Sunday, December 28, 2008

Fomos para a cama e Soraya adormeceu com a cabeça apoiada no meu peito. No escuro do nosso quarto, fiquei acordado, mais uma vez com insônia. Acordado. E sozinho, com os meus próprios demônios.
Lá pelas tantas, no meio da noite, levantei para ir até o quarto de Sohrab. Fiquei parado junto da cama, olhando para ele, e vi alguma coisa aparecendo por debaixo do travesseiro. Peguei para ver. Era a foto Polaroid tirada por Rahim Khan, aquela que eu tinha lhe dado na noite em que estávamos sentados perto da mesquita Shah Faisal. Aquela em que Hassan e Sohrab estão parados, um ao lado do outro, apertando os olhos por causa do sol, e sorrindo como se o mundo fosse um lugar bom e justo. Perguntei com meus botões quanto tempo Sohrab teria ficado deitado na cama fitando aquela foto, virando-a e revirando-a nas mãos.
Olhei para o retrato. "Seu pai era um homem dividido entre duas pessoas", dizia Rahim Khan na sua carta. Eu era a metade autorizada, a metade legitimada e socialmente aceita, a encarnação involuntária da culpa de baba. Olhei para Hassan, com o sol lhe batendo no rosto e revelando aquela falha de dois dentes da frente. A outra metade de baba. A que não era autorizada, não era privilegiada. A metade que herdou o que havia de mais nobre e puro em baba. A metade que, talvez, lá no fundo do coração, baba considerasse o seu verdadeiro filho.
Botei a foto de volta no lugar de onde a tirei. E foi então que me dei conta de algo: que essa última idéia que me passou pela cabeça não tinha provocado nenhuma dor. Ao fechar a porta do quarto de Sohrab, fiquei imaginando se era assim que brotava o perdão, não com as fanfarras da epifania, mas com a dor juntando as suas coisas, fazendo as suas trouxas e indo embora, sorrateira, no meio da noite.

O Caçador de Pipas - Khaled Hosseini

[...] Mas existe um provérbio indiano que diz “senta à beira do rio e espera, o cadáver de teu inimigo não tardará a passar”.

Umberto Eco - Pós-Escrito a O Nome da Rosa

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