Sunday, May 03, 2009

Suicídio e canto

No Afeganistão, mulher apaixonada é tabu. É proibido pelos conceitos de honra rigorosos do clã e pelos mulás. Os jovens não têm o direito de se encontrar para amar, não têm o direito de escolher. Amor tem pouco a ver com casamento, ao contrário, pode ser um grave crime, castigado com a morte. Pessoas indisciplinadas são mortas a sangue-frio. Caso apenas um dos dois tenha de ser castigado com a morte, invariavelmente é a mulher.

Mulheres jovens são, antes de mais nada, um objeto de troca e venda. Um casamento é um contrato entre famílias ou dentro de uma família. A vantagem que o casamento pode ter para o clã é o que determina tudo — sentimentos raramente são levados em consideração. Durante séculos, as mulheres afegãs têm suportado a injustiça cometida contra elas. Mas em canções e poemas as próprias mulheres dão seu testemunho. São canções para ninguém ouvir, e até o eco permanece nas montanhas ou no deserto.

Elas protestam "se suicidando ou cantando", escreveu o poeta afegão Sayed Bahoudin Majrouh num livro de poemas das próprias mulheres pashtun*. Ele reuniu os poemas com a ajuda da cunhada. Majrouh foi assassinado por fundamentalistas em Peshawar, em 1988.

Os poemas ou rimas são passados oralmente de umas para as outras próximo ao poço, no caminho para o campo ou ao lado do forno de pão. Falam de amores proibidos, do ser amado como outro homem, nunca o marido, e do ódio ao marido, freqüentemente muito mais velho do que elas. Mas expressam também o orgulho de ser mulher e a coragem demonstrada por elas. Os poemas são chamados de landay, que significa curto.

Consistem de poucas linhas, curtas e ritmadas, "como um grito ou uma facada", escreve Majrouh.

Pessoas cruéis vêem um velhinho
a caminho da minha cama
E ainda me perguntam por que choro e arranco os cabelos.

Meu Deus! De novo me mandastes a noite escura
E de novo tremo da cabeça aos pés
por ter que subir na cama que odeio.

Mas as mulheres nos poemas também são rebeldes, arriscando a vida por amor, numa sociedade onde a paixão é proibida e o castigo é impiedoso.

Dá-me tua mão, meu amor, vamos nos esconder no campo
Para amar ou sucumbir às facadas.

Mergulho nas águas, mas a correnteza não quer me levar.
Meu marido tem sorte, meu corpo sempre volta à beira do rio.

Amanhã de manhã estarei morta por tua causa.
Não diga que não me amou.

A maioria dos "gritos" é de desapontamento, por uma vida não vivida. Uma mulher pede a Deus para na próxima vida ser uma pedra em vez de mulher. Nenhum desses poemas fala de esperança, ao contrário — reina a desesperança de não se ter vivido o suficiente, de não se ter aproveitado a beleza, a juventude, os prazeres do amor.

Eu era bela como uma rosa.
Debaixo de ti fiquei amarela como uma laranja.

Eu não conhecia o sofrimento.
Por isso cresci reta, como um pinheiro.

Os poemas também estão cheios de ternura. Com uma sinceridade brutal, a mulher glorifica seu corpo, o amor carnal e o fruto proibido — como querendo chocar os homens, provocar sua virilidade.

Põe tua boca sobre a minha,
Mas deixa minha língua livre para poder falar de amor.

Pegue-me primeiro nos teus braços, me segure!
Depois te amarre às minhas coxas de veludo.

Minha boca é tua, devora-a, não tenhas medo!
Não é feita de açúcar, que se dissolve e desaparece.

Minha boca, eu te dou com prazer. Por que
me atiças?—Já estou molhada.

Vou te fazer em cinzas.
Se eu, por um só momento, olhar na tua direção.

* Le suicide et le chant. Poésie populaire des femmes pashtounes, de Sayed Bahoudine Majrouh, Gallimard, 1994.

Âsne Seierstad - o Livreiro de Cabul - Tradução de GRETE SKEVIK

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