Saturday, January 17, 2009

Um Borges "cancionista"?

PRÓLOGO

Toda leitura envolve colaboração e quase cumplicidade. No Fausto devemos admitir que um gaúcho possa acompanhar o argumento de uma ópera cantada em um idioma que não conhece; no Martín Fierro, um vaivém de bravatas e de queixumes justificados pelo propósito político da obra, mas inteiramente alheios à índole sofrida dos camponeses e às cautelosas maneiras do cantador.

No caso modesto de minhas milongas, o leitor deve suprir a música ausente com a imagem de um homem que cantarola na entrada de seu vestíbulo ou em um armazém, acompanhando-se à guitarra. A mão demora-se nas cordas e as palavras contam menos que os acordes.

Eu quis evitar o sentimentalismo do inconsolável "tango-canção" e o manejo sistemático do lunfardo, que infunde um ar artificioso às singelas coplas.

Que eu saiba, estes versos não requerem nenhum outro esclarecimento.

J.L.B.
Buenos Aires, junho de 1965.


MILONGA DE MANUEL FLORES

Manuel Flores vai morrer.
Isso é moeda corrente;
Morrer é um desses costumes
Que todo mundo consente.

E me dói ainda assim
Despedir-me desta vida,
Desta coisa tão de sempre,
Tão doce e tão conhecida.

Olho minhas mãos na aurora,
Olho nas mãos minhas veias;
Com estranheza eu as olho
Como se fossem alheias.

Virão os quatro balaços,
Com os quatro o esquecimento;
Merlin disse sábio: a morte
Começa no nascimento.

Quanta coisa em seu caminho
Estes olhos terão visto!
Quem sabe o que mais verão
Depois que me julgue Cristo.

Manuel Flores vai morrer.
Isso é moeda corrente;
Morrer é um desses costumes
Que todo mundo consente.

PARA AS SEIS CORDAS - Para las Seis Cuerdas - 1965 - Tradução de Nelson Ascher

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