Thursday, January 01, 2009

Se o fenômeno histórico do futebol moderno tem como pré-condição as bases da modernidade e do capital, ele não se reduz completamente a elas, funcionando, em certo sentido, como um avesso compensatório. Enxergar o futebol através de evidências que lhe são, no essencial e às vezes por um fio, externas - o poder econômico, por um lado, a instrumentalização ideológica, por outro - , como se elas estivessem não só por trás e ao lado mas por dentro de tudo, é estar cego para aquilo sem o que, afinal, todo o resto não importaria. Trata-se, na verdade, de enxergar o lugar frágil e poderoso em que o futebol se dá, apesar de tudo, como avesso do jogo social. Pois ele é modernamente vizinho e parente da pura violência, que ronda e o pressiona por fora e por dentro (mas sob a qual, no entanto, se desestruturaria); vive num mundo regido pelos imperativos do mercado ou pelas pressões da ideologia, seja política, seja publicitária, que cerca o campo e invade as camisas (sob o domínio das quais perderia, no entanto, a razão de ser). Entre essas forças aniquilantes, constitui-se no limite fino, mantendo um parentesco latente com o rito, que, ao ser sua inversão, não deixa de ser a sua outra face. Mas se superando, quando acontece, e graças à sua autonomia, enquanto esta existir, numa forma singular de arte.

José Miguel Wisnik- Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil. Rito e Jogo - Capítulo o2 - A Quadratura do Circo: a invenção do futebol

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