Monday, August 28, 2023

28 de agosto de 2014

QUEDA E ASCENSÃO

Fala-se em "crescimento vertiginoso" da candidatura Marina Silva, como se ela tivesse saltado de 8% a 29% em uma semana. Há um erro de leitura aí. Quando Marina ainda constava dos questionários de pesquisa, antes de ser definida como vice de Eduardo Campos, seus números giravam em torno de 27%. Sua assunção à cabeça de chapa correspondeu, isto sim, a uma alteração de resultados entre os indecisos e nulos: de cerca de 18% para menos de 9%. Tal resultado pode querer dizer que não haviam tantos indecisos e sim uma população inteira de marinistas contrários ao pacto com Campos. Se os números do PSB continuarem em alta, confirma-se a função de catalizadora do sentimento anti-petista de Marina. Se não, o que se deduz é que teremos uma eleição multiplamente polarizada, com cada um dos candidatos vistos anteontem no debate defendendo feudos ideológicos. Pouco a se disputar, na verdade.

28 de agosto de 2016

Alguns amigos e amigas que tenho no Facebook não pronunciam o nome de gente ruim como Eduardo Cunha, ou Aécio Neves, por exemplo. Substituem por trocadilhos, muitos deles engraçados, ou por variações da fórmula "você sabe quem". Um que anda provisoriamente "desnomeado" é o Neymar.

Observo que há um charme místico na atitude de negar a tais figuras nefastas um "nome próprio". Mas, antes de mais nada, o que há é atitude, posicionamento político. Não nomear é o mesmo que expor a figura em sua função e em seus vícios e malefícios.

Percebo que adoto atitude semelhante em duas coisas: nunca escrevo que o golpe de Estado em curso "já está consumado". Quem vai ter que dizer que a democracia foi pisoteada e a Carta Magna foi rasgada são os golpistas e seus apoiadores. Os que "têm nome na praça" e participação ativa na trama e os milhões de anônimos que deram sustentação ao conluio. Eu me nego.

Também não escrevo sobre a responsabilidade da Dilma em sua própria eventual deposição. Já disse e repito: culpada, quem quiser procurar culpados, é a plutocracia brasileira. Cúmplices, esses, se encontra aos montes. Dilma não é nem uma nem outra coisa. Ontem ouvi uma frase que achei definitiva. 'Dilma foi intransigente e não negociou (com os inomináveis). E assim agindo fez exatamente o que cada um de nós teria feito na mesma situação'.

Os senadores, em seus infinitos salamaleques verbais, sabem do poder contido nas palavras. Por isso buscam esconjurar as culpas negando à farsa do impeachment a denominação que "tout le monde" sabe ser a mais apropriada. Em vão. Isso aí tem nome. Isso aí é golpe. E quem assina embaixo cola na biografia o selo: golpista.

28 de agosto de 2022



Pelo que a gente vê nas pesquisas, o Ciro Gomes não tem uma base real de eleitores.

Depois de tantos anos candidato, tudo que o ex-ministro consegue é agregar massas residuais que veem nele um avatar provisório.

No momento, por exemplo, uma chusma de playboys meio tarados compra brigas diariamente nas redes em nome do 'Plano de Governo' cirista. Quem vê pensa que é amor sincero... mas, no caso dos playboys, é pura tara.

Ciro, parece, é também a última boia antes do Titanic do capitalismo tardio quebrar ao meio.

Ele funciona a contento como avatar para neoliberais de bom coração, aquele pessoal que vive da nostalgia do tucanato estilo Mario Covas.

São cristãos. Querem o bem de todos. Mas você que lute!

Vendo bem, esse pessoal pegou o Ciro 'pra Cristo'. Ele morre no fim, tá todo mundo consciente disso, mas vale o sacrifício (dele) no caminho da salvação do neoliberal de bom coração.

O cristão não acredita em mudanças estruturais. A transformação cristã é do indivíduo. Acontece na alma. O Frei Betto vende um comunismo cristão, mas é páia dele. Veja se você já viu o Boff pregando esse caô.

Todos somos cristãos, tô sabendo. Afinal, essa é a Civilização Judaico-Cristã. É como a água do peixinho que vive no aquário. Não há um lado de fora.

Mas existe esse constructo do neoliberalismo de bom coração, que, queremos demonstrar, é um tipo de cristandade aplicada, um apego rígido às normas fundantes da sociedade.

O neoliberal, de bom coração ou não, crê que o mundo não é revolucionável. Esse pressuposto universal descompromete o neoliberal das questões do mundo. 'Tudo permanecerá do jeito que tem sido', como o Gil falou.

Na opinião do neoliberal, você é problema seu.

É isso que o Ciro tem a oferecer ao pessoal que vota nele em 2022.

Ele age como se a piroca dele fosse uma varinha de condão. Ao toque mágico de sua virilidade, abóboras tornar-se-ão carruagens e ratinhos, cavalos.

No fundo, espero ter deixado claro, é apenas o velho patriarcalismo rico e branco.

As promessas do Ciro são inexequíveis porque desconsideram a luta política.

E a luta política pressupõe os divergentes.

Qualquer cidadão brasileiro comprometido com o bem comum deveria estar dedicando todas as horas do seu dia por uma vitória em primeiro turno contra Jair Bolsonaro.

Quem se dá ao luxo de não postergar suas preferências eleitorais pra depois da máquina de destruição bolsonarista ter sido derrotada, informa, na prática, que tanto faz.

É a irresponsabilidade que só os privilegiados - de coração - podem praticar.

Voltando ao início, nas urnas, essas pessoas serão resíduo. Ruído. Ciro está nitidamente crescendo pra baixo. As pesquisas indicam que essa será sua pior performance em todos os tempos.

Porém, muito ajuda quem não atrapalha.

Saturday, August 26, 2023

26 de agosto de 2014


ASCENSÃO E QUEDA

Sobre a papelada do Cessna que explodiu em Santos, Marina Silva anuncia que o PSB "estará dando" explicações.

Bem, a última moça do telemarketing que me prometeu algo no gerúndio foram mais de 40 minutos gastos à toa.

De qualquer maneira, pelo que se viu até aqui, a aeronave já havia apresentado problemas em outra viagem, o piloto se disse "cansadaço" e o mau tempo indicava não sair do solo.

Fraudes em documentos (assim como as caixas pretas estranhamente desligadas), não seriam, convenhamos, difíceis de somar ao inventário de riscos mal calculados pela assessoria de Campos.

Terá também havido descaso com a manutenção do aparelho? Afinal, antes de fazer crer na força intercessora da Providência Divina, o acidente que matou Eduardo Campos parece o resultado da mais mundana imprudência.

26 de agosto de 2020


O que eu mais admirava no porta-voz do Bolsonaro era a integração que a gente sentia dele com o cargo.

O Rêgo Barros lembrava realmente uma porta.

Além do sobrenome, que sintetiza o meio e a mensagem.

Pena que vão desligá-lo. Mas, pelo menos não gasta bateria.

Friday, August 25, 2023

Pacto da Branquitude - Cida Bento

1. PACTO NARCÍSICO

Minha experiência de trabalho com instituições tão diferentes como empresas, organizações governamentais, organizações da sociedade civil, sindicatos de trabalhadores, federação de empregadores, organizações partidárias de centro, esquerda e direita demonstrou como todas guardam similaridades na estrutura e no modus operandi quando o assunto são relações de raça e gênero.

As organizações constroem narrativas sobre si próprias sem considerar a pluralidade da população com a qual se relacionam, que utiliza seus serviços e que consome seus produtos. Muitas dizem prezar a diversidade e a equidade, inclusive colocando esses objetivos como parte de seus valores, de sua missão e do seu código de conduta. Mas como essa diversidade e essa equidade se aplicam se a maioria de suas lideranças e de seu quadro de funcionários é composta quase exclusivamente de pessoas brancas?

Assim vem sendo construída a história de instituições e da sociedade onde a presença e a contribuição negras se tornam invisibilizadas. As instituições públicas, privadas e da sociedade civil definem, regulamentam e transmitem um modo de funcionamento que torna homogêneo e uniforme não só processos, ferramentas, sistema de valores, mas também o perfil de seus empregados e lideranças, majoritariamente masculino e branco. Essa transmissão atravessa gerações e altera pouco a hierarquia das relações de dominação ali incrustadas. Esse fenômeno tem um nome, branquitude, e sua perpetuação no tempo se deve a um pacto de cumplicidade não verbalizado entre pessoas brancas, que visa manter seus privilégios. E claro que elas competem entre si, mas é uma competição entre segmentos que se consideram “iguais”.

É evidente que os brancos não promovem reuniões secretas às cinco da manhã para definir como vão manter seus privilégios e excluir os negros. Mas é como se assim fosse: as formas de exclusão e de manutenção de privilégios nos mais diferentes tipos de instituições são similares e sistematicamente negadas ou silenciadas. Esse pacto da branquitude possui um componente narcísico, de autopreservação, como se o “diferente” ameaçasse o “normal”, o “universal”. Esse sentimento de ameaça e medo está na essência do preconceito, da representação que é feita do outro e da forma como reagimos a ele.

Tal fenômeno evidencia a urgência de incidir na relação de dominação de raça e gênero que ocorre nas organizações, cercada de silêncio. Nesse processo, é fundamental reconhecer, explicitar e transformar alianças e acordos não verbalizados que acabam por atender a interesses grupais, e que mostram uma das características do pacto narcísico da branquitude.

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O PACTO DA BRANQUITUDE

Copyright © 2022 by Maria Aparecida Silva Bento

Tuesday, August 22, 2023

22 de agosto de 2019

Ao contrário do que pode imaginar nossa vã filosofia de botequim, o país inteiro está gritando. Gritam nas favelas - por socorro - quando os helicópteros atiram bombas, como numa guerra. Grita a classe média progressista, escandalizada com a desfaçatez do grupo que ocupa a presidência. Gritam os estudantes. Os movimentos sociais. Os jornalistas que não se venderam às grandes corporações. Artistas gritam. Parlamentares do campo popular gritam. Gente de todos os matizes grita. E há ainda os gritos a favor da barbárie. Gritos como uivos, saindo principalmente das caixas de comentários nos veículos que a internet propicia (as panelas estão recolhidas). Há o grito amplificado das autoridades constituídas, esse pode ser um grunhido inarticulado, como os de Bolsonaro e seus ministros, transmitido pela TV. Um silêncio, porém, como se diz num dos clichês mais usados nas redes sociais, ensurdecedor, vem do alto da pirâmide, lá onde habita menos de 1% da população do país, lá dos píncaros da desigualdade brasileira, no Himalaia onde a empatia é um cadáver congelado há séculos, o lócus etéreo e quase abstrato dos super ricos. Dali não se escuta um pio. Candidamente, dia desses, um deles, banqueiro, deixou escapar que nunca se sentiu tão bem. E isso foi tudo. Por trás do caos propagado pelo desgoverno da República estão os super ricos. Eleições não são vencidas com votos. Ganha quem tiver mais dinheiro para gastar na campanha. Propaganda custa muito dinheiro. Alianças muito mais e nós, petistas, aprendemos pela dor essa realidade. Eleições tampouco se resumem à escolha do presidente. Uma trama enorme de gente dos legislativos em níveis federal, estadual e municipal, somados aos prefeitos, governadores e seus vices - sem falar em todas as burocracias - reproduzem holograficamente o macro no micro e vice-versa. Tudo determinado pelo mesmo princípio: ganha e permanece quem tem mais dinheiro e as exceções confirmam a regra. A isso se dá o nome de Democracia Burguesa. Enquanto o presente caos perdurar será porque os super ricos se mantiveram em silêncio. Eles permitiram a ascensão do golpismo. Do lavajatismo. Do bolsonarismo. Eles financiaram, na verdade, todo o processo. Sabem o que querem. E só eles detêm os meios para a pacificação. Lembre-se: no Brasil os atiradores são 'de elite'. Os alvos são 'da Silva'. Williams, Marielles, Lulas. As configurações de 'monopólio da força' foram atualizadas com sucesso. Da selva ouvem-se agora outros gritos, guinchos, gemidos. De mais indefesos alvos. Juntar-se-ão aos nossos. São quase nada. Os alvos e os gritos. Não podem querer ser nada. À parte isso, e sob a mira dos fuzis, temos todos os sonhos do mundo.

Tuesday, August 15, 2023

15 de agosto de 2020


O SABOR DAS MASSAS E DAS MAÇÃS

Não é preciso detestar ou gostar de Romero Britto para perceber um equívoco agregado ao debate nas redes sobre o episódio da maçã de porcelana jogada ao chão. O objeto que a dona do restaurante Tapelia destruiu não é a própria obra 'Big Apple' e sim apenas uma das virtualmente infinitas cópias produzidas em modo industrial pelo artista. Como foi demonstrado por Walter Benjamin em 1936, pode haver um regime de cópias 'autênticas' de certas criações artísticas. Uma tela pintada a óleo tende a ser 'irreprodutível' pela escolha técnica do pintor. Refazê-la significa pintar um segundo quadro, por mais idêntico ao primeiro que se consiga. Já uma fotografia é intrinsecamente 'reprodutível', não artesanal, pois a partir de seu negativo, ou arquivo de computador, pode ser copiada, ou melhor, multiplicada vezes incontáveis, sem com isso perder qualquer traço de sua identidade. Assim, rasgar uma das magníficas ilustrações de capa da New Yorker Magazine não é rasgar uma obra de arte, mas tão somente um exemplar da revista. Quebrar em pedacinhos um 'Kind of Blue' do Miles Davis não oferece qualquer risco à matriz original de onde saíram os milhões de discos prensados anualmente desde 1958. Botar fogo num daqueles livrões do Sebastião Salgado, picar com tesoura um rolo de filme com '2001, uma Odisseia no Espaço', explodir uma Livraria Cultura inteira, usar a folha de jornal com a charge genial da Laerte pra forrar o chão da lavanderia, nada disso atinge as 'obras' de quem quer que seja. Romero Britto, tendo por lastro um modo de reprodução celebrizado por Andy Warhol, mas elevando-o, ou talvez reduzindo-o a uma lógica de mercado totalizante, vende as obras que cria numa espécie de loja de souvenires. A 'Big Apple' pode ser adquirida pelo site em dois tamanhos. Um maior, com assinatura feita à mão, por $4.800,00. Um outro, menor e assinado 'digitalmente', por $360,00. A maçã que a protagonista da cena viral relata ter ganhado de presente do marido parece ser uma das grandes. Isso dá ao exemplar dela uma certa aura, um certo charme único, mas, o fato é que, tendo comprado a peça, ao quebrá-la, não deu ao artista Romero Britto, ou à sua obra, qualquer prejuízo. A funcionária da loja poderia tê-la substituído imediatamente buscando outra no estoque, caso quebrasse por acidente. Ainda que todo o estoque fosse destruído, o setor de compras da empresa poderia encomendar uma nova leva. Imagino, inclusive, que os clientes possam receber garantia em caso de defeito, ou algo semelhante. O que a Madelyne Sanchez fez em pedaços, ao fim e ao cabo, foi o afeto que disse nutrir pelo artista brasileiro. A agressão não atingiu ninguém a não ser o cidadão famoso, arrogante e rico que foi ao restaurante em frente à sua loja e 'pintou o caralho do macaco', como diz a molecada do Rio de Janeiro. E, tudo indica, esse era o objetivo principal da performance. Quem pode negar a legitimidade da atitude tomada por ela, goste-se, ou não? Se foi espetaculoso, ou não, premeditado, ou não, é outra conversa. O ponto aqui é: não estamos tratando de uma 'obra avaliada em 26 mil reais' de Romero Britto. O objeto de porcelana industrial não foi 'avaliado' como uma escultura de Rodin, ou um quadro do Nuno Ramos. Foi 'precificado' numa loja de Miami e quem não desconfiou que 26 mil reais é barato demais para um artista com a fama do Romero Britto cobrar por um 'original', tá distraído demais, vam'combinar. Não deixa de ser uma obra de arte, mas uma obra de arte 'na era de sua reprodutibilidade técnica'. Isso dá à Madelyne o direito inalienável de destruir seu exemplar. A 'Big Apple' continua intacta.

15 de agosto de 2022


Há um psicanalista inglês, de quem os brasileiros gostavam muito nos anos 80 do século passado, W.R. Bion. Ele, se eu entendi bem as leituras que fiz na época, está inserido numa linhagem que tem a Melanie Klein como principal figura.

O Bion, escrevo de memória, explicava que o psiquismo se 'vincula' aos objetos de três maneiras: pelo Amor, pelo Ódio e pelo Conhecimento.

Como ele escreve em inglês, mesmo nas traduções, aparece assim: vínculo L, vínculo H, vínculo K. Love, hate e knowledge.

Então, nosso mundo interior constrói vínculos com os objetos da vida amando, odiando e conhecendo-os.

O Bion, logo em seguida, avisa que os vínculos L e H não existem separados. Ninguém ama ou odeia algo ou alguém. Eros e Thanatos moram juntos. A gente só amodeia ou odeiama.

Mas - e é aí que o Bion é kleiniano - o inconsciente quer porque quer desgrudar o amor do ódio e vice-versa. E, assim, como o Barthes contou nos Fragmentos de um Discurso Amoroso, outro sucesso oitentista, vem a experiência da cisão, da fantasia de 'amor incondicional', ou 'ódio total', apartados e, portanto, sob controle (a questão de fundo, inclusive, é essa, o controle onipotente que o ego tenta exercer sobre os vínculos).

O que permite ao psiquismo 'reparar' os estragos das inexoráveis decepções amorosas ou odientas pelas quais passa, é o vínculo K. Quando a gente se dedica a conhecer o objeto e a reconhecer o que nos leva à vinculação, L e H podem, e só aí, ser vividos como complementares. Tudo o que parecia excluir-se mutuamente encontra lugar nos esforços de compreensão do objeto.

O Bion ainda diz que um dos indicadores da saúde psíquica é a capacidade que a pessoa tem de suportar momentos de 'zona cinzenta' sobre os vínculos. As dúvidas, as re-edificações mentais, os refazimentos. Love e Hate podem surgir como num passe de mágica. O Knowledge é sempre construído, demanda processos.

Eu fico imaginando o Bion, lá no céu dos psicanalistas, olhando a gente bater cabeça todo dia nessa terra plana esquizo-paranoide das redes sociais. Me dá uma vergonha...

Sunday, August 06, 2023

6 de agosto de 2016


PEQUENA VINGANÇA À MODA DOS DEUSES OLÍMPICOS

Em 1995 contrataram Gil, Caetano, Gal, Milton, Chico e Paulinho da Viola para um show de Réveillon na praia de Copacabana.

Descobriu-se depois que Paulinho recebera, sem ser informado, um cachê 3 vezes menor que os outros integrantes do elenco estelar. Pegou mal.

Ontem, na abertura das Olimpíadas, pudemos ouvir a voz límpida de Paulinho entoando o Hino Nacional e Paulinho pôde ouvir Wilson das Neves declamando a famosa "chamada" dos mestres sambistas que faz parte de seu Bebadosamba.

Caetano e Gil, por sua vez, foram escalados para o momento "xepa": palco do Maracanã já superlotado com todas as delegações, voluntários, crianças e ciclistas e etc. presentes e eufóricos, as escolas de samba indistinguíveis passando e um samba delicado do Ary Barroso totalmente mal escolhido para a função de conduzir a apoteose. Anitta gerou protestos dos fiscais do bom gosto, mas a verdade é que, àquela altura, e ainda mais com playback... tanto fazia. O estádio havia se transformado num mar de pessoas. Mar construído gota a gota ao longo de toda a noite. Lindo, pois sem destaque para ninguém.

Essa troca de lugares, 20 anos depois, entre Paulinho, Caetano e Gil me fez lembrar uma frase que o pessoal que curte misticismo às vezes diz: a Terra é redonda e tudo o que a gente faz, um dia, num dos giros do mundo, acaba voltando pra gente.

Publicado originalmente no Facebook

6 de agosto de 2016

 Este é o poema de Carlos Drummond de Andrade que encerrou o show de abertura das Olimpíadas, ontem. É certo que, depois disso, aconteceram as delegações, a vaia clamorosa medida em 105 decibéis para o disenterino, o bis com escolas de samba e a presença de Anitta. A primeira parte, porém, apresentou unidade e o fechamento veio com um longo poema lido em português e inglês por duas damas do teatro, Fernanda Montenegro e Judi Dench. "A Flor e a Náusea" marca uma inflexão ativista na trajetória do gauche metafísico que Carlos sempre foi antes e voltaria a ser depois. Não há engano: o poema furou o chão do espetáculo mainstream que, necessariamente, uma cerimônia de abertura de Olimpíadas é. O espinho da "rosa do povo", repito, mirou o peito do vampiro Mixéu.


"Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se / Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico".

Não é muito, é uma "forma insegura" de resistência. Mas estava lá. Os golpistas não terão como fugir da poesia-flor que "nasceu na rua".


A Flor e a Náusea - Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Publicado originalmente no Facebook

6 de agosto de 2015

A batalha desta semana está sendo travada entre sincericidas de Esquerda e psicopatas de Direita.


O psicopata (conheço de filmes) não sente prazer especial em matar. Apenas cumpre o seu destino. Se o sincericida dá cabo da própria vida, tanto melhor para o psicopata.

Como diria o Noé: estamos todos no mesmo barco.

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Publicado originalmente no Facebook

6 de agosto de 2016

DIFERENÇAS DE ESTILO

Enquanto as vozes do campo progressista debatem a céu aberto e pra quem quiser ouvir a revolta (justificada) com a prisão do Dirceu e as cagadas da dupla cômica (se não fosse trágica) Edinho & Aloizio, a Direita lança um evento online chamado "Eu NÃO voto Aécio Neves" e, depois de ter confirmadas centenas de adesões à esquerda, muda o nome do evento para "16 de Agosto eu Vou pra Rua Fora PT".

O nome desse filme é "Adivinhe Quem Veio Para Nos Jantar", é reprise e a gente morre no fim.

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Publicado originalmente no Facebook

Saturday, August 05, 2023

5 de agosto de 2015


Caro cidadão comum, não se engane: quase tudo o que nos aflige nesta grave crise política está sendo decidido nos bastidores. Não sabemos (nem saberemos) da missa a metade.

Algumas coisas, porém, são líquidas e certas.

O Nordeste 'subalterno', 'atrasado', 'pouco instruído', que tipos como Diogo Mainardi insistem em querer manter, não existe mais.

A 'locomotiva' que os constitucionalistas de O Estado de São Paulo acreditam 'mover o Brasil' ficou sem carvão.

O 'Quarto Poder' está ferido de morte pelas novas tecnologias.

O eixo mudou, as oligarquias brasileiras têm consciência do que perderam e, por causa disso, o desenho do golpe está claramente concebido. Há fortes indícios de que não aconteça. Mas, se de fato acontecer seremos comunicados. Tirei o terno e a bravata, estou no aguardo, alerta e pronto, mas meditando o tamanho que tenho.

Acontece que, de certos points of no return, não se engane também o reacionário, já passamos.

O preto não volta pra senzala, a mulher não volta pro fogão, nem o gay pro armário.

Com golpe ou sem golpe. Quem, afinal, tem motivos pra estar nervoso?

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Publicado originalmente no Facebook

5 de agosto de 2017

Em números divulgados em 2014, dos cento e poucos milhões de brasileiros aptos para o trabalho, cerca de noventa e outros poucos milhões estavam, efetivamente, empregados de forma regular.

Repare: metade da população depende, em alguma medida, da outra para sobreviver.

Dito isto, dos noventa e tantos que trabalhavam, trinta e cinco milhões, mais ou menos, tinham registro em carteira. Um terço: sim. Dois terços... não.

Sabe-se também muito bem que o aumento do emprego formal na era Lula e Dilma resultou da demanda por postos de trabalho de baixíssima qualificação e foi acompanhado pelo avanço, é possível dizer enorme, de contratações terceirizadas.

Resumo: ainda no contra fluxo da crise mundial que se desencadeou em 2008, dentro do regime de políticas anti-cíclicas e numa situação próxima do 'pleno emprego', no Brasil de 2013 e 2014, dos mais de duzentos milhões de habitantes, apenas cerca de trinta milhões, estavam registrados, ainda que ganhando salários muito baixos e, em grande medida, dependentes de contratos inseguros no modelo 'terceirizado'.

Essa condição parece auto-evidente quando se pensa que somos uma economia que permanece 60% na informalidade e onde apenas 8% da população ganha mais do que $5.000 reais por mês. Temos outro viés de confirmação se observarmos o presente do capitalismo global, quase completamente financeirizado. O sindicalismo entrou, há quase uma década, em fase próxima do colapso, ao redor de todo o mundo. É comum ouvir falar num 'capitalismo pós-industrial', ou em um 'capital que não produz'. Estaríamos falando de 'proletários do ar', como Drummond certa vez escreveu sobre o desaparecimento do Brasil agrário que havíamos conhecido até a primeira metade do século XX?

Enquanto isso, nota-se uma expectativa, por parte da auto-denominada 'esquerda' brasileira em seus diversos matizes, por uma revolta, ou resistência, da classe operária diante da reforma trabalhista que, mesmo sem pé nem cabeça, foi aprovada no Congresso. O mesmo se exige em relação à reforma da Previdência, ainda por aprovar.

Mas como querer que um grupo social lute pela manutenção de algo que jamais possuiu?

No fundo, a luta por direitos que se aguarda emergir da pobreza brasileira só está ao alcance de 5% da população. Pelo motivo simples de que só esta parcela específica dos habitantes do Brasil têm acesso a uma ampla gama de direitos fundamentais.

Não é realmente factível para quem precisa sustentar a família nas condições precárias em que sobrevivem mais de 90% das pessoas em idade produtiva.

Aliás, não faz muito sentido.

Em verdade, o trabalho regular e estável é, para o brasileiro médio, antes de mais nada, símbolo de diferenciação. Algo só garantido a quem goza de privilégios, mas percebido como um prêmio pelo esforço individual. A tal meritocracia. Que, em termos de organização política, separa e cria rivalidade entre semelhantes mais do que aglutina.

É, na prática, barbárie, mas faz parte de um todo lógico e familiar aos brasileiros de qualquer classe social. 'Um outro mundo é possível', mas quem, no meio desse quiproquó sistêmico - sistemático - estaria apto a se revoltar?

Talvez, os verdadeiramente aptos estejam se colocando no lugar de quem delega sua revolta. Mais ou menos como se contrata uma diarista para dar aquele lustro nos móveis enquanto a gente termina o 'job' que pintou de última hora (apesar da crise) e que deixa a gente 'sem tempo pra nada'.

Voltando ao início, o desemprego que em 2014 era próximo de 6%, hoje passa dos 20. O que era frágil sofreu uma piora consistente nos últimos 3 anos. Coincidentemente os anos da era Cunha-Aécio-Temer. Que não havíamos colocado na história.

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Publicado originalmente no Facebook

5 de agosto de 2018

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CHAPAS PURO-SANGUE 2018

Ciro & Kátia: Puro-sangue nos óio.

Geraldo & Ana: Puro-sangue do vampiro.

Bonosauro & Mourão: Puro-sangue nas mãos.

Meirelles & Rigotto: Pura-picanha-sangrenta da JBS.

Amoêdo & Christian: Pato ao molho pardo.

Daciolo & Suelene: Puro-sangue de Jesus tem poder.

Eymael & Helvio: Puro-sangue no Sarcófago da Múmia.

Vera & Hertz: Quem?!?

Goulart filho & Léo: Puro-sangue do meu sangue.

Hugo Henrique & Álvaro: Pedigree.

Boulos & Sônia: Puro-sangue bom.

Lula & Fernando: Puro-sangue, suor e lágrimas.

Marina & Eduardo Jorge: Solicitado exame toxicológico.

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Publicado originalmente no Facebook

5 de agosto de 2022


Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Está havendo uma 'tiktokização' das redes sociais? Sim! E isso é só o começo. O modelo Tik Tok de 'propagação memética' é a versão mais radical surgida até agora da célebre 'horizontalidade' da internet. O novo 'modus' vai bagunçar o nosso 'habitus'. Mas ele é decorrência do que já há.

E mais. Não tem volta!

Porém, o que está acontecendo no Twitter, no Instagram e no Facebook é que, depois de conseguir números astronômicos de usuários, as big techs estão se sentindo cada vez mais seguras para cobrar pelos serviços (que eram, achávamos, gratuitos).

Ainda não é a 'tiktokização'.

O alvo do momento são os 'empreendedores'. Vou dar dois exemplos.

O perfil 'Nath Finanças', famoso no Twitter, botou a boca no trombone semanas atrás: o Instagram está escondendo posts 'orgânicos'. "Se quiser ser visto na rede, é necessário 'impulsionar' os posts... pagando". A mensagem é clara.

Aqui no Facebook, José Roberto Torero, autor do sensacional 'Diário do Bolso', reclamou igual. O alcance dos posts do perfil dele está cada vez mais restrito.

Você pode concordar, ou se sentir enojado. A Nath e o Torero usam as plataformas de rede como ferramenta para o business. O que os donos das plataformas estão dizendo é simples: 'show me the money'.

Isso está acontecendo no mundo inteiro. Lá por volta de 2015 já havia acontecido a mesma coisa com os grandes veículos de mídia. Folha, O Globo, Estadão, TVs em geral, foram sendo expulsas das timelines. Quem paga, permanece. É mais fácil aceitar essa lógica comercial dos donos das redes quando se trata de um jornalão. A Nath e o Torero, que empreendem na base do 'eu sozinho' parece mesmo injusto. Como eu disse, você pode concordar, ou não. Mas a lógica e a motivação estão explícitas.

Diferente é o caso do usuário que posta 'coisas' no seu perfil pessoal. O algoritmo, aí, tem nos fechado em bolhas cada vez menores. Essa sensação de encolhimento dos horizontes é cada vez mais forte. A 'tiktokização' vai mudar tudo para deixar tudo como está. No novo 'normal', ao invés de bolha, é como se a gente fosse lançado ao mar só com uma boia. É um mar tipo Praia Grande em pleno verão em sábado de sol. Gente pra caralho, mas que você não faz a menor ideia de quem seja. Caótico e aleatório. Ou seja, por excesso, ou escassez, nosso destino é o isolamento dentro da massa. Os piores pesadelos do Walter Benjamin parecem menos assustadores.

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Publicado originalmente no Facebook

Friday, August 04, 2023

4 de agosto de 2015


CENTRO DE CONTROLE DE ZOONOSES INFORMA

O Darwin deu o toque, lembra? O ser humano é, entre outras coisas, bicho. E - isto é sabido desde a Antiguidade - é bicho de rebanho. O Nietzsche tratou do tema, também, né? Por exemplo: o eremita não vive só, vive apartado. A condição do eremita é definida pela distância em relação a um grupo. "No man is an island", essa quem falou foi o John Donne.

Fora do bando, assim como as abelhas, os gnus, ou os chimpanzés, o bicho homem apenas perece.
Sendo animal de rebanho, os seres humanos estamos familiarizados, entre outras coisas, aos modos do rebanho. Líder alfa, lei do mais forte, sobrevivência, seleção natural, agrupamento para ataque e fuga, infanticídio seletivo, demarcação de território, etc.

O nome do nosso rebanho é Sociedade. Aquele estado de vida em comum determinado pela mais pura necessidade de sobreviver enquanto espécie. Um estado pré-político.

Por isso, sempre que vejo alguém se arvorando em sabedor daquilo que "interessa verdadeiramente à sociedade brasileira", imagino logo um gorilão, uma zebra ou um suricato em seus rituais confirmatórios, do tipo "quem manda aqui sou eu". É muito claro que esse cara está apelando ao nosso mais primitivo, animalesco, instinto de horda. Ainda que faça uso sistemático de pesquisas que indicam 93% de preferência nisso, 82% contra aquilo. E fale em "maioria", ao invés de falar "rebanho".

Essa entrega efusiva a um grupo já consolidado, a uma tradição social, à identificação com um líder ou um povo, a fé num Deus ou agremiação salvadora é a forma mais imediatamente acessível de suprimir a fragilíssima particularidade do sujeito individual. Em última instância, são fórmulas mais ou menos sofisticadas de perduração na espécie, que destrói os particulares, mas conserva e reproduz indefinidamente o genérico.

Há, sem dúvida, os que se afiliam automaticamente a essa via da imortalidade coletiva, mas não são todos. Historicamente, nem chegam a ser muitos. Os demais sujeitos ou não o fazem totalmente, ou não principalmente. Ou seja, colocam-se o problema de imprimir uma marca irrepetível e distinta à fórmula da sobrevivência, requerendo a cumplicidade e o apoio da coletividade, claro, mas negando-se à via despersonalizada dos que "renunciam à sua alma para salvá-la melhor”.

Todo esse último trecho é de autoria do filósofo e professor Fernando Savater. Savater escreve sobre Ética. Os bichos apresentam comportamentos. Nós tomamos atitudes. Os bichos não têm conduta, apenas códigos genéticos.

Só os humanos publicam tratados de Ética. O "animale rationale" é ao mesmo tempo "bios politikos".

Só os seres humanos negociam sua vida coletiva. O retrocesso às leis imutáveis da maioria tem nome: barbárie.

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4 de agosto de 2018

Senti no ar uma ressaca cívica imensa depois do Bonosauro no Fod'a Vida. Como ele saiu ileso, se espalhou um medão de que dali o fascistoide crescesse indefinidamente. Não foi o que aconteceu. Com o passar dos dias, as imbecilidades que ele disse e o modo tosco como ele se expressa foram ganhando cada vez mais visibilidade. Na entrevista de ontem na Golpe News, vigorou o 'de onde não se espera nada, daí é que não sai porra nenhuma'. E o dia hoje amanheceu menos angustiado no Facebook. O que houve de comum entre os dois programas foi a pusilanimidade dos jornalistas. Todos tão compromissados com o 'grande-acordo-nacional-com-o-supremo-com-tudo', que até perguntas básicas como a do subsídio ao óleo diesel soam hipócritas. Quando alguém vai ser sabatinado na TV, não nos resta, cidadãos, senão torcer por um procedimento decente por parte da bancada. Afinal, eles deveriam estar ali para representar o interesse público. Infelizmente, é inútil esperar isso de alguém no jornalismo mainstream. E a sensação de derrota que nos acomete a seguir resulta, em grande parte, do desamparo em que uma imprensa venal como a brasileira joga seus espectadores a cada nova entrevista. Em resumo, eles são o fim da picada. A boa notícia é que a culpa não é nossa. Compartilhando visões críticas, denunciando a farsa, algum avanço se vai conseguindo, dentro do pouco que nos cabe. Eles são muito mais fortes. Mas estão também muito velhos e podres. E a culpa não é nossa.

Em tempo. Claro que o ponto culminante da porcaria toda foi a Míriam Leitão pagando o mico de recitar o texto ditado no ponto.

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4 de agosto de 2022


Nessa disputa meio bizarra entre Ceciliano e Molon, fiquei pensando como o Rio insiste em ser enigmático. São Paulo é simples. Aqui, a gente paga-pau pros norte-americanos. Os da capital pra Nova Iorque, os do interior pro Velho Oeste. Acabou, tudo se resume a esse provincianismo tacanho que um dia já pagou-pau pros franceses. O Rio, não! O Rio é uma porra de uma esfinge!

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Thursday, August 03, 2023

3 de agosto de 2013


Longa vida aos 25 policiais militares da tropa de elite paulista acusados da morte de 52 presos que estavam no terceiro pavimento do pavilhão 9 do Carandiru no dia 2 de outubro de 1992 para que possam desfrutar cada minuto das 24 horas dos 365 dias de cada um dos 624 anos de reclusão a que cada um foi condenado. Endereço garantido, depois disso, para eles, no Maranhão do Inferno que terá, finalmente, governo de José Sarney em pessoa e onde, como se sabe, o Bumba-Meu-Boi é tocado com levada de tecno-brega, todas as toadas começam com a palavra "Prepara!" e o IDH é igualzinho ao do Maranhão aqui da Terra. Que as pulgas de mil camelos infestem desde já o cu de cada um dos 25, dos outros 23 condenados em abril, do Sarney e dos que, como ele, ainda não foram a julgamento e que seus braços sejam muito curtos para coçar, por toda a eternidade.

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3 de agosto de 2016


GUSTAVO GARBAGE

"Todas as famílias felizes são parecidas. As infelizes o são, cada uma, à sua maneira", disse Leon Tolstói.

Os Abagge do Paraná devem estar orgulhosíssimos do Gustavo Guga, alçado à fama nacional depois de ser filmado enquanto hostilizava a atriz Letícia Sabatella.

Numa só tacada o Brasil inteiro ficou sabendo que:

a) Ele já respondeu processo por estelionato, está inscrito no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas e não possui bens em seu nome devido a ordem judicial de bloqueio.

b) O pai dele, Nicolau Elias Abagge, foi presidente do Banestado do Paraná e teve pena sugerida de 10 anos por enviar fortunas para paraísos fiscais.

c) Celina e Beatriz Abagge, respectivamente, tia e prima de Gustavo, foram condenadas pela morte de um garotinho de 6 anos em um ritual de magia negra.

d) O sobrinho Luccas, filho de Beatriz, preso por matar a tiros um adolescente, está foragido. Fez um buraco na parede da cela, caminhou pela tubulação hidráulica e telhado, até chegar ao muro do presídio e escapar usando uma corda artesanal.

A sorveteria que Gustavo mantém em Curitiba recebeu dose cavalar de propaganda negativa: mega vomitaço no Facebook.

Sabatella já anunciou que entrará com processo por danos à honra.

O perfil do agressor não foi apagado do Facebook, mas as informações acessíveis estão restritas ao mínimo.

A nova foto de capa, no entanto, chama a atenção. Uma imagem do Dalai Lama editada com uma frase pretensamente budista sobre autoestima e controle dos humores.

Gustavo Abagge, cujo nome lembra a palavra "garbage", lixo, em inglês, inadvertidamente, carregou a família inteira para a lama. Ou melhor, expôs a lama que a família, por certo, preferiria esconder. Uma lama nada zen.

Logo ele que vocifera constantemente contra a corrupção e considera "puta" um xingamento grave. Os moralistas sem moral de que Dilma falava ganharam um companheiro de peso.

Publicado originalmente no Facebook