Sunday, November 07, 2010

Serra erra ao optar pelo não-confronto

01 de novembro de 2010 | 0h 14

Christiane Samarco, de O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - José Serra chegou ao final da segunda campanha presidencial - e mais uma vez derrotado - carregando dois grandes erros. Primeiro, o tucano não conseguiu anular a guerra eleitoral plebiscitária montada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para Dilma Rousseff. Segundo, abrindo mão de se apresentar como candidato de oposição.

Serra não conseguiu convencer o eleitor de que ele deveria trocar a "continuidade" prometida por Lula por um novo governo tucano.

Depois de admitir que Lula era um personagem da política "acima do bem e do mal" e de dizer que "candidato a presidente não é líder da oposição", Serra fez uma campanha com tanto ziguezague que, diante, novamente, da acusação de "privatista", encheu o horário eleitoral com propaganda em que revidava acusando Dilma de "já ter vendido parte do pré-sal a estrangeiros".

A expectativa inicial era bem diferente. Quando o então governador de Minas Gerais e senador eleito Aécio Neves discursou no dia 10 de abril a cerca de 3,5 mil dirigentes e militantes do PSDB, DEM e PPS, no pré-lançamento da candidatura Serra, o tucanato identificou ali o mote para a campanha de oposição. Sob aplausos entusiasmados do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e apupos de toda a plateia, Aécio voltou sua artilharia de críticas e ataques ao PT e ao modo petista de governar.

Grato pelo discurso firme de apoio do mineiro, Serra chegou a beijar Aécio na face. Mas a cortesia política parou aí. Lançada a candidatura, o ex-governador não foi chamado para discutir e definir as táticas da campanha. Ao contrário, os encontros iniciais com Fernando Henrique e o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) acabaram suspensos pelo próprio Serra.

"São reuniões da agenda negativa", queixava-se o candidato Serra. Além da resistência a críticas e sugestões, havia o temor de que eventuais reparos vazassem para a imprensa. Serra não ouviu os líderes tucanos ao longo da campanha até a votação em primeiro turno. Colocado de escanteio, FHC não escondeu a mágoa nem a decepção com o candidato que não assumia o legado de seu governo e acabou perdendo a identidade.

Em desabafo a um interlocutor na ocasião, Aécio fez a seguinte síntese dos rumos da campanha do paulista: "Serra só queria apoio eleitoral, e não apoio político". A queixa generalizada do tucanato foi a de que o candidato à Presidência "não abriu espaço para discussões políticas dentro da campanha". Ao final do primeiro turno, o mesmo Aécio sintetizou a situação: "Serra foi candidato como quis, com o discurso que quis e da forma que quis."

Tanto é assim, que entrou na campanha com a vaga de vice aberta e arrastou a definição até o final do prazo legal para registrar a chapa. Não bastasse a recusa de Aécio em compor a "chapa puro-sangue do PSDB", que soava como derrota, Serra ainda esticou a corda a ponto de comprar briga com o DEM e de se desgastar interna e externamente com a escolha.

Ao final, o anúncio do vice Índio da Costa (DEM-RJ) não agregou votos nem apoios. A partir daí, Serra fechou a campanha, interrompendo o diálogo com tucanos e aliados. Ignorou o conselho político, que não se reuniu uma vez sequer, e se isolou da máquina partidária e dos aliados.

O DEM reclamou muito do candidato que passou o primeiro turno preocupado em não confrontar o presidente Lula. "Fazer oposição é um dever e ganhar é uma consequência", dizia o líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), que tocou a campanha em Santa Catarina sob ameaça de Lula de "exterminar" os Bornhausens da política.

Coordenação confusa. Serra não entrou na polêmica, até porque não montou um time nos Estados para tocar a campanha e ignorou os coordenadores regionais escalados pelo presidente do partido, senador Sérgio Guerra (PE). O candidato deixou claro que não queria reuniões com coordenadores. "Vão ficar reclamando e pedindo coisas. Isso não é bom", justificou.

Como não interagia com as regionais do PSDB e das legendas aliadas, acabou fazendo uma campanha de improviso Brasil afora. As programações eram definidas à última hora, sem mobilização. Surpreendidos com visitas não programadas, aliados se irritavam e reclamavam do candidato. Os erros foram tantos, que, diante da perspectiva de um segundo turno, a recomendação do comando da campanha a Serra foi uma só: "Não faça nada. Deixe que a tendência atual se encarregue de levá-lo ao segundo turno."

Apesar dos problemas, nos 20 dias que antecederam o primeiro embate a equipe de marketing apostava no segundo turno, tomando por base levantamentos internos. Receberam o resultado das urnas sem planos de mudança, mas líderes aliados e do PSDB já davam como certa a rediscussão dos rumos da campanha. Diziam que queriam mudar até o visual e o "astral" do candidato, e conseguiram.

Quando a campanha eletrônica recomeçou no rádio e na televisão, o tucanato finalmente gostou do que viu. Alívio geral diante da avaliação de que, no primeiro turno, Serra apostara tudo no programa de televisão e errara no marketing da campanha.

"O primeiro programa de televisão do Serra escureceu a humanidade. Foi tão ruim, que todo mundo se desorientou", lembrou Sérgio Guerra. "O candidato estava feio, o programa estava triste e a mensagem era desastrosa, com o Serra falando coisas que o povo não queria ouvir e não entendia." Já no segundo turno, todos estavam de acordo que o marqueteiro Luiz Gonzalez finalmente "acertara a mão".

Esperanças renovadas, a expectativa do tucanato era de que estava de volta o Serra dos acertos. Serra assumiu a segunda candidatura despido do perfil de desagregador e com uma imagem renovada de candidato que soma e agrega aliados. Ainda assim, o eleitor preferiu a "continuidade" e não viu em Serra razões para trocar de governo, repetindo o panorama político de 2006. Como hoje, o eleitor não viu na reeleição daquela época motivos para trocar Lula por Alckmin.

Saturday, November 06, 2010

Kennedy Alencar

31/10/2010

Colheram o que plantaram

Apesar de alguns erros derivados de certa soberba e de percalços sobre os quais não teve controle, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva executou com sucesso uma estratégia que traçou no começo do segundo mandato: eleger Dilma Rousseff como sucessora.

Foram eixos da estratégia não cair na tentação do terceiro mandato e apostar num plebiscito sobre os seus oito anos de governo contra os oito anos de Fernando Henrique Cardoso.

Enquanto a oposição e parte da imprensa acreditavam que Lula queria o terceiro mandato e fazia jogo de cena para esperar o melhor momento de mudar a Constituição, Dilma Rousseff ficou livre para aparecer nas vitrines positivas do governo. Se ela tivesse sido apontada candidata lá atrás, auxiliares como Erenice Guerra teriam entrado bem antes na alça de mira.

No entanto, dando o devido crédito ao chefe, Dilma ficou livre para ter o controle de todas as bandeiras positivas do governo, como conduzir a mudança da lei para explorar o pré-sal, gerenciar o programa de habitação "Minha Casa, Minha Vida" e virar a "mãe" do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

No teste de fogo da crise internacional de 2008/2009, Lula foi aprovado. Esse teste foi bem mais duro do que o rigoroso ajuste fiscal e monetário de 2003. A oposição cobrava de Lula capacidade de gerenciar a crise. E ele foi bem. Fez um rápido e certeiro diagnóstico da crise financeira internacional e de como o Brasil deveria enfrentá-la. O maior acerto: medidas para reforçar o mercado interno como forma de atravessar o deserto e compensar a queda da economia global.

Nessa estratégia vitoriosa, é justo registrar a importância da aliança PT-PMDB. Na crise do Senado, em 2009, a oposição tentou criar um racha na relação entre peemedebistas e petistas. A ideia era transformar o Senado, Casa na qual Lula sempre teve dificuldade, num bunker oposicionista. Mas Lula não jogou ao mar o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Em troca, obteve uma aliança formal com todo o PMDB, o que garantiu uma máquina política ainda mais expressiva no país e um tempo de propaganda no horário eleitoral gratuito para vender Dilma na hora decisiva.

O bom momento econômico favoreceu a tese de polarização PT-PSDB, apesar do susto com o desempenho de Marina Silva (PV-AC), que forçou a realização do segundo turno. Uma taxa de crescimento de cerca de 7% neste ano fortaleceu a defesa do continuísmo, dando gás a uma candidata tirada do bolso do colete. No contexto econômico, destacaram-se ainda as políticas de reajuste do mínimo, de ampliação do crédito, de massificação de programas sociais e de incentivo a grandes grupos nacionais considerados estratégicos e amigos.

Os principais erros da campanha não comprometeram o resultado final, mas trouxeram muita tensão ao governo na virada do primeiro para o segundo turno. A campanha de marketing de Dilma demorou a perceber a sangria de votos com o debate sobre a legalização do aborto. Gente da cúpula dava como favas contadas uma vitória no primeiro turno quando já era evidente que uma segunda etapa seria inevitável. O próprio Lula se iludiu com sua alta taxa de popularidade. Entre os percalços sobre os quais não teve controle, o principal foi a doença de Dilma em 2009.

Obtida a vitória, há também uma importante lição: a realização do segundo turno e o percentual de votos dados a Dilma não autorizam uma atitude arrogante em relação aos adversários e à imprensa, mas isso será assunto de outra coluna.

Ninguém ganha sozinho

Num cenário de extrema adversidade política, é surpreendente a performance de José Serra. Ele disputou a eleição contra a candidata do presidente mais popular da história recente num contexto de crescimento econômico e de transformações sociais inéditas no país. Nesse sentido, é uma derrota que não envergonha o PSDB, mas o candidato cometeu o principal erro de quem deseja conquistar a Presidência: achar que poderia se eleger sozinho.

Na primeira metade de 2009, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso selou um acordo entre Serra e o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Garantidos alguns compromissos, o mineiro seria vice de Serra, que governava São Paulo naquela época.

Fiador dos compromissos, FHC testemunhou Serra rompê-los. O primeiro deles: Serra não quis participar de reuniões prévias pelo país, nas quais o PSDB ouviria seus dois pré-candidatos e depois decidiria quem disputaria o Palácio do Planalto.

Líder disparado nas pesquisas, Serra julgava a ideia uma forma de miná-lo politicamente. Mas Aécio queria uma saída para dizer ao eleitorado de Minas por que aceitaria ser vice do governador paulista. Outro compromisso era afirmar com todas as letras que, se eleito, Serra patrocinaria novas mudanças constitucionais para que Aécio fosse o próximo da fila. Pelo acordo, Serra articularia a aprovação de projetos no Congresso para acabar com a reeleição e reinstituir o mandato de cinco anos. Aécio sempre demonstrou pouca crença na capacidade de, sentado no Planalto, Serra abrir mão da possibilidade de se reeleger. Mas FHC dizia a Serra que era importante que ele se comprometesse com essas alterações a fim de tranquilizar Aécio e Minas. O final dessa história é sabido.

Entre setembro e fevereiro, a folga sobre Dilma nas pesquisas deu a Serra a ilusão de que poderia ignorar os apelos para assumir a candidatura e fazer concessões a Aécio. Ele não aceitou as cobranças do PSDB e do DEM para admitir que era candidato e montou uma estrutura de campanha centralizada e distante dos aliados.

Esticou a corda até junho para tentar obter a companhia de Aécio em sua chapa, mas estava tão fraco que não teve como enfrentar a resistência dos democratas à escolha do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) para vice. Ao explicar as razões de aceitar o pouco conhecido deputado federal Indio da Costa (DEM-RJ) como companheiro de chapa, Serra admitiu que a questão estava encaminhada em outro sentido, mas não havia dado certo.

A biografia respeitável, a tenacidade com a qual se jogou na disputa e a assimilação de um discurso conservador que destoa de suas próprias ideias não foram suficientes para levar o tucano à vitória. Serra quis ganhar sozinho. A exemplo de Lula, colheu o que plantou.

Wednesday, November 03, 2010


FHC diz não endossar mais PSDB que não defenda a sua história

MARIA CRISTINA FRIAS - COLUNISTA DA FOLHA / VINICIUS MOTA - SECRETÁRIO DE REDAÇÃO

"Não estou mais disposto a dar endosso a um PSDB que não defenda a sua história", disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), ontem, em entrevista no instituto que leva seu nome, no centro de SP.

Presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique defende que o partido anuncie dois anos antes das eleições presidenciais seu candidato. "O PSDB não pode ficar enrolando até o final para saber se é A, B, C ou D."

O ex-presidente diz que Lula "desrespeitou a lei abundantemente" na campanha e que promove "um complexo sindical-burocrático-industrial, que escolhe vencedores, o que leva ao protecionismo".

Para FHC, a tradição brasileira de "corporativismo estatizante está voltando". Lula é uma "metamorfose ambulante que faz a mediação de tudo com tudo".

Folha - José Serra aproveitou a oportunidade do segundo turno como deveria?

Fernando Henrique Cardoso - Cada um tem um estilo e Serra foi fiel ao estilo dele. Tomou as decisões dele na campanha, com o [marqueteiro Luiz] Gonzalez. Não fez diferente do que se esperaria de Serra como um candidato persistente, que define uma linha e, aconteça o que acontecer, vai em frente.

O PSDB, e não o Serra, tem outros problemas mais complicados. Não é falta de bons candidatos. O problema é ter uma noção do coletivo, uma linguagem que expresse o coletivo, que não pode ser fechado no partido. Numa sociedade de 130 milhões de eleitores, a mensagem conta muito - no conteúdo e no modo que se transmite.

Como o Lula ficou muito fixado numa comparação para trás, os candidatos esqueceram a campanha e não definiram o futuro. Esse é o desafio - para o PSDB também.

O nosso futuro vai ser, outra vez, fornecer produtos primários? Ou vamos desenvolver inovação, modificar a educação, continuar a industrialização. Isso não foi posto [na campanha]. Qual será nossa matriz energética. Preocupa-me muito a discussão do petróleo.

Nesse campo, o seu governo quebrou o monopólio da Petrobras e implantou o modelo de concessão. A fórmula proposta por Lula, de partilha, para o pré-sal, que traz novos privilégios à Petrobras, é melhor?

Não posso responder, porque não vi a discussão. Preocupa-me esse modelo porque força uma supercapitalização [da Petrobras] sem que se saiba bem qual será o modelo de venda desse petróleo. Essa forma de partilha proposta é uma estatização do risco. O risco quem corre é o Estado, ao contrário do modelo de concessão.

O que estamos fazendo é uma dívida. Isso obriga a sobrecapitalizar a Petrobras. Parece que não temos mais problemas de poupança no Brasil. Entramos numa ilusão tremenda nessa matéria. O Tesouro faz a dívida com o mercado e empresta para o BNDES ou para a Petrobras. É como se não precisássemos mais poupar. Mas a dívida está aí. Essa questão o PSDB não politizou.

O governo Lula mobiliza fundos públicos e paraestatais e patrocina a formação de grandes empresas no país, uma espécie de complexo "industrial-burocrático", parodiando o "industrial-militar" do Eisenhower [em 1961, ao deixar o governo, o então presidente dos EUA Dwight Eisenhower alertou para os riscos de uma influência excessiva do complexo industrial-militar para o processo democrático]. 

Há mais ruptura ou continuidade em relação ao processo que se iniciou no seu governo, quando o BNDES e os fundos de pensão das estatais viabilizaram as privatizações?

Tudo é uma questão de medida. Os fundos [de pensão] entraram na privatização porque já tinham ações nas teles e participar do grupo de controle lhes dava vantagem. Fizeram um bom negócios Mas tive sempre o cuidado da diversificação. No mundo integrado de hoje, convém que a economia tenha um setor público eficiente e que tenha um setor privado, nacional e estrangeiro. Tentamos equilibrar isso.

O problema agora é de tendência, de gigantismo de uns poucos grupos, nesse complexo, que na verdade é sindical-burocrático-industrial, com forte orientação de escolher os vencedores. Isso é arriscado do ponto de vista político e leva ao protecionismo.

A máxima "política tem fila" foi usada para defender a precedência de Serra sobre Aécio na eleição de 2010. A fila andou ontem? Chegou a vez de Aécio Neves no PSDB?

Eu não posso dizer que passou a primeiro lugar, mas que o Aécio se saiu bem nessa campanha, se saiu. Não posso dizer que passou a primeiro lugar porque o Serra mostrou persistência e teve um desempenho razoável.

Não diria que existe um candidato que diga: "Eu naturalmente serei". Mas o PSDB também não pode ficar enrolando até o final para saber se é A, B, C ou D. Dentro de dois anos temos de decidir quem é e esse é tem de ser de todo mundo, tem de ser coletivo.

Não estou disposto mais a dar endosso a um PSDB que não defenda a sua história. Tem limites para isso, porque não dá certo. Tem de defender o que nós fizemos. A privatização das teles foi bom para o povo, para o Tesouro e para o país. A privatização da Vale foi um gol importante, porque, além do mais, a Vale é uma empresa nacional. A privatização da Embraer foi ótima.

Então por que não dizer isso? Por que não defender? Privatizar não é entregar o país ao adversário, pegar o dinheiro do povo e jogar fora. Não. É valorizar o dinheiro do país. Tudo isso criou mais emprego, deu mais renda para o Estado.

Do ponto de vista econômico, as questões estão bem encaminhados. Os motores da economia são fortes. Os problemas maiores são em outras áreas: educação, segurança, democracia, igualdade perante a lei, droga. Não é para saber se a economia vai crescer, é se a sociedade vai ser melhor.

Sobre a democracia no Brasil, o sr. escreveu, recentemente, que é uma maquinaria institucional em andamento, mas que lhe falta o "espírito": "a convicção na igualdade perante a lei, a busca do interesse público e de um caminho para maior igualdade social". Sinais desse espírito no processo eleitoral que se encerrou?

Francamente não vejo. O presidente Lula desrespeitou a lei abundantemente. Do ponto de vista da cultura política, nós regredimos. Não digo do lado da mecânica institucional - a eleição foi limpa, livre. Mas na cultura política, demos um passo para trás, no caso do comportamento [de Lula] e da aceitação da transgressão, como se fosse banal.

Houve abuso do poder político, que tem sempre um componente de poder econômico. Quantos prefeitos foram cassados aqui em São Paulo, por exemplo em Mauá, por abuso do poder econômico? Por nada, comparado com esse abuso a que assistimos agora. Não posso dizer que houve progresso da cultura democrática brasileira.
Aqui está havendo outra confusão. Pensar que a democracia é simplesmente fazer com que as condições de vida melhorem. Ela é também, mas não se esqueça que as ditaduras fazem isso mais depressa.

Como o sr. vê a volta de temas como religião na campanha?

Com preocupação. O Estado é laico, e trazer a questão religiosa para primeiro plano de uma discussão política não ajuda. Todas as religiões têm o direito de pensar o que queiram e de pregar até o comportamento eleitoral de seus fieis. Mas trazer a questão como se fosse um debate importante, não acho que ajude.

A dose dos chamados marqueteiros nas campanhas tucanas está exagerada?

Sim, em todas as campanhas. Nós entramos num marquetismo perigoso, que despolitiza. Hoje a campanha faz pesquisas e vê o que a população quer naquele momento. A população sempre quer educação, saúde e segurança, e então você organiza tudo em termos de educação, saúde e segurança.

Sem perceber que a verdadeira questão é como você transforma em problema uma coisa que a população não percebeu ainda como problema. Liderar é isso. Aí você abre um caminho. A pesquisa é útil não para você repetir o que ela disse, mas para você tentar influenciar no comportamento, a partir de seus valores.

Suponha uma pesquisa sobre privatização em que a maioria é contra. A posição do líder político é tentar convencer a população [do contrário]. O que nós temos na campanha é a reafirmação dos clichês colhidos nas pesquisas. Onde é que está a liderança política, que é justamente você propor valor novo. O líder muda, não segue.

Como mostrar as diferenças entre PT e PSDB? As ideias tucanas não são difíceis de assimilar?

Você se lembra de quando fui presidente? A ambição de todo mundo era cortar a burocracia. Por quê? Porque foi politizado.

É preciso politizar, e não é na hora da campanha.O PSDB, quando digo que tem que ter por referência o coletivo e ter um projeto, é agora. Não é para daqui a quatro anos. Daqui a quatro anos é tarde. Ou durante quatro anos você martela os seus valores e transforma os seus valores em algo que é compartilhado por mais gente, ou chega lá e não consegue. É tarde.

Mas o PSDB deixou o Lula falando sozinho um bom tempo.

Não foi só o PSDB. Foi todo mundo. Quando o nosso sistema presidencialista é exercido a partir de uma pessoa carismática como o Lula e que tem por trás um partido organizado, ele quase se torna um pensamento único.

Aqui, fora da campanha, só o governo fala. Quando fala sem parar, o caso atual, e sob forma de propaganda, fica difícil de controlar. No meu tempo, também era o governo que falava. Como não tenho o mesmo estilo e não usava uma visão eleitoreira o tempo todo, não aparecia tanto. Mas isso é da cultura brasileira.

Jornal dá o "outro lado", mas a TV não dá --só dá na campanha. O que a mídia em geral transmitiu ao longo desses oito anos? Lula, violência e futebol.

A oposição, liderada pelo PSDB, ficou mais forte nos Estados e mais fraca no Congresso. Como fará para resistir à força gravitacional do Planalto?

Não é fácil, porque os Estados têm interesses administrativos. Mas um pouco mais de consistência oposicionista pode. No regime militar, Montoro e Tancredo eram governadores e se opunham. É preciso recuperar um pouco essa dimensão política.

Mas o carro chefe para puxar [a oposição] não pode ser o governador. Tem de ser o partido. E não é o PSDB só. Esses 44 milhões [votação de Serra no domingo] não são do PSDB. É uma parte da sociedade brasileira que pensa de outra maneira. E não se pode aceitar a ideia de que são os mais pobres contra os mais ricos. Nunca vi uma elite tão grande: 44 milhões de pessoas.

A polarização nacional entre PT e PSDB completou 16 anos. Tem feito mais bem ou mais mal ao Brasil?

O que o Chile fez na forma da Concertação [a aliança entre o Partido Socialista e a Democracia Cristã que governou o Chile de 1990 a 2010], fizemos aqui sob a forma de oposição. Há muito mais uma linha de continuidade que de quebra. Queira ou não queira, o pessoal do PT aderiu, grosso modo, ao caminho aberto por nós. Isso é que deu crescimento ao Brasil. A briga, na verdade, é pelo poder, não é tanto pelo conteúdo que se faz. No tempo que cheguei lá, eu escrevi o que ia fazer e fiz. Nunca mudei o rumo. O Lula mudou o rumo. Agora acho que tem aí o começo de um rumo que não é o mesmo meu, que é esse mais burocrático-sindical-industrial. E tem uma diferença na concepção da democracia, e o PSDB tem de acentuar essa diferença.

Mas o que seria essa social-democracia?

Social-democracia, vamos devagar com o ardor. O sujeito da social-democracia europeia eram a classe trabalhadora e os sindicatos. Aqui são os pobres. O Lula deixou de falar em trabalhador para falar em pobre. Mudou. Nós descobrimos uma tecnologia de lidar com a pobreza, mas estamos por enquanto mitigando a pobreza.

Tem de transformar o pré-sal em neurônio. Esse é o saldo para uma sociedade desenvolvida. Social-democracia hoje é isso. É inclusão social, respeitando o mercado, sabendo que o Estado terá um papel importante, mas não é tudo, e que o mercado tem de ser regulado de olho numa inclusão que não seja só de mitigação. Não pode ter predomínio do olhar do Estado. Está se perfilando, no PT e adjacências, uma predominância do olhar do Estado, como se o Estado fosse a solução das coisas. Continuo achando que o Estado é indispensável, mas a sociedade deve ter uma participação mais ativa. Os movimentos sociais estão todos cooptados.

Então a diferença entre PT e PSDB, para o sr., se dá em relação ao papel do Estado.

Mas não no sentido de não ter papel para o Estado. No sentido de que esse papel tenha de ser de um Estado que se abra para a sociedade. Não de um Estado burocrático, que se imponha à sociedade.

A nossa tradição é de corporativismo estatizante, e isso está voltando. É uma mistura fina, uma mistura de Getúlio, Geisel e Lula. O Lula é mais complicado que isso, porque é isso e o contrário disso. Como é a metamorfose ambulante, faz a mediação de tudo com tudo.

Lula sempre faz a mediação para que o setor privado não seja sufocado completamente. Não sei como Dilma vai proceder.

O sr. sente que isso tende a se aprofundar nesse novo governo?

Sim, a segunda parte do segundo mandato de Lula foi assim. A crise global deu a desculpa para o Estado gastar mais. E o pobre do Keynes pagou o preço. Tudo é Keynes [O economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) defendeu, em sua obra "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda", a intervenção do Estado na economia para controlar as crises econômicas]. Investimento não cresceu, gasto público se expandiu, foi Keynes.

Não acho que o Brasil vá no sentido da Venezuela porque a sociedade nossa é mais forte. Aqui há empresas, imprensa, universidades, igrejas, uma sociedade civil maior, mais forte. Isso leva o governo a também ter cautela. Veja o discurso da Dilma de ontem [domingo]. Ela beijou a cruz.

Como todo mundo percebia uma tendência nesse sentido, ela disse: "Olha aqui, vou respeitar a democracia, vou dar a mão a todos". Ela tem que dizer isso, porque senão ela não governa.

O que esperar de Dilma Rousseff, que estreia num cargo eletivo logo na Presidência, no dia 1º de janeiro?

Nós não sabemos não só o que ela pensa, mas como é que ela faz. O Brasil deu um cheque em branco para a Dilma. Vamos ver o que vai acontecer com a conjuntura econômica, mundial e aqui. Há um problema complicado na balança de pagamentos, um deficit crescente, uma taxa de juros elevada e uma taxa de câmbio cruel.

Tuesday, November 02, 2010

Saldo Médio

Meu criado mudo repleto de livros

De setembro a outubro:

Onde os Velhos Não Têm Vez (2005), Meridiano de Sangue ou O Rubor Crepuscular no Oeste (1985), Todos os Belos Cavalos (1992), A Travessia (1994) e Cidades da Planície (1998) de Cormac McCarthy;

O Vendedor de Armas (1996) de Hugh Laurie;

O Pequeno Livro do Rock (2007) de Hervé Bourhis;

e cerca de 250 das 535 páginas de Fama e Anonimato (edição revista de 1992) de Gay Talese.

2417 páginas, aproximadamente (O Pequeno Livro do Rock  não numera as páginas). Mais ou menos 40 páginas de ficção (ou new journalism) ao dia.

Incontáveis visitas ao tema "Eleições" em ig, terra, uol, folha.com, estadao, i-piauiherald, luisnassifonline, entre outros.

Leituras atentas, ainda que indisciplinadas, por indicação de fontes confiabilíssimas.

39 postagens neste blog, praticamente todas dedicadas à disputa presidencial, exceções feitas ao aniversário de 70  anos de John Lennon e à espera pelo resgate dos mineiros do deserto do Atacama. 

Atividade (um tanto temerosa) no facebook, meia-dúzia de notes e wall photos.

Acompanhamento diário dos blogs amigos isto me faz bem, a estrovenga dos corsários efêmeros fotografei você na minha rolleyflex. Visitas esporádicas a pé na áfrica e diário do minotauro.

Episódios semanais de WeedsHouseFringe e In Treatment (obrigado, senhor, a série voltou).

Início de releitura, por motivos de trabalho, de A Arte Cavalheiresca do Arqueiro-Zen de Eugen Herrigel, clássico da minha entrada na idade adulta.

10 quilos de sobre-peso e dores leves, mas persistentes, nos dois joelhos e no calcanhar esquerdo.

Monday, November 01, 2010

VLADIMIR SAFATLE

Lula venceu

Presidente se tornou o primeiro na história do país a fazer seu sucessor em uma eleição realmente livre

Alguns fatos devem ser analisados em sua enunciação bruta, sem "mas", "entretanto", "mesmo assim" ou condicionantes do gênero.

O resultado destas eleições é um destes casos. Lula venceu. Como se não bastasse, transformou-se no primeiro presidente da história brasileira a conseguir fazer seu sucessor em uma eleição realmente livre.

O nível de acirramento social, infelizmente, dificulta reflexões isentas sobre o que foi a era Lula, quais seus maiores legados e desafios. Esta é uma tarefa para a qual será necessário tempo.

Por enquanto, fica óbvio que ao menos duas características fundamentais do governo Lula foram decisivas para seu sucesso eleitoral.

Primeiro, Lula compreendeu claramente que programas de assistência social não são apenas programas de assistência social. Vinculado ao aumento efetivo dos salários, eles têm função decisiva na dinamização econômica de realidades sociais pauperizadas. Tal processo baseado na transferência direta de renda é, de fato, a maneira mais rápida e eficaz de provocar recuo da miséria e da pobreza, além de garantir bases para o desenvolvimento de economias locais. Por outro lado, ele permitiu a Lula ser uma espécie de Mata Hari do capitalismo global, modificando a situação de pauperização social sem colocar em risco os ganhos do sistema financeiro.

Segundo, Lula conseguiu, de uma certa forma, transplantar os conflitos sociais para dentro do Estado. O conflito entre o agronegócio e a reforma agrária virou um embate entre o Ministério da Agricultura e o Ministério da Reforma Agrária. O conflito entre os grupos de defesa dos direitos humanos e as viúvas da ditadura militar, um embate entre o Ministério da Defesa e a Secretaria dos Direitos Humanos; entre desenvolvimentistas e monetaristas, um embate entre Ministério da Fazenda e Banco Central.

O máximo desta lógica de transposição de conflitos ocorreu quando George W. Bush veio ao Brasil. Enquanto fazia um discurso, ao lado de Lula, saudando-o como grande amigo dos EUA, manifestações contra sua presença ocorriam no Brasil... organizadas pelo PT.

Desta forma, havia um reconhecimento das demandas de setores classicamente associados à esquerda, mesmo que esse reconhecimento fosse, em vários casos, muito mais simbólico do que realmente efetivo.

Essa forma de acolhimento conseguiu, no entanto, esvaziar qualquer oposição à esquerda do governo. Basta lembrar do resultado minúsculo de um partido como o PSOL no primeiro turno.

Assim, quando José Serra encampou de vez a agenda conservadora, toda ela centrada em: segurança, defesa dos "valores e crenças nacionais", defesa da "vida", denúncias contra a "república sindicalista", contra o terrorismo (das Farcs) etc., ficou fácil para o governo recompor a base de mobilização do antigo PT nas classes médias, acrescida agora do desenvolvimento do "lulismo" nas classes mais pobres.

Restou, ao menos a essa oposição, ser porta voz de uma agenda conservadora mundialmente presente e que demonstrou ter forte apelo eleitoral. Uma reconfiguração de discursos se anuncia.

VLADIMIR SAFATLE é professor do departamento de filosofia da USP.

Sunday, October 31, 2010

GILBERTO DIMENSTEIN

Os traficantes e o palhaço Tiririca

Traficantes temerosos de uma polícia "mais eficiente" contam mais sobre nosso futuro do que o Tiririca

POR TRÁS DAS COMEMORAÇÕES da queda recorde do número de homicídios em São Paulo, cujas estatísticas oficiais são divulgadas neste fim de semana, convenientemente na véspera da eleição, há um dedinho do crime organizado e um dedinho dos traficantes. Um dos fatos mais marcantes da vida social brasileira, em São Paulo o assassinato está quase deixando de ser classificado, segundo a definição da Organização Mundial de Saúde, de epidêmico. Desde 1999, são 51 vidas poupadas, 26 mil delas na capital.

As taxas caíram tanto e por tanto tempo graças à combinação de uma série de fatores, cada qual com seu peso: eficiência policial, maior envolvimento comunitário, mudanças demográficas (menos jovens proporcionalmente na população), aumento do número de matrículas escolares, elevação do nível de emprego, redução da miséria.

Há tempos, sou alertado por policiais e especialistas para o fato de que traficantes, para não atrapalharem seus negócios, recomendam a seus seguidores evitar matanças. Assim, a polícia não ficaria tão próxima de suas áreas de influência.

Acuados por uma polícia mais eficiente, os traficantes "pacificadores" são um dos ângulos para encarar a eleição deste fim de semana.

O clima ainda quente de campanha dificulta que se analise com mais serenidade o país.

Não há registro de uma eleição presidencial tão chata e tão orientada por marqueteiros. Quase não foram debatidos temas essenciais (câmbio, previdência). Nunca tinha visto um presidente da República ter se rebaixado a chefe de bando.

Um dos que reduziram a chatice, mas poluíram o ambiente, foi o palhaço Tiririca, que vendeu a ideia de que é tudo esculhambação. Sua vitória extraordinária pode sugerir que ele tem razão.

Tiririca foi uma novidade. Mas a lei da Ficha Limpa, uma conspiração popular que os políticos tiveram de aceitar, é uma novidade maior.

O efeito Tiririca é desprezível. O conjunto da obra da democracia, com múltiplos atores, de diferentes partidos e ideologias, fez o país avançar - e não foi pouco.

A chatice, porém, é também sinal de maturidade. Há uma agenda consensual entre todos os candidatos. Dilma e Serra têm, pelo menos no papel, posições semelhantes sobre a importância de controlar mais os gastos públicos e de facilitar a vida dos empreendedores, sobre a continuidade de projetos sociais e sobre a prioridade da educação.

De qualquer ângulo que se olhe, há sinais inusitados de evolução: no Rio de Janeiro, onde os assassinatos também vêm diminuindo, motéis se transformam em hotéis, motivados pela demanda do mercado. Locais que já foram verdadeiras praças de guerra (como Cidade de Deus) hoje registram poucas mortes.

Já se diz que, no próximo verão, a musa será o protetor solar graças ao aumento de renda dos mais pobres. Já comentei aqui outro indicador: uísque importado no caminho da periferia, símbolo não só do aumento da classe C mas da situação de metrópoles como o Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre, que já vivem em pleno emprego.

Quem imaginaria, até pouco tempo atrás, favelados comprando seguro contra incêndio ou bancos disputando clientes em morros?

É difícil não ficar satisfeito, apesar de conhecermos todas as fragilidades e as nuvens carregadas no futuro. Sobram dúvidas sobre a capacidade de Dilma Rousseff de lidar com todos os conflitos que tem pela frente sem o carisma de um Lula.

Sou de uma geração que cresceu no regime militar e viu muito crescimento econômico com pouca democracia, muita democracia e pouco crescimento. Em alguns momentos, nem democracia nem crescimento, tudo isso combinando com inflação e aumento da miséria, entremeado com escândalos de corrupção, enquanto a violência explodia nos grandes centros.

Até pouco tempo, não havia indicadores para administração pública e investimentos sociais. Nunca tinha vivido a combinação de democracia com baixa inflação, redução da miséria e aumento do emprego, em meio ao consenso sobre a importância de estimular o empreendedorismo e o capital humano.

A redução da violência em grandes centros é consequência dessa evolução. Traficantes temerosos da polícia contam mais sobre nosso futuro do que Tiririca.

Até porque o pobre pôs no seu radar o diploma de ensino superior. Muito longe dos palhaços.

PS - A eleição de 2010 será lembrada como marco de uma nova era no país: a era dos educadores.

gdimen@uol.com.br

Saturday, October 30, 2010

Serra em 3 tempos

 Envolto em suaves brumas azuis, o santo candidato busca proteção,

mergulha em transe místico

e derruba as muralhas de Jericó

Friday, October 29, 2010

http://revistapiaui.estadao.com.br/herald/capa.aspx

VATICANO - O papa Bento XVI reuniu bispos brasileiros no Vaticano e cobrou mais empenho na emissão de "juízos de valor sobre os temas que afligem os brasileiros". Segundo o Osservatore Romano, Bento XVI citou o novo namorado de Suzana Vieira, os penteados de Miriam Leitão, a polêmica participação do Sérgio Mallando em A Fazenda e o novo filme de Arnaldo Jabor como casos sobre os quais “era obrigação da Igreja guiar o rebanho”.

No final do encontro, o papa pediu aos bispos que orientem Wanderley Luxemburgo no comando do Flamengo. "Irmãos, não podemos deixar que o Mengão afunde no purgatório da Segunda Divisão. O esquema tático está todo errado. Os meias têm que avançar mais, pô! Aliás, onde anda o Pet? Por que o Val Baiano está no banco?", indagou, atônito, o sumo pontífice.

Bento XVI também perguntou aos prelados “a quantas anda” a beatificação de Dona Canô. “Caetano me ligou ontem perguntando”, explicou.

- Categoria: Internacional

Thursday, October 28, 2010

Assim é, se lhe parece


Esta foto, que circula em e-mails e facebooks, tem deliciado os peessedebistas nos últimos dias.  A capa "ao contrário" continua na mão esquerda de Lula, a lombada e o texto da contra-capa estarão de cabeça para baixo quando o livro for colocado "do lado certo" mas, ainda assim, a imagem comprovaria o sempre alardeado baixo índice de alfabetismo do presidente. Processada com recursos muito simples de photoshop, se fosse invertida horizontalmente melhorava um pouco a ilusão. O trem, abaixo do título, continuaria correndo no sopé das montanhas estranhamente penduradas no céu, mas parece que o pessoal não é muito exigente em matéria de diversão, né? O importante é reunir os amigos e torcer.

Monday, October 18, 2010

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Serra em transe

Não resisto a uma provocação inicial: a blogosfera estaria em polvorosa e os serviços da ombudsman da Folha amanheceriam entupidos de mensagens indignadas contra o jornal se a notícia não dissesse respeito a Monica Serra, mas a Dilma Rousseff.

Isso dito, é claro que é polêmica a publicação do relato de uma ex-aluna da mulher de Serra dando conta de que ela (Monica), em sala de aula, revelou já ter praticado um aborto. Não se trata de uma notícia qualquer. Ela coloca em conflito o direito à informação, de um lado, e o direito à privacidade, de outro.

Haverá, neste caso, bons argumentos a favor e contra a publicação. Penso que a Folha acertou, por duas razões principais: com o aborto alçado a tópico da disputa eleitoral (e por obra de Serra), o episódio passou a envolver evidente interesse público. E, tão importante quanto isso: Monica Serra havia dito, há um mês, em campanha pelo marido no Rio, que Dilma era a favor de "matar criancinhas", numa clara alusão à posição da petista sobre o aborto. Ao assumir como sua, e nos termos que fez, a campanha do marido, Monica fixou para si as regras do jogo que estaria disposta a jogar.

O caso (tão desconfortável, tão cheio de implicações desagradáveis a quem o aborda) permite, ou exige, uma reflexão de ordem mais geral. O PT tem sido acusado, quase sempre com razão, de ser capaz de qualquer coisa para se manter no poder. Isso virou um mantra, a despeito da sua veracidade. Mas Serra não está se revelando, já faz tempo, alguém disposto a pagar qualquer preço para chegar ao poder?

Essa pantomima de devoção e carolice que se apossou da campanha tucana (e que nada tem a ver, como parece óbvio, com respeito efetivo pela religiosidade do povo) é a expressão patética de que tudo (biografia, valores, familiares) está sendo sacrificado em nome de uma ideia fixa. Serra sonha ser presidente. Mas se parece, cada vez mais, com o personagem de Paulo Autran em "Terra em Transe".

Sunday, October 17, 2010

Operação Mãos Limpas

Marina Silva e outras lideranças do Partido Verde levantam suas credenciais para votar pela "independência" do grupo em relação à disputa do segundo turno na corrida presidencial

SUZANA SINGER - ombudsman@uol.com.br

FÉ NA REPORTAGEM

O fato de a candidata escolhida por um presidente com popularidade de mais de 80%, em um momento ótimo da economia, ter sido obrigada a enfrentar um segundo turno de eleição é ainda um mistério.

Duas grandes teorias tentam dar conta da surpreendente reversão de expectativa: as denúncias sobre Casa Civil/Receita Federal e a influência das igrejas.

O Ibope, que pesquisou a religião dos eleitores, aposta que, incitados por pastores e padres, os fiéis abandonaram Dilma Rousseff.

O Datafolha, que teve o mérito de detectar antes a chance de um segundo turno, não perguntou a religião dos entrevistados. Na segunda-feira passada, o instituto e a Folha abraçaram de vez a teoria de que os escândalos sorveram votos essenciais ao PT: a manchete foi "Caso Erenice tirou de Dilma mais votos do que as igrejas".

O título se baseava no fato de que, dos 4% que abandonaram Dilma, 2% citaram o caso Erenice, 1% a quebra de sigilo fiscal de tucanos e 1% a orientação da igreja. Dos 2% que desistiram de José Serra, metade mencionou o caso Erenice e a outra metade a quebra de sigilo fiscal.

É difícil captar em pesquisa razões de mudança de voto. As perguntas eram "fechadas", com opções prontas para o entrevistado - por exemplo: "Você diria que as denúncias envolvendo a ex-ministra-chefe da Casa Civil fizeram você mudar ou não o seu voto para presidente?". Repetia-se a formulação para o sigilo fiscal e a igreja. Não foi feita uma questão aberta, na qual o eleitor pudesse apontar outros motivos.

Causa estranheza também o fato de pessoas desistirem de Serra por causa dos escândalos envolvendo o PT. Podem ser os que não gostam de "denuncismo", mas não é nada racional. Segundo o Datafolha, os escândalos teriam tirado 3% de Dilma e 2% de Serra, ou seja, um efeito quase nulo.

Não se trata de um problema estatístico, mas jornalístico. O texto cabotino que acompanhava os quadros do Datafolha afirmava que "os dois casos que mais pesaram na mudança de votos dos eleitores na reta final do primeiro turno tiveram influência direta de reportagens publicadas pela Folha".

Na terça-feira, o editorial "A fé nos boatos" usava a pesquisa para bater bumbo: "Por mais notável, porém, que seja sua contribuição [da internet] na área das comunicações, é o jornalismo profissional e independente que, seja na forma impressa, seja na eletrônica, vem iluminando a disputa eleitoral".

Em vez de se preocupar em mostrar a própria importância - e responder ao presidente Lula, que disse prescindir dos formadores de opinião -, a Folha deveria concentrar suas energias em desvendar o que de fato aconteceu.

Mesmo que tenha atingido 1% do eleitorado - o que significa 1,35 milhão de pessoas -, a campanha em templos e igrejas mostrou uma força impressionante, num movimento que a imprensa demorou a captar.

Por que pastores evangélicos iniciaram essa onda anti-Dilma? O aborto não parece explicação suficiente. Há outros interesses em jogo? E por que setores da Igreja Católica aderiram?

O padre José Augusto, de Cachoeira Paulista (SP), em longa fala contra o PT, cita uma lei que restringiria a programação religiosa a uma hora por dia - católicos e evangélicos têm canais próprios.

Será isso?

E, se a religião não for determinante, cabe ao jornal investigar outras hipóteses. Explicar o grande número de votos brancos e nulos no Nordeste. Entender se Marina Silva foi um receptáculo de insatisfeitos ou se teve algo a mais. Dizer por que, aparentemente, as mulheres não gostam tanto de Dilma - se dependesse dos homens, a eleição teria terminado no primeiro turno.

Essas perguntas só podem ser respondidas com reportagem. É preciso virar papa-hóstia, ouvir gente, levantar bastidores. Gastar sola de sapato, como se dizia antigamente.

Saturday, October 16, 2010

editoriais@uol.com.br

Girando em falso

Números da pesquisa eleitoral sugerem, mais uma vez, que o fator religioso é menos decisivo do que se imagina na decisão do eleitor

Não se registram oscilações na pesquisa do Datafolha sobre a sucessão presidencial. A candidata Dilma Rousseff, do PT, conta com 54% dos votos válidos, contra 46% de José Serra, do PSDB. São os mesmos índices da pesquisa anterior, feita há uma semana.

A estabilidade nas preferências do eleitorado não deixa de trazer um contraste irônico com o clima de agitação que se tem verificado na campanha. O temor de perder popularidade em setores religiosos motivou, como se sabe, bruscas alterações de opinião, por parte de Dilma Rousseff, enquanto José Serra se empenhou em renovadas exibições de fé.

Vistos ao microscópio, e com a ressalva de que a margem de erro estatística se amplifica conforme se dividem os grupos da amostra pesquisada, os números do Datafolha sugerem, mais uma vez, que a questão religiosa não produz efeitos tão imediatos como se imagina. É curioso notar, por exemplo, que Dilma não perdeu votos entre os católicos, mas caiu seis pontos percentuais na pequena parcela de eleitores que se diz sem religião. Nesse grupo, que responde por 6% apenas do total dos eleitores, a candidatura Serra cresceu cinco pontos.

Entre os evangélicos pentecostais, a proporção dos eleitores de Dilma Rousseff não se alterou significativamente, se comparados os números desta pesquisa com os votos da petista no primeiro turno.

A própria questão do aborto, sobre a qual tanto tergiversou a candidata Dilma, é entendida pela maioria da população sob uma ótica relativamente diversa daquela manifestada pelos setores religiosos mais estritos.

Afinal, a lei em vigor admite a interrupção da gravidez nos casos de estupro e de risco para a gestante; a seguir-se a orientação da Igreja Católica e de outras confissões, nem mesmo essa eventualidade deveria ser admitida. Nem Dilma nem Serra, de todo modo, propõem-se a revogar a lei.

Não é só neste aspecto que a campanha, por assim dizer, gira em falso. Discute-se no campo governista, por exemplo, a conveniência de trazer de volta, com mais ênfase, a figura do presidente Lula nesta fase da disputa. Inventou e propeliu a candidata durante meses - até que se considerou necessário que Dilma, ela própria, mostrasse um mínimo de autonomia pessoal. Declina em alguns pontos a candidata; recorra-se, então, a seu demiurgo.

Lula alcança novos recordes de popularidade: 81% dos entrevistados na pesquisa classificam de "ótimo" ou "bom" seu desempenho. Apenas 40% dos eleitores, entretanto, dizem-se influenciáveis pelo engajamento presidencial numa candidatura.

Pesquisas de opinião, por certo, são um instrumento importante na avaliação de uma estratégia política. A predominância do marketing na condução da campanha tende a atribuir-lhes, talvez, o caráter terrorífico e religioso de um anátema - quando o mínimo que se poderia esperar de candidatos à Presidência, na verdade, é que exponham o que de fato pensam.

Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna

MÔNICA BERGAMO

Reportagem tentou ouvir mulher de candidato tucano por dois dias, sem sucesso

O discurso do candidato à Presidência José Serra (PSDB) de que é contra o aborto por "valores cristãos", que impedem a interrupção da gravidez em quaisquer circunstâncias, é questionado por ex-alunas de sua mulher, Monica Serra. Num evento no Rio, há um mês, a psicóloga teria dito a um evangélico, segundo a Agência Estado, que a candidata Dilma Rousseff (PT), que já defendeu a descriminalização do aborto, é a favor de "matar criancinhas". Segundo relato feito à Folha por ex-alunas de Monica no curso de dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a então professora lhes contou em uma aula, em 1992, que fez um aborto quando estava no exílio com o marido.

Depois do golpe militar no Brasil, Serra se mudou para o Chile, onde conheceu a mulher. Em 1973, com o golpe que levou Augusto Pinochet ao poder, o casal se mudou para os Estados Unidos.

OUTRO LADO

A Folha tentou falar com Monica Serra durante dois dias para comentar o relato das ex-alunas, sem sucesso. Um dia depois do debate da TV Bandeirantes, no domingo, 10, a bailarina Sheila Canevacci Ribeiro, 37, postou uma mensagem em seu Facebook para "deixar a minha indignação pelo posicionamento escorregadio de José Serra" em relação ao tema. Ela escreveu que Serra não respeitava "tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Monica Serra já fez um aborto". A mensagem foi replicada em outras páginas do site e em blogs. "Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o seu aborto traumático", escreveu Sheila no Facebook. "Devemos prender Monica Serra caso seu marido fosse [sic] eleito presidente? "À Folha a bailarina diz que "confirma cem por cento" tudo o que escreveu. Sheila afirma que não é filiada a partido político. Diz ter votado em Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) no primeiro turno. No segundo, estará no Líbano, onde participará de performance de arte. Se estivesse no Brasil, optaria por Dilma Rousseff (PT).

Sheila é filha da socióloga Majô Ribeiro, que foi aluna de mestrado na USP de Eva Blay, suplente de Fernando Henrique Cardoso no Senado em 1993. Majô foi pesquisadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP, fundado pela primeira-dama Ruth Cardoso (1930-2008). Militante feminista, Majô foi candidata derrotada a vereadora e a vice-prefeita em Osasco pelo PSDB. A socióloga disse à Folha estar "preocupada" com a filha, mas afirma que a criou para "ser uma mulher livre" e que ela "agiu como cidadã".

Sheila é casada com o antropólogo italiano Massimo Canevacci, que foi professor de antropologia cultural na Universidade La Sapienza, em Roma, e hoje dirige pesquisas no Brasil. A Folha localizou uma colega de classe de Sheila pelo Facebook. Professora de dança em Brasília, ela concordou em falar sob a condição de anonimato. Contou que, nas aulas, as alunas se sentavam em círculos, criando uma situação de intimidade. Enquanto fazia gestos de dança, Monica explicava como marcas e traumas da vida alteram movimentos do corpo e se refletem na vida cotidiana. Segundo a ex-estudante, as pessoas compartilhavam suas histórias, algo comum em uma aula de psicologia. Nesse contexto, afirmou, Monica compartilhou sua história com o grupo de alunas. Disse ter feito o aborto por causa da ditadura.Ainda de acordo com a ex-aluna, Monica disse que o futuro dela e do marido, José Serra, era muito incerto. Quando engravidou, teria relatado Monica à então aluna, o casal se viu numa situação muito vulnerável. "Ela não confessou. Ela contou", diz Sheila Canevacci. "Não sou uma pessoa denunciando coisas. Mas [ela é] uma pessoa pública, que fala em público que é contra o aborto, é errado. Ela tem uma responsabilidade ética."

Colaboraram LIGIA MESQUITA e MARCUS PRETO, de São Paulo

OUTRO LADO

Assessoria da psicóloga não responde à Folha

A assessoria da psicóloga Monica Serra, mulher de José Serra, não respondeu aos questionamentos feitos pela Folha a respeito do relato de suas ex-alunas. A Folha procurou Monica Serra pela primeira vez na manhã de anteontem. Segundo sua assessoria, ela havia viajado para o Chile e não seria possível localizá-la naquele momento. Entre quinta-feira e ontem, a reportagem telefonou seis vezes e enviou cinco e-mails para a assessoria. Recebeu uma mensagem com a seguinte afirmação: "Não há como responder".

Friday, October 15, 2010

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Deus: uma regressão política

Boris Casoy - Senador, o senhor acredita em Deus?

FHC - Essa pergunta o senhor disse que não me faria.

Casoy - Eu não disse nada.

FHC - Perdão, foi num almoço, sobre esse mesmo debate.

Casoy - Mas eu não disse se faria ou não faria.

FHC - É uma pergunta típica de quem quer levar uma questão que é íntima para o público, uma pergunta típica de quem quer simplesmente usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique, que não está em jogo. Devo dizer ao senhor Boris Casoy que esse nosso povo é religioso. Eu respeito a religião do povo, as várias religiões do povo, automaticamente estou abrindo uma chance para a crença em Deus.

Casoy - A pergunta não foi respondida. Não se trata de armadilha, nem de convicção pessoal.

O diálogo acima é famoso. Foi travado durante um debate feito a pouco dias da eleição para a prefeitura paulistana, em 1985. Jânio Quadros, que não estava presente, acabou eleito, para surpresa geral. A democracia engatinhava no país.

Hoje, 25 anos depois, podemos deduzir várias coisas dessa viagem no tempo. Uma delas: os progressistas eram menos cínicos. Quem entra no jogo eleitoral hoje está muito mais preparado para mentir. Sobre tudo, inclusive sobre Deus.

FHC foi pego de surpresa pela pergunta. Ela podia ser jornalisticamente legítima, mas a ele parecia evidente que a pauta (uma "armadilha") era politicamente regressiva. Isso também mudou muito.

A despeito das conquistas do país, a campanha hoje está sob o impacto de um intenso cerco conservador, sobretudo nos costumes.

Dilma parece disposta a fazer todas as concessões ao lobby religioso, o que é grave. Mas foi Serra quem arrastou esse cortejo do atraso para o centro da disputa política. Ao vestir a fantasia do neocarola, o tucano age mais ou menos como aqueles que acusavam FHC de ser ateu há um quarto de século.

Tuesday, October 12, 2010

Na torcida

Sunday, October 10, 2010

JANIO DE FREITAS 

Na porta de entrada

Entre Pré-Sal, Brasil no jogo político planetário, células tronco, construção de foguetes, submarinos nucleares, feitos esplêndidos e silenciosos de laboratórios científicos, liderança mundial em exportação de vários alimentos - enfim uma República presente no século 21 sob tantos aspectos, de repente a eleição de seu presidente reduz-se ao aborto, se crime ou não. Os candidatos tremem, docilizam-se, mentem. Os bispos e pastores, no velho e no novo púlpito da tv, troam passando-se pela voz divina. Um país com meio milênio de atraso.

O caminho para a conquista do eleitor não são os projetos, não são as ideias, não são os circunstantes técnicos e políticos, não é o diagnóstico do presente e a visão de futuro. É a benção. Proveniente de sedes de bispados e cardinalatos, dos palcos e templos onde os que fazem riqueza inventando seitas recolhem os 10% "de dízimo". É a benção não adotada, mas em versão própria, pelos meios de comunicação que se valham desse atraso para estimular eleitores em uma ou ou em outra direção.

Se o eleitor se convence da insinceridade dos candidatos, testemunha que é da submissão oportunista em quem deveria demonstrar inteireza, ignoro a existência de argumento respeitável para convencê-lo do contrário. Ignoro e duvido que haja.

A eleição dita republicana leva o Brasil ao portal do mundo dos fundamentalismos, essa patologia cujos fins e formas variados são idênticos nas marcas deixadas na história: sempre guerras, mortes impiedosas, sofrimento de inocentes em massa, dominação, e atraso -tantas vezes irreparável no possível caminho do crescimento humano.

Na essência, o fundamentalismo que aqui se torna eleitoral tem a ver com o papel subalterno que as religiões médio-orientais e ocidentais atribuem à mulher. Esse ser que nem na arca de Noé teve um lugar, não teve um lugar entre apóstolos e não foi convidada à última ceia. Nasce com as impurezas que a fazem incapaz para o sacerdócio e, ainda hoje, deve esconder-se do mundo sob véus e burcas e hábitos, quando não é apedrejada pelos castigos que isentam os homens. Nesse tratamento aos considerados filhos de Deus, o fundamentalismo encontra no aborto o crime de homicídio na promessa de pessoa que é o feto. A vida acima de tudo. Não, porém, a vida da mulher que não quis ou nem pode ter o encargo de um filho e, entregue à solução única do aborto precário, perde a vida aos milhares e milhões. É vida de mulher, só.

Mas o que os candidatos à Presidência disputam é a sua possibilidade de influir, decisivamente em inúmeros casos, no futuro de quase 200 milhões de pessoas. Adeptos de religião ou não. E a maioria dos adeptos, só para fins de declaração.

ELIO GASPARI 

O debate do aborto, Miriam Cordeiro 2.0

Vinte e um anos depois da noite em que Mirian Cordeiro, a ex-namorada de Lula, surpreendeu o país acusando-o de ter sugerido que abortasse a criança que viria a ser sua filha Lurian, a palavra maldita voltou à agenda da sucessão presidencial. Em 1989 a questão do aborto foi fertilizada pelo comando da campanha de Fernando Collor. Desta vez, reapareceu com o mesmo formato oportunista, trazida pela infantaria do tucanato. Nos dois casos, ninguém mostrou-se interessado em discutir o assunto ao longo dos meses anteriores à eleição. O propósito, puramente eleitoral, sairá da agenda depois do dia 27. Até lá, terá emburrecido o debate, rebaixado a campanha e tisnado a biografia dos beneficiários da baixaria.

Há 19 anos tramita na Câmara um projeto que dá à mulher o direito de interromper voluntariamente uma gravidez. Em 2008, por unanimidade, ele foi rejeitado na Comissão de Seguridade Social e Família. Pelo andar da carruagem, se não morrer antes, levará anos para chegar ao plenário. Se e quando isso acontecer, caberá ao Congresso decidir.

Flertando com a transformação do aborto numa "bala de prata" eleitoral, o tucano José Serra expôs sua posição: "Nunca disse que sou contra o aborto porque eu sou a favor, ou melhor, nunca disse que sou a favor, porque sou contra". Em seguida, expôs a ferida petista: "O que está em questão nessa campanha não é ser contra ou a favor. É a mentira". O comissariado petista e Dilma Rousseff defenderam programática e pessoalmente a descriminalização do aborto.

Chegou-se a um conflito de oportunismos. O dos tucanos, que só lembraram do assunto na reta final da campanha, e o dos petistas que, na mesma reta, mudam de opinião.

Afora o oportunismo, o nível da discussão abortou a inteligência. Dilma Rousseff disse que "as mulheres ricas têm acesso a clínicas, mulheres pobres usam agulha de tricô". Propagou a lenda produzida pelo filme "Pixote", de 1981. Mesmo há 30 anos essa prática era desprezível. Hoje, nem pensar. A forma mais comum de aborto se dá com o uso da droga Cytotec. Em tese, sua comercialização é proibida. Na prática, custa em torno de R$ 400 e pode ser comprada pela internet. Estima-se que, de cada dez abortos, sete sejam feitos com Cytotec.

Em 1990, o professor Laurence Tribe, de Harvard, publicou um livro intitulado "Aborto - O Choque de Absolutos". (Entre os seus pesquisadores estava um estudante de direito chamado Barack Obama.) Tribe mostra que o aborto divide as sociedades e, sem uma certeza religiosa, não há como sair do debate seguro de que um lado está certo e o outro, errado. O aborto não é apenas uma questão de saúde pública, como a dengue. Trata-se de um conflito entre o direito do feto à vida e o direito da mulher à liberdade de interromper sua gravidez. (Sempre até o terceiro mês da gestação.)

Em 1973, a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu, por sete a dois, que as mulheres têm esse direito. No mesmo dia, julgaram dois casos. Uma das mulheres abortou. A outra perdeu o prazo e concebeu uma menina. Passaram-se 37 anos, a mãe mudou de ideia e tornou-se uma militante contra o aborto. A filha defende a decisão da Corte, que teria evitado seu nascimento.

No Brasil de hoje é improvável que o Supremo Tribunal Federal reconheça o direito das mulheres de interromper a gravidez. Também é improvável que o Congresso vote uma lei nesse sentido. A candidata Marina Silva, a única a expor uma posição que faz sentido, é contra o aborto, mas remeteria a questão a um plebiscito, no qual a proposta dificilmente seria aprovada.

Sobrou o lixo: a instrumentalização do tema para satanizar adversários políticos. Collor fez isso com rara maestria.

A baixaria circula na campanha presidencial de um país onde a rede pública de saúde do estado de São Paulo mantém, desde 1986, o Programa de Atenção Integral à Adolescente. Para júbilo internacional, entre 1998 e 2008 a internação de adolescentes por conta de abortos caiu de 10 mil por ano para 8.700. Mais: a gravidez de jovens de 10 a 20 anos caiu 38%, para 94 mil. Reduziu-se à metade os casos de segunda gravidez nessa faixa de idade.

Saturday, October 09, 2010