Simonal - Ninguém Sabia o Dedo Duro Que Fui
Todos os documentos que integram o processo 3.540, instaurado em 1972 na 23ª Vara Criminal, concluído em 1976 e em "cujas 655 folhas jamais houve divergência", apontam: "dos amigos mais fiéis ao antagonista mais ressentido, todos estiveram de acordo que Simonal - e ele assentia - era informante do Dops".
Parece claro que foi a classe artística quem o acabou punindo, já que o crime pelo qual foi julgado e condenado - três meses por constrangimento ilegal - viria a lhe custar apenas nove dias de cadeia.
Ser a favor da ditadura, ser de direita ou, no limite, até mesmo informante da polícia política era (e é) uma escolha possível a qualquer um. O que não se poderia esperar era que alguém que fazia uso dos benefícios de pertencer à classe artística para ganhar pontos com o governo militar merecesse o perdão daqueles a quem traiu.
Que ele mandou torturar o ex-funcionário já estava provado. Com os documentos do processo 3.450 fica evidente a intimidade de Simonal com o aparato criminoso do regime militar. Por que os artistas da música brasileira, louvados até hoje como heróis da resistência, deveriam ter feito menos do que expulsá-lo do convívio? Não é o mesmo que pedir para que as Forças Armadas poupassem os guerrilheiros do Araguaia?
Simonal não foi condenado ao ostracismo por ser de direita, por racismo, ou por inveja. Ele recebeu a punição típica por um crime típico de guerra. Pena de morte por traição. Nesse caso, morte simbólica, ao contrário das execuções pelas quais seus "chapinhas" Fleury, Borges e Vasconcellos foram responsáveis. Não há intolerância. Mantê-lo por perto seria "dormir com o inimigo". Por que esperar isso de quem, repito, ele traiu? Acrescente-se que Simonal praticamente não ficou preso. Claro que isso aumentou a sede de vingança dos traídos, todos tão humanos e falíveis quanto Simonal.
De toda maneira, se ele precisava da classe artística e da imprensa especializada para se manter, deveria ter cuidado melhor de suas amizades. Silvio Santos, Delfim Neto, os militares, a T.F.P. e as senhoras de Santana nunca tiveram problemas por serem rejeitados pelas esquerdas. Eu, de minha parte, não ia querer dividir o estúdio com ele nunca mais! Vá procurar sua turma! X-9...
Cláudio Manoel, diretor de Ninguém Sabe o Duro Que Dei pergunta: "Por que não passa? Digamos que fosse provado que o cara foi um informante da ditadura. Trinta anos depois da Lei da Anistia, o que interessa isso?". E o torturado, Raphael Viviani, de 68 anos, responde: "Como é que eu vou esquecer uma coisa dessa?" (...) Se você me visse antes e depois daquela noite que eu passei sendo torturado lá, não diria que é a mesma pessoa." Por que não estender a pergunta a Marcelo Rubens Paiva, a Clarice Herzog ou à família de Zuzu Angel?
"Sabendo da origem humilde dele, do fato de não ter tido um pai, você consegue imaginar ser possível a atitude que ele tomou", diz o filho, Max de Castro. "Ainda que nada justifique", completa. Não. Nada justifica. Muito menos explica. Humilde e sem pai, milhões de brasileiros são. Quase ninguém encomenda surras nos desafetos. Muitos menos ainda constroem laços com o monopólio oficial da violência visando benefícios. Pobreza e ausência de ética não andam necessariamente juntos. Juntam-se por opção. Foi essa opção que Wilson Simonal fez. Pagou o preço.
Fontes: Caderno Mais+ e Folha Online



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