Thursday, December 28, 2023

28 de dezembro de 2016


SENSO DE MEDIDA

Eu sou artista há mais de 40 anos e se eu tivesse, em algum momento, conseguido fazer uma música só, não do Chico, mas do Caetano; não um clássico do Tom, mas um samba do Paulinho da Viola; se eu tivesse escrito, não uma obra-prima do Bandeira, mas um dos bons poemas concretos do Augusto de Campos; tivesse pintado, não um Matisse, mas um Volpi; tirado não uma foto do Capa, mas do Brassaï; se eu fosse autor, não de um conto do Torga, mas de um romance do Saramago, de um solo do Costita, não do Coltrane, enfim, de qualquer uma, não mais que uma, dessas criações, eu morreria me sentindo o pica-das-galáxias do meu quarteirão, por ter sido capaz de ultrapassar - ainda que uma vez somente - os limites de tudo que produzi ao longo da vida inteira. Por isso, causa-me estranheza ver que há quem acredite que a Carrie Fisher tinha problemas por ser atriz de um papel só, quando o papel em questão é o de uma das personagens do núcleo central da saga Star Wars. É necessário, para tanto, desconhecer, ou menosprezar, o enorme mistério que envolve a consagração dos ícones da cultura - popular, ou erudita - em qualquer tempo ou lugar em que esse milagre re-aconteça. Soa inteiramente desprovido de sentido considerar mais importante aparecer em vários filmes do que entrar para a História como a escolhida que interpretou a Princesa Leia, líder da Aliança Rebelde contra o Império Galáctico, gêmea do Luke Skywalker, filha do Darth Vader e amiga do Chewbacca. Na hipótese de que Carrie, segundo declarou em entrevistas, se sentisse presa ao papel como numa armadilha montada pela cruel (não há ironia no uso do adjetivo) indústria cinematográfica, a solução continua a me parecer fácil: telefonar e pedir umas dicas para o Harrison Ford. Os dois foram colegas de set, dizem que até namoraram, ele passou pelo mesmo problema e, pelo jeito, se resolveu a contento.

28 de dezembro de 2019


ÓI NÓIS AQUI TRÁ VEIZ

O MPL convoca manifestação toda vez que se anuncia aumento de tarifa em São Paulo. Já fazia isso desde 2000, quando um embrião do grupo foi criado no Fórum Mundial Social em Porto Alegre. Acaba de criar 'evento' no Facebook, como mostra o print acima (ou abaixo). Pouco ou nada mudou para o movimento desde seus primórdios, apesar de até hoje ter seu nome associado a grandes acontecimentos da vida nacional. E isso não é contraditório, ao contrário do que possa parecer, como tento demonstrar a seguir.

Em 2014, a Folha publicou um resumo dos sete atos que aconteceram entre os dias 6 e 19 de junho de 2013 em São Paulo.

É nítido: os atos 1, 2 e 3 são comandados pelo MPL e quem toma parte deles vai às ruas contra o aumento da tarifa e em defesa da mobilidade urbana.

O ato de número 4 é 'sequestrado' pelo Choque. A selvageria policial extrapola, sai do controle. Cria-se ali um fato político onde os manifestantes entram como vítimas, não mais como protagonistas.

O quinto ato, apesar de convocado pelo MPL, vê chegar uma multidão heterogênea e difusa, nitidamente 'descolada' das pautas originais. Não serão registrados 'atos de vandalismo', ao contrário das manifestações ocorridas nos dias anteriores.

Nos atos 6 e 7, todo mundo que acompanhou à época percebeu, sequer se notava a presença do MPL. A Direita já havia tomado posse.

O papel do MPL nas manifestações de junho de 2013 em São Paulo, portanto, foi secundário. Os atos que o grupo efetivamente liderou serviram, quando muito, de estopim para algo que estava latente. Atribuir qualquer significado relevante ao MPL no que se viu depois de junho de 2013 no Brasil é mais ou menos como avaliar que o estudante sérvio que matou a tiros o arquiduque do Império Austro-Húngaro é o responsável pela Primeira Guerra Mundial.

Parte da esquerda não-petista insiste numa leitura 'não conservadora' das manifestações que se espalharam pelo Brasil naqueles meses. Em São Paulo, é farta a documentação na imprensa e nas redes sociais, aconteceram dois fenômenos distintos. O MPL foi 3 vezes à rua para lutar pela mobilidade urbana e pela 'descatracalização da vida'. Os meninos e meninas apanharam tanto da PM que geraram na população de classe média um sentimento de revolta. Esse sentimento, quem sabe, levou milhares de pessoas ao Largo da Batata no dia 17. Dia 17 já é parte de outro fenômeno. E neste segundo instante, para onde quer que se dirija o olhar, vai aparecer, sem sombra de dúvida, a Direita tomando posse do 'movimento'. O que acontece a partir dali tem clara ligação com o que vinha acontecendo desde o 'Mensalão' e forma um todo coeso com o Golpe de 2016 e com a ascensão da Extrema Direita. Uma retomada do controle do Estado pelas oligarquias que havia momentaneamente diminuído desde a Constituição de 1988.

O MPL, desde antes, e desde então, é um movimento de pequenas proporções. Não se transformou com o aumento de visibilidade conquistado em 2013. Continuou, e continua, na sua vidinha de pular catraca e quebrar vidraça. São bons no que fazem. Afinal, mobilidade urbana é um tema fundamental na agenda dos direitos cidadãos. Mas 2013 e o MPL têm relação apenas de contiguidade. Jamais de causa e efeito.

Leia a seguir o resumo feito pela Folha em 2014:

RELEMBRE EM 7 ATOS OS PROTESTOS QUE PARARAM SP EM JUNHO DE 2013

JOÃO WAINER - EDITOR DA 'TV FOLHA' E DIRETOR DO DOCUMENTÁRIO 'JUNHO'

ATOS 1, 2 E 3

Com exceção de quem ficou preso no trânsito do centro e da marginal Pinheiros nos dias 6 e 7 de junho, quando ocorreram o primeiro e o segundo ato contra o aumento da tarifa, quase ninguém percebeu a conexão entre o que começava em São Paulo e o que já havia acontecido em Florianópolis e em Salvador.

Nas duas cidades, o MPL (Movimento Passe Livre) conseguiu reverter o aumento das passagens de ônibus com milhares de pessoas nas ruas. Em São Paulo, foi preciso uma onda de vandalismo, protagonizada por anarcopunks (com depredações de ônibus e de agências bancárias), para que o governo, a imprensa e a população percebessem os manifestantes. Isso ocorreu no 3.º ato, no dia 11.

A reação da mídia e do governo no dia seguinte foi similar, condenando o vandalismo dos manifestantes. O governador Geraldo Alckmin (PSDB), que estava em Paris com o prefeito Fernando Haddad (PT), afirmou que a ação de "baderneiros" destruindo o patrimônio era "intolerável".

A Folha e o "Estado de S. Paulo" publicaram editoriais pedindo a retomada da Paulista. Nas TVs, opiniões raivosas de Arnaldo Jabor, da Globo, e do apresentador José Luiz Datena, da Band, atiçaram a PM. A cena do policial Wanderlei Vignoli sangrando foi a gota d'água.

No dia 12, a corporação afirmou que os manifestantes não se sentiriam à vontade para se manifestar no ato marcado para o dia seguinte.

ATO 4

A promessa da PM foi cumprida. Na quinta-feira, dia 13, antes de o 4.º Ato Contra o Aumento da Tarifa começar, cerca de 50 manifestantes já haviam sido presos - muitos deles por portarem vinagre, que, além de temperar a salada, serviria para amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo.

O que se viu em seguida foi uma ação desastrada da PM, que iniciou um confronto na esquina das ruas Maria Antônia e da Consolação, atirando bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha em manifestantes, jornalistas e pedestres.

O colunista da Folha Elio Gaspari escreveu em artigo, no dia seguinte: "Quem acompanhou [...] pode assegurar: os distúrbios de ontem começaram às 19:10, pela ação da polícia, mais precisamente por um grupo de uns 20 homens da Tropa de Choque, com suas fardas cinzentas, que, a olho nu, chegaram com esse propósito".

Os disparos de bala de borracha no olho que a repórter da "TV Folha" Giuliana Vallone e o fotógrafo Sérgio Silva levaram foram um tiro no pé da própria Polícia Militar. A imagem dos jornalistas feridos correu o mundo e provocou uma reação de imediato repúdio da opinião pública.

As redes sociais ferveram como nunca antes, e a imprensa engrossou o coro dos descontentes. Todos denunciavam agressões e cobravam punição.

ATO 5

E foi. Na segunda, dia 17, eram milhares de pessoas nas ruas. Na concentração, no largo da Batata, o Datafolha contou 65 mil, mas, no decorrer da passeata, outros milhares se juntaram aos primeiros, formando uma multidão gigantesca nas ruas.

Em um certo momento, a passeata se dividiu em três blocos. Um foi para o Palácio dos Bandeirantes, outro para a avenida Paulista e o terceiro para a avenida Luiz Carlos Berrini. Houve tentativa de invasão ao palácio do governo aos gritos de "ei, Geraldo, seu governo vai cair".

No Rio, manifestantes atearam fogo na porta da Assembleia Legislativa; em Belo Horizonte, houve confronto com policiais; brasileiros no exterior foram até suas embaixadas para apoiar o movimento; centenas de cidades se rebelaram e foram às ruas protestar.

A vitória da seleção brasileira de futebol na Copa das Confederações, que ocorria paralelamente às manifestações, em vez de tirar o foco do que acontecia nas ruas, fez com que protestos contra a Fifa e a Copa de 2014 entrassem definitivamente na pauta dos manifestantes. Nascia o atormentador grito de "não vai ter Copa".

ATO 6

No dia 18, terça-feira, a manifestação se transformou em uma revolta popular. Como em uma batalha medieval, manifestantes atacaram a sede da Prefeitura de São Paulo. Na entrada lateral, tentaram derrubar a porta com um poste arrancado da rua. Enquanto isso, no hall principal, poucos guardas-civis lutavam bravamente para impedir que a multidão em fúria tomasse conta do prédio.

A PM, ainda sob impacto das fortes críticas que sofreu após atos de violência, desapareceu. O recado foi claro: "Vocês reclamam que a polícia é violenta, então vamos ver como é sem polícia". Naquela noite, marginais se aproveitaram da ausência policial e saquearam lojas das ruas São Bento e Direita. Pessoas corriam carregando TVs de plasma, brinquedos e até geladeiras nas costas. A PM só deu as caras horas depois da confusão.

ATO 7

Na quarta (19), o 7.º Ato Contra o Aumento da Tarifa, que deveria ser uma comemoração, foi o mais confuso e talvez o mais significativo do momento que o país esta vivendo. Com o aumento da tarifa revogado, abriu-se espaço para as mais diversas reivindicações em todos os espectros políticos, da extrema esquerda até a extrema direita.

Segundo o cientista político Marcos Nobre, o que aconteceu no dia 19 foi diferente de qualquer outra grande manifestação já ocorrida no país. "Até junho de 2013, as pessoas iam para as ruas sempre por um objetivo comum, como foram as Diretas ou o impeachment de Collor. O que se viu naquele dia foi cada um com a sua reivindicação e com opiniões muitas vezes incompatíveis. Obviamente, isso não viria sem conflito."

28 de dezembro de 2019

Luiz Kignel, presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo, disse ao Estadão: "Agora um presidente olha por nós". Juntam-se a ele o Jorge Paulo Lemann ("O rumo do Paulo Guedes está correto. Poderia ter menos agito na parte política") e o Cândido Bracher ("É uma situação macroeconômica tão boa que eu nunca vi em minha carreira). Pronto. Taí o que a gente precisa pra saber como o Bolsonaro foi 'eleito', como ele ainda não 'caiu' e quanto tempo ele 'permanece'. Ah, claro, quanto tempo ele permanece não dá pra dizer exatamente, mas nada justifica qualquer otimismo. Só pra completar: esses 3 não estão sozinhos.

28 de dezembro de 2019



Por trás da eterna discussão sobre os 'significados' de 2013 está um pressuposto: o Golpe poderia ter sido evitado.

Mas, na América do Sul, um presidente cai a cada 10 meses, em média, há mais de 100 anos!

O Lula, que, no lugar da Dilma, teria, por supuesto, resolvido a situação, amargou quase dois anos de cadeia. Derrubaram mês passado o Evo Morales... enquanto no Chile e no Equador os presidentes insistem em permanecer. Sintomático, não?

O 'grande acordo' com Supremo com tudo, parece, é mais que continental. É sistêmico.

Talvez quem não viveu os anos de chumbo no Brasil não conheça o ar sufocante que fica quando as oligarquias estão no Governo. É um peso. Da porra. Achar que é possível encarar o bafo desse Leviatã é, no mínimo, dificuldade com cálculo.


Wednesday, December 27, 2023

27 de dezembro de 2023


E ASSIM SE PASSARAM 10 ANOS

Final do ano, em 2013, as coisas tinham acalmado.

Final do ano, em 2014, o campo democrático venceu a eleição por um trisco.

Em 2015, final do ano, a coisa tava tensa.

Em 2016, foi Golpe!

No final de 2017 nossas esperanças estavam concentradas no Lula.

No início de 2018, PRENDERAM o Lula!

No final de 2018, o impensável aconteceu e um boçal de extrema direita ganhou com a missão de botar o país pra baixo de cu de cobra. Botou.

A partir daí, são aquelas lembranças de quem capota com o carro. Tudo meio borrado. Meio embaralhado.

Tava foda.

Mas veio 2020. E, véio, pandemia é um horror, mas pandemia + Bolsonaro, eu não desejo nem pro meu pior inimigo. Ou melhor: desejo sim!

Foi aí que o Lula, no melhor estilo Star Wars, ressurgiu das cinzas e salvou nóis tudo!

Tem uns bocó que até hoje ganha a vida arranjando defeito no Lula. Como se a premissa pra salvar nóis tudo fosse não ter defeito.

Essa é, no entanto, talvez, a principal qualidade do Lula. Saber que a perfeição é uma meta perseguida pelo goleiro que joga na Seleção, etc. etc. etc.

O alívio de terminar 2023 como estamos terminando não cabe num textão dessa rede social em franca decadência. Voltar aos velhos posts de gatinhos, selfies do Natal em família, imagens sorridentes de viagens de férias, pratos de comida e pouquíssimas notícias (como acontecia até 2012) é o grande indicador de que já não estamos entregues à sanha destruidora dos nazifascistas versão brasileira.

Que voltamos a respirar.

Não é pouco. E é uma delícia. Mas, cares amigues, eu, de minha parte, não relaxaria os esfíncteres. Os últimos 10 anos foram terrivelmente parecidos com aqueles outros 500, a contar de quando Cabral aportou por aqui.

O Brasil continua tendo um grande passado pela frente.

27 de dezembro de 2016

 


27 de dezembro de 2016


A Princesa Leia morreu. Eu sei que a modinha da semana é falar que '2016' não é culpado de nada, afinal o que denominamos ano é apenas uma convenção humana para organizar o tempo, blá, blá, blá.

Mas, ó, xô falar: tá difícil!!! 2016, seu filho de uma égua!!!

Vou adotar, para efeito de conciliação entre as tribos, hipótese mais tangível: o lado obscuro da Força tá botando pá fudê ultimamente. Melhorou?

Na imagem, Carrie Fisher em ensaio para a revista Rolling Stone.


27 de dezembro de 2016

É bem curioso o modo de pensar da esquerda no Brasil. Lula levou 20 anos até virar presidente e, no processo, além do vento da redemocratização soprando a favor, assinou uma Carta aos Brasileiros, adotou o slogan "Lulinha Paz e Amor", conciliou com deus-e-todo-mundo, concedeu, aceitou, fez coalizão, acordo, desvio de rota para, antes de chegar à metade do mandato, ainda tomar um Mensalão nos cornos. Daí pra frente, refém do PMDB, foi encontrando meios de transformar tudo o que estava dentro do horizonte do possível, até a vitória final do golpismo, quando nada do que foi construído escapa à sanha devoradora da regressão. Acreditar que Lula tira o Brasil do atoleiro nas condições francamente adversas em que o campo democrático se encontra é a versão classe média letrada do messianismo típico das massas sem dinheiro dessa nossa eterna colônia. Lula 2018 é a esquerda brasileira dando bandeira de que também acredita em herói. Pois lhes digo, caros amigos, o herói é aquele que retorna ao final da saga. O herói que morre no percurso, deixa de ser herói e passa a ser mártir. Lula Mártir 2018, sou contra.

27 de dezembro de 2014


A rede social é um ponto cego cercado de pontos cegos por todos os lados.

Ou, a rede social é um lugar de onde é preciso ser resgatado! Um cipoal de palpites, informações, furos de reportagem, chutes, mentiras...

Daí a naturalidade com que cada um grita seu palpite, informação, furo de reportagem, chute, mentira... como quem pede socorro.

Ou, ainda...

A rede social é um labirinto em que toda parede torta abre outra entrada estreita, sem um fio que conduza de volta à saída.

É nisso que reside a mágica da coisa. Pra cada grande verdade, sempre haverá um desmentido. Pra toda narrativa, um desenredo. Pra qualquer zona cinzenta um facho de luz. E vice-versa.

Não há exatamente bússolas, ou sistemas de navegação, só esse eterno e tateante tête-à-tête que o meu catálogo de metáforas de gosto duvidoso... como queríamos demonstrar.

Sunday, December 24, 2023

24 de dezembro de 2016


VEJA, no maior descaramento, faz uso de um símbolo da luta democrática universal para ilustrar sua retrospectiva do annus horribilis de 2016. O capital tem poder de cooptar cartunistas geniais como esse Eco Moliterno. Se pensa que com isso coopta de cambulhada o sentido do original da paródia, pensa errado.

Senão vejamos.

Contam que em 1940, Paris ocupada pelos nazistas, dois oficiais alemães, diante do gigantesco painel recém concluído, perguntaram a Picasso: "Foi o senhor quem fez isto?". Ao que o espanhol respondeu prontamente: "Não, foram os senhores".

Se um dia alguém perguntar de quem é a responsabilidade por estarmos, 52 anos depois, em situação institucional tão precária e semelhante ao golpe de 1964 que justifique a analogia com o despedaçamento da Guernica, eu, de pronto, diria: não só, mas MUITO, da revista dos Civita.

Engulam, pedaço por pedaço, as quatro capas, usurpadores.

Nem vem de garfo, que hoje é dia de sopa. Pá riba de muá?

¡No pasarán!


24 de dezembro de 2022

Assim como nós havíamos sido derrotados em nossos "não passarão", "fora Temer", "ele não" e tantos outros, os bolsominions estão voltando pra casa de mãos abanando.

Assim como nós, eles cultivaram esperanças plantadas em solo ressecado. O Golpe era impossível de evitar. O grande acordo nacional com Supremo com tudo, depois que 'decidiram' por ele, provou-se 'imparável'.

A derrocada do bolsonarismo, algo que sequer sabemos se existe, ou é ficção a serviço do próprio Golpe, é igualmente inevitável.

Bolsominions (como nós fomos) são figuração. O poder decisório passa longe das micaretas verde amarelas e mais ainda dos acampamentos de porta de quartel.

Está mais do que na hora de deixar de dar atenção para essa pequena massa de ignorantes. Gente sem repertório político, estético, ético.

Para isso acontecer, a gente antes porém, tem que reconhecer nossa 'miniondependência'. Nossa adicção, o prazer repetitivo de chutar cachorro morto.

Eles só dançam quando alguém bate palmas.

Friday, December 22, 2023

22 de dezembro de 2021


Lembra o Édipo, aquele q matou o pai e casou com a mãe? Então, ele fura os olhos no fim por decisão própria. O castigo na Grécia antiga, a penalidade foda, mesmo, eram o banimento e o ostracismo.

Condenava-se o cidadão ao desterro: um apátrida, um pária.

Pois bem, a Globo não incluiu a Regina Duarte no Especial 70 Anos das novelas no Brasil.

Achei trágico. 😄

22 de dezembro de 2019


PROFESSOR MISÉRIO

Esse senhor que, de tão branco, tem o nariz vermelho, escreve sobre questões da negritude no Brasil há décadas. Sociólogo. Baiano. Antonio Risério.

Hoje ele publicou na Folha um artigo com o título Lugar de Fala é Instrumento para Fascismo Identitário.

Ele tem se sentido cerceado no debate nacional.

Acho possível discutir os termos propostos no texto. Apesar do polemismo lacrador exercido com o profissionalismo de quem já trabalhou ao lado do marqueteiro João Santana, não é puro absurdo o que Risério afirma.

Mas tem um problemão, em dois momentos (tem mais, mas vou me ater a esses dois, gravíssimos).

A frase que inicia o artigo: "Minha intenção, aqui, é colocar o tal do lugar de fala no seu devido lugar". 😲

E, mais pra frente, quando diz perceber "uma onda de violência se encorpando assustadoramente em todo o país".

Para Risério a onda parte "tanto do segmento atualmente mais barulhento da esquerda, cristalizado nos movimentos identitários e suas milícias (eufemisticamente tratadas como 'coletivos'), quanto da extrema direita, com sua ponta de lança na boçalidade bolsonarista".

O enrosco, segundo ele, é que "a crítica esquerdista a uma ascensão do fascismo entre nós tem sido feita de maneira estranha e sintomaticamente seletiva".

E completa: "O que vemos são ataques ao fascismo de direita - e silêncio sobre o fascismo de esquerda. Como no dito popular, os macacos se negam a olhar o próprio rabo". 😱

Aí fudeu, né? Vai colocar 'os macacos' no seu 'devido lugar'?

Num texto sobre racismo?!?

Só pra fechar, é ainda sintomático o exemplo que Risério escolheu para comprovar a 'onda de violência' vinda do lado das 'milícias' dos movimentos identitários: "em 2013, numa feira literária em Cachoeira do Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, [...] extremistas identitários impediram o geógrafo Demétrio Magnoli de falar e praticamente o expulsaram da cidade".

Sem dúvida mais um exemplo infeliz de quem quer comparar tiros no ônibus do Lula, execução da Marielle, ou fogos de artifício no barco do Glenn Greenwald com o esculacho de uma figura pública altamente agressiva.

Evidente que um cara com a experiência de escritor que esse homem tem escolheu conscientemente as palavras que usou. Os motivos... vai saber! O resultado é que o texto inteiro fica contaminado.

Vai aqui o link da matéria, aberto para assinantes da Folha:

22 de dezembro de 2016


TUDO É DIVINO E, AQUILO, MARAVILHOSO

O hype de ontem foi o filminho com os balangandãs da Clarice. O de hoje, é provável, será a pesquisa do Ibope que indica que o conservadorismo no Brasil está em ascensão.

Claro que vai ter gente ligando uma coisa com a outra. E... dá-lhe polêmica. Bingo!

Minha contribuição para o debate: sobre o conservadorismo brasileiro é indispensável ler Cultura e Política, 1964 - 1969 do Roberto Schwarz. Nesse artigo está escrito, em itálico, "Apesar da ditadura da direita há relativa hegemonia cultural da esquerda no país". Foi publicado em 1970. Sem ele não dá pra começar a discutir a onda conservadora (e a consequente mudança de eixo hegemônico), tema que a intelectualidade democrática havia pautado fortemente já durante as eleições de 2012.

Sobre a Clarice, acredito que o foco nem de longe está naquela sequência ao mesmo tempo ansiosa e interminável de corpos-só-pélvis. A pauta é indústria cultural. O texto que não pode ficar de fora se chama A Crise na Cultura: Sua Importância Social e Política e foi publicado pela Hannah Arendt, salvo engano, em 1958. É nesse ensaio que a Arendt briga com o Adorno e chega a debochar da tal "regressão da escuta". Tudo muito sutil, claro. A autora de On Revolution despreza a tese mais famosa do frankfurtiano e prefere tratar do fenômeno do "filisteísmo".

São dois textos e dois temários tão fundamentais quanto antigos. O fato de permanecerem pouco usados para refletir sobre o Brasil contemporâneo "é por demais forte simbolicamente" para a gente não se abalar.

O Oswald de Andrade dizia: "Só a Antropofagia nos une".

Mas isso nunca foi verdade. O que nos une é o atraso.

Precisamos tirar o atraso. Como diria a Sara Sheeva. Não... péra...

22 de dezembro de 2013


Papai Noel, não sou mais criança. Por isso não acredito no senhor. Pero que las hay, las hay.

Sendo assim, queria agradecer, antecipadamente, a energia elétrica que vai manter meu chuveiro funcionando no dia 25 de dezembro e a tubulação que vai levar todas as sobras da ceia que estou combinando com a turma. Véspera de Natal a gente exagera, né?

Agradeço também, desde já, os bueiros bem conservados do meu bairro, já que na época das festas é comum chover forte e aqui, sem entupimentos, fica quase impossível haver qualquer inundação.

Queria agradecer as ruas bem pavimentadas do meu bairro e ao longo de toda a extensão dos inúmeros trajetos que meus amigos percorrerão para chegar aqui.

A iluminação das ruas, para que eles, além de me acharem fácil, cheguem em segurança. Toda a sinalização de trânsito, as rotatórias, os semáforos, as faixas de pedestres, as lombadas, as placas, a numeração das casas.

Agradecer o caminhão de lixo que vai passar, infalível, levando o lixo comum, agradecer a coleta seletiva e os moços da varrição que passam antes e depois. Sem contar as lixeiras "de poste", essa limpeza contribui muito para o ar aprazível que meu bairro possui.

Pr'esses lados tem várias praças, grande parte das ruas é arborizada, se alguém exagerar na comida, vai dar pra dar uma voltinha, que ajuda na digestão.

O policiamento do meu bairro é constante. Os guardas são nossos conhecidos e tomam "café de cortesia" na padaria do Seu Cabral. A padaria fecha um pouquinho mais cedo na véspera de Natal e é nessas horas que a gente entende para que serve aquele adesivo da ROTA que o Seu Cabral cola no vidro da entrada. Os índices de criminalidade são baixíssimos por aqui (apesar da minha paranoia, admito, ser bem alta), e eu sei que, mesmo a festa sendo tarde, a gente vai poder se sentir seguro.

Se faltar qualquer coisa, sempre tem algum lugar 24 horas que dá pra acessar. São pelo menos seis as grandes avenidas que atravessam, desembocam ou se iniciam no meu bairro, isso agiliza. Gelo, por exemplo, é um negócio que sempre falta e precisa transportar rápido.

Quem quiser vir de metrô a estação está a 15 minutos de caminhada. Várias linhas de ônibus estão a até três quadras daqui. Até de bike dá pra chegar. A internet é de fibra ótica, não precisa 3G para ligar pro táxi do aplicativo, e eles vêm rápido, meu endereço está em todos os GPS, o prédio aparece, inclusive, no google street view (super legal!). Falando em conexão, a gente vai poder escolher o som que quiser no youtube. É bom, que não tem risco da seleção ser delícia pra uns e chata insuportável pra outros.

Se, Deus me livre, alguém passar mal sabe quantos hospitais, postos de saúde e farmácias abertas a noite toda tem por aqui?

Por isso, Papai Noel, e por outras muitas coisas, queria agradecer antecipadamente os benefícios públicos que vou poder oferecer aos meus amigos mais esse Natal. Agradeço antecipado pois sei que esses benefícios estarão disponíveis como sempre estiveram ao longo dos meus 51 anos e agradeço por recebê-los de presente, ano após ano, já que ter crescido sob essas condições é resultado exclusivo da mais pura sorte, não tem absolutamente nada a ver com mérito.

Queria pedir, Papai Noel, para que nenhum dos meus convidados, depois de beber, comece a fazer discurso contra as faixas exclusivas, a carga insuportável de impostos, a má qualidade dos serviços, a incompetência da Dilma ou se ponha a elogiar o Joaquim Barbosa e depois erga um brinde pelo Mandela. Mas, isso, Papai Noel, é fantasia infantil minha e eu, como havia dito no início, sei que o senhor não existe.

Atenciosamente,

Irajá

Friday, December 15, 2023

15 de dezembro de 2015


Isso que o Kim Kagatudo fez com o Ney se chama "trollar". O Ney caiu como um pato, depois de ter participado do show pelos Direitos Humanos no Ibirapuera.

Acontece que a maldade do Pokemon do MBL está baseada em duas entrevistas do Ney. Uma para a TV portuguesa e uma para o El Pais.

Nas duas o Ney faz o seu discurso coxinha, contra os "corruptos" e as "bolsas-esmolas".

Aí fica difícil escapar ileso.

Se alguém não viu:



15 de dezembro de 2016


NO LONGO PRAZO ESTAREMOS TODOS MORTOS

Na imagem, um telefone celular de última geração. Em 1996.

No link, artigo da economista Laura Carvalho, demonstrando como a PEC 55 não foi feita para durar 20 anos.

Percebe? A quase totalidade dos protagonistas do governo disenterino estará fora de combate em 2036. Com um pouco de sorte, eu e você, que "militamos" no Facebook, estaremos vivos. Repare, qualquer resultado da presente disputa só será obtido por novos players, num futuro de motivações que ainda sequer são possíveis de discernir.

No curtíssimo prazo, recomendo a síntese formulada por um amigo: "Estamos na lama. É fato. O que fazer com isso é a pauta".

Em minha humilde opinião, o campo democrático precisa reconhecer que está órfão de lideranças.

Ao contrário da direita-coxo-fascista-rentista-midiática-internacional. Ou, numa palavra: Moro.

No funeral de Fidel Castro compareceram CUT, MST, MTST, PT, Lula, Dilma e Fernando Morais. Uma figura de certo modo destoante, Breno Altman, parecia estar ali para representar o comandante José Dirceu. Faça o cálculo. São eles os nosso líderes consagrados em décadas de construção e lutas.

E todos aparentam estar num movimento tático de recuo.

Tudo isso desemboca numa grande indiscriminação. O voluntarismo ansioso que encontra campo fértil no brouhaha babélico das redes sociais, se vai pras ruas, torna-se presa fácil dos farsantes. De onde surgiu o verdadeiro arsenal de fogos de artifício usado no "ataque" ao prédio da FIESP? Onde estava o Choque, que ninguém viu? O "vandalismo" em Brasília foi creditado à infiltração de agentes da "inteligência". Na Paulista, ao contrário, era o "povo" se manifestando? E por que não? E por que sim?

Quem vai saber responder? Virou zona. Cinzenta.

No longo prazo estaremos todos mortos. E a direita, mais do que ninguém, é consciente dos dias contados a que tem direito. Leia, se ainda não viu, o artigo que Vinicius Torres Freire publicou sobre os planos de salvação que as "elites" estão pondo em prática. É a crônica dos desenganados. É a disputa pelas boias do Bateau Mouche. É um deus-nos-acuda. Um pega pra capar. O cinismo naturalizante do articulista enche de sentimento o texto. O bom cabrito não berra. Mas quando vai pra degola sabe que vai morrer.

Qualquer desfecho minimamente feliz passa por um trabalho de muitas décadas, num panorama em que os telefones celulares dão a medida da velocidade com que as coisas hoje caducam. Mais da metade daquilo que nossas crianças precisam aprender para viver bem no futuro ainda não foi inventado, disse o Jorge Larrosa. O que não pode, diante de um amanhã assim semovente, é a eterna lei do mais forte continuar a prevalecer.

Sem lideranças é o governo do acaso. Nós tivemos Getúlio. Juscelino. Lula. Dilma, cujo legado de liderança ainda está por ser interpretado. E todos os homens e mulheres de iniciativa espalhados pelos variados campos da luta política. Dom Paulo Evaristo Arns, por exemplo. Sabemos que falta faz o líder. A direita também. Por isso constrói os dela. E criminaliza os nossos.

Toda essa zorra começou avalizada por teorias que usam a metáfora do "rizoma" e fazem o elogio da "horizontalidade".

Até o instante em que escrevo, rizoma me lembra mais o dito popular "comer a grama pela raiz" e horizontalidade traz à memória os versos: "todo mundo é igual, quando o tombo termina, com terra por cima e na horizontal".

Pra onde a gente olha, a sensação é de morte.

Please, leve-me ao meu líder!

💧

LAURA CARVALHO:


VTF:

15 de dezembro de 2020


Em 1982, o professor Darcy Ribeiro disse: "Se nossos governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios".

Confirmando a profecia, a taxa de encarceramento a cada 100 mil habitantes passou de 61 pessoas em 1990 para 367,91 em 2019.

76,1% dos atuais 773.151 presos cumpre pena por delitos relacionados a drogas ou contra o patrimônio, atividades monopólio do crime organizado.

Apenas 11,3% do contingente responde por 'crimes contra a pessoa'. No entanto, em 2019 foram registrados 41.635 assassinatos (2.886 cometidos por policiais civis e militares em serviço e de folga).

Muita gente morre assassinada. Mas a cadeia tem poucos assassinos.

Esses números, à primeira vista, contraditórios, na verdade se explicam pela lógica da 'Guerra às Drogas'.

E como funciona a 'guerra'?

A polícia é responsável por cerca de 7% do total de mortes. Seu principal papel não é matar e sim gerenciar a 'guerra' - que não é guerra, mas um sistema.

A polícia decide quem vai preso e quem fica solto, mediante acordos financeiros: não há 'biqueira' sem 'arrego', nem 'arrego' sem 'biqueira'.

O encarceramento em massa, ao mesmo tempo em que 'abre novas vagas' nas ruas, coloca à disposição das facções milhares de 'soldados' que não sobrevivem nos presídios sem se filiar a algum grupo que exigirá fidelidade mesmo daqueles que voltam para casa.

O fluxo contínuo mantém acesa a disputa entre as gangues.

Esse é o principal motivo de haver pouca gente presa por assassinato. Quem mata, em breve também morre. E quem não morre não é investigado.

É de 'bandido pra bandido' que acontecem mais de 35.000 assassinatos computados ano a ano.

Os órgãos da lei deixam o caminho livre para que eles se matem uns aos outros.

Retornando ao início do círculo vicioso, a oferta de trabalho para os chamados 'postos baixos' do crime é ininterrupta, porque morre gente sem cessar.

Quem são os mortos e os matadores que alimentam essa contabilidade macabra?

Jovens entre 15 e 25 anos, homens, pobres, negros e periféricos em sua quase totalidade.

Aqueles alunos das escolas que não foram construídas, como previu Darcy.

O panorama está longe de ser estável, ou previsível. Por exemplo, enquanto as três maiores facções do narcotráfico estão em 15,4% do Rio de Janeiro, as milícias já controlam 57,5% do território do município. 'Modelo de sucesso' que tende a ser transplantado para todo o país.

O que mudou, além do assombroso crescimento de mortos, presidiários e organizações criminosas?

O debate.

A defesa da escola como a principal alternativa contra o genocídio da juventude negra caiu num quase esquecimento, a partir da virada do milênio.

A lógica da 'Guerra às Drogas' passou a se retroalimentar e as principais vítimas são agora consideradas quase unanimemente os culpados.

Mídia e igrejas fundamentalistas cumpriram papel determinante, ao jogar para o campo da moral um fenômeno que decorre de problemas estruturais, econômicos, de raça e de classe.

Nos anos 80 do século XX era comum reconhecer que o crime alicia os jovens em situação de vulnerabilidade. Que o adolescente de periferia é facilmente cooptado para aqueles chamados 'postos baixos' do tráfico e que tal situação, por levá-los em grande número à morte, é uma questão de Estado, desafio para a saúde pública, ou, como na síntese brilhante de Darcy Ribeiro, exige intervenção dos governos.

Para o pensamento conservador de recorte fascista, a equação está resolvida. Não existe genocídio da juventude negra e periférica, porque só ingressa no crime 'quem quer'. A polícia, por sua vez, tem, como o governador interino do Rio costuma dizer, uma 'missão'. As vidas ceifadas são 'efeitos colaterais', plenos de justificativas, ainda que 'a se lamentar'.

Edson, que tinha 20 anos e era aluno do ensino médio? Jordan, de 17 e que pensava em seguir carreira militar? Nas palavras do porta-voz da PM, foram mortos em "área perigosa" de Belfort Roxo "por conta de uma ação extremamente errada" que "infelizmente" colocará "em risco" as carreiras dos dois "jovens policiais" que os executaram.

Emilly Victoria e Rebecca Beatriz, de 4 e 7 anos, mortas em Duque de Caxias, cujas famílias receberam daquele mesmo governador interino "solidariedade e orações" por intermédio de um... tuíte?!?

São todos 'acidentes de percurso' numa 'guerra necessária'. Só resta às autoridades 'sentir muito', até que o último criminoso seja exterminado.

Paira um ensurdecedor silêncio sobre os túmulos dos meninos do crime. Suas famílias são impedidas de pranteá-los - é uma regra 'na quebrada'. A sociedade se ocupa cada vez menos deles. Mesmo as odes que cantavam suas sinas não chamam mais a atenção. O menino de 13 anos que "barbarizaram com mais de 100 tiros", da letra do Aldir. O 'guri' do Chico, que levava presentes roubados para a mãe. Ou o 'vapor barato, mero serviçal do narcotráfico' encontrado na 'ruína de uma escola em construção' da sugestiva Fora da Ordem, do Caetano. Velhas canções.

Vez por outra o bloqueio é furado. O garoto crivado de balas na cruz do desfile da Mangueira. A Pietá do Grito dos Excluídos em Brasília com seu Jesus morto a tiros. Várias perfurações indicando que os disparos encontraram o destino original, o 'bandido' merecedor da morte. Sem desperdício de munição. Sem balas 'perdidas'.

Enquanto o Brasil não recolocar o genocídio da juventude negra e periférica e sua solução mais efetiva - a escolarização - em pauta, sem pudores, falsos moralismos, ou temor da reação conservadora, veremos crianças inocentes, jovens trabalhadores, pais de família e tantos outros brasileiros sem qualquer ligação com o crime tombarem como tombam os 'vida loka'.

Um país que deixa morrer 30 mil jovens cidadãos a cada ano e que os trancafia aos milhares, como se não fosse isso um gigantesco problema coletivo, não tem condições de avançar em qualquer área.

Não nos pode causar surpresa o descaso com que morrem centenas de pessoas diariamente há meses na pandemia. O corpo morto no Brasil comove muito pouco.

'Não é problema meu'.

O corpo morto, no Brasil, é sempre o corpo 'do outro'.


15 de dezembro de 2020

Como havia sido previsto, profissionais da linha de frente da Saúde estão exaustos após 10 meses de trabalho pesado.

Por isso, quem ficar doente pode ficar sem assistência.

Relato de um médico carioca, no Twitter:

"Hoje ninguém veio trabalhar no meu setor, só eu. Somos quatro pessoas. Semana passada, outros quatro desistiram. Os pacientes não foram embora, continuaram chegando, tão graves como sempre".

De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o Brasil registrou 964 novas mortes provocadas pela covid-19 nas últimas 24 horas.

O país está rumando para os festejos de fim de ano com estatísticas muito semelhantes aos números do auge da pandemia, em agosto.

Um desastre anunciado.

15 de dezembro de 2022

A PF cumpre ao menos 104 mandados de busca e apreensão contra envolvidos em manifestações antidemocráticas.

Os mandados foram determinados pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes;

A operação da PF ocorre no Distrito Federal e em oito estados: Acre, Amazonas, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rondônia e Santa Catarina;

Conforme apuração do UOL, também há mandados de prisão. A PF informa que no Espírito Santo ocorreram quatro prisões preventivas.

Moraes também determinou a quebra de sigilo bancário e o bloqueio de contas de dezenas de empresários. Os nomes dos envolvidos não foram divulgados.

A força-tarefa da PF inclui como alvos pessoas que participaram ou financiaram os bloqueios em rodovias e manifestações em quartéis, em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL).

"Ainda falta muita gente pra prender", afirmou ontem o ministro Moraes, sem entrar em detalhes.