Dois exemplos de mau jornalismo, de "opinionismo", de retórica auto-centrada sob disfarce de argumentação. Alguém concordou com o arcebispo de Recife e Olinda? Não que eu tenha visto. A própria hierarquia da Igreja se pronunciou oficialmente a favor de suas declarações? Também não. Na verdade, médicos e mãe da menina não foram excomungados. O que se viu foi dom José Cardoso Sobrinho escolher a hora mais inadequada possível para praticar sua militância. Para lembrar que o aborto é "crime" passível de excomunhão. O que a Igreja diz toda hora, ele resolveu fazer no pior momento! Volto a dizer: a atitude - absolutamente condenável, mas individual - do arcebispo não reverberou, não resultou. Pelo contrário, criou constrangimento imediato, gerou protestos.
Querem os jornalistas discutir o dogma. Mas discutir o dogma da Igreja é tão pretensioso! O resultado só poderia ser esse: Danuza tem que se valer do recurso de ressucitar as imagens mais esteriotipadas à disposição (grifei as piores), para no fim ter condições de dizer que não se preocuparia em ser excomungada. Marcelo Coelho, ao seu estilo, vai encontrar contradições no discurso católico (grifei também). Mas se o problema do arcebispo é excesso de "coerência"! Como é excessivamente "coerente" o discurso de Danuza e Marcelo Coelho. Quando os dois colunistas escrevem, escrevem só a favor de seus próprios dogmas. Danuza, ao invés de produzir um artigo, deixa a impressão de que deveria ter optado por uma conversa com o analista, tamanha a quantidade de lembranças incômodas de sua infância que vêm a tona. Marcelo Coelho, ainda que aponte a inabilidade do arcebispo, o principal do problema, ainda assim, parece se confiar no consenso de seus leitores a favor de uma prática mais humanista que a Igreja deveria, supostamente, adotar. No que consiste esta prática? Pronunciar-se contra a propaganda de cerveja na televisão ou contra a exposição das crianças ao consumismo desenfreado? Por que não outras? E que diferença há entre os dogmas ancestrais da Igreja e as idiossincrasias do jornalista a não ser o fato de que ambos pretendem se colocar em nível de verdade?
Querem os jornalistas discutir o dogma. Mas discutir o dogma da Igreja é tão pretensioso! O resultado só poderia ser esse: Danuza tem que se valer do recurso de ressucitar as imagens mais esteriotipadas à disposição (grifei as piores), para no fim ter condições de dizer que não se preocuparia em ser excomungada. Marcelo Coelho, ao seu estilo, vai encontrar contradições no discurso católico (grifei também). Mas se o problema do arcebispo é excesso de "coerência"! Como é excessivamente "coerente" o discurso de Danuza e Marcelo Coelho. Quando os dois colunistas escrevem, escrevem só a favor de seus próprios dogmas. Danuza, ao invés de produzir um artigo, deixa a impressão de que deveria ter optado por uma conversa com o analista, tamanha a quantidade de lembranças incômodas de sua infância que vêm a tona. Marcelo Coelho, ainda que aponte a inabilidade do arcebispo, o principal do problema, ainda assim, parece se confiar no consenso de seus leitores a favor de uma prática mais humanista que a Igreja deveria, supostamente, adotar. No que consiste esta prática? Pronunciar-se contra a propaganda de cerveja na televisão ou contra a exposição das crianças ao consumismo desenfreado? Por que não outras? E que diferença há entre os dogmas ancestrais da Igreja e as idiossincrasias do jornalista a não ser o fato de que ambos pretendem se colocar em nível de verdade?
Falando um pouco de religião
DANUZA LEÃO
Eu estudei em colégio de freiras e posso falar de cadeira dos recreios que perdi aos sete, oito anos, ajoelhada no milho na capela, para pagar os meus pecados. Isso não é sadismo em alto grau? Fico tentando lembrar que pecados seriam esses.
Teria falado na hora da aula? Teria comido um pedaço da sobremesa antes do almoço? Teria deixado de fazer algum dever?
E as freiras ainda nos induziam a fazer sacrifícios, tipo deixar de comer uma mariola ou uma paçoca por amor a Deus. Sacrifício, a palavra que define a Santa Igreja Católica. E a missa obrigatória em todos os domingos e dias santificados? Depois disso, igreja, para mim, só em excursão turística - e assim mesmo só algumas. É possível considerar o desejo sexual um pecado, um orgasmo um pecado, ter relações sexuais, mesmo de casais casados na igreja, sem outra intenção, a não ser a de procriar, um pecado? E ao considerar quase tudo que dá prazer um pecado, não dá para perceber o quanto as mentes católicas são doentes? E malvadas?
Os sacrifícios, tão cultuados entre os católicos - cordas apertando a cintura, debaixo do vestido, até sangrar, eram um grande sinal de amor a Deus. Mas o que deve acontecer naqueles conventos e seminários, com aquele monte de moças e rapazes com seus hormônios explodindo, mas tendo que seguir o sentido contrário ao da natureza para amar a Deus sobre todas as coisas, isso é segredo, e jamais saberemos o que lá se passa - mas minha mão no fogo eu não boto. Será que são todos castos?
Dos padres pedófilos se fala um pouquinho, mas logo o assunto é esquecido. E da excomunhão dos médicos que fizeram o aborto na menina de nove anos estuprada não vou nem falar, porque tudo já foi dito.
Para a Santa Madre Igreja, quanto mais se sofre mais se tem direito ao reino dos céus. Quem tiver uma doença grave será recompensado, se for cego, surdo, mudo e paralítico, é considerado um santo, praticamente, e ai dos que são felizes, dão risadas e gostam da vida. Estes estão condenados às trevas do inferno.
Para ser um católico de verdade é preciso sofrer, e quanto mais, melhor. Como têm prestígio as carolas vestidas de preto, com um véu na cabeça e um terço na mão, falando que este mundo está perdido (e levando um pratinho de biscoitos para os padres). Perdido está quem não aproveitou esta vida e nunca ouviu falar em felicidade, pois o que vem depois ninguém sabe direito. Pelo menos, ninguém voltou pra contar.
Mas também me revoltam as invenções praticadas em nome de Deus, das mais banais às mais revoltantes. Quem pode, em sã consciência, jurar amor "até que a morte nos separe?" Quem faz uma jura dessas é hipócrita, porque até as crianças do jardim-de-infância sabem que a vida não é assim.
Mas do que os cardeais gostam mesmo é dos paramentos, das vestes de brocado, dos cálices de ouro, dos tronos incrustados de pedrarias, do luxo das igrejas de ouro, dos quadros mais preciosos deste mundo e de dar declarações absolutamente inúteis, tipo "o papa está muito preocupado com a fome no mundo", como se essa preocupação resolvesse alguma coisa. Esse papa, aliás, que veste Armani e sapatos vermelhos de Prada. Se o Vaticano se desfizesse de metade de seus tesouros, é bem possível que não houvesse mais fome no mundo. Fui batizada, crismada e fiz a primeira comunhão, mas não cheguei ao ponto de me casar no religioso; e não me incomodaria nem um pouco se fosse excomungada.
Estupra, mas não aborta
MARCELO COELHO
Bombas de fragmentação, também chamadas de "cluster" ou bombas-cacho, funcionam assim. Você lança uma bomba sobre uma área mais ou menos indefinida, uns quatro campos de futebol, digamos. Pontaria não é o importante.
O objetivo não é destruir um alvo muito específico, como um centro de atividades terroristas, uma ponte, ou uma fábrica de armamentos no país inimigo.
A bomba que você lançou - pode ser chamada de "bomba-mãe"- dá à luz centenas de bombas menores, que se espalham pela região, como se fossem uma chuva de granadas.
Como ninguém é perfeito, muitas dessas "granadas" ou submunições não explodem na hora certa e ficam no solo, à espera de que uma criança invente de tocar nelas. De modo que a região se transforma num verdadeiro campo minado.
Leio que, segundo a Cruz Vermelha, há 400 milhões de pessoas vivendo em terrenos semeados com essas bombas.
O Brasil é um dos países que produzem, estocam e exportam esse artefato bélico.
Por isso mesmo, o Brasil participou apenas como observador de uma convenção internacional no ano passado, na Noruega, em que 94 países assinaram um tratado para banir essas bombas.
Não creio que qualquer nação do mundo possa reivindicar foros de santidade em questões de defesa militar. Mas o Brasil até que tem um currículo razoável, se comparado a muitos outros países.
Acontece que as tais bomba "lança-granadas" são produzidas aqui. E exportadas, pelo que se sabe, a países como Irã e Arábia Saudita. O Brasil ficou, portanto, sem assinar nada. Isso foi em dezembro.
Mais informações no site da ONU www.mineaction.org e também em www.clusterconvention.org. Este último site afirma, aliás, que na próxima quarta-feira, 18, há mais uma chance para assinar o tal tratado. Um evento com esse objetivo será realizado na sede da ONU, em Nova York.
Bem que o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, poderia aproveitar o embalo dos últimos dias e excomungar os produtores brasileiros dessas tais bombas de fragmentação.
O arcebispo de Olinda e Recife não poderia excomungar aos produtores brasileiros de bombas de fragmentação pois, fabricar bombas de fragmentação não é crime passível de excomunhão no código de leis da Igraja Católica, assim como estupro e assassinato não o são.
Na pessoa do presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, o cardeal Giovanni Re, o Vaticano manifesta seu apoio ao arcebispo de Olinda e Recife, que excomungou a mãe de uma menina de nove anos, grávida de gêmeos após ter sido estuprada pelo padrasto. A mãe da menina autorizou o aborto. Os médicos que o fizeram foram excomungados também.
A atitude desse arcebispo é tão estreita e sem caridade, que fica até vulgar criticá-la como merece. Mas quando leio que o padrasto, o homem acusado de estuprar a menina, não foi excomungado, não resisto à tentação.
Assim como se martelou muito a frase de Maluf sobre o "estupra, mas não mata", bem que dom José mereceria ser celebrizado pelo "estupra, mas não aborta".
Não vou discutir a questão do aborto neste espaço. Uns serão contra com motivos importantes, outros, como eu, são a favor de sua legalização.
Mas veio de um padre, evidentemente contrário ao aborto, uma atitude mais bonita nesse episódio. Márcio Fabri dos Anjos, que é também professor de bioética, declarou na TV outro dia que "a primeira palavra que eu esperava ouvir da Igreja é a de que Deus está do lado de quem sofre". A própria nota oficial da CNBB mostra atitude mais hábil e reflexiva que a do arcebispo.
Afinal, por que não ouvir, dialogar e consolar, antes de condenar?
Fora da discussão do aborto, o que mais me incomoda é a "pauta", como se diz em linguagem jornalística, que a hierarquia católica segue na maior parte do tempo.
Parece que tudo se resume a condenar a camisinha, no lado conservador, ou discutir a privatização da Vale do Rio Doce e a Alca, no campo da esquerda.
Lideranças católicas no Brasil teriam muitos outros assuntos a tratar. Por que não reclamam, por exemplo, de coisas como a propaganda de cerveja na televisão ou da exposição das crianças ao consumismo desenfreado?
Em casos como esses, fugiriam de uma teimosia doutrinária quase talebânica e poderiam construir algum consenso, para variar um pouco. E, já que se trata de defesa da vida, podiam pensar nas bombas que o país produz, em vez de condenar a mãe de uma menina de nove anos estuprada pelo padrasto.



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