Saturday, September 27, 2008

Atrás desse pensamento veio outro. Olhei a meia dúzia de figurinhas que ainda me seguiam. Então, num lampejo, percebi que todas se vestiam da mesma forma, tinham o mesmo rosto imberbe e delicado, as mesmas formas redondas de meninas. Pode parecer inconcebível que eu não tivesse notado isso antes. Mas tudo era tão diferente! Agora eu percebia as coisas com a maior clareza. No trajar, e em todas as características e maneiras que hoje distinguem os dois sexos, essas criaturas do futuro eram exatamente iguais. As crianças, por sua vez, pareciam-me simples miniaturas de seus pais. Disso concluí que as crianças dessa época futura eram extremamente precoces, pelo menos fisicamente, e mais tarde encontrei provas abundantes dessa opinião.

O bem-estar e a segurança em que vivia essa gente faziam certamente esperar, pensei, que os dois sexos acabassem se parecendo tanto; pois a robustez do homem e a delicadeza da mulher, a instituição da família e a diferenciação de ocupações são meras exigências de uma era de força física. Quando a população é numerosa e equilibrada, um elevado índice de nascimentos é antes um mal do que uma bênção para o Estado; quando a violência é rara e a prole está segura, há menos necessidade — na verdade, não há necessidade alguma — de uma família organizada como tal, e a especialização dos sexos com referência às necessidades dos filhos termina por desaparecer. Disso já encontramos alguns indícios em nossa própria época, e no futuro esse quadro social estará completo. Devo lembrar a vocês que essa era a especulação que eu fazia naquela hora. Porque mais tarde iria descobrir como estava longe da realidade.

H. G. Wells - capítulo 5 - A Máquina do Tempo - Tradução de Fausto Cunha


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