Sunday, October 07, 2007

Notas de passagem
José Roberto de Toledo

1 - Morar sozinho é uma prática mais comum no Sudeste, onde estão nada menos do que 50% das pessoas que vivem nessa situação no Brasil. No perfil dos solitários se destaca a incidência de homens e pessoas com nível superior, embora a maioria não tenha ido além do ensino fundamental. Com 48 anos de idade média, formam o grupo mais idoso, depois dos separados ou viúvos com filhos (51 anos, na média).

2 - O isolamento não é um bom negócio do ponto de vista financeiro. Sem mais ninguém para ajudar a ganhar dinheiro, os solitários detêm a menor renda familiar mensal: 63% ganham até 2 salários mínimos apenas.

3 - O Nordeste é onde há uma incidência proporcionalmente maior de solteiros vivendo com os pais e filhos: 34% deles moram na região, que representa apenas 28% do universo pesquisado pelo Datafolha. É um grupo quase que exclusivamente feminino: 95% são mulheres, na maioria jovens, com uma idade média de 28 anos.

4 - Uma grande parte dos nordestinos solteiros, 70%, completou o ensino médio, mas isso não se reflete positivamente na renda. É o grupo com maior percentual de integrantes ganhando menos do que 2 salários mínimos por mês: 85%. Só não estão em pior situação porque a renda dos outros membros da família é mais alta. Daí a necessidade de morar com os pais para sustentar os filhos.

5 - Solteiros que vivem com os pais preenchem o estereótipo do "filhinho de papai": a maioria é homem (59%), 3 em cada 4 têm menos do que 25 anos e dois terços cursaram (24% ainda estudam) até o ensino médio. Como era de se esperar, é o grupo mais jovem, com uma idade média de apenas 23 anos. Embora sua renda individual seja muito baixa (75% ganham menos do que 2 salários mínimos por mês), é dos grupos com maior renda familiar mensal (48% vivem em famílias cuja renda total supera 3 salários mínimos por mês, 11 pontos percentuais acima da média nacional). Nada menos do 35% pertencem às classes de consumo A/B.

6 - Separados ou viúvos que moram com filhos formam o grupo onde se encontram com mais freqüência os aposentados: eles são 30% desse segmento, a maior incidência entre todas as conformações familiares identificadas pelo Datafolha. É o grupo mais idoso, com uma média de 51 anos e a maior taxa de pessoas com mais de 40 anos (74%).

7 - Separados ou viúvos também compõem um grupo predominantemente feminino (81% de mulheres). Sua renda individual é mais baixa do que a média (77% ganha até 2 salários mínimos), mas isso é compensado parcialmente pelos ganhos dos filhos, já que os 77% caem para 49% quando se leva em conta a renda de toda a família. Isso os coloca majoritariamente nas classes C (45%) e D (30%).

8 - Famílias de imigrantes tendem a ser formadas por pessoas com um maior grau de estudo e uma renda mais alta do que a média da população. Embora representem apenas 13% dos brasileiros de 16 anos ou mais, eles somam 31% daqueles com nível superior e 40% dos que vivem em famílias com renda conjunta superior a 20 salários mínimos.

9 - Por outro lado, os imigrados são apenas 6% dos integrantes das classes de consumo D/E. Eles estão concentrados na região Sul do país (33%), não por acaso onde a imigração é um fenômeno mais recente (em comparação, por exemplo, ao Nordeste).

10 - Ter alguém da família morando no exterior é uma característica mais comum das pessoas de renda mais alta. Diferentemente do México, por exemplo, onde a emigração é marcadamente de pessoas de baixa renda, os brasileiros radicados em outros países têm quase três vezes mais chances de pertencerem a uma família com renda mensal superior a 20 SM do que a uma família com renda inferior a dez mínimos. Na verdade, um terço das pessoas que têm parentes morando no exterior desfrutam de uma renda familiar mensal superior a 20 mínimos

11 - Há 3 vezes mais viúvas do que viúvos no Brasil. Elas representam 9% do universo feminino de 16 anos ou mais, enquanto os viúvos são apenas 3% da população masculina. Isso se explica em parte pela maior mortalidade dos homens. A incidência de viúvas chega a 22% entre as mulheres com mais de 40 anos. Nessa faixa etária, a brasileira tem praticamente duas vezes mais chances de estar viúva do que solteira. A maior parte dos viúvos, independentemente do sexo, vive com os filhos

12 - Há uma pessoa a mais em média nas residências de quem mora no Norte/Centro-Oeste do Brasil do que nas do Sul: os sulistas vivem com mais 3,4 pessoas (fora empregados) contra 4,4 no Norte/Centro-Oeste.

13 - A rápida mudança na composição familiar pode ser facilmente percebida pela geração a que pertence cada brasileiro. Aqueles com mais de 40 anos tendem a ter, em média, 5,6 irmãos, enquanto os com até 25 anos de idade têm uma média de 3,3 irmãos. Nas gerações mais antigas, 63% tinham 4 ou mais irmãos; já nas mais jovens esse percentual caiu para 31%.

14 - Os filhos únicos tendem a ter menos de 25 anos, possuir nível superior de ensino, pertencer a famílias com renda entre dez e 20 salários mínimos, morar sozinhos e na região Sul e ser solteiros.

15 - A atividade mais familiar entre os brasileiros é assistir TV. Nada é feito com mais freqüência com alguém da casa do que ver o que passa na televisão, nem mesmo conversar sobre trabalho ou problemas amorosos, fazer compras ou ir à igreja. A atividade é praticada por 83% dos brasileiros. O par mais comum é o cônjuge (43%). E, curiosamente, os homens dizem fazê-lo com mais freqüência com suas esposas do que o contrário: 47% a 40%. Aliás, quanto mais velho o homem, mais ele vê TV com a mulher: taxa de 65% entre aqueles que têm mais de 40 anos.

O seu orgulho não vale nada
Xico Sá

Somente um chifre, como é vulgarmente batizado o incômodo adereço das nossas frontes, humaniza um macho

Embora o ato de pular a cerca se constitua em um dos principais esportes masculinos, o pânico diante da possibilidade de ser traído tira o sono, a concentração, o prumo, é capaz de cegar um homem e fazê-lo um monstro, um animal paranóico ruminando o capim do ciúme. Mas não podemos nos esquecer, moços, pobre moços da canção de Lupicínio, que somente um chifre, como é vulgarmente batizado o incômodo adereço das nossas frontes, humaniza um macho _faz dele uma criatura menos arrogante, menos tosca, mais meiga e sensível para futuras histórias.
Motivo de tragédias e canções, o tema da traição, no banquete filosófico do botequim, muitas vezes ganha tintas humorísticas. Amigo provocando amigo ou narrando infortúnios alheios. Momento adequado para uma antologia de frases e ditos populares machistas: “Chifre é coisa de homem, o boi usa de enxerido”; “Um homem sem um chifre é um animal desprotegido” etc. etc. No bar, aliás, está um dos personagens que mais entende do assunto: sua excelência o garçom. É no ombro dele que muitos de nós choramos como vira-lata abandonado até pelas próprias pulgas. É o garçom também a testemunha ocular de novos flertes e enlaces que representam o fulgor de uns e a desgraça de outros.
O bom garçom, aliás, sente de longe o drama de um sujeito maltratado pelo destino amoroso. Você não precisa nem dizer nada. Quando a vida dói, drinque caubói, parece recitar o gravatinha enquanto serve o seu bourbon ao amigo sem rumo. Para os moços, pobre moços, o pior da traição é que as pessoas do seu convívio, principalmente os outros homens, tomem conhecimento. Se o algoz for alguém próximo, da mesma rua, do mesmo bairro, da mesma firma... É o fim do mundo. Se o algoz for seu concorrente direto, meu Deus, tirem as armas do seu alcance. É, amigo, é o velho ego de macho que não tolera rachaduras.
Às vezes está morrendo de amor e vontade de voltar para a ex. Não volta por questão de honra, fera ferida, o medo do homem diante do olhar dos amigos, dos vizinhos, do colega de trabalho. Mal sabem eles que esse orgulho não vale uma canção triste e sofrida de Leonardo Cohen, do Chico ou do Roberto!

Xico Sá é colunista da Folha

Alta infidelidade
Laura Capriglione

Homens e mulheres concordam: fidelidade é o que faz um casamento feliz; traição, o que mais prejudica

O toque estranho no celular que ele atende nervoso, voz baixa, enquanto diminui o volume do aparelho. Um torpedo apagado antes de ser lido. A caixa de entrada de e-mails, da qual ele mudou –de repente– a senha de acesso. A fatura do cartão de crédito que antes ficava jogada em qualquer canto da casa e, de uns tempos para cá, é rasgada em micropedaços tão logo chega. A confusão para explicar a conta do celular, com um número de telefone chamado repetidamente. Atenção, meu amigo. Está nos livros de auto-ajuda: comportamentos como esses são como confissões de traição conjugal.
Os títulos de auto-ajuda que estão nas estantes das grandes livrarias brasileiras mostram que as mulheres conquistaram a igualdade com os homens em pelo menos mais um quesito: o medo da traição ou “sentimento de cornitude”, na definição do poeta Augusto de Campos. São elas o público-alvo de obras como: “Mulheres Certas que Amam Homens Errados”; “Ser a Outra – Manual de Sobreviência da Amante”; “Ciúme – A Outra Face do Amor (que tem o capítulo “Infidelidade e Ciúmes no Casal”); “Quem Não Trai – As Muitas Faces da Infidelidade”; “Por Que os Homens Mentem e as Mulheres Choram”; “A Mulher Ferida” e “Infiel”, entre outras. Em “Relacionamentos Que Dão Certo”, o índice anuncia os capítulos “Como Perdoar uma Traição?”; “Fui Traída. E Agora?” e “Don Juan de Carne e Osso”.
A pesquisa Datafolha mostra o porquê da vasta bibliografia. Quatro em cada dez mulheres votaram na “fidelidade” como o item mais importante para um casamento feliz. Para efeito de comparação, o quesito “amor” teve 35% das preferências femininas; “honestidade” ficou com 14% e, surpresa, “filhos” e “vida sexual satisfatória” foram a opção de apenas 5% e 1%, respectivamente. Os homens também elegeram a “fidelidade” como o quesito mais importante, com 37% das preferências. Mas, no caso masculino, a “fidelidade” empatou tecnicamente com o “amor”, que teve 35% dos votos (a margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo). O valor dado pelos homens à fidelidade (das suas mulheres, bem entendido) nem chega a surpreender. Já justificou o castigo de sangue. Até 1979, os tribunais brasileiros ainda colocavam em liberdade homens que davam cabo das vidas de mulheres, caso ficasse comprovado que elas tinham-nos traído. Era a chamada “legítima defesa da honra”.
Em um Brasil pré-divórcio (que só seria aprovado em 1977), a maioria das mulheres topava manter-se casada mesmo sabendo da amante do marido, da “outra”, da “teúda”, da “manteúda”, das escapadas, da garçonnière, da mancha de batom indiscreta. A professora Guita Grin Debert, 59, titular do departamento de antropologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), conta que quando perguntavam à mãe dela qual era a condição imprescindível para o sucesso de um casamento, ela respondia: “A tolerância”. Provavelmente, a maioria das mulheres da época diria algo parecido.
Nos dias atuais, segundo a professora, a “fidelidade” tornou-se tão importante no casamento graças à facilidade de ele ser desfeito. “A regra atual prevê que os casamentos existam enquanto houver alegria, prazer e confiança na convivência. Não é mais tanto a idéia de construir uma família, sustentar e proteger a prole, como existia antes, até porque isso pode ser feito fora do casamento. Como a família dependia do casamento, a traição não era um problema tão central. A tolerância, sim”. Segundo Debert, a exigência feminina de fidelidade evidencia um momento histórico de mais simetria, de mais igualitarismo nas relações conjugais. “Não tem nada a ver com o casamento arcaico. A cobrança mútua pela fidelidade é um típico processo contemporâneo.”
Em uma pesquisa com a mesma temática realizada pelo Datafolha em 1998, “apenas” 23% dos entrevistados declararam que a “fidelidade” era o fator mais importante para o casamento feliz. De lá para cá houve um incremento de 15 pontos percentuais (até os 38% do total da amostra, observados em 2007). No mesmo período, o “amor” perdeu seis pontos percentuais (foi de 41% para 35%), a “honestidade” perdeu 9 (de 24% para 15%). “Filhos” e “vida sexual satisfatória” ficaram como estavam.
A maioria absoluta dos entrevistados (84%), aliás, discorda de que o casamento deva ser mantido pelo “bem dos filhos”, ainda que o cônjuge tenha um amante fixo. Em seu livro “Infiel” (Record, 2006, 364 páginas), a antropóloga Mirian Goldenberg, professora do departamento de antropologia cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro e também autora do livro “A Outra” nota que “a idealização da fidelidade permanece fortíssima, inclusive nas relações extraconjugais”. Ela exemplifica: “As Outras acreditam que seus parceiros não têm relações sexuais com as esposas. Os homens casados acreditam que as amantes lhes são fiéis sexualmente. Não só no casamento, mas também no adultério, a fidelidade é um valor.”
O Datafolha também perguntou “qual o fator mais prejudicial no casamento?” Coerentemente, a maioria absoluta (53% dos entrevistados) respondeu: “A traição”. “Falta de amor” foi a opção de apenas 15%. “Vida sexual insatisfatória”, de 1%. Mas afinal, quem trai? Entre os homens, 34% admitem já ter sido infiéis em sua relação atual. Entre as mulheres, 8%.
E quem é mais enganado? A mulher. Na pesquisa, apenas 5% dos homens dizem já ter sido traídos, o que significa que algo como 3% vivem na mais santa ignorância sobre sua condição. Do lado das mulheres, 25% disseram já ter sido traídas –ou seja, 9% vivem na mesma santa ignorância.
O curioso dos números é que eles mostram que as mulheres traidoras mentem e enganam melhor do que seus congêneres masculinos. Nada menos do que 38 em cada 100 traidoras conseguem passar sem ser descobertas, contra 26 traidores que passam por “inocentes”. Menos tolerantes com a infidelidade, mas mais traídas e espertas para farejar a traição –é por isso que os escritórios de advocacia acusam uma maioria de processos em que a mulher tomou a iniciativa da separação.
Na pesquisa Datafolha, 75% das mulheres que já se separaram dizem que foram elas que tomaram a iniciativa, 24 pontos percentuais as mais do que os homens que dizem ter sido deles a iniciativa (51%).

ENTREVISTA

Homem tolera mais traição, diz advogada da elite


A advogada Priscila Corrêa da Fonseca, 58, doutora em direito processual civil pela Faculdade de Direito da USP, atua há 34 anos nas áreas do direito da família e das sucessões. Conhecida no meio em que mais atua, o dos endinheirados, como “Priscila, a rainha do divórcio”, a advogada domina –como poucos– a dinâmica da infelicidade conjugal, embora jamais se tenha casado. É que, pelo seu escritório já passaram mais de mil casos de separação, em geral litigiosas. Abaixo, histórias de infidelidade, mulheres nervosas e traídos resignados.

Quais os motivos mais freqüentes para a separação?
O mais comum é a traição. Seguem-se os problemas financeiros e as agressões físicas e verbais.

Quem trai?
Quem trai mais é o homem. A iniciativa da separação, por isso, é quase sempre da mulher.

Por quê?
A mulher tolera menos a traição. Tem o pavio mais curto. Sente-se ofendida mais facilmente.

Ou será que é porque os homens traem muito mais?
A mulher trai menos, é verdade. Mas, mesmo quando ela trai, os homens preferem fazer vista grossa. Contrariamente ao esperado, o homem não se preocupa muito em se separar, quando sabe que foi traído. Em geral, se ele puder manter a rotina, o status quo de casado, prefere manter. Esta é uma constatação muito, muito freqüente no escritório.

Falta de sexo não é alegação para a separação?
Não. Primeiramente, porque você não tem como provar isso em juízo. Segundo, porque, em 34 anos de profissão, se vi cinco divórcios causados por falta de sexo foi muito.

Quem recorre mais aos seus serviços?
Embora a mulher tome a iniciativa da separação na maioria dos casos, eu sou mais procurada por homens que precisam se defender em situações litigiosas.

A sua clientela é, sabidamente, de elite. Como as questões financeiras afetam essas pessoas, a ponto de causar a separação?
Questões financeiras entram como causa de separações em casos de marido pão-duro ou que esteja quebrado. Mas também já advoguei para homens que acusavam suas mulheres de perdulárias.

Imaginei que a senhora referia-se a casos em que o homem insurge-se contra o fato de a mulher ser mais bem-sucedida profissionalmente do que ele...
Na maioria dos casos que acompanhei, isso não se constituiu em problema. Não porque não haja mulheres mais bem-sucedidas profissionalmente do que seus maridos, mas porque, quando acontece, os homens preferem enfiar o rabo entre as pernas. Não querem sair alardeando essa circunstância por aí.

Na hora da raiva, a pancadaria é exceção ou regra?
Pancadaria mesmo é raro. A coisa mais engraçada que vi foi a separação de um enólogo. A mulher dele colocou um aquecedor dentro da adega. Uma loucura. Também tive vários casos de mulheres que picaram ou puseram fogo nas roupas dos maridos. Ah, fiz ainda a separação de um maestro. Na raiva, ela ameaçava queimar todas as partituras dele.

Metade das descasadas esnobam nova união

Entre os homens, 50% querem se casar novamente e 318, não; entre as mulheres, o cenário é o oposto


Já se sabia que, quanto mais o tempo passa, mais difícil fica _principalmente para as mulheres_ encontrar um companheiro. A pesquisa Datafolha mostra que, além de faltar homens dispostos a se casar com mulheres mais velhas, o que acontece é que, depois dos 41 anos, as separadas praticamente se autoexcluem da disputa por um novo casamento. Dos homens em todas as faixas etárias que já viveram com alguém, 50%, a metade, pretendem se casar novamente e 31% não querem. Entre as mulheres, a situação é exatamente o contrário: 50% não querem e 30% querem (o que falta para inteirar os 100% são pessoas que "não sabem" ou "não responderam").
Se, entre os 16 e os 40 anos, metade das mulheres que já viveram com alguém admite o desejo de voltar a se casar, depois dos 40 anos as casadoiras minguam para apenas 20%. É como se elas se retirassem daquilo que os demógrafos chamam de "mercado matrimonial". O psicólogo Ailton Amélio, 59, professor de relacionamento amoroso dos cursos de graduação e de pós-graduação da Universidade de São Paulo (separado, uma filha), desconfia de que essa retirada feminina depois dos 40 não seja por opção. "Em minha experiência clínica, não existem mulheres solitárias que ainda não estejam procurando uma companhia. Muitas até choram de solidão", diz.
Segundo Amélio, o que a pesquisa pode estar mostrando é uma versão moderna da fábula da raposa e as uvas. "Lembra daquela história da raposa que não conseguia colher as uvas na parreira e que, para se consolar, procurava se convencer de que elas estavam verdes? Pois é. Essas mulheres que já sabem que será muito difícil casarem-se novamente preferem elas mesmas desistir de concorrer. Dizem que estão mais exigentes, que não aceitam qualquer coisa. "Estão verdes...", diria a raposa. A dificuldade em encontrar um companheiro a partir de determinada idade decorre principalmente de os homens, no padrão cultural brasileiro, preferirem se unir a mulheres mais jovens (às vezes bem mais jovens). A diferença média de idade no casal, que é de três anos no primeiro casamento, vai-se ampliando. Excluída a hipótese de maldade, essa é a razão daquela espinhosa gafe que mais parece dor-de-cotovelo: a mulher de meia idade se aproxima do pretê, um pouco mais velho do que ela, e pergunta: "É sua filha?" "Não. É minha namorada." Pííííí.
Depois dos 50 anos, segundo os demógrafos, um homem tem 30 vezes mais chance de se casar do que uma mulher de mesma idade. Talvez por isso as marcas físicas do envelhecimento sejam tão odiadas pelas mulheres _tornam suas possuidoras menos "competitivas" na disputa pelo companheiro. Não por acaso, o Brasil é o segundo país no ranking dos que mais lançam mão da cirurgia plástica (só perde para os Estados Unidos), e que as revistas femininas tenham como chamariz de vendas sempre uma nova receita da juventude. A antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, escreveu em seu livro "Infiel": "Restam poucas opções para a mulher que envelhece: viver só, ser casada com um homem que, pelas estatísticas, deve ter uma amante, ser a Outra, tornar-se lésbica".

ENTREVISTA

Psicóloga que ensina 'como não perder seu homem' é tetra-separada


A psicóloga paulista Mara Suassuna, 45, casou-se quatro vezes. Tem quatro filhos já adultos e três netos. Sua última separação foi há três anos e, desde então, Mara mora sozinha em Goiânia. Mesmo já tendo "perdido quatro homens" (para usar uma expressão dela), a psicóloga conseguiu, no início de setembro, encher um auditório com 300 mulheres em São Paulo para ouvi-la dar uma palestra com o incrível nome: "Como Não Perder Seu Homem". Abaixo, Mara Suassuna explica "a cilada emocional" que leva mulheres separadas a terem mais dificuldade para arranjar um novo companheiro.

Por que a senhora "perdeu" seus homens e não achou substituto?
Eu atendo muitos casais em meu consultório. Acumulei experiência. De um lado, fiquei mais seletiva. De outro, eu sou uma pessoa inteira, que não precisa de outro fragmento de gente para ficar completa. Lido bem com minhas ausências. Estou em busca de um outro, também inteiro, o que, convenhamos não está fácil de encontrar.

É mais difícil uma mulher separada refazer um casamento. Por quê?
Porque, em função da cultura machista, o casamento, para a maioria das mulheres, constitui-se em uma renúncia sobre outra. O homem ainda quer o seu chinelo no lugar, as refeições prontas e as roupa lavadas e passadas, sem se preocupar em como isso foi possível. Acho que muitas mulheres separadas pensam: "Será que eu quero voltar a lavar cueca de novo?" A mulher separada tem um padrão de liberdade e independência difícil de encontrar nas casadas. É natural, portanto, que ela pense duas vezes antes de renunciar a essa autonomia.

E os homens que "lavam suas próprias cuecas", onde estão?
Estão por aí. É só encontrá-los. O problema é que muitas mulheres, dependendo de como saíram de um relacionamento, impossibilitam-se de aproveitar as chances que aparecem. Elas acreditam que uma nova relação necessariamente repetirá o que aconteceu naquela que acabou.

São mulheres traumatizadas, então?
Acho que sim. Veja, a atitude de carinho é uma atitude intrinsecamente feminina. Ser fêmea é dar carinho. Muitas mulheres, no entanto, confundem carinho e afetividade com servidão e vêm com aquela frase para o homem que lhes pede uma atenção: "Eu não sou sua empregada." É como se atitudes de carinho fossem mostra de fraqueza, e não são. Essa confusão leva a uma intensa masculinização das mulheres modernas. E isso dificulta ainda mais as coisas.

Metade das mulheres separadas dizem que não querem mais se casar. Por quê?
Existe um discurso que identifica a mulher poderosa à auto-suficiente. Minha observação mostra que a mulher pode até repetir esse discurso. Mas, no fundo, não corresponde ao desejo dela. No fundo, não conheço quem não queira um homem ao seu lado.

A senhora ainda quer?
É claro.

Solidão pesa mais para elas
Daniel Bergamasco

60% de quem mora sozinho na região Sul avalia a experiência como ótima/boa; é o maior percentual do país

Na faixa dos 26 aos 40 anos, 77% das mulheres reclamam da falta de companhia; eles são apenas 30%

A redatora publicitária Cibele Pastre, 34 anos, vive sozinha há quatro anos. “É muito libertador poder trazer em casa quem eu quero, fazer bagunça quando eu quero. O lado negativo é a solidão, de você sofrer uma tentativa de assalto na rua e não ter para quem contar, por exemplo.”
O empresário Alexandre Ktenas, 39, vive sozinho há 23 anos, desde os 16. “É uma delícia, adoro morar sozinho, montar minha casa com as coisas do meu gosto, do meu jeito. A bagunça seria problema, mas tem a Nina, que vai todos os dias em casa.”
Na pesquisa Datafolha, Cibele e Alexandre mostram que o peso da falta de companhia é uma questão de gênero. Na lista de prós e contras da vida dos que moram sozinhos, a solidão é a principal reclamação de 45% das mulheres, contra 32% dos homens. “A mulher tende a reclamar mais que o homem, ela é mais exigente em vários aspectos e, até por isso, acaba achando piores esses momentos em que está sozinha”, acredita o psicanalista Thiago Almeida, pesquisador de relacionamentos na USP. “Além disso, conforme a idade, ela tem mais desvantagem nas relações amorosas, já que o homem tende a procurar uma mulher que seja, em média, dez anos mais jovem que ele.”
José Roberto Leite, chefe da unidade de Medicina Comportamental da Unifesp, tem outra visão sobre os dados. “Os homens têm menos facilidade de assumir a solidão, o que não quer dizer que eles não passem por isso. É mais fácil assumir que a bagunça da casa é o principal problema. As mulheres falam disso com muito mais facilidade, não precisam parecer tão auto-suficientes”, avalia.

Lasanha individual

A pesquisa aponta que 8% da população brasileira mora sozinha. Desse total, 52% dizem que a experiência é ótima ou boa; 22% dizem que é regular; e 25% a consideram ruim ou péssima. O auge da aprovação acontece na faixa dos 26 aos 40 anos, em que a média de ótimo e bom sobe para 64%. Entre os brasileiros com 41 anos ou mais, a aprovação média é de 46%. “Morar sozinho é algo fantástico como aprendizagem. A independência traz felicidade, porque você pára de se basear em uma expectativa falsa de que depende das atitudes dos outros para que sua vida mude. Viver em grupo é também muito bom, mas quem passa por essa experiência solitária tem esse aprendizado como vantagem para o resto da vida”, diz Leite.
“Aprendi a me virar e a deixar a casa mais legal, mais confortável e montei lá meu escritório, então passa bastante gente por lá”, diz Alexandre. Na parte mais prática, há dificuldades. “É meio chato ir só ao supermercado comprar só uma pêra, ou só uma maçã. Lasanha individual é uma conquista, porque um grande problema de morar sozinha é comprar aquela embalagem grande de pão e depois jogar metade fora”, diz Cibele. “Tirando isso, está tudo certo”, conta a publicitária, que diz concordar com outra constatação da pesquisa: a reclamação sobre “não ter com quem conversar” perdeu força entre as pesquisas Datafolha de 1998 e 2007: caiu de 32% para 18% dos entrevistados. “Imagine! Eu falo toda hora, fico na internet e recebo as pessoas em casa. A agenda de um solteiro é bem maior que a de um casado”, diz ela.

38% dos que moram sozinhos nas regiões Norte/Centro-Oeste avaliam a experiência como ótima/boa. No Nordeste, são 42%; no Sudeste, 54%

Bem-vindo à ‘miscigeração’

Casamentos desfeitos e refeitos criam “os meus, os seus, os nossos”

A cena do filme “Esqueceram de mim” (1992), em que a família enorme lota um único carro para viajar e logo começa o check-in, se repete final de semana sim, final de semana não na casa de Paulo Pucon, 40, Vera, 40, e de seus seis filhos. Epa!, seis? Numa época em que a maioria dos casais tem dois filhos, de onde surgiu tanta criança? Nada errado com o script dos dois filhos. O fenômeno aqui é de outra natureza, conectada não ao passado de proles enormes, e sim à, digamos, “miscigeração” –para cunhar um neologismo que tende a dar conta das novas famílias com filhos de casamentos desfeitos e refeitos.
Na pesquisa Datafolha, o fenômeno no Brasil ainda aparece tímido. Só 2% dos entrevistados declararam ter filhos de outra relação, e menos ainda, 1%, convivem com filhos de casamento anterior e do atual. É o caso dos Pucon. Sócio de escritório de advocacia e delegada da Polícia Federal, Paulo e Vera se conheceram na faculdade, se reencontraram há quatro anos e se casaram. A família ficou assim: dela, Daniel, 15, e Ricardo, 10; dele, Thais, 10, e Laura, 6. Para aumentar a diversão, há um ano nasceu Henrique. E adotaram Maria Fernanda, recém-nascida.
“Aqui somos os meus, os seus, os nossos e os dos outros”, diz Vera. E, surpresa, a família pode não estar completa ainda. “Não duvido nada”, diz, aos risos, Daniel. “Adoraria poder adotar mais”, arremata a mãe.

Almoço de domingo

Ter a casa (bem) cheia também não é um problema para Ana Carla Abraão Costa, economista. Almoço de domingo na casa dela lembra festa de Natal. Além de Ana Carla e do marido, o também economista Guilherme da Nóbrega, enchem a mesa seis filhos: dois do primeiro casamento dela, dois do primeiro casamento dele e mais dois da união que celebraram há dois anos e meio. O sogro de Ana Carla, o ex-ministro Mailson da Nóbrega e sua mulher se juntam à cena num domingo ou noutro. De vez em quando, o ex-marido dela e a namorada e a ex-mulher de Guilherme e o parceiro completam o quadro.
“Cada um tem sua vida, mas temos uma convivência muito boa, por conta das crianças”, diz Ana Carla. “Essa confusão toda acaba unindo a família, porque as crianças têm interesses próximos. Poucas vezes precisamos de amigos de fora, porque eles são como um time”, conta. “Na hora do café da manhã em nossa casa tem de tudo: do adolescente mal-humorado ao recém-nascido chorando e todo mundo falando ao mesmo tempo”, diz Ana Carla. “Mas pouco depois cada um toma seu rumo e a convivência não fica tão estressante. Ao contrário: o momento do próximo encontro é esperado.”

DANIEL BERGAMASCO e CRISTIANE BARBIERI

Os que não se multiplicam
Cristiane Barbieri

14% dos casais entrevistados não têm filhos, perfilando no padrão social conhecido como ‘dink family’

O Datafolha confirma a tendência que o Censo de 2000 e as PNADs (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE) já mostraram: nos últimos anos é cada vez maior o número de famílias brasileiras que optam por não ter filhos. Entre os entrevistados que se dizem casados, 14% afirmaram não ter filhos. Na pesquisa de 1998, apenas 10% dos que estavam casados não tinham filhos. “A ‘dink family’ [duplo salário, nenhuma criança, da sigla em inglês] já é um padrão social e não apenas uma questão de comportamento para a sociedade brasileira”, diz Elisabete Doria Bilac, pesquisadora Nepo (Núcleo de Estudos de População) da Unicamp. “Muitos adiam filhos em função de projetos de carreira, enquanto outros preferem ter no casamento uma relação apenas de companheirismo, em vez de pensar em reprodução.”
Foi o que aconteceu com o empresário Marcos Barros, 46, e a mulher Vera, 47. Casados há 15 anos, depois de nove de namoro, eles optaram pela vida a dois desde o início. “Tínhamos duas alternativas: trabalhar muito para construir nosso patrimônio ou ter filho e nos virar como desse para sustentá-los”, diz Marcos, sócio da Crazy Turkey Editora. “Fomos trabalhar.” Ajudou na decisão o fato de ambos serem apaixonados por viagens de motocicleta. Praticamente todos os finais de semana, eles rodam o Brasil com um grupo de amigos donos de motos estradeiras. Entre os parceiros de viagens, mais dois casais sem filhos por motivos semelhantes.
Com salário duplo, casa na cidade e na praia, carro e moto na garagem, todos os eletroeletrônicos na casa e mais dois cachorros e um papagaio, Marcos e Vera também fazem, em média, três viagens internacionais ao ano. Em outubro, embarcam rumo à Grécia, onde rodarão 1.400 km em motocicletas BMW. “Com filhos, eu não teria a liberdade de fazer a mochila e viajar na hora que quisesse com meu marido”, diz Vera, que também é sócia de Marcos. “Tenho cinco sobrinhos que adoro, vivo com eles, mas, quando dá a hora, devolvo para a mãe e vou cuidar da minha vida.”

Cobrança

Segundo antropólogos, o brasileiro está seguindo um padrão de comportamento que é realidade em países como Estados Unidos e Japão há pelo menos 20 anos. “Na Europa, o número de casais sem filhos é muito maior porque a legitimidade da opção não é questionada”, diz Mirian Goldenberg, antropóloga e professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “No Brasil, ser individualista é uma acusação, enquanto na Europa é um modo de vida.” Isso significa que a cobrança aos casais sem filhos no Brasil ainda é alta. Os argumentos da cobrança, dizem os pesquisadores, envolvem desde acusações de egoísmo do casal e de fracasso na formação de uma família completa a ameaças como solidão e arrependimento futuros, principalmente para mulheres. “Objetivamente diminui o desejo de ter filho”, diz Goldenberg. “Subjetivamente, no entanto, é um grande drama pessoal.”
Um dos grandes temores da família sem filhos, principalmente num país em que o Estado não provê a tranqüilidade de uma velhice digna, é passar os últimos anos de vida também sem amparo familiar. Filhos seriam a única alternativa a quem não conta com boa saúde pública ou com uma aposentadoria que garanta a sobrevivência. Nem todos engolem o argumento. “Filho não é garantia de velhice tranqüila”, acha Vera. “O que garante aos velhos ser tratado com respeito é trabalhar, guardar dinheiro e pagar alguém para cuidar de você. Filho tem de ter sua própria vida e não ficar cuidando dos pais.” As questões colocadas a favor das famílias sem filhos também são fortes. Segundo Bilac, com o fim do trabalho infantil e a escolarização obrigatória, as taxas de fecundidade têm diminuído desde o século 19. “A relação custo-benefício dos filhos caiu muito para as famílias”, diz a pesquisadora. “O custo de um filho na classe média é altíssimo, as pessoas não têm estabilidade e precisam qualificar-se a vida inteira para manter a empregabilidade. Por outro lado, há muito mais riscos em se criar uma criança nos dias de hoje.”
Com menor preocupação com relação ao sustento pós-aposentadoria, as famílias de maior escolaridade e poder aquisitivo são as que mais optam por não ter filhos. Segundo o Datafolha, o número de casais sem filhos aumentou em 15 pontos percentuais entre pessoas que têm ensino médio e em três pontos percentuais para quem tem ensino superior, em relação à pesquisa feita em 1998. Já as famílias que têm apenas ensino fundamental, o número de casais sem filhos caiu 18 pontos percentuais no período.

Na Europa, o número de casais sem filhos é muito maior porque, lá, ser individualista é um modo de vida; aqui, é uma acusação. Mirian Goldenberg, antropóloga e professora da UFRJ

Nos passos dos pais

Casados há 41 anos, Adélia, 61, e Wataro Ajiki, 71, donos de uma confeitaria em Campo Grande (MS), ainda não conhecem a neta Lara Mai, 3, nascida no Japão. O pai da menina é César, 28, que está há dez anos no Japão, onde se casou com Márcia, paulista. “Eu queria ir ao casamento, mas não pude, é caro”, diz Adélia. Além de César, a família Ajiki espera a volta de outra filha, Angélica, 35, há 18 meses no país. Angélica e César seguiram o exemplo dos pais, que trabalharam durante oito anos em uma fábrica japonesa de postes. “O salário é dez vezes maior em relação ao mínimo brasileiro”, afirma Wataro. A confeitaria foi aberta com o dinheiro.
César também trabalha em uma fábrica de postes, e Angélica está no setor de autopeças. A preocupação dos pais é de um possível envolvimento com drogas, devido às “más companhias”. “Mas, como ele [César] achou uma companheira, casou-se, a preocupação ficou menor. Com a filha, eu ficou mais preocupada”, diz Adélia. Outro problema são as diferenças culturais. “O pessoal [no Japão] é reservado. Como se diz, é meio frio”, conta Wataro, nascido em Birigüi (SP).

Os filhos de Maria
Kátia Brasil e Hudson Corrêa

A vida da amazonense Maria Madalena Nascimento, 73, é dividida entre Manaus (AM) e Tampa, na Flórida, EUA. Há 15 anos, 4 de seus 8 filhos decidiram morar, trabalhar e estudar fora do país. “Nos Estados Unidos, mesmo trabalhando em limpeza de casa, você melhora de vida. Eles têm casa e carro. Passaram um tempão pagando, mas não pagam caro como pagariam no Brasil”, afirma ela.
Outros dois filhos de Madalena que moram em Manaus estão tentando obter o visto de entrada nos EUA. Há ainda cinco netos vivendo em Tampa e outros dois que se preparam para ir. Ao menos uma vez por ano, ela viaja para matar a saudade dos filhos. A mudança na família, que é evangélica, começou em 1992, quando Antônio foi morar com uma família de pastores de sua igreja nos EUA –ele retornou nove anos depois.
Depois foram Michael, 33, Neide, 49, Isaías, 36, e Maristela, 43. Para facilitar a vida da família e fazer economias, Michael comprou uma casa de cinco quartos. Hoje todos têm negócios nos ramos de limpeza e construção e estão em situação legal no país, segundo a aposentada. Em novembro, ela vai novamente a Tampa. “Vou passar o Natal com eles.”

Uma diáspora de 30 milhões
Clóvis Rossi

A diáspora brasileira é muito maior do que se supõe, podendo afetar quase 30 milhões de pessoas, se se extrapolar para o conjunto da população dados da pesquisa Datafolha que mostram que 15% dos pesquisados têm alguém da família morando atualmente no exterior. Quinze por cento dos praticamente 190 milhões de brasileiros computados pelo IBGE dá exatamente 28,5 milhões, sete vezes mais do que a estimativa mais conservadora utilizada sobre a diáspora. Em geral, calcula-se entre 4 milhões e 6 milhões o número de brasileiros que residem atualmente no exterior.
É claro que a estimativa é muito precária, porque a grande maioria viaja como turista e passa a residir clandestinamente no país de destino. Outros emigrantes, mesmo legalizados, não se dão ao trabalho de registrar-se nos consulados brasileiros, o que torna impraticável trabalhar com números fiéis à realidade. Há, no entanto, dados que parecem autenticar os números encontrados pela pesquisa. Exemplo bem recente: na sua visita à Dinamarca, em meados de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se com representantes da comunidade brasileira no país. Havia cerca de 200 convidados, mas os brasileiros residentes na Dinamarca chegavam a 1.800. Se é esse o número em um país remoto, de língua diferente de qualquer uma que apareça nos currículos escolares, é fácil imaginar a quantidade em países mais familiares para brasileiros, como é o caso de Portugal, em que a comunidade brasileira é a maior.
A Folha conversou com alguns interlocutores de Lula, que revelavam nível de informação, mesmo sobre o distante Brasil, bastante elevado, além de formação universitária. Havia até uma professora de fitopatologia na universidade de Copenhague. Essa impressão empírica combina com os dados da pesquisa: 27% dos que têm alguém da família que mora no exterior têm formação superior, segundo os pesquisados, bem mais que os 11% que têm apenas ensino fundamental.
Também é eloqüente o fato de 33% dos parentes de emigrados entrevistados terem renda superior a 20 salários mínimos. É apenas nesses dois itens que aparecem diferenças grandes em relação à média geral, nas diferentes subdivisões da pesquisa. O número de mulheres e homens, a faixa etária, a natureza do município (capital, interior ou região metropolitana), o estado conjugal e ter ou não filhos –todos esses itens ficam perto da média geral. Outra diferença, embora pequena, se dá na divisão regional: a maioria relativa dos emigrados (19%) é das regiões Norte e Centro-Oeste.

Bater ou não bater: será esta a questão?
Anna Veronica Mautner

Uma coisa venho percebendo nesses longos anos de escuta profissional e pessoal: ninguém se orgulha de bater nos filhos. O uso da força por impulso denota descontrole. É da nossa cultura achar feio bater; quando isso acontece, freqüente ou raramente que seja, é sempre melhor esquecer, até na hora de responder a um questionário. Aplicar castigo ou ralhar são gestos menos “feios” porque não denotam destempero. Diz-se que quem grita perde a razão, imagine então se quem bate pode ter alguma. Mas podemos tomar a questão por um outro lado.

A pergunta se já bateu ou bate pode ser traduzida por outra: você maltrata seu filho? Pois bater é uma modalidade de infligir dor. Falar em bater é falar de violência, mas também falamos de vergonha e humilhação. A dor da violência física pode passar rapidamente; a humilhação e a vergonha às vezes não passam nunca. Isso é fundamental para entender por que nas metrópoles _onde as pessoas têm espaço para se refugiar no anonimato e a vergonha pode se diluir na multidão_ a pesquisa sobre bater nos filhos encontra um maior número de respostas assertivas. É mais fácil lidar com a humilhação se posso evitar o contato com quem me humilhou e com aqueles que testemunharam. Numa cidade grande, isso é possível; na pequena, mais difícil. O sofrimento é maior quando o humilhado vive reencontrando as testemunhas de sua desdita. Da mesma forma, aquele que infligiu a vergonha se sente mais culpado, tem mais vergonha do que fez e prefere omitir.

Esse tema é parte importante da história de vida de todo mundo. Não há quem, ao contar sobre sua infância, não acabe dizendo em algum momento: “Meu pai nunca relou em mim”; “Minha mãe às vezes tentava dar umas chineladas, mas era mais com meu irmão...”. Ou então: “Minhas piores lembranças são das surras que levei”. Curiosamente, os castigos só são lembrados quando são cruéis ou implicam vexame do tipo: “Você vai devolver e ainda pedir desculpas”, quando alguém pegou o brinquedo do vizinho. No processo educacional, a vergonha e a humilhação públicas são o maior castigo.

O uso de força ou violência na educação já está sendo execrado ideológica e eticamente há quase um século. Não bater tornou-se consenso. O que ainda não é consensual são os malefícios provocados pelas condições de exclusão embutidas em episódios de raiva, palavras duras e, especialmente, na ironia ou gozação. O efeito da ironia, da qual os muito jovens não conseguem se defender, é devastador. Para ser irônico, que é um jeito de disfarçar a raiva, é preciso muito mais experiência de vida do que um jovem ou uma criança podem ter. Diante da ironia, a criança e o jovem são totalmente indefesos. Comemorar a queda da surra é bom, mas é pouco. Convém pensar nas novas configurações que vêm cada vez mais ocupando o lugar do “bater”.

Anna Veronica Mautner, psicanalista e colunista da Folha, é viúva, tem três filhos e cinco lindos netos

Homem paga em cash; mulher em jornada
Fernando Canzian

As contas ficam com eles, e elas cuidam de todo o resto; participação dos pais no cuidado com os filhos nunca supera 22%

É corretíssima a percepção de que as mulheres são as maiores vítimas em uma relação familiar quando o assunto é cuidar dos filhos. A dupla jornada é uma realidade para elas em todos os pontos relativos ao cuidado básico da prole: de ir a reuniões de pais e mestres a levar os filhos ao dentista ou à escola e cuidar deles quando ficam doentes. O único atenuante para os homens é que, se não se sacrificam com esforço e atenção, entram bem mais pesadamente com o bolso na divisão de responsabilidades. A pesquisa Datafolha mostra que são eles os que contribuem mais para o pagamento da maior parte das contas da casa. Entre os homens, 49% disseram arcar com a maior parcela das despesas. Entre as mulheres, esse percentual cai para 29%.
Quanto maior a faixa etária –e, conseqüentemente, quanto mais velhos vão ficando os filhos–, mais os homens têm essa responsabilidade financeira. Entre pessoas com idades entre 26 e 40 anos, 55% dos homens afirmam contribuir mais, contra 28% das mulheres. Mas a vantagem relativa dos homens para eventualmente responderem a queixas sobre a falta de participação no cuidado com a família fica restrita ao dinheiro. Quando o investimento não é financeiro, mas pessoal, educacional e “preocupacional”, a conta cai em cheio no colo feminino.
Alguns dos exemplos aferidos na pesquisa mostram que as mulheres estão sempre à frente dos homens no cuidado dos filhos, com larga vantagem: cuidar quando o filho fica doente (90% elas, 15% eles); acompanhar refeições (83% a 18%); levar ao médico ou dentista (89% a 22%); e ir a reuniões na escola (78% a 21%). Em nenhuma situação apresentada pelo Datafolha aos entrevistados a participação masculina no cuidado com os filhos supera 22%. Para a demógrafa Maria Coleta de Oliveira, da Unicamp, as mudanças mais recentes no mercado de trabalho têm reforçado a tendência da dupla jornada, na medida em que, nas faixas menos escolarizadas, há uma série de profissões para elas (doméstica, manicure etc.) que não existem para os homens –onde o mercado de trabalho exige cada vez mais anos de estudo. “Isso tem levado a uma acentuação da segunda jornada, até porque as mulheres acabam sendo obrigadas a trabalhar para repor a falta de capacidade dos homens de gerar renda sozinhos”, afirma.
Usando a base de dados do IBGE, a pesquisadora Cristina Bruschini, da Fundação Carlos Chagas, publicou estudo em 2006 mostrando que 89,9% das mulheres cuidavam de afazeres domésticos, enquanto o percentual de homens era de 44,7%. “E os homens gastam muito menos tempo nessas atividades”, diz Cristina. Segundo seu trabalho, a média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos era de 27,2 entre as mulheres e de 10,6 entre os homens. Talvez por insistência ao longo do casamento, ou pela troca por parceiros mais velhos e experientes ao longo da vida, a pesquisa Datafolha mostra que, quanto mais avançada a idade do homem, maior é a participação dele nas tarefas cotidianas com os filhos. Mas, mesmo entre os que têm mais de 41 anos, é ainda fortemente preponderante a presença da mulher na dupla jornada. Uma compensação para elas: talvez por estarem mais presentes no dia-a-dia, as mulheres têm uma percepção mais otimista da relação com os filhos. Para 93% delas, o relacionamento é considerado ótimo ou bom. E 65% avaliam ter dedicado o tempo necessário aos filhos.
Já no caso deles, há um certo peso na consciência: 49% acham que dedicaram o tempo necessário. Mas isso não impede que, mesmo assim, 88% dos homens avaliem ter uma relação ótima ou boa com os filhos. Na casa da arquiteta Ilda Rosaria Rao Paiva, 35, por exemplo, ela participa mais da vida de Iasmin e Pedro, 2, do que o marido, Paulo Sérgio Paiva, 39. “Não existem papéis fixos, preestabelecidos. Mas, como tenho mais tempo com as crianças, elas acabam tendo mais afinidade comigo, e assim vou mais aos médicos, participo mais da vida escolar e da vida social delas. E também sou mais solicitada por elas.” Casada há sete anos, Ilda parou de trabalhar há seis, quando nasceu Iasmin. “Decidi que seria mais importante para mim estar em casa acompanhando o seu crescimento do que de volta ao mercado de trabalho. Tive a sorte de poder fazer essa opção, com o apoio do meu marido, sem, com isso, comprometer o nosso padrão de vida”, diz. Ilda afirma, porém, sentir “falta de produzir profissionalmente”, mas ela não admite a possibilidade de o marido substituí-la nos serviços domésticos e no cuidado dos filhos.

Quanto mais maduro, mais o homem participa nas tarefas cotidianas com os filhos, mas a presença da mulher é preponderante mesmo entre os que têm acima de 41

LABUTA DOMÉSTICA

9% têm faxineira
4%, empregado doméstico
1% dorme no emprego

No início de agosto, o Datafolha revelou que apenas 8% da população brasileira costuma andar de avião. Agora, a nova pesquisa sobre hábitos familiares mostra que quase o mesmo percentual tem algum tipo de ajuda extra no cuidado da casa: só 9% dos brasileiros contam com um(a) faxineiro(a) que os ajudem nos afazeres domésticos, mesmo que de vez em quando. O que a pesquisa confirma é o que muitas pessoas de classe média alta ou mais ricas às vezes esquecem: que o Brasil é um país pobre. O percentual dos que contam com empregados cai a menos da metade (4%) entre os que têm essa ajuda extra diariamente e chega a ser residual (1% da população) entre os que têm um empregado doméstico que durma diariamente “no serviço”. Por razões óbvias, quanto maior a renda dos entrevistados, maiores os percentuais dos que têm ajuda extra no cuidado da casa. Entre os que têm renda mensal superior a 20 salários mínimos, o percentual é de 14%. Mas é zero entre os com renda menor do que dez salários mínimos. Como a pesquisa leva em conta o perfil socio-econômico do total da população, e o Brasil é um país preponderantemente pobre, o peso dos que ganham menos faz com que a média geral seja de apenas 1% no quesito empregado diário que dorme em casa. O mesmo ocorre com os que contam com a ajuda de uma faxina, mesmo que só de vez em quando: são 38% dos entrevistados com renda superior a 20 mínimos e apenas 7% entre os que ganham só até dez salários.

Depoimento: O único homem no fraldário

Para que o leitor tenha vontade de continuar lendo este texto em meio a todos os outros desta revista, começo com uma frase de efeito: assim como a mulher tem inveja do pênis (como dizia Freud), o homem tem inveja do útero e dos peitos femininos. Ao menos os homens-pai, que são minoria e diferem dos demais por ter a vontade de representar na vida dos filhos um papel equiparável ao da mãe. A inveja ocorre porque o pai sai com uma enorme desvantagem: por nove meses, o contato direto da criança é só com a mãe. Fica lá dentro na barriga, dividindo líquidos e ouvindo o bater do coração dela. Depois, são os meses de amamentação, quando o pai é fisicamente acessório –a criança precisa de pouca coisa além do leite que vem da mãe. Como, então, equilibrar o jogo? Sendo atuante.
Mas não é fácil. É preciso ter muita força de vontade para não apenas ser pai, mas participar, como recomendava aquele velho comercial de televisão. O Datafolha mostra que é a mãe, em sua maioria, que leva o filho à escola, ao médico, que cuida quando está doente... E é fácil constatar isso. Pai de duas filhas, muitas vezes sou o único homem a lidar com pomadas e lenços umedecidos nos fraldários de shoppings. Um amigo, também homem-pai, diz que se sente paquerado nessas situações. Eu nunca fui.
Pode ser um problema estético. Mas, na verdade, parece que as mulheres me olham torto. O que esse cara está fazendo aqui? Cadê a mãe, aquela maldita sortuda? Ele pensa que pode entrar aqui assim, parecem se (me) perguntar. Na sala de espera do pediatra é a mesma coisa. São pouquíssimos os homens, quando existem. E mesmo o médico parece me ignorar e preferir fazer perguntas à babá.
Nas escolas, os educadores logo avisam: o período de adaptação –aqueles primeiros dias em que a criança precisa se acostumar ao novo ambiente– deve ser acompanhado pela mãe. Dão como alternativas a babá ou uma das avós. Pai não serve. Há, claro, atividades mais nobres, mais másculas e mais prazerosas que trocar fraldas. Mas ou ganhamos terreno mesmo nessas tarefas ou vamos continuar a ver mais destaques para o Dia das Mães que para o Dia dos Pais. E, mais grave, vamos continuar a ser companheiros apenas quando se trata de esportes.
A pesquisa revela que filhos têm o hábito de conversar mais com a mãe sobre todos os assuntos, exceto futebol. Perdemos em política, sexo, religião, vizinhos, música, novela, noticiários de jornais, dinheiro, doença, trabalho, filmes, conteúdo de internet, violência, celebridades e educação sexual. É também com elas que os filhos vão ao cinema e ao teatro, à igreja, a shows de música, às compras. Na hora da comida, almoçam ou jantam mais com as mães que com os pais.
Ao avaliar a relação com pais e mães, ficamos mais uma vez com os piores números. 76% dizem ter uma ótima ou boa relação com os pais. Salta para 91% aqueles que consideram o mesmo em relação às mães. Quem mandou nascermos com barrigas incapazes de gerar crianças e sem dutos condutores de leites. Se bem que pensando melhor, há muitas vantagens agregadas a essas “incapacidades”. Mas isso é outra história.

Vaguinaldo Marinheiro, secretário de Redação de Produção, é casado e tem duas filhas.

Exceção que confirma a regra - por Cristina Fibe

No telefone da casa de Renato Loureiro de Mendonça Couto, quem atende a reportagem é o seu filho, Mateus, de dois anos. “É mamãe? É vovó? Mamãe! Vovó!”, troca as bolas. Uma voz ao fundo pede para ver quem é e tira o aparelho das mãos da criança. “Oi, desculpa, deixa só eu pegar minha xicrinha, acabei de passar um café!”, diz Renato, antes de contar à Folha sua rotina de dono-de-casa. Ao contrário da maioria das famílias brasileiras, a sua é sustentada financeiramente pela mulher, Sofia Ribeiro da Silva, enquanto Renato fica em casa e cuida do filho, o que inclui levar à escola, ao médico, fazer comida... “Foi uma decisão que tomamos antes de ele nascer, para não deixá-lo com babá. Eu não tive babá, fui criado pela minha avó”, explica.

Publicitário que trabalhava como designer e fotógrafo freelancer, Renato tinha renda mais incerta que sua mulher, bancária, que “tem mais perfil de executiva mesmo”. Quando Mateus nasceu, ele largou tudo por um ano para se dedicar exclusivamente ao filho, enquanto a mulher cumpriu apenas a licença-maternidade. “Se ela não ganhasse o que ganha, não daria para eu parar”, afirma, sem aparentar insegurança por não ser o “provedor”. Em fevereiro deste ano, quando colocou Mateus na escola, Roberto retomou sua agenda de trabalhos ocasionais apenas em meio-período e organizada em torno do filho. “Ele é meu despertador, a manhã é exclusivamente dele. Acordo, dou banho, preparo a comida, faço a lancheira, levo e busco na escola, brinco na praça. Também faço o jantar. Às vezes não cozinho à noite porque não agüento mais o fogão”, conta Renato, que tem uma diarista para ajudar na faxina.

Artigo raro no país, ele garante que nunca sofreu preconceito e que seus amigos, entre os quais nenhum dono-de-casa, “acham o máximo” sua opção –assim como Sofia. “Ela acha ótimo o Mateus não ficar com uma pessoa estranha, mas fica triste porque algumas vezes ele procura o pai, não a mãe”, conta. “Eu não tenho a sensação de que isso aconteça porque ele fica mais comigo, mas ela tem, associa à ausência provocada pela carga horária pesada de trabalho.” Sobre a predominância feminina nos cuidados com os filhos, Renato usa sua condição de exceção para confirmar a regra. “É mais fácil cortar o pai nos cuidados com os filhos”, acha. “Queira ou não, às vezes é mais importante a mãe estar presente, há uma ligação de barriga. Além disso, a mulher faz várias coisas ao mesmo tempo, é multitarefa. Eu me desdobro, é sofrido. Queimo o arroz tirando ele do banho... Faz falta isso!”

O triunfo de qual amor?
Contardo Calligaris

Talvez a gente esteja inventando um novo tipo de casamento, uma aliança sentimental sem paixão

Em 1998, 20% dos homens entrevistados na pesquisa Família Brasileira pensavam que a principal qualidade de uma esposa consistisse em saber cuidar da casa. Hoje, esse percentual caiu para 7%. Também em 1998, outros 12% escolheram cuidar bem dos filhos como qualidade principal. Em 2007, foram só 4%. Até aqui poderíamos entender, simplesmente, que, na última década, os homens, enfim, pararam de esperar que suas esposas fossem babás e governantas. A recíproca, digamos assim, também aconteceu: há nove anos, 14% das mulheres diziam que a principal qualidade de um marido consistia em sustentar a família. Agora, são 4% as que pensam o mesmo. Aprimoremos, portanto, a conclusão: os brasileiros se casariam cada vez menos para distribuir as tarefas do lar. Acabou de vez a época dos caçadores-colhedores; já estava na hora.
Ora, talvez a pesquisa de hoje mostre que estamos amadurecendo, ou seja, reformulando essa utopia impossível: nada de resignação, mas a invenção progressiva de um novo tipo de casamento. Veja só. Os entrevistados tiveram que escolher, entre seis itens, qual seria o mais importante para a felicidade de um casamento. Pois bem, 38% escolheram a fidelidade (contra 23% em 98). Em compensação, a importância do amor diminuiu, de 41% para 35%. Estranho, não é? Afinal, o ciúme não é um complemento do amor-paixão? Como pode diminuir a exigência de amor e aumentar a de fidelidade? A resposta está em outros números oferecidos pela pesquisa.
Entre 1998 e hoje, aumentou o percentual das mulheres que consideram como principal qualidade de um marido sua capacidade de ser companheiro e amigo (de 6% para 11%) e de ser atencioso (de 3% para 10%). Que ele ame a esposa é também crucial, mas talvez esteja mudando nossa idéia do tipo de amor que deve acompanhar e sustentar o casamento. Talvez não procuremos mais o amor-paixão (note-se que a vida sexual satisfatória como item necessário para a felicidade da união ficou com um triste 2%), mas um amor companheiro e amigo, “um amor tranqüilo”, como diz a música.
Se isso fosse verdade, a fidelidade, hoje considerada uma qualidade essencial do marido e da esposa, não seria a exigência possessiva da paixão. Existe uma fidelidade que não consiste em evitar aventuras, escapadas e amoricos paralelos; é o tipo de fidelidade que é exigível de um amigo. Talvez, em suma, esteja aparecendo um novo tipo de casamento moderno, baseado, como deve ser, nos sentimentos, mas não no ideal do amor-paixão romântico nem do da satisfação sexual: uma espécie de aliança sentimental para a vida.
Ia terminar comentando que essa transformação do casamento não seria um mal. A verdade é que ela já está em curso, nas inúmeras uniões que continuam e persistem numa amizade em que, às vezes, parece que o amor se perdeu, quando, de fato, é nessa amizade que ele se transformou.

Contardo Calligaris, psicanalista e colunista da Folha, é divorciado (duas vezes, e não da mesma mulher) e tem um filho

14% é o menor índice dos que acham que a fidelidade deve ser a principal qualidade de uma mulher e é registrado na faixa dos que ganham mais de 20 SM. Entre os mais pobres, é de 21%

Todo homem é solteiro e sem filhos

É o que um alienígena concluiria ao conhecer qualquer banca de revistas. Enquanto as publicações femininas são claramente diferenciadas para leitoras solteiras e casadas, as masculinas ignoram qualquer assunto do tipo cricri –nada de crianças, criadagem, crise (conjugal). Falam basicamente de mulher e dos eternos objetos de desejo dos meninos que, ao menos nas bancas, eles parecem continuar sendo toda a vida.

RELACIONAMENTO
“Como convencer sua garota a não usar calcinha” (“VIP”)

“Seis formas sutis (e deliciosas) de entrar em contato com ele” (“Nova”)

TRABALHO
“Mulher com filhos x Mulher sem filhos – Quem fica com a vaga?” (“Claudia”)

Empresário “conta sua trajetória surpreendente de vida e revela como é o seu dia-a-dia no trabalho” (“Universo Masculino”)

OBJETO DE DESEJO
“Carros a hidrogênio ou eletricidade são a sensação lá fora” (“Homem Vogue”)

“Mala e kit para piquenique vintage, R$ 8.500, Vila Vitória” (“Vogue”)

TESTE
“Enviamos nosso repórter a campo [no parque Ibirapuera] para saber o que mais chama atenção das mulheres: uma bicicleta toda equipada, um cachorro fofo, uma criança loirinha ou um documento avantajado” (“VIP”)

“Marie Claire' convidou 4 mulheres para tirar a limpo as queixas de seus parceiros. Durante uma semana, elas fizeram o que eles queriam. Será que eles ficaram mesmo satisfeitos?” (“Marie Claire”)

ARTES MANUAIS
“Fábrica de calcinhas – Nosso repórter aprende a fazer essa peça tão pequena e tão importante para as garotas” (“VIP”)
“Calça bordada - Transforme a peça em item fashion com paetês e miçangas” (“Manequim”)

PERFIS
O correspondente de guerra David Halberstam: “Sua carreira foi brilhante, alternando clássicos do jornalismo político e internacional com grandes feitos em jornalismo esportivo” (“Homem Vogue”)

A correspondente de guerra Christiane Amanpour: “Nem o filho pequeno a impede de relatar, direto do front, os eventos mais terríveis do nosso tempo...” (“Claudia”)

Eles gostam mais do casamento
Daniel Bergamasco

Diferença de avaliação sobre a vida a dois entre homens e mulheres cresce conforme a idade

Uma das verdades universais diz que mulher adora casar e faz tudo para isso, enquanto os homens resistem o quanto podem, porque casamento não é vantagem para eles. Pode até ser, mas deve haver algum encanto nessa gaiola, para justificar os 88% de entrevistados masculinos que qualificam a vida a dois como ótima/boa. Entre elas, a satisfação também é alta, mas nem tanto: 82%. Eles estão sendo políticos ou sinceros? “Sinceros. Não é difícil entender o porquê”, diz o psicanalista Ailton Amelio da Silva, doutor pela USP, co-autor do livro “Para Viver um Grande Amor” (editora Gente), sobre felicidade conjugal. “Os homens têm mais subterfúgios quando há problemas no casamento: vão para o bar com os amigos, abstraem vendo um jogo de futebol na televisão. Eles sofrem mesmo é quando estão sozinhos”, diz. “As brigas são mais sofridas para as mulheres, que querem ficar discutindo a relação e pensando no assunto.”
Em geral, os mais jovens se dizem mais felizes. Entre os que têm de 16 a 25 anos, 92% dos homens afirmam que o casamento está “ótimo” e “bom”. A diferença com as mulheres é de apenas três pontos percentuais: 89%. A distância atinge seu auge depois dos 41 anos: 87% dos homens contra 77% das mulheres. Nessa faixa, 5% delas dizem que o relacionamento está “ruim” ou “péssimo” (dos 16 aos 40 anos, só 1% delas dizia isso), contra 2% deles (mesmo percentual verificado em qualquer faixa etária).
Rosane Mantilla de Souza, doutora em psicologia pela PUC, afirma que objetivos diferentes de vida são uma das causas da disparidade. “Os homens se casam para constituir família, e seus desejos são, em grande parte, os de solteiro. Já as mulheres se casam para realizar um sonho, mas o casamento e os filhos acabam pesando muito mais sobre ela, que tem que ser mulher, mãe, profissional e ainda enfrentar uma quarta jornada: ser bonita.” A psicóloga Andréa Soutto Mayor, doutoranda pela USP na área de relacionamento amoroso, diz que o casamento é mais cômodo para os homens, que têm comida, roupa lavada...
“As mulheres já foram mais conformadas, mas isso mudou. O casamento feliz acontece quando os dois começam a ter objetivos em comum, pensar a vida como uma jornada, na qual os dois caminham juntos, mas sem abrir mão de espaços individuais.”

O país do matrimônio
Julio Wiziack

Na divisão por estado civil, os casados somam o maior grupo, o que faz dos brasileiros os mais “casadoiros” da América Latina

Casados há 18 anos, Solange e Julio Davini engrossam o contingente dos 49% de brasileiros casados, o maior grupo na segmentação por estado civil no país, segundo a pesquisa Datafolha. Com uma ou outra variação, eles também encarnam outros aspectos cuja prevalência na pesquisa ajudam a compor o perfil médio da família brasileira. Entre eles, constam a duração do matrimônio, de 16 anos, em média, e o número de filhos. No retrato abstrato dos números, a taxa nacional é de 2,7 por família, segundo o Datafolha. Solange e Júlio têm três: Monize, 16, Iago, 15, e Milena, 10.
Em termos de renda, no entanto, os Davini são uma minoria. Donos de uma pequena corretora de seguros e com um rendimento médio de 18 salários mínimos, Julio e Solange estão entre os 6% dos brasileiros que ganham entre 10 e 20 salários mínimos. Segundo o Datafolha, só 2% no país ganham mais do que eles, entre 20 e 50 salários mínimos. No Brasil, o maior percentual de pessoas (35%) sobrevive com renda familiar de até dois salários mínimos. Outros 24%, com rendimentos familiares entre dois e três mínimos.
Para tentar entender como a família brasileira se constitui, o Datafolha investigou o perfil e comportamento dos casados, separados, viúvos e do grupo de solteiros que já viveu com alguém. Entre o último levantamento do tipo, de 1998, e o de agora, muito pouco mudou em termos gerais. De lá para cá, o percentual de casados (49%) permaneceu o mesmo, assim como o de solteiros (37%). O total de separados apenas oscilou, de 8% para 9%, e o de viúvos ficou estático em 6%. Dentro de cada um desses grupos, no entanto, ocorrem variações importantes quando os cortes são feitos levando em conta renda ou escolaridade. Entre os dois períodos, por exemplo, houve um salto de 15 pontos percentuais (de 76% para 91%) no total de casais com filhos que têm renda familiar só até 10 salários mínimos. Já os casais com filhos que ganham entre 10 e 20 mínimos encolheram de 15% para 6%.
Como o Datafolha considera "casadas" pessoas que vivem juntas, independentemente do modo como selaram essa união, também foram registradas mudanças substantivas na maneira de constituir a família. Entre os que já se casaram, os números mostram que, entre 1998 e 2007, houve uma queda de 11 pontos percentuais (de 55% para 44%) no total dos que selaram a união tanto em cartório de registro civil quanto em igreja. Os dois principais motivos para o não-casamento no civil, segundo o Datafolha, são "falta de interesse do companheiro(a)" (16%) e "custos financeiros" (15%).

Independência tardia

Demógrafos e especialistas afirmam que existem outros fatores por trás da queda no percentual de brasileiros que buscam a união formal ou religiosa. A introdução do novo Código Civil, em 11 janeiro de 2003, por exemplo, mudou a postura das pessoas em relação ao casamento. Com as novas normas, o casamento de "papel passado" e as uniões consensuais não formalizadas acabaram se tornando praticamente iguais no que tange a direitos e deveres. "Do ponto de vista do direito familiar, ambos (casamento civil e união consensual) são equiparáveis", afirma o advogado Álvaro Villaça.
Além disso, o que antes era um "fenômeno de classe baixa", hoje significa um novo estilo de vida, afirma Elisabete Doria Bilac, pesquisadora da Unicamp. "Para o brasileiro, morar junto é casar. As pessoas casam menos no papel, mas continuam se unindo. O que antes era um fenômeno de classe baixa, hoje significa um novo estilo de vida. A população educada também mora junto para ver se dá certo antes de casar e isso é uma redefinição da vida familiar, são ressignificações e renegociações nas relações afetivas."
Apesar de o percentual de casados ter se mantido em 49% entre 1998 e 2007, houve uma mudança importante no período entre as pessoas que optam por continuar solteiras e morando com os pais. Segundo o Datafolha, há 24% de mulheres e homens solteiros no país que ainda moram com os pais. E o percentual cresce justamente entre os que têm maiores níveis de escolaridade: passou de 50% para 65% entre os que têm o nível médio e de 8% para 15% entre os com nível superior.
A independência financeira das pessoas que priorizam a consolidação de suas carreiras, morando com os pais ou sozinhas, seria um dos fatores responsáveis por adiar casamentos. A engenheira e arquiteta mineira Marcelle Andrade Freitas é uma das que investiram primeiro na sua estabilidade financeira. Aos 29 anos, ela construiu sua carreira em São Paulo em uma multinacional brasileira, onde conheceu o publicitário paulistano Fernando Bernardineli, 29. O namoro durou anos, e o casamento só aconteceu no início de setembro, após 12 meses de preparativos. "Eu queria me casar na Igreja Nossa Senhora do Brasil", diz Marcelle. Santuário preferido das noivas paulistanas, Marcelle conseguiu passar na frente da fila de espera porque uma das noivas desistiu do casamento. "Senão, teria de esperar mais um ano."
Marcelle e Fernando não chegaram a dividir o mesmo teto antes de oficializar a união, mas organizadores de festas indicam que a vida a dois antes do casamento vem se tornando comum. "Eles constroem patrimônio e se mostram mais comprometidos quando chegam para contratar nossos serviços", afirma Flavia Gurgel, da Specialle Assessoria de Eventos.
De um jeito ou de outro, os brasileiros são os mais "casadoiros" da América Latina. Entre 2000 e 2004, período mais recente de uma pesquisa realizada pelo Unfpa (Fundo das Nações Unidas para a População), o número de casamentos registrados em cartórios no Brasil era de 6,3 por grupo de 1.000 habitantes. Entre os venezuelanos, últimos dessa lista, esse índice era de 2,8. Comparando com os demais continentes, os brasileiros ficam na média mundial.

Para o brasileiro, morar junto é casar. As pessoas casam menos no papel, mas continuam se unindo. O que antes era um fenômeno de classe baixa, hoje significa um novo estilo de vida. Elisabete Doria Bilac, pesquisadora da Unicamp

Plano de previdência privada
Cristiane Barbieri

Antropóloga diz que brasileiros apostam na família como uma espécie de seguro contra a solidão e a falta de amparo do Estado na velhice

A família aumentou sua importância, mas a relação dos brasileiros com pai e mãe continua a mesma. O que não chega a ser ruim, considerando o alto patamar de satisfação confessado: 76% dos entrevistados avaliam como ótima/boa a relação com o pai, enquanto 91% dizem o mesmo da relação com a mãe. São praticamente os mesmos números registrados na pesquisa de 1998, respectivamente de 77% e 90%. O cenário se repete no relacionamento com irmãos (71% de ótimo/bom) e irmãs (68%, idem).
“Muitas pessoas pensam erroneamente que o aumento no número de divórcios significa a desvalorização da instituição família”, afirma Elisabete Doria Bilac, pesquisadora Nepo (Núcleo de Estudos de População) da Unicamp (Universidade de Campinas). “Só que quem se divorcia para casar de novo busca relações que lhes dêem mais satisfação porque gostam da vida familiar.”
Devem gostar mesmo, a considerar pela quantidade de entrevistados que diz almoçar ou jantar com a família de segunda a sexta ou, o programa nacional, nos fins de semana. No caso do almoço dominical com pai/mãe, 92% professam o hábito; com os filhos, 96%. Com outros integrantes da família, os índices continuam altos, embora revelem queda, a maior delas, com avô/avó, de 99% para 90%. Para os pesquisadores, a valorização da família conjugada ao crescimento do respeito aos valores pessoais (sexualidade, por exemplo) significa que os brasileiros estão dando novos significados às relações familiares e também à união cojungal –já que não é obrigatório viver junto em nome das aparências, só ficam em pé os casamentos que realmente valem a pena.
“Não vou dizer que foi fácil o tempo todo”, diz a funcionária pública Cristina Maria dos Reis Santos, 43, casada há 20 anos com o açougueiro Edmilson Pereira dos Santos, 45. “Nós tivemos filhos jovens e praticamente crescemos com as crianças. Discutimos a separação mais de uma vez, mas a importância da família sempre pesou mais e procuramos mudar para continuar tentando fazer dar certo.” Traduzido para a linguagem antropológica, o esforço de Cristina e Edmilson se espelha num ideal de casamento e família que é muito mais forte no Brasil do que em outros países católicos onde as condições de subsistência na velhice e na saúde estão garantidas, como a Itália. “Os brasileiros têm a fantasia ou a ilusão de que família é um seguro contra a solidão em um Estado que não provê condições básicas à sua população. É só um ideal, porque não é o que geralmente acontece, nada garante que não se viverá sozinho”, declara Mirian Goldenberg, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Nessa família revalorizada, o segredo parece vir das doses acentuadas de tolerância. Goldenberg acaba de concluir um estudo em que compara as relações familiares no Brasil e na Alemanha. Aqui, diz ela, não há a ruptura entre o ideal do indivíduo e a idéia de família: as pessoas conseguem ter seu espaço, mesmo numa intensa convivência familiar, o que não acontece em muitos países europeus, onde a busca pela individualidade obriga os filhos a saírem de casa o mais cedo possível. Em culturas como a alemã e a anglo-saxã, a independência é, em geral, fortemente incentivada, por isso é mais comum os jovens dormirem com seus parceiros na casa dos pais. Em compensação, eles se sentem muito invadidos e pressionados a deixar a casa para garantir que serão independentes, segundo Goldenberg. “O [antropólogo] Gilberto Freyre desenvolveu um conceito perfeito para a cultura brasileira, do antagonismo em harmonias”, diz ela. “Nossa riqueza cultural permite a uma pessoa ser católica, macumbeira e espírita ao mesmo tempo, ou a uma intelectual fazer plástica, sem qualquer conflito.”
Transferida para o contexto da família, essa tolerância entre as opiniões diferentes tornou a convivência mais fácil e estreita, e a família brasileira conseguiu desenvolver mecanismos de cultivo à individualidade. É isso que explicaria a maior tolerância a filhos que dormem com namorados na casa dos pais. Ou a demanda por vários banheiros –o fenômeno das suítes é muito particular no Brasil.

Discutimos a separação mais de uma vez, mas a importância da família sempre pesou mais e procuramos mudar para continuar tentando fazer dar certo. Cristina Maria dos Reis Santos, 43, casada há 20 anos

A família brasileira

* 3,8 é o número médio de pessoas por casa
* A quantidade média de filhos por família é 2,7
* 27% dos casais estão juntos há mais de dez e menos de 20 anos Os casados com filhos que têm renda de até dez salários mínimos são 91%
* Os brasileiros que não costumam conversar durante as refeições equivalem a 30%
* 35% dos brasileiros ganham até dois salários mínimos, e outros...
* 24% ganham entre dois e três salários mínimos
* Solteiros que já se casaram ou viveram com alguém como se fossem casados são 17%

Mesma cabeça, outras sentenças
Mauro Paulino e Alessandro Janoni Hernandes

Mudanças tão expressivas quanto as reveladas só são possíveis no país se forem intensas nos segmentos mais populares

Quase dez anos depois, o Datafolha revela novamente os códigos que determinam as relações na mais valorizada instituição brasileira. A família, nesse período, cresceu em importância, e seu núcleo básico ganhou força. Mas são os valores, especialmente os ligados à sexualidade, que mais apresentam mudanças nesse espaço de tempo. O primeiro contato com esses resultados pode gerar a interpretação de que parte dos brasileiros evolui para o universo do politicamente correto. Classificar dessa forma a tendência chega a soar como uma arrogante projeção de preconceitos. É desconsiderar o caráter espontâneo e sem compromisso da cordialidade do povo brasileiro, idéia desenvolvida pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda no clássico “Raízes do Brasil”.
É claro que o espaço conquistado por tais temas na mídia desperta atenção, mas a opinião que o indivíduo expressa sobre essas questões pode ser fruto da relação entre suas referências pessoais e o ambiente de branda censura, contrário portanto à natureza racional e polida do politicamente correto. O conceito da cordialidade também foi usado como mote de análise em pesquisa do Datafolha sobre o racismo no Brasil, realizada em 1995. Por meio de combinação de variáveis, concluía-se, na época, que existia no país um racismo em grande parte oculto, identificado apenas depois de uma leitura detalhada das variáveis incluídas no estudo. Na ocasião, o geógrafo Milton Santos alertou para a necessidade de observar, além da opinião, o comportamento dos entrevistados em relação ao assunto, como complemento e prova de seus sentimentos. Seguindo o raciocínio, vale buscar, no cenário atual, demonstrações de atitude da população que ilustrem as mudanças detectadas pelo Datafolha.
Indícios da crescente tolerância encontram-se não só no número dos participantes de eventos pela diversidade sexual como também nas suas características. Pesquisa Datafolha realizada na 9ª Parada do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Trangêneros) na cidade de São Paulo em 2005 mostrou que metade de seus participantes se autoclassificava heterossexual e que ali estava como simpatizante. Alguns valores dos brasileiros mudaram nos últimos dez anos, e essa conclusão torna-se explícita com a comparação de dados entre pesquisas idênticas feitas nos períodos correspondentes. E mudanças tão expressivas quanto as reveladas por esta pesquisa só são possíveis no país se forem intensas nos segmentos mais populares. Afirmar o contrário, sem a comparação dos dados, também pode soar como preconceito.

Mauro Paulino e Alessandro Janoni Hernandes, são, respectivamente, diretor geral e diretor de pesquisas do Datafolha.


Mudança de registro
Laura Mattos

Maior exposição na mídia, popularização das paradas e uma tendência mundial pelo direito dos homossexuais explicam o aumento da tolerância, dizem estudiosos e militantes

O Sudeste é menos intolerante: 18% não vêem problema ter filho/a namorando alguém do mesmo sexo

O que aconteceu nos últimos nove anos no Brasil para que um quinto dos pais deixasse de considerar “muito grave” que um filho ou filha namore alguém do mesmo sexo? Mais: por que aumentou o número daqueles que nem acham que isso seria um problema? De 1998 para cá, a militância e as paradas gays se multiplicaram, Jean Wyllys assumiu ao vivo e venceu o “Big Brother”, um acordo judicial deu à companheira de Cássia Eller a guarda de seu filho e quase todas as novelas das oito passaram a ter personagens homossexuais.
“Se o debate não entrou na casa das pessoas pelos jornais, chegou via novelas, que estão discutindo se gays podem ou não adotar uma criança, beijar-se etc. De modo geral, a abordagem, ainda que não seja ideal, tem sido positiva e menos caricata. Mesmo quem é menos informado passou a ter contato com a questão”, diz a antropóloga Regina Facchini, vice-presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de SP.
Facchini e outros estudiosos da homossexualidade receberam com otimismo a queda de preconceito registrada pelo Datafolha. “É uma mudança grande, não só pelo número dos que deixaram de considerar 'muito grave' que o filho ou filha tenha uma relação homossexual, mas principalmente porque houve uma subida notável entre os que não consideram isso um problema”, avalia.
Para a antropóloga, o resultado está relacionado à maior visibilidade do movimento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e trangêneros). “A militância levou à apresentação de projetos de lei, como o da parceria civil entre homossexuais e o da criminalização da homofobia. Ainda que até agora não tenham sido aprovadas, essas propostas acabaram por ampliar o debate na sociedade. Paralelamente, tivemos o crescimento das paradas. A de São Paulo começou em 1997 com 2.000 pessoas. Neste ano, foram 3,5 milhões. Há dez anos, tínhamos, além da paulistana, apenas a do Rio. Hoje são mais de cem espalhadas pelo país.”
Facchini aponta que, nos últimos anos, a discussão sobre homossexualidade não só é mais ampla como teve um salto qualitativo. “Nos anos 1980, pouco se falava sobre o assunto e, quando passou a ser abordado, estava ligado à Aids. Com o tempo, a mídia deixou de fazer reportagens apenas sobre números da Aids ou de assassinatos de gays. A pauta não é só de desgraças.”
Antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), Luiz Mott também menciona a maior visibilidade do movimento e a “heterossexualização da Aids”, mas acrescenta outros dois fatores: uma tendência mundial de divulgação de estudos científicos que apontam a normalidade da homossexualidade e políticas governamentais, como o programa Brasil sem Homofobia, do Ministério da Saúde, que exibiu anúncios positivos na televisão.
O mesmo programa é citado por James N. Green, historiador, brasilianista e ativista do movimento gay norte-americano. Autor de três livros sobre a homossexualidade no Brasil, ele afirma que as campanhas governamentais brasileiras estão alinhadas ao movimento internacional pelos direitos dos homossexuais e complementa: “Antes, só homens mais efeminados e mulheres mais masculinizadas eram visíveis. A tolerância aumentou conforme mais pessoas se assumiram”, acha. Para o historiador, o fato de a juventude atual também discriminar menos acaba afetando positivamente familiares mais velhos. Segundo o Datafolha, as taxas mais baixas de rejeição aparecem na faixa etária dos 16 aos 25 anos. Mas Green acha ainda que a ficção está ajudando a mudar a realidade. “Apesar de alguns retratos que mantêm o preconceito, as novelas brasileiras foram fundamentais para a queda da intolerância”, diz. Mott concorda que os folhetins ajudaram, mas é mais contundente na crítica a eles.
“Falta ousadia, como esse casal assexuado de ‘Paraíso Tropical’. A telenovela já criou muitos personagens caricatos, como o Uálber [guru interpretado por Diogo Vilela em ‘Suave Veneno’, 1999]. Até agora, o casal mais positivo foi Sandrinho [André Gonçalves] e Jefferson [Lui Mendes], de ‘A Próxima Vítima’ [1995]”, opina. Convicto do papel das novelas na redução do preconceito contra gays, Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia da USP, acha o casal de “Paraíso Tropical” positivo. “Eles visivelmente se amam, não é uma relação de sacanagem. Isso é interessante porque, para muita gente, a homossexualidade não está tão ligada ao amor, mas a uma sexualização mais forte. É como se fosse mais escandalosa, sacana, e a heterossexualidade, mais discreta.”
Na opinião de Mott, contudo, mais do que as novelas, dois episódios midiáticos dos últimos anos foram essenciais. “Houve uma comoção nacional favorável ao movimento homossexual em dois momentos: quando Jean Wyllys se assumiu gay e ganhou o ‘Big Brother’ e quando a namorada de Cássia Eller obteve a guarda de seu filho”.
A companheira de Cássia por 14 anos, Maria Eugênia Martins e o pai da cantora, Altair Eller, disputaram na Justiça a guarda de Chicão, filho de Cássia, que contava oito anos quando ela morreu, em 2001. Após acordo, o menino ficou com Eugênia. “Na época houve mesmo uma comoção do país, da mídia. Fiquei muito admirada e comovida com o apoio que recebi das pessoas”, lembra.

Resposta aos pessimistas

O psicanalista e professor do Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Jurandir Freire Costa, 63, encara com otimismo os principais resultados da pesquisa Datafolha. “A sociedade brasileira dá uma resposta positiva aos pessimistas que insistem em desqualificá-la.” Na avaliação dos fatores que contribuíram para os resultados, o psicanalista menciona, em primeiro lugar, a educação, seguida pelo maior acesso à informação. O terceiro item é uma espécie de recuo ao núcleo familiar, que ele comenta abaixo, onde também interpreta outros dados revelados. (por Roberto de Oliveira)

Mais família

“A família é uma instituição confiável que se contrapõe a tantas outras instituições brasileiras desvalorizadas, como o Estado, representado pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Por outro lado, essa valorização mostra que a nossa sociedade concentra os seus valores na família. Não é bom. Porque é o lado privado da ética e não o público”, afirma o psicanalista.

Mais religião

“Junto com a da família, revela um avanço. A religiosidade hoje é mais ampla e menos clerical, menos institucionalizada, o que permite maior adesão aos seus princípios espirituais e também simboliza uma maior abertura moral.”

Mais estudo

“Significa que há também valorização da cultura, que é tudo aquilo que nossa civilização produz. Que maravilha! É mais um argumento para derrubar essa corrente pessimista que insiste em achar que a sociedade brasileira não tem valores.”

Menos dinheiro

“Se você reduz o valor do dinheiro, também favorece a imagem da sociedade. Revela o verdadeiro propósito do dinheiro, que é atender às necessidades materiais. Ele não cria valores éticos.”

Menos aborto/mais homotolerância

“Acena para uma maior sensibilidade à vida. Ao mesmo tempo em que defende um valor maior da vida, o brasileiro se torna mais tolerante em relação ao homossexualismo. É uma evolução ética, uma abertura para o diferente. Quais são os princípios que organizam uma sociedade? Justiça, na qual todos têm direito à vida. Outro é a fraternidade, com bases cristãs. A abertura em relação ao diferente e o ideal político da persuasão, do convencimento, também são outros fatores importantes. É um progresso.”

No Norte/Centro-Oeste e no Sul a tolerância cai para 15%; no Nordeste, 10%

Os novelistas e a pesquisa

Lauro César Muniz – A existência de personagens gays em quase todas as novelas das oito nos últimos tempos é uma banalização, sim –mas uma banalização positiva, porque faz adquirir um status de normalidade, acredita. Não tem dúvidas sobre o papel desempenhado pelas novelas no aumento da tolerância e defende que os folhetins avancem, assumindo “verdadeira militância” para estender aos gays os mesmos direitos dos héteros. “As novelas têm de passar a reivindicar o pleno direito às relações gays, direito de herança, adoção de crianças, legislação equiparada à dos héteros. Fiz campanha pelo divórcio em 'Escalada' [1975], e a lei foi aprovada.” Ele adianta que pretende fazer “merchandising social” pró-gays em sua próxima obra, prevista para maio. “Tomara que me deixem colocar no ar o primeiro beijo gay.”

Silvio de Abreu – O criador do jovem casal Sandrinho e Jefferson, na novela “A Próxima Vítima” (1995), considerado um marco pelo movimento GLBT, foi outro que comemorou o resultado da pesquisa. Abreu conta que, em 1995, recorreu a um “truque” : “Resolvi não fazer nada estereotipado nem revelar que eles eram gays até que já fossem queridos pelo público. A revelação se deu em uma conversa entre Sandrinho e a mãe dele. Ele dizia: ‘Eu não sou assim porque quero, sou porque nasci assim’. Não estou dizendo que isso mudou o mundo, mas colocou-se uma idéia, começou uma nova maneira de ver a questão”.

Manoel Carlos – Criador de gays em “Por Amor” (1997), “Mulheres Apaixonadas” (2003) e “Páginas da Vida” (2006), tem receita parecida. “Eles precisam ser pertinentes, sem forçar a barra nem escandalizar ninguém.”

Gilberto Braga – Criticado pela falta de intimidade do casal Rodrigo e Tiago, de “Paraíso Tropical”, resume a dificuldade dos autores, prensados entre a moral do público e as reivindicações do movimento gay. “Precisamos que eles sejam bem aceitos pelo público”. O autor, aliás, viveu recentemente uma situação que poderia migrar para suas tramas. Em uma entrevista, declarou que seu companheiro, com quem vive há mais de 30 anos, não podia ser seu dependente no plano de saúde. Depois disso, o caso foi solucionado pela Globo. (LM)

Depoimento - Como contar para a mãe – Contar aos amigos que você é gay é relativamente fácil, já existe uma tolerância generalizada que facilita tudo, pelo menos em algumas camadas sociais. Além disso, quem é realmente amigo percebe que o sujeito é gay sem ele nem precisar dizer nada. Agora, falar para a mãe ou o pai já fica bem mais difícil. Dizem que as mães sempre sabem, mas fazem tudo para convencer o filho de que isso não é bom. Falam de netos, de solidão na velhice, de amor, de respeito da sociedade e de qualquer coisa que venha à cabeça delas para desestimular a viadagem. Mas o que tem que ser vai ser. Com ou sem a aprovação dos pais. Alguns gays até chegam a casar para satisfazer a família, mas depois de um tempo deixam suas mulheres para tentar a sorte com um garotão. As mães fingem que não vêem, e os filhos fingem que nada mudou, foi “só” o casamento que não deu certo. E aqueles garotos mais jovens, com os quais ele passou a andar, são só amigos da academia ou das baladas de solteiro. E os que não querem nem saber de mulher? Os que nunca tiveram uma namorada nem querem ter? Esses são os que poderiam assumir já aos 12 ou 13 anos, mas não! Ficam escondendo até muito mais tarde. Levar o namorado para casa só se for disfarçado de amigo. Contar como? Chegar para a mãe e dizer: “Mamãe, sou gay!”? Na lata? Sem rodeios? Se ter que contar que tirou nota baixa na escola já é difícil, imagine isso. Alguns pais chegam a brigar pela “honra” dos filhos, defendendo o herdeiro de todas as acusações. Isso faz tudo ficar ainda mais difícil. Como contar que você é realmente gay depois que eles brigaram com sua tia, para sempre, por causa desse assunto? Uma vez um amigo me pediu para mandar uma carta anônima à mãe dele; eu recusei, e ele mesmo acabou enviando. E, qual não foi a surpresa?, a mãe fingiu que não tinha recebido a carta. Depois de alguns anos, ele contou não só que era gay, como também que tinha sido ele quem tinha enviado a carta. A mãe disse que sempre soube, mas que não conseguia admitir. Chorou como uma louca, depois foi aceitando aos poucos, mas ele ainda não teve coragem de apresentar nenhum namorado a ela. Não adianta fazer rodeios; mãe só acredita que o filho é gay no dia em que escuta da própria boca dele, e mesmo assim ainda fica tentando fingir que é só uma fase.

Duilio Ferronato, 44, colunista da Folha e designer, mora com o namorado há dois anos.