Origem e Destino
O morador da Região Metropolitana de São Paulo utiliza mais o próprio carro do que os ônibus, mais os ônibus do que o metrô, mais o metrô do que os trens. Também se desloca cada vez mais em motocicletas, em veículos escolares, em bicicletas. E cada vez menos nos táxis. Mas para o morador do maior conglomerado urbano da América Latina, a julgar pelo número de viagens realizadas num dia, o meio de transporte mais comum continua sendo o mais simples - esse morador ainda anda, e muito, a pé.
Os números da última pesquisa “Origem e Destino” permitem entender essa dinâmica. A partir deles se percebe, por exemplo, que o reinado do carro individual está enfraquecendo. Em 2007, foram 10,4 milhões de viagens de carro diárias pela região metropolitana - um aumento de 8,3% em relação à pesquisa anterior, de 1997, quando o número de viagens por dia foi de 9,6 milhões.
Trata-se, porém, de uma tendência de aumento muito inferior à ascensão verificada no número de viagens de ônibus, o transporte coletivo mais utilizado. Em 2007, foram cerca de 9 milhões de deslocamentos diários de ônibus, ante 7,2 milhões de viagens por dia em 1997 - aumento de 25%, três vezes superior ao verificado nas viagens individuais de carro. Isso tudo, considerando aumento de 16% na frota de automóveis.
Para economistas ouvidos pelo estadao.com.br, a explicação está no aumento da oferta de emprego (de 6,9 milhões de pessoas ocupadas em 1997 para 9 milhões, dez anos depois). “Como temos base larga na pirâmide de renda, quando a população dessa faixa consegue melhorar um pouco o faturamento mensal o transporte coletivo já se torna possível. A dificuldade é muito maior, por exemplo, para a população que está acima conseguir comprar um carro”, explica o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Alexandre Gomide, ex-diretor da Secretaria Nacional de Transporte e Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades. “Além disso, só se desloca quem tem o que fazer, onde trabalhar.”
Ir ao trabalho e voltar é, de fato, a razão maior das viagens - envolve cerca de 17 milhões (44,5%) dos 38,2 milhões de deslocamentos (motorizados ou não) por dia. Educação vem logo atrás, como motivação para 13 milhões de viagens (34% do total). Notam-se, também, algumas surpresas, nos hábitos de deslocamento do morador da região metropolitana: como explicar, por exemplo, que o número de viagens a lazer tenha diminuído nesse espaço de dez anos ou que o número de deslocamentos destinados a compras tenha permanecido no mesmo patamar, com aquecimento da economia e tudo? “Por segurança, ou para não enfrentar congestionamentos, as pessoas podem estar preferindo o lazer doméstico. As casas, hoje, estão realmente mais confortáveis”, afirma Gomide. “Até mesmo para compras pelo serviço eletrônico.”
Os números da pesquisa redescobrem, também, a figura do pedestre. Dos 38,2 milhões de deslocamentos diários, exatamente um terço (12,6 milhões) é realizado, simplesmente, a pé. “Mostra a importância de oferecer boa infraestrutura, com sinalização e espaço adequados, a quem circula pela cidade”, avalia o consultor Flamínio, especialista em engenharia de tráfego. A OD também registra que a hora do almoço é o momento em que os pedestres reinam mais absolutos nas ruas, quando suas viagens correspondem, sozinhas, a 50% do total de deslocamentos.
Motos
Veículo mais notado na metrópole e seus arredores, a motocicleta cumpre seu papel na pesquisa: trata-se do meio de transporte que mais registrou aumento (388%) no espaço de dez anos - de 145.651 viagens em 1997 para 710.638, em 2007. “Reflete o que vemos nas ruas”, afirma Fichmann. “São milhares de pedestres atravessando as faixas, milhares de motos cruzando as vias.”
Só os taxistas perderam passageiros desde 97
Enquanto as viagens de ônibus, metrô e trem aumentaram a taxas de dois dígitos, o táxi - cuja frota, de 33,7 mil carros apenas na capital é a terceira do mundo - amargou diminuição no número de deslocamentos, na comparação entre os dez anos que separam as pesquisas. Em 1997, houve 103.397 deslocamentos diários de táxi na região metropolitana, ante 91.043 em 2007, diminuição de 11,95%. Foi a única queda registrada entre os nove meios de transporte analisados na “Origem e Destino”.
Para pesquisadores, a queda é motivada, principalmente, pelo alto preço da “corrida” na cidade. “Comparando com outras capitais, como Buenos Aires, o preço aqui é absurdo. Como hoje há mais opção, o passageiro vai de metrô ou ônibus”, avalia o consultor de tráfego Flamínio Fichmann. Para o pesquisador Alexandre Gomide, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), a queda é reflexo de melhorias na economia. “Hoje, as pessoas que tinham condição de pagar eventualmente para sair de táxi já têm meios para comprar seu carro.” Para o Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo, a queda aconteceu por “coincidência geográfica”. “A maioria dos pontos (22 mil) fica no centro, cujas linhas de metrô e ônibus aumentaram nos últimos dez anos”, avalia Natalício Bezerra, presidente da entidade.
Também chama a atenção o aumento no número de viagens de bicicleta, na comparação entre os dois períodos - em 2007, o número de deslocamentos diários foi 305.052, aumento de 87% em relação a 1997 (162.461). “Sinal de que a população pensa mais em meios de transporte ambientalmente corretos”, afirma Gomide. “A tendência para 2017 é que esse modo de transporte apareça com mais força na próxima pesquisa”, disse Raul Borges, do Departamento de Geografia da Unesp de Presidente Prudente.
Origem e Destino II
A população da Região Metropolitana de São Paulo tem usado cada vez mais os meios de transporte coletivo para se deslocar. Esse resultado da pesquisa “Origem e Destino” mostra o rompimento de uma evolução constante registrada desde 1992, com pico em 2002 para as viagens em transporte individual - mesma data que marcou a inversão, com crescimento do modo de viagens coletivo. Dos 25,2 milhões de viagens motorizadas diárias constatadas em 2007, 13,9 milhões (55,1%) são realizadas de modo coletivo e outros 11,3 milhões (44,9%) por meio de modo individual.
Entre 1997 e 2007, houve evolução de 25,1% na utilização de transporte coletivo - de 10,4 milhões de viagens diárias para 13,9 milhões de viagens/dia -, ante 12,3% de aumento nas viagens motorizadas individuais - 9,9 milhões de viagens/dia em 1997 ante 11,3 milhões viagens/dia em 2007. Já as viagens a pé passaram de 10,6 milhões/dia para 12,6 milhões/dia, diferença de 15,8%.
“Na região metropolitana, o custo elevado das passagens afasta algumas pessoas do transporte coletivo. A qualidade dos transportes também é agravante, o que pode explicar tantas viagens a pé. Mas, paralelamente, o aumento do uso da forma coletiva está atrelado ao trânsito caótico e enormes congestionamentos. As pessoas procuram se adequar aos problemas e não perder tempo e ter mais gastos”, explicou o professor Márcio Silveira, especialista em geografia dos transportes, da Unesp de Ourinhos.
Quando trabalhava no Pari, zona leste de São Paulo, o consultor em logística Geovani Gomes de Melo, de 38 anos, morador do bairro próximo da Penha, chegava ao serviço dirigindo seu Kadett prata 1996. Ao trocar de emprego, em 2006, viu sua necessidade de deslocamento aumentar - agora trabalha em Interlagos, zona sul, distante 30 km de casa. “Foi então que decidi voltar a usar o transporte público. Além de economizar, não me estresso no trânsito”, afirma Melo, que utiliza, num só dia, trem, metrô e ônibus - por dia, gasta cerca de quatro horas se deslocando.
“O investimento no setor de transporte coletivo passa a ser cada vez mais essencial para a Grande São Paulo. A pesquisa mostra isso e a tendência é que a diferença entre o uso do modo coletivo ante o individual fique mais acentuado”, diz o secretário dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella.
Em sua tese de mestrado, Francisco Villa Ulhôa Botelho,da Universidade de Brasília, também aponta que a renda familiar e a duração das viagens são fatores que levam às viagens a pé na região metropolitana. “Mobilidade urbana é fator de decréscimo de qualidade de vida. Há a necessidade de restringir gastos.”
Estudo do Ministério das Cidades denominado “Como anda São Paulo”, da série “Como andam as regiões metropolitanas”, também mostra que andar a pé é o modo de locomoção que mais cresce na região metropolitana da capital. Uma das razões apontadas é o custo dos transportes, individuais ou coletivos. A pesquisa mostra que as pessoas de todas as faixas de renda optaram pela caminhada como meio de transporte quando o trajeto é curto e com duração entre 15 e 20 minutos. Mesma conclusão obtida pela pesquisa OD, que mostra que 70% das viagens a pé duram cerca de 15 minutos.
Houve um aumento da população economicamente ativa, o que explica o crescimento do uso do transporte coletivo. Mas não chega a ser suficiente para fazer crescer o número de usuários de trens, metrô e ônibus. A OD mostra que o custo do transporte tem grande influência na sua utilização, já que o custeio das viagens por meio coletivo é feito majoritariamente pelo passageiro e pelo seu empregador. Chega a 46% o índice de passagens pagas pelos donos de empresas às quais o usuário trabalha. Já aqueles que arcam com o custo total do bilhete somam 44%, sem nenhum subsídio. Os usuário isentos somam 9%.
O aposentado Fernando Elias anda 20 minutos de sua casa até a estação da CPTM de Prefeito Saladino, em Santo André, toda vez que vai até São Paulo. Desde a década de 80, não há mais ônibus com destino à capital no bairro Santa Terezinha, onde ele mora. A solução é ir de trem ou esticar a caminhada mais 15 minutos e chegar à Avenida Dom Pedro II, onde há coletivos com destino a São Paulo. “Não tem outro jeito para ir até São Paulo”, diz Elias.



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