Tuesday, April 21, 2009

#10

PARABOLÁRIO

Parábolas do Reino


Símile é feito o reino dos Céus
ao homem que semeou boa semente
em seu campo.
Quando seus homens dormiram,
veio um inimigo
e sobressemeou erva ruim no meio do trigo,
e se foi.
Quando o trigo cresceu,
e deu fruto,
então também apareceu a erva ruim.
Vieram pois os servos do pai de família
e lhe disseram:
— Senhor, por acaso não semeaste
boa semente no teu campo?
Donde vem a erva má?
E ele lhes disse:
— Um inimigo fez isso.
Os servos, porém, lhe disseram:
— Se queres, vamos e a colhemos.
E ele disse:
— Não, para que não suceda que, por acaso,
colhendo a erva má,
arranquem com ela o trigo (...)”

Símile é o reino dos Céus
a um grão de mostarda
que um homem, pegando,
semeou em seu campo.
Que é a menor de todas as sementes.
Quando, porém, crescer
é maior que todas as hortaliças,
e se faz árvore,
de tal forma que as aves do céu venham
e habitem em seus ramos.

Símile é o reino dos Céus ao fermento
que uma mulher pega e esconde
em três medidas de farinha,
até que tudo está fermentado.

O semeador, o grão de mostarda, o fermento do pão: é do mundo material, do trabalho simples, que Jesus extrai os símiles para anunciar o advento de uma nova ordem de coisas.

Mateus arremata: “todas estas coisas Jesus falou por parábolas às turbas. E sem parábolas não falava a elas.”

Nutritivo observar que, em português, a palavra “palavra” vem, exatamente, do grego “parábola”: toda palavra é parábola.

Símile é o reino dos Céus
a um tesouro escondido no campo.
O qual, o homem que acha
esconde
e, para desfrutar dele,
vai, vende tudo o que tem
e compra aquele campo.

Símile é o reino dos Céus
ao homem de negócios
que procura boas pérolas.
Acha uma pérola preciosa,
vai, vende tudo o que tem
e a compra.

Aqui, os termos de comparação deixam de ser agrícolas e fabris e passam a ser comerciais, monetários.

Assim, símile ao reino dos céus
são redes lançadas ao mar,
pegando todo tipo de peixes.
As quais, quando estão cheias,
puxam para a terra firme,
botando os peixes bons na cesta,
os ruins jogando fora.

As seis parábolas sobre o Reino têm seu símile no mundo do trabalho (agricultura, artesanato, culinária, comércio), culminando na parábola piscatória, haliêutica, evidentemente muito ao gosto dos pescadores entre os quais Jesus recruta seus primeiros e mais tenazes seguidores.

Mais adiante, Mateus registra outras parábolas sobre o reino: a dos servos devedores (18, 23), a dos operários da vinha (20, 1), a do rei que estava casando seu filho (22, 1), a das dez virgens (25, 1), que emenda direto com a parábola dos talentos (25,14).

Em matéria de sentido, Jesus sabia o que estava fazendo.

Muitos são os chamados,
poucos, porém,
os escolhidos.

Outras Parábolas

O que é que vocês acham?
Se alguém tiver cem ovelhas
e uma se perder do rebanho,
por acaso você não deixa
as noventa e nove pelos montes
e vai buscar a que se perdeu?
E se acontecer de encontrá-la
amém digo a vocês
que mais se alegra com ela
do que pelas noventa e nove
que não se perderam.

Aqui, Jesus fala das crianças, pelas quais tinha um apreço especial, em sua inocência vendo um ideal, um limite máximo, que propunha a seus obtusos asseclas.

Vocês são o sal da terra.
Se o sal perder o gosto
com que sal vai se salgar?
Não serve mais pra nada,
a não ser pra ser jogado
e pisado por aí.

Vocês são a luz do mundo.
Ninguém consegue esconder
a cidade sobre o monte.
E não se acende a lâmpada
para colocar sob a mesa,
mas no candelabro
para que luza sobre
todos os que estão na casa.

Ouviram o que foi dito,
amar o próximo,
odiar o inimigo.
Eu, em vez, contradigo:
vamos amar os inimigos,
fazer bem aos que nos odeiam,
rezar pelos que nos persigam
e nos caluniam.

Assim são os filhos
do pai dos céus.
Seu sol, ele faz que resplandeça
sobre os bons e os perversos
e chova igualzinho
sobre os errados e os certos.

Teu olho
é a lâmpada do teu corpo.

Se teu olho está bem,
todo o teu corpo está lúcido.

Se teu olho não estiver,
todo o teu corpo está tenebroso.

Pois se a luz que tens em ti
são trevas,
como não vão ser as próprias trevas?

Olhem só as aves do céu
que não plantam nem colhem
nem armazenam no paiol,
e o pai celeste
as abastece.

Acaso vocês
não são mais que essas criaturas?
Quem de vocês, por exemplo,
pensando,
poderia acrescentar um palmo
à sua própria estatura?

Se preocupar com roupa?
Vejam só os lírios do campo,
não trabalham nem tecem
e olha só como crescem.
Minha palavra a vocês,
nem Salomão em toda sua glória
jamais se vestiu com tanta beleza.
(Mateus, 6, 26)


Nos primeiros séculos da era cristã, deveriam circular incontáveis parábolas atribuídas a Jesus, umas, dele, outras, meio dele, outras, livres interpretações e desdobramentos do seu processo, desenvolvidas por intérpretes mais ou menos fiéis.

Em Lucas, o mais “artístico” dos evangelistas (corre que era médico e pintor), várias parábolas, que não constam em Mateus: a da figueira estéril, a da dracma perdida, a do filho pródigo.

Na parábola da dracma perdida, a recorrência do tema monetário:

Qual é a mulher
que, tendo dez dracmas,
se perder uma
não acende a lâmpada
e varre a casa e procura
até achar?
E quando acha,
chama as amigas e vizinhas
dizendo: vamos nos alegrar,
achei a dracma que tinha perdido.


Quanto à parábola do filho pródigo, nenhuma dúvida: nela, “Lucas” realiza a mais inteiriça peça ficcional dos evangelhos.

O capítulo 15 de Lucas, a partir do versículo 11, é a molécula de uma novela arquetípica, onde não falta nenhum dos melhores ingredientes do gênero: cor local, surpresa, adversidade da fortuna, rompimento, aventura, a fuga da origem, a volta às origens.

Um homem tinha dois filhos.
E o mais jovem deles disse ao pai:
pai, me dê a porção da substância
(= parte da herança) que me cabe.
E o pai dividiu a substância (a herança).
E não muitos dias depois,
todos reunidos, o filho mais moço
partiu para uma região longínqua,
e aí dissipou sua substância,
vivendo na opulência.
Na região, porém, fez-se forte fome
e ele começou a sentir falta de tudo,
e ele ficou muito mal de vida.
Então, ele partiu
e foi trabalhar para um proprietário da região.
O proprietário o mandou guardar porcos
em sua fazenda.
E tudo que queria era encher a barriga
com o farelo, que os porcos comiam
Mas ninguém lhe dava.
Reverso em si mesmo, disse:
— Quantos empregados na casa do meu pai
abundam em pão,
e eu morro de fome.
Vou me levantar e vou a meu pai
e direi a ele:
— Pai, pequei diante do céu
e diante de ti.
Já não mereço que me chames de filho.
Só quero um lugar entre teus empregados (...)

O resto da fábula todo mundo sabe.
A alegria com que seu pai o recebe e o perdoa. A festa que o velho fez para comemorar a volta do filho. A inveja e o ciúme do irmão mais velho, que não abandonou o patriarca e estranhou que a ingratidão seja recompensada com presentes e banquetes.

A entrada em cena, na trama, do irmão mais velho é um primor de ficção, cheio de cor, detalhe, movimento e até música:

O filho mais velho, porém,
estava na roça.
E quando voltava
e se aproximou da casa,
ouviu música de instrumentos e vozes.
E chamou um servo
para saber o que é que estava havendo.
E este lhe disse:
— Teu irmão voltou,
e teu pai mandou matar
um bezerro gordo
para comemorar.
O mais velho ficou puto
e não quis entrar.
O pai veio até ele
começou a pedir para ele entrar.
Mas ele, respondendo,
disse ao pai:
— Eis que, ano após ano,
trabalho para você,
nunca deixei uma ordem tua sem cumprir,
e você nunca me deu um cabrito
para eu churrasquear com meus amigos.
Mas esse teu filho aí que
devorou sua herança
com meretrizes,
ele volta,
você mata para ele um bezerro gordo.
Mas o pai disse a ele:
— Filho, você sempre está comigo,
e tudo o que eu tenho é teu.
Mas eu tinha que festejar e me alegrar
porque este teu irmão estava morto
e viveu de novo,
estava perdido
e foi achado.

Felizmente para a fábula, não é fácil decodificar seu sentido, seu significado doutrinário, teórico ou teológico.

A fábula parece pertencer ao ciclo das parábolas sobre o Reino.

E se aparenta a outras tendo como tema a volta do perdido (a ovelha, a dracma perdidas), a certeza do perdão. Nela, Jesus se justifica, para os fariseus, de sua amizade com publicanos e pecadores.

Observar a forte coloração masculina e patriarcal da cena toda, onde não há nenhuma mulher, nenhuma mãe, nenhuma irmã, nenhuma filha, nenhuma esposa.

Uma leitura atual, à luz da Economia, da Sociologia e da História, pode extrair da parábola um quadro muito claro das relações de trabalho e produção, na Palestina de Jesus, no meio agrário.

O pai-patriarca é proprietário de alguma extensão de terra, cultivada em regime familiar (o irmão mais velho volta do eito).

O trabalhador assalariado está presente: o filho pródigo se emprega, para guardar porcos. E, com fome, lembra que os empregados do seu pai (“mercenários”, na tradução de Jerônimo) têm pão.

Além destes, havia servos, submetidos, evidentemente, a um estatuto jurídico e social mais arcaico que o dos “mercenários”.

O velho patriarca mobiliza seus recursos para festejar a volta do caçula. Chama um servo e manda dar ao filho um manto novo, um anel e sandálias novas.

A propriedade parece ser uma unidade agrícola e pecuária: o patriarca manda matar um bezerro gordo, o mais velho reclama do cabrito que o pai nunca lhe deu.

Soa-me que é o único lugar dos evangelhos onde apareça alguma menção à música ou atividades musicais.

De volta do campo, o mais velho ouve música (“symphoniam et chorum”, no latim de Jerônimo), alegrando a festa da volta do caçula. Poderia haver, nas vilas, músicos profissionais, que um próspero fazendeiro contratava para abrilhantar suas celebrações.

Ou estes músicos poderiam estar entre os servos, como no Brasil Colônia, quando muita casa-grande tinha sua banda particular, constituída de escravos.

Seja como for, a chamada Parábola do Filho Pródigo é a unidade ficcional mais rica e mais redonda, mais ampla e mais realizada, de todo o Novo Testamento.

A inspiração artística que a conduz faz com que transcenda qualquer finalidade doutrinária mais imediata. E a afirma como objeto artístico autônomo, para figurar com brilho em qualquer antologia da narrativa mundial.

Apócrifos são as centenas de evangelhos dos primeiros séculos da era cristã, que a Igreja nascente desautorizou como testemunhos verazes da vida e doutrina de Jesus.

Heréticos, fantásticos, subterrâneos, chegaram até nós muito fragmentariamente, não acrescentando grande coisa ao que já sabíamos a partir de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Destroço de um desses apócrifos é o chamado Fragmento Evangélico Egerton.

Consta de um fragmento de papiro proveniente do Egito, exarado em grego, em meados do século II.

Nele, brilha esta fábula, que os evangelhos oficiais não registram:

Jesus que estava andando,
parou na margem do Jordão,
estendeu a mão direita...
e semeou no rio...
............e (?)
à vista deles (...), a água
produziu frutos...


Os acidentes de grafia deste fragmento reproduzem as lacunas do papiro Egerton, que chegou até nós muito danificado: o texto original foi reconstituído, por equipes de especialistas, a partir de conjecturas e probabilidades.

Fragmento de um Apócrifo

O Evangelho da Infância conhecido como Evangelho Segundo Domingos

Jesus era menino, passou um cego na estrada. Jesus foi guiando o cego o dia inteiro, voltou só à noite. Maria já andava doida:

— Onde você andou, menino de Deus?!

— Por aí. Tem pão, mãe?

José nem falou nada: só deu o pão.

Dias depois Jesus subiu no telhado. Maria mandou descer. José nem ligou:

— Se cair, do chão não passa.

Os outros meninos chamavam Jesus de louco: será que tinham razão? Maria pensava tanto que a massa do pão até azedou. José só coçou a barba:

— O avô que eu mais gostava também era meio louco...

Na feira, Jesus sumia. Maria procurava — cadê, cadê? Jesus conversava numa roda de homens, ela nem acreditava. José erguia os ombros:

— Por que não?

Depois, Jesus ficava horas olhando as estrelas. Maria se preocupava:

— Que é que você tanto pensa, meu filho?

José sentava do lado dele, ficava cortando um cavaco. Na hora de dormir, o menino ainda estava lá olhando as estrelas. Maria chamava — Vem dormir, filho. E José dormia resmungando:

— Quando der sono, ele dorme.

E, um dia, no rio, José viu os primeiros pêlos no corpo de Jesus.

Contou a Maria:

— Está virando homem.

Maria suspirou — Graças a Deus, quem sabe agora endireita.

Mas Jesus agora só queria discutir com doutores. Maria amassava o pão com o coração miúdo:

— Ainda vão prender esse menino.

— Já é um moço — José sempre corrigia.

Até que um dia Jesus avisou: ia viajar. Maria ficou piscando de espanto, José se coçou muito antes de falar:

— Cuidado com a saúde e veja bem com quem anda.

Jesus voltou anos depois. Maria ajoelhou quando viu aquele homem entrando em casa.

— Graças a Deus — foi só o que ela falou.

— Oi, mãe — disse Jesus abraçando e, depois, olhou em volta — Tem pão?

José serrava umas tábuas, parou para abraçar Jesus, continuou a serrar.

— Voltou para ser carpinteiro, filho?

Jesus sentou cansado.

— Não sei o que fazer da vida, pai.

— Viaja mais — José falou se coçando — um dia você acha o que fazer.

— É — suspirou — acho que vou andar mais um pouco por aí.

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