Tuesday, September 23, 2008

Uma questão de interesse mais grave e universal é a possibilidade de outro ataque dos marcianos. Acho que não se está a dar a devida atenção a este aspecto do caso. Actualmente, o planeta Marte está em conjunção, mas prevejo, pela minha parte, uma renovação da sua aventura em todas as oposições. De qualquer modo, devíamos estar preparados. Parece-me que seria possível definir a posição da arma que dispara os cilindros, manter em vigilância contínua essa parte do planeta e prever o início do próximo ataque.
Em qualquer caso, o cilindro poderia ser destruído com dinamite ou artilharia antes que estivesse suficientemente arrefecido para permitir a saída dos marcianos, ou poderiam ser massacrados mal se desenrascasse um parafuso. Creio que perderam uma vantagem considerável ao falhar a sua primeira surpresa. Provavelmente, encaram o problema da mesma maneira.
Lessing expôs razões excelentes para supor que os marcianos tenham conseguido, na verdade, efectuar um desembarque no planeta Vénus. Há sete meses, Vénus e Marte encontravam-se em alinhamento com o Sol; isto é, do ponto de vista de um observador de Vénus, Marte estava em oposição. Imediatamente a seguir, uma luminosidade peculiar e marcas sinuosas apareceram na parte não iluminada do planeta e, quase que ao mesmo tempo, uma débil mancha escura de características igualmente sinuosas foi detectada numa fotografia do disco marciano. É preciso observar os esboços destes fenómenos para apreciar inteiramente a notável semelhança das suas características.
De qualquer modo, esperemos ou não outra invasão, os nossos pontos de vista acerca do futuro da Humanidade devem sofrer uma grande modificação em consequência destes acontecimentos. Sabemos agora que não podemos olhar este planeta como uma fortaleza e um lugar onde o Homem poderá residir em segurança; nunca podemos prever o bem ou o mal que pode chegar de súbito até nós, vindo do espaço; é possível que nos mais latos desígnios do universo esta invasão dos marcianos se venha a mostrar benéfica para os homens: roubou-nos aquela serena confiança no futuro que é a mais fértil fonte de decadência; os dons que ofertou à ciência humana são enormes e contribuiu grandemente para promover a concepção da comunidade humana. É possível que os marcianos, através da imensidade do espaço, tenham observado o destino destes seus pioneiros, tenham aprendido a sua lição e que tenham achado no planeta Vénus uma colónia mais segura. No entanto, seja como for, não haverá decerto, durante muitos anos, afrouxamento do exame ansioso do disco marciano e aquelas setas ígneas do céu, as estrelas cadentes, trarão com elas, ao caírem, um temor inevitável a todos os filhos do Homem.
O alargamento das concepções do homem que daqui resultou não podia ser maior. Antes da queda do cilindro, havia uma convicção generalizada de que nas profundezas do espaço não existia vida, salvo na superfície insignificante da nossa diminuta esfera. Agora vemos mais longe. Se os marcianos podem alcançar Vénus, não há razões para supor que os homens o não possam fazer e, quando o lento arrefecimento do Sol tornar a Terra inabitável, como deve acontecer por fim, é provável que a corrente de vida que aqui brotou transborde e capture o nosso planeta irmão nas suas redes.
É confusa e maravilhosa a visão que imaginei da vida a expandir-se lentamente deste pequeno leito do sistema solar, através da vastidão inanimada do espaço sideral. Mas é um sonho longínquo. Por outro lado, pode ser que a destruição dos marcianos seja apenas uma trégua. O futuro destina-se a eles, talvez, e não a nós.
Devo confessar que o perigo e a tensão daquela época deixaram na minha mente uma duradoura sensação de dúvida e de insegurança. Estou sentado no meu escritório, a escrever à luz do candeeiro e, de súbito, vejo novamente, lá em baixo, o vale a arder em chamas bruxuleantes, e sinto atrás de rnim e à minha volta a casa vazia e abandonada. Saio para a Byfleet Road e os veículos passam por mim, o rapaz de um talho numa carroça, um cabriole cheio de visitantes, um operário numa bicicleta, crianças a caminho da escola e, bruscamente, tudo se torna vago e irreal e eu corro de novo, com o artilheiro, através do silêncio abafado de uma atmosfera tempestuosa. De noite, vejo a poeira negra escurecendo as ruas silenciosas, e os corpos contorcidos, amortalhados por aquela coberta, erguem-se diante de mim rasgados e mordidos pelos cães. Por fim algaraviam e enfurecem-se, mais lívidos, mais medonhos, loucas distorções de homens, e eu acordo, gelado e triste na escuridão da noite.
Vou para Londres e vejo as multidões atarefadas em Fleet Street e no Strand, e imagino que são apenas os fantasmas do passado, assombrando as ruas outrora silenciosas e abandonadas, andando de aqui para ali, fantasmas numa cidade morta, o arremedo de vida num corpo galvanizado. E também é estranho deter-me em Primrose Hill, como o fiz no dia anterior àquele em que escrevi este último capítulo, a ver o grande número de casas, escuras e azuladas, através do fumo e do nevoeiro, desvanecendo-se finalmente num vago céu mais baixo, ver as pessoas andar de um lado para o outro entre os leitos de flores da colina, ver os excursionistas perto de uma máquina marciana que ainda se encontra ali, ouvir a algazarra das crianças a brincar e recordar o tempo em que vi isto tudo brilhante e distinto, opressivo e silencioso, na alvorada daquele último grande dia...
E o mais estranho de tudo é apertar de novo a mão da minha mulher e pensar que a julguei, como ela me julgou, entre os mortos.

H. G. Wells - Epílogo - A Guerra dos Mundos

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