Wednesday, June 15, 2022

Bruno e Dom - cronologia de um crime

Bruno Pereira e Dom Phillips foram esquartejados e incendiados

Por Amazônia Real

Publicado em: 15/06/2022 às 18:49

Por Elaíze Farias e Kátia Brasil, da Amazônia Real

Manaus (AM) e Rio de Janeiro (RJ) – O indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram mortos à queima-roupa e seus corpos, esquartejados, incendiados e corpos enterrados em uma área nas proximidades da comunidade São Rafael, quase no limite da Terra Indígena Vale do Javari, em Atalaia do Norte, no Amazonas. Duas fontes, uma da Polícia Federal e um indígena, confirmaram que agentes passaram a tarde no local onde estariam as vítimas do cruéis assassinatos acompanhados de Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”. O pescador e seu irmão Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”, teriam confessado o crime nesta quarta-feira (15), mas indicaram um terceiro envolvido no crime.

O crime ocorreu mesmo na manhã do domingo de 5 de junho, logo após Bruno e Dom terem passado pela comunidade São Rafael. Pela confissão, “Dos Santos” e “Pelado” esquartejaram e carbonizaram os corpos das vítimas e jogaram os restos mortais no Itacoaí. Uma terceira pessoa é que teria atirado contra a dupla, segundo confessaram os irmãos. O brutal assassinato foi em represália às denúncias de que os ribeirinhos estavam invadindo a Terra Indigena (TI) Vale do Javari, no Amazonas, para pescar ilegalmente pirarucu e tracajás (quelôneos da Amazônia).

O ministro da Justiça Anderson Torres, na sua conta no Twitter, afirmou no início da noite desta quarta-feira, que tinha sido informado pela PF que “remanescentes humanos foram encontrados no local, onde estavam sendo feitas as escavações” e que eles seriam enviados à perícia. A PF daria uma coletiva às 19h30 (hora de Manaus) para falar do caso.

De acordo com a Polícia Federal, os dois foram mortos em uma área entre as comunidades São Rafael e Cachoeira, já na direção de Atalaia do Norte. Eles teriam sido encurralados em uma emboscada. Esta hipótese, publicada em primeira mão pela Amazônia Real, foi revelada em detalhes por uma fonte indígena que conhece as características da bacia do rio Javari e seus afluentes. Naquele dia, Bruno Pereira tinha intenção de levar para a PF provas de crimes praticados por pescadores ilegais, possivelmente financiados pelo narcotráfico, dentro da TI Vale do Javari, que vem sendo constantemente invadida.

Morador da comunidade São Gabriel, Amarildo da Costa de Oliveira foi preso no dia 7 de junho por posse ilegal de armas de uso restrito e drogas. Testemunhas ouvidas pela PF disseram que ele foi visto em uma embarcação navegando próximo da lancha onde viajavam Bruno e Dom. No dia 4 de junho, indígenas da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU) presenciaram ameaças feitas por um grupo de pescadores. Considerado suspeito, Oseney foi preso na terça-feira (14) e interrogado pela PF em Atalaia do Norte.

A primeira fonte indígena ouvida pela Amazônia Real já temia que Dom e Bruno tivessem sido mortos, chegando a indicar que suspeitava da “pior das hipóteses”. Essa suspeita acabou se espraiando por mais pessoas envolvidas nas buscas dos desaparecidos. Desde a semana passada, começaram a circular em Atalaia do Norte (AM) rumores sobre o crime praticado pelos irmãos “Pelado” e “Dos Santos”. Por se tratar de uma área de rios sinuosos, que se ramificam em igapós e igarapés, o temor de que tivesse havido uma ocultação de cadáver difícil de ser localizada só crescia após cada dia de buscas.

Os indígenas da EVU e de outras etnias conhecem bem a região onde aconteceu a emboscada, que fica fora dos limites da TI Vale do Javari, e desde os primeiros momentos se prontificaram a auxiliar na busca de alguma prova junto das autoridades policiais. Foi com a ajuda deles que foram encontrados pertences no domingo (12), uma semana após o desaparecimento de Dom e Bruno. Entre o material recolhido, submerso no rio, estavam roupas da dupla e a carteira de saúde de Bruno.

“Não foram só eles, não”

Indígenas ouvidos pela Amazônia Real já imaginavam que o jornalista britânico, colaborador assíduo do jornal The Guardian, e o indigenista brasileiro, licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai), estavam mortos, mas relataram estar perplexos pela forma como ocorreu o sumiço dos corpos.

A identificação do local aconteceu dois dias após a Embaixada brasileira na Inglaterra ter informado à família de Dom Phillips que os corpos já haviam sido localizados. Na sexta-feira (10), a PF informou que material orgânico “aparentemente humano” tinha sido levado para análise da perícia.

A prisão e a confissão dos dois não são suficientes para as lideranças indígenas ouvidas pela Amazônia Real. Manoel Chorimpa, do povo Marubo, disse à reportagem que há pelo menos mais uma ou duas pessoas envolvidas. “Não foram só eles, não”, afirmou, categórico. Paulo Marubo, da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), cobrou continuidade das forças policiais na investigação para se chegar a outros criminosos. “Estamos pedindo para a Polícia Federal pegar outros envolvidos. Não foram só o Pelado e o Oseney”, afirmou.

Na investigação da PF, testemunhas afirmaram que os dois, “Pelado” e “Dos Santos”, teriam envolvimento com o narcotráfico que financia a pesca ilegal de pirarucu, um peixe ameaçado de extinção e cuja pesca no Amazonas só é permitida em áreas de manejo, unidades de conservaçao ou terras indígenas.

De acordo com Manoel Chorimpa, há três categorias de pescadores na região do Vale do Javari. Existe o pescador simples, que pesca para sobreviver, e é geralmente de Atalaia do Norte. Há ainda o pescador regularizado, credenciado e que atua mais nos rios Javari e Curuçá. E há aqueles financiados pelo narcotráfico que priorizam a pesca de pirarucu e tracajá. “Estes são financiados por pessoas de Benjamin (Constant) e Tabatinga. E do lado do Peru, tem os ‘israelitas’ (chamados localmente de ‘cabeludos’), que são agricultores envolvidos com o narcotráfico, mas que possuem comércio em Atalaia. (Na comunidade de) São Rafael, são pessoas de Benjamin também. Eles possuem motores potentes, fazem muita festa”, afirmou Chorimpa.

Os minutos finais

Nos minutos finais antes de serem mortos, Bruno e Dom seguiram sozinhos em um barco de motor 40 HP até a comunidade São Rafael, no rio Itacoaí, para se encontrar com o ribeirinho Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como “Churrasco’. Ele é tio de “Pelado” e chegou a ser detido pela Polícia na terça-feira (07), sendo liberado algumas horas depois. Segundo Eliésio Marubo, advogado da Univaja, a reunião já estava marcada. Em entrevista à Amazônia Real, “Churrasco” negou que houvesse combinado reunião com Bruno Pereira.

Em São Rafael, Bruno tomou uma xícara de “Nescau” oferecida pela esposa de Churrasco, Alzenira Gomes, antes de retomar a viagem. Ele e Dom Phillips retornariam à sede de Atalaia do Norte com o objetivo de divulgar denúncias de invasões e pesca e caça ilegal coletadas por Bruno durante trabalho de vigilância e fiscalização da EVU, uma rede de monitoramento que começou a atuar em 2021 e recebia capacitação do indigenista. Desde que saiu da Funai, Bruno Pereira se prontificou a ajudar a Univaja a treinar os indígenas para combaterem os crimes ambientais na região.

Segundo apurou a Amazônia Real, Bruno havia marcado com “Churrasco” às 6 horas do dia 5 de junho. Com a informação prévia da visita, os criminosos teriam se armado e preparado para atacar Bruno Pereira em uma área estreita de um dos furo (atalhos) à margem do rio Itacoaí. Acuado e encurralado, Bruno não conseguiu fugir dos atacantes e levou um tiro. Dom teria sido morto por ter sido testemunha.

Desde o desaparecimento dos dois, a Univaja e centenas de indígenas da TI Vale do Javari se mobilizaram para as buscas de Bruno e Dom. Com o passar dos dias, as esperanças de encontrá-los vivos ia diminuindo. “Queremos encontrar pelo menos os corpos”, relatou uma liderança à Amazônia Real.

Depois da demora do Estado braasileiro para agir, criticada até pela ONU, as forças de segurança e policiais chegaram a Atalaia do Norte, um município com estrutura precária, com poucas ruas asfaltadas, acesso à internet e telefonia deficiente, e uma população de pouco mais de 20 mil pessoas. Na prática, o protagonismo das buscas se concentrou entre os indígenas, profundos conhecedores da floresta e dos rios da região do rio Javari e afluentes.

As mortes de Bruno e Dom causaram comoção sem precedentes entre os indígenas do Vale do Javari, com repercussões no resto do Brasil e do mundo. No domingo, várias lideranças indígenas, entre caciques históricos, como Eduardo Dyamin Kanamari, da aldeia Massapê, no rio Itacoaí, saíram de suas aldeias até a sede de Atalaia do Norte, onde fizeram um protesto e homenagearam o jornalista e o indigenista. Na segunda-feira (13), integraram-se às equipes de busca que já estavam atuando desde a notícia do sumiço.

A liderança Manoel Chorimpa lamentou entristecido a morte do amigo. “O Bruno se sacrificou servindo de escudo dos povos indígenas do Vale do Javari, sobretudo na defesa dos povos isolados e dos recursos ambientais”, disse à Amazônia Real.

Os vigilantes indígenas

Bruno Pereira era servidor de carreira da Funai e começou a atuar na TI Vale do Javari há mais de 10 anos. Chegou a ser chefe da Coordenação Regional da Funai em Atalaia do Norte, onde atuou em diferentes. Conhecido por ser enérgico e rigoroso, ele também teve atritos com indígenas, culminando em um conflito com os Matís, em 2015, que pediram sua saída. Posteriormente, Bruno e os Matís se reconciliaram e passaram a atuar juntos na proteção do território. Chocados com o desaparecimento do amigo, os Matís foram para Atalaia do Norte para apoiar nas buscas de Bruno e Dom e protestar contra o assassinato.

Desde que se licenciou da Funai, em 2019, Bruno tprnou-se assessor da Univaja, onde assumiu a coordenação da EVU, com recursos de financiamentos internacionais. Thoda Kanamari, membro da Univaja, disse que Bruno Pereira se juntou aos indígenas no monitoramento desde que aumentou a preocupação com o avanço dos invasores para o interior da terra indígena.

“Os invasores querem tomar a terra indígena. Nós, da Univaja, estávamos sendo cobrados pelas lideranças do Itacoaí e do Ituí. Os invasores se aproximaram cada vez mais das aldeias. Então o Bruno se juntou a nós”, diz Thoda Kanamari à Amazônia Real.

Conforme a liderança Kanamari, o projeto da EVU começou a ser discutido em 2019, mas começou a ser implementado somente em 2022. Thoda afirma que os indígenas vão continuar protegendo o território como aprenderam com o indigenista. “A gente não vai desistir. Se desistir, pode piorar. Vamos continuar fazendo o nosso monitoramento onde o Estado não fiscaliza mais, nem protege nós indígenas do Vale do Javari. A Funai está muito enfraquecida. Temos direito de cuidar de nosso território”, diz.

*

Os 10 dias trágicos - Linha do tempo mostra como foram as buscas ao jornalista e ao indigenista que amavam a Amazônia e seus povos

3 de junho

O jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira partiram da cidade de Atalaia do Norte para uma viagem à região do Vale do Javari, fora do território indígena, no extremo oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru. Bruno, que pilotava a embarcação, transportava Dom para uma entrevista com integrantes da EVU (Equipe de Vigilância) da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), que estava no Lago Jaburu.

Com uma lancha com motor de 40 HP, pertencente à Univaja, eles entraram em furos (cursos de rios estreitos) da bacia do rio Itacoaí. Dom viajou a Atalaia do Norte para pesquisar sobre a situação do território indígena para a produção de um livro. Bruno Pereira, servidor licenciado da Funai, é consultor de projetos da Univaja e atua na linha de frente do combate aos crimes ambientais no território, em que há povos de recente contato e isolados. A tríplice fronteira, com a Colômbia e o Peru, é rota do narcotráfico.

5 de junho

Bruno e Dom deixam a base da EVU por volta das 6 horas de domingo. O indigenista disse que tinha uma reunião com o líder da comunidade ribeirinha São Rafael, Manoel Vitor Sabino da Costa, o “Churrasco”. O trajeto é de 15 minutos de barco. Na casa dele, os dois encontraram apenas a esposa do pescador.

6 de junho

A Univaja publica nota sobre o desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips e afirma que o último avistamento sobre a dupla foi nas comunidades ribeirinhas São Gabriel e Cachoeira. Os indígenas iniciam as buscas ainda no domingo e fazem várias vezes o percurso de Bruno e Dom. Não encontraram nada. A lancha tinha sete galões de combustível vazios. No mesmo dia, “Churrasco” e Jânio são detidos pela Polícia Civil e liberados após serem ouvidos.

As autoridades brasileiras demoram para agir nas buscas ao jornalista e ao indigenista. Apenas 24 horas depois do desaparecimento é que o governo envia forças policiais e de segurança para atuarem no caso, após pressão da embaixada britânica e da sociedade, diante da grande repercussão sobre o desaparecimento nas redes sociais. Marinha e Polícia Federal começam a investigar sem o apoio dos indígenas, exímios conhecedores da região.

7 de junho

Em seguida, a polícia prende Amarildo da Costa de Oliveira, o ‘Pelado’, por porte de munição de uso restrito e drogas. Após a audiência de custódia, a Justiça decreta a prisão temporária dele. ‘Pelado’ passa a ser a pessoa chave para desvendar os desaparecimentos. Uma perícia identifica sangue em sua lancha, apreendida. Informações de indígenas apontam que o narcotráfico está envolvido numa rede de financiamento de pescadores de grandes carregamentos de peixes e caça de animais silvestres, além de madeira da Terra Indígena Vale do Javari.

Fonte ouvida com exclusividade pela Amazônia Real afirma que o indigenista brasileiro e o jornalista britânico foram vítimas de emboscada após saírem da comunidade São Rafael. Eles estariam com documentação, em imagens, de locais de invasões da TI Vale do Javari, o que teria contrariado criminosos ligados à pesca ilegal e ao tráfico de drogas.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) não descarta uma possível execução da dupla e classifica a viagem de Dom Phillips e Bruno Pereira como uma “aventura”. “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendada que se faça. Tudo pode acontecer. Pode ser acidente, pode ser que tenham sido executados”, disse o presidente em entrevista ao SBT.

8 de junho

A reportagem ouve testemunhas que dizem que “Pelado” é a peça chave para a elucidação do sumiço de Dom e Bruno. A testemunha conta que indígenas da EVU, entre eles pessoas dos povos Kanamari, Matís e Maru, avistaram uma lancha de 60 HP guiada pelo suspeito. Ele estava acompanhado de dois homens. Navegavam em direção à Terra Indígena Vale do Javari.

Um indígena diz à Amazônia Real que “Pelado” e os dois homens intimidaram Bruno e apontaram armas quando dos dois estavam em uma missão para interceptar “Pelado”, junto com uma equipe da EVU. Nove indígenas estavam em uma embarcação chamada canoão, Bruno guiando a lancha, Dom como um dos passageiros. Dom filmou toda a ação. Neste mesmo dia, Bruno segue viagem até a Base da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, da Funai, no rio Ituí, para denunciar as ameaças de “Pelado”. Lá há militares da Força Nacional de Segurança, que apoiam as ações da Funai. A fonte fala ainda em nomes como “Churrasco”, “Caboclo”, Jânio e “Nei”, todos apontados como tendo alguma ligação com o caso.

10 de junho

As equipes de busca localizam no rio, próximo ao porto de Atalaia do Norte, material orgânico aparentemente humano. O material é encaminhado para análise pericial pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, que também realizará perícia nas amostras de sangue encontradas na embarcação de “Pelado”. Há coleta de materiais genéticos de referência do jornalista britânico Dom Phillips em Salvador (BA) e do indigenista Bruno Pereira em Recife (PE). Os materiais coletados serão utilizados na análise comparativa com o sangue encontrado na embarcação.

12 de junho

Uma equipe de reportagem da Amazônia Real visita a comunidade ribeirinha de São Rafael e entrevista Alzenira Gomes. Ela diz que ofereceu um “Nescau” para Bruno e Dom. O pescador Jânio Freitas de Souza confirma que Bruno iria conversar com “Churrasco” sobre o manejo do pirarucu. Jânio revela que foi a última pessoa a falar com Bruno. Ele diz que o indigenista e o jornalista estiveram na comunidade por volta das 7h20 de domingo. Os dois então partem para Atalaia do Norte, um percurso de 40 minutos.

“Churrasco”, que é tio de “Pelado”, afirma que não sabia o motivo da visita de Bruno. “Pra estar esse tempo todo sumido desse jeito, ou está morto ou está amarrado por aí por dentro do mato, só pode”, afirma “Churrasco” à Amazônia Real, quando perguntado sobre o que poderia ter acontecido com a dupla desaparecida.

A Operação Javari, que conta com as participações das Forças Armadas, Polícia Militar e Polícia Civil do Amazonas, faz busca fluvial e reconhecimento aéreo numa área a 25 quilômetros de Atalaia do Norte. Na região são encontrados objetos pessoais pertencentes aos desaparecidos, sendo de Bruno: um cartão de saúde, uma calça preta, um par de botas. De Dom Phillips são: um par de botas, uma mochila e um 1 notebook.

13 de junho

A família de Dom Phillips recebe uma ligação da Embaixada brasileira no Reino Unido informando que dois corpos haviam sido encontrados, mas ainda precisavam ser periciados. Alessandra Sampaio, esposa de Dom, repassa a informação para o jornalista da TV Globo André Trigueiro, que a divulga nas redes sociais. Em questão de minutos, a Polícia Federal nega os fatos, causando ainda mais angústia para as famílias. No dia seguinte, a Embaixada pede desculpas por informar erroneamente ao cunhado e à irmã de Phillips no Reino Unido.

14 de junho

A Polícia Federal cumpre dois mandados de busca e apreensão judicial, tendo apreendido cartuchos de arma de fogo e um remo, os quais serão objeto de análise. E prende temporariamente Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”, 41 anos, por suspeita de participação no caso juntamente com seu irmão, Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”.

15 de junho

Os dois irmãos confessam os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips, segundo informações divulgadas por uma fonte da Polícia Federal. Eles teriam matado, esquartejado e enterrado os corpos do indigenista e do jornalista.

Tuesday, June 14, 2022

No Clarão das Águas, no Deserto Negro

Bruno Pereira e Dom Phillips by Di Vasca


por Maurício Rezende Habert - reproduzido do GGN

14/06/2022

Foi difícil ouvir hoje a música Matita Perê, de Tom Jobim e Paulo Cesar Pinheiro, e não conectá-la com o recente caso do desparecimento do jornalista britânico Dom Philips e o indigenista Bruno Pereira na floresta amazônica.

A música, que dá nome ao ser folclórico que se transforma em um pássaro agourento, relata a história de um certo 'João', que acorda dentro de um pesadelo, no qual ele é emboscado por um certo 'Você'.

Desde o início deste épico musical de Jobim, se percebe pelo tom circular de um violão melancólico que o destino trágico do personagem em fuga já está traçado, corresse ele para onde fosse. O grito do pássaro, emulado pela orquestra, dá início a emboscada.

No jardim das rosas
De sonho e medo
Pelos canteiros de espinhos e flores
Lá, quero ver você
Olerê, Olará, você me pegar

Madrugada fria de estranho sonho
Acordou João, cachorro latia
João abriu a porta
O sonho existia


Dom e Bruno sempre souberam que suas ações de apoio à proteção da mata e tribos estavam marcadas por um grande risco. Ameaças do garimpo. Ameaças de madeireiros ilegais. Ameaças de pescadores invasores. Eram comuns. Curiosamente cada vez mais comuns desde 2019.

Mesmo assim, apoiados pela paixão ao que faziam continuavam com o trabalho de sonho e medo. Além do mais, podiam contar com a parceria dos índios da região do Vale do Javari – conhecedores e guardiães do verde amazônico. Seguiam firmes rio abaixo. 'Quero ver você… você me pegar'.

Manhã noiteira de força viagem
Leva em dianteira um dia de vantagem
Folha de palmeira apaga a passagem
O chão, na palma da mão, o chão, o chão

E manhã redonda de pedras altas
Cruzou fronteira de servidão
Olerê, quero ver
Olerê

Às 7h de uma manhã noiteira, Bruno e Dom mandaram sinais de partida. Origem: Comunidade de São Rafael. Destino: Atalaia do Norte. Estado do Amazonas, próximo a fronteira com Peru e Colômbia. Rota esta que não é possível de 'calcular no Google', uma vez que só é feita de canoa pelas vias do sinuoso Rio Itaquaí. Que desagua no Javari, que desagua no Amazonas.

Itaquaí. Do tupi antigo: itá (pedra), kûá (enseada) e ‘y (rio). Rio da enseada de pedra.

Lugares de um Brasil que provavelmente nós, do longínquo sul urbano, só conheceremos por satélite ou por notícias de jornal. É verdade que alguns poucos as adentraram mentalmente, como Jobim e Villa Lobos tão bem fizeram, através de suas leituras, inspirações e invencionices de brancos aspirantes a navegantes mentais de um Brasil remoto e infinito.

Alguns outros poucos brancos, tais como Bruno e Dom, ousaram romper o mundo das subjetividades imaginadoras e adentraram de fato fisicamente este universo. Estariam fugindo ou buscando algo? Doaram suas vidas dentro destas manchas, instavelmente gigantes e verdes. Cruzaram a fronteira da servidão.

Não sabemos o que se passou entre um ponto e outro da viagem. Daqui em diante, só especulação tal como os Tons, Villas e Drummonds.

Seguimos com o relato do estranho João:

E por maus caminhos de toda sorte
Buscando a vida, encontrando a morte
Pela meia rosa do quadrante Norte
João, João

Um tal de Chico chamado Antônio
Num cavalo baio que era um burro velho
Que na barra fria já cruzado o rio
Lá vinha Matias cujo o nome é Pedro
Aliás Horácio, vulgo Simão
Lá um chamado Tião
Chamado João

Provavelmente, um encontro, (in)esperado com milicianos integrantes do grupo de seus ameaçadores? Chico? Antônio? Pedro?

Ou teriam naufragado a canoa em algum choque contra as pedras arredondadamente esculpidas pelo Rio Itaquaí?

Recebendo aviso entortou caminho
De Nor-Nordeste pra Norte-Norte
Na meia vida de adiadas mortes
Um estranho chamado João

A dupla já vinha de um histórico de adiadas mortes. Bruno havia sido exonerado de sua função de coordenador na FUNAI em 2019, por talvez demonstrar muito afinco nas ações contra o garimpo. No mesmo ano, o jornalista britânico Dom, com seu sotaque inglês carregado, fora já execrado por bolsonaristas, após enfrentar o presidente em uma coletiva de imprensa, ao perguntar-lhe sobre os aumentos de casos de desmatamento na Amazônia.

Entortar caminhos para continuar a caminhada e adiar a morte. E adiar o fim do mundo… É o lema dos que vivem neste país com o objetivo de proteger o meio-ambiente e os povos originários, constantemente ameaçados por gangues ilegais e até mesmo por gangues legalizadas e empossadas em palácios.

Retomados pelo assobio premonitório do pássaro instrumental matita-perê, retomamos o início do épico-lírico:

Que João fugisse
Que João partisse
Que João sumisse do mundo
De nem Deus achar, lerê

João, nossa fusão poética de Bruno e Dom, já tinha seu sumiço marcado desde o início da emboscada, uma vez que terceiros já haviam condenado as fronteiras de vida e morte aos dois tipos que atrapalhavam seus negócios.

Chico Mendes e Dorothy Stang são somente alguns exemplos mais conhecidos, dentre os milhares de defensores da natureza – um sinônimo de refreadores do capitalismo – que morrem ano após ano pelas indústrias mineradoras, madeireiras, do agronegócio e outras mais.

Por sete caminhos de setenta sortes
Setecentas vidas e sete mil mortes
Esse um, João, João
E deu dia claro
E deu noite escura
E deu meia-noite no coração

Passa sete serras
Passa cana brava
No brejo das almas
Tudo terminava
No caminho velho onde a lama trava
Lá no todo-fim-é-bom
Se acabou João

Após mais de sete dias da meia-noite no coração, com os corpos de Dom e Bruno ainda não encontrados, é quase certo afirmar que 'se acabou João'.

Seus corpos-espectros já viraram histórias, narrativas, notícias e possivelmente virarão canções-épicas. Suas trajetórias e exemplos serão levados adiante, pois apesar de todo o risco iminente, a outra alternativa da história é impossível de ser uma aliada.

Uma esperança sempre irá ressurgir nos lábios dos combalidos que, mesmo após derrotas, continuam a sussurrar ao inimigo: 'quero ver você, você me pegar'.

O quiasmo de expressões formado pela estrofe final de Matita Perê é o destino de nossos tempos: no clarão das águas, no deserto negro, é o ambiente de contraposições, de idas e vindas, que seguiremos com força nossa navegação de busca, fuga, descoberta e redenção.

No Jardim das rosas
De sonho e medo
No clarão das águas
No deserto negro
Lá, quero ver você
Lerê, lará
Você me pegar

Dom e Bruno vivem.

*

Maurício Rezende Habert – Engenheiro de energia pela Escola Politécnica da USP, 29 anos, apaixonado por música e literatura.

O Tempo da Obviedade

JULIÁN FUKS

O tempo da obviedade: já não cabe confusão diante da nossa realidade

11/06/2022 - UOL

Peço que hoje perdoem minha obviedade: ela não é minha, é da realidade circundante. Lembro de um tempo em que ecoava por toda parte uma mesma frase, corruptela de Millôr Fernandes: quem não está confuso, está mal informado. Foi há poucos anos, era o início da nossa debacle, o caos que nos levaria a uma situação muito mais clara, à evidência do desastre. Hoje o tempo parece se reger por alguma simplicidade; nunca foi tão fácil pensar o Brasil quanto agora, nunca tão cristalina a posição necessária a tomar. Proponho uma reformulação: quem está confuso, está mal intencionado, ou prefere fechar os olhos para o óbvio.

A simplicidade não goza de grande estima no saber contemporâneo, embora encontre sempre uma infinidade de usos cotidianos. Simplificar é empobrecer, é ignorar nuances, é falsear inevitavelmente a história. Simplificar é produzir caricaturas de baixa qualidade, desenhos primários que obscurecem o objeto retratado, que o afastam de sua verdade. Para Edgar Morin, célebre defensor do pensamento complexo, o que acontece é que tentamos nos livrar da desordem própria do mundo em nome de uma inteligibilidade, e para isso aderimos a certezas falsas, a uma forma de cegueira que vem da recusa à complexidade.

E, no entanto, o Brasil atual parece corresponder à risca ao seu retrato mais básico, e nenhum rosto é mais parecido com sua caricatura do que o de Jair Bolsonaro. Não é preciso convocar a complexidade para compreendê-lo: pelo contrário, a complexidade é que faria obscurecer seu caráter vil, sua monstruosidade. Bastante incompatível com o pensamento crítico é o maniqueísmo, e ainda assim hoje, apenas nestes anos, o maniqueísmo tem se revelado a leitura mais precisa do Brasil. Ante uma realidade dessas, acerta a linguagem infantil: temos no cargo máximo do país um homem mau. Em cada detalhe ele se mostra mau: é tosco, autoritário, insensível, cruel, cerca-se de sujeitos tão violentos quanto ele próprio, e faz da própria violência seu projeto de poder.

Por que uma minoria ruidosa ainda está disposta a apoiá-lo, eis a pergunta que não encontra resposta tão simples. Nem mesmo a lógica da preservação de privilégios históricos se aplica agora. Neste grau de destruição sistemática a que tem sido submetido o país, a cada dia todos perdemos, sem exceção, até quem lucra com a degradação — a diferença é que alguns ainda não o enxergam ou não o querem admitir. Muito já se disse sobre as relações inextricáveis entre o pessoal e o político: pois bem, o exercício tão nocivo da política tem sido uma afronta pessoal a cada indivíduo desta nação, mesmo àqueles que aceitam ser afrontados, aqueles que concordam com sua própria destruição. Num país acometido por este grau de aniquilação, sordidez, desfaçatez, abandono, sempre perderemos todos.

Por isso tantas opiniões se parecem, por isso você tem a sensação de já ter lido este texto uma centena de vezes. Não é a tal perseguição a um presidente que nunca angariou nenhuma simpatia da imprensa, como ele insiste em tom choroso, tantas vezes. É apenas o quase consenso alcançado por uma miríade de mentes pensantes, mentes que prefeririam explorar profundidades, minúcias, nuances, mas que acabam por se render à indigência do presente, tão simples e tão semelhante a si mesmo. Não há muito mais a dizer: a realidade é que é feita dessa penúria triste, dessa esqualidez de sentidos.

Tão famélico está o povo brasileiro quanto o nosso pensamento. Queremos algo de mais vivo e mais vasto a discutir, queremos de volta a ambiguidade, a multiplicidade de visões razoáveis, queremos de volta a possibilidade da incerteza, da sutileza. Anseio por um dia mais confuso do que este: quando ele enfim chegar, estaremos imersos numa realidade menos miserável. Anseio pelo dia em que retornaremos à complexidade, o dia em que não deverei pedir perdão e logo escrever uma obviedade, anseio muito, como anseio.