Sunday, December 03, 2006

Dura Na Queda

Perdida
Na avenida
Canta seu enredo
Fora do carnaval
Perdeu a saia
Perdeu o emprego
Desfila natural

Esquinas
Mil buzinas
Imagina orquestras
Samba no chafariz
Viva a folia
A dor não presta
Felicidade, sim

O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

Bambeia
Cambaleia
É dura na queda
Custa a cair em si
Largou família
Bebeu veneno
E vai morrer de rir

Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar

O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

BUARQUE, Chico. Carioca; Biscoito Fino 2006

(...) Imagina
Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar

Quem já viu a lua cris
Quando a lua começa a murchar
Lua cris
É preciso gritar e correr, socorrer o luar
Meu amor
Abre a porta pra noite passar
E olha o sol
Da manhã
Olha a chuva
Olha a chuva, olha o sol, olha o dia a lançar
Serpentinas
Serpentinas pelo céu
Sete fitas
Coloridas
Sete vias
Sete vidas
Avenidas
Pra qualquer lugar
Imagina
Imagina

JOBIM, Tom; BUARQUE, Chico. Imagina. Carioca; Biscoito Fino - 2006

(...) Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça
Da sua cortiça
Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim?
Pense que eu cheguei de leve
Machuquei você de leve
E me retirei com pés de lã
Sei que o seu caminho amanhã
Será tudo de bom
Mas não me leve

VERGUEIRO, Carlinhos; BUARQUE, Chico. Leve. Carioca; Biscoito Fino - 2006

Renata Maria

Ela era ela era ela no centro da tela daquela manhã
Tudo o que não era ela se desvaneceu
Cristo, montanhas, florestas, acácias, ipês

Pranchas coladas na crista das ondas, as ondas suspensas no ar
Pássaros cristalizados no branco do céu
E eu, atolado na areia, perdia meus pés

Músicas imaginei
Mas o assombro gelou
Na minha boca as palavras que eu ia falar
Nem uma brisa soprou
Enquanto Renata Maria saía do mar

Dia após dia na praia com olhos vazados de já não a ver
Quieto como um pescador a juntar seus anzóis
Ou como algum salva-vidas no banco dos réus

Noite na praia deserta, deserta, deserta daquela mulher
Praia repleta de rastros em mil direções
Penso que todos os passos perdidos são meus

Eu já sabia, meu Deus
Tão fulgurante visão
Não se produz duas vezes no mesmo lugar
Mas que danado fui eu
Enquanto Renata Maria saía do mar

LINS, Ivan; BUARQUE, Chico. Carioca. Biscoito Fino - 2006

(...) Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz

BUARQUE, Chico; Ela Faz Cinema. Carioca - Biscoito Fino, 2006.

Rato
Rato que rói a roupa
Que rói a rapa do rei do morro
Que rói a roda do carro
Que rói o carro, que rói o ferro
Que rói o barro, rói o morro
Rato que rói o rato
Ra-rato, ra-rato
Roto que ri do roto
Que rói o farrapo
Do esfarra-rapado
Que mete a ripa, arranca rabo
Rato ruim
Rato que rói a rosa
Rói o riso da moça
E ruma rua arriba
Em sua rota de rato

BUARQUE, Chico; Ode aos Ratos. Carioca - Biscoito Fino 2006

(...) Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria (...)

Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardia
Y por soñar lo impossible, ay, ay
Soñe que tu me querias.

BUARQUE, Chico; Outros Sonhos - Carioca - Biscoito Fino 2006.

(...) Lá não tem moças douradas
Expostas, andam nus
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus
E está de costas

Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Pavuna
Fala, Inhaúma
Cordovil, Pilares
Espalha a tua voz
Nos arredores
Carrega a tua cruz
E os teus tambores

BUARQUE, Chico; Subúrbio. Carioca - Biscoito Fino, 2006.

MIGNA TERRA

Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.

A abobora celestia tambê,
Chi tê lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Chi non tê na Ingraterra.

Os rios lá sô maise grandi
Dus rio di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.

Na migna terra tê parmeras,
Dove ganta a galligna dangolla;
Na migna terra tê o Vapr'elli,
Chi só anda di gartolla.

BANANÉRE, Juó; candidato à Gademia Baolista de Letras. La Divina Increnca; Livro di Prupaganda da Literatura Nazionale. 2ª edição - São Paulo. Editor Folco Masucci, 1966.

"A artograffia muderna é una maniera de scrivê, chi a gentil scrive uguali come dice. Per isempio: - si a genti dice Capitó, scrive kapitó; si si dice Alengaro, si scrive Lenkaro; si si dice dice, non si dice dice, ma si dice ditche."

BANANERE, Juó.

Thursday, November 30, 2006

Sobre a natureza do Espaço Público

(...) A rigor (o espaço público não consiste em) sua localização física: é a organização da comunidade que resulta do agir e falar em conjunto, e o seu verdadeiro espaço situa-se entre as pessoas que vivem juntas com tal propósito, não importa onde estejam.

Estamos (sempre) circundados pela teia de atos e palavras de outros homens, e em permanente contato com ela. (...) Agir (a ação), portanto, não apenas mantém a mais íntima relação com o lado político (público) do mundo, comum a todos nós, mas é aquilo que o constitui.


Sobre tomar iniciativas

Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa, iniciar (...) começar, ser o primeiro (...) imprimir movimento a alguma coisa (...).

Estar isolado é estar privado da capacidade de agir.

A história está repleta de exemplos da impotência do homem forte e superior que é incapaz de angariar o auxílio e a cooperação de seus semelhantes (...).

Há uma interdependência essencial em qualquer ação – a dependência do iniciador e líder em relação aos outros no tocante a auxílio, e a dependência de seus seguidores em relação a ele no tocante a uma oportunidade de agir.

(...) O iniciador estará, por princípio, isolado por sua própria iniciativa, até encontrar a adesão dos outros. Contudo, a força do iniciador e líder reside apenas em sua iniciativa e nos riscos que assume, não na realização em si[i]. No caso do líder bem sucedido, ele pode reivindicar para si aquilo que, na verdade, é a realização de muitos. Através dessa reivindicação, o iniciador monopoliza, por assim dizer, a força daqueles sem cujo auxílio ele jamais teria realizado coisa alguma. E assim surge a ilusão de força extraordinária e, com ela, a falácia do homem forte que é poderoso por estar só.


Sobre a natureza do poder

O que primeiro solapa e depois destrói as comunidades políticas é a perda do poder (de realizar aquilo que deseja) e a impotência final; e o poder não pode ser armazenado e mantido em reserva para casos de emergência, como os instrumentos de violência: só existe em sua efetivação. Se não é efetivado, perde-se; e na história há inúmeras passagens para indicar que nem a maior das riquezas materiais pode sanar essa perda. O poder só é efetivado enquanto a palavra e o ato não se divorciam, quando as palavras não são empregadas para velar intenções mas para revelar realidades, e os atos não são usados para violar e destruir, mas para criar relações e novas realidades.

É o poder que mantém a existência da esfera pública, o espaço potencial entre homens que agem e falam.

(...) Enquanto a força é a qualidade natural de um indivíduo isolado, o poder passa a existir entre os homens quando eles agem juntos, e desaparece no instante em que eles se dispersam.

(...) O único fator indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Todo aquele que, por algum motivo se isola e não participa dessa convivência, renuncia ao poder e se torna impotente, por maior que seja sua força e por mais válidas que sejam suas razões.

In: ARENDT, Hannah; A Condição Humana; Trad. Roberto Raposo; Ed. Forense Universitária, Rio de Janeiro; 10ª edição; 2004.

[i] (...) em qualquer série de eventos (...) podemos, quando muito isolar o agente que imprimiu movimento ao processo; e embora esse agente seja muitas vezes, o sujeito, o “herói” da história, nunca podemos apontá-lo inequivocamente como o autor do resultado final.

RAGHURAN RAJAN , diretor de pesquisas do Fundo Monetário Internacional, e o professor Luigi Zingales, da Universidade de Chicago, soltaram um estudo que dá o que pensar, sobretudo aos sábios da ekipekonomica que arruína o país há mais de duas décadas. Chama-se "A Persistência do Subdesenvolvimento: Instituições, Capital Humano ou Grupos de Interesse?" Eles sustentam que a longevidade do atraso deve-se sobretudo às pressões de camadas da sociedade -ricas e pobres- que se beneficiam com o status quo. Para quebrar essas coligações, é preciso conseguir o apoio do andar de baixo para as reformas capitalistas. A primeira condição para isso é evitar que as novidades ferrem a patuléia: "Em alguns países, é possível que amplas reformas só sejam viáveis quando se der séria atenção à melhoria das condições de vida dos pobres". Os dois economistas, autores do livro "Salvando o Capitalismo dos Capitalistas", acham que atribuir o subdesenvolvimento à qualidade das instituições, ou à escolaridade de uma nação, é explicação insatisfatória. Pacotes institucionais baixados de pára-quedas, maldições internacionais e reformas sem consenso acabam patinando. Para quem gosta da superexplicação da escolaridade, os doutores sustentam que esse fator não faz mágicas. Nos últimos 30 anos, a República dos Camarões dobrou sua taxa de alfabetização de adultos de 30% para 71%. A Líbia fez melhor, indo de 36% para 80%. Já a Índia, coitadinha, mal conseguiu passar de 33% para 57%. O trabalho de Rajan e Zingales apresenta um modelo matemático indecifrável para leigos e analisa o equilíbrio de três grupos. Um é o dos oligopolistas que ganham dinheiro com o status quo. Outro é o das pessoas com escolaridade. O terceiro, a patuléia pouco educada. Cada um reage de foma diferente à qualificação da mão-de-obra e às reformas que estimulam a competição na economia. Os oligopolistas querem mais educação, mas só até certo ponto. (Assunto magnificamente exposto pela professora Judith Tendler, do MIT, no seu trabalho "O Medo da Educação", baseado em entrevistas com empresários brasileiros.) Os educados querem mais competição, desde que a qualificação da patuléia não lhes tome oportunidades. A turma de baixo quer educação, mas só apóia mudanças no mercado se tiver algo a ganhar e pouco a perder. Rajan e Zingales mostram que o subdesenvolvimento não deriva da imposição da vontade de quem está em cima, mas da má configuração dos interesses de todos os interessados. É ela quem determina a persistência do atraso. Deriva de alianças malucas entre os três grupos. Por exemplo: como o andar de cima não quer competição, desestimula a educação. O de baixo, que quer educação, alia-se ao de cima contra as reformas que trazem competição, pois ameaçam seus empregos. O do meio, com medo da competição adere ao bloqueio da educação. O nó está em saber quando e como se forma uma coligação dos educados e dos não educados contra o status quo. Se as mudanças que estimulam a competição vêm como um rolo compressor, o resultado é que o andar de baixo, escaldado, fica contra todas as reformas. A certa altura, tem-se a impressão de que a dupla esteve no Brasil durante a campanha eleitoral. Eles dizem que os educados apóiam políticas compensatórias, desde que não transfiram poder político. As bolsas de FFHH transformaram-se em poder eleitoral nas mãos de Nosso Guia. Além disso, ele amaldiçoou o paraíso do mercado tirando proveito da insatisfação do andar de baixo, desprezada pelos sábios tucanos.

Serviço: o trabalho, infelizmente em inglês e matematês, está no seguinte endereço: http://www.nber.org/papers/w12093

GASPARI, Hélio. Folha de São Paulo, 19/11/2006 - indicado por Paulo Guerra.

Wednesday, November 01, 2006

ANGELS IN AMERICA III

Roy Cohn (Al Pacino) e Belize (Jeffrey Wright)


Roy - [sob a impressão de que Belize é o Anjo da Morte] Let me ask you something, sir.

Belize - "Sir"?

Roy - What's it like? After?

Belize - After...?

Roy - This misery ends?

Belize - Hell or heaven? ... like San Francisco.

Roy - A city. Good. I was worried... it'd be a garden. I hate that shit.

Belize - Mmmm. Big city. Overgrown with weeds, but flowering weeds. On every corner a wrecking crew and something new and crooked going up catty corner to that. Windows missing in every edifice like broken teeth, fierce gusts of gritty wind, and a gray high sky full of ravens.

Roy - Isaiah.

Belize - Prophet birds, Roy. Piles of trash, but lapidary like rubies and obsidian, and diamond-colored cowspit streamers in the wind. And voting booths.

Roy - And a dragon atop a golden horde.

Belize - And everyone in Balencia gowns with red corsages, and big dance palaces full of music and lights and racial impurity and gender confusion. And all the deities are creole, mulatto, brown as the mouths of rivers. Race, taste and history finally overcome. And you ain't there.

Roy - And Heaven?

Belize - That was Heaven, Roy.

Roy - The fuck it was.

ANGELS IN AMERICA II

Diálogo entre Harper, personagem vivida por Mary - Louise Parker e Mother Pitt, sua sogra, interpretada por Meryl Streep.

Mother Pitt - At first, it can be very hard to accept how disappointing life is, Harper. But that's what is, and you have to accept it. And with faith and time and hard work, you do get to a point where the disappointment doesn't hurt so much and it gets actually easier to live with.
Quite easy.
Wich is, in its own way, a disappointment.

ANGELS IN AMERICA - I

Diálogo entre Harper, personagem vivida por Mary - Louise Parker e Mr. Lies (of the International Order of Travel Agents), produto de suas constantes alucinações. Os dois estão no Pólo Sul aonde chegaram passando através da geladeira da cozinha do apartamento de Harper.

Mr. Lies - This is a retreat. A vacuum. Its virtue is that it lacks everything.
Deep freeze for feelings. You can be numb and safe here.
That's what you came for. Respect the delicate ecology of your delusions.

Harper - You mean like no Eskimo in Antarctica?

Mr. Lies - "Correcto". Ice and snow, no Eskimo. Even hallucinations have laws.

Harper - Then who's that? (aponta para um esquimó que acena, ao longe)

Mr. Lies - An Eskimo.

Harper - An antarctic Eskimo. Fisher of the polar deep.
I'm gonna like this place. It's my own National Geographic special.

Tuesday, October 24, 2006

ESTRAMBOTE MELANCÓLICO

Tenho saudade de mim mesmo, sau-
dade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.

Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,

e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia

e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d’alva
penetra longamente seu espinho

(e cinco espinhos são) na minha mão.

ANDRADE, Carlos Drummond de

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant’è amara che poco è piú morte;
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.

Dante Alighieri – La Divina Commedia Inferno – Canto I

Sunday, October 22, 2006

Como seria ficar doente quando se era criança no passado? As evidências com relação a esses pontos são fragmentadas. Muitas referências a doenças sérias nas autobiografias costumam ser superficiais. Santo Agostinho (354 - 430), por exemplo, mencionou apenas de passagem que "sendo, ainda criança, [sobreveio-lhe] certo dia uma febre alta motivada, numa opressão do estômago, [e bateu] às portas da morte". Isso parece um pouco estranho, dado que todos devem ter passado por várias doenças na infância e, em muitos casos, ficado com várias seqüelas em função delas, tanto física quanto psicologicamente. Gerald Strauss pode estar certo ao argumentar que "as dores e os riscos enfrentados por todas as crianças na Europa do final da Idade Média e do período moderno fizeram da infância uma experiência tão traumática que havia um grande incentivo para que se apagassem as memórias a seu respeito".
Nos casos em que os autobiógrafos entraram em mais detalhes, fica-se cara a cara com as realidades sombrias da existência cotidiana antes da medicina moderna. Hermann von Weinsberg vinha de uma família relativamente rica em Colônia, mas, mesmo assim, sua infância no início do século XVI foi arruinada pela doença. Segundo Strauss, antes dos 9 anos:

Ele teve vários tipos de febre, incluindo colibacilose, da qual muitos conhecidos seus morreram em 24 horas, além de misteriosas paralisias temporárias, furúnculos, chagas e sarnas no couro cabeludo, "carne pútrida na boca", que um barbeiro cortou com uma tesoura de ponta, vermes que lhe davam vertigem, diarréia e vômitos violentos, dor de dente constante seguida da extração à mão da maior parte de seus dentes, hérnia e a peste.

Antoine Sylvère (1888- 1963) considerou completamente normal que toda a sua turma no Auvergne formasse um coro de tossidas durante as longas noites de inverno. Ele se sentia cada vez mais feio, na medida em que seu nariz escorrendo constantemente achatava suas narinas. Fritz Pauk (1888 - ?), de 10 anos, sofreu ainda mais depois que um fazendeiro, que o empregou perto de Lippe, permitiu que sua perna inchada se inflamasse por muito tempo:

Todos os dias, o fazendeiro vinha e me xingava por ser tão preguiçoso e não levantar, pois o gado tinha de ser alimentado. Não havia o que eu pudesse fazer, eu chorava de dor, mas ele não mandava o médico ou qualquer ajuda para mim.

Ao final, Pauk teve de amputar um pé. Autores socialistas faziam muito uso dos efeitos debilitantes da pobreza sobre a saúde dos trabalhadores. Adelheid Popp lembrava-se de lutar contra a desnutrição na década de 1880, enquanto trabalhava em uma fábrica de metal, com medo de perder os sentidos a qualquer momento.
As crianças tinham, evidentemente, vários mecanismos para enfrentar as enfermidades e as lesões. Robert Roberts (1905 - 1974) reconheceu que, quando sofria de um surto ocasional de neuralgia, "costumava se deitar no sofá, gemendo alto e exagerando a coisa ao máximo". Seu objetivo era fazer com que a mãe embalasse sua cabeça em seu peito, de modo que ele pudesse se perder no esquecimento "daquela felicidade rechonchuda e perfumada". Antoine Sylvère também desfrutava da pausa na vida cotidiana que vinha com a enfermidade, quando se recolhia à cama e bebia chás de ervas, mas sua mãe não lhe dava bola por muito tempo quando ele chorava por atenção. Mesmo um tempo no hospital podia ser um interlúdio agradável em uma existência árdua de criança pobre. Adelheid Popp admitiu que o tempo que passou em um hospital para doentes mentais foi o melhor de sua vida. Todos a tratavam gentilmente, a comida era boa e ela tinha uma cama própria. Em grande parte do tempo, as crianças certamente se cuidavam da melhor maneira que podiam. Pierre-Jakez Hélias, para tomarmos um exemplo da Bretanha, sabia que, se furasse o pé com um prego, deveria deixar que a ferida sangrasse, urinando sobre ela a seguir, utilizando a pegada de uma vaca como receptáculo improvisado, antes de fechá-la com a secreção de uma lesma.

HEYWOOD, Colin. Uma História da Infância. Tradução de Roberto Cataldo Costa.

Afastou-se, deu uns quantos passos ainda firmes, depois avançou ao longo da parede do corredor, quase a desmaiar, de repente os joelhos dobraram-se, e caiu redonda. Os olhos nublaram-se-lhe, Vou cegar, pensou, mas logo compreendeu que ainda não ia ser desta vez, eram só lágrimas o que lhe cobria a visão, lágrimas como nunca as tinha chorado em toda a sua vida, Matei, disse em voz baixa, quis matar e matei. Virou a cabeça na direcção da porta da camarata, se os cegos viessem aí não seria capaz de defender-se. O corredor estava deserto. As mulheres tinham desaparecido, os cegos, ainda assustados pelos disparos e muito mais pelos cadáveres dos seus, não se atreviam a sair. Pouco a pouco foram regressando as forças. As lágrimas continuavam a correr, mas lentas, serenas, como diante de um irremediável. Levantou-se a custo. Tinha sangue nas mãos e na roupa, e subitamente o corpo exausto avisou-a de que estava velha. Velha e assassina, pensou, mas sabia que se fosse necessário tornaria a matar, E quando é que é necessário matar, perguntou-se a si mesma enquanto ia andando na direcção do átrio, e a si mesma respondeu, Quando já está morto o que ainda é vivo. Abanou a cabeça, pensou, E isto que quer dizer, palavras, palavras, nada mais.

SARAMAGO, José. Ensaio Sobre a Cegueira.

8

TENDÊNCIAS CRIMINOSAS EM CRIANÇAS NORMAIS

(1927)

Nota Explicativa da Comissão Editorial Inglesa

Trata-se de um desenvolvimento das duas páginas seminais de Freud sobre a criminalidade em "Criminosos em conseqüência de um sentimento de culpa", E.S.B. 14, onde ele apresenta a tese de que a culpa não surge do crime, mas sim o crime da culpa. Melanie Klein liga essa sensação de culpa anterior à descoberta recente do superego primitivo. Sua tese, tão oposta ao senso comum quanto a de Freud, é que o criminoso não é destituído de consciência; ao contrário, ele possui uma consciência cruel demais: um superego primitivo que não foi modificado e funciona de forma diferente que o normal, impelindo-o para o crime sob a pressão do medo e da culpa.

Esse artigo discute o medo e a culpa, mas sem distinguir o seu funcionamento dentro do superego. Em A Psicanálise de Crianças, de 1932, Melanie Klein diferencia o superego primitivo do superego desenvolvido. Em seu conceito, o superego primitivo é percebido na psique como ansiedade ou medo e é o superego em desenvolvimento que desperta o sentimento de culpa, ponto de vista que apresenta com mais clareza em "O desenvolvimento inicial da consciência na criança" (1933). O único artigo em que voltou a tratar da criminalidade, "Sobre a criminalidade", um breve ensaio escrito às pressas em 1934, formula as conclusões do presente artigo a partir dessa diferenciação posterior. Também estabelece ligação entre a criminalidade e a psicose.

A própria Melanie Klein considera o ano em que escreveu esse artigo como o ano em que percebeu a importância da agressividade. Seu outro ensaio de 1917, "Simpósio sobre a análise de crianças", via nos impulsos agressivos da criança a explicação da crueldade de seu superego arcaico. O presente artigo ainda contém outra tese importante sobre o crime. Ele liga os atos criminosos às tendências criminosas das crianças normais, mostrando que os crimes são uma realização detalhada das fantasias sádicas arcaicas que fazem parte do desenvolvimento normal. De fato, Melanie Klein chama atenção para as diversas fantasias sádico-orais e sádico-anais da criança normal, que soma aos dois crimes inconscientes do incesto e do parricídio cometidos durante o complexo de Édipo genital, que Freud menciona em relação ao sentimento interior de culpa. Ela também afirma que, independentemente de experiências traumáticas, são as fantasias sádicas que criam concepções distorcidas e assustadoras do relacionamento sexual. No próximo artigo, "Estágios iniciais do conflito edipiano", algumas destas fantasias são descritas em maiores detalhes.

Por fim, ao longo de todo esse artigo que lida com o conflito entre o superego e o id, o leitor perceberá o interesse de Melanie Klein em outro conflito, o conflito entre amor e ódio, que mais tarde se tornaria a idéia básica que guia seu trabalho. Quanto a isso, é interessante observar sua convicção de que, apesar de todas as aparências do contrário, o amor existe dentro de todos, incluindo os criminosos.

KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945

7

SIMPÓSIO SOBRE ANÁLISE DE CRIANÇAS

(1927)

Nota Explicativa da Comissão Editorial Inglesa

Em artigos anteriores, Melanie Klein estava preocupada apenas em relatar seu trabalho. Nesse simpósio com Anna Freud o seu tom muda e ela passa a defender de forma direta seu ponto de vista. Há apenas um outro texto, a Introdução a A Psicanálise de crianças, em que Melanie Klein se refere às diferenças entre ela própria e Anna Freud.

O problema entre as duas é a natureza da análise de crianças. Trata-se de um equivalente da análise de adultos? Melanie Klein argumenta, como já fizera um ano antes, em "Princípios psicológicos da análise de crianças pequenas", que a analogia é perfeita: a criança forma uma neurose de transferência e apresenta, através de sua brincadeira, o equivalente das associações livres do adulto para o analista, cuja única função é analisar ao máximo tudo o que seu pequeno paciente lhe traz. Nessa época, Anna Freud tinha uma opinião contrária a respeito de todos esses pontos. A discordância entre as duas vinha das concepções divergentes que tinham da mente da criança e da natureza da ligação entre ela e os pais.

Igualmente importante é a discussão acerca do superego. Num artigo anterior, Melanie Klein apresenta uma concepção do superego em que esse surge numa idade bastante tenra com uma forma severa e cruel, desenvolvendo-se lentamente até se transformar numa consciência mais normal. Aqui ela oferece uma explicação para o fato de o superego primitivo ser tão cruel. Seu argumento é que a natureza rigorosa, punitiva e irreal do superego se origina dos impulsos sádicos e canibalescos da própria criança, opinião que Freud, em uma de suas poucas referências publicadas a Melanie Klein, endossa em uma nota de pé de página de O mal-estar na civilização, E.S.B. 21, p.133. Melanie Klein parte desse ponto para chegar a uma conclusão de ordem terapêutica. A tarefa da análise de crianças não pode ser fortalecer um superego frágil, como acredita Anna Freud; ao contrário, ela deve reduzir a força excessiva do superego primitivo. Ao longo de todo o artigo, Melanie Klein enfatiza a importância fundamental de se analisar a ansiedade e a culpa. Um relato de seus escritos a respeito do superego está na Nota Explicativa de "O desenvolvimento inicial da consciência na criança" (1933).

Nessa época, Melanie Klein já tinha uma experiência de oito anos analisando crianças e ao longo desse simpósio apresenta suas descobertas sobre a técnica num exame que continua e amplia o relato do artigo anterior. Ela chama atenção para a necessidade de se analisar não só a transferência positiva, mas também a transferência negativa, visando uma maior eficácia da análise e protegendo os pais de atitudes negativas não-analisadas. Discute os modos de comunicação da criança, a quantidade de material que ela apresenta e a relação do analista com os pais dos jovens pacientes. Melanie Klein também registra suas opiniões a respeito dos métodos a que se opõe. Avalia em particular os efeitos negativos da análise incompleta do material e do uso de técnicas introdutórias não-analíticas, assim como de procedimentos educacionais ou diretivos. A descrição mais completa de sua técnica do brincar pode ser encontrada em A Psicanálise de Crianças. "A técnica psicanalítica através do brincar" ("The Psycho-Analytic Play Technique") (1955) apresenta uma história dessa técnica e as anotações clínicas diárias de Narrativa da análise de uma criança (Narrative of a Child Analysis) (1961) mostram Melanie Klein trabalhando.

Este artigo também contém novas descobertas sobre o complexo de Édipo. Numa nota de pé de página de um artigo anterior ("Uma contribuição à psicogênese dos tiques"), Melanie Klein afirma que a mãe, ao desmamar e treinar o bebê para os hábitos de higiene, faz com que a criança se volte para o pai. Agora, ela afirma explicitamente que o complexo de Édipo e, portanto, a formação do superego, começam no desmame. Também coloca o auge do complexo de Édipo em outra época, de modo que ele não coincide mais com o fim da infância inicial e a aproximação da latência, como na teoria de Freud. Para ela, aos três anos de idade a criança já atingiu a parte mais importante de seu desenvolvimento edipiano. Para um exame do trabalho de Melanie Klein a respeito do complexo de Édipo, o leitor deve consultar a Nota Explicativa de "O complexo de Édipo à luz das ansiedades arcaicas" (1945).

KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945

6

PRINCÍPIOS PSICOLÓGICOS DA ANÁLISE DE CRIANÇAS PEQUENAS

(1926)

Nota Explicativa da Comissão Editorial Inglesa

Este artigo contém a primeira descrição de uma das descobertas iniciais mais importantes de Melanie Klein: o superego existe na criança bem mais cedo do que Freud acreditava. Esse superego primitivo - de acordo com Melanie Klein, uma descoberta inesperada - é composto de várias identificações, é mais cruel do que sua forma posterior e é um fardo para o ego frágil da criança. Essas descobertas colocam algumas dificuldades para a visão que Freud tinha do superego como resultado do complexo de Édipo; nesse estágio, Melanie Klein ainda tenta se enquadrar nesse ponto de vista. Ela desloca o começo do complexo de Édipo para o início do segundo ano de vida da criança, sugerindo que "logo que surge o complexo de Édipo, estas [as crianças pequenas] tentam resolvê-lo, desenvolvendo assim o superego". Mais tarde, ela se afasta de Freud e desliga o início do superego do complexo de Édipo; na verdade, Melanie Klein voltou várias vezes ao assunto do superego e o leitor encontrará um exame de seus principais escritos na nota explicativa de "O desenvolvimento inicial da consciência na criança" (1933).

Melanie Klein já empregava a técnica psicanalítica do brincar há seis ou sete anos. Nesse artigo, ela apresenta seu princípio básico: a situação analítica e a abordagem ao tratamento são os mesmos presentes na análise dos adultos, mas ajustados ao modo de comunicação da criança através da brincadeira. Melanie Klein discute esse princípio de forma mais completa e polêmica no próximo artigo, "Simpósio sobre a análise de crianças".

KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945

Friday, October 20, 2006

Tuesday, October 03, 2006

5
UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGÊNESE DOS TIQUES
(1925)

Nota explicativa da Comissão Editorial Inglesa

Esse estudo do caso de um menino de treze anos que sofre de um tique, associado a outras dificuldades, é muito diferente do tortuoso artigo que o precede. Com nova precisão, Melanie Klein traça e resolve o tique na análise em termos de identificações e fantasias masturbatórias. É a primeira vez que estuda a identificação com um objeto – neste caso, os pais na relação sexual – como um fenômeno de importância central. De agora em diante, sempre considerará as identificações no mundo interior como algo da maior importância. De fato, o próximo artigo apresenta um trabalho a respeito de uma das identificações mais essenciais: o superego. Apesar de nunca ter escrito especificamente sobre fantasias masturbatórias, Melanie Klein obviamente as considerava fundamentais: ela declara isso numa nota de pé de página no próximo artigo (p. 135), e o mesmo se pode perceber ao longo de todo A psicanálise de crianças.

Nesse estágio, Melanie Klein ainda parte da concepção de Freud de uma fase narcisista primária. No que diz respeito à questão específica do tique, porém, ela discorda da opinião de Ferenczi de que se trata de um símbolo narcisista primário inanalisável, afirmando, juntamente com Abraham, que para o tique ser analisado é preciso compreender as relações de objeto em que ele está baseado. Essa primeira descoberta das relações de objeto por trás de um fenômeno aparentemente narcisista aponta para a direção tomada pelo seu trabalho posterior sobre a psicose e as relações de objeto primárias. Seus motivos para depois rejeitar a idéia de uma fase narcisista primária serão encontrados em “As origens da transferência” (“The Origins of Transference”) (1952).

Um exemplo da abordagem empírica de Melanie Klein à técnica da análise de crianças é o relato de sua interferência quando, ao contrário de seu costume, proibiu dois relacionamentos na vida do paciente. Dois anos depois, ela apresentaria fortes argumentos contra esse tipo de procedimento diretivo em “Simpósio sobre a análise de crianças”.

KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945

Friday, September 29, 2006


Pieter Bruegel, the Elder

Sunday, September 24, 2006


A ANÁLISE DE CRIANÇAS PEQUENAS
(1923)
Nota Explicativa da Comissão Editorial Inglesa


Este artigo, cujo título – por nenhum motivo discernível – fora traduzido como (“Infant Analysis”) “Análise do Bebê”, tem uma natureza bastante complexa. Isso talvez se deva em parte ao fato de ser baseado em três artigos não-publicados, “O desenvolvimento e a inibição das habilidades” (“The Development and Inhibition of Abilities”), “A ansiedade infantil e sua importância para o desenvolvimento da personalidade” (“Infantile Anxiety and its Significance for the Development of the personality”) e “Sobre a inibição e o desenvolvimento da habilidade de se orientar” (“On the Inhibition and the Development of the Ability to Orient Oneself”). Além disso, Melanie Klein lida com vários conceitos básicos – ansiedade, inibição, sintomas, formação de símbolos e sublimação. Ela própria acreditava que o artigo fazia uma contribuição para a teoria da sublimação.

No entanto, já nesse artigo Melanie Klein afirma aquilo que se tornaria um de seus princípios fundamentais: é a solução da ansiedade que leva ao progresso tanto na análise quanto no desenvolvimento mental. Numa tentativa de explicar a ansiedade presente no pavor nocturnus da criança pequena, ela é levada a estabelecer o início do complexo de Édipo entre as idades de dois e três anos – a primeira de uma série de datas que vão recuando cada vez mais. Contudo, três anos mais tarde, em “Princípios psicológicos da análise de crianças pequenas”, ela dá uma explicação bem diferente para o pavor nocturnus, o que marca o início de suas investigações a respeito da ligação entre a ansiedade e a agressividade.

Suas opiniões acerca do simbolismo, que vão culminar em “A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego” (1930), também se encontram num rápido desenvolvimento nesse ponto. No mesmo ano, em “O papel da escola no desenvolvimento libidinal da criança”, Melanie Klein afirmara que todas as atividades possuem significação simbólica. Agora, afirma que essa significação simbólica é o motivo pelo qual certas atividades dão prazer ou são inibidas. Além disso, propõe que antes da formação de símbolos há um estágio de identificação em que, como Ferenczi descreveu, o bebê identifica objetos com seus próprios órgãos e atividades. Esse tipo de identificação mais tarde passou a fazer parte do conceito de identificação projetiva em “Notas sobre alguns mecanismos esquizóides” (“Notes on Some Schizoid Mechanisms”) (1946).

KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos 1921 - 1945

Saturday, September 23, 2006

A opinião médica foi aos poucos se tornando hostil à prática de enfaixar as crianças durante os séculos XVII e XVIII. Os críticos afirmavam que a prática restringia a liberdade dos membros jovens, arriscava impedir a respiração da criança e a deixava enrolada em suas próprias urina e fezes por longos períodos. Considerava também que pendurar uma criança enfaixada em um gancho por longos períodos era o máximo de negligência.

Proporcionar alimentação suficiente às crianças era o problema geral para os pais entre os "estratos inferiores" até o século XIX. Mantê-las aquecidas era mais um desafio. Durante mais ou menos o primeiro mês de suas vidas, na Europa e nos Estados Unidos, as crianças eram amarradas firmemente com faixas de tecido sobre suas roupas, sendo que as técnicas utilizadas variavam segundo a região. Na Itália, o costume era amarrá-las de forma justa, como uma múmia egípcia, ao passo que, na França, Alemanha e Inglaterra, as mães simplesmente passavam a faixa duas ou três vezes em torno do corpo. Em toda parte, os bebês eram amarrados com os braços presos próximos à lateral do corpo e as pernas estendidas juntas, com suporte adicional para manter a cabeça firme. Em uma etapa posterior, braços e cabeça eram deixados livres até que, após alguns meses, estivessem prontos para um casaquinho usado por meninos e meninas. A opinião médica foi aos poucos se tornando hostil à prática de enfaixar as crianças durante os séculos XVII e XVIII. Os críticos afirmavam que a prática restringia a liberdade dos membros jovens, arriscava impedir a respiração da criança e a deixava enrolada em suas próprias urina e fezes por longos períodos. Considerava também que pendurar uma criança enfaixada em um gancho por longos períodos era o máximo de negligência. Rosseau, por exemplo, foi severo: em Emílio (1762), ele afirmou que: "os lugares em que se enfaixam as crianças estão cheios de corcundas, de mancos, de cambaios, de raquíticos, de pessoas deformadas de todo o tipo". Mesmo assim os observadores tendiam a reconhecer que, além de manter as crianças aquecidas, essas faixas tornavam carregá-las mais fácil, e ajudavam a protegê-las de mordidas de animais domésticos, especialmente os porcos. Os camponeses acreditavam que essas tiras, junto com berços estreitos, ajudavam a criança a desenvolver ossos fortes e uma postura ereta. Eles também consideravam que isso ajudava a distinguir a criança de um animal, impedindo-a de andar de quatro patas. Enfaixar as crianças era uma tarefa complexa e demorada, especialmente se realizada três, quatro ou mesmo sete vezes por dia, depois de amamentá-la, mas também, talvez, satisfatória. A parteira Jane Sharp aconselhava, em 1671, que se deveria tratar as crianças "de forma muito suave, lavar o corpo com vinho morno e, quando estivesse seca, enrolá-la com panos macios e deitá-la no berço". O costume desapareceu gradualmente no século XVIII, sob a crítica da opinião educada, embora tenha se arrastado até o século XX em regiões remotas.

Pierre-Jakez Hélias registrou que, na Bretanha, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, passava várias horas sozinho todos os dias, envolto em faixas apertadas em seu berço com grades, enquanto seus pais e seu avô estavam fora trabalhando.

Os pais não estavam particularmente preocupados com a limpeza durante grande parte do passado, assim como os médicos, até o século XVIII. Autores medievais recomendavam banhos freqüentes, mas é de se duvidar que seu conselho fosse seguido muito além de um círculo restrito de moradores abastados das cidades. A sujeira, na verdade, cumpria papel protetor simbólico na crença popular. As mães acreditavam que era melhor secar as fraldas do que lavá-las, em função dos poderes curativos da urina. Pensavam também que uma camada de sujeira sobre a cabeça preservava a moleira. No Haut-Vivarais, para tomar apenas um exemplo entre muitos, as pessoas acreditavam que lavar a cabeça de uma criança a tornaria simplória; e que cortar as unhas e o cabelo antes de um ano e um dia de idade faria com que ela se tornasse, respectivamente, muda e ladra. Elas também não tinham pressa alguma de começara a ensinar o uso do banheiro. Mais uma vez, não importa o quanto tais crenças e práticas parecessem bizarras a partir de uma perspectiva atual, elas demonstram um esforço permanente para aprimorar a saúde e a felicidade da criança, antes de indicar negligência dos pais.

HEYWOOD, Colin. Uma História da Infância.

Friday, September 22, 2006

ROSIE THE RIVETER (Post cover, 1943) This is possibly Rockwell's most famous cover, and deservedly so. Women, whose traditional place had been at home, abandoned pots, pans, and vacuum cleaners to take up the jobs left vacant by men fighting in Europe, Africa, and the Far East. Rosie's pose, and her massive bulk, is borrowed from Michelangelo's Isaiah in the Sistine chapel, and her nobility is indeed as splendid and inspiring as any Old Testament character.


Thursday, September 21, 2006


Cândido
Portinari

XV

As quatro canções que seguem

Separam-se de tudo o que penso,
Mentem a tudo o que eu sinto.
São do contrário do que eu sou...

Escrevi-as estando doente
E por isso elas são naturais
E concordam com aquilo que sinto,
Concordam com aquilo que não concordam...
Estando doente devo pensar o contrário
Do que penso quando estou são
(Senão não estaria doente),
Devo sentir o contrário do que sinto
Quando sou eu na saúde,
Devo mentir à minha natureza
De criatura que sente de certa maneira...
Devo ser todo doente - ideias e tudo.
Quando estou doente, não estou doente para outra cousa.

Por isso essas canções que me renegam
Não são capazes de me renegar
E são a paisagem da minha alma de noite,
A mesma ao contrário...

CAEIRO, Alberto. O Guardador de Rebanhos.


Will Eisner

Auto-retrato

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada!

BARROS, Manoel de. Ensaios Fotográficos.

Wednesday, September 20, 2006


Norman
Rockwell

Corruption charges! Corruption? Corruption is government intrusion into market efficiencies in the form of regulations. That's Milton Friedman. He got a goddamn Nobel Prize. We have laws against it precisely so we can get away with it. Corruption is our protection. Corruption keeps us safe and warm. Corruption is why you and I are prancing around in here instead of fighting over scraps of meat out in the streets. Corruption is why we win.

Danny Dalton - personagem interpretado por Tim Blake Nelson.
Syriana (EUA, 2005) / Direção: Stephen Gaghan


O PT, o Brasil e o mundo

A crise da administração petista pode ser lida de vários modos por observadores diversos.
Há aqueles que jamais confiaram de fato na democracia, num governo de leis (poucas e claras), de regras que se apliquem identicamente a todos. De acordo com estes, a democracia é inerentemente uma farsa (burguesa) e sua única utilidade reside em levar ao poder os autênticos representantes das "massas oprimidas", pois uma gestão que não opere em nome destas, por mais votos que tenha obtido, é sempre ilegítima.
Ora, para estes, o fato de que nossos governantes tenham se revelado humanos, demasiado humanos, só pode mesmo ser visto como uma tragédia.
O grupo em questão se dividirá agora em pelo menos duas alas interpretativas. Uma dirá que suas idéias eram boas, bem-intencionadas e que o equívoco foi entregar sua implementação a gente imperfeita. Outra, continuando a crer no que pensava antes, há de assegurar-nos que o contexto, ou seja, nossa democracia, a estrutura sócio-econômica do país etc., condenava inevitavelmente seus planos infalíveis, seus projetos magníficos ao fracasso e que, portanto, chegou a hora de mudar o próprio contexto. É duvidoso que surja uma facção, por menor que seja, disposta a levantar a hipótese de que suas idéias é que eram o problema.
Afinal, isso implicaria questionar seu postulado central, a saber, o de que a "redenção" do Brasil e do mundo passa pelo Estado, por mais e mais Estado, porque o Estado, malgrado cair às vezes em mãos erradas, é fundamentalmente bom, aliás, o sumo bem. Claro que o Estado não é maravilhoso num vácuo: suas virtudes se patenteiam também, ou sobretudo, comparativamente, no confronto com o mal supremo: o egoísmo individual ou o individualismo egoísta, entidades diabólicas que se manifestam sem peias na iniciativa privada, nas economias de mercado e assim por diante. O indivíduo egoísta teria essa triste propensão a se ocupar primeiro de seus interesses e, não sendo altruísta nem solidário, o que regularia sua interação com os demais seria apenas a reciprocidade.
A maioria dos que pensam inocentemente assim estava, não jogando, mas, sim, nas arquibancadas, torcendo. Os jogadores profissionais costumam ver as coisas de maneira um pouco diferente. Se admiram o Estado, é porque se julgam aptos a tomá-lo com o intuito de, numa versão otimista, corrigirem as deficiências da sociedade ou, numa perspectiva algo mais realista, de saquearem, com desculpas redistributivas de "justiça social" (uma expressão traiçoeira e que mereceria ser cruelmente dissecada), através de seu controle, quanto os indivíduos produziram. Se nem todos os políticos pertencem a esta última categoria, todos são capazes de agir assim e é justo imaginar que são exatamente os piores aqueles que demonstram maior aptidão para conquistar o poder.
Depois de advertir incontáveis vezes o pirralho de que a chama queima ou a tomada dá choques, não resta aos pais outro recurso que o de deixá-lo brincar com o fogo para experimentar na carne o sentido concreto do verbo "se queimar". Similarmente, os "torcedores", que poderiam ter aprendido suas lições mediante o estudo de outras gerações desencantadas (por exemplo, daquelas que assistiram aos cursos de Moscou e Leningrado nos anos 30, que testemunharam, em 1956, seja o famoso 20º Congresso, seja o esmagamento do levante húngaro, ou a invasão, em 1968, da Tchecoslováquia liberalizante de Dubcek), têm agora a oportunidade áurea de curtirem sua fossa singular, sua merecida, embora desnecessária, ressaca.
Maltratá-los por isso ou zombar deles seria de mau gosto. Ainda mais porque seu mal-estar os coloca, enfim, na corrente normal da história contemporânea, no âmbito de uma torrente à qual nosso país parecia ter sido poupado. Seu desencanto tem chances de se tornar útil e produtivo caso, superando o narcisismo da auto-piedade, esses sofredores descubram o óbvio pululante: que tudo o que sucede nesta terra abençoada é, se tanto, uma ilustração de linhas de forças maiores, que agem no planeta inteiro.
Nossos idealistas foram colhidos num debate antigo, mas nem por isso menos atual, que contrapõe utopistas e oportunistas que consideram o Estado fundamentalmente redentor e virtuoso aos céticos que o definem como um mal necessário a ser minimizado.
A corrupção é, sem dúvida alguma, um problema endêmico em toda parte e em qualquer época: ela não tem sexo, cor, idade ou ideologia. Mas colocá-la no centro do palco é ou um equívoco que leva a confundir política e moralidade, ou uma estratégia míope fadada a sair, como aconteceu, pela culatra. Trocando em miúdos, a corrupção estatal é somente o retorno pela porta dos fundos das leis férreas do mercado às quais se fechou a entrada principal. Se bem que não se acabe nunca com a corrupção, há um meio seguro de limitá-la e esse equivale a limitar o âmbito da "ocasião faz o ladrão". A ocasião se chama o "Estado" e quem queira sinceramente reduzir a corrupção tem conseqüentemente de reduzi-lo.
Graças aos guardiões capengas das virtudes irrelevantes, a nação está hoje preparada para se integrar com maturidade à mais importante das discussões internacionais, a grande querela mundial em torno dos modelos sócio-econômicos que cada povo há de adotar. A pergunta que fica no ar é a seguinte: se o mais virtuoso dos partidos governando um país bem mais viável do que a média não consegue, nem na sua primeira gestão federal, manter os dedos fora do bolso dos contribuintes, o que esperar, então, de projetos superlativamente ambiciosos de governança como a União Européia, a ONU ou o Califado Universal?

ASCHER, Nelson. Folha de São Paulo. 29/08/2005

Outra (mais uma!) conversa de botequim

Escrito em 2004 e postado originalmente em irajamenezes.blig.ig.com.br

1.

Escolher um partido político como o seu preferido é muito parecido com torcer por um time.
Nas fases ruins você até admite os erros, as derrotas; mas não vira a casaca.
A maior parte das pessoas que eu conheço sente-se representada por um partido.
Alguns mais organizadamente, outros menos, mas em todos dá pra perceber uma lógica, uma identificação com as bandeiras e figuras do partido.
É a isto que chamamos representatividade. Sentir-se representado por um conjunto de idéias, atitudes que o partido sintetiza. Sistematiza. Reconhecer-se nas manifestações do partido.
Como os times de futebol.
Desnecessário dizer que esta identificação se dá em níveis ao mesmo tempo racionais e emotivos. Que nós não temos consciência completa desta identificação, do caráter desta identificação.
O PT era o único partido que ainda permitia aos seus adeptos gozar o prazer de se assumir desavergonhada e publicamente; sem medo de ser feliz. Ele se pretendia puro, inviolável.
Só porque não tinha passado pelo poder.
Os PSDBistas estão se esbaldando de cobrar o purismo, o moralismo que o discurso caga-regras do PT trazia.
Fica evidente que eles mesmos não podiam exercitar aquele tipo de discurso, justamente por já haverem tantas vezes passado pelo achatamento que a administração pública impõe às ideologias.
A prática do poder deixa marcas indeléveis. Fornece provas incontestáveis. Des-moraliza.
O PT agora já não vai ter mais credibilidade para exercer a mesma retórica. Os petistas que insistiram nela foram expurgados.
As táticas de difamação eleitoreira dos oposicionistas de hoje servem para deitar luz precisamente sobre o jogo difamatório a que o PT se dedicou todos estes anos e nós petistas, nos dando por ingênuos, quisemos não ver.
Talvez agora nós todos estejamos condicionados a não mais discutir a veracidade dos discursos de campanha, quer seja da esquerda ou da direita, para nos concentrarmos na tarefa bem mais árdua de refletir sobre as implicações do poder.

2.
É tipicamente brasileiro acreditar que o presidente detém grandes poderes.
O presidente tem que ser a cara do poder. Mas o poder é exercido por uma trama enorme, uma teia, uma rede que não tem começo, nem meio, nem fim; nem forma.
Deveria ser assim mesmo, só que extensível a todos e cada um dos habitantes da nação.
E aí diríamos: é a trama nacional.
Na verdade a trama acaba por restringir-se a alguns poucos que jogam um eterno jogo de lances mirabolantes e ininterruptos. Uma autêntica democracia-para-poucos, mas que exige constantes negociações, estratégias, disputas, contendas e consenso. Como em qualquer democracia.

Não ler o Raízes do Brasil faz muita falta.
É lá que está dito, há mais de 60 anos, que o brasileiro é cordial, quer dizer, resolve tudo tomando o coração por referência. Para o bem e para o mal. Ou, "aos amigos tudo, aos inimigos a lei". No Brasil a lei é para os inimigos!

Mas é a impessoalidade da política que garante a igualdade de direitos. Não pode haver política caso a caso.
A política não pode ser resolvida como problema pessoal.
E não é.
A manutenção do funcionamento caótico e corrupto da burocracia estatal é coerente demais para que não haja nisto algo de racional. A bagunça burocrática funciona. Para determinados fins ela atrapalha, mas para outros funciona sim, e muito! É para viabilizar estes fins que ela existe e não aqueles.
Só está habilitado para a disputa eleitoral quem conhece as regras do jogo.
O grupo que chegou em 2003 ao Planalto certamente sabia que o exercício da coisa pública achata, comprime, põe tudo no mesmo plano. Não chega lá quem se contrapõe a esta realidade.
Há uma estrutura montada, ramificada por todos os estratos da sociedade e recebendo manutenção constante para que permaneça.
Esperar mudanças operadas a partir do governo é o mesmo que orar pela chegada de um iluminado que haverá de nos redimir.
As lideranças petistas que ganharam as eleições já não se propõem a posar de profetas. Ou posam cientes de que ninguém dá crédito.
Como o PSDB há anos aprendeu a ser.
Quem se manifesta chateado com o fato do PT não cumprir as mudanças que prometeu assim como quem anda se divertindo em acusar que a fala da campanha não bate com a administração, no fundo, está querendo continuar na base da cordialidade.
Já há modelos mais avançados de luta pelas transformações sociais. São modelos que perseguem a idéia de fortalecer a sociedade civil, descentralizar as decisões, aumentar a capacidade de articulação de pequenos grupos, ampliar o grau de humanização das relações, impedir a transformação de realidades específicas em dados estatísticos para catálogo.

3.
Está em processo no mundo todo uma mudança que ainda não vamos conseguir aquilatar.
A Revolução Industrial de dois séculos e meio atrás inventou a produção em larga escala.
A longevidade humana aumentou, a mortalidade infantil diminuiu e o mundo, cada vez mais populoso, entrou em processo de massificação.
Os meios industriais eram todos de grande custo e com isto a fabricação de bens artesanais tendeu ao desaparecimento.
Adotamos um paradigma de objetos consumidos por grandes massas e produzidos por poucas pessoas.
Com o avanço das tecnologias alguns destes mecanismos de produção vêm se democratizando. Não é preciso mais uma fábrica para se copiar discos, por exemplo. Tampouco é preciso gastar fortunas para divulgar um produto pela Internet.
Isto gera, por exemplo, a obsolescência do conceito de "indústria de entretenimento". Fazer um filme caro passa a ser só uma das inúmeras possibilidades que um cineasta pode escolher.
O modelo de "montagem" de computadores, dominante no mercado brasileiro de informática, não poderia tornar-se factível para fornos de microondas ou geladeiras?
A mudança, pois, a que me refiro é a que consiste em poder voltar-se em direção a modos de produção artesanais para a obtenção de objetos a serem replicados indefinidamente como discos, livros, filmes, sem depender de investimentos vultosos e de grandes corporações. Embora permaneçam inúmeros produtos que só poderão ser fabricados mediante mecanismos de alto investimento, tudo leva a crer que está em curso uma disseminação generalizada do conceito de indíviduo como detentor prioritário de suas decisões. De compra, venda, vida, morte e crenças.
O terrorismo é uma faceta aberrante deste mesmo conceito. Explodir-se é uma manifestação individualista. Requer tão somente uma bomba e um homem preso a ela. Fica difícil transformar em estatística o homem-bomba. Quantos explodem por mês? São ações, por natureza, pontuais, o oposto exato da indiscriminação do pesadelo atômico, das bombas atiradas de avião ou das armas de destruição em massa.
Isto é coerente com um modo descentralizado de organização social.
O desejo de igualdade de direitos que percorre o mundo todo consolida um avanço sem precedentes na história dos ideais democráticos. Repito: ideais; mentalidade, desejo, aspiração democrática.
As propostas de manutenção de poder das elites, estas não são mais defensáveis.
Um mundo superpovoado não permite ser gerenciado a partir de um centro.
Um mundo superpovoado se impõe como teia.
É este fator estrutural que derruba a identificação com a autoridade. Não se reconhece autoridade. Ninguém está autorizado a nada.
Resultado da democratização do mundo, a "desautorização" gera também um processo de rompimento com a idéia de tradição. Campo aberto para a descrença e para o uso das instituições, agora, desautorizadas, em proveito próprio, já que ninguém se sente identificado com elas e, por conseguinte, não há quem tome conta.
Vivemos um eterno presente e, por isso, sem olhos para o futuro, como descreveu o professor Yves de La Taille. E, especificamente no Brasil, ao mesmo tempo, o "eterno retorno" à cordialidade.
Está em andamento um processo de humanização das massas. De "descoisificação" das pessoas. Um processo histórico de reconhecimento das identidades. Que acontece independente das políticas adotadas.
E há, ao mesmo tempo, o impulso gregário que os veículos de comunicação tentam alimentar, mas que as tendências de segmentação desmentem o tempo todo.
E há também, ao contrário, um tribalismo crescente. Grupos se fechando para manter seus métodos e costumes inalterados.
Joseph Campbell disse que uma mitologia para dar conta do nosso tempo, para conseguir simbolizá-lo, teria que surgir como uma mitologia planetária. A metáfora de integração de forças contrárias, típica de toda mitologia, teria o planeta como tema.
Os pequenos grupos tendem a se excluir mutuamente. É característico do grupo de gueto enxergar o outro antes como estrangeiro, estranho e, portanto, passível de ataque.
Meditar a convivência dos opostos, agora em escala planetária, é que poderia gerar novos mitos, afirma Campbell, novas compreensões.
As religiões, de certa maneira, já trazem em seus fundamentos esta vontade. O princípio de um Deus que ultrapassa barreiras e unifica humano e natureza num patamar de identificação, num cosmos.
Paradoxalmente são guerras declaradas religiosas as que estão atualmente em curso à roda toda do planeta. Guerras sectárias, guerras pelo predomínio de concepções que se pretendem excludentes.
Como fazer convergir a nova descentralização que percorre o planeta com a consciência de contexto histórico e com a possibilidade de negociação que permita acordos duradouros para o futuro?

Sunday, September 10, 2006

As condições de um pássaro solitário são cinco:
A primeira, que ele voe para o ponto mais alto.
A segunda, que ele não sofra por companhia, nem mesmo de sua espécie.
A terceira, que ele aponte seu bico para o céu.
A quarta, que ele não tenha uma cor definitiva.
A quinta, que ele cante suavemente.

San Juan de La Cruz.

En esta manera de contemplación tiene el espíritu las propiedades del pájaro solitario, las cuales son cinco: la primera, que ordinariamente se pone en lo más alto; y así el espíritu, en este paso, se pone en altísima contemplación. La segunda, que siempre tiene vuelto el pico hacia donde viene el aire; y así el espíritu vuelve aquí el pico de afecto hacia donde viene el espíritu de amor, que es Dios. La tercera es que ordinariamente está solo y no consiente otra ave alguna junto a sí, sino que, en posándose alguna junto, luego se va; y así el espíritu en esta contemplación está en soledad de todas las cosas, desnudo de todas ellas, ni consiente en sí otra cosa que soledad en Dios. La cuarta propiedad es que canta muy suavemente; y lo mismo hace a Dios el espíritu a este tiempo, porque las alabanzas que hace a Dios son de suavísimo amor, sabrosísimas para sí y preciosísimas para Dios. La quinta es que no es de ningún determinado color, y así es el espíritu perfecto, que no sólo en este exceso no tiene algún color de afecto sensual y amor propio, más ni aun particular consideración en lo superior ni inferior, ni podrá decir de ello modo ni manera, porque es abismo de noticia de Dios la que posee. (Cántico Espiritual 14-15, 24)

Juan de Yepes, ou San Juan de la Cruz.
Las Propiedades del Pájaro Solitario.

Saturday, September 09, 2006

Shelley Duval [sobre o trabalho com Kubrick em O Iluminado] Did you see Groundhog Day?


Stanley Kubrick A Life in Pictures

Friday, September 08, 2006

3
O PAPEL DA ESCOLA NO DESENVOLVIMENTO LIBIDINAL DA CRIANÇA
(1923)
Nota explicativa da Comissão Editorial Inglesa


"O desenvolvimento de uma criança” (1921), esse artigo e “A análise de crianças pequenas” (1923) formam uma só unidade. No primeiro, a criança está em casa, o segundo vai examiná-la na escola e o terceiro relaciona a infância à vida adulta. Todos, mas principalmente o artigo em questão, destacam a continuidade psíquica da vida humana, sempre uma idéia dominante na obra de Melanie Klein.
A maneira como aborda aqui a questão da inibição intelectual, tópico que já tinha discutido na Parte I de “O desenvolvimento de uma criança” , é de especial interesse. O conceito fundamental aqui é o de libido, e as noções de progresso e de inibição através da ansiedade de castração ocupam seu lugar em torno dele; a agressividade por si só não aparece e a significação simbólica tem sempre um caráter sexual. Ao mesmo tempo, o material de caso mostra que Melanie Klein já estava analisando em seu trabalho clínico o efeito inibidor das fantasias agressivas. Quando escreveu “Uma contribuição à teoria da inibição intelectual”, em 1931, o sadismo já tinha ocupado o lugar da libido no centro de uma nova explicação para a inibição intelectual.
Esse artigo também mostra como a nova técnica de brincar fornecia uma grande quantidade de material que ilustrava as fantasias da criança e a significação simbólica de cada aspecto da vida escolar. De fato, isso leva Melanie Klein à conclusão geral de que todas as atividades têm uma significação simbólica.

KLEIN, Melanie. AMOR, CULPA E REPARAÇÃO e outros trabalhos (1921 - 1945)

2
INIBIÇÕES E DIFICULDADES NA PUBERDADE
Nota explicativa da Comissão Editorial Inglesa


Melanie Klein ignorou este artigo depois de sua publicação; não o traduziu para o inglês a fim de inclui-lo no livro que reunia seus ensaios. Seus motivos para isso são desconhecidos, mas esse artigo não apresenta nenhuma das características próprias de seu pensamento, nem o denso raciocínio típico de suas outras obras desse período.

KLEIN, Melanie. AMOR, CULPA E REPARAÇÃO e outros trabalhos (1921 - 1945)

A criação do mundo não terminou até que P'an Ku morreu. Somente sua morte pôde aperfeiçoar o Universo: de seu crânio surgiu a abóbada do firmamento, e de sua pele a terra que cobre os campos; de seus ossos vieram as pedras, de seu sangue, os rios e os oceanos; de seu cabelo veio toda a vegetação. Sua respiração se transformou em vento, sua voz, em trovão; seu olho direito se transformou na Lua, seu olho esquerdo, no Sol. De sua saliva e suor veio a chuva. E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu a humanidade.

mito chinês (século III)

GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo. Companhia de Bolso.

Thursday, September 07, 2006

A Pluma e o Vento


O poderoso vento vagava pelo mundo mexendo com todos à sua passagem.
Balançava as árvores, soprava os cabelos, fazia a água do lago se mover em delicadas ondinhas. Sussurrava, refrescava, dava frio... brincava de estátua!
Mas do que ele mais gostava era de ir subindo, subindo alto, cada vez mais rápido, até o cume das montanhas.
E lá em cima, onde não se ouve nada, descansava soprando o capim crescido que gosta de ondular pra lá e pra cá.
Um dia, quando já vinha voltando de um dos seus passeios na montanha, encontrou presa, numa pocinha de lama, uma pluma.
A pobrezinha se remexia, fazia força mas, tudo em vão, permanecia grudada na armadilha.
Por ajudá-la a se soltar o vento e a pluma tornaram-se amigos.
No começo eles até que se sentiram tímidos. E conversaram por monossílabos.
Mas, quando a pluma viu que já estava enxuta daquela lama preta aceitou o convite do vento e foram os dois passear.
O vento carregou a pluma, porque ela era tão leve!
Mostrou-lhe os pastos e as plantações, elevou-a mais alto que as copas das árvores, soprou pra ela ouvir uma música nos bambus e juntos, de molecagem, fizeram cócegas no nariz das crianças.
Ela foi se deixando levar, brincando, dançando no céu e foi aí que, pela primeira vez, o vento, sentindo uma vontade que ainda não havia experimentado, resolveu carregá-la até o topo da montanha.
Lá em cima, a pluma agradecida pela surpresa, convidou o vento pra dançar.
E os dois deram-se os braços e bailaram, bailaram a tarde inteira. Inventaram o passo da pirueta, deram cambalhotas, vôos rasantes, deslizaram na grama, acenaram pras aves poderosas, as únicas que alcançam o alto da montanha. E ficaram felizes.
Fim da tarde, quando os dois sentaram pra descansar, começaram a se formar lá longe no horizonte umas nuvens negras, carregadas de chuva. Vinham vindo bem naquela direção.
O vento que planejava levar a pluma para uma gloriosa noite na aldeia levantou-se imediatamente e soprou: Não!
Acontece que as nuvens já vinham em bando, inchadas de água pra despejar, soltando faíscas de tanta pressa e empurradas por um vento contrário rabugento, rugidor.
O vento não esperou nem mais um segundo. Partiu em direção das nuvens de chuva e soprou, soprou muito forte decidido a expulsá-las daquelas paragens.
O que se viu então foi uma batalha feroz.
Remexeram-se as árvores, a água do lago, as porteiras dos sítios.
O vento não queria abrir mão de seu passeio com a pluma.
As nuvens faziam questão de chover.
De tanta raiva que ficou o vento foi se enremoinhando, sentindo uma vertigem, girando, girando e virou um furacão.
À sua passagem tudo ia se arrebentando. Quebrou troncos, virou as mesas, machucou os cavalos, arrancou o telhado das casas. Uma destruição!
Quando tudo se acalmou, depois de muito tempo, foi como se as coisas todas chorassem.
O vento, ainda ofegante, lembrou-se da pluma mas ao procurar, pobre dele, nunca mais a encontrou.
Correu pelos lugares onde haviam passeado, assoviou, tocou de novo a mesma música nos bambus, olhou por baixo dos troncos derrubados, nas poças de lama, debaixo das pedras, nada. O vento e a pluma nunca mais voltaram a se ver.

História de Walter Dias recontada por Irajá Menezes

Ruína

Um monge descabelado me disse no caminho: "Eu

queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruí-
na é uma desconstrução. Minha idéia era de fazer
alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que ser-
visse para abrigar o abandono, como as taperas abri-
gam. Porque o abandono pode não ser apenas de um
homem debaixo da ponte, mas pode ser também de
um gato no beco ou de uma criança presa num cubí-
culo. O abandono pode ser também de uma expressão
que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma
palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro.
(O olho do monge estava perto de ser um canto.)
Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor
está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria
construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela
renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um
monturo." E o monge se calou descabelado.

BARROS, Manoel de. Ensaios Fotográficos