosso rebanho é Sociedade. Aquele estado de vida em comum determinado pela mais pura necessidade de sobreviver enquanto espécie. Um estado pré-político.

Por isso, sempre que vejo alguém se arvorando em sabedor daquilo que "interessa verdadeiramente à sociedade brasileira", imagino logo um gorilão, uma zebra ou um suricato em seus rituais confirmatórios, do tipo "quem manda aqui sou eu". É muito claro que esse cara está apelando ao nosso mais primitivo, animalesco, instinto de horda. Ainda que faça uso sistemático de pesquisas que indicam 93% de preferência nisso, 82% contra aquilo. E fale em "maioria", ao invés de falar "rebanho". 

Essa entrega efusiva a um grupo já consolidado, a uma tradição social, à identificação com um líder ou um povo, a fé num Deus ou agremiação salvadora é a forma mais imediatamente acessível de suprimir a fragilíssima particularidade do sujeito individual. Em última instância, são fórmulas mais ou menos sofisticadas de perduração na espécie, que destrói os particulares, mas conserva e reproduz indefinidamente o genérico.

Há, sem dúvida, os que se afiliam automaticamente a essa via da imortalidade coletiva, mas não são todos. Historicamente, nem chegam a ser muitos. Os demais sujeitos ou não o fazem totalmente, ou não principalmente. Ou seja, colocam-se o problema de imprimir uma marca irrepetível e distinta à fórmula da sobrevivência, requerendo a cumplicidade e o apoio da coletividade, claro, mas negando-se à via despersonalizada dos que "renunciam à sua alma para salvá-la melhor”.

Todo esse último trecho é de autoria do filósofo e professor Fernando Savater. Savater escreve sobre Ética. Os bichos apresentam comportamentos. Nós tomamos atitudes. Os bichos não têm conduta, apenas códigos genéticos.

Só os humanos publicam tratados de Ética. O "animale rationale" é ao mesmo tempo "bios politikos". Só os seres humanos negociam sua vida coletiva. O retrocesso às leis imutáveis da maioria tem nome: barbárie.

Saturday, July 13, 2024

Livro das Horas

MIGUEL TORGA

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.

Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.

O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.

De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.

De ter raízes no chão
Desta minha condição.

Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.

De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;

De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.

Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

Sunday, June 30, 2024

30 de junho de 2022

VELOZES & FURIOSOS

O comentário é a alma do negócio na economia das redes sociais. Cada comentário impulsiona novamente o post publicado para a roleta dos feeds de leituras dos amigos.

Sem comentários, o post flopa.

Longa vida aos comentários! 🙌

Mas é aí que aparecem os comentaristas 'velozes' e os comentaristas 'furiosos'.

Os 'velozes' não chegam nem a ler o texto inteiro, já têm algum reparo a fazer. Sempre reparo. Alguma vírgula que faltou, uma informação que, diz o comentário, está imprecisa, etc.

Os 'furiosos', apesar de também serem velocíssimos, capricham é na força do pé que enfiam na porta. A 'imprecisão', para o furioso, é 'mentira'. A 'vírgula', erro de português. O furioso é o plantonista da indignação. Perde o amigo, jamais o esporro.

Os 'furiosos', assim como os 'velozes', amam a 'treta'. Antigamente a gente dizia 'barraqueiros', mas, evidente que essa é uma expressão racista que só serve para estimular o apetite de velozes e furiosos.

'Velozes & Furiosos' formam uma espécie de Corregedoria de Administração da vida alheia, cuidando para que tudo fique 'nos conformes'. As corregedorias, como se sabe, estão submetidas a um órgão superior, a Controladoria Geral da União.

Ou velozes, ou furiosos. Às vezes, ambos. Como a pressa é inimiga da perfeição e, filha do medo, a raiva é mãe da covardia, comentários velozes e/ou furiosos dão, como nos filmes da famosa franquia, horas de ação e violência desprovidas de conteúdo. É a busca pelo pelo no ovo, ou a porrada pura e simples comendo à toa, gerando aquele frenesi imediato, que, como no uso de drogas lícitas, vai exigir novas doses, frequentes, diárias.

O habitat natural dos 'Velozes & Furiosos' é o Twitter. Os hormônios jovens e a ambição empreendedora transformam a talvez rede do Elon Musk numa nau dos insensatos que sobe aos céus e despenca em menos de 15 minutos.

O Facebook tá mais pra Corrida Maluca. O Tik Tok, aquela série Carros, da Pixar. O Instagram, o Salão do Automóvel no Palácio de Convenções do Anhembi.

O ruim mesmo da presença de 'Velozes & Furiosos' é que eles engarrafam o trânsito dos comentários e empurram para o fim da fila as contribuições bacanas dos amigos.

Os comentaristas 'Velozes & Furiosos' buscam sempre garantir para si os primeiros lugares na fila. É assim que haters, spammers e bolsominions ganham a vida, inclusive. Recebem centenas de réplicas e entram na categoria 'mais relevantes' dos comentários nos posts de perfis com grande audiência. Ghosts in the machine.

Um monte de gente legal optou por passar longe dessas highways cheias de buracos. Elas sentem que as redes sociais não levam a lugar nenhum.

Tuesday, June 25, 2024

25 de junho de 2013

PELA REFUNDAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO

autor: Dennis de Oliveira

O sentimento expresso pela população com o conjunto das manifestações nas últimas semanas é produto do desmonte do aparelho de Estado. Ele não se iniciou agora, mas foi aprofundado principalmente durante a vigência do ideário neoliberal nos anos 1990. Naquele momento, disseminava-se a ideia de que um bom governante é aquele que tinha “responsabilidade fiscal”, isto é. que adequasse os gastos com as receitas obtidas. Por isto, a chamada Lei da Responsabilidade Fiscal ficou conhecida como uma norma que iria moralizar e modernizar a gestão pública. Moralizar porque iria impedir que os governantes usassem mal o dinheiro público, seja pelo superfaturamento ou pela corrupção.

Omite, esta discussão, que o que sangra os cofres públicos não é a corrupção ou o superfaturamento (embora, ressalto, estas práticas imorais devam ser combatidas) mas sim o pagamento de juros e serviços da dívida. Segundo dados oficiais, 42% do Orçamento federal deste ano está comprometido com o pagamento de juros e serviços da dívida pública. Isto significa 900 bilhões de reais, maior que qualquer orçamento em área social, seja para manter as universidades públicas, o Bolsa Família, a saúde, etc. É dinheiro público que engorda os cofres dos rentistas, dos especuladores com títulos públicos. A grande maioria dos economistas que fazem suas “análises” na mídia hegemônica são consultores destas empresas que vivem da especulação, por isto omitem esta informação e focam que o problema do país é a gestão pública.

O governo Dilma iniciou, no ano passado, um movimento de corte de juros da taxa Selic que indexa a dívida pública. A mídia hegemônica e seus “economistas” começaram a gritaria. Intensificaram as críticas. O objetivo do governo Dilma, porém, não era apenas reduzir o impacto da dívida no Orçamento, mas também reduzir a taxa de juros cobradas no mercado para induzir ao desenvolvimento industrial. Apostou em uma contradição interna das classes dominantes entre o capital rentista e o capital industrial e produtivo. Porém, a tentativa de administrar este conflito das classes dominantes esbarrou em alguns pontos:

a-) A estrutura produtiva industrial brasileira está montada em um modelo monopolizado, voltado em boa parte para atender demandas externas e de uma classe privilegiada. Embora há um mercado em expansão, não está montada para atender um mercado consumidor de massas. Por isto, prefere maximizar os lucros pelo aumento dos preços (o que gera inflação) e atender apenas parte deste mercado em crescimento. O monopólio existente em vários setores impede que as regras da concorrência controlem os preços.

b-) A disseminação forte de uma ideologia do consumismo por parte deste modelo transforma a luta social de “luta de classes” em uma “aspiração global para ser classe média” como afirma o pensador Goran Therborn (no texto Classes sociais no século XXI publicado na revista New Left Review). A disseminação do consumismo e a impossibilidade de realizá-lo plenamente leva a estas explosões de revolta aparentemente sem foco, mas direcionadas a tudo o que é vinculado às instituições que tradicionalmente representam o espaço político, como partidos, organizações sociais e mesmo a mídia.

Este desenvolvimento buscado ocorre sem uma profunda reformulação no aparelho institucional de Estado. Ele foi praticamente dizimado com o ideário neoliberal nos anos 1990, houve uma tentativa de recuperação do mesmo a partir do governo Lula – como exemplo, cito a expansão do ensino superior público em tendência inversa à forte privatização ocorrida nos anos 1990. Porém, parte da demanda por ensino superior foi atendida pelo atual governo por meio do ProUni, programa de bolsas que acabou por fortalecer o ensino superior privado. O aumento da inserção de afrodescendentes no ensino superior ocorreu por meio do ensino superior privado, conforme demonstrei em coluna publicada na edição impressa da revista Fórum em abril deste ano. Houve, assim, um deslocamento da ideia de cidadania garantida por meio de direitos públicos para a construção de condições de todos serem consumidores. Não é a toa que os governistas de plantão – e a própria mídia – chamam a expansão da classe trabalhadora de “nova classe média”.

Olhando as pesquisas feitas pelo DataFolha e Ibope se constata que os problemas mais citados são saúde e educação. Além disso, que a esmagadora maioria não se sente representada pelos partidos políticos e pelos poderes constituídos. A mídia hegemônica faz a leitura ideológica de que isto se trata de uma insatisfação “geral” contra o governo, apesar dos índices de popularidade de Haddad e Alckmin terem aumentado após os mesmos anunciarem a redução das tarifas e os de Dilma permanecerem inalterados (segundo dados parciais da própria pesquisa do DataFolha – ainda não entendi porque não foi publicada a íntegra da pesquisa). E a mídia diz que esta insatisfação é por conta da “corrupção” e dos “gastos com a Copa do Mundo”, contrariamente ao que indica os resultados da pesquisa do Ibope que apontam 24% e 5% respectivamente para estes motivos., bem abaixo de saúde, educação e o preço dos transportes públicos. Os dados mostram também que a maioria criticou a ação da Polícia Militar nas manifestações.

Saúde, educação, transporte público, policiamento, crítica ao sistema representativo, manipulação da mídia hegemônica… O que estes itens apontam? Para a necessidade de uma reformulação radical das instituições tanto no seu formato representativo e na definição das suas prioridades e funções. É isto que chamamos de uma ação pela refundação do Estado brasileiro que garanta uma democracia de cidadãos e não de consumidores e que recupere o poder normatizador e regulador público. Democracia não se faz negociando com os que sempre detiveram o poder no país: grande capital industrial e rentista, monopólios da mídia, instituições voltadas para a manutenção de privilégios.

Tuesday, June 11, 2024

11 de junho de 2016


AO MESTRE SEM CARINHO

Alguém já leu algum livro do Renato Janine Ribeiro? Eu não lembro de nenhum. Não tenho notícia: ele escreveu alguma obra das chamadas "de referência"? Não, né? Em princípio, e espero estar enganado, Janine é mais um professor da USP. Eu, que não sou de muitos amigos, conheço pelo menos uns 15 professores da USP. A produção de nenhum deles fica a dever pro ex-ministro. Vários dão de 10. Janine, como intelectual, nunca ultrapassou a média. Mas, de longe, é o professor da USP mais famoso do Facebook.

O Facebook é um grande corredor de vitrines. Olha-se o que está exposto nas diferentes lojas, mas, na maior parte do tempo, o que a gente enxerga é o próprio reflexo.

O segredo do sucesso do professor é o mesmo de todas as celebridades do Livro de Caras: jogar pra torcida.

Janine, quase invariavelmente, deixa pra se manifestar quando o senso comum já cristalizou uma ideia. Some-se ao procedimento a habilidade de permanecer equilibrado no alto do muro e o alcance do discurso se alarga até muito longe. Atua na média da curva. Por isso atinge tanta gente.

O diferencial é que ele empresta voz de autoridade para o senso comum.

O senso comum é coisa muito importante. Hannah Arendt diz que é o sexto sentido humano. O sentido que garante que não estamos "vendo coisas", delirando. Ele traz também consigo, claro, seus perigos. É o senso de manada. O disparador de mecanismos nossos muito primitivos. Pode guiar os linchamentos, por exemplo.

Pior do que um intelectual que encaixa o senso comum em molduras douradas é o intelectual a quem falta o rigor. No post mais recente de Janine, está escrito, logo no início: "Com atraso, a esquerda reage. Os erros foram muitos – a inabilidade política de Dilma, a demora de Lula a aceitar o ministério, a ingratidão dos beneficiados por 12 anos de políticas públicas quando as vacas emagreceram". Começamos mal quando as mães do Bolsa Família, os bolsistas do Prouni, ou o celetista abaixo de 5 salários mínimos são computados no campo "esquerda" da planilha. E piora se "ingratidão" vira categoria política. Difícil seguir em frente a partir daí.

Mas vamos.

"O empresariado apoia, na falta de coisa melhor, o governo que está aí". Ou escreve mal, ou é reaça, ou não leva a sério o Facebook e escreveu nas coxas. O que quer dizer essa frase? Que a gestão Dilma justifica o empresariado apoiar o Golpe? Isso no mesmo dia em que Rudá Guedes Ricci compartilha artigo sobre o patrimonialismo atávico do setor produtivo privado brasileiro (na foto do artigo: Paulo Skaf)? Difícil, professor!... mas, sigamos.

O uspiano Janine repisa a tese do encantamento perdido do PT e, com isso, despreza duas pesquisas da maior seriedade: a que o professor Marcos Nobre desenvolve sobre o peemedebismo (e suas imposições) e a do professor André Singer sobre o lulismo (e suas limitações). Ao, em seguida, menosprezar a força do ataque da Direita na construção de nossa atual ruína deixa de lado o debate que se iniciou ainda em 2010 sobre o crescimento da onda conservadora liderada pelos setores partidários das igrejas neopentecostais. A perda da hegemonia da esquerda é reflexo de um conjunto de fatores muito mais complexo do que a "gritaria" que elegeu o PT como o "único partido corrupto do país". Reduzir, aliás, a esquerda ao PT é outro cacoete comum ao senso comum do Facebook.

O erro mais crasso do post, no entanto, é aquele que forma o núcleo da argumentação. A saber, a esquerda, com atraso, reage. Ontem, Dia Nacional de Luta contra o Golpe, foi, segundo Janine, o discreto turning point da resistência, o ponto do percurso que indica que "começa a ser possível desfazer o impeachment". Bobagem. A foto que ilustra este meu comentário não deixa dúvida: o ato de ontem na Paulista foi dos mais esvaziados dos últimos tempos. Repare: a multidão se desfaz antes da primeira transversal. O 17 de março, não muito grande também, levou quase o dobro de gente. É com esses relativos êxitos e fracassos que a resistência vem sendo formulada e não de qualquer outra maneira. A temperatura da manifestação ontem na avenida, segundo os relatos, estava inversamente proporcional aos termômetros da capital. Lula botou fogo. Mas na velha militância. Onde isso se diferencia do que vem acontecendo desde o final de 2015, momento das primeiras grandes concentrações vermelhas? Ou dos primeiros escrachos do Levante Popular da Juventude? O crescimento tem sido constante, contínuo. É tática conhecida: pressão ininterrupta. Qualquer manual de guerrilha ensina isso. Tem alguém reagindo com atraso nessa história. É o professor Renato Janine Ribeiro.

"Nos seus olhos também posso ver as vitrines te vendo passar" diz a letra de Chico Buarque. A tradução poética da vaidade, do autocentramento. O jogo de espelhos do Facebook, quando trata de política, sempre tende ao voluntarismo, ao "desejo de potência". Ao pensamento mágico. Autocentramento não dá em potência. Dá em onipotência, que por sua vez, gera sintomas de depressão. Janine tem contribuído para a perenidade do mito da "vontade política". A grande falácia das esquerdas que, 50 anos depois do Golpe de 64, talvez, estejamos vendo ser, finalmente, posta diante da prova de realidade, pelas mãos da mãe-boa-o-suficiente Dilma Rousseff.

Quem "faz" a história, caro professor, são os narradores. Nós, quando muito, padecemos a história. Por isso, narrar é coisa pra ser levada muito a sério. Não pode ser tratado como quem escreve pros amigos do Facebook antes de dormir.

Friday, April 05, 2024

5 de abril de 2015

VÁ AO CINEMA, mas não me chame

Seu Jorge, o ator e cantor que serve a melhor coxinha de ossobuco de São Paulo está de contrato assinado para um novo filme. De faroeste! Em entrevista descreveu como vai ser.

[...] "O Matador" é um western que vai rolar em 1900 e alguma coisinha no interior de Pernambuco. História interessante. Vou contar rapidinho. Você abre a cena e tem um bebê recém-nascido no meio do mato, numa chuva torrencial. Um dilúvio caindo e o bebê ali chorando. Nisso vem se aproximando uma onça. Pô, vai comer aquela criança. No que o bicho vai dar o bote de repente vem um tiro. BAU. E a onça cai. Desce um malandro lá de cima da árvore. Vê o bebê, vê a onça. Pega a onça, abre a onça, tira o coração vivo da onça, come o coração vivo da onça. Leva a onça pra casa e larga o bebê lá. Aí começa a chover pra caralho e ele resolve pegar o bebê. Tira o pelo da onça e empacota o bebê nessa onça e joga o bebê ali no cantinho. Matador. Você vai ver o filme.

Se o "você" no caso sou eu, pode tirar o cavalo, a onça e o bebê da chuva. Nem morto, Matador!

Tuesday, March 05, 2024

5 de março de 2021

O ETERNO RETORNO

Aconteceu no início e voltou a acontecer agora. Pessoas de mais alto poder aquisitivo, moradoras dos bairros centrais, trouxeram o vírus para as grandes cidades na virada de 2019 para 2020. Ocuparam os leitos hospitalares, motivaram a criação de normas de distanciamento social e se fecharam em casa.

Para atendê-las em home office, outras pessoas, de mais baixo poder aquisitivo, moradoras dos bairros periféricos, continuaram em suas rotinas de transporte público lotado e expedientes de oito horas de segunda a sexta.

Em questão de meses a matemática de transmissão da doença devastou as quebradas e seguiu para todos os interiores do país. Enquanto isso, o Centro havia criado condições para uma vida bem próxima do normal.

Estabeleceu-se, assim, um equilíbrio de filme catástrofe. Curva de mortes achatada no alto e queda muito lenta, mas constante. Atmosfera de suspensão. Esse quadro perdurou por meses e permitiu q governadores e prefeitos iniciassem protocolos de retomada da atividade econômica. Ficou muito parecido com o Brasil q a gente sempre conheceu: o perigo é iminente, mas mantido a uma distância segura dos ricos.

Foi aí q aquelas mesmas pessoas de mais alto poder aquisitivo, moradoras dos bairros centrais, decidiram celebrar a vida nas festas de fim de ano. Pouco depois viria o Carnaval. O Carnaval, inclusive, deixou claro a força da autoridade constituída durante a pandemia. Blocos, sambódromos, Circuito da Barra, Galo da Madrugada, simplesmente não existiram. Milhões de foliões foram impedidos de aglomerar. Por determinação do poder público. 'Simples assim'.

As festas, porém, pipocaram por toda parte, de dezembro a fevereiro. Veja a mórbida lógica do apartheid à brasileira: pancadão e botequim nos Grajaús da vida já haviam sido assimilados pela contabilidade do 'novo normal'. Aconteceram ao longo de inúmeros finais de semana para divertir as mesmas pessoas q encaravam o trem lotado durante os dias úteis. A vida social das periferias não interferia na estatística de 1000 mortes diárias do segundo semestre de 2020. A 'média móvel' manteve-se estável, lembrava-nos o famoso Consórcio de veículos de imprensa.

Festas clandestinas custam caro. Acontecem em barcos, sítios, praias e casarões afastados. Programa de condomínio. Não é à toa q os hospitais q estão colapsando primeiro sejam os da rede privada. Os caríssimos, como Einstein e Sírio, e os q atendem planos de Saúde de custo médio.

Não é difícil prever os desdobramentos dessa volta da espiral. A nova alta da curva encontra o país já inteiramente contaminado. O movimento centro-periferia está acontecendo muito mais rápido. A variante de Manaus se espalhou por toda parte, um oferecimento do general Pazuello q, depois de deixar a situação atingir níveis críticos no Amazonas, determinou a transferência de pacientes graves para outros estados sem nenhuma precaução.

Se demorar demais, as vacinas deixam de garantir imunidade coletiva e passam a contribuir para o aparecimento de cepas ainda mais violentas, resultado do convívio entre vacinados e não vacinados.

O país criou um consenso: não é possível fazer lockdown.

Traduzindo: uma parte da população necessariamente vai permanecer nas ruas para q a outra trabalhe remoto.

O Nicolelis prevê q atingiremos a marca de 3000 mortes por dia nas próximas semanas. Esse número vai aparecer nas bordas do mapa das cidades. O movimento se repete. As classes médias e altas vão concentrar seus esforços em adquirir novas e melhores máscaras. Preste atenção no moço da entrega do Magazine Luíza. Pode ser a primeira e última vez q a gente vai vê-lo vivo.

*

Na imagem, o ‘Homem da Meia Noite’, símbolo do carnaval pernambucano, passeia sozinho pelas ladeiras de Olinda, 2021. © Ivanildo Machado. 

Friday, March 01, 2024

Em 'defesa' dos neopentecostais: ou apenas para superar os chavões

Ronilso Pacheco / Colunista do UOL

01/03/2024

Camila Svenson / UOL

Todos nós, brasileiros, desde o último domingo, 25 de fevereiro, fomos alcançados por algo sobre o ato convocado pelo pastor Silas Malafaia e o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O ato tinha a intenção de demonstrar o apoio de bolsonaristas ao ex-presidente, embora fosse convocado como um ato de defesa do Estado Democrático de Direito. Nas redes sociais, assim como nas análises da cobertura jornalística na grande imprensa, a religião parece ter dado o tom definitivo ao ato.

Fomos bombardeados por imagens de evangélicos marchando enquanto cantavam hinos da Harpa Cristã e saudavam a pátria. Pessoas com olhos fechados concentradas em orações pelo país e abençoando Bolsonaro.

Vimos o discurso de Michelle Bolsonaro, com palavras "proféticas". E, claro, vimos as idosas que ostentavam orgulhosamente a bandeira de Israel. Elas foram o símbolo máximo da ostensiva presença dessa bandeira. Isso porque, segundo as idosas, "Israel é uma nação cristã".

O que foi visto em seguida, já no próprio domingo à noite, foi uma enxurrada de análises que, embora diferisse em termos de ênfase, se assemelhava na identificação de um "culpado": as igrejas neopentecostais. Foram delas, diziam as análises, a participação determinante no ato de Bolsonaro. Afinal, diziam, foi Silas Malafaia quem convocou.

O ato bolsonarista do último domingo mostrou que parecemos estar todos, senso comum e "especialistas", capturados pelos nossos vícios elitistas e racistas. Esses vícios significam a interdição da possibilidade de compreendermos a complexidade do buraco para onde realmente estamos indo (ou já estaríamos). E, mais do que isso, os atores reais que estão por detrás de nossa crise.

Neopentecostal tornou-se "a resposta", o coringa para situações como a do último domingo. Grande parte dos jornalistas, analistas e "especialistas" estava convicta de que o ato bolsonarista, com cenas profundamente religiosas, foi assim devido à adesão e ao protagonismo dos "evangélicos neopentecostais".

Era isso, até que a pesquisa do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP, coordenada pelo professor Pablo Ortellado, revelou um desconfortável resultado: a religião de 43% dos manifestantes entrevistados no ato é católica, e 29%, evangélica.

No trio elétrico Demolidor, ao lado de Bolsonaro e Malafaia, estiveram o senador Magno Malta, o deputado Nikolas Ferreira, o deputado Sóstenes Cavalcante, além, claro, da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Estamos falando de três evangélicos batistas, portanto, não (neo)pentecostais, e dois assembleianos, pentecostais. Em outras palavras: não havia liderança "neopentecostal" no trio.

A pesquisa do grupo da USP também trazia um recorte de raça (65% do público se declara branco; 26% pardo; 5% preto) e escolaridade (6% respondeu ter ensino fundamental; 26% ensino médio; 67% ensino superior).

Não são raras, nem inacessíveis, as pesquisas que demonstram como os chamados neopentecostais estão na base da pirâmide social em todos os aspectos. Eles são majoritariamente negros e moram em periferias. Nenhum trecho de vídeo, seja nas redes sociais, seja nas matérias de TV, mostrou público com este perfil majoritariamente. A pesquisa confirmou o que, a olhos nus, já era óbvio.

Os neopentecostais são o grupo cristão com os membros mais pobres. Diferentemente das lideranças das megaigrejas milionárias, muitos pastores e pastoras pentecostais fazem "dupla jornada" com seus trabalhos, que vão desde um funcionário público médio à labuta do pedreiro, do gari e da doméstica. Muitos, portanto, vivem ou de "biscates" ou na dependência da ajuda de sua própria congregação. Estava nítido que esta gente não estava lá. Então, quem estava no ato?

Estava lá uma maioria branca (neopentecostais são majoritariamente pretos e pardos), homens mais velhos/idosos (neopentecostais são majoritariamente mulheres negras de periferia) e com algum nível superior (neopentecostais são majoritariamente pessoas de escolaridade de nível fundamental, médio e técnico).

Este artigo é uma tentativa de explicar que as análises malfeitas, orientadas por um preconceito e um racismo implícito, por parte daqueles que se colocam a pensar a realidade brasileira neste momento, podem nos tornar mais frágeis às estratégias da extrema direita, do fundamentalismo religioso e de espertalhões como Silas Malafaia e Edir Macedo. É hora de "evangélicos neopentecostais" deixar de ser a resposta fácil para descrever a força e a sobrevivência do bolsonarismo.

O governo Bolsonaro, apesar de sua ampla adesão do segmento evangélico, não governou com neopentecostais. Ele governou com evangélicos ditos "tradicionais" e um contingente do grupo chamado no meio evangélico de "reformados", ou calvinistas, por serem adeptos da teologia de João Calvino, inspirador do presbiterianismo.

O Ministério da Educação não foi ocupado por um neopentecostal, mas por um presbiteriano. O Ministério da Justiça foi ocupado por um presbiteriano, não um neopentecostal. O ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro foi um luterano, não um neopentecostal. Damares Alves, uma batista pentecostal, recheou o seu Ministério dos Direitos Humanos com batistas calvinistas, e não neopentecostais. Ernesto Araújo foi um ministro de Relações Exteriores profundamente católico fundamentalista, e não um neopentecostal.

Por outro lado, vale dizer que, se Lula teve grande parte dos seus votos oriundos da classe mais pobre da população, ele teve necessariamente os votos dos evangélicos pentecostais que estão na base da sociedade, nas periferias, e associam Lula com os benefícios sociais que os contemplaram. Vale dizer que movimentos sociais como o MST e o MTST possuem hoje, nos seus assentamentos, um núcleo evangélico pentecostal que se torna cada vez mais influente na luta.

Usar "neopentecostais" como coringa para responder a tudo o que não é explicável sobre a força do bolsonarismo é uma postura medíocre e preconceituosa. Principalmente porque "neopentecostal" não é identidade religiosa. É uma categoria de análise que nasce nas ciências sociais.

Se você perguntar a qualquer evangélico qual a sua denominação, ele te dirá, orgulhoso, que ele é batista, presbiteriano, calvinista, luterano, metodista ou pentecostal. Nenhum, absolutamente nenhum, te dirá "neopentecostal".

No 25 de fevereiro, num ato de afronta explícita à democracia e à laicidade do Estado, nós testemunhamos o que há de mais atual no mundo quanto à ameaça à democracia: o nacionalismo cristão (assustador), a ideia do Israel imaginário (poderosíssimo e não restrito aos religiosos) e o fundamentalismo religioso (vivo, e não restrito aos evangélicos) e uma classe média conservadora ressentida, junto a uma classe trabalhadora desesperançada.

No caso do Brasil, acrescente a insistência do antipetismo, que continua forte e com muitas faces na mídia e na elite econômica do país.

O fato é que o bolsonarismo está vivo, ele tem seus adeptos e ignorar isso apenas prejudica uma leitura coerente e assertiva. Honestamente, os chamados neopentecostais são uma parte ínfima disso.

Se você se horrorizou com as "tias" evangélicas com a bandeira de Israel, eu te diria que elas são inofensivas diante do projeto de poder político e cultural inspirado no "Israel imaginário" que vem de igrejas tradicionais que nem sequer expõem uma bandeira israelense em seus templos.

O apoio evangélico a Bolsonaro continua grande. É verdade. E é por isso que devemos olhar para isso com o enquadramento correto. Isso inclui olhar para o fato de que (se assumindo ou não como tal) muitas igrejas e lideranças com o perfil chamado neopentecostal estão nos territórios periféricos destilando intolerância e violências contra terreiros e fiéis de matriz africana.

Muitas destas igrejas estão nos presídios, dominando a assistência no sistema prisional e impedindo a ação de outras religiões ou mesmo outras igrejas. Este é um problema real, assim como a Igreja Universal vem aparelhando policiais militares nos seus cultos. É para isso que devemos olhar. E não para um espantalho que explica, sozinho, a força do bolsonarismo.

É fazer isso certo ou continuar cultivando likes do senso comum, mantendo ideais de preconceitos, enquanto a extrema direita vai ganhando terreno ao "acolhê-los" como vítimas de uma hostilidade por parte dos "sabichões" e "iluminados" que não respeitam sua fé.

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