Monday, December 29, 2008

PRÓLOGO

– E que, diante da Face Sagrada de RAM, você toque com suas mãos a Palavra da Vida, e receba tanta força que se torne testemunha dela até os Confins da Terra!

O Mestre levantou a minha nova espada para o alto, mantendo-a dentro da bainha. As chamas na fogueira crepitaram, um presságio favorável, indicando que o ritual devia seguir adiante. Então eu me abaixei e, com as mãos nuas, comecei a cavar a terra a minha frente.

Era a noite do dia 2 de janeiro de 1986, e nós estávamos no alto de uma das montanhas da Serra do Mar perto da formação conhecida como Agulhas Negras. Além de mim e de meu Mestre estavam também minha mulher, um discípulo meu, um guia local, e um representante da grande fraternidade que congregava as ordens esotéricas em todo o mundo, e que era conhecida pelo nome de Tradição. Todos os cinco – inclusive o guia, que já tinha sido avisado previamente do que iria acontecer – estavam participando de minha ordenação como Mestre da Ordem de RAM.

Terminei de escavar um buraco raso, mas comprido, no solo. Com toda solenidade toquei a terra, pronunciando as palavras rituais. Minha mulher então se aproximou e me entregou a espada que eu tinha utilizado por mais de dez anos, e que tinha me auxiliado tanto em centenas de Operações Mágicas durante aquele tempo. Eu depositei a espada no buraco que havia feito. Depois, joguei a terra por cima e aplainei de novo o terreno. Enquanto fazia isto me lembrava das provas por que havia passado, das coisas que tinha conhecido e dos fenômenos que era capaz de provocar simplesmente porque eu tinha comigo aquela espada tão antiga e tão minha amiga. Agora ela ia ser devorada pela terra, o ferro de sua lâmina e a madeira de seu cabo servindo novamente de alimento para o local de onde havia tirado tanto Poder.

O Mestre se aproximou e colocou minha nova espada diante de mim, em cima do local onde eu havia enterrado a antiga. Todos então abriram os braços e o Mestre, utilizando seu Poder, fez com que em volta de nós se formasse uma espécie de luz estranha, que não clareava, mas que era visível, e fazia com que o vulto das pessoas tivesse uma cor diferente do amarelo projetado pela fogueira. Então, desembainhando sua própria espada, tocou nos meus ombros e na minha testa, enquanto dizia:

– Pelo Poder e pelo Amor de RAM, eu te nomeio Mestre e Cavaleiro da Ordem, hoje e para o resto dos dias desta tua vida. R de Rigor, A de Amor, M de Misericórdia; R de Regnum, A de Agnus, M de Mundi. Quando você tocar sua espada, que ela jamais fique muito tempo na bainha, porque há de enferrujar. Mas quando ela sair da bainha, que ela jamais volte sem antes haver feito um Bem, aberto um Caminho, ou bebido o sangue de um Inimigo.

E com a ponta de sua espada feriu levemente minha testa. A partir daquele momento eu não precisava mais ficar em silêncio. Não precisava esconder aquilo do que era capaz, nem ocultar os prodígios que havia aprendido a realizar no caminho da Tradição. A partir daquele momento eu era um Mago.

Estendi a mão para pegar minha nova espada, de aço que não se destrói e de madeira que a terra não consome, com seu punho preto e vermelho, e sua bainha preta. Porém, na hora que minhas mãos tocaram na bainha e que eu me preparava para trazê-la até mim, o Mestre deu um passo a frente e com toda a violência pisou nos meus dedos, fazendo com que eu gritasse de dor e largasse a espada.

Olhei para ele sem entender nada. A luz estranha havia sumido e o rosto do Mestre tinha agora a aparência fantasmagórica que as chamas da fogueira desenhavam.

Ele me olhou friamente, chamou minha mulher e lhe entregou a nova espada. Depois virou-se para mim e disse:

– Afasta sua mão que o ilude! Porque o caminho da Tradição não é o caminho dos poucos escolhidos, mas o caminho de todos os homens! E o Poder que você pensa que tem não vale nada, porque não é um Poder que se divida com os outros homens! Você devia ter recusado a espada, e se você tivesse feito isto ela lhe seria entregue, porque seu coração estava puro. Mas como eu temia, no momento sublime você escorregou e caiu. E por causa da sua avidez, terá que caminhar novamente em busca de sua espada. E por causa de sua soberba, terá que buscá-la entre os homens simples. E por causa de seu fascínio pelos prodígios, terá que lutar muito para conseguir de novo aquilo que tão generosamente ia lhe sendo entregue.

Foi como se o mundo tivesse fugido dos meus pés. Eu continuei ajoelhado, atônito, sem querer pensar em nada. Uma vez que já havia devolvido minha antiga espada à terra, não poderia pegá-la de volta. E uma vez que a nova não me havia sido entregue, eu estava de novo como alguém que tivesse começado naquele instante, sem poder e sem defesa. No dia de minha suprema Ordenação Celeste, a violência de meu Mestre, pisando meus dedos, me devolvia ao mundo do Ódio e da Terra.

O guia apagou a fogueira e minha mulher veio até mim e me ajudou a levantar. Ela portava minha nova espada nas mãos, mas pelas regras da Tradição eu jamais poderia tocá-la sem permissão do meu Mestre. Descemos em silêncio pelo meio da mata, seguindo a lanterna do guia, até chegarmos na pequena estrada de terra onde os carros estavam estacionados.

Ninguém se despediu de mim. Minha mulher colocou a espada na mala do carro e deu a partida no motor. Ficamos um longo tempo em silêncio, enquanto ela dirigia devagar, contornando os buracos e as valas do caminho.

– Não se preocupe – disse ela, tentando me animar um pouco. – Tenho certeza de que você irá consegui-la de volta.

Perguntei-lhe o que o Mestre havia lhe dito.

– Ele me falou três coisas. Primeiro, que ele devia ter levado um agasalho, porque ali em cima fazia muito mais frio do que ele estava pensando. Segundo, que nada daquilo tinha sido uma surpresa para ele, e que já havia acontecido muitas outras vezes, com muitas outras pessoas que tinham chegado até onde você chegou. E terceiro, que sua espada estaria esperando por você numa hora certa, numa data certa, em algum ponto de um caminho que você terá que percorrer. Eu não sei nem a data nem a hora. Ele me falou apenas do local onde devo escondê-la para que você a encontre.

– E qual é este caminho? – perguntei, nervoso.

– Ah, isto ele não explicou muito bem. Disse apenas que você procurasse no mapa da Espanha, uma rota antiga, medieval, conhecida como o Estranho Caminho de Santiago.

Paulo Coelho - O Diário de um Mago


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