Wednesday, February 01, 2012


As mães e suas babás, uma relação de amor e ódio

Pascale Krémer

Pela primeira vez, uma socióloga desvenda as complexas relações entre os pais e suas empregadas domésticas de origem africana. Um grupo de mulheres negras, em uma praça, sentadas três ou quatro em cada banco, vigiam crianças brancas. Ninguém repara nelas, uma vez que em Paris essa cena é de uma absoluta banalidade. Mas Caroline Ibos empenhou-se em observá-las. Essa professora de sociologia política na Universidade Rennes-2 realizou uma pesquisa inédita sobre as babás africanas que cuidam dos filhos de casais parisienses nos quais ambos trabalham. Durante três anos, frequentando dia após dia a mesma praça, ela conquistou a confiança de uma dúzia de mulheres marfinenses que lhe confidenciaram seus segredos, e depois passou para o outro lado do espelho, entrevistando algumas dezenas de empregadores franceses.

Seu livro, Qui gardera nos enfants? [“Quem cuidará de nossos filhos?” Ed. Flammarion], será lançado no dia 8 de fevereiro. Fascinante, ele revela um estado da sociedade francesa – desigualdade dos sexos na esfera doméstica, a impermeabilidade das classes sociais, a persistência dos preconceitos raciais... E é provavelmente um tanto perturbador para os pais, uma vez que para a pesquisa essas babás que se introduziram na intimidade dos lares acabaram se transformando em etnólogas das famílias francesas.

Tudo começa com um recrutamento que lembra um cerimonial. Em geral ele se dá em uma tarde de sábado, com o apartamento bem arrumado, a criança a ser cuidada e seus pais instalados na sala, em uma encenação da família ideal. A candidata é primeiramente julgada por sua pontualidade e sua capacidade de encontrar a residência. Depois a futura empregadora conduz a entrevista, geralmente com o pai andando de um lado para outro.

O que surpreende Caroline Ibos é a “confiança baseada no nada”. Mulheres formadas que deveriam ser racionais confiam “aquilo que elas têm de mais caro” (e as chaves do apartamento) a uma quase desconhecida, cujas referências, situação legal caso sejam estrangeiras ou o nível de escolaridade elas raramente verificam. O fato de que elas são mães conta mais: é por uma capacidade de amor percebida intuitivamente que elas recrutam. Pelo interesse demonstrado pela criança, por uma alegria, por uma doçura, um corpo de babá...

São estereótipos atribuídos às mães, dos quais essas mulheres ativas tentam justamente se libertar! Outra surpresa para a pesquisadora foi que pessoas instruídas, não racistas, nessa ocasião adotam crenças racistas que circulam oralmente a respeito das babás. “As africanas são maternais, mas pouco afeitas às tarefas domésticas”, “As asiáticas são limpas, mas frias”... É verdade que avaliar uma pessoa a partir de estereótipos “permite implicitamente justificar sua subordinação social”, analisa Caroline Ibos.

Na prática, ela explica, a relação patrão/doméstica se resume a uma relação assimétrica e difícil entre duas mulheres. Muito rapidamente o pai se apaga, reaparecendo somente na hora da demissão, quando é o caso. Acontece que é bem complicado ser patroa dentro de sua própria casa. Ter uma doméstica sem necessariamente dispor dos códigos da grande burguesia. As patroas sentem um certo desconforto: elas se dão conta de seu poder praticamente ilimitado, caso não imponham seu próprio senso de moral. “Elas sabem que exigem demais”, resume Ibos, “mas a babá permite que elas realizem seus sonhos de sucesso familiar e social”.

As babás, sujeitas a uma implacável exploração, têm a impressão de nunca terem um descanso, de recomeçarem eternamente as mesmas tarefas fastidiosas. Com o tempo, vão se somando um monte de pequenas tarefas (“Você pode passar na lavanderia?”, “Pode trazer o pão?”). Elas foram contratadas para cuidar das crianças, mas, aos poucos a ordem das prioridades vai se invertendo. O que conta é que o apartamento esteja bem arrumado à noite. É isso que lhes dá a sensação de serem empregadas domésticas responsáveis por crianças, um tanto desprezadas. Por exemplo, não há discussão quanto à educação das crianças, elas se contentarão em aplicar as ordens.

Isso também explica uma frequente degradação das relações entre patrão e empregado. Enquanto a criança ainda é um bebê, a babá tem tempo para limpar e arrumar a casa. Mas quando ela começa a andar, a babá brinca com ela. A mãe entende, é claro, mas se instala uma insatisfação. E quando a relação se deteriora, as babás diminuem a faxina. Elas confessaram a Caroline Ibos que essa é a vingança política delas. Além disso, para quê se sacrificar tanto por um trabalho que “não é reconhecido como um trabalho de verdade”? “Para a patroa”, elas dizem, “é como se fosse um prazer cuidar de seus filhos...”

Há uma certa verdade em suas declarações. As empregadoras ouvidas por Caroline Ibos muitas vezes acreditam que essa tarefa, embora seja mal paga, precária, ingrata, é uma vocação natural para uma mãe. “Isso tranquiliza a consciência delas, que costumam dizer: ‘Uma boa babá é aquela que não faz esse trabalho só por dinheiro.’ É um mal-entendido básico! Ela está lá para ganhar a vida, mesmo que ela mostre solicitude e afeição pelas crianças.” No parque, as babás lhe contaram que elas gostavam das crianças das quais cuidavam, mas também que as esqueciam muito rapidamente uma vez que iam embora.

A forma como elas as enxergam, também estereotipada, nem sempre é carinhosa. Elas as consideram mimadas demais, malcriadas. Com pais que seriam sujeitos a caprichos, sempre temendo vê-las perdendo seu tempo, não lhes transmitindo valores morais, encorajando-as a serem egoístas e dominadoras, e muito precocemente apegadas ao dinheiro. “A patroa tem tanto medo de seus filhos que, quando ela faz algo que não agrada, ela diz que sou eu que estou mandando! Ela diz: ‘Crianças, a Aurore quer que vocês comam cenoura!’”, relata a pesquisa. Mas Caroline Ibos também ressalta que, afinal, as babás acabam se inspirando muito nessa educação para seus próprios filhos, como se elas interiorizassem um modelo de sucesso à moda francesa.

Para as babás, o casal e a família francesa não funcionam muito bem. Elas não invejam essas mulheres que as empregam. “Minha patroa tem uma bela casa, mas ela é infeliz.” A vida delas é difícil, elas trabalham o tempo todo, são estressadas, não sabem relaxar. “A figura da babá evidencia as relações que permanecem desiguais entre sexos em torno das questões domésticas e familiares. As mulheres fogem da humilhação humilhando uma terceira pessoa”, afirma a acadêmica. Em vez de enfrentar conflitos exaustivos e humilhantes com seus parceiros, as patroas descontam nelas. As camisas não estão passadas? “A babá não faz mais nada...”

Mulheres negras a serviço de famílias brancas, efetuando tarefas desvalorizadas - a situação dessas empregadas também diz muito sobre o abismo entre as “raças”, segundo Ibos. Uma vê sua patroa como todo-poderosa e rica, a outra permanece sob a influência de preconceitos. O que os pais não imaginam é o rancor, profundo e doloroso, diante da colonização, entre essas imigrantes que chegam de uma antiga colônia francesa. Elas dizem: “Eu faço a antilhana”, com esse sentimento perpetuado pela dominação colonial.

Mas talvez o que o livro de Caroline Ibos conta de melhor seja o confronto das distintas classes sociais dentro de casa. É uma situação excepcional na sociedade francesa, onde essas duas pontas da escala social às vezes se cruzam, mas não se aproximam. “Para as empregadoras, estar diante da fragilidade da outra é um sofrimento. Os sinais de pobreza constrangem – o casaco feio na entrada, as sandálias usadas sem meia no inverno... Elas são a lembrança daquilo que elas querem esquecer, de tudo aquilo pelo qual elas não têm como não se sentirem um pouco responsáveis.” É contra isso que se constrói a casa da família, refúgio de paz em um mundo violento.

Com a babá, a bolha protetora estoura. Chegam a política, a miséria do mundo. No final, essa proximidade de classes não as aproxima, constata Ibos, pessimista. “A patroa pode dar pequenos presentes de compaixão, mas reserva sua piedade para causas ou vítimas bem mais distantes dela. Entre as duas mulheres, não se constrói nenhuma relação verdadeira”. Paradoxalmente, entende-se que esse conflito de classes é menos doloroso para as babás. Elas não o vivem inteiramente como uma humilhação, porque elas não se limitam à sua condição de domésticas. Elas também são outra coisa. Na África, elas têm um lugar de sucesso. Elas poderão construir uma casa para si.

Tradutor: Lana Lim

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