Thursday, January 09, 2025

9 de janeiro de 2018

O 'an-alfabeto' simplesmente não existe. Não há alguém que não acesse a língua escrita em alguma medida. Os especialistas preferem falar em 'níveis de alfabetismo', que podem ser, isto sim, muito baixos em relação às necessidades médias do cidadão moderno e urbano. Mas zero, nunca.

O que está por trás da pseudo-polêmica do pseudo-escritor Agonialdo Silver é aquilo que a legislação brasileira denomina 'letramento'. O conjunto de saberes que permite o uso eficaz da leitura e da escrita. Que, não esquecem os especialistas, é uso cujo valor se determina socialmente. No Google um link leva à seguinte definição: 'Letramento é o estado ou condição que adquire um grupo social ou indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita'.

Por princípio, o lugar onde se mensura o conhecimento é a escola. Que no Brasil não é universalizada e, portanto, serve como o mais clássico filtro para determinar, na entrada, o 'estado' ou 'condição' dos grupos sociais, assim como serve para 'certificar' o cidadão ao final do processo.

O grande recorte, portanto, aquele que predispõe no início e atesta no final o 'estado' ou 'condição' do brasileiro, é a escolarização. O traço comum entre as classes médias e a elite é ter ido à escola. E, por óbvio, também o que as distingue dos grupos ditos subalternos. Esses vão à escola, mas... só um pouquinho. Não o 'suficiente'. E assim cumprem o destino pré-traçado de não alcançar a 'certificação'. De permanecer 'não-certos' aos olhos da norma social.

Agonialdo Silver, que escreve folhetins de quinta categoria, ironicamente destinados à fruição ágrafa, associa à figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva atributos como grosseria, ignorância, desleixo, preguiça. 'Defeitos' de pobre. Ou, mais ainda, 'vícios' de pobre. Que, segundo a lógica social brasileira, seriam corrigidos através da educação.

Sarney é da Academia Brasileira de Letras. Michel Temer professor da pós-graduação do Direito na USP. Paulo Maluf engenheiro. Fernando Henrique Cardoso uma espécie de 'príncipe filósofo'. Não basta para esclarecer que a escola não 'corrige'? Precisa lembrar que o Abdelmassih é médico? Que a Adriana Ancelmo é advogada? Ou tem que ir mais longe, até os oficiais nazistas amantes da pintura, da arquitetura e da música de concerto?

'Analfabeto' é uma palavra próxima de não ter sentido algum. O uso que se faz dela desde sempre no Brasil é que é carregado de significados. Parece apenas tolo insistir no desapreço de Lula pelos livros. Sobram testemunhos de gente próxima a ele dando conta de que não apenas lê, como lê à beça e há décadas. Muito do que Lula demonstra saber passa inevitavelmente pelos livros. Negar isso não é burrice, ou mesmo incapacidade de reconhecer os saberes letrados quando estes se presentificam. É atestado de preconceito de classe.

Lula permanece, principalmente no jeito de falar, parecido com a gente pobre de sua origem. E com isso se contrapõe ao senso comum tão brasileiro do cidadão 'incompleto', do cidadão despreparado para a vida democrática, porque não foi à escola.

Parece provável que o ódio que atinge Lula é o ódio destinado ao que ele representa.

O Brasil ainda não está convencido da ideia que define a democracia não como o governo 'de todos' e sim como o governo de 'qualquer um'.

Para manter em funcionamento essa nossa perversa 'teoria das elites' o modelo de escola excludente que caracteriza a Educação brasileira é fundamental.

Claro que na sociedade da informação o custo da baixa escolaridade é cada vez mais alto, mais determinante. E que o acesso a inumeráveis bens culturais pressupõe as habilidades do letramento.

Há, porém, também uma vasta gama de conhecimentos que independem da língua escrita. Ler e escrever só recentemente foram reconhecidos como direito universal. Mas a sabedoria não. Esta, apesar de quase impossível de alcançar, permanece, desde tempos imemoriais, à disposição de qualquer um.

Wednesday, January 08, 2025

O Avesso da Pele

Conforme fui crescendo, suas perguntas foram ficando mais complexas. E confesso que às vezes eu não queria ser profundo. Eu queria apenas brincar e ser como os outros filhos eram com seus pais. No entanto, agora eu sei que você estava me preparando. Você sempre dizia que os negros têm que lutar, pois o mundo branco havia nos tirado quase tudo e que pensar era o que nos restava.

"É necessário preservar o avesso", você me disse.

"Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos".

Lembro que você fazia um grande esforço para ser entendido por mim. Eu estava com nove anos e talvez não tenha compreendido bem o que você queria dizer, mas, a julgar pela água nos seus olhos, me pareceu importante.

O Avesso da Pele. © 2020 Jeferson Tenório. Companhia das Letras, 2020.

📷: trampolim - banhista. © 2019 Antônio Obá. Óleo sobre tela. Galeria Mendes Wood. 

Thursday, December 19, 2024

19 de dezembro de 2018

Por que falar em 'estado de exceção', se esses são os mesmos juízes que entregaram Olga Benário aos nazistas em 1936? O que justifica dizer 'exceção' se esses são os mais de 150 mil presos que deixaram de ser beneficiados pela liminar de Marco Aurélio Mello (Lula, só mais um deles)? Nem mesmo a perseguição ao nosso querido presidente metalúrgico pode ser caracterizada como 'fora da curva'. Getúlio, Jango, Juscelino, Dilma... todos foram punidos antes por ferirem o arranjo sistêmico. É inacreditável, depois de ver a reação tão pronta e imediata das forças do Golpe ao longo da tarde desta quarta-feira, que ainda possa haver quem acredite que chegamos a esta situação pelos erros do campo democrático. Em poucas horas, as páginas de Direita estavam em pé de guerra, o MP se manifestou, a juíza de piso que cuida do processo de Lula desconsiderou o Ministro do Supremo, Deltan Dallangnol abandonou seu silêncio monástico, a grande mídia acionou todos os seus canais e até um Alto Comando do Exército se reuniu, formando, todos esses, em conjunto, uma espécie de domo que cercou o país. Dentro do vasto histórico de obediência cega, Getúlio, Jango, Juscelino, Dilma, formam a verdadeira exceção à regra. Exceção no seu sentido mais comezinho: aquilo que não está incluído. O exército, a mídia, o Judiciário, o Legislativo, as polícias, o grande capital, parte significativa da classe média, parte significativa das Igrejas, e outros, formam o conjunto que, coeso, proíbe as excepcionalidades. Lula é uma das maiores excepcionalidades da história do Brasil. Está (e permanecerá preso) para que a regra não seja rompida. Não estamos vivendo estado de exceção nenhum. Tudo continua dentro da mais perfeita ordem. Como sempre.

Sunday, November 24, 2024

Poema da Gare de Astapovo

Mário Quintana

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se… e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

Gare de Astapovo, atual estação Leon Tolstoi, em 2010


Sunday, November 17, 2024

Síndrome de Coringa

Síndrome de Coringa leva homens de vida pacata ao terrorismo de direita

Jessé Souza*

Colaboração para o UOL 16/11/2024

No meu livro, recém-lançado, sobre 'o pobre de direita', fiz uma introdução usando a mesma expressão que está no título deste artigo. A arte muitas vezes ajuda a ciência e prefigura as características essenciais de uma época histórica. Para mim, o Coringa representado pelo grande Joaquin Phoenix, no filme de 2019, não seria, portanto, um ponto fora da curva. Ao contrário, seria a representação perfeita do trabalhador precarizado, empobrecido e humilhado de nossos tempos.

Quando o terrorista bolsonarista em Brasília explodiu uma bomba em si mesmo, embora o alvo fosse o Supremo e Alexandre de Moraes, vestido de coringa, muitos mencionaram uma capacidade mágica e preditiva do texto do livro. Infelizmente não tenho bola de cristal, mas o estudo cuidadoso e o trabalho empírico de adentrar ao mundo do trabalhador humilhado de nossos tempos me fez, quero crer, compreender as estruturas profundas do que está em jogo aqui.

A característica mais essencial para a existência dos coringas contemporâneos é a sua desorientação. No caso brasileiro, é um trabalhador que a partir do golpe de 2016 empobrece visivelmente. O aumento real dos salários em até 70% na era Lula, que garantia uma dieta mais saudável, a possibilidade de mandar o filho a uma escola particular e a construção racional de um futuro possível, voltou a ser apropriado pelo rentismo improdutivo da Faria Lima — aliás, este foi um dos motivos principais do golpe —, empobrecendo a massa de trabalhadores que se torna cada mais precária e explorada. No entanto, ninguém jamais explicou para ele que seu maior inimigo é a sanha do saque financeiro de toda a população por uma meia dúzia de especuladores.

Como essa raiva não pode ser canalizada contra a elite que o saqueia, ele tem então duas alternativas. A primeira é canalizar a raiva contra si mesmo, afinal ele, como todo pobre, acredita na meritocracia, e passa a se ver como fracassado — o que o levará a depressão ou ao alcoolismo, as duas doenças endêmicas do trabalhador de hoje. A segunda, que é para onde tanto a extrema direita quanto a pregação evangélica convergem, é canalizar a raiva contra grupos já previamente estigmatizados e ainda mais frágeis do que ele.

Muitos passam a achar que é o nordestino preguiçoso do Bolsa Família quem roubou seus parcos recursos. Ou ainda o negro construído como bandido. Ou ainda o falso moralismo da corrupção seletiva propagado por todas as mídias que identifica a 'roubalheira do PT' como a causa. Não por acaso, o racismo esta por trás de todas essas opções por meio de máscaras convenientes: o nordestino, cujo povo é 80% mestiço ou preto, o bandido construído como o negro e o suposto povo corrupto eleitor de corruptos, de modo a desmoralizar o voto e a participação popular da maioria mestiça, negra e pobre.

A pregação evangélica e a extrema direita se tornam a boia de salvação moral do 'pobre remediado', àquele que ganha entre dois e cinco salários mínimos e que foi o segmento social suporte do bolsonarismo em todas as eleições. É o terreno social do branco pobre do Sul e de São Paulo e do negro evangélico do resto do país. A pregação evangélica serve para defini-lo como o 'homem de bem' contra o pobre transformado em delinquente. Daí apoio à violência policial contra pretos e pobres. Ao criar a distinção entre o pobre honesto e pobre delinquente — que pode ser o bandido, o gay, e até a mulher —, a pregação evangélica possibilita que ele canalize seu ódio não mais contra si mesmo, mas, agora, contra o segmento mais pobre dos que ganham até dois salários mínimos, além das vítimas do machismo e da homofobia.

Ao garantir autoestima para o trabalhador humilhado, ainda que às custas do maior sofrimento dos grupos estigmatizados, tanto a pregação evangélica quanto a extrema direita passam a controlar a alma desse público. Autoestima e algum respeito e reconhecimento social são, afinal, as necessidades mais prementes de todos os seres humanos.

A extrema direita, no entanto, vai ainda mais além e cria toda a espécie de espantalho para representar o 'sistema', desde que nunca se nomeiem os reais algozes. Esses espantalhos são intercambiáveis. Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal Federal são, no entanto, percebidos como os símbolos da elite de poder que causa a opressão. Do mesmo modo que a pregação evangélica, a extrema direita fornece, desse modo, um propósito na vida e a ilusão de se estar participando da vida política para alguém que sempre se sentiu alijado e sem importância. E isso não é pouco para quem é humilhado.

O nosso Coringa de vida medíocre acreditava ser a vanguarda da luta política. Para quem sempre teve uma vida obscura, transformar a morte em um ato heroico é de uma sedução irresistível. Redime uma vida toda passada nas sombras e na desimportância.

* Jessé Souza é sociólogo, professor da Universidade Federal do ABC e autor dos livros A Elite do Atraso: da Escravidão a Bolsonaro (2019) e O Pobre de Direita: a Vingança dos Bastardos (2024), entre outros.

Friday, November 08, 2024

Quem são os evangélicos brancos, os 'lindos cristãos' que impulsionaram vitória de Donald Trump?

por: Anna Virginia Balloussier

"Como Jesus votaria?" A duas semanas da eleição que decidiria o 47º presidente dos Estados Unidos, o pastor Charles Stock levantou essa questão na Life Center, igreja que fundou na Pensilvânia. Melhor seria, segundo ele, optar por "um líder imperfeito que faz coisas boas" do que "sofrer sob o comando dos perversos Acabe e Jezabel".

O casal aparece na Bíblia como modelo anticristão, farto em idolatria, fraqueza e crueldade. Jezabel, a pior dos dois, morreria tal qual preconizado pelo profeta Elias, com seu cadáver devorado por cachorros.

Não é difícil inferir de quem Stock estava falando. O líder com defeitos seria o republicano Donald Trump, com acusações judiciais que incluem pagar para silenciar uma estrela pornô com quem teve um caso extraconjugal. Já a democrata Kamala Harris encarnaria a Jezabel do século 21, alguém que poria em risco valores caros ao conservador americano, como aborto e casamento homoafetivo.

Kamala perdeu, Trump ganhou, e o resto é história para um bloco eleitoral que se alinha ao empresário por três pleitos consecutivos. São os chamados evangélicos brancos. Stock e sua Life Center fazem parte desse grupo, que mostra um engajamento eleitoral maior do que a média. Isso é ouro num país onde o voto não é obrigatório, e vencer uma eleição passa também por convencer alguém a sair de casa para votar.

Segundo o Public Religion Research Institute, esse quinhão evangélico não chega a 15% da população, mas pode representar um em cada quatro eleitores. Cerca de 80% dessa turma votam em Trump.

Raimundo César Barreto Jr., professor de cristianismo global no Seminário Teológico de Princeton, lembra que a divisão evangélica nos EUA não espelha a brasileira. Na América Latina, o termo evangélico é tomado como sinônimo de protestante. Na terra de Trump, o evangelicalismo é entendido como um ramo do movimento religioso iniciado em 1517 com a Reforma Protestante.

As igrejas brancas operam numa frequência própria dentro do grupo, predispostas "às questões raciais [pró-branco] e patriarcais, a ideia de uma família tradicional com o homem sendo chefe da família, com uma posição subalterna da mulher", afirma Barreto Júnior.

O apoio a Trump em outros galhos protestantes, como denominações de maioria negra ou latina, é bem mais bambo, embora haja terreno para ser conquistado ali. "Entram questões que ultrapassam o debate racial. Ele é o strongman, o líder forte, macho, que tenta projetar o domínio dessa masculinidade que tem apelo para homens negros, hispânicos e brancos nos EUA."

O republicano não desperdiçou oportunidades para tonificar laços afetivos com a direita cristã. Em julho, convocou seus "lindos cristãos" a saírem para votar "só desta vez".

"Quer saber? Mais quatro anos e tudo será resolvido, tudo ficará bem. Vocês não terão mais que votar, meus lindos cristãos", disse, sem explicar o que quis dizer com não haver mais necessidade de ir às urnas no futuro. A fala foi mal digerida por quem o vê como uma ameaça à democracia, sobretudo após seus entusiastas liderarem o atentado golpista do 6 de janeiro de 2021.

Em The Kingdom, the Power and the Glory (o reino, o poder e a glória), Tim Alberta, um jornalista que cresceu em lar evangélico, analisa a aliança entre esses religiosos e o trumpismo. Cita o incômodo de pastores com o "conservadorismo sem dentes", sem coragem de partir para cima, e o pendor para abraçar fake news como um culto satânico democrata que canibaliza crianças.

Alberta também fala num medo difuso que contamina muitos desses evangélicos, como se sua identidade religiosa estivesse a perigo num país cada vez mais plural e secularizado.

Em 2017, primeiro ano de Trump na Presidência, americanos responderam ao Public Religion Research Institute sobre qual religião enfrentava mais discriminação. "O público em geral era duas vezes mais propenso a mencionar muçulmanos", diz o autor. "Apenas um grupo discordou dessa visão: os evangélicos brancos." Cristãos, para esses dissidentes, eram o alvo mais visado.

Um pastor ex-trumpista lhe soprou então a reflexão: "Quando uma pessoa se convence de que está sitiada, que os inimigos estão vindo atrás dela e querem destruir seu modo de vida, o que a impedirá de se radicalizar?".

O presidente eleito alimenta essa atmosfera de pânico. Em 2023, chegou a propor uma força-tarefa para combater a "perseguição contra cristãos na América".

Trump, um presbiteriano que nunca deu sinais de praticar intensamente sua fé, ganhou pontos ao indicar juízes benquistos pela direita religiosa na Suprema Corte americana. Só assim para Roevs. Wade, decisão de 1973 que garantia o direito constitucional ao aborto, cair dois anos atrás. Espera-se que mais coelhos saiam dessa cartola conservadora.

Também soube explorar o atentado que por pouco não lhe custou a vida, em julho. Passou a dizer que Deus o poupou por um motivo. A narrativa do escolhido deu certo.

Democratas saem em desvantagem nesse eleitorado porque, em geral, "sentem-se desconfortáveis ao falar sobre questões de fé", afirma o historiador da religião Randall Balmer, da Dartmouth College. "Kamala discorreu sobre sua educação multirreligiosa, e Tim Walz [seu vice], sobre a filiação luterana, mas não fez muita diferença. O abismo religioso entre os dois partidos é real."

Balmer diz se perguntar como pode "uma direita cristã que se vangloria de defender valores familiares" endossar "um predador sexual confesso, casado três vezes, alguém que não consegue nem fingir alfabetização religiosa".

"A melhor explicação que posso oferecer é que os evangélicos brancos veem essa relação como transacional: apoiarão Trump, que por sua vez lhes dará o que querem em termos de nomeações de novos juízes." As batalhas no Judiciário, afinal, são cruciais para fazer valer a agenda conservadora.

Já há inclusive quem proponha uma adaptação do Maga (sigla em inglês para "faça a América grandiosa novamente"). O slogan trumpista por excelência viraria Maca: Make America Christian Again. Faça a América ser cristã de novo.

Copyright Folha de S.Paulo. Todos os direitos reservados.

Resenha da Semana

Uma História do Samba: Volume 1 (As Origens)
💧

Em primeiro lugar, o autor: Lira Neto tem como obra mais conhecida a biografia em três volumes de Getúlio Vargas.

Getúlio é nome constante nas 'histórias do samba': os anos que viram acontecer a Revolução de 30 e a vigência do Estado Novo (1937 — 1945) coincidem com a chamada Era de Ouro do Rádio no Brasil.

Provavelmente, a pesquisa de um livro surgiu de dentro da pesquisa para o outro.

Em determinado momento, Lira Neto chama a História de "empreitada bibliográfica" e parece uma boa descrição: trata-se de um relato de leituras. Aparentando ter consultado tudo o que foi escrito sobre o samba ao longo do século XX e princípios do XXI, o autor escolhe a dedo o que inclui e o que deixa de fora. Na Academia chamam esse tipo de pesquisa panorâmica de 'estado da arte'.

O resultado é uma obra de referência da mais alta qualidade. Para quem deseja se iniciar no assunto, tudo que há de essencial aparece nas duzentas e poucas páginas de texto propriamente dito, seguido de outras mais de 100 reservadas às notas, bibliografia e índice remissivo. O material iconográfico, fotos clássicas, mas digitalizadas e impressas no maior capricho, completam o quadro de excelência.

AS PARTES

Neto começa do começo: a indefectível presença das tias baianas, a Pequena África, Hilário Jovino e o bloco Dois de Ouro, no tempo em que não se sabendo se os blocos de rancho eram parte dos festejos natalinos ou do Carnaval, desfilava-se nos dois.

Fala da grande reforma urbanística levada a cabo pelo prefeito Pereira Passos, fala de Donga, Sinhô e João da Baiana. De Pixinguinha. Do Pelo Telefone, composto em improvisos coletivos nas rodas da casa da Tia Ciata e registrado, como se fosse de sua autoria, por Donga.

Fala dos Oito Batutas — no Rio, pelo Brasil, em Paris, na Argentina. De Chico Alves, de Mário Reis e do negócio de compra e venda de sambas.

Fala do aparecimento do pessoal do Estácio e registra a chegada de Noel. Fala de Cartola e da Mangueira, de Paulo da Portela no tempo do Conjunto Oswaldo Cruz.

Lira Neto escreveu um livro para consulta, se você é um especialista, ou iniciado, no tema. O rigor da pesquisa é alto e histórias que vieram sendo passadas de geração em geração são devidamente conferidas na vasta bibliografia estudada e em arquivos oficiais.

Se você não manja dos paranauê da tradição do samba brasileiro, Uma História do Samba é uma belíssima porta de entrada. Escrito com fluência, com a tarimba de quem vem do jornalismo e sabe se comunicar.

Eu recomendo!

💧

Na Amazon essa semana tava 86,00 a versão impressa e 40,00 o e-book.

A editora é a Companhia das Letras.



8 de novembro de 2018

A tendência da semana é afirmar que o deputado Jair cria cortinas de fumaça para desviar a atenção das verdadeiras negociações que estão sendo realizadas nas alcovas do poder. Faz sentido, precisamos estar atentos, mas, ao mesmo tempo, é forte a impressão de que o país está diante de personagens chapados, unidimensionais, que não têm nada a esconder porque não têm sequer milímetros de profundidade. O saque, ou para usar outra expressão que percorreu as redes essa semana, o 'governo de ocupação', desprovido de qualquer plano ainda que a curto prazo, está escancarado. Tudo vai sendo feito de modo explícito. Como num filme estrelado por Alexandre Frota. 

Monday, October 28, 2024

2012 - 2024. FOI GOLPE!

 

27 de outubro de 2024

SURFE

Vai daí que eu caí da cama neste domingo encoberto de segundo turno e vi no Instagram a imagem que agora faz par com o textão que vos ofereço.

Ela tem uma legenda: "Young surfer, Noosa Heads, Australia" e é assinada por Matthew Bozec, um cara nascido em Otonabee, no Canadá, especializado em fotos de viagem.

Olhei pra fotografia e me veio a ideia de que ela pode ser uma representação daquilo que penso ser a disputa entre candidaturas do campo democrático num país violento como o Brasil versus o campo da reação, que alguns chamam de conservador, outros de extrema-direita, mas a gente sabe muito bem que o nome correto é campo escravocrata.

O surfistinha com sua prancha olhando o mar encapelado é o candidato/candidata. O mar encapelado (olhando o surfistinha, como diria o Nietzsche) é, por exemplo, o "consórcio que se montou tentando usar a cidade de São Paulo pra um projeto bolsonarista em 2026", fazendo uso aqui das palavras do Guilherme Boulos na última live da campanha, ontem à noite.

O campo escravocrata muda de rosto, de nome, muda mesmo de forma, feitio, configuração, mas sem nunca deixar de ser o mesmo, sempre enorme, um grande oceano que de vez em quando um cidadão, ou uma cidadã atravessa (ou se afoga tentando) a bordo de embarcações tão precárias quanto uma prancha de surf.

Repara na minha metáfora: o corpo do menino no alto da pedra é nítido, mas o mar encapelado é indistinguível. Dele só sabemos o tamanho. Sempre um consórcio. Não apenas o consórcio em São Paulo em 2024, com vistas a 2026. O consórcio perene. O consórcio profundo.

A assimetria entre as forças é brutal. De vez em quando, quando a gente ganha, a gente governa naquele mesmo espaço exíguo do alto da pedra em que está o surfistinha. Cercados por todos os lados.

Sempre foi assim e um surfista foda que nem o Lula provavelmente se mantém na crista da onda porque mais do que ninguém conhece (e aceita) as condições do mar e do tempo.

A praia, a terra firme, não se vê no recorte da foto. É lá onde permanecem sentadas as pessoas que, quando a coisa fica difícil (tipo 14% de vantagem pros reaça), atribuem as vitórias do campo escravocrata aos erros do campo democrático, fazendo de conta que a realidade não é toda ela pré-determinada pela assimetria entre as forças. São essas pessoas que explicam as derrotas do campo democrático pela prancha escolhida errado, pelo estilo do surfista, ou seu despreparo, ou o horário de pegar a onda, ou os problemas do patrocinador, ou... qualquer coisa que se possa atribuir não ao contexto histórico, ao sistema econômico, à geopolítica, aos consórcios e sim às questões específicas do candidato/candidata.

Devem estar confortáveis essas pessoas em seus empregos, ou suas aposentadorias, ou seus canais do Instagram, do YouTube, todos esses lugares secos e firmes, longe das pedras, das ondas, do eleitorado e dos livros do Marx.

Não são elas tampouco quem decide o resultado nas urnas. É o mar, é o mar, é o mar... (como diria o Caymmi)...

A presença dessa turma é residual. Mas, guardadas as devidas proporções, se você me perguntar se o campo escravocrata se beneficia do papo pra peixe-boi dormir deles, não tenho dúvida: sim.

Deixo aqui como meu último ato de campanha os mais sinceros votos de vai-tomar-no-olho-do-seu-cu pro pessoal que fica na praia, fogo nos fascistas e 50 na urna eletrônica.

23 de outubro de 2024

 

16 de outubro de 2024

15 de outubro de 2024

 

APAGÕES

10 de outubro de 2024

 

7 de outubro de 2024

O Zé Serra em formato de coração tá passando na sua timeline pra lembrar que a baixaria ampla, geral e irrestrita nas campanhas começou em 2010.

7 de outubro de 2024

EM 1959 SÃO PAULO ELEGEU CACARECO VEREADOR

Cacareco foi uma rinoceronte fêmea emprestada ao Zoológico de São Paulo.

Nas eleições municipais de outubro de 1959 Cacareco recebeu cerca de 100 MIL VOTOS para vereador. *

A população de São Paulo em 1960 chegaria a 3.781.446 de habitantes.

Faça as contas e veja quanto, em porcentagem, aqueles 100 mil votos representavam.

Não esqueça que em 1959 os analfabetos não votavam. 40% da população. Faça de novo as contas.

São Paulo foi fundamental para eleger Jânio, Maluf, Quércia, Collor, Bolsonaro e tudo o que há de pior no fisiologismo pátrio.

São Paulo tem a cruz dos navegantes portugueses "simbolizando a fé cristã" no brasão.

São Paulo homenageia os bandeirantes com nome de avenida, de estrada, de colégio... com a porra da estátua do Borba Gato!

São Paulo perpetrou o Carandiru: o presídio e o massacre.

A lista é interminável. São Paulo elegeu Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro, Mamãe Falei, Ricardo Salles, Rosângela Moro...

Aquelas passeatas gigantes de verde-amarelos? Todas na Paulista.

A abstenção elegeu o Dória, em primeiro turno, em 2016. O problema NÃO É de hoje.

Tem nada a ver com voto de protesto. O que São Paulo tem é um estoque, um exército de reserva de gente escrota pronta pra ver o circo pegar fogo e contribuir com um troco pra comprar mais gasolina.

Só quem nunca morou aqui pode fazer de conta que não sabia.

Por isso, amiguinh@, o segundo turno começou ontem à noite e já passa da hora de parar de posar de estupefato com os números do Pablo Marçal. Nem adianta xingar o 'povo' (Boulos, inclusive, venceu nas periferias extremas da cidade).

Isso aqui é São Paulo, cazzo!

E pra quem cê acha que vão migrar os 30% do coach?

E quem vai receber o apoio do Bolsonaro? Quem vai ter a seu favor a máquina municipal E estadual (leia-se Tarcísio de Freitas)?

Porém, somados, Marçal e Nunes permanecem mais ou menos a metade dos votos. A outra metade está em disputa. É matemático.

Só não dá pra deixar pra se manifestar nos stories do Instagram faltando três dias pra eleição, amiguinh@.

O pau tá comendo e é hoje, já, urgente.

Tem que fazer campanha!

Foi assim que o Lula sobreviveu ao mais longo processo de desconstrução de uma personagem pública que o nosso país já assistiu: fazendo campanha em tempo integral.

A partir de 2016, lembra? o Lula entrou no modo campanha. E continua agora, depois de eleito. Isso quer dizer: você não baixa a guarda, você disputa palmo a palmo os corações e mentes como se fosse campanha, mesmo quando não é campanha.

Mas disputa muito mais quando É campanha.

Antes que seja tarde!

A vantagem da Direita em São Paulo é ESTRTUTURALMENTE maior, como eu tentei demonstrar.

Não adianta subir post falando que tá com medo, que não se conforma com o eleitorado paulistano, que tá decepcionado... nada disso contribui. E muito ajuda quem não atrapalha.

São Paulo e o Guilherme Boulos precisam de militância nas ruas, nas redes, no trampo, nas famílias, nos botecos, onde for.

A tarefa é di-fi-cí-li-ma. Tem que tirar a bunda da cadeira AGORA.

E o travesseiro é o lugar prioritário pra chorar. Aqui na jungle é só tiro, porrada e bomba. Nos fascistas.

Bóra pra cima que já começou. Ontem. Estamos atrasados.

📷: Wikipédia / A caveira do Cacareco / Cacareco em 1959 / Zoológico de SP

* À época, a eleição era realizada com cédulas de papel e os cidadãos escreviam o nome de seu candidato de preferência.

15 / 16 de setembro de 2024


16 de agosto de 2024

 

COMEÇOU!

Saturday, October 26, 2024

Jogo do bicho vai morrer, e bets dominaram sonhos do povo

por: Rodrigo Ortega (UOL)

"O jogo do bicho vai acabar", disse o historiador Luiz Antonio Simas em uma palestra no bairro do Bixiga, em São Paulo, no meio de uma rua em que ainda funciona uma banca de bicho.

No evento de lançamento de Maldito Invento dum Baronete  Uma Breve História do Jogo do Bicho (Ed. Mórula), o carioca explicou a previsão sobre o tema de seu livro.

O bicho deixou de renovar seu público e se choca com um esvaziamento da cultura de rua e com "um processo violento de entrada das bets no mercado", ele descreve.

"O mundo está sendo observado pela tela. A rua não está sendo frequentada. A cidade é pensada a partir da circulação do carro e da mercadoria. O bicho é um sintoma", diz Simas.

💧

UOL Seu livro narra outro momento em que o Brasil tentava decidir qual jogo seria "bom" ou não para o país. Você mostra uma contradição entre o jogo do bicho e o turfe.

SIMAS Em 1892, já havia muitas loterias no Rio. O bicho surge visando atrair gente para o Jardim Zoológico de Vila Isabel. Era um empreendimento capitalista do Barão de Drummond, que loteou o bairro para vender terreno.

Mas, em pouco tempo, ele toma as ruas e se populariza demais. Vira a loteria de uma cidade pobre, de descendentes de africanos. Em 1895, ele já começa a ser proibido.

O que espanta é a quantidade de loterias legalizadas que havia, mas a repressão vai exatamente na mais pobre e negra. Você só consegue entender isso num contexto em que havia uma criminalização de todas as práticas lúdicas e culturais não brancas.

No turfe, já havia denúncia de manipulação de resultados, e não tinha a menor restrição — pelo contrário, era considerado elegante apostar em cavalos.

Engraçado que os bicheiros hoje têm muita atração por cavalo. Até porque o embrião de cavalo é um dos mercados que mais favorecem a lavagem de dinheiro. É uma ciranda.

UOL A primeira frase do seu livro é: "Só existe jogo do bicho porque primeiro a gente sonha". O sonho do pobre é o pesadelo do rico?

SIMAS É por aí. Era um momento em que o Brasil pensava um projeto civilizatório. Para as elites e uma geração de intelectuais, ele só seria viável com o apagamento das culturas não brancas.

Se você me pergunta uma frase que sintetiza o livro, é a seguinte: não era uma política de combate à pobreza, era uma política de combate ao pobre.

UOL Estamos conversando aqui no bairro do Bixiga, em SP, onde vi outro dia esta cena: num bar de forró, um cara na plateia dava tragos no narguilé e jogava no tigrinho, parecia em transe. Remete ao que você fala da festa, do sonho no jogo do bicho.

SIMAS E de andar no fio da navalha, do perigo. Se você discutir o tigrinho hoje, vai pensar nesse aspecto lúdico do jogo do bicho. Não é loteria de número. É uma lógica onírica, do animal.

Isso cruza com muita coisa: o sonho, o extraordinário, a superstição, a magia cigana, a macumba.

A história cultural do jogo do bicho é muito interessante. São práticas culturais que incomodam, subalternizadas, da qual o jogo faz parte, para o bem ou para o mal.

É um incômodo que não parece que vai passar.

O cara [jogador] praticamente não tem chance de projeção social pela via formal. O país é um projeto de exclusão. Você quer o quê? O jogo do bicho, no auge, era um mercado informal que empregava 300 mil pessoas no Rio.

Até hoje é uma loteria de pobre, barata. Ninguém joga uma fortuna no jogo do bicho, ao contrário do tigrinho e essas coisas.

É o garçom que quer um dinheirinho da cerveja. É a senhorinha que sonhou com o falecido marido e vai apostar no número do túmulo. Práticas culturais de rua que a gente tem tendência a desconsiderar.

UOL Você citou uma incoerência de 1895 e eu cito uma de 2024: entre as bets aprovadas pelo governo está uma chamada Bicho no Pix.

SIMAS Olha isso. É importante citar uma coisa sobre o jogo hoje. Falo com conhecimento de causa e contato com gente nas entranhas do negócio. Eu acho que o jogo do bicho propriamente dito vai acabar.

Primeiro porque já não rende mais para os banqueiros. Chamar de "banqueiro do bicho" hoje é quase vício de linguagem. O bicho não chega a representar 10% do faturamento de um cara de primeira linha.

E, ao contrário das bets, ele não renovou público. Para escrever esse livro, eu passava as tardes em uma banca, e não tem apostador com menos de 40 anos.

Mas as outras loterias, e as que porventura se inspiram no bicho, estão com tudo.

UOL Essa energia do sonho popular vai para as bets? O universo digital pode dominar esse buraco que vai ficar?

SIMAS Sim, porque é humano. Não adianta achar que vai lidar com isso simplesmente com política pública de repressão.

Existem outras camadas difíceis. A gente está falando de um país tremendamente excludente, em que o próprio direito ao sonho é roubado.

UOL Você diz que não quer ser inocente ao contar a história do bicho. Como?

SIMAS Você não pode contar uma história que considere a questão exclusivamente criminal, nem romantizar e desconsiderar que ela cria teias com organizações criminosas.

É complexo: ele nem se resume ao crime e nem deixa de ter aspectos que envolvem uma série impactante de atividades ilícitas.

UOL Evitar essa inocência também é importante hoje, na nova discussão sobre qual jogo deve ser legal ou não?

SIMAS Sim, que a gente entenda a complexidade histórica. A gente vive num país marcado por essa carga de exclusão social. Outras dimensões do jogo devem ser consideradas. Ignorar o sonho do povo não vai funcionar.

💧

1996 - 2024 UOL - O melhor conteúdo. Todos os direitos reservados.