CONTARDO CALLIGARIS - O Conto do Amor
Quando o revi, um mês mais tarde, meu pai também estava deitado em sua cama, e de novo dei um beijo em sua testa. Mas ele estava morto.
No fim do longo velório, quando todos foram embora, sentei na cama e fiz sua barba mais uma vez. Para onde quer que ele viajasse, para o céu ou para o nada, achei que gostaria de chegar de barba feita.
Depois do funeral, passei duas semanas em Milão. Com meu irmão, esvaziamos estantes e gavetas, guardando ou jogando fora papéis. Meu irmão ficou com as anotações de história da arte. Eu fiquei com os diários. As fotos a gente dividiu.
Ou melhor, ele levou a maioria delas e eu escolhi algumas, sobretudo retratos do meu pai em épocas diferentes.
Descobrimos uma caixinha de madeira, fechada a chave, no fundo da última gaveta do lado direito da escrivaninha do consultório de meu pai. Procuramos e experimentamos nela todas as chaves que encontramos. Sem sucesso. Chamamos um serralheiro, que conseguiu abrir a caixa sem estragá-la: continha as cartas trocadas entre ele e minha mãe durante o namoro. Havia dois conjuntos de cartas, as escritas por ele e as escritas por ela, cada carta em seu envelope original e cada conjunto reunido por uma fita de cor vermelha. Fiquei com as cartas, a caixinha e a nova chave feita pelo serralheiro.
Passei tardes inteiras olhando fotografias. Não os diapositivos das férias de nossa família, que já estavam desbotados pelo tempo e que acabamos jogando fora, mas os álbuns de fotos em preto-e-branco, algumas de antes do casamento de meus pais, outras, quase todas, dos primeiros anos depois da guerra.
Ele tinha perdido os cabelos na guerra. Em 1940, em seu casamento, ele era um loiro esguio de cabelos encaracolados, com o rosto de um oval perfeito, quase feminino.
Na biblioteca de meu pai, peguei tudo o que achei sobre Sodoma, o catálogo da exposição de Vercelli de 1950, a monografia de R. H. Hobart Cust, de 1906, com suas reproduções monocromáticas, e a outra, de Andrée Hayum, de 1976 (uma raridade, como soube depois). Não encontrei nada que fosse especificamente sobre os afrescos de Monte Oliveto Maggiore.
Levei os livros para Nova York, mas lá apenas os folheei. Só me detive um pouco mais nos trechos que tratavam dos assistentes de Sodoma. Coloquei os volumes todos juntos numa mesma estante do meu consultório, e os esqueci.
Três ou quatro anos mais tarde, meu irmão, que não sabia da última conversa que meu pai havia tido comigo, mas percebera meu interesse por Sodoma, resolveu me presentear e me mandou pelo correio um ensaio que acabara de sair sobre o pintor, assinado por Roberto Bartalini. Percorri rapidamente o livro e o juntei aos demais, na mesma estante. De novo, os esqueci.
CHICO BUARQUE - Leite Derramado
Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher.
E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor.
Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardósiaimportadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim, que virou estacionamento depois que a embaixada da Dinamarca mudou para Brasília. Os dinamarqueses me compraram o casarão a preço de banana, por causa das trapalhadas do meu genro. Mas se amanhã eu vender a fazenda, que tem duzentos alqueires de lavoura e pastos, cortados por um ribeirão de água potável, talvez possa reaver o casarão de Botafogo e restaurar os móveis de mogno, mandar afinar o piano Pleyel da minha mãe. Terei bricolagens para me ocupar anos a fio, e caso você deseje prosseguir na profissão, irá para o trabalho a pé, visto que o bairro é farto em hospitais e consultórios. Aliás, bem em cima do nosso próprio terreno levantaram um centro médico de dezoito andares, e com isso acabo de me lembrar que o casarão não existe mais. E mesmo a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia.
CHICO DOS BONECOS, ESTEVÃO MARQUES e SILVIA AMSTALDEN
Muitas coisas, poucas palavras - A oficina do professor Comênio e a arte de ensinar e aprender
Comenius de Jan Amos Komensky – Comênio, como ficou conhecido em países de língua portuguesa – nasceu em 1592 em Nivnice, Morávia (hoje República Tcheca), e faleceu em Amsterdã, em 1670. Ele foi o pioneiro de ideias hoje consensuais, entre elas aquelas que pregam a universalidade do direito à educação e o respeito e consideração pelas habilidades e vocações da criança, como também por suas emoções. O filósofo Comênio estava séculos à frente de seus contemporâneos, pois suas ideias só foram ouvidas no século 20.
BENÉ FONTELES - GiLuminoso - A Po.Ética do Ser
[...] O livro/cd GiLuminoso - A Po.Ética do Ser, de autoria de Bené Fonteles, é uma realização da Editora UnB, SESC São Paulo e da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, destacando o lado poético do artista. Nele estão reunidos poemas, ensaios e fotografias sobre a vida e a obra de Gilberto Gil, por meio de grandes expoentes da cultura brasileira. Um cd, com uma seleção de poemas e interpretações musicais, dá voz e registro definitivo à obra de um dos principais artífices de nossa história musical.
Danilo Santos de Miranda - Diretor do Departamento Regional do SESC no Estado de São Paulo



No comments:
Post a Comment