Sunday, October 25, 2009

Onde as Ruas Não Têm Nome

Ganhador do "Nobel" da criminologia diz que violência se repete em poucos lugares das cidades e que polícias estão agindo de forma errada

MARCELO NINIO - DE JERUSALÉM

No combate ao crime, menos pode ser mais. Aplicada ao espaço das cidades, essa é a tese do professor David Weisburd, professor na Universidade de Jerusalém, que acaba de receber o Prêmio Estocolmo de 2010, considerado o mais importante do mundo na área de criminologia.

Duas décadas de pesquisas em cidades dos EUA levaram Weisburd à conclusão de que a grande maioria dos crimes ocorre em um número restrito de ruas.

Os dados já começam a influenciar a ação das polícias americanas, que passaram a concentrar suas patrulhas nos locais mais perigosos, deslocando esforços de áreas com menor incidência de crimes. Em entrevista à Folha, Weisburd explicou sua tese.


FOLHA - Por que o sr. decidiu concentrar suas pesquisas na ideia de espaço?

DAVID WEISBURD - Por muitos anos, a pesquisa na área de criminologia teve como foco entender por que as pessoas cometem crimes. Em meu trabalho, comecei a fazer perguntas diferentes: onde o crime ocorre? Por que ele ocorre ali?

São perguntas que me interessam por estar na interseção entre a pesquisa básica e a aplicação prática. Muito do meu trabalho se baseia no que podemos chamar de "lei da concentração" do crime. Estudo após estudo mostra que uma proporção muito grande do crime em uma cidade ocorre em um número relativamente pequeno de locais.

FOLHA - Bairros inteiros?

WEISBURD - Não. A visão tradicional era apontar comunidades "boas" e "más". Mas na minha pesquisa percebi que na maior parte das chamadas "más" comunidades praticamente não havia crime.

Mesmo nelas, na maioria das ruas as pessoas não estavam sendo mortas ou atacadas todos os dias. Em algumas áreas de Jersey City que pesquisei, a suposição geral era a de que toda a cidade era dominada pelo tráfico de drogas.

Eu me dei conta de que havia os pontos de venda, mas que, uma ou duas quadras adiante, a vizinhança era relativamente tranquila.

Em outro estudo que fiz em Seattle, analisei rua por rua as 30 mil quadras da cidade. Descobri que 50% do crime era restrito a 4% das quadras. O crime não estava em toda a parte, mas em locais muito específicos. E essa é uma estatística que se mantém há 16 anos, um bom exemplo do que eu chamo de "lei da concentração".

Um outro estudo em Minneapolis mostrou que 50% dos crimes ocorriam em apenas 3,5% da área da cidade. Ou seja, geralmente uma porcentagem muita pequena dos lugares produz a maior parte dos crimes.

O esquadrinhamento das ruas foi fundamental para chegar às conclusões, pois em muitos casos havia concentração do crime, mas não contínua.

Mesmo nas áreas de maior concentração urbana, onde havia mais "hot spots", a maioria dos casos que estudei mostra uma irregularidade: duas ruas boas eram seguidas de ruas "más".

Um outro estudo sobre criminalidade juvenil em Seattle mostrou que 86 das quadras, entre 30 mil, produziram um terço de todos os crimes.

FOLHA - Por que isso ocorre?

WEISBURD - Esses "hot spots" de delinquência juvenil estavam em poucas ruas, mas espalhados por toda a cidade - sobretudo perto de locais frequentados pelos jovens, como shoppings e escolas. Isso também se aplica aos crimes em geral. Crimes ocorrem onde há oportunidade.

O que meu estudo enfatiza é que há um número relativamente pequeno desses lugares e que o crime nesses lugares costuma manter-se estável.

Se sabemos que o crime é concentrado em um número limitado de lugares, que ele se mantém estável e que há certos motivos para ocorrer ali, a conclusão natural é a de que precisamos levar a polícia até eles, não à cidade inteira.

Para a polícia, o recado é simples: não desperdice suas patrulhas em todo lugar.

FOLHA - Concentrar a ação policial num ponto não provoca a migração do crime?

WEISBURD - Fiz estudos sobre isso, enfocando tráfico e prostituição, e descobri que o crime não se desloca facilmente. As ruas próximas não ficaram piores e o crime não migrou para outras áreas da cidade.

Há alguns motivos para não haver deslocamento. Criminosos atuam em certas regiões por um motivo. Traficantes de drogas, quando são cercados por policiais, não se mudam imediatamente, pois naquela área eles conhecem as pessoas, sabem quem vai denunciá-los ou não à polícia etc. É o lugar deles.

Crime, em grande medida, é como qualquer outro trabalho. As pessoas trabalham onde é mais cômodo.

FOLHA - Como o policiamento concentrado se aplicaria a um ambiente como o Rio, onde os pontos de tráfico estão espalhados pela cidade?

WEISBURD - O espaço tem que ser o foco. Em São Paulo e no Rio, há milhares de ruas, não dá para patrulhar a cidade inteira com a mesma eficiência. O sucesso depende de como a polícia faz o seu trabalho.

A primeira coisa é fazer um mapeamento para saber onde estão os "hot spots", e por que motivo.

Também é importante falar com os moradores, criar uma sensação de cumplicidade. A polícia não pode ser vista como uma força de ocupação, mas como parte da comunidade. A legitimidade da ação policial é um elemento crítico para o seu sucesso.


A Guerra do Rio é Uma Metáfora Cavilosa

ELIO GASPARI

Uma cidade não pode ser transformada num cenário de prorrogação de um filme

O Rio ganhou um novo problema, a blindagem dos helicópteros da polícia. (E por que só os da polícia?) Os três jovens mortos na entrada do morro dos Macacos são uma nota de pé de página. Três dias de desordens nas estações da Supervia já são coisa do passado. De uma hora para outra, o carioca sente-se num cenário de Tropa de Elite.

Primeiro, ele parou de caminhar pelas ruas do bairro depois do jantar. Um país com a taxa de fecundidade de 6,3 filhos por casal não podia ir para a frente. Depois, faz tempo, surgiram as grades nos jardins do recuo dos edifícios. Do Leblon ao Leme há algo como 10 mil metros de calçadas gradeadas, mas não poderia ser diferente: nessa época a população favelada do Rio dobrara de 335 mil pessoas para 722 mil.

Isso acontecia numa cidade em que, até 1983, pareceu irrelevante o fato de os ônibus não passarem pelo túnel Rebouças, inaugurado em 1966. Parecia natural que a choldra da zona norte não tivesse acesso fácil a Copacabana e Ipanema.

Na virada do século foi preciso blindar o carro. Pensando bem, era uma impropriedade estatística. A taxa de fecundidade das brasileiras caíra para 2,9 filhos por casal. Estavam nascendo menos pobres, portanto, não fazia sentido que a população favelada chegasse a 722 mil almas, quase 15% da população da cidade.

Aos perigos e transtornos impostos ao carioca somou-se a cenografia de uma guerra. A crise da segurança pública do Rio não é uma guerra. Pode ser pior, mas não é guerra. Os quatro anos da ocupação alemã em Paris foram menos cruentos que quaisquer quatro anos do Rio, desde 1980. A ideia de uma guerra pressupõe um inimigo perfeitamente identificado e a disposição de se utilizar todas as forças disponíveis para submetê-lo. Guerra pressupõe tentar devolver o Vietnã do Norte à Idade da Pedra.

Não há guerra no Rio, o que há é uma metáfora de conveniência. Ela cria o cenário da emergência, mas não pode dar o passo seguinte, que seria o reconhecimento de que uma parte da cidade está em guerra com outra, como aconteceu na Argélia, ou na África do Sul da fase mais agressiva do "apartheid".

Esse passo não é dado porque, apesar dos surtos demofóbicos, a sociedade brasileira nunca se associou a um projeto desse tipo. Colocando a coisa de outro modo: o pedaço da sociedade que seria capaz de apoiar uma política de violência segregacionista levando-a a consequências extremas, ainda não tem coragem para vocalizar suas propostas e não haverá de tê-la nos próximos anos. Pensar que essa linha de pensamento não existe é colocar a ingenuidade a serviço das boas maneiras.

A metáfora da guerra não define o inimigo mas, cavilosamente, deixa-o subentendido. Ele está na favela ("fábrica de marginais", na definição do governador Sérgio Cabral). Essa guerra sem inimigo produz cenários, cenas de batalha, vítimas e juras de vingança, nada mais. Tudo fica parecido com Tropa de Elite. Uma metáfora pode sustentar um filme, mas não resolve as questões da segurança de uma cidade.

Se o clima de guerra sair da agenda do Rio, não há qualquer garantia de que as coisas melhorem, mas pelo menos será retirada a cortina de fantasia que mascara políticas públicas fracassadas.

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