Sunday, January 04, 2009

A camisa do homem feliz

Gravemente enfermo caíra prostrado numa cama o poderoso sultão Abou-Malek.

De todas as partes vieram remédios, sábios e curandeiros; fizeram-se preces públicas; prometeram-se honras e fortunas a quem o salvasse.

Apareceu um dia no palácio uma velhinha, declarando que o sultão só se restabeleceria se vestisse a camisa de um homem feliz.

Imediatamente partiram mensageiros a procurar. Principiando pela capital do reino, seguiram, então, pelas pequenas cidades e aldeias, passaram por todas as vilas, esquadrinharam todos os lugares.

Em parte alguma encontraram um só homem feliz, e por isso, inteiramente desanimados, iniciaram o regresso para a capital.

Uma tarde, passando por uma vasta campina, encontraram um pastor sentado à sombra de uma árvore.

Um deles lembrou-se de lhe dirigir a palavra:

— Vejo-o sentado aí, tão a seu gosto, que sou capaz de apostar que você é feliz.

— E se o senhor apostasse, ganharia pela certa, respondeu o pastor.

— Como? tornou o outro admirado. Então, você nada ambiciona? Nada quer?

— Nada.

— Não desejaria ser rico? Ser nobre? Viver num palácio? Morar na corte?

— Nada disso! e sorriu.

— Então há de me fazer um favor: preciso muito da sua camisa.

— Ah! isso é coisa que lhe não posso dar.

— Pois compro-a.

— Também não posso vender.

— Será, então, à força..., disse o mensageiro.

E ele e os outros, atiraram-se sobre o pastor e lhe arrancaram o paletó.

E foi aí que viram que o homem feliz... não tinha camisa.

Pimentel, Figueiredo - Histórias da Baratinha. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1994, p.95-97

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