Monday, August 11, 2025
Friday, August 01, 2025
Barbárie
A questão de saber quem é verdadeira e plenamente um ser humano, com os direitos inalienáveis que isso confere, não é nova, mas se coloca hoje em novos termos que não podem deixar indiferente quem se interessa pela educação.
A questão não é nova. "Bar, bar", diziam os gregos, zombando da forma de falar dos persas. O bárbaro nem mesmo sabe falar corretamente, é grosseiro, selvagem, mais ou menos cruel, sempre pronto a nos invadir. Mas a ideia de barbárie é ainda mais radical: existe barbárie em qualquer situação, encontro, relação entre humanos na qual um nega a humanidade do outro. O bárbaro, aos olhos do "civilizado", é radicalmente outro; ele tem aparência humana, mas se pode duvidar que seja verdadeiramente um homem e, portanto, pode ser tratado como um objeto, eliminado se for incômodo e, com certeza, ser maltratado e reduzido à escravidão. De modo que, por inversão da situação, o "civilizado" trata aquele que considera "bárbaro" com métodos cruéis, sanguinários, indignos de um ser humano e que podem, por sua vez, ser qualificados de bárbaros. Ao considerarmos o outro como um bárbaro, acabamos sempre nos comportando de forma bárbara — torturando, acendendo fogueiras, cortando cabeças, colocando ou lançando bombas, reduzindo à escravidão etc. Aquele que nega a humanidade do outro, rompe o vínculo de pertencimento a um mundo comum e, ao mesmo tempo, coloca a si próprio fora da humanidade: a barbárie é contagiosa.
Educação ou Barbárie? Uma escolha para a sociedade contemporânea. © 2020, Bernard Charlot. Tradução Sandra Pina. Cortez Editora.
Imagem: Gaza City. Omar Al-Qattaa /AFP / Getty Images. Outubro, 2024.
Thursday, July 31, 2025
31 de julho de 2018
Ao contrário do que parecia óbvio, Jair Bolsonaro saiu ileso do Roda Viva. Por ironia do destino, no mesmo dia em que Neymar Júnior virou picadinho poucos minutos depois de lançar seu comercial-desabafo pago pela Gillette.
Duas diferenças entre um e outro: apenas no YouTube do patrocinador, o camisa 10 tem quase 1 milhão de views e cerca de 60 mil likes ou deslikes. Visto que dali o vídeo viralizou, a repercussão necessariamente tem que ser medida em dezenas ou centenas de milhões, e ao redor de todo o planeta.
O Roda Viva dá traço no Ibope toda semana. Boa parte do país sequer recebe o sinal da TV Cultura.
A segunda diferença: a avalanche de críticas a Neymar partiu diretamente das redes sociais. Bolsonaro foi sabatinado pela imprensa chapa branca da eterna província constitucionalista de São Paulo dos Campos de Piratininga.
Se havia alguma dúvida sobre a 'arena' das eleições de outubro, passou da hora de saber que só a internet vai permitir o enfrentamento do discurso do golpe. Ainda que o candidato preferencial deles seja Geraldo Alckmin, a segunda opção, Bolsonaro, tem blindagem garantida. Ao contrário, mesmo os candidatos à esquerda sem qualquer chance, como Manuela, permanecerão amordaçados. Ao golpe pertence tudo quanto de mainstream se avista na comunicação do Brasil. E a ovelha raspa o pelo, mas não perde o vício.
Outra discussão que deixa de ter sentido, se é que já teve em algum momento, passa por decidir se é bom ou ruim falar mal das pessoas ruins na internet. 'Um Novo Homem Todo Dia' bateu recordes de menções negativas. Por isso, e só por isso, 'Neymar, Gillette e agência' estudam 'reação', como noticiou o UOL, sem perder a oportunidade para o deboche: 'comercial cai mal', diz a manchete. O pelo e o vício, como queríamos demonstrar.
Bolsonaro no Roda Viva? Não foi confrontado. Repetiu o que sempre diz e ninguém ofereceu resposta - ou pergunta - à altura.
Enquanto as redes sociais transformavam a gilete do reizinho em guilhotina, o candidato a führer saiu do estúdio mais vistoso do que entrou. Barba, cabelo e bigode. Quase ninguém viu, mas os tosquiados fomos nós.
Como se não bastasse, ainda se encontra, na própria rede, gente sinceramente admirada com a eficácia da burrice de Jair Bolsonaro. Não é disso que se trata. O discurso totalitário funciona para os convertidos, não passa daí. E só vai amealhar mais adeptos enquanto não encontrar resposta. Embora Bolsonaro, estatisticamente, não seja a principal ameaça, sua ideologia nefasta precisa ser combatida. Assim como as deles, nossas ferramentas estão disponíveis. Hora de usá-las. Feito lâminas.
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Tuesday, July 15, 2025
15 de julho de 2019
O 'Pavão Mysteriozo', trollagem explícita comandada pelo Carluxo, parece marcar um ponto de virada para os Bolsonaro. A proposta de fazer Eduardo embaixador nos Estados Unidos tem cara de ir na mesma direção.
Eles não estão falando sério.
(E, se estiverem, não vai fazer grande diferença, num Ministério das Relações Extraterrestres comandado por Ernesto Araújo).
Quer ver? A notícia 'bolsonaresca' de hoje é que o MP do Rio de Janeiro fará um pente fino das contas de campanha do filho Flávio.
Ou seja, em algum momento a casa virá abaixo.
Eles já estão morando 'de favor'.
O Boulos escreveu na Carta Capital: Bolsonaro se confirma como um inédito 'presidente de nicho ou, mais adequado à sua história, um presidente de baixo clero'.
(Procure lembrar alguma iniciativa do núcleo duro em torno deles que tenha gerado algum resultado nas últimas semanas).
Isso tudo, evidentemente, não nos autoriza a qualquer otimismo. Antes, muito pelo contrário. Pois o desmonte sistemático do Estado brasileiro segue célere e diário, sem pausas para o fim de semana.
A pergunta passa a ser: se o projeto vendido em campanha está sendo cumprido ponto a ponto, sem que o dedo do presidente se faça notar em nenhuma das principais decisões, quem, afinal, está governando este país?
Jair se confirma como a Rainha da Inglaterra da Família Surreal brasileira. Mas não nos falta governo. Um governo terrivelmente cumpridor de seus compromissos.
Quem tem a voz de comando?
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Saturday, July 12, 2025
12 de julho de 2016
O quiproquó do apoio ao DEM para eleger o sucessor de Eduardo Cunha na Câmara pode ser indicativo de algo que transcende a ansiedade pré-histérica da militância petista e o proverbial oportunismo do PSOL: o tempo da coalizão, simplesmente, acabou. Não há, na Esquerda, outro futuro a não ser um candidato "que não votou no Golpe".
Deixa eu dizer um lance aqui. Desconfio que não conheço alguém mais favorável que eu aos acordos, pragmatismos e idas e vindas do período lulodilmista. Realpolitik? Não tenho nada contra. Pode conferir nos meus posts dos últimos três anos. Mas já não é mais disso que se trata.
Porque aconteceu de irmos longe demais no enfrentamento. E não me refiro a urgências de "refundação" do Partido dos Trabalhadores, essa rematada tolice. O ano e meio passadas as eleições de 2014 está sendo devastador. Nem é muito complicado. O Congresso Nacional apenas derreteu. Fim da linha. Sem retorno.
Se Dilma vencer no Senado, o que é perfeitamente possível, a despeito da bola de cristal viciada dos analistas pessimistas*, dá no mesmo. E também, aqui, não está em jogo a hipótese 'Erundininha Toda Pura', chanchada vintage de mau gosto. Claro que haverá de haver composição pluripartidária! O que não tem jeito de juntar de novo são os trapos do peemedebismo e do lulismo.
E não, não foi o coração valente da Dilma que nos levou a isso. Nem a outra Dilma, a Dilma execrada pelos engenheiros de obras prontas, aquela gerentona incompetente que odeia a política. A culpa é toda do tal do "devir histórico". A Direita é tão ou mais responsável pelo presente estado de coisas. Por ter partido pro "é agora ou nunca". Por parecer uma locomotiva sem maquinista de filme de guerra, puxando quinhentos vagões em direção à ponte dinamitada.
A Direita ameçou a Democracia de morte. Este ato de negação principial acelerou a decomposição já inexorável. O buraco é mais embaixo. Essa encrenca vem de longe.
A Democracia, porém, é inegociável. Ou não é Democracia. O impeachment como Golpe é inadmissível. E o que não se admite, não pode ser admitido.
Nem acho que estamos preparados para tanto. É bem capaz de dar merda, reconhecer a possibilidade não tem nada que ver com pessimismo. Não está no âmbito da Ética, da Retórica, tampouco da Estética e nem mesmo da Política. É do campo da Lógica. Tem momentos que o jogo se define. Tem horas que a fila anda. E a fila andou.
* Oxímoro à vista: ou é analista, ou é pessimista. Ou é analista ou é otimista. Pelamôr! :p

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Monday, June 30, 2025
30 de junho de 2015
NO COUNTRY FOR OLD MEN
Tenho 52 anos de idade e já vi o Brasil em situações muito — mas, muito — piores. E, no entanto, ele se moveu.
Tenho 52 anos e nunca vi o jornalismo brasileiro num buraco tão fundo.
Não há Tribunal de Inquisição que faça o Sol voltar a girar em torno da Terra quando os meios técnicos se transformam.
Assim como a Indústria Fonográfica nos anos 90, o business de notícias em seus moldes século XX está em vias de desaparecimento.
Qualquer orelha de manual de psicanálise explica o catastrofismo de nossa grande mídia: chama-se "projeção".
Querem vender um Dilúvio, mas, na verdade, trata-se apenas de um concorridíssimo abraço de afogados.
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Thursday, June 19, 2025
20 de junho de 2015
Aqui vai um vídeo que reflete - com profundidade - sobre os quocientes de preconceito embutidos nos nossos palavrões. Quem me indicou foi um amigo querido que sabe manter a flexibilidade do pensamento. Que sabe se divertir com a ideia de que "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa".
Sobre o radialista Ricardo Boechat, a coisa é que até as pedras caídas da Muralha de Jericó perceberam que o estado permanentemente exaltado de Malafaia denota desejos reprimidos. Malafaia sempre esteve à procura de algo que satisfaça sua excitação.
Bem sabemos que a rôla "não é solução para tudo" e que é uma enorme bobagem pretender que "todo homofóbico é um homossexual enrustido".
Acontece que aconteceu de um radialista mainstream, de perfil masculino normalopata, desses que fazem piadas falocentradas, tirar da garganta de todo mundo o que andava há tempos querendo sair.
Num mundo ideal não mandaremos ninguém tomar no... pois isso é homofóbico, nem diremos a alguém "seu filho da..." pois é misógino; não desabafaremos porque "a coisa está preta", por ser racista, nem usaremos mais o termo "judiação", por suas conotações anti-semitas.
Nesse possível futuro tempo da delicadeza, não precisaremos da ajuda de um típico macho alfa branco como Ricardo Boechat para nos representar, pois vendilhões como Silas Malafaia, simplesmente, terão sido expulsos do templo.
Por enquanto, é necessário registrar que, antes de enfiar a rôla no discurso, Boechat se valeu de vocabulário amplo: idiota, paspalhão, pilantra, tomador de grana de fiel, explorador da fé alheia, otário, homofóbico, figura execrável, horrorosa, charlatão.
Quanto nos ofendem as dinâmicas da comunicação de massa? Quanto nos proibimos de rir do desnudamento do charlatão, na praça do mercado e pelas normas do mercado? Quanto negamos o poder impuro da rua? Da indústria cultural? E quanto nos permitimos desfrutar das vitórias provisórias?
"Malafaia, vá procurar uma rôla", apesar de infantiloide, misógino e patriarcal, expôs o farisaísmo do pastor. “Você usa o nome de Deus para tomar dinheiro de fiéis. Você é tomador de grana, você e muito outros”. Boechat construiu seu discurso em seus próprios termos. Conseguiu coerência entre a forma e o conteúdo. Nesse processo de individuação, representou milhões de pessoas. Aceitemos ou não, barrou o sermão de Malafaia. E isso é o que tivemos para hoje.
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Friday, May 30, 2025
Efeito 'tororó' barra cachês milionários
Efeito 'tororó' de Anitta barra cachês milionários de prefeituras
XICO SÁ para o ICL Notícias / 30_05_2025
A Justiça do Mato Grosso decidiu esta semana que o cantor Leonardo terá que devolver R$ 300 mil aos cofres da Prefeitura de Gaúcha do Norte, a 595 km de Cuiabá. O sertanejo recebeu, há um ano, R$ 750 mil para um show no município. O valor, segundo o Ministério Público Estadual (MPE), foi superfaturado.
Por mais bizarro que pareça, os cachês milionários — com dinheiro público — só começaram a ser barrados no Brasil depois que Zé Neto (da dupla com Cristiano) atacou a cantora Anitta: "A gente não precisa fazer tatuagem no 'toba' para mostrar se a gente está bem ou mal. A gente simplesmente vem aqui e canta, e o Brasil inteiro canta com a gente".
Para bajular Jair Bolsonaro, em plena campanha eleitoral à reeleição, Zé Neto ainda repetiu a tese do presidente sobre a 'mamata da Lei Rouanet'.
Anitta reagiu com humor à crítica sobre a tatuagem no 'tororó' — como ela prefere definir na sua lição informal de anatomia —, mas acabou falando também sobre esquemas de desvios de verbas municipais por intermédio de cachês superfaturados.
A produtora dos seus shows havia recebido propostas do gênero. "Falei não", disse ela.
A partir desse momento, o Ministério Público de vários Estados iniciou uma série de investigações sobre shows com valores suspeitos. Graças ao 'efeito tororó', o assunto nunca mais saiu da lupa dos procuradores.
O primeiro escândalo foi descoberto em Roraima, em 2022. A prefeitura de São Luiz, município com 8.232 habitantes, contratou o cantor Gusttavo Lima por R$ 800 mil.
Depois de muita polêmica e investigação do MPE, o mesmo cantor teve um contrato de R$ 1,2 milhão cancelado em Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais.
Outro inquérito foi aberto na cidade de Magé, no Rio de Janeiro, onde Lima faria mais um show do milhão. Na Bahia, o Tribunal de Justiça cancelou uma apresentação na Festa da Banana de Teolândia — o cachê seria de R$ 704 mil.
A decisão levou a prefeita Rosa Batinga (PP) ao choro. "A minha dor é muito grande, vocês não têm ideia. Eu queria estar hoje, de vermelho e preto, arrumada para o Embaixador (apelido de Gusttavo Lima)", disse, em lágrimas.
Conhecido informalmente como 'CPI do Sertanejo', o escândalo provocou debate no país inteiro. Em Alagoas, o MP pediu cancelamento de uma apresentação do ídolo popular Wesley Safadão que levaria R$ 600 mil da prefeitura de Viçosa. No entendimento dos procuradores, esse gasto com as festas não deveria ultrapassar o limite de R$ 100.
Acossado pela maioria das investigações, Gusttavo Lima chorou, em um live no Instagram. "Sou um cara que faz poucos shows de prefeitura. E quando a gente faz algum, a gente é massacrado como bandido, como se fosse um ladrão que estivesse roubando dinheiro público. E não é isso".
No ano passado, reportagem de Deborah Magagna e Chico Alves no ICL Notícias revelou que shows de Gusttavo Lima consumiam até 50% de orçamento de cultura de pequenas cidades.
O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, prestou solidariedade ao cantor. "Fique firme, meu irmão! Você é um cara do bem! Deus proverá", escreveu nas redes sociais. A essa altura, o "efeito tororó" havia provocado o cancelamento de 40 shows.
A bendita tatuagem — com a palavra Love em destaque — tem feito um bem danado aos cofres públicos.
Sunday, May 11, 2025
"A Democracia É Perigosa"

Tuesday, April 29, 2025
Sete Faces

Sunday, April 27, 2025
27 de abril de 2019
Cachac-eiro, se bem me lembro, assim como maconh-eiro, ou trapac-eiro, remete a vício, compulsão, dependência, coisas assim. Bolsonaro não deve estar querendo classificar Lula como dependente químico, logo mais agora que o homem emergiu de quase 400 dias de completa e obrigatória abstinência com pele e cabelo saudabilíssimos, sem olheiras, pensamento ágil, discurso articulado e disposição de felino.
Lula tá segurando o rojão muito bem 'sem a cachaça', contrariando até o caro amigo Chico.
Talvez o felliniano Bolsonaro queira insinuar que aquele irmão do Capitão América que chefia a segurança do ex-presidente mantém uma destilaria e abastece a cela especial da PF de Curitiba com garrafas pet cheias de maria-louca.
Mas é improvável.
Bolsonaro chamou Lula de cachaceiro. Não em sentido estrito. Ele quis confirmar o estereótipo que associa gente pobre ao uso excessivo de bebidas alcoólicas baratas. É uma das formas de rebaixar simbolicamente o pobre: negar-lhe a capacidade de auto-controle tão cara às classes abastadas.
Um dos pontos ainda mais baixos a que um brasileiro pobre pode se ver conduzido é a cadeia. O calabouço é o lugar onde se cala a boca do cidadão. É nessa jaula que a busca de desconstruir o homem humano acontece de modo mais totalizante. A prisão pretende ser o lugar da morte em vida. O local do apagamento.
Pois bem, Lula negou a seus inimigos também essa confirmação. Está tão vivo quanto antes. Está mais vivo que nunca. E de lá de dentro, ainda diagnostica: um bando de malucos.
Claro que, também, não em sentido estrito. Maluco aqui é quem governa desgovernado, atira para todos os lados, não sabe dizer a que veio. Ou é o psicopata destruindo nos mínimos detalhes e sem nenhum remorso, as poucas conquistas civilizatórias que obtivemos em 500 anos.
Lula, em sua cáustica lucidez, disse o que todo mundo sabe: o desgoverno de Bolsonaro não obedece lógica alguma que não seja a da destruição pura e simples, o que, convenhamos, é um modo alucinado de funcionar.
Lula soube, também, deixar no ar a desconfiança de que aqueles caras não batem bem da bola.
Bolsonaro não fez por menos. Devolveu de bate-pronto mais uma de suas sandices.
Como queríamos demonstrar.
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Sunday, April 13, 2025
Saturday, March 29, 2025
Villa / Stokowski
1.
https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/146365/159214
2.
https://g.co/arts/fJWqQCrMcruPXws7A
Wednesday, March 26, 2025
Monday, February 24, 2025
Cemitério alagoano (Trapiche da Barra)
Sobre uma duna da praia
o curral de um cemitério,
que o mar todo o dia, todos,
sopra com vento antisséptico.
Que o mar depois desinfeta
com água de mar, sanativa,
e depois, com areia seca,
ele enxuga e cauteriza.
O mar, que só preza a pedra,
que faz de coral suas árvores,
luta por curar os ossos
da doença de possuir carne,
e para curá-los da pouca
que de viver ainda lhes resta,
lavadeira de hospital,
o mar esfrega e reesfrega.
João Cabral de Mello Neto. A Educação Pela Pedra.
Tuesday, February 18, 2025
18 de fevereiro de 2016
Ao contrário do que está parecendo, Miriam Dutra Schmidt não veio a público falar de filhos bastardos, ou fazer futricas sobre o tempo em que foi amante de Fernando Henrique Cardoso.
Miriam deu uma longa entrevista em que o centro da questão é um caso seríssimo de assédio moral. Como de hábito, a mulher que denuncia é imediatamente desqualificada. O pessoal que trabalha nas Defensorias aponta essa tendência dominante: a culpa, sempre, "só pode ser dela". Quem se aproveitou antes, agora quer ganhar mais um pouco. Leviana, como diria o Aécio.
Pois bem, o Palmério Dória, em artigo publicado hoje, diz o seguinte sobre o estado de espírito de Miriam em 2000: 'Mirian, procurada pelo repórter João Rocha, em Barcelona, foi cortês. Pelo telefone conversaram longamente. Miriam demonstrou querer falar, mas não falou. Já era uma mulher amargurada, quando disse uma frase reveladora ao ser perguntada pela paternidade de Tomas: 'pergunte para a pessoa pública'.
Palmério fez parte da equipe que em abril de 2000 levantou o caso do filho extraconjugal de FHC para a Revista Caros Amigos. Diz o Palmério: "O então presidente da República foi procurado e não quis se pronunciar. Os editores dos principais jornais, revistas e telejornais deram suas versões, todas publicadas. Mário Sérgio Conti, chefão da Veja, atendeu meu telefonema com frieza que foi substituída por um ataque de ira e impropérios publicados na íntegra".
Em outro artigo, de 2011, Palmério manda essa: "a operação cala-a-boca-da-Miriam foi organizada por uma força-tarefa: Alberico de Souza Cruz; o então deputado federal José Serra; e Sérgio Motta, que tinha coordenado a campanha de Fernando Henrique para o Senado, seu amigo mais íntimo".
Motivos para tirar a limpo o que essa mulher está dizendo não faltam. Mas há uma forte corrente de opinião que aponta para o perigo de, com isso, praticar apenas fofoca. Miriam, suposta vítima de brutal assédio, fica relegada a segundo plano. Aliás, o lugar que ocupou nos últimos 24 anos.
Se Miriam foi conivente, foi conivente como um antílope é conivente com o leão que o caça. Sem dúvida, ambos fazem parte da mesma cadeia alimentar. Mas um é predado, enquanto o outro tem os atributos para ser o predador.
Reduzir esse grande conluio entre poderosos ao direito de se discutir ou não o uso que FHC dá para o próprio bilau, convenhamos, parece um respeito meio totêmico pelo bilau dele. Freud explica.
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Saturday, February 15, 2025
Líderes do conformismo nacional

Com o falecimento de Cacá Diegues, ontem, começou a circular esta imagem, acredito, do final da década de 1970.
A mim me chamam a atenção o lugar de destaque de Glauber Rocha e a íntima camaradagem entre os retratados.
Em tempos de rede social — quando o próprio tempo parece ter sido abolido — a foto leva a gente a enxergar um quarteto harmônico que a devida contextualização histórica desmente.
Lembrei do artigo de Francisco Alambert — 'A Realidade Tropical' — publicado em 2012 na Revista IEB n. 54, em que o professor transcreve trechos da entrevista concedida por Glauber a Elio Gaspari, Heloisa Buarque de Hollanda e Zuenir Ventura para o livro '70/80: Cultura em Trânsito'.
Os entrevistadores fizeram apenas uma pergunta ao cineasta:
— O que você tem a dizer sobre a questão das Patrulhas Ideológicas que vêm invadindo a imprensa e as paixões nesse último mês?
Estávamos em março de 1980 e, em resposta, Glauber disparou uma vez mais sua famosa metralhadora giratória.
Um outro tipo de retrato de época emerge da diatribe glauberiana, ele, antes e mais que qualquer um, persona polêmica de fio a pavio.
Vejamos.
💣
[o Cebrap] "é cofinanciado ou patrocinado pela Fundação Rockfeller ou pela Fundação Ford (…), tem inclusive ligação com o liberalismo americano (…). Os liberais democratas do Brasil são apenas capitalistas progressistas ligados a multinacionais, que lutam contra o arcaísmo da economia política brasileira, que é a dominante".
(...) "o grupo capitalista do cinema brasileiro hoje, que é formado por Luiz Carlos Barreto, Bruno Barreto, Arnaldo Jabor, Walter Clark e Carlos Diegues, é oriundo do Cinema Novo".
(...) "os intelectuais e artistas comunistas, ligados ao PC, foram para a Rede Globo".
(...) "acho que o debate aqui tinha de ser colocado em outro nível: o da busca da identidade nacional pela compreensão dos processos econômicos e culturais da colonização. (...) E esse salto é importante, tem que se superar essa feijoada ideológica, multi-ideológica, com uma visão clara do problema".
(...) "aqui você tem que adorar Deus, MDB, Flamengo, e ser fã de Maria Bethânia. A MPB, vanguarda crítica dos anos 1960, passou a liderar (ao lado do futebol e da política de centro) o conformismo nacional, uma vez liquidado seu aspecto revolucionário".
(...) "intelectual aqui é um palhaço da burguesia, são as mesmas figuras da revista Interview, das colunas sociais de O Globo (...). Show da Gal Costa, espetáculo de Ney Matogrosso, teatro de Dias Gomes é tudo uma porcaria só".
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As fontes:
https://revistas.usp.br/rieb/article/view/49116
https://www.estantevirtual.com.br/livro/7080-cultura-em-transito-da-repressao-a-abertura-1YK-1970-000
Wednesday, January 22, 2025
Tuesday, January 14, 2025
Salvar o Fogo
Se seu rosto foi se apagando como uma pintura malconservada ou como as abstrações que nos escapam dos sonhos, o mesmo não ocorreu com o restante de sua figura. As vestes escuras, pesadas e com cheiro de naftalina, que pareciam quentes, continuaram a surgir vivas em meus pensamentos, assim como as gotas de suor a sobressair num rosto para sempre enevoado. Seu andar lento e os movimentos sincronizados ao seu discurso também permaneceram plenos no que me restou de recordação. Da mesma forma, os sermões ora ponderados ora inflamados, os questionamentos ásperos que nos dirigia sem esperar por respostas, pareciam na mesma medida suaves e revoltos ao encontrarem nossos ouvidos. Foi dessa maneira que quis saber se gostava da ideia de estudar. Respondi que sim. Quis saber também se ajudava a Luzia em casa e, sobretudo, se temia a Deus. Luzia fez questão de recordar a dom Tomás do meu batizado por suas mãos para que não crescesse pagão. "São tantas crianças", disse, justificando a falta de memória. Sem demora, informou que minhas aulas começariam logo após o início da Quaresma. Luzia poderia retirar o uniforme uma semana antes do Carnaval. Guardei daquele encontro uma genuína felicidade. Poderia sair só de casa, teria um ambiente diferente para estar com outras crianças. Aprender a ler e a escrever era o passo firme a caminho do mundo adulto, ainda que muitos dos que vivessem ao meu redor não tivessem tido a mesma oportunidade. Quem deixava a Tapera a caminho da cidade dizia ser preciso saber ler para encontrar as ruas, usar o transporte, se virar de todo jeito. Sem contar as chances de conseguir um trabalho melhor, que não exigisse tanto esforço físico, como o de meu irmão Joaquim carregando fardos do cais para o saveiro, e do saveiro para a cidade, e com o que mais trabalhava quando já se encontrava distante da aldeia.
Salvar o Fogo © 2023 Itamar Vieira Júnior. Todavia, SP.
🎨: Aline Bispo
Sunday, January 12, 2025
12 de janeiro de 2023
Como estão sendo publicadas listas com nome e data de nascimento dos presos do Capim Tólio de Brasília, já tem gente tabulando as faixas etárias deles (e delas).
Se eu entendi o que li, quase 80% dos terroristas têm de 50 a 60 anos. Entre os 20% restantes, pode haver gente com 19, ou 77.
Portanto, a presença de "idosos" não é dominante.
É importante fazer essa informação circular para impedir que se atribua qualquer inimputabilidade à massa que atacou a Praça dos Três Poderes no domingo passado.
A característica mais geral daquela multidão é justamente a de ser composta por pessoas na fase da vida que se costuma chamar de "maturidade".
Em resumo, homens e mulheres donos de seus narizes e, por isso, aptos a responder pelas atitudes que tomaram.
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