Saturday, January 03, 2009

Só depois de 1860 [...] define-se na Inglaterra o conjunto de práticas em que se incluem não só o futebol e o rúgbi, mas a corrida de cavalos, o atletismo, o tênis, o remo, a luta livre e o boxe - regidos estes últimos, agora, por regras que controlam o tempo da luta, a equivalência de peso entre os oponentes e a violência dos golpes. Trata-se de uma completa recodificação das formas de disputa física envolvendo força, velocidade e domínio da bola - tendo ganho esta, então, a sua inédita autonomia. Os jogos e lutas passam por um processo de "esportivização", e seu vocabulário técnico, todo em inglês, está para os esportes como o da língua italiana está para a música.

Não é despropositado falar de um retorno do reprimido, no qual as pulsões envolvidas nos jogos de bola ganham uma configuração inteiramente nova. Se a regulamentação geral da vida, com sua monotonia, exigiu passatempos esportivos por meio dos quais o novo regime de civilidade recebe uma injeção de frisson e de excitação, eles são protegidos desde dentro, e por princípio, do perigo de degenerarem em distúrbios e choques descontrolados. Os esportes atiçam o interesse pela vitória, ao mesmo tempo em que prolongam o prazer da disputa e o regulam por uma nova ética desportiva. As refregas descontroladas tornam-se objeto de uma representação lúdica que colocará o esporte no lugar de um espetáculo regido por regras internas e oferecido ao gozo das platéias. Práticas tradicionais e assumidamente violentas são convertidas agora na representação de um ato a ser desfrutado pela sua capacidade de atingir clímax e relaxamento, de estender artificialmente a tensão da disputa até atingir deu desenlace catértico, e de se oferecer, assim, a uma espécie de contemplação estetizada. [...] Garantir a justa medida de tensão agradável e emoção prazenteira pela batalha fingida, sem produzir danos, é o cerne dessa forma de "figuração".

Estamos longe, evidentemente, do rito assumido, do sacrifício ou da troca recíproca projetada como função reguladora da violência e compartilhada como festa e luta, em que o jogo é ofertado ao todo. Agora, o monopólio da violência pelo Estado, atado à Lei, rege a concorrência e tem como horizonte controlar todas as dimensões da expressão vital - o todo rege o jogo. O custo da violência constitutiva da vida social, com sua trama de inclusões e exclusões, ganha outro aspecto, em que a ritualização se recalca, se sublima, mas também retorna a ponto de desvelar seu núcleo mais profundo. O jogo de bola, talvez mais do que qualquer outra coisa, mantém contato com essa história oculta.

[...] Tudo isso, no entanto, num tempo em que a reciprocidade ritual arcaica, revirada em concorrência contratualizada, deixou de ser a lei expressa que concerta a violência social e passou a um plano oculto, ou recessivo. No império das trocas reguladas ou desreguladas do mercado, sobram os times, as torcidas, as rivalidades agressivas e festivas que não conseguem se explicar simplesmente por uma oposição de classe sociais e ideologias, mas que marcam uma efetuação daquela alteridade hostil e festiva como constitutiva das identidades grupais e individuais.


José Miguel Wisnik- Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil. Soule - Capítulo o2 - A Quadratura do Circo: a invenção do futebol

No comments: