Digito mais um trecho da Arendt aqui nestas Leituras. Um amigo, leitor assíduo (e eu dele), comenta e, assim, me linka para a Morte e Vida Severina, texto do João Cabral, música do Chico, que eu nunca me havia disposto a ler. Percorro o google e, em segundos, estou diante de um estudo do tal auto de natal em questão. Leio só o início, o prólogo, e já é bastante para entender a intuição do amigo próximo distante que escreve à noite, eu o leio de dia, e, como pode? simultaneamente. Vai daí que envio por e-mail o texto da Arendt para um outro brother, que responde ter gostado. Me animo e copio o prólogo da Morte e Vida; nesse momento ele linka com outra memória, do colunista da revista e costura mais um ponto. Ponto com. Trocadilho infame mas, em princípio, real. E, por fim, todo esse enredamento me levou a reler o post inaugural do blog. Porque ele, também, ecoa.
Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto e a questão das máscaras permutáveis, nem "inalienáveis", nem "anexadas" ao eu. "Iguais em tudo e na sina" os Severinos partem, ainda assim, em busca de se descrever em sua particularidade: "para que me conheçam melhor / e melhor possam seguir a história de minha vida".
Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto e a questão das máscaras permutáveis, nem "inalienáveis", nem "anexadas" ao eu. "Iguais em tudo e na sina" os Severinos partem, ainda assim, em busca de se descrever em sua particularidade: "para que me conheçam melhor / e melhor possam seguir a história de minha vida".
O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
Severino Cavalcanti, atual prefeito de João Alfredo, estado de Pernambuco, flagrado na boca do caixa da botija dos esquemas de propinas traz no nome a marca da contradição. Ou se é Severino ou se é Cavalcanti. Os cavalcantes costumam cavalgar os severinos. São as partes que lhes cabem nesse latifúndio.


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