Sunday, July 04, 2010

11/04/2010
Fábio Zanini

O uso da máquina no Sudão

Cartum (Sudão) – Ontem foi o primeiro dia de eleições multipartidárias no Sudão, um evento tão raro quanto investimento em prevenção de deslizamentos no Rio de Janeiro.

A última foi em 1986, há 24 anos, e se essa eleição está longe de ser perfeita (explico mais adiante), é histórica assim mesmo. O Sudão pertence ao mundo árabe, ao menos grande parte dele, e nesse pedaço do planeta geralmente a cédula é de partido único, com o presidente eleito com 99% dos votos.

Ontem, eleitores tiveram mais escolhas além do partido do Congresso Nacional, do presidente Omar al-Bashir, embora as mais fortes legendas da oposição tenham decidido boicotar a eleição. Al-Bashir vencerá com maioria retumbante, porque é um esperto marqueteiro e preside uma economia crescente.

Atingirá assim seu objetivo de mandar à comunidade internacional o recado de que o Sudão está com ele e não aceita o indiciamento por crimes contra a humanidade cometidos na região de Darfur (oeste).

Mas é um avanço, sem dúvida, dar ao eleitor mais de uma opção. Tímido, mas um avanço.

Visitei uma seção eleitoral numa região paupérrima, ao sul de Cartum, a capital. Uma cena emocionante. Velhinhos sentados em bancos de metal, totalmente desprotegidos do sol de 45 graus, esperando horas para votar. O primeiro voto de suas vidas.


Mulheres também esperavam pacientemente, com os trajes coloridos que são a marca do norte da África.


 A região que visitei chama-se Soba al-Radi. Começou como um campo para refugiados há cerca de 20 anos, para pessoas de todos os cantos do Sudão que escaparam da fome, desemprego e de várias guerras.

Em diversas ondas eles chegaram. Primeiro os do sul do país, vítimas de uma das mais longas guerras civis que o continente já viu (1983 a 2005). Mais recentemente, os fugitivos de Darfur.

Hoje Soba al-Radi é um favelaço com 200 mil habitantes, ruas de terra vermelha, casebres de tijolos feitos de lama endurecida e cheiro de lixo. Uma escola pública foi escolhida como seção eleitoral, e logo várias filas se formaram.

Quase todos ali são eleitores de al-Bashir. Alguns porque realmente admiram o presidente. Beneficiaram-se do crescimento econômico e não dão a mínima para o sofrimento causado por ele em Darfur. Outros simplesmente porque são empregados do governo.

E muitos porque foram alvo de um dos mais descarados exemplos de voto de cabresto que eu já vi. Nunca testemunhei nada como o que ocorreu ontem. Eleitores chegando em carros do partido do governo, abertamente (fiz a foto abaixo).


Depois, encaminhados a uma tenda mantida pelo mesmo partido. Recebiam comida, água e um título de eleitor provisório, caso não tivessem documento. E muitos não tinham. Para poder votar, bastava que fossem “reconhecidos” como moradores do local por outras pessoas.

Analfabetos, ganhavam ainda uma cédula-modelo, ensinando a marcar na opção “arvorezinha”, símbolo do partido de al-Bashir.

Para quem acreditou numa eleição “livre e justa”, uma prova inconteste de que o mundo árabe ainda tem um salto a dar após o tímido passo de ontem.

1 comment:

KS Nei said...

Mais! Mais Sudao!