Sunday, June 09, 2013

Modos de ser-no-mundo

O ser-o-aí é também singular, existência irremissível, respectivamente adstrita a cada pessoa. A isso Heidegger denomina Jemeinigkeit (ser-a-cada-vez-meu, respectividade, ser singularmente adstrito a mim). Cada um de nós é a própria e respectiva existência singularíssima, na vida como na morte, na autenticidade como na inautenticidade. Os possíveis mais abrangentes do ser-o-aí são: ser si-próprio, ou perder-se, extraviar-se, desgarrar-se, dissipar-se no elemento genérico e impessoal (das Man, a gente):

Aquilo que se diz em Ser e tempo sobre "a gente" não quer fornecer, de maneira alguma, apenas uma contribuição incidental para a sociologia. Tampouco "a gente" significa apenas a figura oposta, compreendida de modo ético-existencialista, ao ser-si-mesmo da pessoa. O que foi dito contém, ao contrário, a indicação, pensada a partir da questão da verdade do Ser, para o pertencer originário da palavra ao Ser. Essa relação permanece oculta sob o domínio da subjetividade que se apresenta como a opinião pública.*

Existir no modo da autenticidade é um tornar-se, porque o ser-o-aí, desde sempre, advém na linha temporal de um passado histórico que o precede, como membro de uma dada família e sociedade, em um ponto do espaço prévio a toda deliberação ou escolha. Isso condiciona, em grande medida seu presente, a partir do qual se abrem as possibilidades futuras, às quais ele pode permanecer alheio, alienado nas malhas do impessoal.


Cura e preocupação

Com isso, a analítica existencial do ser-o-aí atinge um de seus resultados mais importantes: a sua descrição fenomenológica como Sorge (cura ou preocupação). Ex-sistência é ser-no-mundo temporalmente como cura ou preocupação. Esse cuidado, por sua vez, desdobra-se em Besorgen (o cuidado com alguma coisa, com providenciar alguma coisa) e Fürsorgen (a cura como tomar cuidado de algo, ou de alguém; e como preocupação, ocupar-se de algo ou alguém, tratar dele e com ele).

Ser-no-mundo é existir como cura: seja ao modo do providenciar utilitário, no trato com objetos e utensílios, seja ao modo da pré-ocupação como encargo, que se pré-ocupa e toma sob seus préstimos. Como ec-sistência, o ser-o-aí é no mundo como cura, preocupação e cuidado com o mundo, que é também uma dimensão essencial dele.

A cada uma das modalidades de abertura do ser-o-aí como ser-no-mundo corresponde um modo de existir como projeto lançado na esfera pública da inautenticidade: à afinação/estar disposto (Befindlichkeit) correspondem possibilidades ou modalidades diversas de estados afetivos gerais, humores (Stimmung) do ser-o-aí em sua existência cotidiana: alegre, triste, calmo, irritado, simpático, indiferente etc. À compreensão (Verstehen) corresponde a curiosidade (Neugier), e à fala (Rede) corresponde o falatório (Gerede).

Afinação/estar disposto, compreensão e fala são constituintes ontológicos do ser-o-aí. Disposição, curiosidade e falatório são o correspondente ôntico dessas estruturas na cotidianidade intramundana do ser-o-aí em sua condição de decaimento (Verfallenheit). As modalidade diversas de disposição afetiva são formas de obliteração da afinação/disposição originária da angústia, como preocupar-se com o próprio poder-ser.

curiosidade é um desgarramento que consiste em alienar-se na bisbilhotice do que interessa a todo mundo, no que distrai, ao cativar a atenção de todo mundo. É estar à cata de novidade - o que, por definição, significa estar condenado à infinita reposição, sob pena de deixar de ser o que é. O falatório domina a existência mundana do ser-o-aí no cotidiano, com o tagarelar e o opinar sobre tudo sem nada dizer, o discurso que não compromete, nada afirma nem nega quanto ao essencial. A retórica da opinião pública e o politicamente correto são exemplos de falatório impessoal, da fala inautêntica. Trata-se, então, de uma curiosidade dispersiva, alienada na distração do falatório.

Oswaldo Giacoia Jr. - Heidegger Urgente: Introdução a um novo pensar

Heidegger, M. Sein und Zeit, "Sobre o 'humanismo'", pg. 349

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