Outra (mais uma!) conversa de botequim
Escrito em 2004 e postado originalmente em irajamenezes.blig.ig.com.br
1.Escolher um partido político como o seu preferido é muito parecido com torcer por um time.
Nas fases ruins você até admite os erros, as derrotas; mas não vira a casaca.
A maior parte das pessoas que eu conheço sente-se representada por um partido.
Alguns mais organizadamente, outros menos, mas em todos dá pra perceber uma lógica, uma identificação com as bandeiras e figuras do partido.
É a isto que chamamos representatividade. Sentir-se representado por um conjunto de idéias, atitudes que o partido sintetiza. Sistematiza. Reconhecer-se nas manifestações do partido.
Como os times de futebol.
Desnecessário dizer que esta identificação se dá em níveis ao mesmo tempo racionais e emotivos. Que nós não temos consciência completa desta identificação, do caráter desta identificação.
O PT era o único partido que ainda permitia aos seus adeptos gozar o prazer de se assumir desavergonhada e publicamente; sem medo de ser feliz. Ele se pretendia puro, inviolável.
Só porque não tinha passado pelo poder.
Os PSDBistas estão se esbaldando de cobrar o purismo, o moralismo que o discurso caga-regras do PT trazia.
Fica evidente que eles mesmos não podiam exercitar aquele tipo de discurso, justamente por já haverem tantas vezes passado pelo achatamento que a administração pública impõe às ideologias.
A prática do poder deixa marcas indeléveis. Fornece provas incontestáveis. Des-moraliza.
O PT agora já não vai ter mais credibilidade para exercer a mesma retórica. Os petistas que insistiram nela foram expurgados.
As táticas de difamação eleitoreira dos oposicionistas de hoje servem para deitar luz precisamente sobre o jogo difamatório a que o PT se dedicou todos estes anos e nós petistas, nos dando por ingênuos, quisemos não ver.
Talvez agora nós todos estejamos condicionados a não mais discutir a veracidade dos discursos de campanha, quer seja da esquerda ou da direita, para nos concentrarmos na tarefa bem mais árdua de refletir sobre as implicações do poder.
2.É tipicamente brasileiro acreditar que o presidente detém grandes poderes.
O presidente tem que ser a cara do poder. Mas o poder é exercido por uma trama enorme, uma teia, uma rede que não tem começo, nem meio, nem fim; nem forma.
Deveria ser assim mesmo, só que extensível a todos e cada um dos habitantes da nação.
E aí diríamos: é a trama nacional.
Na verdade a trama acaba por restringir-se a alguns poucos que jogam um eterno jogo de lances mirabolantes e ininterruptos. Uma autêntica democracia-para-poucos, mas que exige constantes negociações, estratégias, disputas, contendas e consenso. Como em qualquer democracia.
Não ler o
Raízes do Brasil faz muita falta.
É lá que está dito, há mais de 60 anos, que o brasileiro é cordial, quer dizer, resolve tudo tomando o coração por referência. Para o bem e para o mal. Ou, "aos amigos tudo, aos inimigos a lei". No Brasil a lei é para os inimigos!
Mas é a impessoalidade da política que garante a igualdade de direitos. Não pode haver política caso a caso.
A política não pode ser resolvida como problema pessoal.
E não é.
A manutenção do funcionamento caótico e corrupto da burocracia estatal é coerente demais para que não haja nisto algo de racional. A bagunça burocrática funciona. Para determinados fins ela atrapalha, mas para outros funciona sim, e muito! É para viabilizar estes fins que ela existe e não aqueles.
Só está habilitado para a disputa eleitoral quem conhece as regras do jogo.
O grupo que chegou em 2003 ao Planalto certamente sabia que o exercício da coisa pública achata, comprime, põe tudo no mesmo plano. Não chega lá quem se contrapõe a esta realidade.
Há uma estrutura montada, ramificada por todos os estratos da sociedade e recebendo manutenção constante para que permaneça.
Esperar mudanças operadas a partir do governo é o mesmo que orar pela chegada de um iluminado que haverá de nos redimir.
As lideranças petistas que ganharam as eleições já não se propõem a posar de profetas. Ou posam cientes de que ninguém dá crédito.
Como o PSDB há anos aprendeu a ser.
Quem se manifesta chateado com o fato do PT não cumprir as mudanças que prometeu assim como quem anda se divertindo em acusar que a fala da campanha não bate com a administração, no fundo, está querendo continuar na base da cordialidade.
Já há modelos mais avançados de luta pelas transformações sociais. São modelos que perseguem a idéia de fortalecer a sociedade civil, descentralizar as decisões, aumentar a capacidade de articulação de pequenos grupos, ampliar o grau de humanização das relações, impedir a transformação de realidades específicas em dados estatísticos para catálogo.
3.Está em processo no mundo todo uma mudança que ainda não vamos conseguir aquilatar.
A Revolução Industrial de dois séculos e meio atrás inventou a produção em larga escala.
A longevidade humana aumentou, a mortalidade infantil diminuiu e o mundo, cada vez mais populoso, entrou em processo de massificação.
Os meios industriais eram todos de grande custo e com isto a fabricação de bens artesanais tendeu ao desaparecimento.
Adotamos um paradigma de objetos consumidos por grandes massas e produzidos por poucas pessoas.
Com o avanço das tecnologias alguns destes mecanismos de produção vêm se democratizando. Não é preciso mais uma fábrica para se copiar discos, por exemplo. Tampouco é preciso gastar fortunas para divulgar um produto pela Internet.
Isto gera, por exemplo, a obsolescência do conceito de "indústria de entretenimento". Fazer um filme caro passa a ser só uma das inúmeras possibilidades que um cineasta pode escolher.
O modelo de "montagem" de computadores, dominante no mercado brasileiro de informática, não poderia tornar-se factível para fornos de microondas ou geladeiras?
A mudança, pois, a que me refiro é a que consiste em poder voltar-se em direção a modos de produção artesanais para a obtenção de objetos a serem replicados indefinidamente como discos, livros, filmes, sem depender de investimentos vultosos e de grandes corporações. Embora permaneçam inúmeros produtos que só poderão ser fabricados mediante mecanismos de alto investimento, tudo leva a crer que está em curso uma disseminação generalizada do conceito de indíviduo como detentor prioritário de suas decisões. De compra, venda, vida, morte e crenças.
O terrorismo é uma faceta aberrante deste mesmo conceito. Explodir-se é uma manifestação individualista. Requer tão somente uma bomba e um homem preso a ela. Fica difícil transformar em estatística o homem-bomba. Quantos explodem por mês? São ações, por natureza, pontuais, o oposto exato da indiscriminação do pesadelo atômico, das bombas atiradas de avião ou das armas de destruição em massa.
Isto é coerente com um modo descentralizado de organização social.
O desejo de igualdade de direitos que percorre o mundo todo consolida um avanço sem precedentes na história dos ideais democráticos. Repito: ideais; mentalidade, desejo, aspiração democrática.
As propostas de manutenção de poder das elites, estas não são mais defensáveis.
Um mundo superpovoado não permite ser gerenciado a partir de um centro.
Um mundo superpovoado se impõe como teia.
É este fator estrutural que derruba a identificação com a autoridade. Não se reconhece autoridade. Ninguém está autorizado a nada.
Resultado da democratização do mundo, a "desautorização" gera também um processo de rompimento com a idéia de tradição. Campo aberto para a descrença e para o uso das instituições, agora, desautorizadas, em proveito próprio, já que ninguém se sente identificado com elas e, por conseguinte, não há quem tome conta.
Vivemos um eterno presente e, por isso, sem olhos para o futuro, como descreveu o professor Yves de La Taille. E, especificamente no Brasil, ao mesmo tempo, o "eterno retorno" à cordialidade.
Está em andamento um processo de humanização das massas. De "descoisificação" das pessoas. Um processo histórico de reconhecimento das identidades. Que acontece independente das políticas adotadas.
E há, ao mesmo tempo, o impulso gregário que os veículos de comunicação tentam alimentar, mas que as tendências de segmentação desmentem o tempo todo.
E há também, ao contrário, um tribalismo crescente. Grupos se fechando para manter seus métodos e costumes inalterados.
Joseph Campbell disse que uma mitologia para dar conta do nosso tempo, para conseguir simbolizá-lo, teria que surgir como uma mitologia planetária. A metáfora de integração de forças contrárias, típica de toda mitologia, teria o planeta como tema.
Os pequenos grupos tendem a se excluir mutuamente. É característico do grupo de gueto enxergar o outro antes como estrangeiro, estranho e, portanto, passível de ataque.
Meditar a convivência dos opostos, agora em escala planetária, é que poderia gerar novos mitos, afirma Campbell, novas compreensões.
As religiões, de certa maneira, já trazem em seus fundamentos esta vontade. O princípio de um Deus que ultrapassa barreiras e unifica humano e natureza num patamar de identificação, num cosmos.
Paradoxalmente são guerras declaradas religiosas as que estão atualmente em curso à roda toda do planeta. Guerras sectárias, guerras pelo predomínio de concepções que se pretendem excludentes.
Como fazer convergir a nova descentralização que percorre o planeta com a consciência de contexto histórico e com a possibilidade de negociação que permita acordos duradouros para o futuro?