A camisa do homem feliz
Gravemente enfermo caíra prostrado numa cama o poderoso sultão Abou-Malek.
De todas as partes vieram remédios, sábios e curandeiros; fizeram-se preces públicas; prometeram-se honras e fortunas a quem o salvasse.
Apareceu um dia no palácio uma velhinha, declarando que o sultão só se restabeleceria se vestisse a camisa de um homem feliz.
Imediatamente partiram mensageiros a procurar. Principiando pela capital do reino, seguiram, então, pelas pequenas cidades e aldeias, passaram por todas as vilas, esquadrinharam todos os lugares.
Em parte alguma encontraram um só homem feliz, e por isso, inteiramente desanimados, iniciaram o regresso para a capital.
Uma tarde, passando por uma vasta campina, encontraram um pastor sentado à sombra de uma árvore.
Um deles lembrou-se de lhe dirigir a palavra:
— Vejo-o sentado aí, tão a seu gosto, que sou capaz de apostar que você é feliz.
— E se o senhor apostasse, ganharia pela certa, respondeu o pastor.
— Como? tornou o outro admirado. Então, você nada ambiciona? Nada quer?
— Nada.
— Não desejaria ser rico? Ser nobre? Viver num palácio? Morar na corte?
— Nada disso! e sorriu.
— Então há de me fazer um favor: preciso muito da sua camisa.
— Ah! isso é coisa que lhe não posso dar.
— Pois compro-a.
— Também não posso vender.
— Será, então, à força..., disse o mensageiro.
E ele e os outros, atiraram-se sobre o pastor e lhe arrancaram o paletó.
E foi aí que viram que o homem feliz... não tinha camisa.
Pimentel, Figueiredo - Histórias da Baratinha. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1994, p.95-97



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