Saturday, December 20, 2008


Crítica/"Antologia Casseta Popular"

Humor destoa do "oba-oba" da cena carioca

ANDRÉ BARCINSKI

Quem diz ter saudades do Rio dos anos 80 é porque não estava lá. Blitz, Ritchie, Bete Balanço, Asdrúbal Trouxe o Trombone... Era tudo muito colorido e muito, muito chato. Naquele marasmo pré-banda larga, um dos pontos altos do mês era a chegada da Casseta Popular e do Planeta Diário às bancas.
O Planeta Diário era mais politizado. A Casseta era sua prima mais escrachada e escatológica. Enquanto o Planeta publicava títulos como "Depois de ir à China, Sarney irá à merda", a Casseta não tinha vergonha de botar na capa uma fotomontagem do então candidato à presidência Fernando Collor, pelado, sob o título: "Botamos a nu o caçador de maracujás". A ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, aparecia vestida de dominatrix: "Louca por um arrocho: ministra quer tirar o atraso".
A Casseta não poupava ninguém. Destoava do oba-oba indulgente e da brodagem que ainda dominam a cena cultural carioca. Atores, cantores, jornalistas culturais, todos eram esculhambados sem dó. Sobrou também para poetas do baixo Gávea, estudantes da PUC, marombeiros de Copacabana e farofeiros do subúrbio. Oswaldo Montenegro, Djavan e Gonzaguinha eram hors-concours. Depois, Collor e sua trupe trataram de abastecer a Casseta com munição de sobra.
Apesar de o humor da Casseta ser dependente de referências da época, a maioria dos textos desta antologia envelheceu bem. Mérito da qualidade do material, claro, e do jornalista Arthur Dapieve, que editou a coletânea e fez o ótimo trabalho de limar piadas que hoje soariam datadas ou incompreensíveis. Também fica óbvio, para quem acompanhou a revista, que muitos textos mais pesados não entraram na coletânea*. Compreensível. Os tempos são outros, o politicamente correto chegou, e os autores não são mais estudantes da UFRJ, mas astros da Globo.
O que não quer dizer que o humor da Casseta apareça domesticado ou comportado. Quem, hoje em dia, teria a macheza de anunciar o debate "Por que matamos Cristo", ou publicar um jogo sobre o naufrágio do Bateau Mouche ("Venda suas passagens, encha seu barquinho e... boa sorte!")?
Entre os destaques, estão a cobertura da "Visita de Jesus Cristo ao Rio", incluindo fotos de uma noitada regada a pagode ("Ele extasiou os brasileiros, mostrando a ginga e a graça do crucificado de Jerusalém!"). Anúncios do Café Dunga - "Se o Café Pelé já era ruim, imagina esse!" - soam mais atuais que nunca. E dá para ter um gostinho da origem das Organizações Tabajara no "Casseta Shopping", que anunciava o Descaroçador de Melancia Neguinho e o utilíssimo Decalque de Olho, ideal para fingir que está acordado durante o balé.

Folha de São Paulo

* "Zoações" mais, por assim dizer, pesadas ficaram de fora da antologia. La Peña especula: "Acho que o Dapieve deixou de fora em deferência ao órgão de vocês..."

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