A Revanche da Inteligência
Manuel da Costa Pinto
Manuel da Costa Pinto
Assunto Encerrado traz ensaios em que o italiano Italo Calvino entra em litígio com o neorrealismo
"Não existe teoria que não seja um fragmento, cuidadosamente preparado, de alguma autobiografia".
Se a frase do poeta francês Paul Valéry soa hiperbólica, certamente se aplica a Assunto Encerrado, de Italo Calvino (1923-1985), com ensaios e textos de conferências escritos a partir de 1955. Hoje, o autor italiano é conhecido sobretudo por livros que associam imaginação fabulesca e jogo matemático - como nas permutações narrativas de Se um Viajante numa Noite de Inverno e As Cidades Invisíveis - ou pelos ensaios de Seis Propostas para o Próximo Milênio - em que cultiva valores estéticos como "leveza", "velocidade", "multiplicidade" etc.
Não deixa de ser surpreendente, portanto, que esse livro, cujo subtítulo é "Discursos sobre Literatura e Sociedade", tenha por preocupação central temas como representação do real e engajamento. Nesse sentido, pode de fato ser considerado o percurso autobiográfico, sob a forma de artigos teóricos, de um escritor que começou a escrever sob influxo do neorrealismo, mas logo derivou para as parábolas de O Visconde Partido ao Meio ou O Cavaleiro Inexistente.
No texto de apresentação de Assunto Encerrado, o escritor afirma que os seus textos da década de 50 partiam do "projeto de construção de uma nova literatura que por sua vez servisse para a construção de uma nova sociedade".
Mas o que ele mesmo qualifica como "ambição juvenil" surge, logo no primeiro ensaio, "O Miolo do Leão", como reflexão madura e em litígio com a redução da narrativa italiana a "um mundo que precede a consciência, bruto, aceito em sua totalidade, sem inventário, ora com a exaltação de um violento enlevo afetivo, ora com a passividade de quem nada mais pode fazer a não ser registrar objetivamente".
O alvo é claro: uma prosa que, sentindo a impotência da literatura frente às exigências do Pós-Guerra, preconiza a "anulação de si mesmo", fazendo do escritor um pedagogo populista, nostálgico de formas pré-modernas de sociabilidade (o mundo dos camponeses e operários).
Para o leitor brasileiro, o discurso de Italo Calvino cabe tanto para o nosso regionalismo quanto para a prosa brutalista que tenta alguns contemporâneos. E, se ele valoriza no próprio neorrealismo uma "literatura de tipo ensaístico e problemático" (como Cristo Parou em Eboli, de Carlo Levi), os demais textos de Assunto Encerrado - sobre a relação entre ficção e ciência ou o magnífico "Os Níveis de Realidade em Literatura" - servem como "revanche da inteligência" e da consciência reflexiva, essa potência que confia na imaginação literária como forma de sobreviver à negatividade da história.



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