Tuesday, January 17, 2012

O nascimento de Sean parecia amortecer, embora não de todo extinguir, o ímpeto criativo que não lhe dera paz desde [...] aquele sábado de verão de 1957 quando Paul McCartney entrou na sua vida e começaram os Beatles: o ciclo interminável da letra seguinte, da sequência de acordes seguinte, do single seguinte, do álbum seguinte, da esperança suprema seguinte e do grande desapontamento seguinte.

[...] Afastado das drogas e das encrencas, sumiram também o egoísmo adolescente, a dificuldade de concentração e a ojeriza às coisas práticas que a vida de um astro do rock pode legitimar para sempre. Embora uma babá fosse contratada para Sean, John sempre estava por perto, pronto para fazer qualquer coisa que fosse necessária, convencido de que só ele sabia como fazer aquilo direito. Até a troca de fraldas, aquele grande terror dos primeiros anos de Julian, não foi problema desta vez. A natureza tomava conta, fechando suas narinas, fazendo-o respirar instintivamente pela boca, transformando em ternura e alegria o que ele antecipava como nojo e ressentimento. Como muitos antes dele, percebeu que a cura para um vazio em nossa infância não está em ser cuidado, mas em cuidar de alguém; que tornar segura a vida de uma criança faz a nossa vida parecer mais segura.

Philip Norman - John Lennon: a vida

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