Tuesday, August 21, 2018

OTÁVIO FRIAS FILHO. 1957 - 2018

[...] No dia 17 de setembro de 1977 Cláudio Abramo foi afastado da direção da redação da Folha de São Paulo, atendendo a pressões do ministro do Exército, em seguida à publicação de uma crônica assinada por Lourenço Diaféria e tida como ofensiva à memória do duque de Caxias. Ninguém, a rigor, se incomoda com o duque propriamente dito, mas com o símbolo. No caso sobreleva, porém, o pretexto, e resta ver se foi mais dadivoso para o imperador ou para o senhor do feudo. O ministro Sílvio Frota concorria com o general João Figueiredo à sucessão do general Ernesto Geisel, e em função da relevância do seu posto e das suas ambições, era mais cotado na bolsa das apostas. Havia mesmo quem o entendesse qualificado para liderar o enésimo golpe dentro do golpe.
Recordo uma conversa que tive com Octávio Frias de Oliveira no gabinete de Cláudio, nos últimos dias de agosto de 77. Eu tinha informações de que o confronto estava próximo e tudo me levava a crer que a dupla Geisel-Golbery preparava uma esparrela sob medida para o general Frota. Frias não concordava, duvidava das intenções de Geisel, que no seu entender ainda não escolhera o seu sucessor, e dos reais poderes de Golbery. Frota caiu exatamente 25 dias depois de Cláudio, dia 12 de outubro. E Golbery observaria: "Mas se foi Frota quem pressionou, por que não chamam Cláudio Abramo de volta à direção da redação"?
[...] Otavio Frias Filho, diretor da redação e um dos proprietários da Folha de São Paulo, em entrevista publicada pela revista Playboy de maio de 1988, parece ter uma explicação funcional e política para a ascensão e queda daqueles que define como 'os barões' do jornalismo. Trata-se de personagens carismáticas, e entre elas Cláudio Abramo é a mais vistosa. Pelos barões, o jovem Otavio manifesta respeito, com a ressalva da obsolescência, devida à resistente paixão que alimentam pelas mitologias dos anos 70. Pelo jeito, recomenda-se guardá-los em naftalina - com todo o respeito, é claro. Com afetuoso desvelo. Mas seus dias terminaram, só resta mesmo enterrá-los com honra.
A que mitologias Otavio Frias Filho se refere não se entende com clareza. Decerto é difícil distinguir velho e novo neste lugar atrasado. Temos, porém, cidadãos que se têm em conta de moderníssimos, mas até hoje poderíamos classificá-los como Lévi-Strauss definia espécimes da aristocracia paulistana há cinqüenta anos: acham-se muito refinados e não sabem como são típicos. Em todo caso, constatações desse gênero propiciam magros consolos. A oligarquia é típica, mas se mantém a cavaleiro do tempo. A gente apanha e, de quebra, tem de suportar as explicações de quem pretende justificar-se no poder com meras palavras. Fosse só com palavras, estaria apeado.
Mino Carta, Junho de 1988
PREFÁCIO a A Regra do Jogo: o jornalismo e a ética do marceneiro. Cláudio Abramo. Organização e edição: Cláudio Weber Abramo.


© Espólio de Cláudio Abramo, Fábio Cypriano, Pedro del Picchia, Wilson Ferreira Júnior e Luiz Nassif. Cia da Letras, 1989.




Sunday, May 17, 2015

Brasil Vai Voltar a Crescer e Panelaços Irão Acabar

Entrevista - Chico de Oliveira

ELEONORA DE LUCENA - FOLHA DE SÃO PAULO 17/05/2015 

A crise parece muito grande, mas não é. O Brasil vai voltar a crescer, tem uma economia privilegiada e será uma sociedade mais igualitária. A burguesia do país é muito autoritária, mas seu jogo não vai prosperar. Os panelaços não terão continuidade. "A sociedade não aguenta mais ver a demissão de 2.000 pessoas".

A análise é do sociólogo Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira, 81. Para ele, o país vive como em um baile, onde tudo está em movimento, o que gera sensações de pressa e angústia. "Isso é ótimo. A pior coisa é a estagnação". E é preciso lutar pelo poder.

Fundador do PT e do PSOL, professor aposentado da USP e autor de clássicos como A Economia Brasileira: Crítica à Razão Dualista (1972), ele condena a ausência de ousadia dos últimos governos. "Brizola é o grande político que falta no Brasil. Falta alguém com audácia", diz.

Crítico do lulismo, que classifica como um movimento conservador, avalia que é possível, mas não provável, a derrota do partido em 2018. Na sua visão, Lula vai precisar se realinhar de forma radical, fazendo política de forma mais contundente, ou os tucanos voltarão ao poder. "Se houver um desastre e o PT for desalojado do poder, as burguesias nunca mais se esquecerão disso. Vão tentar manter o PT afastado", declara.

Nesta entrevista, concedida na sua casa na Vila Romana, em São Paulo, Chico de Oliveira fala de seu projeto para um novo livro. Quer tratar do que identifica como chances perdidas pelo lulismo, que deveria ter ampliado muito mais os benefícios sociais. "Erraram. Foi um sonho que poderia ter sido e não foi em toda a sua intensidade", afirma.

Raquel Cunha - 6.nov.2013 / Folhapress

Folha - O que está acontecendo no Brasil?

Francisco de Oliveira - As posições se acirraram porque tem o PT de um lado e os tucanos de outro. Todo o meio desapareceu. PDT, PPS, os democratas, outros partidos praticamente desapareceram. A consolidação de posições que são opostas dá essa sensação de que está tudo muito ruim, mas não está não.

O que há de bom nessa conjuntura?

Bom seria um exagero. É uma conjuntura cíclica, que vai e volta. A crise parece muito grande, mas não é. A concentração da crítica na Dilma é fogo de palha. Nem ela mesma tem o controle do partido dela. O controle ainda é do Lula. Mas Lula não é homem de partido, ele é muito personalista.

Há choque entre Lula e Dilma?

Vai haver sempre. Porque Lula elegeu a Dilma para ser um pau mandado. Mas, quando se chega à Presidência, a regra do pau mandado não vale. Ela tem pouco jogo de cintura político, tem que ouvir muito. O poder fica muito diluído.

Qual sua avaliação do governo Dilma? O que ela faz de bom e de ruim?

Nem nada de muito bom nem nada de muito ruim. É um governo médio e medíocre. Ela não é responsável pelos grandes males do país nem tem solução para esses grandes males. É uma presidente fraca. Votei com convicção nela nas duas vezes e não estou decepcionado. Ela me pareceu ser mais de acordo com as minhas percepções. O governo não tem quase respostas para nada, mas não faz o programa do PSDB. É um programa quase óbvio. Vai empurrando com a barriga. Felizmente, apesar de governos fracos, a tentação autoritária não está voltando.

A ascensão de movimentos mais conservadores nas ruas e no Congresso lhe preocupa?

Não me preocupo porque os tucanos não são populares. Eles não conseguirão galvanizar essa tentativa de desestabilização com apoio popular. Os tucanos sempre evitam recorrer às ruas. Panelaço não é o povo quem faz. Esse tipo de movimento não tem continuidade. Já o PT não pode mover-se com a facilidade que tinha antes de ser governo. Não acredito que o PT tenha solução para nada.

Há uma ascensão da direita?

Não vejo. A direita existe mais na imprensa do que no movimento real de setores da população. A sociedade brasileira é muito diversificada e não comporta uma direita extremada. Existe uma polarização entre os muito ricos e muito pobres. Mas esses dois segmentos não fazem política. A polarização se dá em picos. A linha de continuidade é muito por baixo e muito fraca. Os picos parecem nos espantar. A discussão do impeachment não vai para frente. Renan Calheiros e Eduardo Cunha são fracos. Se fosse com o Ulysses Guimarães, a senhora Dilma estaria dançando miudinho.

Como o sr. analisa a situação do Brasil no mundo?

O Brasil é área de disputa muito forte. É a sexta economia mundial ou algo nessa dimensão. É muito bom fazer negócios aqui, especialmente num momento em que EUA e Europa estão mais ou menos estagnados. A Índia é muito pobre. Na China, ou os negócios passam pelo Estado ou não passam. O Brasil é uma ilha de muita liberdade empresarial. Não tem muita regulação. Salvo em setores muito vulneráveis, se faz qualquer negócio em qualquer parte. O Brasil cresce. Agora está patinando, mas é só uma patinação. Esse ciclo é passageiro; haverá reativação. O Brasil não é um país condenado ao esquecimento. É por isso que é preciso lutar.

Lutar como e para quê?

Pelo poder. Numa sociedade estagnada a luta é mais fácil. Aqui, não. Aqui é como um baile: está tudo em movimento. Dá uma sensação ao mesmo tempo de pressa e de angustia. Porque você nunca está sossegado. E isso é ótimo. A pior coisa é a estagnação. É preciso andar para dar um mínimo para a população mais pobre. Não se pode mais deixar milhões sofrerem com necessidades básicas. Isso não existe. É preciso jogar a bola para frente –e correr atrás dela.

O perfil desse governo é mais protecionista ou liberal?

O governo não sabe se definir em relação a isso. Não sabe se é protecionista ou livre cambista. Vem de uma herança pesada. FHC jogou para destruir regras de proteção, fez um jogo liberal. O que não era esperado, pois sua tradição era pela esquerda. Lula não puxou para a esquerda. Daí vem a indefinição do governo federal, que prossegue com Dilma.

Reajustes reais do salário mínimo, Bolsa Família não são pontos de um governo de esquerda?

Sim, comparando com outros. A ironia é que são medidas capitalistas. Moro num prédio de classe média, onde quem trabalha na portaria já tem carro. É um índice de êxito do capitalismo, até certo ponto. Só um socialista louco –como já fui; hoje sou apenas socialista– para achar que eles não melhoraram de vida. Melhoraram extraordinariamente.

O sr. já afirmou que as esquerdas no Brasil, desde os tempos do auge do PC, passando pelo PT e pelo PSOL, nunca conseguiram ter um projeto para o país. Por quê?

As esquerdas são muito brasileiras: tendem mais à conciliação do que ao conflito. É da formação da sociedade e do Estado. As esquerdas também são muito conservadoras. Na redemocratização, em 1945, o projeto do PCB para o petróleo era privatista. Seguia a linha de aprofundar o capitalismo para criar condições para o socialismo. Esquerda e nacionalismo convergiram numa certa fase. A atual esquerda não tem projeto. Lula nunca teve; Dilma também não tem. O PT não sabe o que é o Brasil, não tem um projeto para o país. Está superado. Não vai acabar, mas não tem nada a dizer a respeito do desenvolvimento do Brasil. Vai empurrando com a barriga. É o partido da ordem.

Seu diagnóstico de esgotamento do PT significa previsão de derrota do partido em 2018?

É possível, mas não é provável. Quando jogo for pesado, Lula vai ter que se realinhar. De forma até radical, o que não é do estilo dele. Ou Lula volta a fazer política de forma mais contundente e mais consistente ou se prepara para entregar o queijo para os tucanos. Lula vai ter que ser mais partidário e retomar a militância política. Vai precisar dar apoio a Dilma para que o mandato não tenha um desenlace que caia em cima dele. Se houver um desastre e o PT for desalojado do poder, as burguesias nunca mais se esquecerão disso. Vão tentar manter o PT afastado.

Há personalidades alternativas?

Brizola é o grande político que falta no Brasil. Governou dois Estados (o RJ duas vezes). Não tem ninguém com esse perfil, com essa audácia. Falta alguém com audácia.

Como o sr. enxerga o Brasil a longo prazo?

Vai caminhar para ser uma sociedade mais igualitária. Não é otimismo. Em geral, a obrigação do cientista social é ser pessimista. Nenhuma sociedade aguenta o nível de desigualdade que se produziu no Brasil. Há pressão da população. Não existe manter 200 milhões de pessoas sob o jugo da desigualdade, reprimida por inteiro. No longo prazo seremos mais igualitários. A democracia está ao alcance das mãos; não é um sonho utópico e é necessária. Menos para os democratas e mais para os não democratas. Quem estiver jogando jogo autoritário não vai aguentar. A burguesia brasileira é muito autoritária. Mas hoje a sociedade não aguenta mais ver a demissão de 2.000 pessoas. Ela não permite. As empresas não são mais donas absolutas do jogo econômico social e político. Têm que prestar contas à sociedade. O confronto deslocou-se do âmbito de empresas e sindicatos para a sociedade.

Como avaliar politicamente essa fração da população que ascendeu nos últimos anos?

Ninguém sabe. É como olhar dentro de uma chaleira. Há vários pontos de ebulição. Há uma ebulição geral na sociedade. Mas o Brasil vai melhorando, incluindo mais gente. É a forma do capitalismo se renovar. Ninguém pense em reformas profundas. As reformas são dadas pelo crescimento econômico e pelo crescimento da população. Pela alfabetização. Essas são as reformas que movem a sociedade. Eu, como um velho socialista –mais velho do que socialista–, não vejo revolução à vista. O Brasil vai engatar, vai crescer. É impossível conter 200 milhões de pessoas, cada uma querendo o melhor para si. Esse egoísmo capitalista é positivo. O socialismo é algo para além.

O sr. planeja um novo livro?

Sobre o ciclo do lulismo. A chance que o Brasil teve desde FHC e, com mais intensidade com Lula, não é de fácil repetição. FHC abre o ciclo. É homem de elite, não gosta do Nordeste, dos pobres. Tenho desgosto em relação a isso. Trabalhamos muito juntos; ele não era assim. O Lula não fez nada de excepcional, não na dimensão que poderia. Excepcional foi o Brasil desde 1930. Agora a chance foi desperdiçada, principalmente por Lula. O capitalismo só funciona com inserção social e não houve nenhum milagre no Brasil. A economia brasileira é privilegiada, disputada. Mas está faltando capacidade de aproveitar isso, ocupar espaços. No passado, quem percebeu isso com lucidez foi San Tiago Dantas (1911-1964, ministro de João Goulart). Ele meteu o pé. Hoje também há oportunidades, mas não há percepção.

Como seria o título do livro?

Vi recentemente Um Sonho Intenso [documentário de José Mariani] e tem um título me perseguindo que é Um Pesadelo Intenso. Pela frustração dessa oportunidade única. Erraram. Foi um sonho que poderia ter sido e não foi em toda a sua intensidade. Não culpo a Dilma. É o lulismo que, contraditoriamente, é muito conservador. Lula não ousa tudo o que poderia ter ousado. O que ele fez em relação à previdência social? Basicamente nada. Quando não se pode incluir pela expansão do mercado, essa é a forma de inclusão, fora do mercado. Ele poderia ter feito um esforço mais intenso para ampliar os benefícios sociais. E isso não é risco para o Tesouro, porque vem compensação pelo outro lado – pela expansão da economia, pelo aumento de arrecadação. Era hora de meter o pé no acelerador e Lula fez o contrário.

Como o sr. avalia o caso Petrobras?

Petróleo ainda é o melhor negócio do mundo. A Petrobras é de 1953 e avançou. Vargas foi obrigado a se suicidar por isso. Os norte-americanos até hoje não engolem o fato de ela ser estatal, mesmo sendo um estatismo frouxo. Não engolem porque é um filé. Está abalada hoje. Há pressão para que ela seja fatiada. A burguesia brasileira quer pegar nacos. A Petrobras é um item de segurança nacional; não pode ser privatizada.

E a questão da corrupção envolvendo empreiteiras?

Há tempos, quando todo mundo se desesperava com isso, Ignácio Rangel (1914-1994), que era realista e cético, dizia: "A corrupção é o creme do capitalismo. Não se desesperem, isso é sinal de que o capitalismo está se expandindo". É isso: tudo é corrupto no capitalismo. 

Tuesday, May 12, 2015

O Pedreiro do Verso

São Paulo, domingo, 22 de maio de 1994 +mais!

JOSÉ GERALDO COUTO

"Entre a dor de cabeça e a angústia, eu preferia a dor de cabeça." A frase – que parece uma versão mais concreta da famosa "entre a dor e o nada eu fico com a dor", de Faulkner – resume o humor agreste de João Cabral de Melo Neto.

Depois de décadas tomando seis aspirinas por dia, ele viu seu mal físico desaparecer inexplicavelmente ao final de uma operação de úlcera. Em seu lugar, instalou-se a angústia.

A angústia do maior poeta brasileiro vivo parece ter aumentado com a perspectiva da publicação, em junho, de sua obra completa, poesia e prosa, em um volume. Ele se diz lisonjeado, mas não evita a autopiada: "É uma coisa meio póstuma".

A publicação coincide com o momento de maior prestígio do escritor: em 1992 ele recebeu nos Estados Unidos o Prêmio Neustadt de Literatura, um dos mais importantes do mundo, e vem sendo apontado como favorito ao Nobel.

Nascido no Recife em 1920, o autor de Uma Faca Só Lâmina viveu no exterior como diplomata entre 1947 e 87, servindo em países como Espanha, Suíça, Portugal e Honduras.

Aposentado em 88, fincou pé no Rio com a mulher, a poeta Marly de Oliveira, 58. Nos últimos tempos, graves problemas de visão têm-no impedido de ler e escrever. Ele, que não gosta de música, passa o dia ouvindo a rádio de notícias CBN.

Nesta entrevista, em seu apartamento no Flamengo, falou sobre poesia, futebol, toureiros e realismo socialista. E mostrou que o humor e a lucidez continuam afiados.


Folha - A publicação de suas obras completas é, por certo, uma distinção. Mas não incomoda ao sr. ver sua obra transformada num monumento?

João Cabral de Melo Neto - Para mim, dá a impressão de uma coisa meio póstuma, sabe? (risos). Mas eu fico muito, como se diz, "flaté" (lisonjeado) de ter sido escolhido vivo, ainda.

Folha - Nas próximas edições, espero que a editora tenha de incorporar os poemas que o sr. ainda vai fazer.

João Cabral - Com esse negócio de olhos – estou com a visão muito ruim dos dois olhos –, acho difícil. Eu, para escrever, preciso ver muito o que eu estou escrevendo, compreende, sou incapaz de compor uma coisa de cabeça e ditar. O poema, para mim, é como se eu pintasse um quadro. Preciso ver como é que está ficando a forma dele. De modo que eu tenho a impressão de que, apesar de ter muita coisa começada, não sei se eu poderei terminar. Mas não precisa dar essa nota de pessimismo, não, porque pode ser que eu melhore e tudo mude...

Folha - Como é o seu processo de trabalho?

João Cabral - Eu demoro muito a escrever. Tem poemas meus que eu levei dez anos para escrever. Faço um esboço, trabalho sobre ele, depois deixo, depois retomo. Não sou desses escritores de "suspiros poéticos e saudades", título do livro daquele poeta romântico (Gonçalves de Magalhães). Para um sujeito desses, não ter a vista não é nenhum problema. Basta a ele cantar seus poemas (risos).

Folha - Saiu recentemente uma biografia do Carlos Drummond, Os Sapatos de Orfeu, de José Maria Cançado, que fala do afastamento entre ele e o sr. a partir de uma certa época...

João Cabral - Não houve afastamento nenhum. O que o pessoal ignora é que desde 47 eu vivi no estrangeiro. Eu era diplomata de carreira. De 47 a 87 eu vivi fora do Brasil. Não houve afastamento nenhum. Eu não sou de escrever carta, compreende, mas eu continuei amigo do Carlos até ele morrer. Aliás, eu estava no Porto quando ele morreu. De minha parte não houve afastamento. Se houve da dele, não sei. Carlos Drummond nunca foi muito homem de receber visita. Em geral ele era encontrável na cidade. Minhas passagens pelo Rio eram rápidas, quando eu mudava de um posto para outro, de forma que eu nem ia no centro da cidade.

Folha - Outro poeta que foi muito seu amigo, mas que de certa forma é seu antípoda poético, foi Vinícius de Moraes. O sr. acha que o Vinícius, de certa maneira, representava uma tendência comum entre os artistas brasileiros de ceder a uma certa lassidão, a uma certa autocomplacência, a uma tendência à facilidade, em sua literatura?

João Cabral - Vinícius fez a poesia que ele queria fazer. Ele era capaz de fazer as poesias mais sofisticadas, se quisesse, como também era capaz de compor samba. Ele era um poeta de uma habilidade como não conheci outro igual. De forma que, se ele entrou por esse caminho do samba, foi porque ele quis. Porque antes ele tinha feito coisas da maior sofisticação.

Folha - A propósito: em seu discurso de agradecimento pelo prêmio Neustadt, no ano passado, o sr. dizia que o lirismo, hoje, é representado pela música popular, e que a poesia tem de ser outra coisa...

João Cabral - A poesia lírica, como o nome diz, é feita para ser cantada. Agora, depois do romantismo, todo mundo faz uma poesia de assunto, vamos dizer, cantável, mas para a qual não se faz música. Então o lirismo se desligou da música. Mas o verdadeiro lirismo é o lirismo para ser cantado. Por exemplo: teatro lírico o que é? É a ópera. Antes do romantismo, existia uma poesia épica, uma poesia histórica, uma poesia didática, até uma poesia epistolar. Uma vez o rei da Espanha se casou com uma princesa italiana, se não me engano, e havia uma duquesa muito rica lá em Madri que não podia receber a princesa no porto de Valência, mas estava curiosa para saber da festa da chegada. Naquele tempo não tinha televisão, nem imprensa, então ela contratou o Lope de Vega para ir a Valência e descrever para ela as festas da chegada da princesa. E o Lope de Vega fez uma série de cartas em verso descrevendo a cerimônia. Então, havia uma poesia epistolar, geográfica. Eu tenho a impressão de que a poesia puramente lírica é a poesia cantada. Agora, tem muita gente que faz poesia lírica, mas que não é para ser cantada, porque não encontra compositor para botar a música (risos). O Vinícius foi consequente com o lirismo dele ao desembocar na música popular. Ele deve ter sentido isso que eu estou dizendo.

Folha - Uma das suas particularidades é a de não gostar de música, e em sua poesia o sr. de certo modo evitou a música...

João Cabral - Aí é o seguinte: eu realmente não tenho ouvido para a música, compreende, e só gosto de duas músicas: o frevo de Pernambuco e o flamenco da Andaluzia. O resto de música não me interessa. Mas o negócio é que música não é só melodia. Música é ritmo também. E minha poesia é musical no sentido de que ela é fortemente rítmica.

Folha - Mas o sr. sempre evitou os ritmos mais tradicionais, como a redondilha...

João Cabral - Ah, sim. Mas aí é porque esse ritmo já tinha se tornado melodia, compreende? Eu não sou auditivo. se eu vou a uma conferência, de repente percebo que não estou prestando atenção ao que diz o conferencista. Tenho a impressão de que deve ser influência do colégio marista, em que eu ouvia tanto sermão e tanta música clássica. Sou incapaz de me recordar de uma música. Só lembro do hino de Pernambuco e do hino brasileiro. Minha atenção é visual. Uma coisa que eu leio, uma coisa que eu vejo, eu não esqueço nunca. Não se pode dizer isso de toda música, mas em geral a música me faz dormir. E, como dizia Valéry, ele estava sempre à procura não do que o fizesse dormir, mas do que o fizesse despertar. Eu também estou sempre à procura de uma coisa que me acorde, e não de uma coisa que me embale. Você vê, por exemplo, que eu não tenho poemas cantantes, não tenho poemas de embalar. Eu procuro uma linguagem em que o leitor tropece, não uma linguagem em que ele deslize. O Pierre Reverdy dizia: o poeta é "maçon" (pedreiro). Ele ajusta as pedras. O prosador é "cimentier" , ele "coule le ciment" (espalha o cimento). Eu procuro fazer uma poesia que não seja asfaltada, que seja um calçamento de pedras, em que o leitor vá tropeçando e não durma, nem seja embalado.

Folha - Eu gostaria que o sr. falasse de outro poeta que parece radicalmente oposto ao sr., o Mário Quintana, morto recentemente, que tinha aquela coisa de valorizar a inspiração e se dizer poeta em tempo integral...

João Cabral - Pois é, mas aí é que está o negócio da sensibilidade poética. Eu, apesar de ter essas minhas ideias, minha sensibilidade não se fecha a outro tipo de poesia. Eu achava Mário Quintana um grande poeta, como acho o (Augusto Frederico) Schmidt um grande poeta. Cecília Meireles, que tem uma música, uma poesia embaladora, é uma grande poeta. O Jorge de Lima, que tinha também aquela poesia meio retórica, como o Schmidt, é um grande poeta. Minha sensibilidade não se fecha a essa gente. Quer dizer, quando eu faço, tento fazer uma coisa. Mas isso não quer dizer que eu só goste daquilo. Eu devo muito ao Paul Valéry, mas gosto imensamente da poesia de Paul Claudel, que era o contrário. Felizmente tenho essa capacidade, de gostar de uma poesia que seja o oposto da minha.

Folha - O sr. simpatizou muito com a poesia concreta. Não acha que em suas atitudes mais radicais – a abolição do verso, o próprio desmembramento da palavra –, o concretismo acabou dando num beco sem saída?

João Cabral - Eu tenho a impressão de que aquelas experiências concretistas não estavam esgotadas. Eles podiam continuar fazendo aquilo. Agora, se eles sentiram necessidade de fazer outra coisa, é um problema deles. Mas a experiência deles não estava esgotada. É a mesma coisa que dizer que a pintura do Mondrian estava esgotada. Mondrian morreu, deixou de pintar, mas podia ter continuado naquelas experiências. Existe uma concepção agora de que o autor tem sempre que se renovar. Eu tenho a impressão de que o autor, depois que chega à sua maneira pessoal, deve desenvolver aquilo e executar aquilo, e não viver num estado permanente de evolução. Você vê na pintura, por exemplo, ou na escultura. Hoje você pega dois tijolos, amarra com arame e diz que é uma escultura. O realismo socialista era uma coisa válida para os países socialistas; Zhdanov queria que os poetas cantassem a grandeza da União Soviética

Folha - Nessa discussão sobre o fim do suporte nas artes plásticas – hoje não se fazem mais pinturas ou esculturas, mas instalações, intervenções etc. –, o sr. teme que isso possa levar a uma espécie de vale tudo, de total falta de critérios...

João Cabral - Eu acho. Eu tenho a impressão de que a evolução não se dá com salto triplo, se dá com salto à distância, compreende? Quer dizer, o sujeito não pode evoluir três estágios à frente do que estão fazendo à sua época. Você procura partir de sua época e dar um passo à frente, e não de repente dar um salto de 17 metros, como é o salto triplo.

Folha - Na poesia há quem veja também um impasse análogo, a necessidade de a poesia, para sobreviver, se combinar com outros meios...

João Cabral - Eu não vejo impasse na poesia. Ela tem uma evolução natural, cada pessoa tem sua voz e deve chegar ao extremo dela. Eu acho que é possível escrever poesia ainda hoje sem recorrer a esses outros meios. Numa tese que apresentei nos anos 50, num congresso de poesia, eu digo que os poetas não estão usando devidamente o rádio, a televisão e outros meios de comunicação modernos. Agora, está claro que você não vai usar esses meios modernos escrevendo sonetos. Se você for utilizar esses meios você tem que adaptar a sua poesia a eles.

Folha - O artista plástico Luiz Paulo Baravelli escreveu certa vez que "há arte demais no mundo". Levando em conta não só a poesia ruim que se publica, mas também a linguagem floreada e sentimental usada pelos políticos e por setores da imprensa, da televisão e da publicidade, o sr. diria que "há poesia demais no mundo"?

João Cabral - A Elisabeth Bishop, poetisa norte-americana extraordinária que viveu no Brasil muitos anos e traduziu diversos poetas brasileiros, inclusive eu, dizia que o mal da poesia brasileira era o excesso de sentimentalidade. Eu tenho a impressão de que, de fato, a curva de derrapagem da nossa poesia é a sentimentalidade. Muita gente confunde poesia com sentimentalidade.

Folha - O sr. fez poemas sobre jogadores de futebol e toureiros. Acharia possível fazer um poema para a Fórmula 1?

João Cabral - Acho que sim. Por que não? Acho que não há assunto fora da poesia, nem assunto dentro da poesia. A poesia está na maneira como você trata o assunto. Você veja que na minha poesia eu procurei tratar de assuntos os mais prosaicos.

Folha - Até a aspirina.

João Cabral - Pois é. A aspirina, aliás, para mim não é nada prosaica. Eu a comparo a um sol. Depois é que eu soube que a aspirina é euforizante. Tenho a impressão de que essa minha depressão hoje é falta de aspirina. Resolvi tomar uma por dia (eu tomava seis), mas, como eu não tenho mais dor de cabeça, eu esqueço.

Folha - O sr. disse que a aspirina tem um efeito euforizante. Imagino que, pela sua própria concepção do fazer poético, o sr. deva rejeitar todo tipo de droga ou auto-indução no momento de escrever.

João Cabral - Ah, sim. Quero escrever sempre em plena consciência. Até o Rubem Braga, que era um bom copo, dizia que só escrevia as crônicas dele quando estava perfeitamente sóbrio.

Folha - Voltando ao futebol. O sr. continua acompanhando?

João Cabral - Não vou mais ao estádio, mas acompanho. Gosto muito de futebol. Fui campeão juvenil de Pernambuco pelo Santa Cruz, em 1935, quando tinha 15 anos. Sempre me interessei muito por futebol.

Folha - Existe algum jogador atual que poderia motivar um poema seu, como foi o caso de Ademir da Guia?

João Cabral - Tem. Esse Jorginho, por exemplo, eu acho um craque. Bebeto, Romário, também. Eu não era atacante, sabe? Eu jogava de "center-half", que corresponde hoje mais ou menos ao número 5: distribuía o jogo e defendia ao mesmo tempo a cabeça-de-área. Eu fui campeão pelo Santa Cruz, mas o meu clube era o América do Recife. Por isso que aqui no Rio eu sou América, e em São Paulo eu sou Palmeiras, porque verde era a cor do América.

Folha - O sr. acha que o Brasil tem condições de ganhar essa Copa do Mundo? Concorda com a filosofia do Parreira?

João Cabral - Acho que tem condições. Quanto ao técnico, eu sou de um tempo em que o técnico era um cidadão que apenas escalava o time e soltava dentro do campo para jogar. Agora, o técnico é um sujeito que quer jogar xadrez. A tendência do futebol brasileiro é querer jogar igual ao futebol europeu. O futebol-força e velocidade. Eu gostava de um jogador como Ademir da Guia porque era um jogador que jogava cadenciado. Nele eu via o futebol brasileiro. Para mim foi sempre o forte do futebol brasileiro um jogo cadenciado. O brasileiro joga futebol como quem toca um instrumento musical. Tenho a impressão de que isso se deve em parte ao contingente de sangue negro na população brasileira. O brasileiro joga com um ritmo diferente. Agora, você vê a crônica esportiva, os locutores usam "ritmo" no sentido de "velocidade". Quando dizem que um time está jogando "com ritmo", querem dizer que joga com velocidade. Ritmo não é velocidade, ritmo é cadência. Ela pode ser rápida ou pode ser lenta.

Folha - O que interessa ao sr. em certos jogadores de futebol, assim como em certos toureiros, é justamente o ritmo e a precisão – que é o que permite um paralelo com o fazer poético, não é?

João Cabral - Exato. Naquele poema Alguns Toureiros eu digo que aprendi com Manolete a não poetizar o poema. Porque esse é o problema de muito poeta: é que ele faz um poema poético. Quer dizer, faz um poema a partir de elementos já convencionalmente poéticos. Ele perfuma a flor. É como se você planta uma rosa e depois acha que a rosa não está cheirando o suficiente e aí põe, em cima da rosa, perfume de rosas para ela cheirar mais (risos). Eles perfumam o poema. Existem toureiros que fazem isso também, floreiam demais o jogo.

Folha - No futebol, o jogador que faz isso seria o "firuleiro", o que faz muita "firula". O sr. disse uma vez que não gosta do futebol da Espanha. Por quê?

João Cabral - Mário de Andrade dizia que a única coisa de que ele não gostava de Minas era o queijo. Eu digo que a única coisa da Espanha de que eu não gosto é o futebol. O andaluz talvez pudesse jogar um futebol cadenciado como o nosso. Mas acontece que na Europa predomina o futebol-força e o espanhol procura jogar à européia, não à latino-americana. Os africanos – os Camarões, por exemplo – têm um jogo muito mais próximo da América Latina do que da Europa.

Folha - O sr. sempre se considerou mais pernambucano do que propriamente brasileiro...

João Cabral - Eu acho que há uma cultura nordestina. O sujeito não pode entender minha poesia como a poesia de um brasileiro qualquer. É de um brasileiro de uma determinada região. Eu sou brasileiro na medida em que sou nordestino, e sou nordestino na medida em que sou pernambucano. Você não pode ser brasileiro "em geral". Eu não conheço o Amazonas, estive em Porto Alegre uma vez, nunca fui ao Mato Grosso. Como é que eu posso me dizer brasileiro "em geral"?

Folha - Como o sr. vê essas tendências separatistas surgidas no Sul do país?

João Cabral - Isso não tem muito sentido. É oportunismo político. Aliás, há uma coisa muito interessante. Você vê, a América espanhola se dividiu toda, não é? Porque a Espanha é um país centrífugo: nela convivem regiões diferentes, com culturas muito diferentes. Ao passo que Portugal é um país centrípeto. Portugal só existe na medida em que ele tiver consciência dele próprio, porque senão é engolido. É um pedacinho da península Ibérica. E nós herdamos dos portugueses esse espírito centrípeto. Por isso é que a América portuguesa ficou unida. Não vejo nenhum futuro para o separatismo.

Folha - Nas eleições presidenciais de 89, o sr. disse que votou, no primeiro turno, no Roberto Freire, e no segundo, no Lula – ambos por serem pernambucanos. Este ano, aparentemente só tem um pernambucano na disputa, o Lula. Seu voto é dele?

João Cabral - A lei eleitoral dispensa o voto dos maiores de 70 anos. Como estou tão ruim da vista, seria um sacrifício para mim ir votar. Aliás, nem sei mesmo se eu conseguiria distinguir a célula branca da amarela. Agora, se eu tivesse de votar, não sei. Não se sabe ainda quem são os candidatos. Pode ser que até lá apareça um outro pernambucano, não é? (risos)

Folha - Na época em que o sr. começou a escrever, e especialmente depois da guerra, havia uma grande solicitação para que os artistas participassem da luta política. Havia os escritores católicos e havia os escritores de esquerda, comunistas. O sr., apesar de ter formação católica, não era mais católico. Com que linha política o sr. se identificava?

João Cabral - Olhe, quando, depois da guerra, o Zhdanov começou a pregar o tal realismo socialista, houve essa grande cisão. O realismo socialista foi mal entendido no mundo todo, inclusive na França, onde provocou uma porção de coisas da pior qualidade. Agora, o problema desse negócio de poesia social é que os sujeitos que defendiam a poesia social escreviam para dizer "É preciso fazer poesia social ", mas não faziam poesia social. Faziam poesia programática. Agora, a poesia social, uma poesia que alcançasse o povo, eles não faziam. Eles ficavam na pregação de princípios. Fazer poesia para o povo começaria por usar formas populares.

Folha - É um pouco o que o sr. tentou fazer com Morte e Vida Severina e O Rio. Mas uma vez o sr. se lamentou que esses poemas não chegavam propriamente ao povo.

João Cabral - Esse negócio de povo é uma coisa muito difícil. Eu acredito que esses poemas não cheguem, vamos dizer, ao interior de Pernambuco, onde o sujeito está acostumado a romance de cordel, mas ao público de classe média têm chegado. Você sabe que Morte e Vida Severina continua sendo levada? Ainda agora está sendo levada na Ilha do Governador por esse Teatro da Terceira Idade. E chegou até à televisão. Mas eu não creio que o sertanejo se interesse por Morte e Vida Severina. Tem gente do povo que se interessa por Morte e Vida Severina e tem gente que é povo para quem Morte e Vida Severina não diz nada. Há muitas camadas de "povo", principalmente num país como o nosso de analfabetismo e falta de instrução.

Folha - Pelo que entendi, o sr. acha que o realismo socialista de Zhdanov foi mal interpretado. Mas a ideia original era boa?

João Cabral - Era uma coisa válida para os países socialistas. O que o Zhdanov queria era que os romancistas e os poetas cantassem a grandeza da União Soviética. Agora, o francês, por exemplo, não tinha por que cantar a grandeza da França. Se ele cantasse a grandeza da França, ele não estava fazendo realismo socialista, porque a França não era um país socialista. Quer dizer, o realismo socialista não era uma arte crítica. Para ter realismo socialista fora da União Soviética, teria que ser uma arte crítica. E isso o Zhdanov não viu. Porque ele pregou as ideias dele para a União Soviética. O erro foi transplantar essas ideias para uma situação diferente. Isso fez muito mal, por exemplo, para a pintura francesa.

Folha - O sr., evidentemente, concordava com aqueles que defendiam uma arte participante...

João Cabral - Pois é, uma poesia que chegasse ao povo. Eu achava que a poesia estava fechada demais e tentei abri-la um pouco mais. Mas depois eu vi que era um negócio muito difícil por essa coisa de que o leitor no Brasil é a elite, de forma que você, queira ou não queira, acaba escrevendo para essa elite. Como é que você vai escrever para o sertanejo, que não sabe nem ler?

Folha - Uma coisa da qual o sr. raramente fala é de cinema. O sr. foi sócio da cinemateca de Londres, não é verdade?

João Cabral - É. Eu fui maníaco de cinema. Em Londres existiam muitos clubes de cinema, e eu era sócio de uma porção deles. Praticamente toda noite eu ia com minha mulher a um cineclube desses. Eles passavam filmes antigos, clássicos, de forma que eu praticamente vi toda a história do cinema.
Agora, cinema contemporâneo mesmo, eu via muito até ir para a Europa, porque aqui no Brasil era legendado. Quando eu cheguei na Espanha, encontrei o cinema dublado, que me tirou completamente o interesse pelo cinema. Porque você vê um grande ator sendo dublado por um ator de segunda, perde completamente o impacto. Infelizmente, por essa coisa de viver no estrangeiro, eu não sei nada do cinema brasileiro. Nunca vi um filme de Glauber Rocha, nem de Nelson Pereira dos Santos.

Folha - Qual foi o último filme que o sr. viu?

João Cabral - Faz uns dois anos, uma filha minha me levou em Copacabana para ver aquele filme chinês, Lanternas Vermelhas. Gostei.

Folha - Sempre houve uma grande sensualidade na sua poesia, mesmo nos primeiros livros, até no uso das expressões "macho" e "fêmea" atribuídas a cidades, regiões, objetos.

João Cabral - Pois é. Talvez essa sensualidade tenha se tornado depois mais explícita, ao escrever sobre Sevilha. Sevilha é uma cidade muito feminina, e eu escrevi muito sobre bailarina de flamenco. Mas, como você viu bem, antes da Andaluzia já havia sensualidade em minha poesia.

Folha - O sr. se queixou numa entrevista de que a crítica não tinha percebido o humor presente em sua poesia. Pode falar um pouco sobre isso?

João Cabral - A crítica percebe outro tipo de humor. Você vê, por exemplo, o meu livro Dois Parlamentos. Um é sobre o problema da seca no Nordeste, outro é sobre o trabalhador da zona da mata. São duas situações injustas diante das quais eu, em vez de fazer uma poesia me apiedando dessas situações, dou uma vaia nelas. Quer dizer, é um pouco a técnica do Jonathan Swift no livro The Country of the Houyhnhnms, que aliás é o título de um poema meu. É uma terra em que os cavalos são os homens e os homens são os criados dos cavalos. Ele descreve o homem como um animal sujo e inferior, e os cavalos é que mandam. Quer dizer, esse tipo de humor que eu uso é um humor swiftiano. Mas eu tenho a impressão de que não se lê muito Swift no Brasil.

Folha - Há outros poemas seus que têm um humor muito franco, direto. Por exemplo, aquele que diz que quem vai primeiro para o inferno são os motoristas de táxi, porque apesar de pagos sempre fazem seu trabalho a contragosto...

João Cabral - Ou quem está atrás de um guichê. Basta você pôr um sujeito atrás de um guichê, imediatamente ele se transforma, vira um pequeno ditador (risos).

Folha - Como é que é o seu dia-a-dia hoje?

João Cabral - Meu dia-a-dia foi sempre ler. Agora, como eu não posso ler, eu ouço rádio.

Folha - Dentro da poesia brasileira moderna, qual é, a seu ver, sua contribuição pessoal?

João Cabral - Eu acho que eu trouxe estas coisas: a preferência pela palavra concreta em vez da palavra abstrata; em segundo lugar, a ausência de embalo, de melodia; em terceiro, a existência do mundo exterior. Porque há muito poeta que você lê e tem a impressão de que o mundo exterior não existe para ele, só existe o mundo interior. Ao passo que na minha poesia você vê que o mundo exterior existe para mim, seja ele um quadro, uma paisagem, uma situação. Não sou nada confessional. Fui na contramão da sentimentalidade, do subjetivismo da poesia brasileira.

Folha - Até por isso, sua poesia é mais difícil, num primeiro contato, para o leitor comum.

João Cabral - Pois é. Por isso é que me espanta o interesse agora da Nova Aguilar em fazer uma edição tão cara de um escritor problemático.

Monday, January 12, 2015

A Quinta História



Esta história poderia chamar-se "As Estátuas". Outro nome possível é "O Assassinato". E também "Como Matar Baratas". Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, "Como Matar Baratas", começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se "O Assassinato". Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das "Estátuas". Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompeia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: "é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de..." — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila-indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: "Esta casa foi dedetizada".

A quinta história chama-se "Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia". Começa assim: queixei-me de baratas.

Clarice Lispector - A Legião Estrangeira

Tuesday, April 22, 2014

Os Limites do Politicamente Correto

[..] uma análise social não é uma exortação moral nem pode ser medida pelos mesmos critérios. Num caso, o valor em jogo é a verdade, ou seja, a possibilidade de explicar como o mundo é o que ele é, em toda sua arbitrariedade e contingência. No outro caso, o valor é o da justiça e mede a menor ou maior aproximação de uma concepção de vida coletiva a partir de dado parâmetro (religioso) de conduta ideal. O mundo da ciência é o aqui e agora que todos (nós, os ainda vivos) compartilhamos. O mundo da religião cristã é o "outro mundo", daí que o cristianismo institucionalizado na Igreja Católica tenha podido, ao longo de toda a sua história, adotar práticas de compromisso e de conciliação com todo tipo de de dominação política secular.

Para entender e mudar o mundo do aqui e agora é necessário, portanto, ultrapassar a mera "piedade cristã" e compreender os mecanismos sociais que produzem e reproduzem formas permanentes de miséria existencial, política e material. As causas da desigualdade e da ausência de reconhecimento social são, por definição, invisíveis a olho nu. Ainda que a pobreza e a miséria material sejam facilmente perceptíveis e reconhecíveis, as causas e precondições que as tornam possíveis e socialmente legitimadas não o são. Esta é a razão última do fato historicamente invariante de que toda desigualdade existencial, política e material tenha que ser acompanhada por mecanismos simbólicos que mascaram e tornam opacas suas causas sociais. A reprodução da desigualdade material em todas as suas dimensões - econômica, cultural e política - pressupõe o sistemático desconhecimento/encobrimento, produzido e reproduzido simbolicamente, de suas causas efetivas. Isso é válido tanto para as chamadas sociedades tradicionais quanto para as sociedades modernas.

Nesse sentido, a atitude "politicamente correta" pode ter um resultado prático até pior que a perspectiva abertamente conservadora e liberal. É que ela aparenta e se traveste de crítica sem o ser. Na verdade, a "piedade cristã" deve, aqui, compensar a falta de "trabalho teórico" em reconstruir categorias que possam mostrar a lógica da competição social de uma "perspectiva crítica". Não é fácil desconstruir o discurso "politicamente correto" precisamente porque esse tipo de discurso "cientificamente preguiçoso" é, por outro lado, numa perspectiva "moralmente superficial" extraordinariamente sedutor. Sua sedução, como tudo, tem uma gênese e pode ser explicada por essa gênese. Quando Jesus Cristo diz que a pobreza é uma virtude em si e símbolo de boa ventura, ele está radicalizando e universalizando uma concepção moral do mundo já com raízes na sua socialização judaica. A "teodiceia do oprimido" vem substituir a antes dominante "teodiceia da riqueza", destinada a legitimar os privilégios dos mais ricos e felizes.

Como existem muitos mais pobres e infelizes no mundo que ricos e felizes, a teodiceia do oprimido abre, com essa revolução moral, um espaço muito maior para a ação do trabalho e da esfera religiosa. Como a penetração de valores religiosos é imensa por se realizar de modo afetivo e dizer respeito aos nossos medos e anseios mais fundamentais, toda a cultura aparentemente apenas secular é, pelo menos no Ocidente, fortemente influenciada pela moralidade religiosa. Assim, quando os "politicamente corretos" idealizam os oprimidos como a imagem da virtude, eles estão, na verdade, se aproveitando, parasitariamente, do enorme prestígio da imagem religiosa dominante que define a "bondade" e a "caridade" cristã. O pesquisador "politicamente correto" não só se utiliza do prestígio de valores religiosos para seus próprios fins como também pode, para si e para os outros, posar de "virtuoso" ele mesmo. Ele acaba, desse modo, por reproduzir os paradoxos da "ética da convicção" na esfera da ciência, ao trocar uma análise objetiva e rigorosa - o que significa nenhuma espécie de compromisso na busca da "verdade" - por uma "boa consciência" aparente. Isso significa não ter que prestar contas das consequências práticas de sua tão preciosa (para quem imagina possuir) " boa consciência" para a efetiva superação de uma vida de miséria e opressão por parte dos infelizes e miseráveis. Para Weber é precisamente a atenção em relação às consequências práticas de toda ação no mundo que permite a passagem de uma ética da convicção - que diz "eu estou certo e dane-se o mundo" - para uma ética da responsabilidade.

Na verdade, esse tipo de abordagem é tão frequente na esfera científica quanto a abordagem liberal-conservadora, ainda que esta última seja decididamente dominante no espaço público e na grande mídia. A perspectiva "politicamente correta" também é inofensiva "politicamente", apesar da aparência crítica, dado que "se está tudo bem do lado de baixo da sociedade", na medida em que todos já são virtuosos ou "escolheram" a vida que levam (a abordagem liberal-conservadora), por que mudar alguma coisa nessa maravilha de sociedade em que vivemos?

Jessé Souza - A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive

Monday, April 07, 2014

Senso Comum e Justificação da Desigualdade

[...] No mundo moderno, cuja legitimidade é baseada na liberdade e igualdade de seus membros, o poder não se manifesta abertamente como no passado. No passado, o pertencimento à família certa e à classe social certa dava a garantia, aceita como tal pelos dominados, de que os privilégios eram "justos" porque espelhavam a "superioridade natural" dos bem-nascidos. No mundo moderno, os privilégios continuam a ser transmitidos por herança familiar e de classe, mas sua aceitação depende de que os mesmos "apareçam", agora, não como atributo de sangue, de herança, de algo fortuito, portanto, mas como produto "natural" do "talento" especial, como "mérito" do indivíduo privilegiado. Existiria, no mundo moderno, uma "igualdade de oportunidades" que seria a forma de conciliar as demandas de igualdade e liberdade. Os privilégios que resultam disso não seriam "desigualdades fortuitas", como no passado com a dominância do status de sangue, mas "desigualdades justas" porque decorrentes do esforço e desempenho diferencial do indivíduo.

O que assegura, portanto, a "justiça" e a legitimidade do privilégio moderno é o fato de que ele seja percebido como conquista e esforço individual. Nesse sentido, podemos falar que a ideologia principal do mundo moderno é a "meritocracia", ou seja, a ilusão, ainda que seja uma ilusão bem fundamentada na propaganda e na indústria cultural, de que os privilégios modernos são "justos". Sua justiça reside no fato de que "é do interesse de todos" que existam "recompensas" para indivíduos de alto desempenho em funções importantes para a reprodução da sociedade. O "privilégio" individual é legitimado na sociedade moderna e democrática, fundamentada na pressuposição de igualdade e liberdade dos indivíduos, apenas e enquanto exista essa pressuposição.

O ponto principal para que essa ideologia funcione é conseguir separar o indivíduo da sociedade. Nesse sentido, toda determinação social que constrói indivíduos fadados ao sucesso ou ao fracasso tem que ser cuidadosamente silenciada. É isso que permite que se possa culpar os pobres pelo próprio fracasso. É também o mesmo fato que faz com que todo o processo familiar, privado, invisível e silencioso, que incute no pequeno privilegiado as predisposições e a "economia moral" - o conjunto de predisposições que explicam o comportamento prático de cada um de nós - que leva ao sucesso - disciplina, autocontrole, habilidades sociais etc. -, possa ser "esquecido". O "esquecimento" do social no individual é o que permite a celebração do mérito "próprio", que em última análise justifica e legitima todo tipo de privilégio em condições modernas. É esse mesmo "esquecimento", por outro lado, que permite atribuir "culpa" individual à queles "azarados" que nasceram em famílias erradas, as quais só reproduzem, em sua imensa maioria, a própria precariedade. Como, no entanto, o social, também nesse caso, é desvinculado do individual, o indivíduo fracassado não é discriminado e humilhado cotidianamente como mero "azarado", mas como alguém que, por preguiça, inépcia ou maldade, por "culpa", portanto, "escolheu" o fracasso.

A essa altura alguém pode se perguntar: então a "culpa" é da família pela reprodução da desigualdade, injustiças e privilégios? Tal questão é importante por duas razões. Primeiro, ela permite perceber que qualquer forma de dominação injusta depende do estreitamento do universo reflexivo. Sempre que a reflexividade humana não pode se expandir até a última cadeia causal que explica um fenômeno, este pode ser utilizado para fins de manipulação ideológica. Assim, como na ideologia dominante no senso comum só temos "indivíduos" que competem uns com os outros, nosso olhar, o olhar ingênuo e não treinado do senso comum, só consegue perceber a "família" como último elo da cadeia de causas que levam às desigualdades. A família seria o único elemento a ligar o indivíduo solto no mundo a alguma forma de comunidade social.

O que se esquece é que as famílias não possuem, enquanto famílias, nenhuma matriz valorativa própria. Elas buscam a visão de mundo que implementam diariamente em "outro" lugar. Se não fosse assim cada família ensinaria coisas distintas aos filhos, o que sabemos, não é o caso. Ao contrário, as famílias de uma mesma classe social ensinam coisas muito semelhantes aos filhos, e é isso que explica que esses filhos de uma mesma classe encontrem amigos, namorados e, depois, esposas e maridos da mesma classe e comecem todo o processo de novo. A "endogenia de classe", ou seja, o fato de as pessoas, em esmagadora maioria, se casarem dentro de uma mesma classe, mostra, de modo claro e insofismável, que as famílias reproduzem, na verdade, valores de uma classe social específica. O fato de o senso comum nunca perceber a presença das classes e da economia moral que vai determinar o comportamento peculiar de cada classe é o que explica precisamente que a "determinação social" dos comportamentos individuais seja sistematicamente escondida e "esquecida". Como esse aspecto central é deixado às sombras, pode-se culpar "indivíduos" por destinos que eles, na verdade, não escolheram.


Mas o "esquecimento" da "classe social", como segredo mais bem guardado da ideologia do senso comum, só pode ser adequadamente compreendido se separamos cuidadosamente o conceito de classe social como fonte de todas as heranças simbólicas, valorativas, morais e existenciais que se passam de pais a filhos por laços de afeto, do conceito meramente econômico de classe como acesso a dada "renda". Esse tema é de difícil compreensão num mundo e, muito especialmente, num país onde a única linguagem que parece existir é a da economia. Mas se "refletirmos" um pouquinho - afinal, é isso que o senso comum nunca faz - percebemos facilmente que o que os pais transmitem para os filhos de mais importante não é "dinheiro" nem nada que seja comprável apenas com ele.

O que os pais, ou figuras que os substituem, transmitem aos filhos, quer tenham consciência disso ou não, é toda uma visão de mundo e de "ser gente" que é peculiar à classe a que pertencem. O que a classe média ensina aos filhos é comer nas horas certas, estudar e fazer os deveres de casa, arrumar o quarto, evitar que os conflitos com amigos cheguem às vias de fato, chegar em casa na hora certa, evitar formas de sexualidade prematuras, saber se portar em ambientes sociais etc. As famílias da classe média ensinam, portanto, os "valores" de uma dada "classe", que são os valores da autodisciplina, do autocontrole, do pensamento prospectivo, do respeito ao espaço alheio etc. Que esse aprendizado seja "esquecido" ou não tematizado deve-se ao fato de que ele é transmitido afetiva e silenciosamente no refúgio dos lares. O aprendizado familiar é afetivo, ele só existe porque existe também a dependência e a identificação emotiva e incondicional dos filhos em relação aos pais.

Nos melhores lares da classe média também são ensinadas coisas mais "invisíveis" ainda, e que também não têm relação direta com dinheiro ou renda. Existe um número considerável de famílias da classe média em que as crianças, além de aprenderem "como devem se comportar", aprendem também que elas são "um fim em si mesmas" porque são amadas de modo incondicional pelos pais. Este último elemento permite acrescentar, além do mecanismo disciplinar indispensável ao sucesso nas condições de trabalho capitalistas, um elemento invisível para muitos, mas fundamental tanto na competição social quanto no desafio de levar uma vida com sentido, que é a "autoconfiança". A "autoconfiança", como nos ensina o pensador alemão Axel Honnet, é aquele elemento que confere a quem o possui, pelo simples fato de ter sido amado, a certeza do próprio valor, certeza essa que permite encarar derrotas e perdas como fatos transitórios e o enfrentamento de todo tipo de desafio e de dificuldades com confiança e esperança.

Mas esse tipo de aprendizado não é universal. As classes baixas no Brasil, ou mais propriamente seu patamar socialmente inferior, ao qual estamos dando o nome provocativo de "ralé", não possuem, muitas vezes, nem um nem outro tipo de aprendizado. Na imensa maioria dos casos lhes falta, pelo menos, o primeiro deles de modo muito evidente. Algumas vezes, ainda que alguns pais estimulem os filhos a irem à escola, os motivos dessa escolha são "cognitivos", da "boca pra fora", posto que a maior parte desses pais também não foi à escola ou não teve nenhuma experiência pessoal de sucesso escolar. Assim sendo, eles não "sabem", de modo "emotivo" e por experiência própria, os benefícios da vida escolar. Como esses pais, por exemplo, não possuem, como consequência do "fracasso" escolar, o hábito da leitura eles mesmos, de que vale o estímulo, da "boca pra fora", sem a força do exemplo, para a leitura das crianças?

Em muitas famílias da "ralé" brasileira é comum também a naturalização do estupro. As mulheres, especialmente, são estimuladas - de modos que as pesquisas empíricas mostram sobejamente - a um início prematuro da vida sexual, permitindo que sejam facilmente instrumentalizadas sexualmente pelos pais, padrastos, tios, irmãos mais velhos etc. Há 60 anos Florestan Fernandes havia detectado o mesmo estado de coisas. Qual o sentido de autoconfiança que é possível para esses seres humanos que só aprenderam a usar e serem usados? Que tipo de relação consigo mesmos? Que tipo de relação com os "outros"?

É a presença desses dois elementos conjugados, que faltam à "ralé", que permite às crianças de classe média o acesso às características emocionais e cognitivas que irão, mais tarde, separar aqueles que terão sucesso escolar e, consequentemente, sucesso no mercado de trabalho. A "renda" econômica que advém desse sucesso é, portanto, efeito, e não " causa" das diferenças entre as classes. A confusão entre efeito e causa, aliás, é o que faz as classes sociais, na sua determinação mais importante, que é não econômica, tornarem-se invisíveis aos olhos do senso comum. E apenas porque as classes se tornam invisíveis é que o senso comum e as "ciências" que se constroem a partir delas podem ver o indivíduo e o "mérito" individual como justificativa de todo tipo de privilégio. As classes sociais se reproduzem, portanto, de maneira duplamente invisível: primeiramente porque a construção das distintas capacidades de classe é realizada no refúgio dos lares e longe dos olhos do público; depois, invisível ao senso comum, que só atenta para o resultado, apresentado como "milagres do mérito individual", deixando as precondições sociais e familiares desse "milagre" cuidadosamente fora do debate público.

Jessé Souza e colaboradores. A Ralé Brasileira: Quem é e como vive.

Wednesday, October 23, 2013

O Preconceito Contra a Política


Qualquer discurso sobre a política em nossa época deve começar  pelos preconceitos que todos nós, que não somos políticos profissionais, temos contra a política. Nossos preconceitos comuns são, eles próprios, políticos em sentido amplo. Eles não provêm da arrogância dos ilustrados nem do cinismo dos que viram demais e compreenderam de menos. Uma vez que brotam no nosso próprio pensamento, não podemos ignorá-los; e, dado que se referem a realidades inegáveis e refletem fielmente a nossa situação presente precisamente em seus aspectos políticos, não podemos silenciá-los com argumentos. Tais preconceitos não são, porém, juízos. Eles indicam que nos deparamos com uma situação na qual não sabemos, pelo menos não ainda, conduzir-nos politicamente. O perigo é a política vir a desaparecer inteiramente do mundo. Os preconceitos invadem nosso pensamento: jogam o bebê fora junto com a água do banho, confundem a política com aquilo que levaria ao seu próprio fim e apresentam essa catástrofe como algo que é inerente à natureza das coisas e, portanto, inevitável.

Por trás dos nossos preconceitos atuais contra a política estão a esperança e o medo: o medo de que a humanidade se auto-destrua por meio da política e dos meios de força que tem hoje à sua disposição; e a esperança, ligada a esse medo, de que a humanidade recobre a razão e livre o mundo não de si própria, mas da política. Um meio de fazê-lo seria a criação de um governo mundial que transformasse o Estado numa máquina administrativa, resolvesse burocraticamente os conflitos políticos e substituísse os exércitos por forças policiais. Essa esperança é, evidentemente, pura utopia enquanto a política for definida no sentido usual, ou seja, como relação entre dominadores e dominados. Tal ponto de vista levaria não à abolição da política, mas a um despotismo de proporções colossais no qual o abismo que separa os governantes dos governados seria gigantesco a ponto de tornar impossível qualquer espécie de rebelião, para não dizer qualquer forma de controle dos governados pelos governantes. O fato de nenhum indivíduo - nenhum déspota, per se - poder ser identificado nesse governo mundial não mudaria de forma alguma o seu caráter despótico. O governo burocrático, o governo anônimo do burocrata, não é menos despótico porque "ninguém" o exerce. Ao contrário, é ainda mais assustador porque não se pode dirigir a palavra a esse "ninguém" nem reivindicar o que quer que seja.

Mas, se a política significa um domínio global em que as pessoas aparecem antes de tudo como seres atuantes que conferem aos assuntos humanos uma permanência que de outra forma não teriam, então essa esperança não é nem um pouco utópica. Há inúmeras situações na história, embora jamais numa escala global, em que a participação ativa das pessoas foi alijada - na forma de tiranias hoje aparentemente obsoletas que soltam as rédeas da vontade de um único homem, ou do totalitarismo moderno, em que os seres humanos são escravizados a serviço de pretensas "forças históricas" e processos superiores e impessoais. A natureza dessa forma de dominação, que num sentido profundo é verdadeiramente apolítica, evidencia-se precisamente na dinâmica que ela mesma gera e que lhe é peculiar; uma dinâmica em que tudo e todos que ontem eram considerados "grandes" podem e devem - para que o movimento conserve o seu impulso - ser hoje relegados ao esquecimento. Não é alívio suficiente para as nossas preocupações sermos compelidos a observar como, nas democracias de massa, por um lado, uma impotência similar se espalha por assim dizer espontaneamente e sem necessidade de terror e, por outro, um processo análogo, auto-alimentado, de consumo e esquecimento cria raízes, ainda que no mundo livre, onde não há terror, tais fenômenos se limitem às esferas da economia e da política no sentido restrito da palavra.

Mas os preconceitos contra a política - a ideia de que a política interna é uma teia de mentiras e ardis tecida por interesses escusos e a política externa um pêndulo a oscilar entre a propaganda insulsa e o exercício da força bruta - remonta a uma época muito anterior à invenção dos artefatos capazes de destruir toda a vida orgânica do planeta. No que tange à política interna, esses preconceitos são pelo menos tão antigos quanto a democracia partidária - isto é, pouco mais de um século -, que pela primeira vez na história moderna pretendeu representar o povo, algo em que o próprio povo nunca acreditou. A origem da política externa pode ser situada nas primeiras décadas da expansão imperialista da virada do século, quando o Estado nacional começou, não em prol da nação, mas dos interesses econômicos nacionais, a estender o domínio europeu por todo o globo. Mas aquilo que hoje dá ao amplo preconceito contra a política a sua força real - a  fuga na impotência, o desejo desesperado de exonerar-se da capacidade de agir - era naqueles dias preconceito e privilégio de uma pequena classe que acreditava, nas palavras de Lorde Acton, que "o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente". Ninguém, talvez, mais do que Nietzsche - em sua tentativa de reabilitar o poder - reconheceu mais claramente que essa condenação do poder refletia claramente os anseios ainda inarticulados das massas, embora também ele, bem ao espírito da época, identificasse, ou confundisse, o poder - que indivíduo algum é capaz de possuir, dado que só pode surgir da ação cooperativa de muitos - com o uso da força, cujos meios um indivíduo pode tomar e controlar.

Hannah Arendt - II - O Preconceito Contra a Política e O Que É, de Fato, a Política Hoje. Introdução na Política - A Promessa da Política


Saturday, September 28, 2013

O capitalismo é moral? II


Todos nós nos vemos confrontados com essas quatro ordens comuns (deixando a eventual quinta ordem à fé ou à não-fé de uns e outros), que resumo: a ordem tecnocientífica (ou econômico-tecnocientífica), estruturada internamente pela oposição entre o possível e o impossível, mas incapaz de se limitar por si mesma, limitada portanto do exterior por uma segunda ordem, a ordem jurídico-política, a qual é estruturada internamente pela oposição entre o legal e o ilegal, mas tão incapaz quanto a precedente de se limitar por si mesma; limitada portanto, por sua vez, do exterior por uma terceira ordem, a ordem da moral (o dever, o proibido), a qual é completada, "aberta por cima" para uma quarta ordem, a ordem ética, a ordem do amor.

O problema dos limites e da distinção das ordens

Por que o problema dos limites? Porque, quando se renuncia ao "tudo é permitido" do tolo, da geração 68 ou do canalha, coloca-se a questão de saber o que não é permitido. Ora, perguntar o que não é permitido é colocar o problema dos limites.

A ORDEM MORAL

[...] O que é a moral? Para abreviar, responderei com Kant: a moral é o conjunto dos nossos deveres - o conjunto, para dizer com outras palavras, das obrigações ou das proibições que impomos a nós mesmos, não necessariamente a priori (ao contrário do que queria Kant), mas independentemente de qualquer recompensa ou sanção esperada, e até de qualquer esperança. É o conjunto do que vale ou se impõe incondicionalmente, para uma consciência.

Essa moral, quanto à sua origem, é histórica, cultural, logo também relativa: ela é o conjunto das normas que a humanidade criou (de maneira ao mesmo tempo diferente e convergente em todas as civilizações do globo) para resistir à selvageria de que se originou e à barbárie que, de dentro, não pára de ameaçá-la. Mas nem por isso ela deixa de funcionar, subjetivamente, como um absoluto: moralmente, há o que devo fazer (o dever) e o que não devo fazer (o proibido, que nunca é mais que um dever negativo). É por isso que a moral não é tudo (muitas ações, felizmente, não dependem del: elas não são nem moralmente proibidas, nem moralmente exigíveis). É por isso que ela tampouco é nada. 

Coloca-se no entanto a questão de saber se é preciso limitar por sua vez essa terceira ordem, e com o quê.

Limitá-la, parece-me, não é a palavra que convém. Das duas primeiras ordens, devemos temer o pior. Da moral, se ela for bem compreendida, não. Vê-se perfeitamente o que poderia ser um canalha legalista, na ordem nº. 2, um canalha competente e eficiente, na ordem nº. 1... Tenho certa dificuldade para ver o que seria um canalha moral, na ordem nº. 3. Talvez vocês imaginem que há muitos canalhas moralizadores... Concedo-lhes integralmente esse ponto. Mas, precisamente, é essencial à moral que não seja a mesma coisa ser moral  e ser moralizador. A diferença é tão simples que, às vezes, nem dá para perceber. A diferença é a seguinte: ser moral é cuidar do seu dever; ser moralizador é cuidar do dever dos outros - o que é muito mais fácil, admito, muito mais agradável, mas completamente diferente. Alain dizia: "A moral nunca é para o vizinho". Ele tinha razão. Dizer ao vizinho "Você deve ser generoso" não é dar prova de generosidade. Dizer ao vizinho "Você deve ser corajoso não é dar prova de coragem. Ora, ser moralizador é exatamente cuidar da moral do vizinho. Não é moral, portanto. É o que distingue a "ordem moral", no sentido de Mac-Mahon ou dos puritanos, do que chamo de ordem moral. Quando a "ordem da moral" ameaça, o que pode acontecer, é que ela deixou de ser moral para se tornar moralizadora.

Se vocês me concederem essa distinção, hão de me conceder, creio, que dá para perceber perfeitamente o que pode ser um canalha moralizador, mas muito mal o que seria um canalha moral; e que, nesse sentido, essa ordem da moral não precisa ser limitada, em todo caso não no mesmo sentido que as duas precedentes, no sentido que se poderia esperar o pior dela.

Em compensação, se ela não precisa ser limitada (como se fosse possível ser moral demais), ela necessita ser completada - porque em si mesma a moral é insuficiente. Imaginem um indivíduo que cumpriria sempre com o seu dever, mas que  faria o seu dever. Não seria um canalha, é claro, mas não seria ele o que em nossa cultura, com ou sem razão historicamente, chamamos de um fariseu? Um fariseu, isto é, aquele que sempre respeita a letra da lei moral, mas costuma-se considerar que lhe falta sempre alguma coisa, que lhe falta uma dimensão, como se diz, ou mesmo que talvez lhe falte o essencial. O que falta ao fariseu? Dois mil anos de civilização cristã, talvez até três mil anos de civilização judaico-cristã, nos respondem com uma clareza e uma insistência notáveis o que falta ao fariseu: é, evidentemente, o amor. É por isso que creio ser importante marcar pelo menos o lugar - nem que ele devesse ficar em boa parte vazio - de uma quarta ordem, que proponho (apoiando-me numa distinção terminológica que a língua sugere) chamar de ordem ética: a ordem do amor.

André Comte-Sponville - O Capitalismo é Moral?

O Capitalismo é Moral?

No ensaio Da Dignidade da Política, Celso Lafer mostra que Hannah Arendt localiza na contemporaneidade o aguçamento de uma crise descrita como a "lacuna" que se abriu - com o advento dos chamados tempos modernos - entre o "não-mais" e o "ainda-não", ou seja, a quebra, como ela diz, na continuidade entre o passado e o futuro.

Parte da originalidade da argumentação de Hannah Arendt é demonstrar que os grandes pensadores do XIX, diante do fato de que "os padrões e as categorias políticas que compunham a continuidade da tradição ocidental se tornaram inadequados", buscaram entender "a realidade histórica e os acontecimentos que criaram o mundo moderno" e fornecer novas "regras para a ação", utilizando, no entanto, ferramentas herdadas daquela mesma tradição. Da previsível obsolescência das ferramentas decorreu, segundo Arendt,  que o pensamento que Nietzsche, Kierkegaard e Marx nos legaram não se provou eficaz para "inserir" as perguntas relevantes no "quadro de referência da perplexidade contemporânea".

Sem dúvida, faz parte desse raciocínio a constatação arendtiana de que "pertence à própria natureza da condição humana o fato de que cada geração se transforma em um mundo antigo", ou seja, o envelhecimento e seu concomitante turvamento cognitivo para o que lhe é inédito são componentes indispensáveis do permanente movimento que garante que o mundo possa ser "salvo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e jovens".

André Comte-Sponville, em seu O Capitalismo é Moral?, contribui para essa reflexão quando aponta um "retorno da moral" ao centro dos debates propriamente políticos à partir dos anos 80 do século passado e ao propor, como ele diz: "três explicações diferentes, complementares, pertencentes a três "durações" diferentes, a saber, uma breve, uma média e uma longa duração. O livro é do início da década passada e não presenciou as múltiplas "primaveras" dos últimos anos. Sinal, sem dúvida, de envelhecimento.

A seguir trecho em que Comte-Sponville trata da "breve duração".

O Retorno da Moral

Compreendamos primeiro do que se trata. Quando falo de um "retorno da moral" ou quando se fala disso na mídia, não quer dizer que as pessoas seriam hoje mais virtuosas do que eram seus pais ou avós. É um retorno da moral essencialmente no discurso. Não é que as pessoas sejam, de fato, mais virtuosas; é que, de moral, elas falam mais - e podemos emitir pelo menos a hipótese de que falam tanto mais quanto mais, a bem dizer, falta moral na realidade dos comportamentos humanos... É possível. Em todo caso, falam de moral. E esse retorno da moral na primeira linha dos discursos e das preocupações já é um fenômeno da sociedade que merece ser levado em conta.

Por que esse retorno da moral? Eu anunciava três explicações complementares, pertencentes a três durações diferentes... A primeira explicação que eu gostaria de lhes submeter pertence ao que um historiador chamaria de "breve duração": vinte anos, trinta anos, o espaço de uma geração.

1. DUAS GERAÇÕES, DOIS ERROS

De fato, parece-me que esse retorno da moral será percebido com particular nitidez se tomarmos certo recuo, especificamente se compararmos os jovens de hoje, os que têm uns vinte anos nestes anos de 1990-2000, com os jovens que éramos, muitos de nós, trinta ou trinta e cinco anos atrás, digamos, para dar uma data de referência, os que tinham uns vinte anos por volta de 1968. É o que se chamou de "geração 68". Faço parte dela; e se isso não me dá nem orgulho nem vergonha, guardo desse pertencimento algumas das minhas mais belas lembranças. Mas, afinal, a saudade, quando existe, não pode fazer as vezes da reflexão.

Há trinta, trinta e cinco anos, lembrem-se os que viveram essa época, com a moral nós geralmente nos preocupávamos muito pouco. A moda, naqueles anos, era muito mais o imoralismo, a libertação geral e irrestrita. Os mais filosóficos dentre nós reivindicavam Nietzsche: queríamos viver além do bem e do mal. Quanto aos que não eram filosóficos, contentavam-se com pichar os muros da faculdade - ou com ler, e quase sempre aprovando - os belos lemas de então. Vocês se lembram? "É proibido proibir" ou "Vivamos sem tempos mortos, fruamos sem limites".

Como era lindo, e que bom se fosse possível! Foram necessários uns vinte anos para compreender que não era. Muitos poderão se espantar por termos necessitado de tanto tempo (se bem que alguns tenham levado menos tempo que outros) e até que tenhamos podido acreditar, nem que por uma só primavera e com a desculpa da juventude, que era possível libertar-se a tal ponto de qualquer preocupação propriamente moral. Mas o que explica essa crença ou essa ilusão é que reinava naqueles anos, especificamente na juventude estudantil, uma ideologia particular, que eu chamaria de ideologia do tudo política. Isso não valia apenas para os militantes. Estes davam o tom, muito além do seu pequeno círculo, a toda uma geração. O apoliticismo, então, era quase inimaginável. O engajamento, quase uma evidência. Naqueles anos de 60-70, tudo era política, como dizíamos, e não só tudo era política (o que no fundo era verdade e continua sendo), como a política era tudo - o que é bem diferente (continuo acreditando que tudo é política, mas não creio mais que a política seja tudo). Na época, porém, era assim que víamos as coisas: tudo era política, a política era tudo, a tal ponto que uma boa política  nos parecia ser a única moral necessária. Uma ação nos parecia moralmente válida se fosse, como dizíamos, politicamente justa. Moral de militante, cheia de boa consciência e de entusiasmo. Mas será que ainda era uma moral?

Vejo meu melhor amigo daqueles anos, do curso preparatório para a École Normale Supérieure, me dizendo, com o olhar límpido: "Meu chapa, não tenho moral!" A estima que eu tinha por ele cresceu subitamente ouvindo isso... Era um rapaz encantador, e continua sendo. Não fazia mal a uma mosca (a não ser, talvez, a uma mosca de extrema direita). Mas a moral lhe parecia uma ilusão inútil e nefasta. Ele era ao mesmo tempo nietzschiano e marxista, como muitos de nós. Essa mistura duplamente contrária à natureza (um Nietzsche de esquerda! um Marx imoralista!) nos dispensava de interrogar demais. A moral? Ideologia servil e judaico-cristã. O dever? Idealismo pequeno-burguês. Disparávamos flechas incendiárias contra o estado-maior da consciência. Abaixo a moralina, como dizia Nietzsche, viva a Revolução e a liberdade! Ingenuidade dos jovens... Cumpre dizer que os mais velhos, aqueles que admirávamos, não faziam muito esforço naqueles anos para nos desenganar. O próprio Sartre havia renunciado a fazer uma moral. Quanto a Althusser ou Foucault, que eram mais importantes para nós, na época a simples palavra os teria feito sorrir. Deleuze celebrava Espinosa? Sim, e com que talento! Mas era para saudar nele, antes de mais nada, o "imoralista"... Era o ar do tempo, generoso e paradoxal: a moral - repressiva, castradora, culpabilizadora - parecia-nos imoral. Não precisávamos dela. A política a substituía e bastava para tudo.

Vinte anos depois, trinta anos depois, a mudança de cenário é espetacular. A política não interessa mais a muita gente, muito menos aos jovens. Quando ainda falam de política, na maioria das vezes é para debochar dela - porque agora só a percebem sob o ridículo aspecto que lhe dão os humoristas da tevê. Enquanto esses mesmos jovens que abandonaram em massa o terreno político empreendem um notável retorno a certo número de preocupações morais, muitas vezes rebatizadas, é claro (porque a palavra "moral" soa meio antiquada: os jovens preferem falar de direitos humanos, humanitarismo, solidariedade...), mas nem por isso deixam de ser morais.

André Comte-Sponville - O Capitalismo é Moral?